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24/02/2020

TUXEDOMOON - Cabin In The Sky


Y 2|JULHO|2004
roteiro|discos

tuxedomoon
cabine de provas

TUXEDOMOON
Cabin in the Sky
Crammed, distri. Megamúsica
8|10

Notícia excitante: os Tuxedomoon estão vivos. Melhor ainda: gravaram um álbum novo. Chama-se “Cabin in he Sky” e é, pelo menos, tão bom, como os álbuns clássicos da banda de São Francisco que se estreou com “Half-Mute” na mesma editora dos Residents e assinou a obra-prima “Desire” ou o angustiante e subterrâneo “Suite en Sous-Sol”. Corriam os anos 80, o tempo passou entretanto, mas o melhor permanece intacto – uma sonoridade única e canções que parecem querer desmoronar-se a qualquer instante mas acabam por se aguentar orgulhosas na sua própria lógica. O saxofone e teclados de Steven Brown e o violino de Blaine L Reininger fazem o som. Um romantismo estranho (é costume dizer-se, e é capaz de ser verdade, que os Tuxedomoon são a banda mais europeia da América) e estranhas combinações de letras em italiano (“Diario di un egoista”, “Luther blisse”) e ambientes cinematográficos fazem as canções. A folha de promoção não poupa nos elogios e, ao tentar definir “Cabin in the Sky”, garante que o disco suscita no ouvinte “impressões simultâneas de Miles Davis, eletrónica alemã, Paolo Conte, Radiohead, Debussy, ciber-ciganos, Michael Nyman, Velvet Undergound e uma dúzia de outros”. Descontando o prazer que é sempre ver citado Paolo Conte, o álbum é Tuxedomoon “vintage”, ainda que, desta feita, o grupo se tenha socorrido das colaborações de John McEntire, Aksak Maboul, Tarwater, Marc Collin, Juryman e DJHell. Mais a propósito, a mesma folha, abre um catálogo de pintura e lança os nomes de Pollock, Bacon, Miro e Dali. Já faz mais sentido. Cada canção é um híbrido que abarca várias influências, constituindo-se em quadros de disformidade e de uma beleza que atinge os píncaros do surrealismo em “La Piu Bella”, construído a partir de um sample com a voz de um anónimo italiano. No extremo oposto, “Here ‘til Xmas” é electro, graças à presença de DJHell, o mesmo que que há dois anos gravou uma série de remisturas de um dos temas mais antigos dos Tuxedomoon, “No Tears”, e “Chinese mike” combina elementos dos Cabaret Voltaire, respiração asmática, uma secção de sopros e batida falsamente “house”, enquanto “The island” cola ondas de poluição a ruído rosa, sintetizador borbulhante e um saxofone lânguido, num tom mais experimental semelhante ao dos álbuns a solo de Peter Principle, e “Luther blisset” (de novo com letra em italiano) é irresistível na junção de ritmo tecno com “free jazz”. Há os habituais ambientes de feira, nostalgia gelada, um baixo poderoso (“A Home away” esmurra-nos o estômago), acordeão, programações poderosas, jazz de bordel e grandes canções, como “Baron brown”, entre a declamação e uma “catchiness” com algo a fazer lembrar os finlandeses Wigwam. A atitude já não é tão punk como nos primórdios mas a inteligência e a desfaçatez continuam intactas.
Os Tuxedomoon tornaram-se uma das grandes bandas do séc. XXI e “Cabin in the Sky” tem a elegância de um fato Armani.

17/02/2020

Abrir a boca de espanto [Brian Eno]


Y 18|JUNHO|2004
roteiro|discos

brian eno
abrir a boca de espanto


BRIAN ENO
Here Come the Warm Jets
8|10

BRIAN ENO
Taking Tiger Mountain (By Strategie)
10|10

BRIAN ENO
Another Green World
10|10

BRIAN ENO
Before and After Science
10|10
Virgin, distri. EMI-VC

Brian Peter George St. Jean le Baptiste de La Salle Eno. Brian Eno para os amigos. Derrubou, remodelou e fugiu a sete pés da pop, criando com a sua “música discreta” as fundações de um edifício novo, com a etiqueta de “ambiental”, para a eletrónica dos nossos dias.
Mas no princípio era o artifício e a experimentação com as cores e formas da pop, lidas, relidas e regurgitadas como algo desfasado das normas ou, para usar o léxico do próprio, desenhadas de acordo com as “estratégias oblíquas”. Eno acabara de abandonar os Roxy Music, onde a força da sua imagem fazia espumar de ciúmes o “dandy” Bryan Ferry. Plumas e lantejoulas e um sintetizador de trazer por casa transitaram para “Here Come the Warm Jets”, álbum de fazer torcer o pescoço no esforço de encontrar referências apaziguadoras. Não havia. Aqui a pop desta Ruth Marlene aristocrata de cabelo ralo e pintura borrada era convulsão, as melodias pareciam existir desde sempre para se acoitarem em arranjos de um “não músico” que integrava o erro e o acaso no seu modo de agir. Alguns temas são demolidores. Diretos, lancinantes e, apesar disso, correndo ao pé-coxinho, como “Blank Frank” e o hino que arde, “Baby’s on fire”. As guitarras de Robert Fripp e Phil Manzanera serviam de rastilho. Pelo meio, experimentação e falsas baladas orgulhosamente pimba como “Some of them are old”. Bowie aprendeu a lição.
“Taking Tiger Montain (by Strategy)” é a primeira obra-prima. Inspirado nas “estratégias oblíquas” e na pintura de Peter Schmidt, refina a pop do disco de estreia. Impossível classificar estas canções que soam familiares e alienígenas, simples e incrivelmente complexas. Eno, o não-músico, descobria em cada nota, em cada reviravolta nas manipulações de estúdio, o prazer da criança que brinca com o desconhecido. “The true wheel” utiliza uma máquina de escrever para fazer o ritmo e a hipnose final, “Taking tiger mountain”, é uma lenta ascensão em espiral, “trompe l’oeil” auditivo cujos círculos sugerem um movimento que é pura ilusão.
Com “Here Come the Warm Jets” (uma das bíblias do pós-rock) Eno inicia o seu processo de afastamento da pop para se aproximar de uma música feita de fragmentos. A voz apaga-se para deixar brilhar a eletrónica e os efeitos especiais, as melodias ocultam-se e revelam-se em jogos de cabra-cega mas tudo se ilumina numa saudade de ouro em “Golden hours”, pura evocação não se sabe bem de que passado glorioso. Fripp, Phil Collins e John Cale são alguns dos participantes deste álbum feito de coincidências e confidências sussurradas demasiadamente baixo para lhe furtarmos um sentido único.
“Before and After Science” deve ser arrumado na estante dos discos fundamentais dos anos 70. É o retorno às canções construídas como colagens, mas agora envoltas na névoa minimalista resultante do contacto entre Eno e a dupla germânica Cluster, num tema como “By this river”, influência decisiva nos dois sentidos, já que também Moebius e Roedelius se deixariam enredar nas malhas do inglês nos seus “Cluster & Eno” e “After the Heat”. “Before and After Scince” anuncia ainda a new wave, no esplendor da sua energia concentracionária. “King’s lead hat” é uma homenagem, com título em anagrama, aos Talking Heads e “No one receiving” e “Kurt’s rejoinder” fazem boa companhia ao lado da trilogia do Bowie de Berlim, para quem este disco viria a constituir leitura obrigatória.
Eno inventou a sua própria ciência e passaria os anos seguintes a teorizar sobre ela. Viria a seguir a fase dos murmúrios, das metamorfoses do céu sobre Manhattan e da música sonhada num leito de hospital com a qual reinventaria, como John Cage, o silêncio. Antes, porém, vale a pena agarrar estes quatro álbuns que fazem a pop abrir a boca de espanto...

The Yardbirds - For Your Love... + Having A Rave Up With The Yardbirds


27|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro


YARDBIRDS

For Your Love, Heart Full of Soul & Others
8|10
Having a Rave Up With The Yardbirds
9|10
Sunspots, distri. Trem Azul

É comprar bilhete e recuar até ao tempo dos blasers justos, camisas, gravatas e “look” a fingir de atinado. Meados dos anos 60, o “cocktail” de drogas, “blues” e chá das cinco anunciava já o psicadelismo mas pouco tempo antes das fl ores e cabeleiras começarem a crescer o som pop inglês rimava “rhythm ‘n ‘blues” com uma veia melódica por vezes barroca. Os Yardbirds foram gigantes desta época. Com escassa discografia editada no país de origem, viram os seus melhores trabalhos serem lançados do outro lado do Atlântico, como “Little Games” e os agora remasterizados “Having A Rave Up With The Yardbirds”, de 1966, e “For Your Love”, antologia de 1965. “For Your Love”, título de canção que se tornaria “standard” dos anos 60, é mais energético e r&b em sangue, com a guitarra, já a escorrer ácido, de Jeff Beck que nesta altura tomara o lugar no grupo antes ocupado por outros dois futuros “guitar heroes”, Eric Clapton e Jimmy Page, e as vocalizações de Keith Relf (formaria os Renaissance e morreria poucos anos mais tarde). “Rave Up”, mais subtil, tem “blues” demoníacos, clássicos como “Heart full of soul” e “Evil hearted you” e proto-prog (“Pounds and stomps”). A pop inglesa de guitarras nasceu e mordeu aqui.

13th Floor Elevators - The Psychedelic Sounds Of 13th Floor Elevators


27|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

13TH FLOOR ELEVATORS
The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elevators
Sunspots, distri. Trem Azul
9|10

Do alto desta pirâmide 300 doses de LSD nos contemplam. 300 foram as vezes que, segundo as crónicas, Rocky Erickson ingeriu a substância mágica. Viria a flipar e a ser preso mas ainda teve tempo para gravar, em 1966, uma das obras-primas do psicadelismo. Subiu de elevador até à pirâmide de 25 andares e de lá fez a apologia de uma nova visão da realidade. “The Psychedelic Sounds...” é essa viagem guiada até ao cume, com direito a sexo, experimentação, sonhos lisérgicos e, no último tema, a redescoberta de Deus. Não se pense, porém, que Rocky era do tipo “flower power”, “California dreamin’”, incenso e tangerinas. A sua loucura é amarga e o som dos 13th Floor tresanda a rock de garagem. Em estados alterados de audição corre-se o perigo de não encontrar a saída. A bússola e o relógio deixam de funcionar em mantras (imaginem os Velvet sem a auto-disciplina) onde a guitarra de Stacey Sutherland, a voz e a cabeça de Rocky e o tempo reverberam, se deformam, encolhem e dilatam, e em canções como “Splash 1” que estabelecem a comunicação telepática entre Syd Barrett e Rocky. Tiveram ambos mau fim. Deixaram ambos traçado um caminho estreito que conduz às estrelas. Ou ao lado escuro da lua.

Joni Mitchell - The Complete Geffen Recordings


27|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

JONI MITCHELL
The Complete Geffen Recordings
4xCD Geffen, distri. Universal
6|10

Os anos 80 não foram gentis para Joni Mitchell nem ela foi gentil para os anos 80. “Wild Things Run fast” (1982), “Dog Eat Dog” (1985), “Chalk Mark in a Rain Storm” (1988) e “Night Ride Home” (1991) foram (des)considerados desfasados da época. A cantora canadiana retorquiu, queimando os “eighties” como a década da decadência e do materialismo. Mas Joni condescendeu e estes quatro trabalhos podem ser considerados os mais fracos da sua discografia. Afastada da veia jazzística e experimental de “The Hissing of Summer Lawns”, “Hejira” e “Mingus”, entrou de cabeça na pop mas deu-se mal com a superficialidade de uma música formatada no lado mais plastificado da eletrónica. Se “Wild Things” pode ser apreciado como operação de simplificação, com entrada no rock FM, “Dog Eat Dog” desce aos baixios da electropop e “Chalk Marks…” afunda-se no lodo de colaborações pouco enriquecedoras (Peter Gabriel, Willie Nelson, Tom Petty e Billy Idol). Em “Night Ride Home”, felizmente, Joni sacudiu a poeira e as ramelas dos olhos e arranjos, despertando de novo para as grandes canções. Os discos, remasterizados, ressurgem em caixa e capas de cartão que são simplificações das originais.

Dan Ar Braz - A Toi Et Ceux


Y 27|FEVEREIRO|2004
roteiro|discos

DAN AR BRAZ
A Toi et Ceux
Columbia, distri. Sony Music
5|10

Dan Ar Braz fez pela vida. O guitarrista bretão que acompanhou Alan Stivell nos primeiros anos deste harpista, palmilhou a estrada que conduz ao castelo das estrelas. Hoje, como Carlos Nuñez ou os Chieftains, Braz é uma estrela que se pode permitir estourar orçamentos gordos, convidando artistas folk e rock de nomeada. O fundador do megaprojeto “Héritage des Celtes” enveredou a partir desse disco pelo caminho mais fácil, tentando chegar às massas pela via do choradinho “new age” e do postal do misticismo céltico, cozidos no caldeirão das fusões. Em “A Toi et Ceux”, sem grandes trutas no estúdio (só Mairtin O’Connor, no acordeão), Braz vende mais um bocadinho da alma ao diabo. “Mary’s dancing”, cocktail ligeiro de celtismo e música africana, com arranjo pindérico, e “Look around you” não abonam a favor. Do outro lado, “Dan’s fisel” oferece um bom desempenho de Ronan Le Bars nas “Uillean pipes” apesar do tema, bem como “Orgies nocturnes” (com boa bombarda e guitarra elétrica prog), recuarem exatamente ao ponto, nos anos 70, em que Alan Stivell anunciou ao mundo o folk rock bretão, no álbum “Chemins de Terre”. O resto, quase tudo, foi de mais.

13/02/2020

Noturnos do velho Nick [Nick Cave]


Y 20|FEVEREIRO|2004
roteiro|ao vivo

noturnos do velho Nick

Não há perdão para os nossos pecados. Deus é o “croupier” de um casino onde se joga a salvação. Quando o navio vai ao fundo os primeiros a abandoná-lo são os ratos. O capitão do navio é um rato. Salve-se quem puder do naufrágio e rezem-se as últimas orações aos santinhos que restam. Nick Cave, que atua por duas noites no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a 24 e 25, já rezou tudo o que tinha a rezar mas está por saber se a sua alma ficou da cor de um lençol ou suja como antes, nos tempos dos Birthday Party e da fase perigosa dos Bad Seeds.
Há quem lhe chame cínico e o ache gasto. Ele está simplesmente mais velho e, provavelmente, farto de pregar no deserto. O seu último álbum, “Nocturama”, tem extremado as opiniões. Nada de novo na capela, viciou-se nos Evangelhos, bradam uns. Está mais depurado e – olhem lá – tão furioso como nunca, garantem outros, agitando a bandeira do último e arrasador tema, “Babe, I’m on fire”, 15 minutos de incêndio que reduzem o mundo a cinzas.
A verdade, a existir alguma, está, como quase sempre acontece, no meio termo. “From Her to Eternity” leva o seu tempo e o cantor australiano avançou pelo caminho das pedras. Como Diamanda Galas, Cave é prisioneiro da culpa, que sublima através de uma arte apocalíptica e de uma religiosidade com os contornos da vingança.
O rock não chega para expiar os pecados mas serve para martirizar. Cave e Galas recusam ser mártires e, como tal, optaram por infligir aos outros o martírio – a praga, a peste, a paixão (“Babe, I’m on fire” é a sua mais recente e universalista ferroada) que, de entre as doenças da alma, é mais letal. Por isso recuaram ambos à matriz do “blues” e do “gospel”, só que em vez da auréola dos santos deixaram crescer chifres na cabeça e exalam um hálito a enxofre. O “bom filho” não o é, certamente, de Deus. “And the Ass Saw the Angel”? É bem possível, pois Lúcifer tem esse estatuto.
Musicalmente, Nick Cave roda, sem dúvida, em torno de sonoridades e obsessões que não são novos na sua obra. A entrada de Blixa Bargeld, dos Einstürzende Neubauten, para os Bad Seeds significou o reforço do esqueleto e da musculatura do grupo mas mesmo essa terapia parece já não surtir efeito sobre um “rocker” que, aparentemente, em definitivo deixou de o ser. Porém, a poesia e o terço de “Nocturama” continuam a deixar marca. O hábito pode provocar sintomas semelhantes aos da morfina.
Ou será que “Babe, I’m on fire” é o primeiro passo do eterno retorno? Nesta litania cujo objetivo é idêntico ao dos Neubauten, isto é, a demolição sistemática das casas (“Home is in my head”, cantava alguém e Cave chamou ao seu primeiro DVD, recentemente editado, “God is in the House”…) que sustentam e abrigam os medos de cada um de nós, e a incineração dos crucifixos na pira da loucura.
Um ex-seminarista, Ernest D. Gengenbach, escreveu, no auge do período do Surrealismo, uma obra intitulada “A Experiência Demoníaca”. Salvou-se ou não, no final, leiam o livro. Nick Cave anda por aí, a desviar-se ou, vá lá saber-se, a dar comida à mão aos seres noturnos. O branco da capa de “Nocturama” é o da noite.

NICK CAVE
LISBOA|Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
Pç. Império. Dias 24 e 25, às 21h30.
Tel.: 213612444 . Bilhetes entre €50 e €30

Paco de Lucía - Cositas Buenas


20|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

PACO DE LUCÍA
Cositas Buenas
Ed. e distri. Universal
7|10

Melhor “Cositas Buenas” do que nada. Paço de Lucía, um dos magos do flamenco, é incapaz de fazer maus discos. O “duende” pode estar mais ou menos adormecido dentro de si mas pode sempre esperar-se alguma chama. Sem o esplendor de álbuns como “Entre Dos Aguas”, “Siroco” ou “Almoraima”, “Cositas Buenas” impele à dança dervíchica e induz à sensualidade, dando voz e corpo à modernidade que tem sido desde sempre apanágio do guitarrista. O flamenco funde-se com o jazz rock no título tema e em “Antonia”, e com África, em “El dengue”. Estão presentes as palmas, os olés de incitamento e, na melhor de todas estas coisinhas boas, a voz de Camarón de la Isla (há aqui um enigma por resolver: as composições são novas, a voz não parece samplada mas a verdade é que o cantor há mais de dez anos que deixou o mundo dos vivos…) e a guitarra de Tomatito, em “Que venga el alba”. As bulerias, tangos, rumbas e tientos de “Cositas Buenas” mais do que fogo são água que refresca. A limpidez com que Paço de Lucía a faz nascer permanece impoluta.

Ani DiFranco - Educated Guess


Y 13|FEVEREIRO|2004
roteiro|discos

ani di franco
declaração de independência

ANI DI FRANCO
Educated Guest
Righteous Babe, distri. Megamúsica
8|10

O caso de Ani di Franco faz pensar. Com alma educada na folk e corpo tatuado no punk, a cantora de 34 anos, natural de Buffalo, é a lutadora por excelência contra o sistema, a “workaholic” infatigável, adepta do “faça você mesmo”, mas também a compositora inspirada e uma “true original” que, álbum após álbum (e já lá vão 17), vem traçando uma obra ímpar no panorama dos “singer songwriters” norte-americanos. Se longe vão os tempos em que Ani percorria os EUA de costa a costa no seu Volkswagen de molde a satisfazer os compromissos de um calendário de 200 concertos por ano, a verdade é que, nem por isso se aproximou mais do que quis ou que devia do “mainstream”.
            “Educated Guest” é tão marginal ao sistema como qualquer dos seus discos anteriores, ao ponto de assegurar, sozinha, a composição, interpretação, gravação e misturas das 14 canções. Mas Ani foi mais longe desta vez. Além do prodigioso trabalho de som que torna sonicamente fascinante um álbum quase exclusivamente elaborado com a voz e uma guitarra acústica, com esporádicas pontuações de piano elétrico ou de “wind chimes”, é a própria música que evidencia uma riqueza e complexidade que neste álbum conseguem ser tão ou mais cativante do que alguns dos seus trabalhos mais “produzidos”, como “Little Plastic Castle” ou “Up Up Up Up Up Up”. Ani declama, examina-se ao espelho em “overdubs” vocais, tira da guitarra refrações e reflexos de eletrónica artesanal ou aumenta a ressonância até às dimensões de uma caverna.
            Depois, o seu sentido de ritmo e de dinâmica contradizem tudo o que a indústria musical exige atualmente das “divas” pop. Ao invés de fórmulas adocicantes e “groove” sintético, a música de “Educated Guest” elimina tudo o que não tenha a luminosidade do espírito e a textura sanguínea e musculada da carne. Implosões e explosões de palavras e frases de guitarra que tanto bebem no “blues” e no “jazz” como numa “folk” espectral ilustram um sentido intrincado do tempo e o desejo de experimentação, a par de uma elegância que jamais se dilui no novelo de canções psicológica e socialmente empenhadas. Ani apenas terá como concorrentes Joni Mitchell e, no caso de “Educated Guest”, o álbum mais “difícil” da cantora canadiana, “The Hissing of Summer Lawns”, sem os sintetizadores e as percussões africanas; e, esporadicamente, Annette Peacock, com quem partilha o gosto pela “spoken word” “swingante”, em que a acutilância e a ternura se confundem, em poemas apontados a alvos precisos, como “Grand Canyon” – uma raspagem ao relevo emocional e social da América e um retrato cruel dos seus habitantes, tão carregados de sarcasmo como de esperança – como ela, “born of the greatest pain/ Into a grand canyon of light”.
            Ani canta e “scata” como uma criança magoada, um sádico em busca de vítimas, uma “blueswoman” (por vezes mais próxima do misticismo descarnado de um John Fahey) em transe, uma sonhadora, uma guerreira. “Educated Guest” é a primeira grande declaração de independência da pop deste ano.

07/02/2020

O voo de pássaros cruéis no ar envenenado [Einstürzende Neubauten]


Y 13|FEVEREIRO|2004
música|einstürzende neubauten


Os edifícios podem ter-se desmoronado mas os Einstürzende Neubauten não desistem de esgravatar nos escombros. Depois de, no álbum anterior, terem feito amor com o silêncio, muniram-se, no novo “Perpetuum Mobile”, de pistolas de ar comprimido e da visão dos pássaros. Mas que ninguém se iluda: tresanda a miasmas.

O voo de pássaros cruéis no ar envenenado

Arrumaram no armazém os berbequins e os martelos-pilões dos primeiros álbuns. Mas apesar de já não sangrarem em palco nem espancarem pontes como faziam nos tempos em que destruíam tudo em seu redor, os Einstürzende Neubauten (EN) continuam tão ou mais ameaçadores do que antes. “Perpetuum Mobile”, o novo álbum, sussurra-nos perversidades aos ouvidos, reforçando a transição dos Neubauten do metal batido dos primórdios para os Neubauten das ventanias tóxicas. Em termos elementares e alquímicos, do fogo para o ar. “‘Perpetuum Mobile’ é o silvo da primeira viagem pelo ar. O próximo álbum será o som do seu impacto”, dizem eles na revista “Wire”. A terra aproxima-se e o choque pode ser brutal. Acautelem-se.
            Em “Perpetuum Mobile” a música do quinteto, de cuja formação original apenas restam Blixa Bargeld (também elemento dos Bad Seeds, de Nick Cave, grupo que abandonou recentemente para se dedicar às gravações do novo Neubauten), Alexander Hacke e Andrew Chudy, respira nas camadas altas da atmosfera mas o efeito nefasto dos gases venenosos não se dissipou. É verdade que já não há ciclopes armados de malhos para nos esmigalharem os miolos como acontecia nas obras de demolição “Kollaps” (1981), “Zeischnungen des Patienten O.T.” (1983) e os três volumes da antologia “Strategies Against Architecture”, que colocavam os EN na fila da frente da legião industrial, na sua vertente mais radical e niilista, a par dos Throbbing Gristle e dos primeiros Test Dept. e SPK, mas a violência, apesar de dissimulada, não se dissipou. A serração fechou as portas, a carne do talho apodreceu, o metal enferrujou. Porém, a viagem através do sofrimento não cessou. Hoje os Neubauten envergam “smoking” e arvoram um sorriso fino de crueldade nos lábios para, como os demónios de “Hellraiser”, nos romperem a pele com um bisturi.
            “Halber Mensch” (1985) e “Fuenf auf der Nacht Oben Offenen Richterskala” (1987) deram início à derrocada mas não puseram fim ao cataclismo. “Haus der Luege” (1989), inundado com esperma de cavalo, virava a página das perversões e com “Tabula Rasa” (1993) e “Ende Neu” (1996), incursões algo falhadas na eletrónica, os Neubauten prepararam o terreno no qual iriam semear as novas minas.
            “Silence is Sexy”, de 2000, trouxe o monstro para o campo das canções. Um silêncio de mau agouro a envolver um erotismo sonoro malsão, com palavras que se infiltram na mente como agulhas de ponta incandescente e sons regurgitados das regiões mais recônditas do inconsciente. “Perpetuum Mobile” pegou nesse silêncio carregado de ameaças e insuflou-o de ar comprimido, fazendo a música subir como um balão que esconde nas suas entranhas uma colónia de vermes. Já não há, como antes, tanques de guerra, estruturas de cimento e óleos pesados. Mas há pistolas de ar comprimido, sinos de loucura, papel, plástico e sirenes de alarme. Também percussões metálicas, como não podia deixar de ser, todavia mais maneirinhas. E pássaros. Não os que trazem consigo a Primavera mas aves cruéis como as de Hitchcock.
            Afinal de contas, os Neubauten não mudaram assim tanto. Desprezam, como sempre desprezaram, a indústria e o “mainstream” e, numa concessão às velhas estratégias de sova do passado, permitiram-se mesmo uma performance de percussão numa escada (não, não se trata de terem tocado na escada mas de tocá-la de facto, ou seja, dar-lhe uma carga de porrada).
            Eles subiram pelo ar. É de lá que desencadeiam tempestades. E é a altitude que lhes confere a visão do cimo, a visão do poder. Poder-se-á pensar que o convívio de Bargeld com Nick Cave serviu para aveludar o discurso e em “Perpetuum Mobile” não faltam canções (com melodias atrativas, pasme-se!) que dão razão a tal argumento. O disco esteve, de resto, para se chamar “The New Song”, o que também fazia sentido. Não se pense, porém, que “Perpetuum Mobile” é um mar de rosas. Quando menos se espera irrompem secções de eletro-acústica e música concreta (o segundo CD, um DVD-áudio em formato 5.1 “surround”, apenas legível em leitores de DVD e PC, é uma imersão no interior do som, enquanto matéria palpável) e “riffs” infernais que, curiosamente, lembram o trabalho pioneiro dos também germânicos Faust.
            Será ódio, será amor, o certo é que “Perpetuum Mobile”, apesar de cultivar, ainda e sempre, a agressão (ou o desporto, como adiante se verá…), não pretende ser repudiado mas ouvido. E discutido. Durante os vários meses de trabalho de estúdio os fãs do grupo puderam acompanhar, passo a passo, via Internet, as gravações, comunicando com os músicos e tendo acesso a demos. É também esse momento, ou movimento, de troca, que pauta o atual estado de coisas na organização Neubauten. Há um objetivo final (“a besta ainda não acordou por completo”, lê-se na letra de uma das canções) e os estrategas de Berlim conhecem-no (pudera, lá do alto, vê-se tudo com maior clareza!). Ponhamos também nós o nariz e as antenas no ar. Mas com cautela.
            Também à cautela, conversámos com Alexander Hacke, baixista do grupo. Falso alarme. O tipo tem sentido de humor.

            “Perpetuum Mobile” esteve para chamar-se “The New Song”…
            O título tem a ver com o processo de produção. “Perpetuum Mobile” é um maquinismo que se sustenta a si próprio. Foi o que tentámos fazer, contornar o sistema da indústria, e gravar um disco suportado pelas pessoas que gostam do que fazemos, sem a interferência de nenhuma editora.
            É importante sentirem que as pessoas gostam do grupo? Nos primeiros anos não parecia, com toda aquela agressão e violência…
Eu não lhes chamaria agressão e violência, mas entusiasmo (risos). Era mais como no desporto, aquela energia que é necessário acumular para se conseguir resultados. Houve quem visse nisso algo de patológico... Os Neubauten lidaram sempre com a investigação e a experimentação tecnológica. Fizemos “sampling” antes dele existir. Experimentamos igualmente ao nível da escrita e da dramatização, em pôr em prática determinados conceitos, mas é claro que também nos queremos divertir.
Foi por causa desse processo que o álbum levou quase um ano a fazer?
Mas foi o que gravámos em menos tempo! O anterior demorou três anos. O facto de termos todas aquelas pessoas a acompanhar a gravação obrigou a que chegássemos a horas ao estúdio (risos). Chegávamos lá e já estavam cem pessoas à espera. Tínhamos que mostrar trabalho.
Não era constrangedor?
Bem, elas “estavam” no computador. Mesmo as pessoas que não gostam do que fazemos, e havia uma ou duas dessas, o simples facto de estarem presentes já nos ajudava. Isso e centenas de mensagens de apoio. Mas não era propriamente uma democracia, submetermos cada decisão a sufrágio, do estilo: “Devemos usar um sol maior ou um sol menor?” (risos). Os nossos admiradores puderam ver-nos sem máscaras, ao contrário da maior parte dos artistas que se escondem e pretendem ser aquilo que não são. Para alguns terá sido como aceder a um “site” porno, pagar cinco euros para ter direito a alguma intimidade ou à ilusão de ficar mais perto… E houve os que ficaram desapontados, por não terem assistido a algo mais glamoroso ou misterioso.
Na “Wire” defendem ser este um álbum que reflete o “silvo do ar”. E que o próximo ilustrará o impacto na terra.
A frase é do Rudolf Moser, a típica declaração de um baterista (risos). Mas é verdade que o ar é o elemento mais presente na atual fase do grupo, em oposição ao fogo de antigamente. Antes púnhamos fogo em cada palavra das canções, nas apresentações ao vivo, fogo em todo o lado… Desta vez, quando começámos a trabalhar, colámos na parede um mural onde escrevíamos metáforas, sobre coisas que nos interessavam. Acabámos por notar que falávamos sobretudo de respiração, de murmúrios, de tempestades, de ventos. O ar tinha que ser o elemento principal do álbum.
Há outra perspetiva, a perspetiva aérea do observador, que controla de cima porque consegue ver o quadro completo dos acontecimentos…
Sim. Como os pássaros [uma das canções o disco tem como título “Um pássaro raro”]. A perspetiva do pássaro. Outro dos tópicos do disco é a “passagem”, a viagem, a mudança. Antes falávamos principalmente das estruturas interiores, neste álbum falamos de sair para o exterior, da transformação num novo ser.
Sim, mas e do ponto de vista do poder político? A partir de um helicóptero é possível à polícia controlar os movimentos de uma manifestação de rua, por exemplo…
Sim. Vigilância. Obviamente que não nos escondemos num buraco no chão (risos).
A vivência de Berlim continua a ser determinante?
Continuo a viver em Berlim mas passo grande parte do tempo fora. Agora é fácil. Os Neubauten começaram por ser uma banda de Berlim Ocidental, daí toda aquela agressividade contra um certo elitismo “arty” que se fazia sentir nessa parte da cidade. Havia idiotas que se sentiam bem assim, que achavam que não se devia receber influências do exterior. Com a queda do Muro, uma quantidade de putos irrompeu do lado oriental, trazendo novas ideias e criatividade.
As sonoridades de “Perpetuum Mobile” refletem também a relação do grupo com os objetos e os materiais enquanto artefactos sonoros e musicais. Como executam essa pesquisa?
Muitos desses objetos têm melhor aparência do que som. De certa forma os Einsturzende Neubauten têm a ver com uma maneira especial de olhar para as coisas e para a música. Há coisas que só consigo tocar com o grupo.
Como se sente na qualidade de executante de baixo elétrico, no meio de tipos que batem e tiram sons de toda a espécie de objetos estranhos?
Oh… Sinto-me muito feliz por fazer de “idiota” do grupo (risos). São só quatro cordas mas adoro as frequências baixas. O baixo foi sempre determinante na música dos Neubauten. Quando o anterior baixista, Marc Chung, abandonou o grupo fiz questão de ficar no baixo em vez de passar essa função a outro músico.
Os Neubauten representam a continuidade de uma certa tendência do krautrock, personificada por uma banda como os Faust?
Há dois grupos que marcaram a nossa sonoridade. Mais do que os Faust, citaria os Can, ao nível dos métodos de produção e de pesquisa, e os Ton Steine Scherben, um grupo de ativistas, politicamente empenhados, também dos anos 70, muito parecidos connosco nos primórdios. Na raiva.
Mas são os Faust que hoje em dia desempenham o mesmo papel que os antigos Neubauten, com sonoridades industriais e a destruição dos palcos por onde passam…
São loucos, uma cambada de sociopatas! (risos) Esses tipos são completamente pirados! (risos). No fundo são “hippies”. Nós somos pessoas normais que apenas fazemos o nosso trabalho.

EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN
Perpetuum Mobile
2xCD Mute, distri. EMI - VC
8|10

Mogwai foram reis só no final


CULTURA
SÁBADO, 7 FEV 2004

Crítica Música

Mogwai foram reis só no final

MOGWAI
LISBOA Paradise Garage, 5ª, lotação esgotada.

O Paradise Garage tem acústica deficiente, péssima visão da maior parte dos locais (a não ser que se meça para cima de 2,10 metros), calor sufocante em alternância com jorros de ar condicionado capazes de causar a rápida perfuração dos pulmões. Tudo somado dá “rock ‘n’ roll”. Na quinta-feira, os Mogwai aproveitaram como puderam estas características, atraindo ao local uma legião de fãs que bastante tempo antes do concerto já faziam fila de muitos metros para entrar no santuário.
Percebe-se que a banda escocesa conquistou inúmeros admiradores em Portugal. A expectativa era, por esse motivo, enorme, com muita gente preparada para receber o batismo do mítico “concerto da minha vida”. No final, porém, o entusiasmo deu lugar à moderação e, como consequência, a nova formulação daquele conceito, bem mais realista, de “o melhor concerto dos últimos dois dias da minha vida”.
Foi bom? Foi mau? Para os fanáticos foi obra ao vivo mais ou menos prima. Para os mais exigentes, mas que apesar disso não poupam nos elogios aos álbuns da banda, soube a desilusão.
Os Mogwai têm pouco para oferecer além dos habituais caudais de energia e eletricidade com que muitos grupos de rock compensam a falta de originalidade e de ideias. Hoje em dia, com a caução do “épico” e do “grandioso, oferecida de bandeja pelos Godspeed You Black Emperor! (gybe!), é fácil esmagar uma audiência com cascatas de decibéis e guitarras em descontrole. É o chamado “factor gybe!”, mais conhecido na gíria, por “vai acima vai abaixo”, técnica que, no Garage, os Mogwai mostraram saber dominar como ninguém.
O sistema “vai acima vai abaixo” traduz-se na prática pela alternância entre momentos contemplativos (leia-se com as guitarras a fazerem um zumbido baixinho, perdão, uma “drone”, enquanto o baterista descansa e limpa o suor e as baquetas) e grandiosos clímaxes (leia-se uma massa sonora indistinta e ensurdecedora) de catarse e intensa espiritualidade (ou fisicalidade, tanto faz, desde que seja “intensa”). Assim fizeram os Mogwai, para deleite de muitos que pareciam conhecer de cor os temas de álbuns como “Rock Action” ou o novo “Happy Songs for Happy People”. Mas mesmo esses torceram o nariz ao que se passou entre os momentos “altos” e os momentos “baixos” – uma acumulação de clichés de pós-rock, em piloto automático, musicalmente monótonos, a compor uma espécie de “muzak” limpa-ouvidos.
Mas, hélas, foi precisamente o ruído o elemento redentor. Os minutos finais, lancinantes, proporcionados por “My father my king”, massacraram no bom sentido e deixaram marcas. “Perdi o sentido da realidade, não sabia o que se estava a passar!”, foi um dos comentários escutados a propósito. Como se os Mogwai assumissem finalmente os limites da sua música, levada à apoplexia e ao apocalipse. “My father my king”, uma pulsação monstruosa que pareceu vibrar por uma eternidade (mas poderia ter durado ainda mais, a noite inteira, e então o concerto teria sido, de facto, antológico) e arrasou por completo, quer os sentidos quer as inutilidades gastas em tudo o resto. Então sim, os Mogwai conseguiram ser reis.

EM RESUMO
“My father my king”, o apocalíptico tema final, redimiu os Mogwai, num concerto que chegou a ser monótono

Sonhos no salão preto e prata [Bernardo Devlin]


6|FEVEREIRO|2004 Y
música|bernardo devlin

Nas nove implosões de “Circa 1999”, Bernardo Devlin pinta telas da mente para observar com a luz baixa. Quem já ouviu “Tilt”, de Scott Walker, deve munir-se da mesma lanterna.


Sonhos no salão preto e prata

“Circa 1999 (9 Implosões)” é um disco estranho. O seu autor, Bernardo Devlin, antigo elemento dos Osso Exótico, não lhe fica atrás. “Circa 1999” é o seu terceiro trabalho a solo, depois de “World Freehold” e “Albedo”. A capa é prateada, como um espelho, e o livrete inclui um caderno de folhas coloridas, sem qualquer texto – as cores, explica Devlin, correspondem a estados de espírito, a sua sequência aludindo à estrutura completa do disco.
            A música é uma tapeçaria densa de texturas eletrónicas e elementos acústicos que contaram com a participação dos convidados José Ernesto Rodrigues (violino), Nuno Leão e Pedro Lourenço (guitarras adaptadas), Luís Filipe Valentim (piano), Luísa Gonçalves (sintetizador), Miguel Sintra (percussão), Oliver Vogt (saxofone tenor), Damiano Tonegutti (oboé) e o quarteto de cordas Opus 4. Vítor Rua, dos Telectu, responsabilizou-se pelos arranjos e direção de cordas. Soa a música de câmara de fantasmas (ou fantasias?), acentuada pelas vocalizações semi-declamadas de Devlin, de textos nalguns casos impenetráveis que falam de luzes, visões e paixões geladas. Do tempo e da comunicação/incomunicação com o outro. E com o espelho.
            Olhos vítreos, cortados por uma tesoura, como no filme de Buñuel, em “Un Chien Andalou”. A luz das estrelas e da morgue. Do espaço sideral e de um quarto onde é impossível dormir. Um faroleiro aparece misteriosamente num dos temas… Como se fosse “A plague of lighthouse keepers”, “a praga dos faroleiros”, o épico de Peter Hammill, músico com quem Devlin mantém afinidades estéticas. E “Tilt”, outra referência de “Circa”, do Scott Walker inatingível… Devlin fala “à altura dos olhos”, título de uma das canções de “Circa 1999”.
            “Circa 1999” convoca as memórias desse ano, 1999, “em que a maioria das canções foram escritas” mas também marcado por “uma série de adversidades que tiveram que ser superadas”. As “nove implosões” do subtítulo indicam essa viagem para dentro. “O disco preenche um período de transição de uma atitude mais romântica, ou ultra-romântica, para um estado de espírito diferente, mais racional”.

            para ouvir no escuro. Mergulha-se na música de “Circa” como numa tina de mercúrio congelado. Os movimentos tornam-se difíceis, a bússola deixa de funcionar. “A diferença entre o exterior e o interior é muito ténue”. E pode ser “complicado entrar”, diz Devlin pausadamente, “muito complicado…”.
            Resta ao ouvinte inventar as suas próprias histórias a partir das palavras do disco que a razão disseca, ou não, conforme o tipo de viagem que pretenda seguir. A cabeça encarregar-se-á de escolher o itinerário mais conveniente. “Gosto de dar espaço à interpretação”. Liberdade por vezes mais aparente do que real, pois “Circa 1999” esconde armadilhas e outros perigos. “Havia verdade na luz/Quando me protegi/Operam marés na clausura/Que do alto vi/Foi impressão/Ou algo acenou/Em gesto tão real/Se elevou/Vigília/ De mundo de estátua/E êxtases/De visionários/Em convixão/Chama de mistérios/Sem conversão”, canta em “Novo alvor”. “Visões” que, segundo o seu autor “não fazem necessariamente parte do quotidiano, fora do momento da grande interiorização”.
            Devlin fala em “fornecer pistas” e em “referências”. Umas e outras são o que não falta em “Circa 1999”. “A explicação é muito complicada. É mais como uma pessoa quando se lembra de um sonho… Quando se descreve um determinado sonho a alguém está-se a dar uma pista extremamente diminuta em relação à informação que estava contida no momento”. Pistas “verbais”, sem “princípio nem fim”. Num país, Portugal, onde “as pessoas estão pouco habituadas a ouvir canções que tenham um trabalho literário mais aprofundado”.
            As canções de “Circa 1999” são como as cores. Dos vários tons de azul ao branco, com choque brusco com o negro e passagem ulterior para o castanho. Do céu para a terra. Símbolos de “um percurso cromático” – “quase um ‘travelling’ muito lento”, entre o claro e o escuro. Ou um “pôr-do-sol”, provavelmente o último antes do “novo alvor” de que fala a canção.
            Scott Walker, Peter Hammill, Syd Barrett, Edward Ka-Spel, dos Legendary Pink Dots. Arautos da alucinação. Devlin conhece bem a sua obra. “‘Tilt’ é uma referência, certamente, mas não o vou assumir como álbum-modelo. Percebo a comparação mas, por outro lado, são coisas distintas, não há, de modo algum, qualquer tentativa de recriação da mesma atmosfera…”. Psicadelismo? Um dos temas de “Circa 1999” tem como título “Cirros”. Os Pink Floyd gravaram “Cirrus minor”. As nuvens. “Não sabia, é fantástico! Os Floyd, do Syd Barrett, fizeram um disco fantástico, ‘The Piper at the Gates of Dawn’. “Hoje em dia já não consigo ficar deslumbrado pelo universo do rock e da pop, mas acredito que se for metido num saco, é nesse saco”. Hoje em dia, Bernardo Devlin prefere ouvir música clássica, “em casa, sozinho”. Rock, sobretudo “em casa dos amigos”. Pere Ubu e Roxy Music, por exemplo, atualmente até “mais inspiradores” do que Peter Hammill ou Scott Walker.
            Existe um lado mágico no disco. “O concretizar de algo faz parte de um processo de depuração extremamente pessoal. A energia é posta na concretização dos conceitos em causa. No decorrer desse trabalho há uma simbologia que se vai criando a ela própria”. As cores? “Também as cores. Mas não pretendo pintar a mesma tela repetidamente. Interessa-me fazer música que tenha vários níveis de escuta”.
            “Circa 1999 (9 Implosões)” é para se ouvir no escuro. Ou, no mínimo, “com as luzes baixas”. Na cabeça de Bernardo Devlin agitam-se já outros projetos: um “no formato 5.1 [som “surround”], chamado ‘Agio’, de canções eletrónicas e, em paralelo, um álbum duplo que se chamará “Vol. 3: As Duas Antenas do Caracol”. Risos. Fica a garantia: “Estou mesmo a falar a sério...”

Lisa Gerrard & Patrick Cassidy - Immortal Memory


Y 6|FEVEREIRO|2004
roteiro|discos

LISA GERRARD & PATRICK CASSIDY
Immortal Memory
4AD, distri. MVM
6|10

Agasalhem-se, bebam uma aguardente, cheguem-se perto da lareira. Lisa Gerrard, a voz de mármore dos Dead Can Dance e This Mortal Coil, passeia-se pelo cemitério numa noite de luar. “Immortal Memory” depura o gótico e as recriações de música antiga dos Dead Can Dance, com toques de “folk” e mitologia céltica (Cassidy é um compositor irlandês que a cantora conheceu quando trabalhava na banda sonora de “Gladiador”) e uma grandiosidade expressa em grandes massas orquestrais, numa produção tumular e em canções que sugam a alma até esta ficar da cor de um lençol. “The song of Amergin” poderia passar por Enya do outro lado do espelho, na banda sonora de uma versão de terror de “O Senhor dos Anéis”, com Lisa a invocar as entidades do além com os seus cânticos de diva sonâmbula. A partitura de Howard Shore para o filme de Peter Jackson parece ser, de resto, a principal referência de “Immortal memory”, ao nível dos arranjos, a julgar por orquestrações como as de “Maranatha” e “Amergin’s invocation”, esta a roçar a clonagem… Evocam-se lendas e rituais solenes, perdidos no tempo e na memória mas os grandes glaciares desta música que dança, mais ou menos ostensivamente, com a morte, têm efeitos bem mais profundos na obra dos The Zone, Lustmord ou nas inultrapassáveis e temivelmente belas litanias de “Zamia Lehmanni (Songs of Byzantine Flowers)”, dos SPK.