Mostrar mensagens com a etiqueta PÚBLICO - Pop Rock. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta PÚBLICO - Pop Rock. Mostrar todas as mensagens

16/02/2018

Os melhores do ano 1991 [Eletrónica + World]


Pop Rock
1991

os melhores do ano

ELETRÓNICA

O ano que passou foi de triunfo para os eletrões. A eletricidade sempre foi um bom circuito de informação. Os sinais não enganam: passado e futuro tocam-se e confundem-se. Na Europa, sobretudo, de novo se constrói a torre de Babel.

Delerium
            Stone Tower
                (Dossier)
Produto típico da ala negra dos pseudomagos que apostaram em dar cabo das nossas cabeças, por dentro e por fora. Neste caso não há agressões psíquicas abaixo dos 2Hz ou acima das “frequências caninas”, nem grandes rituais de sangue provocados pelo rebentamento de tímpanos. Pelo contrário, embora na capa proliferem as habituais imagens de corpos em agonia, caveiras e arquiteturas de pesadelo, os Delerium, fação “ambiental” dos Front Line Assembly, enveredam pelas religiosidades obscuras, abrindo paisagens de sombra e labirintos por onde divindades pagãs aproveitam para se infiltrar. Longos mantras etno-demoníacos que incluem na versão CD cerca de meia hora extra de hipnose. Um tratado de necromancia que pode provocar habituação à paranóia. Para ouvir de noite, com cuidado.

Hans-Joachim Roedelius
            Der Ohren Spiegel
                (Multimood)
Dividido entre a devoção ao piano, a Erik Satie e Alban Berg e a nostalgia das explorações eletrónicas de antanho realizadas com Dieter Moebius, nos Cluster, Roedelius consegue aqui o equilíbrio perfeito entre duas pulsões contraditórias, a simplicidade e o barroco. Exorcizado o espectro das teclas de marfim em “Piano Piano”, para piano solo, Roedelius revela-se como um arquiteto de sons visionário, ombreando com Brian Eno na construção de estruturas tímbricas e harmónicas (no seu caso bastante mais complexas que as do autor de “Discreet Music”) que parecem desafiar a gravidade. “Reflektorium”, o tema mais longo do CD, tem o esplendor, os reflexos matizados e o requinte do pormenor de um candelabro de cristal.

Holger Hiller
            As Is
                (Mute)
Antigo membro dos Palais Schaumburg, autor de óperas sobre “calças” e auditor atento de Stockhausen, Faust, Einstuerzende Neubauten e de música pop num rádio a pilhas mal sintonizado, Holger Hiller produz música dourada a partir de detritos e excrescências sonoras a partir de excertos de Wagner. Diverte-se a misturar pedaços de sinfonias, de ruídos, de vozes e melodias incertas no seu cadinho de alquimista louco – o “sampler”, máquina mágica onde nada se perde e tudo se trasforma. À semelhança dos geniais “Ein Bundel Faulnis in der grube” e “Oben im Eck”, “As Is” é “como é”, um programa musical, na aparência sem sentido, mas onde a cada segundo o som dispara em direções surpreendentes, das refrações “dub” à pop do outro lado do espelho. O discurso da esquizofrenia tem a sua lógica própria.

Kraftwerk
            The Mix
                (EMI)
Ralf Hütter e Florian Schneider não vão atrás da Europa, a Europa é que lhes segue no encalço. Os dois alemães vestiram de novo as fardas de humanóide, carregaram baterias, ligaram os interruptores do estúdio Kling Klang e procederam como cirurgiões-robô especializados, com bisturis laser e uma ironia não menos cortante. Operaram maravilhas de cirurgia plástica nos clássicos da “techno-pop” industrial gerados pela maquinaria do Rur e polidos no paraíso de cristais de quartzo e fibra ótica de “Silicon Valley”: “The Robots”, “Computer Love”, “Autobahn”, “Radio Activity”, “Trans Europe Express” – binários e insinuantes como sempre, e agora mais dançáveis do que nunca. Regresso em forma ao futuro.

O Yuki Conjugate
            Peyote
                (Multimood)
Alinhados com os Lights in a Fat City, afilhados de Jon Hassell e das músicas do “quarto mundo”, atentos às pulsações das culturas e dos mitos africanos e aborígenes, os O Yuki Conjugate desenham os contornos de uma “realismo fantástico” que povoam de monstros projetados pela tecnologia eletrónica. “Peyote”, como o anterior “Into Dark Water”, sendo mais um produto representantivo da grande síntese do final do milénio, tendência “novo primitivismo”, avança por alamedas laterais, por via da alucinação, abolidas as noções tradicionais do espaço e do tempo. Música intuitiva, elemental, naturalista por essência e ambígua na condição de ícone da nova idade das trevas. Se “Into Dark Water” era a escuridão do fundo oceânico, “Peyote” é a miragem do deserto, a vibração desfocada, o retorno ao incriado.


WORLD

1991 foi sobretudo o ano de reedições em CD, de parte de discografias importantes – dos Planxty, Chieftains, Malicorne, Milladoiro e Steeleye Span. Tudo importações, claro. Outras “novidades” chegaram ao mercado nacional pelo menos com um ano de atraso, razão por que não puderam constar da presente lista.

Ad Vielle Que Pourra
            Come What May
                (Green Linnet)
Originários do Canadá, os Ad Vielle Que Pourra pretendem “unir o caldeirão de influências americano às raízes europeias”. Aliam o virtuosismo, ecletismo e magia, um pouco à maneira de uns Blowzabella mais extrovertidos. Há na música dos Ad Vielle uma energia contagiante, resultante da correta assimilação e articulação da tradicção francesa, e em particular da bretã, com a música de realejo, as valsas palacianas ou a canção de cabaré, em combinações instrumentais, ora frenéticas, ora bizarras, da bombarda e da gaita-de-foles flamenga, da sanfona, do violino, do acordeão e do bouzouki… Música para “viajar pelo mundo ou pelo interior de nós próprios”.

Catherine-Ann MacPhee
            Chi Mi’n Geamhradh
                (Green Trax)
Catherine canta em gaélico as habituais histórias da história escocesa, às quais a mistura das brumas célticas com as névoas não menos poéticas do “whisky” retira um pouco de credibilidade. Mas a falta de rigor científico e o tom pueril de canções como aquela que narra os desgostos amorosos de “um jovem vendo a rapariga que ama abandoná-lo, para casar com outro, o que lhe parte o coração [ao jovem, não ao outro]” são compensados pela excelência do canto. Entre um acompanhamento instrumental invulgar, a harpa cintilante de Savourna Stevenson garante, por si só, o sortilégio.

Hamish Moore & Dick Lee
            The Bee Knees
                (Green Linnet)
Caminho difícil e excitante, o da fusão das sonoridades tradicionais com o jazz. John Surman (“Westering Home”), Ken Hyder’s Talisker ou Jan Garbarek (“I Took up the Runes” e “Rosensfolle”, este com Agnes Buen Garnas), do lado do jazz, já o haviam tentado com sucesso. Do “outro lado”, registe-se a fase inicial dos Gwendal, de “À vos Désirs”, os suecos Filarforket, em “Smuggel” os ex-jugoslavos Zsarátnok, em “Holdudvar”, June Tabor em “Some Other Time”, Savourna Stevenson, em “Tweed Journey”, e aproximações pontuais da malograda Sandy Denny. “The Bee Knees” vive do diálogo/confrontação entre a gaita-de-foles e o “tin whistle” tradicionais de Hamish Moore, e os saxofones e clarinete-baixo de Dick Lee. Os puristas poderão franzir as sobrancelhas. Mas as pulsações do coração e as pernas nem por isso deixarão de acelerar.

Les Nouvelles Polyphonies Corses avec Hector Zazou
            Les Nouvelles Polyphonies Corses
                (Philips)
Sensível ao poder do eixo que liga a pedra e a terra ao céu, Hector Zazou, num exercício que acaba por se assumir como ponto culminante e corolário lógico de “Géographies” e “Géologies”, soube manter os computadores à distância exata da religiosidade e do arrebatamento do canto corso, deixando-lhes o espaço necessário à oração e à elevação. Os sons eletrónicos ou da profusa instrumentação utilizada neste projeto não interferem com a energia do canto, antes lhe servem de alavanca de apoio, facilitando-lhe a ascese e constituindo um estímulo adicional ao discurso da alma. A constelação de “figuras” presentes – Ryuichi Sakamoto, Ivo Papasov, John Cale, Steve Shehan, Manu Dibango, Richard Horowitz, Jon Hassell – participa e assiste fascinada à cerimónia.

Ron Kavana
            Home Fire
                (Special Delivery)
Permanecendo de certo modo à margem do circuito “folk” britânico tradicional, Ron Kavana é um rebelde apostado em dotar a música irlandesa de uma carga política que tende, por vezes, a ser minorizada, em detrimento do seu lado poético-mitológico. “Home Fire” recusa o perfecionismo de estúdio que, nos últimos anos, tem vindo a retirar muito da espontaneidade que caracterizou o grande “boom” da década de 70, traduzido no aparecimento de grupos como os Planxty, Bothy Band, De Dannan e Five Hand Reel, entre outros. Solução de compromisso entre as sonoridades mais marcadamente célticas das danças e dos instrumentais, e a importância dada às palavras, nas baladas de tom intervencionista. Mil vezes mais eficaz que Billy Bragg e infinitamente mais rico em termos musicais.

ENSEMBLE TRE FONTANE - L'Art Des Jongleurs, Vol. 2 + Guillaume de Machaut & Le Codex Faenza


Pop Rock

13 Julho 1994
WORLD

DO ANTIGO PARA A INOVAÇÃO

ENSEMBLE TRE FONTANE
L’Art de Jongleurs, vol. 2
(10)
Guillaume de Machaut & Le Codex Faenza
(8)
Alba Musica, distri. Megamúsica

Desculpem-me os leitores estes desvios, mas o facto é que nos últimos tempos as gravações mais interessantes têm aparecido na área das chamadas músicas antigas. É claro, na folk, as coisas não param, só que muitos discos, alguns deles brilhantes, não chegam ou ainda não chegaram aos nossos distribuidores.
Mas regressemos às “velharias” e a dois discos de um grupo, os Ensemble Tre Fontane que, feitas as contas e assimilados os sons, não anda longe na atitude de algumas formações atuais da folk europeia.
Sobretudo no segundo volume de “L’Art des Jongleurs” (o primeiro, que não conhecemos, incide na tradição vocal trovadoresca), o tratamento das fontes utilizadas sofre deslocações subtis que aproximam a música antiga a formas musicais e de sensibilidade contemporâneas um pouco à maneira do que acontece nesse monumento definitivo de abolição de tabus e fronteiras estéticas no tempo que é “Carmina Burana” segundo os Clemencic Consort.
No caso dos Tre Fontane – um trio originário do Sul de França, região trovadoresca por excelência – e em particular no primeiro e mais antigo dos discos em análise, são as percussões soltas e evidenciando uma espontaneidade muito própria do universo folk a fazerem a diferença.
Incidindo sobretudo no reportório instrumental da Idade Média, os Tre Fontane desenvolvem aqui, como na quase totalidade do disco posterior, a música anotada no Codex Faenza, descoberto em 1939, documento de primordial importância para o estudo e aprofundamento das técnicas interpretativas da música medieval. Às peças (baladas e “virelais”) de Guillaume Machaut, séc. XIV, músico e poeta considerado um dos melhores e mais representativos compositores no estilo da “ars nova”, juntam-se as “estampies” italianas, em voluntária acentuação de características comuns. Da audição de todas elas sobressai um sentimento de hedonismo exacerbado em que os sentimentos, da amargura mais profunda à exaltação amorosa, assumem proporções exageradas, pelo menos para a nossa triste e apagada maneira de sentir. A natureza, as voltas da roda do destino, a vida vivida em pleno, transformam-se em fonte de prazer constante. A música reflete essa “joie de vivre” e exacerbação da arte ou do amor cortês levados a um refinamento e elegância de linguagem sem precedentes na chamada “ars antiqua”, anterior historicamente à “ars nova”.
Faixas como “Tre fontane” ou as duas baladas de Machaut, exemplos de maior volúpia sensitiva numa obra que toda ela um jardim de flores no esplendor máximo da fragrância e da cor – “Dame comment…” e “Dame ne regarde pas…” são de molde a transformar por dentro quem as ouve.
Centrada quase exclusivamente nas obras de Machaut, a última produção até ao presente dos Tre Fontane é mais contida, dando a entender uma preocupação maior de fidelidade às fontes consultadas e uma contenção de estilo que se prolonga pela própria instrumentação, aqui limitada à sanfona, falutas de bísel, alaúde árabe e “sordun” (ou “sourdeline”, instrumento de palheta dupla de sonoridade aparentada ao fagote com um “vibrato” semelhante ao da gaita-de-foles), enquanto em “L’ Art des Jongleurs, vol. 2” se estende pela exuberância, além dos instrumentos citados, da “chamelie” (outro instrumento medieval de palheta dupla), bombarda e várias percussões (bendir, darbouka, tablas, tamborim, etc.). Entenda-se então a afirmação de Jacques Berque, aplicável por inteiro à música dos Tre Fontane: “A autenticidade não está na repetição exaustiva do antigo, mas sim no restabelecimento do antigo através da inovação”.

Timbuk 3 - Big Shot In The Dark


Pop Rock
30 de Outubro 1991

Timbuk 3
            Big shot in the dark
            LP/MC/CD, I. R. S., distri. EMI-VC

            Pat e Barbara MacDonald continuam a inventar uma América de sonho. Mesmo se, na relação ambígua com o título, a capa mostra o ataque cerrado de uma legião de espermatozóides à fortaleza do óvulo. Terceiro álbum de originais, a seguir a “Greetings from Timbuk 3” e “Edge of Allegiance”, o novo disco envereda por um registo difícil de definir: vias aparentemente bem demarcadas, como o “funky” ou a “pop de guitarras”, adquirem, por força de uma subtil operação de desfocagem, contornos imprevisíveis. Os Timbuk 3 observam a Pop com olhos de alienígena. Verdadeiros cowboys espirituais (o som da harmónica evoca, ao longe, o espectro dos Wall of Voodoo) levitam sobre uma Disneylândia abandonada e estradas ao crepúsculo. O frenesim de “Two medicines” e “Big shot in th dark” dissemina-se por sombras e paisagens noturnas, à custa de arranjos atmosféricos e das estranhas inflexões vocais da dupla. Ecos dos Dire Straits, em “Mudflap girl”, as entoações dylanianas de “Dis***land (was made for you & me)”, a fantasmagoria de “Wake up little darlin’”, digna de Tim Buckley, ou o incenso psicadélico de “49 Plymouth” aumentam ainda mais o ambiente geral de estranheza. Belo, diferente e bizarro. (8)

Tom Petty And The Heartbreakers - Into The Great Wide Open


Pop Rock
27 de Julho 1991

TRABALHO DE PROFISSIONAL


“Gostava de abrir novos caminhos e deixar alguma marca na música, que todos identifiquemos como nossa – é isso que eu estou a tentar fazer”

Foi o que disse um dia Tom Petty, levantando a ponta do véu sobre as suas intenções relativamente às suas ambições musicais. Disse “tentar fazer” e disse muito bem. O problema está menos nas intenções, cem por cento louváveis, e mais nos resultados. É que, até agora, por mais tentativas que faça, e já leva 20 anos de música no ativo, Tom Petty não consegue abrir caminho nenhum. Quanto à “música que todos identifiquemos como nossa” não se percebe muito bem o que quer dizer. Devia estar bêbedo.
“Into the Great Wide Open” é rock and roll suave, fluente, com a cadência fácil e sem atritos de um automóvel rolando em quinta velocidade numa auto-estrada americana. Mas nem sempre o que parece girar sobre esferas é o mais interessante e, muito menos, o mais original. Como Tom Petty, há dezenas de outros músicos que “gostavam de abrir novos caminhos” (na maior parte das vezes em vez de abrir, fecham-os), a borbulhar na sopa requentada dos tops norte-americanos. Bruce Springsteen deu mote dos “contadores de histórias” solitários, eternamente “on the road”, à procura da América mítica e de si próprios. Mas nem todos podem ser como Tom Waits ou Stan Ridgway, das poucas exceções à regar geral, pautada pela mediocridade.
Há neste disco uma complacência irritante que deixa adivinhar o vício mais grave da preguiça. Sente-se que aquilo que Petty faz, fá-lo com uma perna às costas, com a destreza e a competência de um profissional. Seria desculpável, segundo a máxima de “quem faz o que pode e sabe a mais não é obrigado”, se Tom Petty não desse mostras de poder fazer muito mais. Se não faz é porque não quer, até porque, assim como assim, os discos vendem que se fartam.
Nota-se que o guitarrista poderia ter ido bem mais longe na exploração do filão melódico patente em faixas como “Into the great wide open”, “All or nothin’” ou “Too good to be true”, em que as imagens de uma América à beira da desolação (“morning on the outskirts of town/sitting in the traffic alone, you don’t know what it means to be free”) formam um filme negro coerente, servido pelo argumento plausível da “rock’n’roll way of life”. Talvez o defeito esteja na produção, demasiado adocidada, de Jeff Lynne, o homem da Electric Light Orchestra. Seja como for, a música não está de modo nenhum ao nível das palavras e dos ambientes que se procuram evocar.
Ao contrário do que Tom Petty afirma, as canções não estão “em qualquer lado para onde se olha”. Se assim fosse, só os cegos não fariam música. E o pior cego é aquele que não quer ver. **

TOM PETTY AND THE HEARTBREAKERS
Into The Great Wide Open
LP/MC/CD, MCA, distri. BMG

Catherine-Ann MacPhee - Chi Mi’n Geamhradh


Pop Rock
1991

Catherine-Ann MacPhee
Chi Mi’n Geamhradh
CD, Greentrax, distri. VGM

Catherine é uma mulher de peso. Mais de cem quilos, com certeza. Mas, como acontece com inúmeras divas, do maciço corporal desprende-se e eleva-se uma voz imponderável, de pássaro. A de Catherine tem a consistência e transparência de um lago. De um dos lagos que, um pouco por todo o lado, se espalham e espelham a sua Escócia natal. Catherine, tal como no seu álbum anterior, “Cànan nan Gàidheal”, canta em gaélico escocês, língua de ressonâncias mágicas, nascida das profundezas do mundo celta, hoje sobreviviente por amor ao fogo que mantém viva a identidade de um povo. Acompanhada pelos outros instrumentos, a solo ou em dueto com a harpa radiante de Savourna Stevenson (cujo álbum “Tickled Pink” é imprescindível em qualquer seleção criteriosa de obras dedicadas a este instrumento), Catherine vai desvelando o novelo da história, da terra ancestral e das gentes que a habitam, em canções que ecoam na memória, evocando outros tempos e outros mitos. Como ela própria diz: “Siomadh oidch a’bhithinn a’smuaintinn, gum bitheadh tu comhla rium gu brath.” Nem mais. ****

08/02/2018

O despertar dos mágicos [4º Festival Intercéltico do Porto]


Pop Rock

31 MARÇO 1993

O DESPERTAR DOS MÁGICOS

Barzaz e Battlefield Band preenchem o cartaz musical do primeiro dia do festival. Vibrantes os primeiros, transportam consigo a força dos rochedos e das ondas do mar que esculpe as costas da Bretanha. Mais serenos os segundos, abrigados de momento na calma enseada de um lago escocês.
            Inseridos no movimento de renovação da tradição musical bretã encetada nos anos 70 por Alan Stivell, os Barzaz resultam da confluência de projetos anteriores dos seus membros, investidos da missão de levar a música da Bretanha aos círculos exteriores do mundo celta. Assim, na árvore genealógica do grupo descobrem-se os ramos Skolvan, Galorn, Kornog e La Mirlintantouille. Os Barzaz fazem da beleza, por vezes rude, da música bretã uma arma contra aqueles a quem a história da Bretanha, “secreta e controversa”, incomoda, os mesmos que “ocupam os lugares do poder” e que interpretam essa História “de forma a melhor poderem dispor das suas gentes e do seu tempo”.
            Os Battlefield Band são a instituição folk por excelência da Escócia. “Forward with Scotland’s Past” é o seu lema. Existem há décadas e passaram incólumes pelas tempestades. Da formação original resta o vocalista e teclista Alan Reid. O espírito, esse, manteve-se. Traçaram ao longo de uma vasta discografia os contornos da tradição escocesa sem nunca voltarem costas as problemas sociais do presente. Juntam o canto da tragédia à dança e aos ritos da terra. O novo álbum, “Quiet Days”, é mais intimista que os anteriores. Uma pausa e um segredo entre o clamor da batalha.

A voz e o fogo

            Sexta-feira é dia ibérico. Atuam Uxia e os Sétima Legião. Para a cantora galega Uxia significa o regresso ao Intercéltico, depois da sua aclamada participação, no ano passado, no projeto "Bailia das Flores” de Tentúgal. Uma voz, belíssima, com frequência desaproveitada. Esteve ligada ao grupo Na Lua onde a sua luz depressa começou a ofuscar os restantes músicos. Disse uma vez numa entrevista: “O importante nun cantor ou cantora é que prevaleza a voz; calquera instrumento que a oculte dificulta a sua comprénsion.” Não por acaso, o melhor trabalho dos Na Lua, “Estrela de Maio”, é aquele em que as vocalizações de Uxia surgem com maior proeminência. Abandonou entretanto o grupo para gravar um álbum algo incaracterístico, “Entre Cidades”, onde é sensível a falta de uma direção definida. Porque não reatar as maravilhas do seu primeiro trabalho a solo, “Foliada de Marzo”?
            Quanto aos Sétima Legião, cujo último álbum, “O Fogo”, foi mal recebido por alguma crítica, vão apresentar no Intercéltico um espetáculo especialmente concebido para o efeito que privilegiará as conotações célticas da sua música. Ao vivo, costumam criar um ambiente festivo, bastante diferente da melancolia que caracteriza os trabalhos discográficos da banda. Veremos se é desta que acendem o fogo.

Celebração

            Absolutamente a não perder, o terceiro e último dia do Intercéltico. Com dois grupos de passado diferente mas ambos de qualidade musical fora de série: Barabàn, de Itália, e Chieftains, os reis magos da folk irlandesa.
            Formados em Milão em 1982, os Barabàn dedicam-se ao estudo e interpretação da música do Norte de Itália, em particular da Lombardia e do Piemonte. Em disco, assemelham-se em sonoridade aos La Ciapa Rusa, seus vizinhos piemonteses. Baladas, canções de embalar, cantos satíricos e militares ou de protesto, cantigas de jograis e outros modos característicos da tradição (jigas, valsas, alessandrinas, monferrinas, curentas, sestrinas, “carmagnolas”, tuninas, “saltarellos”,…), recolhidos, na maioria, por Aurelio Citelli e Giuliano Grasso, compõem o reportório básico dos Barabàn, servido pela utilização de instrumentos típicos da região: o “organetto” diatónico, flautas, ocarinas, sanfona e, claro, o “piffero” e a “musa” (incluindo a variante solista, a “piva”), a gaita-de-foles do Piemonte. Vão ser decerto, a par dos Barzaz, uma das revelações do festival.
            Finalmente, os Chieftains encerram em glória o festival. Já não há palavras que cheguem para traduzir a importância desta banda lendária. Hoje, os Chieftains, como se tivessem uma varinha mágica, transformam em ouro tudo o que tocam. Depois de anos e anos a levarem ao mundo a música da Irlanda, passaram a trazer a música do mundo para a Irlanda. E a tranformá-la por dentro. Levaram os caminhos da Irlanda ao encontro da China (“The Chieftains in China”), da Bretanha (“Celtic Wedding”) e dos Estados Unidos (“Another Country”). Cumpriram o ciclo nesse ritual apolíneo de convergência dos povos celtas que é “Celebration”.
            Autêntica universidade da tradição onde lecionam alguns dos melhores instrumentistas da Irlanda, os Chieftains iluminaram diversos aspetos da cultura e da História desta nação onde ainda habitam as divindades antigas. O rock presta-lhes atualmente vassalagem. Eles retribuem e convidam músicos desta área para participar nos seus álbuns, mantendo intacta a originalidade e a magia. Mas acabam sempre por regressar ao altar verde da única religião que professam – a música da ilha que lhes é exterior e interior, a Irlanda. O novo álbum, “The Celtic Harp”, tem a participação da Belfast Harp Orchestra. Nesta segunda vinda dos Chieftains a Portugal, ouçam-nos com os sentidos alerta, mas também com o coração.
            Todos os espetáculos no Teatro Rivoli, com início às 21h30.


ATIVIDADES PARALELAS

CONFERÊNCIAS: “L’Art des Celtes”, 1 de Abril, no Institut Français do Porto, e “L’Europe des celtes, Véme-Ier siècle a. C.”, dia 2, na Faculdade de Letras do Porto, ambas por Venceslas Kruta.

EXPOSIÇÕES: “Instrumentos Populares Portugueses”, 26 de Março a 18 de Abril, na Rua da Reboleira, Ribeira.
“Suonatori e Strumanti Popolari de’ll Apenninni”, 30 de Março a 3 de Abril, no Teatro Rivoli.

ARTESANATO: “Pablo Leal – Um artesão galego”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.

VIDEORAMA: “Imagens Musicais Intercélticas”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.

DISCOS/REVISTAS: “A música celta e a folk europeia”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.

TEMPO LIVRE: “Vidicuestla – o jogo de xadrez celta”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.


PEREGRINOS

O Festival Intercéltico do Porto, chegado à quarta edição, tornou-se uma instituição. Mais do que uma série de espetáculos musicais de música tradicional, o Intercéltico é um local de peregrinação onde, no princípio da Primavera, arribam os apreciadores e amantes destas músicas com raiz na eternidade.
São três dias de festa no verdadeiro sentido da palavra; de celebração, de “diálogo e convívio entre as diferentes músicas e tradições de povos com um passado comum”, como afirma a organização. Os concertos podem ser melhores ou piores, mas o ambiente é único. Come-se bem, bebe-se melhor, ouve-se música, mergulha-se no âmago de uma cultura que também é a nossa. “Celta”, ou “céltico”, o termo está hoje na moda. Mas por detrás do folclore e das imagens que vão formando o “puzzle” de uma Europa genuína, está o amor a uma causa e muito trabalho. Porque nem só de música vive um festival, a organização (desde a primeira hora da responsabilidade da equipa da MC-Mundo da Canção) compreendeu a necessidade de um enquadramento à altura. É assim que, uma vez mais, o Intercéltico apresenta uma lista de atividades paralelas, que neste anoo incluem conferências, exposições, videorama, artesanato, banca de discos e revistas e a iniciação ao vidicuestla, o antigo jogo de xadrez celta.
Para completar o círculo (ou a espiral…), refira-se ainda a publicação, à semelhança do que aconteceu nos anos transatos, de um livro-programa de 160 páginas sobre o festival, com informação detalhada sobre toda a programação, incluindo textos e discografias dos artistas presentes, uma “bibliografia céltica”, uma compilação das leis (delirantes) dos Brehons, ou seja, as leis antigas da Irlanda, e até esquemas pormenorizados de algumas jogadas de vidicuestla… Um elogio especial para Mário Correia, d organização, pelo notável trabalho de investigação e divulgação levado a cabo.
Agora é tempo de fazer as malas, rumar ao Porto e viver um fim-de-semana diferente. Num tempo e num local que parecem ter sido tocados pela magia de Merlin. Na companhia das fadas, duendes e elfos que existem, porque a imaginação os materializa. O Festival Intercéltico é essa teia cruzada do mito com a atualidade, do ancestral com o moderno. Ritual de comunhão com a nossa identidade mais profunda.

Pela lei e pela grei [4º Festival Intercéltico do Porto]


4 NOVEMBRO 1992

PELA LEI E PELA GREI

Chieftains, Battlefield Band e Barabàn são os nomes já confirmados para o Festival Intercéltico do Porto, cuja quarta edição terá lugar nos próximos dias 1, 2 e 3 de Abril, no Teatro Rivoli. Este ano vais er possível conhecer os “suonattori” dos Apeninos e participar num torneio de xadrez celta. Se levar vacas, tenha cuidado. Se é mulher, prepare-se, ou não para gritar. E nunca, mas nunca, puxe os cabelos a um padre.

Para além daquelas bandas, encontra-se em fase de negociações a vinda de um grupo da Bretanha (que poderá bem ser um dos nomes sonantes da editora Keltia) e outro da Galiza. Prevê-se ainda, à semelhança das edições anteriores do festival, a atuação de uma banda portuguesa.
            Algumas atividades paralelas – que muito contribuíram para o sucesso e ambiente de festa que caracterizaram as anteriores edições do Intercéltico, este ano, como sempre, organizado pelo MC - Mundo da Canção – estão já confirmadas, como uma exposição sobre os “suonattori” ou tocadores de “piffero” (instrumento de palheta dupla parente da bombarda) e “musa”(gaita-de-foles) dos Apeninos, que será acompanhada de um “workshop” dirigido por Giuliano Grasso, membro dos Barabàn.
            Para os estudiosos, apreciadores ou simples curiosos de tudo o que se relaciona com a cultura celta, está reservada uma surpresa: a apresentação e realização de um mini-torneio de xadrez celta, uma variante deste jogo com regras próprias, descoberta a partir de estudos e recolhas efetuadas na Irlanda e na Bretanha.

Bárbaros

            Uma pequena exposição alusiva ao tema “As antigas leis da Irlanda”, com possível edição de uma brochura, dará a conhecer certas idiossincrasias da personalidade dos antigos irlandeses. Legislação que nada deixava ao acaso e sobre matérias tão díspares como os direitos cívicos do gado bovino e da mulher (desde que gritasse) ou ofensas dirigidas a um membro do clero (desde que fosse virgem). Por exemplo, era ilegal “expor uma vaca ao perigo derivado dos cães vadios e dos piratas”. Sobre as práticas, presumivelmente sexuais, levadas a cabo sobre lençóis ou sobre a relva, a lei era um pouco mais elaborada: “se uma mulher concordar em ir para a cama ou para trás de uma sebe com um homem, este não pode ser considerado culpado mesmo que ela grite. Mas se ela não concordou, ele é culpado, desde que ela grite”. Dos desagravos aos membros do clero se diz que “por puxar os cabelos a um bispo casto, a multa é de um bezerro de um ano por cada vinte cabelos arrancados”. Estas leis permaneceram em vigor até ao século XVI e ao reinado de Isabel I, altura em que foram abolidas, por terem sido consideradas “bárbaras”.

Embaixadores

            Dos grupos já agendados no programa, os Chieftains, cabeças de cartaz da edição número quatro do Intercéltico, são o que se pode chamar uma lenda viva da Irlanda e os representantes legítimos da música tradicional desta Ilha, no resto do mundo. Estiveram em Portugal em Setembro passado, na Festa do “Avante!”, onde rubricaram uma atuação com sabor a alguma frustração. Nem o local nem o contexto eram os mais propícios para uma música feita de pormenores e subtilezas estilísticas, manifestando os Chieftains, logo nessa ocasião, o desejo de voltar. Em condições diferentes, de modo a poderem tirar o máximo partido da excelência instrumental em que são mestres. Até Abril, vale a pena recordar ou descobrir discos como “The Chieftains 5”, “Bonaparte’s Retreat”, “Boil the Breakfast early”, “The Chieftains 10”, “Celebration”, manifestos inspirados da tradição musical da Irlanda. Enquanto não chega o novo disco, intitulado “Another Country”, no qual os Chieftains voltam a desempenhar o papel de anfitriões, num trabalho de levantamento das relações entre a música irlandesa e a “country” americana que inclui como convidados, entre outros, Emmylou Harris, Ricky Scaggs, Chet Atkins, Willie Nelson e os Nitty Gritty Dirt Band.
            Não menos importantes, os Battlefield Band desempenham na Escócia o mesmo papel que os Chieftains na Irlanda, de embaixadores da música tradicional do seu país no estrangeiro. Autêntica instituição, a banda chegou ao ponto de organizar anualmente um festival próprio, o “Battlefield Band’s Highland Circus” e de emprestar o seu nome a uma corrida de cavalos. Da formação original dos Battlefield Band, e ao fim de 15 anos de carreira, apenas resta o teclista e vocalista Alan Reid que virá a Portugal acompanhado por Alistair Russell (guitarra, cistro, voz), Iain MacDonald (Highland pipes, flauta, whistle) e John McCusker (violino, whistle, acordeão, teclados).
            Nos concertos, os escoceses são um espetáculo de energia e entusiasmo. Sempre imprevisíveis, é frequente alternarem em “medleys” diabólicos, temas tradicionais como outros estilos musicais, desde canções dos Beatles e dos Creedence Cleawater Revival a clássicos de rock’n’roll, versatilidade essa patente no álbum ao vivo “Home Ground”, gravado em 1989. De uma discografia que compreende até à data 10 álbuns de originais, recomenda-se “Home is where the Van is” (1980), “There’s a Buzz” (1982), “Celtic Hotel” (1987) e o volume dois de “Music in Trust” – de parceria com a harpista Alison Kinnaird – banda sonora de uma série televisiva sobre os patrimónios arquitetónico e paisagístico da Escócia. Todos eles com o selo Temple e disponíveis no nosso país.

Lombardos

            Originários da região de Milão, os Barabàn poderão ser uma das revelações do festival. Movendo-se numa área próxima à dos piemonteses La Ciapa Rusa, os Barabàn fazem o levantamento de temas tradicionais da Lombardia, região do Norte de Itália, a Leste do Piemonte, adaptando-os, numa fase seguinte, a arranjos da sua autoria que incluem o uso imaginativo dos computadores. A música resultante é ao mesmo tempo complexa e espontânea, terna e extrovertida, sem nunca perder de vista a visão intuitiva do mundo e o telurismo que caracterizam o modo de ser tradicional. Os Barabàn são Vincenzo Caglioti (acordeão, voz), Aurelio Citelli (voz, teclados, sanfona, percussão), Giuliano Hrasso (violino, viola, voz), Guido Montaldo (“piffero”, flautas, clarinete, voz) e Paolo Ronzio (guitarra, “piva” [outra variante de gaita-de-foles], “musa”, bandolim, voz). Têm gravados três álbuns: “Musa di Pelle, Pinfio di Legno Nero…”, na Madau Dischi e, na editora própria Associazione Culturale Barabàn, “Il Valzer dei Disertori” (considerado pela “Folkroots” o melhor álbum de música tradicional italiana de 1987) e “Nequane”, um disco espantoso, na linha de “Faruaji”, dos Ciapa Rusa, inspirado num ritual de invocação à chuva celebrado na localidade de Valcamonica. “Naquane” e “Il Valzer dei Disertori” vão ser editados brevemente em Portugal pelo Mundo da Canção.

Lua Extravagante - Lua Extravagante


Pop Rock
11 DEZEMBRO 1991

OS FAVORITOS DA LUA



LUA EXTRAVAGANTE Lua Extravagante
LP/MC/CD, EMI – Valentim de Carvalho

Música lunar. Da noite e das marés da voz. Vitorino, Janita e Carlos Salomé, e Filipa Pais cantam o lado nostálgico de ser português. É um disco de canto sofrido, de doridas harmonias. É também a prova de que é possível, em Portugal, fazer discos que voltam as costas à moda e ao efémero. Em “Lua Extravagante” não há canções que pisquem o olho à salada radiofónica. Há somente, e não é pouco, a dignidade do canto e da música vivida por dentro. A transmissão de experiências que dizem da maneira como costumávamos ser. Cruzam-se vivências da cidade (Lisboa, sempre presente, até nos antigos azulejos da cervejaria Trindade, que a capa, belíssima, retrata) e do campo. As palavras do povo encontram-se com as do poeta Pessoa, no fado e na distância. Em frente, o escuro da noite e a ilusão do mar.
            “A Ilha” abre “à voz duma monção”. Vitorino pegando ainda e sempre no filão dos Descobrimentos, observados pelo prisma do sonho do qual não se regressa. O canto solta-se nos “amores primeiros”. Lua-cheia. O tema do mar regressa no romance popular “Nau Catrineta” sobre a cadência grave da sanfona de Carlos Guerreiro, instrumento que acrescenta à música da Lua Extravagante o tom exato de profundidade, de intemporalidade da “noite antiquíssima”.
            Janita Salomé dá voz aos festejos de um casamento cigano do séc. XIX, em “Cante cigano”, cerimónia solar, de união. Filipa Pais, a voz feminina da Lua, brilha em “Adeus ó serra da Lapa”, de José Afonso, “Andorinha negra” e “Cantiga da ceifa”, um tema popular beirão recolhido por Giacometti. A altura da serra, o voo, a vastidão da grande planície alentejana, cantados por Filipa Pais, com amplitude e elevação. “Fado Pessoa” proporciona a Vitorino mais uma bela interpretação, desta vez das palavras de Fernando Pessoa, num fado em que o acordeão, muito parisiense, tocado pelo próprio, sugere a alma desenraizada no vazio urbano, “cercada com um andaime, a casa por fabricar”.
            O segundo lado do disco peca por não conseguir manter o nível do primeiro. Descontando a já referida “Cantiga da ceifa”, os temas normalizam-se nas interpretações vocais, de Janita Salomé, em “Margarida do convento” e “A bela do castelo sem portas” (pese embora, neste último, a qualidade das palavras, escritas por Janita, sobre o amor na sua vertente mágica e esotérica, iniciação ao “amor virgem, fonte de toas as nascentes”); de Carlos Salomé, em “Lua de papel” (destaque para a guitarra de José Peixoto); e de Vitorino, no tema que fecha o disco – “Lua extravagante” –, que de novo canta o mar e os amores (“de amores nasce a lua extravagante”), dos marinheiros e de Lisboa, retomando, no som e na temática, a canção inicial, a concluir o ciclo lunar: “Oh lua vê lá dos teus cuidados com a gente/porque o cabo maus não quer/deixa que o meu barco volte ao cais/donde parti confiante/Lisboa não pode esperar mais…”. É a hora? (7)

Smithereens - Blow Up


Pop Rock
16 de Outubro 1991

SMITHEREENS
            Blow Up
                LP/MC/CD Capitol, distri. EMI-Valentim de Carvalho

Que mal tem a velha formação guitarra-baixo-bateria como suporte clássico para uma pop sem pretensões? Absolutamente nenhum. Os Smithereens saem-se a contento da tarefa, através de um discurso coerente e de uma fluência instrumental que lhes permite passar, sem cerimónia nem perda de credibilidade, do riff coleante de “Top of the pops” às reminiscências soul de “Too much passion”.
Liderados pelo vocalista-guitarrista Pat DiNizio, a banda de New Jersey tem energia e uma dose aceitável de fantasia. Tanta, que chegam a definir um dos temas, “If you want the sun to shine” (composto de parceria com Julian Lennon), como o cruzamento de “I am the walrus” com “Kashmir”, dos Led Zeppelin. Há em “Blow Up” a diversidade possível, permitida pela imaginação dos músicos (“Evening dress”, por exemplo, é uma balda inspirada num texto de Mishima) ou pela participação ativa dos músicos convidados (Alex Acuna e Carlene Carter, os mais ilustres). Ideal para os apreciadores da pop a horas certas. (6)

Robyn Hitchcock & The Egyptians


Pop Rock
16 de Outubro 1991

ROBYN HITCHCOCK & THE EGYPTIANS
            Perspex Island
                LP/MC/CD, A & M, distri. Polygram

Decididamente, a pop resignou-se ao papel de discípula da tradição. Mas se Hitchcock não hesita um momento em firmar-se nessa tradição, tal não implica a inexistência de um discurso personalizado e original. Pelo contrário, partindo de modelos tão sólidos como os Pink Floyd, da época Syd Barrett, os Beatles psicadélicos das “sitars” e gurus, ou os Byrds (comparação inevitável se levarmos em conta que Peter Buck, dos R. E. M., toca guitarra em oito temas, num deles, “So you think you’re in love”, retomando sem vergonha a chave melódica de “Turn turn turn”), consegue traduzi-los numa linguagem autónoma, reveladora de um compositor/intérprete suficientemente amadurecido para não recear o confronto com o passado.
“Perspex Island” é misterioso e noturno, vagando por sonoridades aquáticas e sombrias (“Vegetation and dimes” ou “She doesn’t exist” são dois bons exemplos deste lado lunar), em contraste com o tom extrovertido de “Oceanside” e “Child of the universe” que abrem respetivamente o lado 1 e 2 do disco. A cada audição revelam-se novos pormenores: a textura íntima dos arranjos, os insuspeitados recantos emocionais que a voz vai desvelando.
Desaconselha-se pois o mergulho de cabeça. Convirá antes imergir lentamente, de modo a permitir a observação cuidada de cada nível de profundidade. Por debaixo da superfície espelhada de guitarras surge do fundo submarino um mundo de melodias insinuantes que aos poucos dá a conhecer o mistério. Michael Stipe e o trompetista Mark Isham contribuem para o adensar das brumas. (8)

Robert Wyatt - Dondestan


Pop Rock
9 de Outubro 1991

ROBERT WYATT
Dondestan
CD, Rough Trade, import. Contraverso

            A primeira impressão recolhida diz respeito à vaga de fundo do órgão – o mesmo de “Rock Bottom”, um velho órgão Riviera, que o músico voltou a pôr a funcionar, como que dando um acordo tácito a esse reviver de um passado traumático que acabou por resultar numa obra, sob todos os aspetos, fabulosa. Mas não só o órgão omnipresente traz de novo à superfície os rasgos e a visão amarga desse álbum – temas como “The sight of the wind”, “Catholic architecture” (onde não faltam os perturbantes suspiros de “Alifie”/“Alifib”, no álbum de 74) e “N. I. O. (new information order)” remetem de imediato para as sombras e para a majestosidade de “Rock bottom”. “Worship” opta pela via “jazzy” de “Ruth is stranger  than Richard”. Em “CP jeebies” e “Dondestan”, curiosamente, Robert Wyatt recupera o estilo silabado e o timbre da vocalização no seio dos Soft Machine. No primeiro caso próximos da serena desolação de “Moon in June”, no segundo das palpitações pop dos volumes 1 e 2.
            “Left on man” e “Lisp service” (composto de parceria com Hugh Hopper) partem dos pressupostos deixados em aberto por “Old rottenhat”, com uma maior amplidão nos arranjos, a voz projetada de forma mais solta e extrovertida. “Shrinkrap” apresenta o “rap” (a quem Wyatt se declara rendido) de acordo com a sua visão pessoalíssima, alternando as sacudidelas da voz e a experimentação de estúdio com o piano e delírios fonéticos semelhantes aos de Ivor Cutler, na sequência final de “Rock bottom”.
            Com a particularidade de os primeiros quatro temas terem sido compostos por Alfreda Benge (que, como de costume, assina também a pintura da capa), “Dondestan” funciona, ao nível de textos, no previsível registo de comentário sociológico a que a sensibilidade do músico empresta conotações intimistas. A ironia prevalece sobre a demagogia. Como nos versos de “New information order”: “Privatizem o mar. Privatizem o vento. O próprio tempo é para se vender. Devia pagar-se imposto para respirar.” *****

28/09/2017

The Robert Fripp String Quartet - The Bridge Between

Pop Rock

13 Abril 1994

THE ROBERT FRIPP STRING QUARTET
The Bridge Between
Discipline, import. Contraverso

DO BARROCO AO TORMENTO

Não, não se trata disso. O ex-líder dos King Crimson e inventor das “frippertronics” não entrou na onda dos Kronos, Balanescus e afins. O String Quartet é simplesmente a designação, algo irónica, da reunião de Fripp com o California Guitar Trio e um quinto guitarrista, Trey Gunn, no “grand stick”, que supomos ser uma variante do “Chapman stick”, uma guitarra eletrónica com efeitos, sem caixa. Temos assim cinco guitarras, elétricas e acústicas, mais “frippertronics”, num álbum gravado ao vivo (sem ruído de palmas…) em Maio e Junho do ano passado, com posteriores pormenores de pós-produção efetuados em estúdio.
“The Bridge Between” é, sob certos aspetos, um álbum surpreendente. Surgido num período em que Robert Fripp se debate com problemas legais relacionados com a sua antiga editora, a EG, que levaram, inclusive, a que o disco seja uma espécie de edição de autor saído com o selo Discipline, título e logotipo de um álbum antigo dos King Crimson, há nele uma fúria dissimulada, a par da habitual tendência do guitarrista para a teorização. Neste caso, e não por acaso, concentrada num pequeno manifesto em que Fripp faz o enquadramento do ato criativo e do papel desempenhado pelo músico na sociedade contemporânea, acompanhado de um rodapé em que alerta os músicos para a defesa intransigente dos seus interesses em matéria de direitos de autor, contra o “statu quo” vigente de atropelos constantes a esses direitos.
Quanto à música, prolonga e refina a tendência para a harmonização, por vezes quase sinfónica, das guitarras, característica do anterior projeto de Robert Fripp, a League of Crafty Guitarists. Uma música que alia a energia do rock (“Kan-non power”) à complexidade contrapontística da música barroca (em três peças de Johann Sebastian Bach, “Chromatic fantasy”, “Contrapunctus” e “Passacaglia”), à citação “kitsch” de “Yamanashi blues”, para terminar no longo e perturbante tema final, “Threnody for souls in torment” (canto lúgubre para as almas em tormento) que soa a Arvo Pärt no inferno e confirma antigos e xamanísticos interesses de Fripp pelo tantrismo e pela temática do apocalipse. Acima de tudo a ressalta a ideia de que Robert Fripp continua atento e atuante. Com a sua guitarra a arder com a mesma intensidade de sempre. (8)


Pós-GNR - Mimi Tão Pequena E Tão Suja

Pop Rock
1991

MARGEM DE CERTA MANEIRA

PÓS-GNR
Mimi Tão Pequena e Tão Suja
LP/MC/CD Polygram



Não é difícil, a um músico minimamente inteligente e informado, ultrapassar a vulgaridade vigente no meio rockeiro nacional. Difícil é fazê-lo de forma original, isto é, partindo de códigos conhecidos, chegar a qualquer coisa diferente e realmente nova – tarefa que hoje em dia poderá parecer a qualquer compositor pouco menos que impossível. O mundo da música transformou-se numa torre de Babel, onde todas as linguagens, e as suas infinitas interpermutações, se multiplicaram até ao ponto limite do total esvaziamento de sentido, auferindo, à falta de melhor, de uma legitimidade permitida pela “dignidade” da atitude sintetista, chamemos-lhe assim.
“Mimi Tão Pequena e Tão Suja!” (bom título para uma fita neo-realista-saloia) cabe desde que articulado com um mínimo de coerência e o apoio suplementar da muleta conceptualizadora.
“Mimi” recua aos anos 70, mais concretamente à vertente menos sinfónica do progressivismo e ao bruitismo controlado dos King Crimson à época de “Red”. Grande parte do álbum avança por esse som saturado, no qual assumem papel preponderante os diversos enunciados da guitarra elétrica e as deambulações de um baixo poderoso e bem articulado, instrumentos que o próprio Rua manuseia com o talento que se lhe reconhece.
“Scales & solos” junta ao tom geral de opressão a violência extra, aprendida na vertigem “hardcore”. Por entre o massacre (aumentado pelo som resultante de uma prensagem péssima que acentua ainda mais a sensação de “massa” sonora, talvez a querer dar razão ao “sujo” do título…), irrompem pequenos pormenores, mais ou menos exóticos, como os que são criados pelo xilofone da David Maranha (dos Osso Exótico) em “Hardcore II”, por um solo de piano (excelente Miguel Megre) de súbito rendido à serenidade, em “Independança II”, ou pelo humor e fraseado guitarrístico muito Eugene Chadbourne de “Strange perception”.
Passando ao lado do par de temas que abre o segundo lado, num registo mais próximo da pop, acaba por ser a londa sequência instrumental que encerra o disco a suscitar a maior parcela de interesse: “The next album” (será de facto o próximo álbum todo assim?), incursão demolidora nos meandros do ruído, que as linhas melódicas do baixo, do piano e a inspirada e fragmentada prestação de Rui Azul, no saxofone, impedem de mergulhar no caos. Uma referência final aos textos, escritos e cantados em inglês com a fluência do estudante aplicado que procura alinhar uma sequência de frases sem errar. Mesmo assim, há erros (ou gralhas?): “Trough” em vez de “through”, “Tokio” em vez de “Tokyo”, “Demon” pronunciado “démon” em vez de “dimon”. Pormenores que não comprometem, mas aos quais não ficaria mal prestar de futuro mais atenção. Vítor Rua e a sua “Mimi” não salvam o rock português, mas situam-se orgulhosamente à margem dele, com a convicção dos que procuram arriscar. (7)

26/07/2017

Déanta - Ready For The Storm

Pop Rock

23 Novembro 1994

VENCER OS FANTASMAS

DÉANTA
Ready for the Storm (9)
Green Linnet, distri. MC-Mundo da Canção

Na corrida imparável para os lugares da frente na grande maratona da música tradicional da Irlanda, os Déanta aceleraram a fundo. Em competição direta com os Dervish na categoria de “principiantes” (noção algo relativa, tendo em conta a tenra idade com que na ilha se começa a pôr em prática o amor pela música), a primeira etapa foi vencida por estes últimos com “Harmony Hill”, contra a estreia dos Déanta.
“Ready for the Storm” responde à letra e ultrapassa sem apelo nem agravo “Harmony Hill”. Um passo de gigante dado por este grupo de cinco raparigas e um rapaz que alcançaram já a maturidade e um nível médio de execução instrumental que lhes permitirá, a breve prazo, entrar em competição direta (se é que não o fazem já) com as “trutas” da primeira linha (Altan, Skylark, Patrick Street, Open House, La Lugh, De Danann… Quanto aos Chieftains, insistimos em “arrumá-los” num local à parte…).
“Ready for the Storm” não sofre dos tremeliques nervosos que de algum modo tolhiam os movimentos dos músicos no álbum anterior. Melhorou a escrita e a capacidade inventiva dos arranjos, evidente desde logo no tema de abertura, “The mighty clansmen”, de uma riqueza harmónica extraordinária, bem como aquela energia mágica que parece possuir as melhores bandas irlandesas e as faz ultrapassarem-se a si próprias (os Dervish, por exemplo, que o digam, a propósito da sua atuação no último Intercéltico), liberta de forma exemplar no medley “Rocky reels”.
Deirdre Havlin está a tornar-se um caso sério na flauta. Basta escutá-lo no citado tema de abertura ou nos diálogos com o “bodhran” de Clódagh Warnock, em “Hammy Hamilton’s jigs”, e com o violino de Kate O’Brien, em “The Landsdowne lass”. Mary Dillon, por seu lado, perdeu a timidez e projeta com outra convicção e naturalidade a sua voz. Eficaz, no clássico crioulo “The lakes of Pontchartrain”, ágil e profunda como um oceano de emoções, em “Culloden’s harvest” (escrita pelo escocês Alastair McDonald sobre uma antiga canção gaélica do mar), simplesmente emocionante, em “Ready for the Storm”, um “standard” em potência.
Se “Déanta”, sem dúvida um bom álbum, não conseguia manter o mesmo nível elevado do princípio ao fim, sofrendo de uma ocasional “anemia” e de uma excessiva contenção (resultante dos tais receios – infundados – de falhar), em “Ready for the Storm” é difícil detetar pontos a seu desfavor, dada a maneira como o grupo conseguiu, como já dissemos, libertar-se dos fantasmas do passado. Os Déanta estão agora preparados para enfrentar não só qualquer tempestade, como a responsabilidade de receber e transmitir o testemunho musical de uma tradição imorredoira.

11/04/2017

Neil Young & Crazy Horse - Weld

Pop Rock
30 de Outubro 1991

COMBUSTÃO ESPONTÂNEA

NEIL YOUNG & CRAZY HORSE
Weld
2 x LP/CD, Reprise, distri. Warner Music

Documento oficial da digressão “Ragged Glory/Don’t Spook the Horse”, “Weld” constitui desde já um marco nos álbuns ao vivo.
Se “Time Fades Away” cortava de forma violenta com o passado acústico de “After the Goldrush” e “Harvest”, e “Live Rust” (1979) encenava já essa violência desmedida que, a partir da segunda vida dos Crazy Horse, parece ter-se tornado a forma preferencial do músico responder aos ataques do mundo, “Weld” é a explosão de raiva definitiva, a hemorragia final da alma, o curto-circuito incendiário das guitarras e dos sentimentos em carne viva.
Mergulhando ainda mais fundo do que em “Ragged Glory”, Neil Young prossegue a introspeção demencial e a denúncia de uma sociedade doente que sempre se encarregou de fazer de lhe fazer a vida negra. O som, desde as primeiras espiras de “Hey, hey, my, my (into the black)”, é um murro no estômago, documentário abrasivo de uma “bad trip” que na descida aos infernos encontra a derradeira redenção.
Dizer que as guitarras de Neil Young e Frank Sampedro ou o baixo de Billy Talbot são musculados e poderosos, no ponto limite em que o calor se transforma em chama, ép pouco. Do princípio ao fim do disco, assiste-se como que à agonia do rock’n’roll, coincidente com o massacre em que a si próprio se imola com o fogo da paixão. Auto-sacrifício ou operação de extermínio, pouco importa, se o resultado assombra com o esplendor dos grandes incêndios. “Love to Burn”, assim se chama um dos temas do disco, eis do que trata “Weld”, no paroxismo da vertigem, na ânsia desmedida de tudo querer conter num grito.
Ouve-se “Weld” com a sensação do cataclismo com a sensação de se assistir ao cataclismo iminente, à erupção de um vulcão, ao colapso de qualquer coisa que não ousamos interiorizar. É nesse ponto de impossível equilíbrio que Neil Young tem vindo a construir a sua obra e a sua vida. A morte de amigos, a proximidade constante do perigo, juntamente com a fé cega nas virtualidades da música como forma exclusiva de exorcismo, conferem-lhe mais do que o estatuto de sobrevivente, o de herói.
Enquanto Dylan se debate entre as contradições de uma mensagem esvaziada de sentido e o absurdo de querer manter vivo um mito que deixou de o ser, Neil Young recusa olhar para o passado, preferindo, em vez disso, investir, de guitarra em punho, contra o futuro, deixando, pelo caminho, o presente devastado.
Não por acaso, o compositor de “Rust never Sleeps” (cuja sequela ao vivo, “Live Rust”, contribui com seis temas para “Weld”, devidamente atualizados e prontos a lançar na fogueira) retoma um tema de Dylan, “Blowin’ in the wind”, de forma a anular-lhe quaisquer conotações que ainda pudesse ter com a mística de Woodstock, substituindo a sua carga pacifista pela gangrena trazida pelos ventos corrosivos que hoje sopram sobre o mundo. Neil Young destrói o passado, para, num segundo momento de refluxo, o evocar na sua vertente mais negra: a introdução instrumental de “Blowin’ in the wind” remete de imediato a memória para a desolação e a violência de Jimi Hendrix.
Como em “Star Spangled Banner”, a mesma hecatombe de “feedback”, o mesmo trucidar da guitarra à procura de sonoridades impossíveis e da pulsação primordial do rock. No limite dessa apoteose de ruído e da desagregação, faz sentido a inclusão, no formato de CD, de um tema adicional, “Arc”, 37 minutos de “’feedback’ orquestral” que a folha promocional se encarrega de definir como “chiqueiro e distorção com alguns fragmentos vocais”.
Nunca, como em “Weld”, Neil Young esteve tão perto do Apocalipse. Os minutos finais do épico “Like a hurricane” resolvem-se num caos grandioso de ruído, manifestação epidérmica dessa dor imensa que, no final, obriga o música a gritar: “No pain!” Para Neil Young, cada vez mais “Tonight’s the night”. Sabemos isso e continuamos a arrepiar-nos (10).