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31/12/2008

E os pássaros caíram do espaço [The Byrds]

Pop Rock

2 Abril 1997
reedições

E os pássaros caíram do espaço

THE BYRDS

The Notorious Byrd Brothers (8)
Sweethearts of the Rodeo (5)
Dr. Byrds and Mr. Hyde (6)
Ballad of Easy Rider (6)
Columbia, distri. Sony Music

Roger McGuinn quis ser astronauta, mas não o deixaram. Quando Neil Innes, palhaço sábio da “troupe” Bonzo Dog Doo Dah Band, cantava, ainda nos anos 60, “I’m the urban spaceman” (canção posteriormente recuperada no antológico espectáculo ao vivo dos Monty Python no Hollywood Bowl), estava longe de imaginar que o tema se tornaria numa espécie de hino para McGuinn, líder pouco poderoso dos Byrds. Uma fantasia que voara pelo céu nos clássicos “Eight miles high”, “Mr. Spaceman” e “CTA – 102”, mas que ao longo de toda a obra dos Byrds posterior à obra-prima “Younger than yesterday” apenas teria direito a aparições fugazes, ou relegada para tapa-buracos, nos temas extra.
É uma história triste a que se conta a partir de 1967 e da edição dos quatro primeiros e seminais álbuns da banda americana. Remasterizados, polidos e embrulhados de acordo com a reputação dos seus autores, o novo pacote dos Byrds faz a história da decadência e o registo dos inúmeros equívocos que destroçaram por completo a identidade original do grupo.
Em 1968, McGuinn entrara para uma seita religiosa oriental, David Crosby afundava-se na droga e desafinava de propósito nas canções de que não era autor. Conta-se que era frequente, durante os concertos, olhar constantemente para o relógio e, passados mais ou menos 45 minutos, ala que se faz tarde, abandonar o palco. Crosby acabou por sair de vez, regressando, para o seu lugar, um dos elementos originais do grupo, Gene Clark, conhecido por um medo atávico de andar de avião. Infelizmente, a esta fobia juntara-se, entretanto, também o medo do palco e a claustrofobia. Depois de três espectáculos em que a sua prestação foi tão má que os outros se viram na obrigação de desligar subrepticiamente a amplificação da guitarra e o microfone, e de um ataque de pânico num elevador encravado, Gene não teve outro remédio senão ir de novo à vida.
Apesar de tantas contrariedades, “The Notorious Byrd Brothers” mantém a magia dos quatro primeiros discos, tirando partido da produção sofisticada de Gary Usher (antigo colaborador de Brian Wilson). É um disco que alia o interesse crescente de McGuinn pelas sonoridades electrónicas e pelo sintetizador Moog em particular (com a ajuda do mago Paul Beaver, parceiro de Bernard Krause nos seminais “Gandharva”, “In a Wild Sanctuary”), em temas como “Space odyssey” ou o extra “Moog raga”, com a apoplexia barroca dos emblemáticos “Sgt. Peppers”, dos Beatles, e o abortado “Smile”, dos Beach Boys. Naipes de cordas, em “Artificial energy” (sobre “speed”), vozes saturadas de “phasing” e pérolas pop como “Goin’ back” (de Carole King) e “Natural history” fazem de “The Notorious Byrd Brothers” o álbum mais estranho do grupo. De fora ficara “Triad”, um tema sobre amor a três, que acabou por estrear na fantástica versão dos Jefferson Airplane, em “Crown of Creation”, mas que agora foi recuperado na colecção dos extras.
A partir daqui tudo se complicou, com a entrada do novo elemento, Gram Parsons, para o grupo. McGuinn pensava então ter chegado a altura de pôr em prática a sua obra, há muito projectada, de “space music”, contando para tal com os talentos de teclista do novo elemento. Pura ilusão. Parsons tomou conta dos Byrds e, com o apoio de outro elemento restante da formação original, Chris Hillman, convenceu o próprio McGuinn de que o futuro não estava no espaço, mas no campo. Os Byrds tornavam-se num grupo de música “country” e “Sweethearts of the Rodeo” acabaria, estranhamente, por ser, de entre toda a discografia do grupo, o álbum que lançaria sementes, formando gerações de novos músicos, que aí viram o pretexto para pegar nas raízes da música branca norte-americana.
Esta dicotomia entre tensões contrárias, o gosto pela ruralidade, por um lado, o apelo da tecnologia e da inovação, por outro (esta última, como é óbvio, instigada por um homem só, Roger McGuinn), ficaria ainda por resolver no álbum seguinte, “Dr. Byrds and Mr. Hyde”, título só por si revelador da personalidade esquizofrénica que os Byrds desenvolveram na proporção directa da sua desagregação, de resto, fielmente retratada na fotografia da contracapa, onde um “cowboy” e um astronauta seguram no disco, com a legenda “Cowboys and spacemen: A short saga”. É um álbum que hesita entre a insistência na canção “country” (afinal, a própria crítica especializada desvalorizara o esforço anterior…) e os restos de um psicadelismo perdido, em temas em que os Byrds, se ainda voavam, voavam baixinho, como em “Child of the universe”, ou choramingando na nostalgia por Bob Dylan, que repescam em “This wheel’s on fire”.
O naufrágio consumar-se-ia em “Ballad of Easy Rider”, um álbum e uma nova formação erráticos (com John York, Gene Parsons e Clarence White), que procuraram, num último esforço, a salvação do “gospel” (“Jesus is just alright”, um “hit”, pelos Doobie Brothers), nos cânticos tradicionais dos marinheiros ingleses, em Woody Guthrie e, ainda e sempre, em Dylan, através de “It’s all over now, baby blue”, título profético. Do sonho espacial de Roger McGuinn ficariam, a fechar o disco, “Armstrong, Aldrin and Collins”, a celebrar a conquista da Lua pelos americanos e, nos extras, a derradeira aberração de “Fiddler a dram”, um instrumental “folk” tocado no sintetizador Moog.

18/10/2008

The Byrds - Greatest Hits, Re-Mastered

Pop Rock

13 FEVEREIRO 1991
REEDIÇÕES

THE BYRDS
Greatest hits, re-mastered
LP e CD, Columbia, distri. Sony Port.

Os pássaros estão de volta. Não os de Hitchcock, mas aqueles, menos cruéis, que voaram alto nos céus, da década de 60. Compreende-se o fenómeno à luz da recente política editorial de reedições revivalistas, em parte explicada pela actual escassez de grandes novidades no mercado discográfico.
A presente colectânea, surgida quase em simultâneo com o recente “Back from Rio” de Roger McGuinn, reúne alguns dos maiores êxitos da banda, como “Mr. Tambourine Man”, “Turn! Turn! Turn!”, “Eight Miles High” (magistralmente recuperado na versão dos Roxy Music incluída em “Flesh and Blood”) e “Mr. Spaceman”, os quais, crescidos do bónus extra da digitalização, constituem aperitivo aliciante para a anunciada edição da caixa de quatro LP contendo o essencial da sua obra, para além de alguns originais.
Por agora, os amantes da “space country” construída à custa das guitarras de McGuinn e Gene Clark e das harmonias vocais da passarada toda são obrigados a contentar-se com esta espécie de catálogo, exemplar na qualidade das amostras, mas avaro na quantidade (o disco tem cerca de trinta minutos de duração) e na informação relativa a uma das bandas seminais da época. Mas, ainda aqui, tudo parece integrar-se numa estratégia tendente a aguçar o apetite e a valorizar ainda mais a próxima aparição da tal caixa mágica. Golpe estratégico ou não, os mestres continuam a dar cartas. ***

Vários - Country Hits - Volume I + Country Music Video Magazine

Pop Rock

20 FEVEREIRO 1991
VÍDEOS

VÁRIOS
Country Hits – Volume I
e Country Music Video Magazine
BMG, Video

“Country music”, a música da América, não é? Pois é. Mas, a julgar por estes dois vídeos sobre a dita música, apetece perguntar: “América, América, para onde vais?” Claro que a culpa não pode ser assacada a uma nação, ainda por cima tão novinha, sem responsabilidades. Aponte-se antes o dedo aos realizadores, sobretudo os responsáveis pelos “clips” da série “Country hits”. As imagens jogam com todos os lugares-comuns típicos do género. Ainda por cima jogam mal. Em cada cinco segundos surgem “close-ups” sobre dedos dedilhando guitarras. Depois, são os chapéus de “cowboy”, casas de campo, estradas sem fim com paragem em bares onde se joga bilhar e se encontra o amor. Elas, Lorrie Morgan, o duo The Judds, Baillie (com os respectivos Boys) e K. T. Oslin são geralmente bonitas (sobretudo os seus cabelos), de pose cândida e voz doce. Vestem quase sempre de branco. Lorrie Morgan, então, exagera: em “Dear me” as imagens, desde o vestido às paredes do quarto, passando pela roupa da cama, têm o colorido de um copo de leite derramado sobre a neve. Eles usam barba rija, vestem-se de “cowboys”, fogem de casa, mas acabam sempre por regressar aos braços delas. Ah, sim, a música… - tem pouco a ver com a “country” genuína. Digamos que se equipara aos “filtros David Hamilton”, profusamente utilizados ao longo de todo o vídeo.
“Country Music Video Magazine” é mais sério e discreto. Como o título indica, resume as actividades “country” de um determinado período, alternando declarações de artistas com excertos raros de concertos ao vivo e mesmo a apresentação crítica de discos. Por aqui passam, entre outros, Dwight Yoakam, K. D. Lang (dissertando sobre a “progressive country music” enquanto faz festas a uma vaca) e os Byrds, estes em imagens de arquivo interpretando “Mr. Tambourine Man” e, na versão actual e anafada, a recordar o mesmo tema. Ambos os vídeos fazem a apologia da brancura. ***

13/05/2008

Mais jovens do que ontem [The Byrds]

Pop Rock

22 de Maio de 1996
reedições poprock

Mais jovens do que ontem

THE BYRDS

Mr. Tambourine Man (9)
Turn! Turn! Turn! (7)
Fifth Dimension (9)
Younger Than Yesterday (10)
Columbia, distri. Sony Music

Hitchcock fez deles os maus da fita. Mas para um número considerável de novas bandas pop, os Byrds funcionam como uma das referências principais, na arte de conjugar a liberdade das guitarras com a sedução de uma melodia saída directamente do paraíso. O presente pacote de reedições, em separado, dos quatro primeiros álbuns da banda, sucede à anterior caixa produzida por Bob Irwin, que aqui se responsabilizou pelo trabalho de remasterização. Além da notável melhoria sonora, há a destacar ainda a inclusão de seis “bonus tracks”, extraídos na maioria das sessões de “Mr. Tambourine Man”, por álbum, e a reprodução do “design” das capas originais, acompanhado de textos de introdução à história do grupo e de comentários individuais para cada faixa.
“Mr. Tambourine Man”, de 1965, é, ainda hoje, um álbum seminal, fruto da inspiração de quatro individualidades cuja alquimia resultou no casamento perfeito entre a tradição das raízes “country” e um rock urbano simultaneamente enamorado pela melodia e pela electricidade. Dylan e Pete Seeger são os mestres revisitados e devolvidos de forma luminosa pela guitarra encantatória de Roger McGuinn e as vocalizações em órbita de David Crosby, servindo de engodo para as capacidades de composição reveladas por Gene Clark, que nesta estreia do grupo pretendeu “apenas” transcender os segredos vocais já então apresentados ao mundo pelos Beatles.
No álbum seguinte, gravado no mesmo ano e editado em 1966, os Byrds prestam tributo aos espirituais, ao “gospel” (o título do álbum e do tema de abertura, subintitulado “To everything there is a season”, deriva de uma adaptação de Pete Seeger do “Livro do Eclesiastes”), à “country music” e, de novo a Dylan, cuja leitura do texto do clássico “The times they are a-changin’” é aqui inteiramente subvertida. Gene Clark continua a transformar os seus desgostos de amor em grandes canções, enquanto se tornava num hábito o fecho numa veia satírica.
Depois de se terem despedido no álbum de estreia com uma versão da “country singer” Vera Lynn, usada no filme de Kubrick, “Dr. Strangelove”, os Byrds aceleravam e desviavam em proveito próprio a tonalidade do velho “standard” de “cowboys” “Oh! Susannah”, transformando-a numa deliciosa canção pop. Já agora, não, não são os R.E.M. que tocam em “If you’re gone”. Mas a ligação, talvez excessiva, a um certo classicismo, expresso na inteira adesão a modelos estéticos e ideológicos declaradamente norte-americanos como que normalizam “Turn! Turn! Turn!”, afastando-o da maior liberdade de movimentos e criatividade evidente nos outros álbuns.
“Fifth Dimension”, também de 1966, dá um passo gigantesco. Os Byrds descobriam e, até, antecipavam o psicadelismo. As guitarras soltam-se em estruturas cada vez menos lineares, as vozes viajam e redescobrem-se nessa maior profundidade de campo, com as despesas de composição a serem asseguradas maioritariamente por McGuinn e David Crosby, com arranjos orquestrais a cargo do mago da excentricidade, Van Dyke Parks, mas arrumados com método. O título-tema e “Mr. Spaceman” ilustram o gosto do primeiro pela ficção-científica, enquanto a realidade dura e crua se confunde com o pesadelo em “I come and stand at every door”, história da deambulação fantasmagórica de uma criança morta em Hiroxima. O onirismo atinge o auge em “Eight miles high” (vale a pena escutar a versão alternativa incluída na sequência de bónus), uma das mais inspiradas “drug songs” de todos os tempos, ainda que os seus autores a justifiquem com uma falsa inocência, dizendo tratar-se simplesmente de um voo rotineiro de avião… Não que os aviões não estejam presentes na quinta dimensão dos Byrds. O tema final, “2-4-2 fox trot”, voa ao som dos reactores de um jacto, numa curiosa antecipação de um certo “industrialismo” alucinatório, enquanto “Hey Joe (where you gonna go)” fala sem truques na manga da mentalidade “hippie”, que, mais ou menos na mesma altura, Frank Zappa arrasava pela sátira na recriação deste mesmo tema incluído no genial “We’re only in it for the Money”.
Se “Fifth Dimension” é a porta de acesso ao jardim, o álbum seguinte, “Younger than Yesterday”, editado em 1967, dá a conhecer cada canteiro dos “Mind gardens” descritos na quase “raga” vocal com este nome assinada por David Crosby. As tensões entre os vários músicos, que então ameaçavam a estabilidade do grupo, originaram um conjunto inigualável de canções, no meio das quais não é possível detectar uma única nota ou verso “para encher”. Do balanço corrosivo adornado por um naipe de sopros de “So you want to be a rock’n’roll star” até às “trips” de LSD do caleidoscópico “Renaissance fair” e “Thoughts and words”, passando pela intrusão de vozes alienígenas em “C. T. A. – 102” (a propósito do qual propomos, à laia de diversão, um jogo de adivinhas com solução em “Wolf City”, dos Amon Düül II…), “Younger than Yesterday” ergue-se como um rival de obras como “Sgt. Pepper’s”, dos Beatles ou “Pet Sounds”, dos Beach Boys, enquanto testemunho global e visionário – embora através de um discurso que não poderia ser mais personalizado – das vibrações, sonhos e inquietudes de toda uma geração.