Mostrar mensagens com a etiqueta Branford Marsalis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Branford Marsalis. Mostrar todas as mensagens

15/10/2018

Balanço do ano - Jazz


PÚBLICO 4 JANEIRO 2003
JAZZ
2002

>> Balanço do ano

2002 foi ano de grande jazz em português. A nova editora Clean Feed deu o mote, lançando para o caldeirão dois clássicos instantâneos, com as assinaturas de Carlos Barretto e Bernardo Sassetti. Lá fora, o "free", o "pós-free" e o que virá a seguir rivalizaram com manifestos de afirmação por alguns dos clássicos eternos, num ano que foi também de boas reedições. À frente de todos pusemos o disco, dos Spring Heel Jack, que mais tem dividido as opiniões. Prova de que, afinal, o jazz conserva intacto o dom de provocar.

01 |
Spring Heel Jack Amassed (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Saído das mentes distorcidas, mas livres e visionárias, de dois homens que não faziam parte do jazz – John Coxon e Ashley Wales –, "Amassed", depois do ensaio prévio que é "Masses", revolucionou os parâmetros do jazz eletrónico, samplando o que, no passado, pertencera ao domínio do analógico nas visões orquestrais de George Russell ou nas pulsações barrocas do "Synthesizer Show" montado por Paul Bley e Annette Peacock, numa catedral de alucinações que serve de suporte à "free music" remodelada em espiral de loucura por alguns dos seus expoentes – Evan Parker, Han Bennink, Paul Rutherford, Matthew Shipp e Kenny Wheeler. Se até o "bebop", por altura da sua génese, foi considerado o "fim do jazz", e Coltrane vaiado como uma farsa, como não conceder igualmente aos SHJ essa suprema honra de provocar em doses iguais a paixão e a repulsa?

02 |
Gianluigi Trovesi Dedalo (Enja, distri. Dargil)
Celebração orquestral com a WSR Big Band alemã, Markus Stockausen (trompete), Fulvio Maras (percussão) e Tom Rainey (bateria), "Dedalo" recupera o clássico "From G to G", remontado-o num labirinto onde se cruzam os caminhos do "vaudeville", Zappa, Ellington, Gil Evans, Don Ellis, jazz progressivo e jazzrock, moídos, destilados e incendiados por uma imaginação delirante. O homem é um feiticeiro.

03 |
Dave Holland Big Band What Goes Around (ECM, distri. Dargil)
Alguma da música "antiga" deste notável contrabaixista é aqui tornada matéria de novos "standards" pessoais, em formato de "big band" a dar mais volume e cor ao habitual quarteto que tem acompanhado Holland nas suas últimas realizações para a ECM. Enriquecimento e desafio numa proposta de criação de um território instrumental onde leitura, arranjos e improvisação se confundem.

04 |
Carlos Barretto Trio Radio Song (ed. e distri. CBTM)
Enquanto solista, voz dialogante ou peça de suporte, Barretto confirma a maturidade e a segurança dos seus recursos técnicos, num álbum de múltiplos matizes que conta com a mais-valia do músico francês Louis Sclavis.

05 |
Bernardo Sassetti Nocturno (Clean Feed, distri. Trem Azul)
Gravado em ambiente de "verdadeira magia" na Quinta de Belgais, "Nocturno" é uma incursão impressionista nos meandros mais íntimos do piano. Como Bill Evans, Sassetti cria a partir da célula e a partir dela inventa a noite.

06 |
Wayne Shorter Footprints Live! (Verve, distri. Universal)
Trata-se, por incrível que pareça, do primeiro álbum ao vivo deste notável executante dos saxofones tenor e soprano, antigo "sideman" de Miles e cabeça falante dos Weather Report. Impressiona a energia e o lirismo de uma música que alia a investida inquisitiva a uma delicadeza sem limites. Uma pegada impressa com a força de um "statement".

07 |
Joe Giardulo, Joe McPhee, Mike Bisio, Tani Tabbal Shadows and Light (Drimala, distri. Trem Azul)
Um lento avolumar de tensões e incandescências em que o jazz "apodrece", para das suas cinzas se erguer a fénix renascida. O tenor de McPhee gasta-se, corrói, cria andaimes e poços. Giardulo é o nevrótico de serviço. "Shadows & Light" tenta apanhar o além, o dia seguinte ao da catástrofe. E consegue.

08 |
Roscoe Mitchell & The Note Factory Song for My Sister (Pi, distri. Trem Azul)
Aos 62 anos o multinstrumentista prossegue os estudos fora da selva de mitos dos Art Ensemble of Chicago. Numa conjugação mais formalista do "free" (abrangendo mesmo uma faceta didáctica) com os rituais remanescentes dos AEC, a música ganha alento numa imensa viagem pelos limites do jazz.

09 |
Branford Marsalis Footsteps for our Fathers (Marsalis Music, distri. Trem Azul)
Cruzamento, ou não, como alguém disse, entre "um 'cartoon' de Disney e um pregador evangélico", o sopro de Marsalis aventura-se em refazer a totalidade de "The Freedom Suite", de Sonny Rollins, e "A Love Supreme", de Coltrane. Sobrevive incólume. Mais: acompanha o espírito daqueles dois génios.

10 |
Andrew Hill A Beautiful Day (Palmetto, distri. Trem Azul)
Sessão ao vivo no Birdland na companhia de Marty Ehrlich e uma "big band", "A Beautiful Day" é um dia perfeito na mais recente produção pianística de Hill, um dos eleitos que soube unir o bop à vanguarda.

11 |
Mark Dresser Trio Aquifers (Cryptogramophone, distri. Sabotage)
"Aquifers" faz a transcrição musical dos fluxos de água subterrâneos que fertilizam o planeta. "Acumulação", "trânsito" e "libertação" funcionam como metáforas telúricas da circulação de frequências, modulação de timbres e planificação de texturas assimétricas cuja energia parece provir, de facto, dessa matriz aquática que alimenta a Terra.

12 |
Billy Cobham The Art of Three (In & Out, distri. Dargil)
Surpresa, ou talvez não, esta categórica afirmação da arte do trio piano-baixo-bateria pelo baterista jazzrock que, depois da aprendizagem com Miles, ajudou a criar o mito Mahavishnu Orchestra. Tem a seu lado comparsas de luxo: Ron Carter, no baixo, e Kenny Barron, no piano, este último um prodígio de subtileza e capacidade de voo.

13 |
Mat Maneri Sustain (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Mais ferrugem da boa. Outro prego cravado no crâneo do "mainstream". Discípulo de Ornette e Stuff Smith, Maneri arranca com o seu violino a carapaça à música improvisada em aliança perigosa entre electrónica, jazz vertigem e uma permanente dialéctica entre o silêncio e o caos.

14 |
Charles Lloyd Lift Every Voice (ECM, distri. Dargil)
Lloyd, o asceta encantado pelo budismo, deixa atrás de si um rasto de paradoxos. Desde sempre arreigado a uma visão mística da música, "Lift Every Voice" perdeu entretanto o grito libertário dos primórdios, para se concentrar em mantras e no Grande Espírito onde ardia John Coltrane.

15 |
Tom Harrel Live at the Village Vanguard (Bluebird, distri. BMG)
Eleito em 2001 pela "Down Beat" "compositor do ano", Harrell distribui vitalidade, clareza e extroversão. A sua trompete, iluminada pela tradição de Blue Mitchell e Clifford Brown, não ilude porém uma tristeza que em "Where the rain begins" lateja como uma ferida mal sarada.

Discos de 2001 ouvidos em 2002 merecedores de figurarem no top:

Dave Douglas Witness (RCA, distri. BMG)
Dave Holland Not for Nothin' (ECM, distri. Dargil)
James Emery, Joe Lovano, Judi Silvano, Drew Gress Fourth World (Between the Lines, distri. Ananana)
Louis Sclavis L'Affrontement des Prétendants (ECM, distri. Dargil)
Myra Melford & Marty Ehrlich Yet Can Spring (Arabesque, distri. trem Azul)
Steuart Liebig Pomegranate (Cryptogramophone, distri. Sabotage)

REEDIÇÕES:

Ella Fitzgerald Whisper Not (Verve, distri. Universal)
Gerry Mulligan Village Vanguard (Verve, distri. Universal)
John Coltrane Legacy (Impulse, distri. Universal)
Nina Simone Nina Simone and Piano! (RCA, distri. BMG)
Paul Bley, Jommy Giuffre, Steve Swallow The Life of a Trio - "Saturday" e "Sunday" (Owl, distri. Universal)
Sam Rivers Crystals (Impulse, distri. Universal)

19/09/2016

Ouvidos sedentos [Branford Marsalis Quartet + William Parker + Mat Maneri + Myra Melford & Marty Ehrlich]

JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 21 DEZEMBRO 2002

Quatro exemplos que provam que a vanguarda não roeu a corda. A tradição está lá, E o prazer.

Ouvidos sedentos

A fotografia tem a mesma luz, os mesmos tons de pôr-do-Sol-melaço do último e decorativo álbum de Charlie Haden (“American Dreams”), mas as semelhanças ficam-se por aqui. Em “Footsteps of our Fathers”, o saxofonista tenor e soprano puxa pelos galões e assina um dos seus melhores trabalhos dos últimos anos. Quatro versões: “Giggin’”, de Ornette Coleman, “Concorde”, de John Lewis, pianista do Modern Jazz Quartet e, sobretudo, dois “tours de force” do jazz moderno, “The Freedom Suite”, de Sonny Rollins, e “A Love Supreme”, de John Coltrane.
                Se na leitura de Ornette a clareza do timbre e a agilidade discursiva se sobrepõem aos subterfúgios e ênfases do autor de “The Shape of Jazz to Come”, dando razão a quem descreve os solos de Branford neste tema como “um cruzamento entre um grande orador, um ‘cartoon’ de Disney e um pregador evangélico” e “Concorde” paira com a mesma graciosidade e o “swing” europeu típicos dos MJQ, é nas duas “suites”, executadas na totalidade, que o saxofonista se redime de anteriores concessões ao “mainstream de mercado”. Branford não é o inventor infatigável e instintivo que era Sonny Rollins (pode ser difícil conciliar a cultura com o instinto…), optando por examinar em detalhe o espectro emocional de “The Freedom Suite” (1958). Espantosa a forma como, à maneira de Rollins, altera o grão e a intensidade do tenor no interior de um mesmo desenvolvimento melódico/harmónico.
                “A Love Supreme” é mais problemático. Obra maciça que apenas faz sentido na economia individual de Coltrane, é, acima de tudo, uma via. Branford distinguiu nela a espiritualidade, evitando paroxismos (inevitáveis em Coltrane) que soariam a truque de ilusionismo. Ou, como o Quixote de Pierre Ménard, igual e diferente ao de Cervantes, reescreveu a mesma obra, nota a nota, porem fazendo-a genuinamente sua. O “amor supremo” de Branford Marsalis é o mesmo e outro, em comparação com o de Coltrane. Joey Calderazzo, ao piano, é que, manifestamente, não é McCoy Tyner…

Chuva de contrabaixo
                Na editora Thirsty Ear (“ouvido sedento”) trabalha-se bem. A “Amassed”, dos Spring Heel Jack, candidato fortíssimo a melhor álbum do ano, juntam-se “Raining on the Moon”, de William Parker, e “Sustain”, de Mat Maneri. O primeiro é uma declaração orgulhosa do contrabaixo. Parker é herdeiro de Mingus e isso nota-se. Cada nota é um manifesto. Cada solo, uma ideologia. Enunciada em detalhe, quase com desfaçatez. Rob Brown, no sax alto, e Louis Barnes, na trompete, exemplificam a liberdade de muito do jazz contemporâneo, dialogando ou combatendo em todos os territórios disponíveis, do “free” à “downtown”, da balada parkeriana ao cabaré. Leena Conquest, cantora convidada, não escapa ao “cliché”, faltando-lhe a profundidade das grandes vozes. Compensa com a variedade e faz de MC, no título-tema. É ela o elo fraco de um álbum que, de outra forma, subiria mais alguns furos.

Violino-gato
                William Parker participa em “Sustain”. Aqui, todavia, não há espaço para as famílias conversarem em redor da tradição. É provável que Leena Conquest fugisse esbaforida ao escutar os sons “esferovite a raspar no vidro” que Mat Maneri arranca do violino, no tema de abertura. Mat é discípulo de Ornette (daí o estilo “gato”, arranhado e assanhado) e Stuff Smith (o “swing”), aluno da escola libertária aberta por Leroy Jenkins e frequentada por caloiros como Philip Wachsmann, na formatação de um estilo onde o jazz, a eletrónica e a nova música improvisada são pilares de uma estrutura ao mesmo tempo firme e mutável. “Sustain” é uma construção em progresso, sobreposição de tensões (nos saxofones está Joe McPhee…) e de módulos, cuja articulação nunca se faz de forma evidente. Evidência não é, de resto, critério válido senão para a filosofia. Diga-se antes incandescência, precariedade, perigo, caminhada, por vezes aparentemente discordante, mas sempre com os olhos postos no todo. “Alone” surge cinco vezes como título, mas é no esforço de unificação e no encontro dos cinco músicos – além de Parker, McPhee e do líder, também Gerald Cleaver, na bateria, e Craig Taborn, nos teclados: a quem se deve um solo de piano a céu aberto, em “Alone (construct)” – que a solidão se sublima.
                Parker e Maneri fazem descer os arcos aos abismos, em “Alone (unravel)”, “drone” telúrica de baixos, “Nerve” conta com um McPhee ao mais alto e psicótico nível. Em “Divine”, o som do coletivo emerge do magma, da angústia para a nota superior, que, finalmente, se faz ouvir, luminosa… Apanhá-la pode não ser tarefa fácil para os que receiam as alturas ou desconhecem as técnicas de alpinismo…

Momentos a dois
                Gravado há dois anos e editado no ano passado, “Yet Can Spring” junta duetos de Myra Melford (piano) com Marty Ehrlich (saxofone alto, clarinete e clarinete baixo). Ehrlich já fizera parte do Extended Ensemble da pianista, por sua vez outrora elemento da AACM de Chicago. Seja nas composições originais, em novas versões de faixas já incluídas em “Above Blue” e “Sojourn” (para a editora Tzadik, de John Zorn), numa composição da “artista pop que tem vergonha de o ser”, Robin Holcomb, ou num “blues” de Otis Spann, a comunicação é perfeita. Myra, fraseado limpo e afirmativo, sem poluentes, consegue ser raiz e flor. Afasta-se para tão longe até roçar a citação prog-clássica, em “Here is only moment” (que consegue apanhar as notas de um tema dos Genesis?)
                Ehrlich vai do desprendimento a uma concentração sobrenatural, ora gritador, ora fonte incessante de melodias. Fúria e comoção. Nele o intelecto comanda. Ou era o que se poderia pensar, tendo em conta o exemplo dado por muitos dos seus álbuns a solo. Norma quebrada por culpa da pianista, que, a cada momento, lhe puxa o tapete debaixo dos pés para logo lhe estender novas plataformas de escuta e entendimento. Ehrlich surpreende-se, “foge” para o monólogo, enreda-se em modulações multidimensionais. A forma como Myra lhe lança as coordenadas certas e ele as aproveita, em “The natural world”, a par da balada “Yellow are crowds of flowers, I”, contrasta pela serenidade. E, não sei se sabiam, mas Myra e Marty sabem dos “blues”. Ouçam-nos a baloiçar em “Don’t you know”, de Otis Spann. De rebolar de prazer.


Branford Marsalis Quartet
Footsteps of our Fathers
Marsalis Music, distri. Dargil
8|10

William Parker
Raining on the Moon
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
7|10

Mat Maneri
Sustain
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
8|10

Myra Melford & Marty Ehrlich
Yet Can Spring
Arabesque, distri. Trem Azul
8|10