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11/07/2018

Hammill - um manifesto [Mário Z.]



MárioZ
08.11.2002 160455

Deparei com um texto-manifesto do Peter Hammill algures na net e decidi postá-lo aqui. Acho que exprime com felicidade a essência do que é o seu trabalho. Originalmente o texto - manuscrito - foi publicado como introdução a uma compilação qualquer, creio que ainda nos anos 70.


Vision


The aspects of vision are many,
and in addition there are reflections, illusions and hallucinations.
If some can be shared that makes us less alone.
If the dark can be faced, that makes us less afraid.
If we accept sight, that makes us more visible.

I feel the city caging me like an animal;
I am crushed by the weight of the system,
but I can still raise a - human- shout against it.
I feel the tension of doubt surge in me,
the release of eye-on-eye love,
the loss of childhood idols and aspirations;

I clutch the transitory prizes of knowledge and unspoken faith.
I feel the torch in my hand,
The spark in my heart,
and I must carry both as long as I can.
We all have our torches;
but lone flame-bearers do not make a procession of humanity.

It has been, and remains, my hope that through songs
vision can be shared and enhanced.
As for me, disappearing like the Cheshire Cat
with hardly even my smile intact,
I can still look at you only through the camera.
There is more urgent vision than that.
Listen to yourself.



Saudações

Mário

__________________
If I gave you just a little song
would that be enough
to save your life
or is the knife already turning in my hand?

Fernando Magalhães
08.11.2002 170526

Caro Mário

Está aqui tudo, de facto, senão relativamente aos "conteúdos" (esses que o tempo e a experiência vão moldando e transformando), pelo menos em relação às intenções e orientação geral da obra de PH.

O texto é, nesse aspeto, luminoso.

O problema com que já te deves ter deparado (o mesmo com que eu me deparei e deparo, de resto...) tem a ver com um "problema" com que todos os fãs de Hammill se debatem: por um lado a vontade imensa de partilhar esta luz imensa que jorra da obra musical e poética do autor em questão, por outro, e isto pode ser frustrante, a noção de que é impossível conseguir esta partilha com quem ainda não INTERIORIZOU todo o universo hammilliano que, em última análise, sendo de uma UNIVERSALIDADE quase heroica, começa por ser uma EXPERIÊNCIA PESSOAL INTENSÍSSIMA, de COMUNICAÇÃO com as palavras e a música.

Como tu bem disseste aqui há dias, a música e os poemas de PH revelam-se no contacto direto (interior), na sensação de identificação que se estabelece entre ele, autor, e cada um de nós, recetor/ouvinte/leitor.

Só se gosta verdadeiramente da obra de PH e dos VDGG quando chegamos aquele ponto em que achamos que esta música e estas palavras nos pertencem, nos transmitem qualquer coisa de vital, como se fossem um espelho da nossa própria humanidade.

É impossível apreciá-los de FORA, como também decerto já te apercebeste. Podemos achar a música interessante, original, forte, etc etc etc, mas o clique apenas acontece quando tem lugar o tal sentimento de identificação.

Hammill atinge o inconsciente (Jung chamou-lhe o ULTRA-consciente...). O milagre está em que a sua voz, a sua poesia e o seu génio enquanto compositor (e, já agora, pianista, guitarrista...), constituem as ferramentas ideais para a transmissão dessa tal VISÃO enunciada no texto que transcreveste.

De resto, tudo o que acabei de escrever, está bem explícito nesse manifesto - o desejo de partilha, mas também a distância, a solidão e o isolamento...

Penso que, por esta altura, já compreendes os motivos que me levam a considerar o Peter Hammill o maior músico/compositor da música popular dos tempos atuais (numa edição da Mojo comparavam-no, em importância, ao F. Zappa e a...Picasso!!!).

Tudo o mais é segredo. Sagrado. Ou...

"the least we can do is wave to each other"

saudações hammillianas

FM

Fernando Magalhães
08.11.2002 170531

Faltou acrescentar que esta identificação/comunicação a que me refiro é de uma natureza algo diferente, e mais profunda, do que aquela que em geral se estabelece com a obra da maioria dos músicos (por melhores que sejam) pop.

Ela funciona ao nível do mito, dos arquétipos psíquicos do homem, daí a "pancada" que sentimos no embate (no bom sentido) com os sons e as palavras de Hammill.

"A Plague of lighthouse keepers" (e, numa outra perspetiva, a sequência "Gog/Magog", de "In Camera") leva-nos a subir até à mais alta das montanhas, à mais alta das solidões ("The tower", repara...). Nietzsche, de resto, também esteve lá.

FM

Fernando Magalhães
08.11.2002 180626

Passando do PH para os MAGMA, estou curioso em saber a tua reação. O CHRISTIAN VANDER é outra figura (e esta assumidamente Nietzschiana...), mas no sentido da magia negra (pela qual, diga-se de passagem, o PH também se interessou nos primeiros anos de carreira, parece que os outros músicos dos VDGG andavam um bocado assustados, como já li algures...). A música dos MAGMA (que o PH ouvia e apreciava) é totalitária e assustadora, mas num sentido diferente da do PH. Imagina se Wagner fizesse parte de um grupo rock...

Depois há a língua inventada por ele, os concertos de oito horas, os solos arrasadores de bateria, a vertente Coltraniana...

Já ouviste alguma coisa?

FM

Novos P. Hammill e Thomas Brinkmann



Fernando Magalhães
07.11.2002 140236

Desiludiram-me ambos.

"Clutch", de Peter Hammill, o tal álbum de guitarra acústica (mas não só...), não adianta nada e relação à anterior discografia. Se as letras evidenciam a qualidade de sempre (aqui mais personalizadas e pessoais do que nunca, uma das faixas, tocante, fala da relação com uma das suas filhas), sobre o avanço inexorável da idade e a sensação de perda, a música achei-a pobre, sem ideias originais, mero PH vintage.

Já "Row", o "novo" (trata-se de material antigo antes editado em vinilo, como acontecia com um CD anterior, "Rosa") de Thomas Brinkmann, é música a metro. Beats e mais beats (ou melhor, sempre o mesmo beat...) arrastando-se por faixas de 6 e 7 minutos, com as velhas fórmulas de sempre. pela primeira vez em relação a um disco deste alemão, fiquei com a sensação de que a simplicidade que sempre elogiei em discos anteriores, é aqui sinónimo de pobreza de ideias.
Vou ouvir de novo, mas a primeira impressão não é nada animadora...

FM

05/07/2018

Discos que rodaram ontem [Mário Z.]



Fernando Magalhães
02.10.2002 170559

Ainda me faz uma certa confusão estar a falar contigo com tanto à vontade sobre o PH... : D

Não há dúvida que te tornaste num verdadeiro "Hammill addict" (há milhares, espalhados um pouco por todo o lado, para quem o músico e o grupo são uma espécie de religião).

O tipo, além de ser um músico e um poeta genial, tem uma cultura impressionante. Sabe de filosofia, poesia, religião e (só há puco tempo soube isto, no artigo de 14 págs. sobre os VDGGG que saiu recentemente na Mojo) fala fluentemente...8 línguas!

Ah...além do Coltrane, o PG cita mais alguns dos seus "heróis" no tal artigo da Mojo, incluindo compositores clássicos.
Lembro-me que, no início de carreira, também costumava mencionar a sua predilção pelos...AMON DUUL " e pelos MAGMA (estes últimos, uma banda que talvez constitua para ti outra "revelação").

saudações hammillianas

FM

PS-Ainda na Mojo, ele define a sequência final do "In Camera", "Magog (in bromine chambers)", como "música concreta". E então aquela voz que se faz ouvir no meio desse tema (e que por acaso nem é do PH...), é de gelar a alma! Arrepiante! O fim da humanidade!...

FM

Peter Hammill, info please [Mário Z.]



Fernando Magalhães
24.09.2002 150359

Ok, com prazer.

Em termos de som, a coisa está um nadinha melhor do que com os VDGG.

Mesmo assim, no caso da obra-prima e melhor disco a solo do PH (que equiparo, em qualidade, ao "Pawn Hearts"), "In Camera" (1974), a gravação está longe da perfeição. Mas a música dá para impressionar, mesmo assim.

Além do "In Camera", são excepcionais, em registos diferentes:

- Chameleon in the Shadow of the Night (73)
- The Silent Corner and the Empty Stage (74)

(os 2 anteriores a "in Camera", ao quais se poderá juntar a o álbum de estreia, um primor de pureza e idealismo, "Fool's Mate", 71)

- Nadir's Big Chance (o disco "punk", 75)

- Over (um dos maiores discos de baladas de sempre, 77)

- The Future Now (78) + PH7 (79) + A Black Box (80) - a "trilogia" electrónica a "preto e branco".


Os discos dos anos 80 são muito bons, sem dúvida, mas serão talvez demasiado standartizados, estilo "PH vintage", sem grandes surpresas.

Os anos 90 valem a pena por:

- "Out of Water" (90, sempre a crescer nas minhas preferências, estranho)
- Fireships (92)
- Roaring Forties (94)
- Xmy Heart (96)
- Everyone you Hold (97)
- This (98)
- None of the Above (2000)

Há mais, claro...

E tens as 2 versões (de 1991 e 1999) da ópera "The Fall of the House of Usher", inspirada no conto homónimo de Edgar Allan Poe...

saudações hammillianas

FM

PS-Não tenho tempo para notas mais detalhadas sobre cada disco, pelo menos por agora (3 páginas de Rolling Stones p/ escrever p/o Y...)


Fernando Magalhães
24.09.2002 231105

Er...dos anos 90, para fazer distinções,teria que os ouvir de novo - mas são todos bons! :D

Quanto aos restantes álbuns que cito, pertencem todos à linha "Hammill hardcore", para usar o teu termo.
"Chameleon..." e "The Silent Corner..." estão muito na linha dos VDGG, mais progressivos e diversificados, alternando baladas (sobre a infância, a religião, a solidão..) com divagações de space rock e delírios cósmico-existenciais.

"Nadir's..." é rock, à maneira dele, claro! :D

Mas tenho ideia de que serás, para já, sobretudo sensível à tal trilogia formada por The Future Now, PH7 e A Black Box.

Quanto ao "In Camera", recomenda-se não seguir demasiado perto quer a música quer os textos, sob pena de graves danos na sanidade mental. "Tapeworm" é o rock de um deus. "Gog"/"Magog (in bromine chambers)" a BSO do Apocalipse-numa-pessoa-só! Terrível e grandioso.

FM

23/05/2018

aquisições, obrigado Fernando e, já agora... (Jorge Silva)



Jorge Silva
11.07.2002 160409

ajudas-me aqui?,
indica-me os dois ou 3 melhores discos de cada um dos nomes q vou lançar:
robert fripp,
julian cope,
yes,
peter hammill,
syd barrett,
jefferson airplane,

vi um disco do daevid allen chamado "banana moon", com o robert wyatt, vale a pena?

obrigado, sol para todos!

Fernando Magalhães
11.07.2002 170507

Ok. sempre às ordens!  :) :O

Ora bem, então apanha aí:

ROBERT FRIPP: Exposure (estreia a solo, com fabulosos participações vocais do...Peter Hammill)

God Save the Queen/Under Heavy Manners (com o David Byrne. Um senão - não existe em CD...)

JULIAN COPE: "Interpreter", sem sombra de dúvida. Cada vez gosto mais deste disco (o 8/8 que lhe dei na altura peca, e muito, por defeito...). O espírito do krautrock para o séc. XXI. Sempre que o ouço, dá-me vontade de desatar aos saltos!
O tema "spacerock with me" arrasa toda a concorrência!

O "Peggy Suicide", "Jehovahkill", "Autogeddon" e "20 Mothers" não me lembro se são 20...:D) são muito bons, também...

YES: Mais pop: "Yes" e "Time and a Word"

Mais rock: "The Yes Album" (muito king Crimsoniano, por vezes...); "Relayer".

mais prog e classizante: "Close to the Edge" (o álbum clássico dos Yes), "Tales from Topographic Oceans" (p/mim uma das obras máximas do grupo, mas quase toda a gente destesta e chama-lhe "pretencioso", "balofo", etc... :D)

SYD BARRETT. Não há muito por onde escolher. "The Madcap Laughs" e "Barrett"...

PETER HAMMILL. Aqui o caso muda de figura, tantas são as obra-primas. Tens um livro para apontar? :D :)

Há, porém, um que se destaca: "In Camera" - equivalente, em registo solo, ao "Pawn Hearts". O "1º lado" é uma coisa indescritível, temas como "Tapeworm" provam que o homem pode ter a dimensão do universo e explodir num holocausto de estrelas.
A sequência final de 17min. "Gog/Magog (In bromine chambers)" é a banda sonora do Apocalipse. A letra é qualquer coisa de épico, a música, bem...a música...na altura a crítica falou de uma orquestra de "ruído branco". A parte final, descreve-a o próprio PH como "música concreta". Que o é de facto. Quando as vozes aparecem, totalmente filtradas e esmagadas eletronicamente, é impossível não sentir um arrepio. Um monstro a enrolar-se na mente. A desumanização nos confins da galáxia e do cérebro.

Mas há mais.

"Over" (o disco dos discos dos corações despedaçados)

"The Silent Corner and the Empty Stage" (mais VDGG)

Numa linha eletrónica: a "trilogia" "The Future now", "PH7" e "A Black Box".

Como curiosidade, tens as duas versões (o PH procedeu a uma “correção”...) da ópera "The Fall of the House of Usher", inspirada na obra homónima de Edgar Allan Poe.

O principal "problema" da obra do PH é que funciona como um livro, em que cada álbum é, de certa forma, um novo capítulo que prolonga o anterior. Um "work in progress", musical e poético ímpar nos tempos de hoje, que já dura há 30 anos! (na Mojo, poem o tipo ao nível do Zappa e do...Picasso e chamam-lhe o maior génio da música inglesa do último século!).
Entrar a meio pode causar uma certa perplexidade.

JEFFERSON AIRPLANE: "After Bathing at Baxter's", "Surrealistic Pillow" e "Crown of Creation".

O "Banana Moon" é bom, no capítulo das excentricidades desbragadas. Tens também o "N'Existe Pas" e o mais recente e delicioso "Now is the Happiest Time of our Lives".

FM

08/09/2016

Peter Hammill - Clutch

Sons
22 Novembro 2002

PETER HAMMILL
Clutch
Fie, distri. Megamúsica
8|10


Concebido e executado na guitarra acústica, “Clutch” é o enésimo exercício de visão daquele que a revista “Mojo”, numa das suas últimas edições, considerou um dos génios artísticos do nosso tempo. Hammill é o poeta, o profeta e o visionário e “Clutch” será tanto melhor compreendido quanto mais se conhecer a sua história passada. Aqui, o tempo e a memória desdobram-se uma vez mais em microssinfonias de vozes em diálogo consigo mesmas, de concertos e desconcertos da alma, em guitarras em sangue. Hammill entra em “The ice hotel”, onde o mundo e o amor congelam, lança um derradeiro beijo a uma das suas filhas, na melancolia da infância perdida, em “Once you called me”, sem desistir, com a lucidez e a paixão de sempre, da revelação, em “Driven”, mesmo que a religião seja, uma vez mais, posta em causa, em “This is the fall”. David Jackson, nos saxofones e flauta, faz a ligação ao “som Van Der Graaf”, enquanto o violino de Stuart Gordon confere um inusitado tom folk a “Crossed wires”. Tanto para os “iniciados” como para os “neófitos”, “Clutch” é um daqueles álbuns que cresce, ou sobe, a cada audição. Cuidado, que não há teto.

07/10/2015

Peter Hammill - Unsung



Y 4|JANEIRO|2002
discos|escolhas

PETER HAMMILL
Unsung
Fie, distri. Megamúsica
6|10

“Unsung” insere-se numa série de álbuns instrumentais de Peter Hammill que inclui os anteriores “Loops and Reels” e “Sonix”, bem como “Spur of the Moment”, com Guy Evans, e “The Appointed Hour”, com Roger Eno. O poeta e músico explica que as peças nele incluídas insistiram em permanecer no formato instrumental, de acordo com uma vertente a que Hammill chama “experimental”, em oposição, ou complemento, à “normal”, constituída por canções. O que aqui encontramos são fragmentos organizados de “ambient music”, por vezes próximos das “frippertronics” de Robert Fripp, loops esculpidos por forma a soarem como música de câmara, ensaios de “contemporânea erudita” e pedaços de melodias polvilhadas pelo açucareiro dos Durutti Column. O que aqui não se encontra, porém, mesmo levando em conta a descontração típica de um trabalho deste género, é o génio que raramente anda ausente na discografia “oficial” do ex-líder dos Van Der Graaf Generator. Ainda que mantendo níveis de qualidade e de exigência próprios do autor, “Unsung” denota por outro lado ter este privado talvez em demasia com Roger Eno…

10/06/2015

Olá e... novo P.Hammill, fantástico!





"Olá e... novo P.Hammill, fantástico!" (Fernando Magalhães)

Fernando Magalhães
10.09.2001 160412

Olá a todos. Finalmente de regresso ao...grunf...trabalho!

Mas as saudades, sobretudo do pessoal do forum, já eram muitas...Por isso é bom voltar.

Depois desta introdução lamechas - chuif - vamos ao que interessa: a paleontologia. E os dinossáurios. Sabiam que se está a chegar à conclusão que muitos deles tinham o corpo coberto de penas? É verdade... Só falta dizer agora que tinham mas era o corpo coberto de jardéis e que...

Bom, mas chega de palhaçada.

Vamos à música:

O PETER HAMMILL tem um álbum novo, magnífico, para não variar. Chama-se "What, now?" e revela-o num pico de forma notável. O homem está prestes a explodir (de novo...) e pressente-se que está próximo de fazer algo parecido e com a mesma carga apocalíptica de "In Camera".

O tema central é o tempo, o fim, o confronto final com o ego. Também um retorno aos ataques ferozes à igreja (olá Herbsman!). E o amor, tratado de forma sublime, claro! Vale a pena seguir atentamente os poemas.

A música e as vocalizações são poderosas. A electrónica ocupa um lugar de destaque, como nos tempos de "The Future now" e "PH7". Mas a marca instrumental pessoalíssima de PH, o seu piano e guitarras saídas do fundo da alma, gritam e oram e gemem e exploram os confins do mundo e do espírito. Como sempre, sem concessões de qualquer espécie. PH é o último romântico, o génio absoluto da música deste século. Este álbum confirma-o!

Uma chamada de atenção para as reedições remasterizadas dos álbuns do CARAVAN, expoentes do som de Canterbury dos anos 70. Quem aprecia os 1ºs SOFT MACHINE não deverá perder. Para a semana farei um "especial Canterbury" no "Y", a propósito destas reedições.
Para que conste os álbuns são "If I Could do it all over again, I'd do it all over you" (9/10), "In the land of Grey and Pink" (10/10), "Waterloo Lily" (8/10), "For Girls who Grow Plump in the Night" (7,5/10), "Caravan & The New Symphonia" (ao vivo, 6/10) e "Cunning Stunts" (6,5/10).

Os três primeiros são fundamentais.

Para o Rat-tat-tat: Escrevi há uns meses no "Y" sobre os EMBRYO. Um texto grande sobre cinco álbuns deste grupo alemão pioneiro da fusão do free-rock com música étnica e jazz. Imagina um cruzamento de Soft Machine afreakalhados, batuques africanos, raga indiano, improvisação sobre ácido "a la GURU GURU" e jazz rock...
Vou procurar o texto e depois faço um "copy & paste".

saudações de regresso "ao vício"

Fernando Magalhães

13/01/2015

Peter Hammill - What, Now?



Y 21|SETEMBRO|2001
escolhas|discos

PETER HAMMILL
What, Now?
Fie, distri. Megamúsica
7|10

E agora, o quê?

“E agora, o quê?”, pergunta Peter Hammill. Chegado aos 53 anos, o músico, poeta e antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator, interroga-se, como não podia deixar de ser, sobre o tempo e as marcas da sua passagem. “What, Now?” provoca no admirador incondicional da obra deste trovador dos tempos modernos, impressões contraditórias. Em termos exclusivamente poéticos, o álbum pauta-se por um retorno aos grandes temas cósmicos e filosóficos – a solidão do indivíduo, a descoberta de um sentido para a vida ou a submissão religiosa, que caracterizavam obras máximas como “The Silent Corner and the Empty Stage”, “In Camera” e a trilogia a preto e branco, “The Future Now”, “PH7” e “A Black Box”. Neste particular, “What, Now?” contém temas merecedores de reflexão, por sinal os mais longos, nos quais Hammill se questiona sobre os limites da individualidade, da santidade e da paranóia, como “Here come the talkies”, “Lunatic in knots” e “Edge of the road”. As palavras, saídas da experiência ou arrancadas ao inconsciente coletivo, que Hammill rompeu a golpes de uma introspeção violenta, são arrebatadoras na exposição, por vezes trágica, do homem apresentado na sua dimensão de divindade aprisionada. Pelo tempo, pela carne, pelo pensamento, pelos outros, por si próprio. “So many angels/However many can there by, ghosts and djinns/Dancing on the head of a pin?/How many questions are left unresolved?/Exactly where do I begin/Now that the walls are closing in?/Who’s the lunatic/And who’s the sensible soul deep within the skin/Hanging on and listening in…?”, pergunta, em “Lunatic in knots”, trazendo à lembrança a grande dilaceração entre o ego, os anjos e os demónios (os “djinns” bíblicos…) da obra-prima dos Van Der Graaf, “Pawn Hearts”.
            Mas há o reverso da medalha num álbum marcado pelas guitarras e pela eletrónica épica aos quais não terá correspondido, desta feita, uma produção à altura. Falta espaço e tridimensionalidade a este conjunto de canções marcadas por uma profunda tristeza. O tempo, sempre o tempo, não perdoa, e faz sentir os seus efeitos na voz. A “What, Now?” falta o “punch”, a força e a revolta de antanho que tornavam cada intervenção vocal de Peter Hammill num tornado ou numa prece tocada pelo fogo sagrado. O que parece indicar que esta tensão poética que em “What, Now?” subitamente se reacende, já não conseguirá traduzir-se numa catarse como a de “In Camera”, mas poderá continuar a desenvolver-se em terreno de exceção na veia mais intimista de “Fireships” ou dos recentes “This” e “None of the above”. “The boy’s alive, the boy is in the man”, canta o poeta-músico em “Wendy & the lost boy”. Pressente-se o drama. O Peter Hammill de “What, Now?” não perdeu a pureza do Peter Hammill de “Fool’s mate” (1971), mas o corpo enfraqueceu (as imagens da capa parecem contradizê-lo, numa série de fotos do músico em movimento, entre a prostração e a tentativa de voo). Porém, Hammill já venceu a morte e essa é a maior das suas vitórias, no decurso de um longa ascese, sem precedentes na música deste século.
            “What, Now?” dá ainda a conhecer o Hammill profeta, em “The American girl”: “The American girl stubbed her toe on the old world/And the old world’s unforgiving rigidity/Well, times got hard/And talk came cheap/She found that finally/Something wasn’t right across the sea…/Now she’s stateless in all but her memory”. E agora, o quê?