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31/01/2019

Orquestra Victor Jara [13º Festival Intercéltico do Porto]


CULTURA
SÁBADO, 5 ABR 2003

C r í t i c a M ú s i c a

Orquestra Victor Jara

Brigada Victor Jara + Shantalla
PORTO Coliseu dos Recreios
Quinta dia 3, às 21h30
Meia sala

Não correu de feição a estreia no palco principal do Coliseu dos Recreios da banda irlandesa Shantalla, a abrir a 13ª edição do Festival Intercéltico do Porto, perante pouco público e com o azar e o clima de crise a fazerem-se sentir. Helen Flaherty, a fotogénica cantora do grupo, não esteve presente, devido à morte do pai, sendo substituída à última hora por Niamh Parsons, que o Intercéltico já acolhera como cantora dos Arcady.
            Niamh não teve culpa. Voz e sensibilidade à altura, defendeu-se da notória falta de ensaios, optando por vocalizações “a capella”, ou com o apoio cauteloso da guitarra de Joe Hennon e as tímidas pontuações decorativas do violino de Kieran Fahy e o acordeão de Gerry Murray. Foi, porém, no desempenho instrumental que os Shantalla desiludiram, não fazendo jus às capacidades que dão a entender no belíssimo álbum “Seven Evenings, Seven Mornings”.
            Michael Horgan, que no disco faz maravilhas, aparentou ser um executante vulgar nas “uillean pipes”, embora tenha ficado a ideia de uma amplificação deficiente do instrumento. O palco enorme do Coliseu confirmou, por outro lado, estar longe de proporcionar a intimidade de um “pub”... Os músicos e as notas pareceram desligados, faltou alegria, com o público a reagir automaticamente aos apelos à dança e aos apartes que entraram na rotina, das referências ao álcool ao “peço desculpa mas o meu português é muito fraco” da praxe. Difícil filtrar o ar da tristeza do tempo...
            Na primeira parte a Brigada Victor Jara surpreendeu. Arrancada a um estado de letargia que ameaçava conduzir a banda para o estatuto de “velha glória” resignada a receber o “prémio de carreira”, a música readquiriu uma vitalidade e um sentido de urgência que o recente álbum ao vivo não fazia prever. O palco encheu-se de 19 músicos, incluindo uma secção de metais dirigidos pelo trompetista Tomás Pimentel e quatro gaiteiros galegos dirigidos por Xosé Gil Rodrigues. Muita gente numa ameaça de confusão que nunca aconteceu, graças à liderança forte do violino, cada vez mais depurado e classizante, de Manuel Rocha, e dos teclados de Ricardo Dias, a quem a Brigada Victor Jara deve muita da atual fase de renovada pujança e criatividade.
            Entre um reportório constituído por cinco originais a incluir no próximo álbum – “Dailadou”, “Caracol”, “Durme”, “Lenga lenga” e “Meninas vamos à murta” – e temas antigos como “Menino Jesus”, “Mi morena” e “Bento airoso”, submetidos a arranjos originais, destacaram-se uma épica “Cantiga bailada”, repetida no “encore”, com a Brigada transformada em orquestra de folk progressivo, e o inesquecível desempenho vocal de Catarina Moura, em “Durme”, tema da tradição sefardita a exigir concentração, afinação e emotividade sem falhas, que teve na cantora uma intérprete de exceção. A forma como resolveu a transição de tom no final de uma das frases provocou arrepios.
            O Intercéltico termina hoje com atuações da cantora galega Mercedes Péon e da superbanda irlandesa Altan.

EM RESUMO
No confronto Portugal-Irlanda, uma renovada Brigada Victor Jara derrotou os Shantalla desfalcados da sua cantora habitual

16/02/2018

Semear para colher, no Porto [7º Festival Intercéltico do Porto]


cultura TERÇA-FEIRA, 2 ABRIL 1996

Brigada Victor Jara e Arcady fecham com chave de ouro as portas do Intercéltico

Semear para colher, no Porto

A colheita do Porto Intercéltico proporcionou, no terceiro e último dia do festival, um Iranda “vintage” e um reserva coimbrã B.V.J. Aos produtores Arcady e Brigada Victor Jara se deve uma das melhores provas deste ano. “Many Happy Returns” e “Danças e Folias” foram os derradeiros brindes célticos a uma cidade que soube fazer a festa.

Boa, média, excelente. A qualidade da música pode variar. Mas o que permanece, o que cria raízes e lavra a terra onde a música cresce, até ser floresta, é o que resulta da aliança entre o amor e o trabalho. Lição que ficou, terminado mais um Intercéltico. Os espetáculos fazem vibrar, uns mais, outros menos, mas é no recolhimento de uma conferência, no calor de uma conversa ou na troca de um disco que a onda de fundo se propaga.
            No domingo, dia de fecho da sétima edição do Intercéltico, os portugueses Brigada Victor Jara trouxeram ao Porto a festa e a multiplicidade de um país musicalmente riquíssimo. Pregões, pauliteiros, baladas e danças, troca de sons e de culturas, convidados – uma cantora galega, Raquel, o telurismo dos Açores, no teatro visceral de Zeca Medeiros, Tomás Pimentel, no fliscorne, Dudas, na guitarra, André Sousa Machado, nas percussões – uma paleta de timbres e de emoções fruto uma atividade que já leva anos de existência, criaram a folia e a ternura. O Porto tributou-lhes merecida homenagem, chamando-os ao palco, no final de uma atuação ao nível da que alcançaram no dia de aniversário no S. Luiz, para dois encores e um interminável aplauso.
            Como vai sendo habitual, coube aos irlandeses a honra de dar a volta à chave de fecho do festival. Nos antípodas da loucura rockeira demonstrada no ano passado pelos Four Men & A Dog, os Arcady representaram a Irlanda profunda. Sem cedências, obrigando o público a entrar a pouco e pouco na sua teia de “jigs” e “reels”. Até à rendição. Baseados no reportório do seu novo álbum, “Many Happy Returns”, estenderam um tapete onde a exuberância dos compassos de dança abriu alas ao canto de uma grande senhora chamada Niamh Parsons. Mesmo adoentada, Niamh cantou por três vezes “a capella”, estarrecendo uma plateia que soube sentir o sagrado e por isso lhe concedeu a dádiva do silêncio. Da escuta em catedral. Jacky Daly, no acordeão, e Johnny “Ringo” McDonagh, no “bodhran”, tocaram como verdadeiros mestres que são. Em vez de arriscarem dar cabo da caixa de velocidades, preferiram a aceleração em suavidade. Sem ser empurrado, ao ritmo de passeio, quando se deu conta, o Terço estava no meio de uma corrida de Fórmula Um. A espiral intercéltica de De Danann – Dervish desenrolou mais uma volta com os Arcady.
            E vamos ao balanço do Festival. Para não ficarmos atrás dos prémios que o Intercéltico decidiu este ano, pela primeira vez, atribuir, resolvemos também nós apresentar um Quadro de Honra para os melhores “celtas” de 1996. Recebem este louvor: Público do Porto – pela sensibilidade e conheciemento de que deu mostras. Uma das maiores ovações dos festival foi para uma vocalização “a capella” da cantora dos Arcady, o que diz tudo. Niamh Parsons – arquétipo da arte vocal feminina na Irlanda. A sua voz cura as maleitas da alma. Carlos Nuñez – o génio que pairou nas alturas. Gaiteiros de Lisboa e Brigada Victor Jara – por provarem que a música de um país pode ser maior do que esse mesmo país. Delegação galega – vieram com a sua cultura, os seus instrumentos musicais, a sua vontade de intercâmbio e de diálogo. O eixo Porto - Vigo torna-se, dia após dia, mais forte que o de Porto - Lisboa… Atividades paralelas – é assim que se criam raízes e se faz nascer paixões. Organização – como de costume, impecável. Mundo da Canção e Câmara do Porto, nas respetivas competências, teimam em fazer-nos felizes.
            A desilusão pertenceu aos Strobinell. Não saíram da casca. Corresponderam às expetativas as Värttinä, uma língua de fogo que varreu o Terço, e os Arcady, por tudo o que atrás ficou dito.
            Semear para colher. O mais importante de tudo foi ouvir, ao longo dos três dias do festival, jovens perguntando onde se pode comprar e quanto custa uma gaita-de-foles. Ama e faz o quiseres, dizia Santo Agostinho.

19/12/2016

O festival da revolução [Cantigas do Maio]

SEXTA-FEIRA, 28 MAIO 1999 cultura

X Cantigas do Maio começam hoje no Seixal

O festival da revolução

Com os prodígios dos violinos dos JPP e da "trikitixa" de Kepa Junkera, o festival Cantigas do Maio arranca hoje na Fábrica Mundet, no Seixal. No ano da celebração em conjunto do seu 10º aniversário e do 25º da revolução de Abril. Um programa de luxo onde vão estar presentes alguns dos revolucionários da "world music" atual.

Depois do concerto inaugural, ontem no Fórum Cultural, com as polifonias vocais dos Camponeses de Pias e dos Tavagna, da Córsega, o Festival Cantigas do Maio prossegue esta noite, às 22h, nas antigas instalações da Fábrica Mundet, no Seixal, com os JPP da Finlândia, e os portugueses Brigada Victor Jara. Comandados por Arto Järvelä, guru da nova folk finlandesa, e Timo Alakotila, também pianista de jazz e conceituado compositor e arranjador, os JPP (Järvelän Pikku Pelimannit, os "Pequenos músicos folk de Järvelä") constituem um dos melhores exemplos da música que, nos últimos anos, tem sido produzida sob a égide da Academia Sibelius, em Helsínquia, famosa pela sua escola violinística.
            Os JPP representam o apogeu desta arte que recria de forma admirável as polskas tradicionais com um rigor e virtuosismo instrumental próprios da formação clássica dos seus elementos, juntamente com uma indisfarçável tendência para liberdades formais que devem tanto ao jazz como ao rock. Os JPP contam nas suas fileiras com quatro violinistas (além de Järvelä, o seu sobrinho Mauno Järvelä, Matti Mäkela e Tommi Pyykönen), Timo Alakotila, no órgão de pedais, e Timo Myllykangas, no contrabaixo. Entre outras obras de audição obrigatória deste grupo que lidera o movimento de renovação da folk finlandesa apontem-se "Pirun Polska", "Kaustinen Rhapsody" e o novo "String Tease", com a colaboração dos suecos Väsen, presentes na edição do ano passado do Cantigas do Maio, o mesmo acontecendo com Arto Järvelä e Timo Alakotila que atuaram como acompanhantes da sua compatriota e virtuosa do acordeão, Maria Kalaniemi.
            Mergulhando fundo as raízes na ruralidade e nas recolhas de Giacometti, a Brigada Victor Jara apresentará a sua particular fusão de sonoridades tradicionais de várias regiões de Portugal, num concerto que deverá ter por base o seu último álbum, "Danças e Folias" (já com quatro anitos em cima...) com a dinâmica adicional que decerto lhe imprimirá a voz de Minela, que tem acompanhado o grupo nas suas últimas atuações.

O que é a “txalaparta”?

            No sábado, a tenda montada nas antigas instalações da Fábrica Mundet receberá o grupo do acordeonista basco Kepa Junkera e o combo dos ciganos romenos Fanfare Ciocarlia.
            Junkera é um prodigioso executante da trikitixa (acordeão diatónico, em basco). Como Valentin Clastrier (e dois dos seus discípulos mais iluminados, Nigel Eaton e Gilles Chabenat), na sanfona, ou Carlos Nuñez e Xosé Manuel Budiño, na gaita-de-foles, Junkera inclui-se na classe dos revolucionários, dos eternamente insatisfeitos para quem os respetivos instrumentos não têm limites. Rodeado de estrelas da cena folk internacional, como acontece no seu álbum mais recente, "Bilbao 00:00h", ou ao vivo, como na espantosa amostra apresentada há um par de meses no auditório da FNAC em Lisboa, Kepa é um espetáculo que vale tanto pelo virtuosismo como pela ousadia dos seus arranjos para o reportório tradicional basco. Muita atenção aos dois – como manda a praxe – executantes da txalaparta. Quem não sabe do que se trata ficará de boca aberta quando a madeira se fizer ouvir...
            Também como manda a praxe nisto dos festivais de música folk, a noite terminará em festa. Com a fanfarra e a alegria contagiante de um grupo de ciganos provenientes da Roménia, os Fanfare Ciocarlia, a despertar-nos da agonia dos Balcãs, numa roda de tubas, trompas, clarinetes e bombos.
            Além dos concertos, o festival propõe uma série de atividades paralelas que vão do teatro de rua a exposições de pintura e artesanato. Como é que se consegue reunir um cartaz com a qualidade destas Cantigas do Maio (lembremos que no próximo fim-de-semana haverá concertos dos La Bottine Souriante, Milladoiro, Yungchen Lhamo e Susana Baca)? Com a capacidade organizativa da Associação José Afonso e um orçamento de 29.500 contos repartido pela Câmara Municipal do Seixal (10 mil de subsídio direto mais 12.500 em pagamento de faturas), a Região de Turismo da Costa Azul (4000 contos) e o Ministério da Cultura (2500 contos). Orçamento que, segundo a organização, tem crescido todos os anos "um bocadinho". Cerca de 10 por cento, correspondente a um aumento da mesma ordem dos 'cachets' dos artistas: "Estamos sempre a ampliar a iniciativa."

28/11/2016

Kalinka, o mistério da voz [FMM Sines]

CULTURA
SÁBADO, 28 JUL 2001

Kalinka, o mistério da voz

MÚSICAS DO MUNDO TERMINA HOJE EM SINES

A búlgara Kalinka Vulcheva desceu aos homens como uma dádiva do céu no arranque do Músicas do Mundo de Sines

Sines. Primeira etapa da terceira edição do festival Músicas do Mundo. Local: interior do castelo, ambiente medieval, após uma cerimónia de abertura oficial que incluiu um repasto pantagruélico. Pena a noite ter estado fria para receber a Brigada Victor Jara e os Bal Tribal, aos quais competia pôr a música a rolar.
            À Brigada Victor Jara, competente como sempre, faltam presentemente duas coisas: um reportório novo e coragem para experimentar algo de diferente do que fazem desde 1977, quando editaram o álbum "Eito Fora", um dos marcos da música de raiz tradicional portuguesa.
            Em Sines, sem o violinista Manuel Rocha, mas aumentados por um contingente de convidados composto por Jorge Reis, no violino e saxofone soprano, António Pinto, na guitarra, Tomás Pimentel, no fliscorne, Manuel Freire, na guitarra e na "Pedra Filosofal", e os galegos Gaiteiros de Milidh, ouviram-se pela enésima vez a "Cana verde", o "Bento airoso", uma "Mi morena" servida a preceito pela voz de uma enregelada Catarina Moura, a "Chula de paus", todo o cocktail habitual da Brigada feito do contraste entre a elegância e maior apuro das baladas e o tom popular das danças, dos bombos e das deixas lançadas ao público para participar. O que aconteceu, no final, com um "Baile mandado" algarvio, ao ritmo das palmas, sob o comando do "rapper" (foi ele que o disse...) Luís Garção. Manuel Freire foi, porém, a estrela da companhia. Bastou-lhe cantar, uma vez mais, a canção que Portugal inteiro conhece, "Pedra filosofal", para a plateia se levantar num aplauso incontrolável.
            Aguardada com bastante expetativa, a orquestra bretã Bal Tribal rubricou em Sines a sua sexta atuação ao vivo, desde que se formou, já este ano, como forma de responder às crescentes solicitações de alguns dos festivais de folk céltica de maior nomeada, como os de Moaña e Lorient, suscitadas pela excelência do álbum "Deliou", de Patrick Molard, editado o ano passado. O que significa que grande parte dos 12 músicos deste projeto presentes no Músicas do Mundo de Sines participaram na gravação desse álbum.
            Para já, provou-se que o disco é uma coisa e a sua transposição para um espetáculo ao vivo, outra É uma música de "composição", a dos Bal Tribal, a necessitar de limar arestas e, principalmente, de cortes na duração, excessiva, de alguns temas. O som também não ajudou, daí que de entre o aglomerado de um naipe de cordas, percussões indianas, guitarra, baixo, bateria, metais, violino e gaita-de-foles, se destacasse, de forma fulgurante, a cantora búlgara Kalinka Vulcheva, solista do "Mistério das Vozes Búlgaras" e da Orquestra Nacional de Sófia, tão deslumbrante em Sines como no álbum "Deliou".

Dádiva do céu
Patrick Molard e Jacky Molard, os dois irmãos impulsionadores dos Bal Tribal, são razoáveis instrumentistas, sem dúvida. Jacky é um violinista que, apesar da ausência completa de "swing", compensa essa falta de alma com uma razoável capacidade para lidar com a complicação dos compassos do "an dro" bertão ou do "horo" búlgaro, enquanto o seu mano Patrick se aplica com alguma "verve" na gaita peso-pesada como é a escocesa e nas "uillean pipes" irlandesas, a Fórmula Um dos foles.
            Mas Kalinka Vulcheva é algo mais. Sempre que abre a boca é Deus que ouvimos cantar. Eis o que faz a diferença entre a Música e a música. Esta sai melhor ou pior, consoante as melhores ou piores capacidades técnicas dos seus intérpretes. Aquela é diferente. Vem de outro lugar, não se aprende, desce aos homens como uma dádiva do céu. Kalinka Vulcheva cantou dois dos temas de "Deliou", um deles em dueto com as "uillean pipes", excessivamente amplificadas e em esforço para manter a compostura na difícil arte que é saber tocá-las devagar, de Patrick Molard. Deu vontade de chorar, de engolir a luz, de beijar a voz. Kalinka Vulcheva foi praticamente tudo na primeira das três noites do Músicas do Mundo.
            O resto fez figura de acessório, de curiosidade exótica: o dueto de tablas e bateria, o desempenho, tão obsessivo quanto assustador, de Patrick Molard, num excerto de música "pibroch" (a mais nobre escrita para a gaita-de-foles escocesa) nas "Highland pipes", a contar a história de um gaiteiro escocês, Patrick-qualquer-coisa que, para vingar o seu irmão, incendiou uma povoação inteira massacrando os seus habitantes. Felizmente para Sines, o outro Patrick, Molard, estava bem disposto e não deu mostras de querer vingar o seu irmão Jacky...
            Só no final, depois de uma introdução "free", a música tradicional da Bretanha deu um ar da sua graça, num "Dans plinn" que pôs enfim a dialogar a bombarda e o "biniou-kohz" (gaita-de-foles bretã). Mas teve pouco de "tribal", e muito menos de "bal", a música desta formação herdeira, em formato erudito, de grupos como Gwerz, Archetype ou Den, qualquer deles armado de um ou outro dos irmãos Molard. Quando terminaram, já a maior parte das cadeiras se encontrava vazia...
            O festival Músicas do Mundo, depois dos concertos de ontem com Carmen Linares e Taraf de Haidouks, termina esta noite com atuações de Andrea Marquee, David Murray com The World Saxophone Quartet e Black Uhuru com Sly & Robbie.

29/08/2016

Brigada Victor Jara - Danças E Folias

Pop Rock

27 Setembro 1995

Abrigada nos clássicos

BRIGADA VICTOR JARA
Danças e Folias (9)
Ed. Farol

não existe um som Brigada da mesma maneira que existe um som Vai de Roda, um som Romanças, um som Ronda ou um som Realejo. Significa que falta personalidade a uma das bandas, juntamente com os Almanaque e o G. A. C., mais antigas do circuito folk nacional? A questão deve ser respondida a outro nível. A banda de Manuel Rocha, Ricardo Dias e Aurélio Malva, para citar apenas três dos seus principais solistas, tem vivido, desde o ano da sua formação, em 1975, do coletivo. Ao invés da procura e apuramento de uma assinatura singular, a opção, bem mais difícil, foi e continua a ser a de desenvolver um trabalho em profundidade em torno das nossas raízes. Se em anos anteriores este trabalho derivou para experiências de fusão, sobretudo em “Contraluz” e “Monte Formoso”, que resultaram ocasionalmente desequilibrados, em “Danças e Folias” assiste-se ao regresso a um certo classicismo, entendido – aliás, como referiu Manuel Rocha na entrevista que concedeu a este suplemento na passada semana – como uma postura mais próxima do formato tradicional da canção, que não das danças propriamente ditas (jota, chula, llaço, fofa, mazurca, chote), neste caso exploradas pelo seu lado mais intrinsecamente “musical”. A diversidade impera, fazendo prova do vasto leque de possibilidades que a banda tem ao seu dispor, ao mesmo tempo que de uma sensibilidade não confinada a fórmulas específicas ou estereotipadas.
O lado mais céltico, transmontano (incluindo dois temas de Rio de Onor, derradeira fortaleza comunitária, fiel aos ritmos e ritos da eternidade, oculta da modernidade nas faldas das terras para lá dos montes...) que enceta o disco esbarra ao quinto tema na surpresa de um dramatismo exacerbado, na vocalização – muito perto do paroxismo – do convidado Zeca Medeiros, uma força da Natureza à solta da sua ilha natal, S. Miguel, Açores. Uma mazurca palaciana, ainda aberta às reminiscências célticas, é por seu lado perturbada por uma das grandes canções do álbum, “Moda da zamburra”, canção de folia entoada no Entrudo, na Beira Baixa. “O mineiro”, melodia estremenha da região de Torres Vedras cruza-se com as síncopes e as modulações habituais na música da Bretanha, a bombarda substituída pela ponteira de Aurélio Malva e o sax soprano de outro convidado, Jorge Reis, a apontar para divertimentos bretões como os dos Gwendal ou Ti Jaz.
Muito a propósito, a Brigada volta a saltar para Trás-os-Montes, para o canto mirandês, o convénio das percussões e a chamada de veludo (nada frequente no meio da rudeza rochosa destes lugares...) da gaita-de-foles, em “Faile Cornudo”, outro dos temas em destaque em “Danças e Folias”. O violinista Manuel Rocha mostra ser o Dave Swarbrick português no “Chote” muito Fairportiano que se segue. “Donde vas” fecha em beleza, com um romance uma vez mais recolhido nos silêncios escuros de Rio de Onor, iluminado pela voz de Margarida Miranda, aqui assombrada pela mesma interrogação que traz suspensa Né Ladeiras em “Traz os Montes”, e o longo solo de filiscórnio, imbuído de religiosidade e o espírito barroco, de Tomás Pimentel. “Danças e Folias” aí está como exemplo para os aprendizes de feiticeiro que julgam poder fazer num dia o que demora uma vida a aprender.

14/08/2016

Brigada Victor Jara - 15 Anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa

Pop Rock

11 NOVEMBRO 1992
WORLD

UMA FONTE QUE NÃO SECA


BRIGADA VICTOR JARA
15 Anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa
CD, Caravela, distri. UPAV


Houve um tempo áureo da música popular portuguesa. A primeira metade dos anos 80 prometia a eternidade ou, pelo menos, um futuro risonho para os bons grupos que então se entregavam, como diz o título deste disco, “à recriação da música tradicional portuguesa”: Ronda dos Quatro Caminhos, Almanaque, Raízes, Terra a Terra, Vai de Roda e Brigada Victor Jara. Alguns ficaram pelo caminho. Outros, a determinada altura, seguiram por ínvios atalhos, mais fáceis, talvez mais rentáveis. Sobraram dessa geração os Vai de Roda, após um período de interregno, e a Brigada Victor Jara, que continua o seu percurso de demanda de um graal oculto na matéria-prima das tradições portuguesas. Os músicos da Brigada Victor Jara nunca se quiseram fazer passar por puristas. Desde o primeiro disco, “Eito Fora”, de 1977, até ao mais recente, “Monte Formoso”, de 1989, passando por “Tamborileiro” (1979), “Marcha dos Foliões” (1982) e “Contraluz” (1984), sempre se dedicaram à tal “recriação”, ou seja, ao aproveitamento de uma base tradicional sobre a qual criaram, e continuam a criar, arranjos contemporâneos, uns mais do que outros, sem contudo perderem o “espírito” tradicional. Conseguir ser atual e manter vivo esse “espírito”, eis onde reside o segredo. O seus detentores sabem como evitar o perigo da descaracterização e manter ereta a árvore. Pois sabem que as raízes permanecem mas a folhagem pode mudar. Ao longo de 15 anos, passaram pela Brigada mais de vinte músicos. As várias mudanças de formação não obstaram entretanto à manutenção de um estilo e de uma linha de conduta exemplares. “15 Anos” reúne de facto alguns dos melhores temas da discorafia da banda, com perdomínio da tradição nortenha (oito tradicionais transmontanos, um do Douro Litoral, quatro das Beiras), somente uma canção do Alentejo e três dos Açores, além dos “pregões” recolhidos e transfigurados pela Brigada numa original evocação das vozes populares de uma cidade que já vai faltando. Canções e instrumentais passam por ordem cronológica que, curiosamente, faz sentido, trazendo à memória e ao presente outros tempos e outros costumes. Contam-se histórias, afastam-se papões, fazem-se festas e baila-se numa terra não dividida. As percussões granítcas dos bombos suportam os folguedos das gaitas-de-foles. Sobre o palanque, no adro da igreja, alguém toca um acordeão, um violino, uma flauta. E na dança os pares de raparigas e rapazes enlaçam-se no círculo inquebrantável. O prazer casa-se com a religiosidade, a euforia dionísica com a simplicidade e força apolíneas. A Brigada Victor Jara viaja pelo Portugal que gostaríamos que permanecesse para sempre. Na sua música não há nostalgia do passado porque nunca houve tempo perdido ou que ficasse irremediavelmente para trás. Pelo contrário, as canções são eternas, tocadas num adufe ou num sintetizador. Nunca seca, a água da fonte primeira. Em “15 Anos” não há momentos fracos e abundam os que ficaram para a história da música portuguesa de raiz tradicional: “Ao romper da bela aurora”, “Marião”, “Ó menino ó”, “Charamba”, “S. Gonçalo”, “Cantiga bailada”, “Faixinha Verde” ou um “Bento airoso” inesquecível que talvez valesse a pena recuperar em novo arranjo que deixasse de parte o saxofone. Para os incondicionais da Brigada (e até à data o único disco da banda em compacto) ou para os apreciadores da música popular portuguesa em geral, um disco de aquisição obrigatória. (8)

17/05/2015

Palminhas acabou e ninguém se enganou [Brigada Victor Jara no Festival Sete Sóis Sete Luas]



26 de Julho 1998

Brigada Victor Jara em Pontedera no Festival Sete Sóis Sete Luas

Palminhas acabou e ninguém se enganou

Consumada a apresentação dos Gaiteiros de Lisboa e da Brigada Victor Jara em Itália, integrada no Festival Sete Sóis Sete Luas, resta saber até que ponto terão sido deixadas sementes desta passagem. Para lá dos momentos de maior ou menor inspiração de cada grupo, ambos deixaram cartel. Os italianos gostaram.

 A Brigada ri-se, propõe a dança, usa acordeão e não se envergonha de
 tocar um vira, umas “saías” ou um baile mandado

Ao contrário do concerto dos Gaiteiros de Lisboa em Roma, para uma plateia enfarpelada, a actuação da Brigada Victor Jara, em Pontedera - pequena cidade da Toscânia onde fica a sede do Festival Sete Sóis Sete Luas - caracterizou-se pela ausência total de sofisticação: música simples e directa que teve como principal preocupação transmitir uma imagem clara da música tradicional portuguesa.
Os Gaiteiros ostentam a pose dos estetas para quem o folclore é um tecido elástico destinado à confecção de uma música que exige a participação do intelecto. A Brigada ri-se, propõe a dança, usa acordeão e não se envergonha de tocar um vira, umas "saias" ou um baile mandado. Logo de início ficou claro que os sete músicos do grupo tinham vindo para se divertir. Em plena via Roma, onde o palco estava instalado, no meio de esplanadas e de uma "movida" incessante, tendo como pano de fundo o letreiro da Banca Toscana, Manuel Rocha - que apresentou cada uma das canções num italiano mais do que aceitável - e os seus pares começaram por pôr a criançada aos pulos. Bom sinal. De que não era necessário ligar o interruptor do cérebro para captar as ondas enviadas. Foi um concerto normal, elaborado para agradar a toda a gente, com uma estrutura que alternou a maior extroversão das danças com baladas como "Bento airoso" e "Marião".
"Carvalhesa", "Aboio", "Murinheira", "Cana Verde", "Chula de paus", "S. João", "Campanitas de Toledo" e uma "Mazurka" bem folk-rock se não puseram propriamente em delírio uma plateia pouco familiarizada com a tradição portuguesa (ainda que alguém se tenha lembrado de associar alguns dos ritmos à tarantela), foram, apesar de tudo, suficientes para fazer bater palmas de compasso, arrancar alguns bravos e trazer, ao fim de meia hora de concerto, os músicos de novo para cima do estrado para dois "encores", "Mi morena" e, a terminar, um baile mandado segundo as regras, com as "mãozinhas a abanar" e "palminhas acabou e ninguém se enganou", seguidas à risca pelo público de Pontedera.
Manuel Rocha, em grande forma no violino e evidenciando uma saudável boa-disposição, despediu-se com uma justificação: "garanto-vos que sei falar muito bem português, o italiano é que foi miserável". Mentira. Rocha revelou-se um óptimo "entertainer", pontuando cada momento da actuação da Brigada com pequenas explicações despreconceituosas que tiveram o mérito de contextualizar e aproximar a música do grupo de uma assistência que acabou por se render, obrigando mesmo a faina incansável de adolescentes, que até altas horas da noite percorre de ponta a ponta a via Roma, a parar e a prestar atenção.
Consumada a apresentação dos Gaiteiros e da Brigada em Itália, resta saber até que ponto terão sido deixadas sementes desta passagem. Independentemente dos momentos de maior ou menor inspiração de cada grupo, ambos deixaram cartel. Os italianos gostaram. Fez, por isso, alguma pena ver imensa gente a perguntar onde poderia encontrar os discos. É que a memória é curta e não ficaria mal às editoras esforçarem-se um pouco mais no apoio a este tipo de iniciativas, disponibilizando uma percentagem de discos para venda no local.
O Sete Sóis Sete Luas prossegue em Portugal, integrado na programação do Dia de Itália que irá ter lugar na Expo já no próximo dia 29. Absolutamente a não perder será a actuação de Ricardo Tesi e da sua Banda Italiana no Convento de Cristo, em Tomar, no último dia deste mês.