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17/02/2020

E Deus desceu à cave [Nick Cave]


CULTURA
QUINTA-FEIRA, 26 FEV 2004

Crítica Música

E Deus desceu à cave

NICK CAVE
LISBOA Centro Cultural de Belém
3ª-feira, dia 24, às 21h30.
Lotação esgotada

Encarado frio, não foi um concerto de antologia, embora a espaços chegasse a ser entusiasmante. Nick Cave, o cantor australiano das baladas soturnas através das quais tenta ficar de bem com Deus e com o diabo, e do rock incendiário que ainda subsiste no seu trabalho com os Bad Seeds, regressou a Portugal para lotar na noite de terça-feira (o concerto de ontem teve igualmente lotação esgotada) o grande auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e reatar os laços de sangue que o unem à sua imensa legião de admiradores portugueses.
Mas se os cardos do rock picaram e fizeram arder, as rosas das baladas chegaram a provocar bocejos. Cave, o “crooner” de colarinho grande, fato escuro e cigarro aceso ao canto da boca, tocou piano e cantou na sua voz grave o habitual caminho que, nas suas canções, se estende da salvação à condenação. Da elevação de “Hallelujah” ao assassínio como uma das belas artes de “Henry Lee”.
O problema esteve nesse pequeno pormenor também ele capaz de assassinar uma boa canção: o velho desafinanço. E Cave desafinou, andou à deriva em busca do tom certo, atingindo o nível mais baixo numa desastrosa interpretação de “Do you love me?” (se cantasse sempre assim não haveria, decerto, quem o amasse…), um dos temas, juntamente com “Love letter” e “God is in the house”, do álbum “No More Shall We Part”. Contudo, se a voz falhou, a emoção esteve sempre presente. E nos temas rock, com as tripas de fora, ele e o grupo foram avassaladores, como em “Wild life”, retirado do velho reportório dos Birthday Party, e na demencial descarga de raiva e decibéis, já nos “encore” (foram três), de “Stagger Lee, do álbum “Murder Ballads”, onde o violinista Warren Ellis provou ser mais eficaz no registo “noise” (várias vezes segurou e tocou o instrumento como se tratasse de uma guitarra elétrica) do que nas “performances” mais melódicas das baladas.
“Watching Alice” (de “Tender Prey”), “Lucy” (de “The Good Son”) “Sad waters” (de “Your Funeral… My Trial”) e “The singer” (composto por e em homenagem a Johnny Cash, do álbum “Kicking Against the Pricks”) foram outros temas escolhidos por Cave para prender o CCB, a par dos mais recentes “Wonderful life” (a abrir o concerto) e “Still in love”, “He wants you” e “Rock of Gibraltar”, do novo “Nocturama”, com direito a esquecimento de uma letra, diálogos em português arrevesado com o público e apresentação de atestado de baixa por danos psicológicos (“os anos 80 provocaram-me alguns estragos cerebrais… e os 90… bom, pensando bem, os 70 também…) que é, ao mesmo tempo, certificado de garantia da energia demoníaca que subjaz a toda a sua música, de “West country girl” (transformada em “evil song”…) a cada golfada de sangue que espirra de feridas ainda abertas. “Ganda maluco!”, gritou alguém do camarote.
O público, escusado dizer, adorou, entrando em delírio quando Cave se aproximou da boca de cena para cumprimentar os fãs, incluindo uma rapariga em transe depois de ter conseguido ser beijada na boca pelo cantor. O beijo da serpente. Mas que importa, se as sementes daninhas continuam a ter terreno fértil em Portugal?

EM RESUMO
O Cave soporífero de algumas baladas foi suplantado pelo velho rocker dos Birthday Party. Chegou a ser demolidor

07/02/2020

Mogwai foram reis só no final


CULTURA
SÁBADO, 7 FEV 2004

Crítica Música

Mogwai foram reis só no final

MOGWAI
LISBOA Paradise Garage, 5ª, lotação esgotada.

O Paradise Garage tem acústica deficiente, péssima visão da maior parte dos locais (a não ser que se meça para cima de 2,10 metros), calor sufocante em alternância com jorros de ar condicionado capazes de causar a rápida perfuração dos pulmões. Tudo somado dá “rock ‘n’ roll”. Na quinta-feira, os Mogwai aproveitaram como puderam estas características, atraindo ao local uma legião de fãs que bastante tempo antes do concerto já faziam fila de muitos metros para entrar no santuário.
Percebe-se que a banda escocesa conquistou inúmeros admiradores em Portugal. A expectativa era, por esse motivo, enorme, com muita gente preparada para receber o batismo do mítico “concerto da minha vida”. No final, porém, o entusiasmo deu lugar à moderação e, como consequência, a nova formulação daquele conceito, bem mais realista, de “o melhor concerto dos últimos dois dias da minha vida”.
Foi bom? Foi mau? Para os fanáticos foi obra ao vivo mais ou menos prima. Para os mais exigentes, mas que apesar disso não poupam nos elogios aos álbuns da banda, soube a desilusão.
Os Mogwai têm pouco para oferecer além dos habituais caudais de energia e eletricidade com que muitos grupos de rock compensam a falta de originalidade e de ideias. Hoje em dia, com a caução do “épico” e do “grandioso, oferecida de bandeja pelos Godspeed You Black Emperor! (gybe!), é fácil esmagar uma audiência com cascatas de decibéis e guitarras em descontrole. É o chamado “factor gybe!”, mais conhecido na gíria, por “vai acima vai abaixo”, técnica que, no Garage, os Mogwai mostraram saber dominar como ninguém.
O sistema “vai acima vai abaixo” traduz-se na prática pela alternância entre momentos contemplativos (leia-se com as guitarras a fazerem um zumbido baixinho, perdão, uma “drone”, enquanto o baterista descansa e limpa o suor e as baquetas) e grandiosos clímaxes (leia-se uma massa sonora indistinta e ensurdecedora) de catarse e intensa espiritualidade (ou fisicalidade, tanto faz, desde que seja “intensa”). Assim fizeram os Mogwai, para deleite de muitos que pareciam conhecer de cor os temas de álbuns como “Rock Action” ou o novo “Happy Songs for Happy People”. Mas mesmo esses torceram o nariz ao que se passou entre os momentos “altos” e os momentos “baixos” – uma acumulação de clichés de pós-rock, em piloto automático, musicalmente monótonos, a compor uma espécie de “muzak” limpa-ouvidos.
Mas, hélas, foi precisamente o ruído o elemento redentor. Os minutos finais, lancinantes, proporcionados por “My father my king”, massacraram no bom sentido e deixaram marcas. “Perdi o sentido da realidade, não sabia o que se estava a passar!”, foi um dos comentários escutados a propósito. Como se os Mogwai assumissem finalmente os limites da sua música, levada à apoplexia e ao apocalipse. “My father my king”, uma pulsação monstruosa que pareceu vibrar por uma eternidade (mas poderia ter durado ainda mais, a noite inteira, e então o concerto teria sido, de facto, antológico) e arrasou por completo, quer os sentidos quer as inutilidades gastas em tudo o resto. Então sim, os Mogwai conseguiram ser reis.

EM RESUMO
“My father my king”, o apocalíptico tema final, redimiu os Mogwai, num concerto que chegou a ser monótono

16/12/2019

The Doors ainda abrem as portas do medo


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 9 DEZ 2003

Crítica Música

The Doors ainda abrem as portas do medo

THE DOORS OF THE 21st CENTURY
LISBOA Pavilhão Atlântico
Domingo. Meia sala.

Depois dos Rolling Stones foi a vez de outra banda de veteranos (ou sobreviventes), The Doors, vir a Portugal dar uma lição de rock. Confirmada, como muitos temiam, a ausência, por doença grave (bastante grave, mesmo) do cantor Jim Morrison, a mítica banda californiana conseguiu o improvável: recordar a energia apocalíptica da formação original dos anos 60 e, ao mesmo tempo, provar que a música do grupo sobreviveu em palco à passagem dos anos e ao passamento (faria ontem, precisamente, 60 anos) do seu carismático vocalista, mantendo uma personalidade própria.
Personalidade que no domingo, no segundo dos concertos no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, se viu ter nome: Ray Manzarek, teclista e força viva dos Doors do séc. XXI, como agora se chamam. Para um público composto por cotas contemporâneos do grupo na década de 60, mas também por uma camada mais jovem que veio para se lambuzar com as canções mais conhecidas, previsivelmente escutados na aparelhagem dos pais, como "Light my fire" ou "Riders on the storm", Manzarek cometeu a proeza de conseguir, em várias fases do concerto, perturbar e assustar uns e outros. Sobretudo quando a faceta mais psicadélica e obsessiva dos Doors veio ao de cima, com o típico som de órgão saturado de vibrato a funcionar como substância dopante e a guitarra de Robby Krieger enlouquecida em solos de rachar a cabeça, ao mesmo tempo que eram lançadas à cara da plateia palavras que o ácido e a revolta marcaram, na origem, com cambiantes ameaçadores. De resto, o "são uns drogados!" proferido por alguém na assistência foi o melhor elogio que se lhes podia fazer.
As pessoas foram ao Atlântico para curtir, esquecendo-se que os Doors, fazendo jus à reputação de banda maldita, sempre tocaram não para as pessoas se divertirem, mas para as fazer pensar, sentir medo, voltarem para casa diferentes. O espantoso é que, volvidos mais de trinta anos sobre o cataclismo original, ainda o consigam. Sem Morrison, mas com um novo vocalista que continuamente saltou da quase clonagem (o corte de cabelo, a roupa, os gestos, mesmo alguns grunhidos e interjeições vocais) do original, para a necessidade de se afirmar como músico autónomo na actual economia do grupo.
E se, nas canções instrumentalmente mais densas ou em tempos rápidos, como "Roadhouse blues", "Break on through" ou "Love her madly", a voz destilou fúria e uma genuína convicção rock, já nos tempos arrastados de "The crystal ship" ou "People are strange" fez-se sentir, de forma gritante, a ausência de Morrison e que, apesar das aparências, há um abismo a separar o antigo do novo vocalista dos Doors.
Houve nostalgia, claro, como não podia deixar de ser. Mesmo as projeções que ao longo de todo o concerto ajudaram a criar uma ambiência envolvente, mimaram os efeitos caleidoscópicos dos "sixties". E algum folclore, dispensável. Como introduzir "Love her madly" com um "We love you madly" dirigido ao público ou Astbury a erguer o copo explicando que estava a beber um whisky ou a arrotar para o microfone, a lembrar que sim, como Morrison, também ele é um rebelde. Só que, ao contrário do outro, com uma causa... Dispensável foi também a forma como, no solo de guitarra de flamenco de Krieger que antecedeu "Spanish caravan", se procurou ultrapassar o problema de uma corda partida - pondo toda a gente a entoar cânticos futebolísticos.
Fora isto (e Manzarek não resistir a tocar órgão com um dos pés) não houve concessões. Manzarek susteve o edifício, marchou pelo palco em pose marcial, agitou as mãos a medir as vibrações do ar e fez as segundas vozes, subtis ou carregadas de pânico, provando que, depois de Morrison, é ele o xamã e o portador das chaves que abrem as portas da percepção. Dois encores, que incluíram um trovejante "Riders on the storm", "L.A. Woman" e, a finalizar, uma versão alargada e massacrante de "Light my fire", puseram os pontos nos "is". "Daqui ninguém sai vivo" poderia ser, de novo, o mote. Imagine-se o que teria acontecido se estes Doors do séc. XXI tivessem tocado, como faziam os do séc.XX, "The end...". Mas talvez fosse demasiado cruel lembrarem-nos de que nunca, como hoje, estivemos tão perto do fim.

EM RESUMO
Ray Manzarek transportou o espírito e o som dos Doors dos anos 60 para a nova versão do séc. XXI. Astbury não fez esquecer Morrison. Mas ainda conseguem assustar.


20/11/2019

A fúria é a melhor amiga do homem [John Cale]


CULTURA
DOMINGO, 26 OUT 2003

Crítica Música


A fúria é a melhor amiga do homem

John Cale
LISBOA Aula Magna
Sexta-feira, 21h30. Sala a três quartos.

Desafinou num ou noutro momento. Expôs fragilidades. Arriscou registos contraditórios. Mas, caramba, o homem, John Cale, deu sexta-feira, na Aula Magna, em Lisboa (ontem voltou a atuar na mesma sala com alinhamento diferente), um dos melhores concertos rock deste ano. Aos 61 anos, a energia continua concentrada na difícil arte de caminhar sobre o fio da navalha. Arrasador.
Integrado numa banda formada por Craig Irwin Levitz (bateria, bateria eletrónica e samples) Jeff Samuel Thall (guitarra) e Paul Andrew Page (baixo) Cale alternou a apresentação do novo álbum “HoboSapiens”, com temas extraídos da sua anterior discografia, de álbuns como “Fear”, “Slow Dazzle” e “Music for a New Society”. Os primeiros, ainda pouco rodados, recriaram as ambiências complexas e a forte componente eletrónica do disco, com Cale no piano elétrico e Levitz a lançar para a mesa de mistura samples vocais e uma artilharia de efeitos especiais. Pelo meio, temas tocados em guitarra acústica, como “Chinese savoy”, “gospel” de abandono como “Ship of fools” e um “Fear” de gelar o sangue – Cale a gritar como um danado, a plateia percorrida por um frémito. “Fear is a man’s best friend”. O ex-Velvet há muito que trocou o medo pela fúria.
Logo de início, arreganhou os dentes, entrando a matar com “Venus in furs”, tema escrito pelo seu antigo companheiro nos Velvet, Lou Reed, do mítico álbum da banana. A velha “drone” de viola de arco, tão nevrótica como há 36 anos, e a guitarra de Thall a escorrer limalha de ferro, reproduziram um filme ao qual só faltaram os fantasmas de Warhol e de Nico. Cumprido o ritual, entrou no túnel do rock ‘n’roll, saindo do outro lado a cavalo nas programações eletrónicas de “HoboSapiens”, para voltar de novo atrás, vociferar baladas, a voz a falhar e a voltar ao lugar, mais poderosa e frágil do que antes, mas sempre com a alma a esbugalhar-se, incandescente como a de um jovem revolucionário.
Quanto tempo tocou? Difícil dizer. Porque o tempo parou, suspenso na sinceridade sem freios, na crueza emocional deste músico que recusa esconder-se atrás das modas. Para John Cale continua a ser um assunto de vida ou de morte. Juntaram-se as duas na demolidora sequência final, “Gun”, de “Fear” e “Pablo Picasso”, de “Helen of Troy”, acoplados numa locomotiva de adrenalina e decibéis. O público, espezinhado, esmagado, rendido pelo choque de eletricidade, ergueu-se e aplaudiu de pé, pedindo durante largos minutos o “encore” que demorou a chegar.
Cale regressou para se expor e arriscar ainda mais. “Hallelujah”, sozinho, num hino arrancado ao amor mais terno e ao mais profundo desespero, a seguir, “(I keep a) close watch”, de “Helen of Troy” (nova versão em “Music for a New Society”), a derradeira confissão: “Never win and never lose/There’s nothing much to choose/Between the right and wrong/Nothing lost and nothing gained/Still things aren’t quite the same/Between you and me I keep a close watch on this heart of mine.”
As luzes acenderam-se e apagaram-se e voltaram a acender-se e a apagar-se. E o público sem arredar pé, a pedir mais e mais. Mas Cale já ali não estava. Faltou apenas “Heartbreak hotel”. Mas seria talvez insuportável. Desnudar ainda mais a raiva e a solidão.

EM RESUMO
John Cale, o eterno sabotador, não teve medo de cortar o rock em duas metades: a dos Velvet Underground e a do novo álbum “HoboSapiens”. Concerto arrasador.

29/10/2019

Rolling Stones: o mito comprovou-se num concerto arrasador


DESTAQUE
SEGUNDA-FEIRA, 29 SET 2003

Rolling Stones: o mito comprovou-se num concerto arrasador

São, de facto, eternos e provaram-no em Coimbra, num concerto memorável. O mito continua vivo e de carne e osso. Os Rolling Stones são o rosto perene do rock ‘n’ roll

Parece incrível, mas é verdade. Treze anos volvidos sobre o primeiro concerto dos Stones em Portugal, a banda de Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood está mais poderosa do que nunca, oferecendo às 45 mil pessoas que no sábado se deslocaram ao novo estádio municipal de Coimbra uma atuação onde o rock puro e duro e a energia ultrapassaram os níveis do espetáculo de 1990. “Um concerto mais próximo do verdadeiro espírito do grupo”, em oposição aos “bonecos, manierismos e excesso de efeitos” dessa altura, na opinião de Pedro Branco, uma dos mais ferrenhos fãs portugueses dos Stones.
            Foi, numa palavra, arrasador. Mick Jagger e os seus companheiros, ficou definitivamente provado, não têm idade. “Rockam” como putos e o mais espantoso de tudo é que parecem sinceros quando, volvidas quatro décadas de carreira, continuam a inflamar-se ao interpretarem canções tão antigas como “Paint it black” ou “(I can’t get no) satisfaction”.
            “Brown sugar”, empacotada num rock ‘n’ roll em combustão, abriu o concerto, pondo de imediato todos em sentido. “Estes gajos não brincam em serviço”, terão pensado os mais incrédulos. Seguem-se “Start me up” e “You got me rockin’”, não menos abrasivos. Jagger saúda em português a multidão: “Olá Coimbra, olá Portugal, é bom estar de volta!”. “Don’t stop”, canção recente, é a exceção num concerto de clássicos, que prossegue com “Angie”, iluminada pela luz dos isqueiros e, de regresso à linha dura, “You can’t Always get what you want”. “Miss you” e “Tumbling dice” antecedem a apresentação dos músicos em palco e Jagger aproveita para descansar, oferecendo o microfone a Keith Richards, que canta “Slipping away” e “Happy”. Depois, bem... depois, as almas mais sensíveis devem ter corado ao sentirem-se atraídas pelo inferno. “Sympathy for the devil” acende-se num mar de vermelho, sob as labaredas que irrompem do alto da estrutura metálica montada sobre o palco. Jagger é o diabo em pessoa e, como que possuída, a multidão acompanha-o na blasfémia da letra. “Pleased to meet you, hope you guess my name”. Poderoso e assustador.
            Recarregadas as baterias diretamente da bateria do demo, os Stones atravessam, um a um – por entre os gritos e mãos estendidas que querem a todo o custo tocar nos seus ídolos – uma longa passadeira que os conduz a um segundo palco, minúsculo, instalado no centro do relvado. Keith Richards é o mais efusivo e toma um verdadeiro banho de multidão. Sente-se que a ocasião é especial. Os Stones pretendem mostrar que não estão dispostos a perder um contacto mais físico com os seus admiradores. Fazem-no através de um regresso às origens, sem adereços, apenas com a música a estalar como uma bofetada: “It’s only rock & roll”, “Like a rolling stone” e Street fighting man” (um dos três temas, juntamente com “Paint it black” e “Jumpin’ Jack Flash”, em que Richards usa um efeito de guitarra que a faz soar como uma “sitar” indiana).
            Mas o melhor estava guardado para o fim. Já no palco principal, a sequência final fica para a história como um monumento ao rock ‘n’ roll, suficiente para levar muita gente a exclamar, como ouvimos mais do que uma vez: “Foi o concerto da minha vida!”. “Gimme shelter” antecede o momento mais alto da noite – uma interpretação de antologia de “Paint it black”. Aqui não há espaço para truques. Os Stones são isto,  obra ao negro, a revolta e o sonho torturado. Em 2003, num estádio de futebol em Coimbra, o Psicadelismo (mais do que na atuação, comparativamente morna, dos Primal Scream) ressuscitou na sua vertente mais escura e subversiva. Bastava olhar para os olhos fechados de Jagger ou para os trejeitos de fúria de Richards para se perceber que algo de irrepetível estava a acontecer. Arrepiante.
            “Honky tonk women” permite uma breve descompressão. Jagger cultiva, desta vez sim, a sua veia exibicionista e corre de ponta a ponta à largura do estádio, ao longo das duas passadeiras laterais instaladas para o efeito, excedendo-se nos requebros, numa demonstração de boa forma física que parece milagre. Faltava o ritual por que todos esperavam. E ele chega como um incêndio instantâneo. Às primeiras notas de “(I can’t get no) satisfaction”, o estádio inteiro salta como uma mola, com 45 mil gargantas a cantar em êxtase, sob uma chuva de “confetti” vermelhos disparados por canhões, “I can’t get no/satisfaction/hey, hey, hey, that’s what I say”.
            O único “encore”, “Jumpin’ Jack Flash” – acompanhado pelo fogo, pelas luzes e pelos cânticos da multidão – não fez mais do que confirmar uma verdade que Coimbra confirmou ser eterna: os Rolling Stones são, de facto, a maior banda de rock ‘n’ roll do universo.

Coimbra teve mais encanto na hora dos Rolling Stones


CULTURA
DOMINGO, 28 SET 2003


Coimbra teve mais encanto na hora dos Rolling Stones

Vêm de todo o país e são de todas as idades. Os fãs de Stones aguardaram horas a fio pelo concerto com excitação. A banda parece não desiludir. A transbordar de energia, entra no palco com a força toda e leva a multidão ao rubro.

Os Rolling Stones atuaram ontem à noite em Coimbra, num concerto considerado como o maior de sempre em Portugal e num espetáculo que aliou a tecnologia à entrega da banda em palco.
            Horas antes do concerto, Coimbra ardia de excitação. "Estás a senti-la subir?", grita um jovem para outro no interior de um dos vários autocarros que a câmara disponibilizou (um euro por cabeça) para transportar os fãs até ao estádio. Refere-se à adrenalina, evidentemente. A terceira vinda dos Stones a Portugal é, para todos os efeitos, um acontecimento.
            Para a imprensa, porém, a excitação é de outra ordem. Um sem número de exigências obrigam os jornalistas a permanecer fora do recinto uma hora e meia a mais do que o previsto. Depois de se falar na necessidade de ter que assinar um termo de responsabilidade, no final acaba toda a gente por entrar com um bilhete vulgar. Lá dentro o estádio está à pinha e os Xutos já disparam o seu rock'n'roll com pontaria. A seguir hão de tocar os Primal Scream e só depois entrará em cena a banda dos sexagenários que dá pelo nome de Rolling Stones. A expectativa é enorme.
            Eduardo, 49 anos, diretor comercial, veio de Lisboa. Esteve em Alvalade em 1995 e comparece em Coimbra para ver se os Stones "ainda estão em forma". Espera ouvi-los tocar a sua canção favorita, "Simpathy for the devil". Um álbum do seu agrado? "'Sticky Fingers' - mas não se diz porque parece mal." Eduardo considera os Stones "uma memória, uma banda sem futuro", aproveitando para frisar que também está aqui para ouvir os Primal Scream, de quem recorda o álbum "Screamadelica".
            Já o Carlos, 24 anos, é da opinião que "os concertos do grupo em Portugal são um marco". Veio de Lisboa e conhece o grupo há cinco, seis anos, através dos discos do pai "que andavam espalhados pela casa". Tem "expectativas muito altas" em relação ao concerto e confessa: "Nunca se sabe quando os Rolling Stones vão a qualquer país se é a última vez. Pode ser um acontecimento histórico!"
            Miguel tem 45 anos e é médico dentista. Veio da Figueira da Foz "impreterivelmente" para ouvir os Stones. "Significam a minha juventude, horas e horas a ouvir músicas como '(I can’t get no) Satisfaction'". Trouxe consigo o filho, António, de 11 anos. "Foi ele que quis vir". Apesar de gostar mais dos Xutos e dos Red Hot Chili Peppers, o António também gosta dos Stones, citando mesmo a sua canção preferida, "Angie".
            A excitação cresce entretanto. Os Primal Scream já estão em palco e os níveis de adrenalina continuam a subir. Mas não para todos. A Madalena, 18 anos, que veio de Vila Franca de Xira sem os pais, está aqui apenas "para se divertir". Embora ache piada aos Stones, o seu artista preferido é Bob Marley. Também indiferente ao rock ácido dos autores de "Screamadelica", o Carlos, 29 anos, guia-intérprete, veio diretamente de Portimão. Os Primal Scream não lhe "dizem nada", por isso prefere ficar no bar a beber uma cerveja (imperial a 1,50 euros). Os Stones são outra coisa: "um grupo tão querido dos mais velhos como dos mais novos, apanham toda a gente dos 12 aos 70 anos". E remata: "São um caso único em que a teoria não conta. Na prática continuam a tocar como rapazes de 25 anos", diz, reconhecendo embora que "lá virá o dia em que dirão que acabou". Enquanto esse dia não chega, "continuam com a força toda". É a verdade nua e crua.
            Já passa das 22h quando os Rolling Stones começam a tocar. A lenda do rock entra mesmo com a força toda, pondo de imediato a multidão em delírio, aos gritos de "Portugal! Portugal! Portugal!". Entram a todo o gás com "Brown sugar" e, uma vez mais, a magia "branca ou negra, pouco importa", acontece. Segue-se "Start me up" e os Rolling Stones e os seus fãs tornam-se uma pessoa só. Mick Jagger agita-se, salta e saúda em português: "Olá Coimbra, olá Portugal, é bom estar de volta!". Continua tudo igual, ou melhor, os Rolling Stones parecem confirmar que assinaram, de facto, um pacto com o diabo. A energia transborda e, a julgar pelo que se vê e ouve em Coimbra, o contrato não perdeu a validade.
            Após as anunciadas duas horas de concerto, o público português não teve direito a "encore", mas em compensação foi brindado com um minuto de fogo de artifício.

13/02/2019

O circo de feras passou por Alvalade [Festival Super Rock in Lisbon]


CULTURA
SÁBADO, 31 MAI 2003


O CIRCO DE FERAS PASSOU POR ALVALADE

Primitive Reason, Disturbed, Audioslave, Deftones e Marilyn Manson inauguraram, quinta-feira, em Alvalade, a temporada dos festivais rock. “Mosh”, urros, relva arrancada e cerveja. Quem precisa de música em ocasiões como esta?

Vendo as coisas objetivamente, a generalidade da música que se ouviu no Festival Super Rock in Lisbon, quinta-feira, no Estádio de Alvalade, na era pós-futebol, foi má. E quando não foi má, foi muito má. Mas as 20 mil pessoas que estiveram longe de esgotar o recinto (as bancadas estavam pouco mais que vazias e, no relvado, a mole humana apenas se estendia até pouco mais de metade) aderiram e gostaram.
            A prova disso residiu no espetáculo que, praticamente durante as oito horas que durou o festival, foi oferecido pela parte da assistência que se comprimia em frente ao palco e se entregou com entusiasmo a uma sessão permanente de "mosh", na sua nova modalidade: a ecológica.
            Parecia uma daquelas imagens típicas da banda-desenhada, um torvelinho de poeira com braços, cabeças e pernas a saírem pelos lados. Mas com uma novidade relativamente ao "mosh" tradicional: à confusão da carne em combate do costume juntou-se o arremesso em todas as direções (preferencialmente as cabeças) de nacos de relva – com dimensões que variavam entre o simples torrão e a placa tectónica – arrancados ao vetusto tapete verde de Alvalade. Bonito de se ver.
            Nas bancadas, pelo contrário, o ambiente era de maior contenção, até porque, à distância que se fica do palco, não dá para a excitação se propagar com a mesma intensidade.
            As bandas em cartaz cumpriram todas o que lhes era pedido, ou seja, que baixassem o nível de qualidade formal da música o mais possível até perto do zero (o que, regra geral, conseguiram) e, em compensação, forçassem, também o mais possível, o nível decibélico.
            Outra das características comuns entre as cinco bandas – Primitive Reason, Disturbed, Audioslave, Deftones e Marilyn Manson – foi o facto dos respetivos vocalistas passarem mais tempo a urrar do que a cantar. O efeito, esteticamente lícito, embora passível de levantar algumas objeções, teve o condão de nivelar músicos e multidão numa sessão de "gestalt" libertador. Ou, noutra perspetiva, de aproximar a pessoa humana de uma certa animalidade primordial, com a multidão a comunicar, por sua vez, entre si, através de uivos e urros. Ou, dito de uma maneira mais simples: parecia o jardim zoológico.

Volta, Alice Cooper, estás perdoado!
O rock dos Primitive Reason, que na ocasião apresentaram o novo álbum, "Firescroll", soou duro, com citações ao ska, metálico e vociferante qb. O público aplaudiu com moderação, atarefado em ensaiar as primeiras coreografias de "mosh". Intervalo para recarregar baterias, leia-se, para atestar o depósito de cerveja, mesmo com a imperial a um euro e meio.
            Seguiram-se os Disturbed. Puseram o povo a gritar "we are... we are...", que sim, que somos todos "disturbed". O vocalista urrou, pediu para a assistência pôr os "motherfuckin' fists" no ar (no que foi prontamente obedecido), a relva começou a ser metodicamente arrancada do seu lugar natural e a ser arremessada como projétil balístico. Tudo nos conformes. Intervalo para atestar o depósito de cerveja.
            Os Audioslave, de Chris Cornell, ex-Soundgarden, acompanhado de três ex-Rage Against the Machine, sem descurarem os urros da praxe, tocaram a melhor música da noite. Riffs poderosos, metal fundido que não dispensou alguns desvarios electrónicos nem a melodia, a par de uma sensibilidade sem vergonha de pedir conselhos à pop, obtiveram, contudo, da multidão, a mesma reacção. "Mosh", escalpes de relva, murros e pontapés desferidos com um misto de amor e selvajaria. Yeeeaaaahhhh! - por assim dizer. Foi muito ou foi pouco, mas foi o suficiente para os colocar acima da concorrência. Afinal de contas, os Audioslave mostraram ter algo que, provavelmente, o rock atual tende cada vez mais a desprezar: ideias. Outra boa ideia, para o intervalo: atestar – hic! – o depósito de cerveja.
            Aguardados com enorme expectativa, os Deftones rastejaram (metaforicamente) pelo chão, com uma torrente de sons em estado bruto e o vocalista a urrar mais alto do que todos os outros, intercalando o berreiro com uma espécie de mini-manifestos ideológicos. O público interiorizou a mensagem e redobrou a fúria do "mosh". Interv-hic-alo para, hic-ates-hic-tar o depósito-hic de cerveja.

            
E, finalmente, o monstro por que todos ansiavam. Marilyn Manson, com o álbum "The Golden Age of Grotesque" para mostrar. Grotesco foi, surgindo em Alvalade com o seu "look" habitual de Bela Lugosi acabado de sair do caixão. Mas, para além da maquilhagem, mostrou pouco ou quase nada. Rock de metal, rock sinfónico, baladas bimbas, uma versão, pretensamente perversa, de "Sweet dreams (are made of this)", dos Eurythmics, "showbusiness" de pacotilha que meteu umas donzelas a fingir de nuas, luzes relampejantes, tudo a despachar, tudo a soar a falso (regressa, Alice Cooper, estás perdoado!), gritos de "Portogalo" e "fight!" (ou seria "bite"?) e o omnipresente "grroaaaarrrrhhh" que acabou por se tornar o "slogan" mais entoado da noite.
            Terminada a função, do lado do público, a refrega abrandou, por fim. Com os corpos e as cabeças bem massacradas, saiu toda a gente do estádio feliz. E isso é bom. Ou, como suspirava no final uma rapariga, arrasada mas em êxtase, estendida no relvado: "Foi lindo!"


25/01/2019

O sentido da vida, segundo os Sparks


CULTURA
SEXTA-FEIRA, 28 MAR 2003

C r í t i c a M ú s i c a

O sentido da vida, segundo os Sparks

Sparks
LISBOA Grande Auditório CCB
26 de Março, 21h
Sala praticamente cheia

“Lil’ Beethoven”, uma mini-ópera gelada que desmonta os lugares-comuns da sociedade e do “show business” contemporâneo, foi apresentado anteontem no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para uma plateia praticamente cheia e deslumbrada pela estranheza do novo álbum dos Sparks. Montra de manequins e projeções de vídeo, habitado por estranhos personagens como o pianista de braços ridiculamente longos que Ron Mael protagonizou em “How Do I Get to Carnegie Hall?”, numa referência inicial ao universo dos Monty Python (houve quem descortinasse Samuel Beckett neste teatro do absurdo), citada de “The Meaning of Life”. “Lil’Beethoven” pode ser visto, aliás, como uma outra leitura, tão retorcida e não menos cáustica do que a do mítico grupo cómico inglês, do sentido da vida. Ron Mael, embora já sem o bigode à Hitler que o popularizou nos anos 70 e 80, continua a ter o ar de empregado de escritório engravatado que está ali por engano mas que em “Ugly Boys with Beautiful Girls” passeou pelo palco, com ar imbecil, de braço dado com uma morena escultural.
            Musicalmente esta primeira parte seguiu à risca o alinhamento de “Lil’ Beethoven”, com utilização de sons pré-gravados e a presença adicional de uma baterista e de Dean Menta, ex-Faith No More, na guitarra. “My Baby’s Taking Me Home”, um dos temas melodicamente viciantes do álbum, com Russell a repetir a mesma frase até à exaustão e Ron a recitar um “poema” indescritível sem desmanchar o ar de autista compenetrado, deixou o público num estado intermédio entre o choque e o deslumbramento.
            Numa segunda parte preenchida com temas de álbuns como “Indiscreet” e “Propaganda”, os Sparks entraram na onda de parolice “electro” que voltou a estar em voga. O conceptualismo de “Lil’ Beethoven” deu lugar ao exagero assumidamente gratuito e a tiques que foram dos Yello aos Soft Cell, passando pelos Simple Minds e Pet Shop Boys. Russell não resistiu a fazer de “bicha” louca, mas mesmo no meio deste serão pela Feira Popular coube uma vez mais ao irmão Ron o papel de rei das farturas, no momento mais genial e hilariante da noite. Foi assim, embora as palavras descrevam mal o absurdo da situação: Russell apresenta o irmão como principal artífice do conceito Sparks. A música
pára, as luzes apagam-se deixando apenas um holofote apontado à figura solitária de Ron Mael. Este aproxima-se timidamente da boca de cena e, após alguns segundos de hesitação, olhando o vazio com expressão esgazeada, desata a fazer um desengonçado sapateado. Muitos dos espetadores no CCB ter-se-ão nesse instante recordado de um dos momentos mais cómicos da história da Humanidade, aquele em que John Cleese faz o seu número de “passos disparatados” noutro “sketch” dos Monty Python.
            No final, com “encore”, o público aplaudiu de pé, rendendo-se à desfaçatez com que os Sparks, ao fim de 30 anos, continuam a ridicularizar os lugares-comuns da música pop.

15/10/2018

Concertos em 2013


CULTURA
SEXTA-FEIRA, 3 JANEIRO 2003

Pop e rock para todos os gostos, mas porque não experimentar o jazz?

CONCERTOS EM 2013

Red Hot Chilli Peppers, Sigur Rós e Massive Attack são alguns dos nomes agendados para os cinco primeiros meses deste ano

Na altura de ser feito o anúncio dos concertos em Portugal para os próximos meses, a regra é escrever-se que os haverá para todos os gostos. Pois bem, podemos adiantar que relativamente aos primeiros cinco meses do novo ano haverá em Portugal muitos concertos e para todos os gostos. Senão vejamos.
            Já este mês, a agenda tem apontados nos dias 24 e 25 espetáculos dos The Misfits, respetivamente no Paradise Garage, em Lisboa, e no Hard Club, em Gaia. Os The Misfits são uma banda ao gosto dos apreciadores de rock pesado. Virão com dois convidados vagamente especiais, Marky Ramone, dos Ramones, e Dez Cadena, dos Black Flag.
            Exatamente nos mesmos dias, só para baralhar e tirar público aos Misfits, os Red Hot Chilli Peppers vão fazer-se ouvir alto e bom som no Pavilhão Atlântico, em Lisboa. São uma das bandas do momento e uma das favoritas dos filhos de quase toda a gente que gostaria que os seus filhos gostassem de outro tipo de música. Mas não há nada a fazer: pais, vão começando a pensar em comprar os bilhetes. O álbum mais recente chama-se "By The Way".
            Ainda antes destes dois concertos, terão lugar outros, ostentando o selo de qualidade dos Morphine. Falamos dos Twinemen, ou seja, Morphine menos o malogrado Mark Sandman. Três datas a não perder: dia 16 em Coimbra, no Le Son, Hard Club no dia seguinte, dia 18 no Paradise Garage.
            Ainda a 16, Andrew Weatherhall, produtor do mítico "Screamadelica", dos Primal Scream, e mentor dos Sabres of Paradise e Two Lone Swordsmen, estará no Lux, em Lisboa. Janeiro fecha com os islandeses Gus Gus, naturais de Reykjavik e, como seria de esperar, dada a latitude, praticantes de eletrónica pop a baixas temperaturas. Nota final elevada para o concerto de Janeiro do programa "Jazz ao Centro", iniciativa a realizar em Coimbra ao longo de todo o ano (parte do programa oficial de Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003), com o quinteto do contrabaixista William Parker, grupo ao qual se deve "Raining on the Moon", um dos álbuns de jazz mais apelativos de 2002.

Dos Sigur Rós a todo o jazz
Passemos a Fevereiro, com fama de mês de todas as calamidades. Esperemos que não, apesar de ser o escolhido para a visita a Portugal da seita ideológica/religiosa/musical que dá pelo nome de Current 93, filhos de Aleister Crowley, o mago negro, e projeto liderado há cerca de 20 anos por David Tibet. A música dos Current 93 já passou pelo industrial e por uma imitação de folk, consoante as alucinações pessoais do seu líder. Trazem como convidado alguém muito especial, alguém que Laurie Anderson e Diamanda Galas consideram o "crooner" perfeito – o nova-iorquino Antony Johnson. Rituais marcados para 7 e 8 no Teatro Ibérico, em Lisboa.
            Nem de propósito, Fevereiro foi igualmente o mês escolhido por outro grupo islandês, os Sigur Rós, para o seu regresso a Portugal. A Islândia será provavelmente a região do globo com mais bruxas por metro quadrado. Quanto aos Sigur Rós, foi num ápice que passaram do experimentalismo de "Von" para o ambientalismo paisagístico de "Agaetys Byrjun" e deste para o novo "( )", cuja música tenta fazer jus ao título. Datas marcadas: 28 de Fevereiro e 1 de Março, respetivamente nos Coliseus do Porto e Lisboa.
            Menos sinistro (opinião obviamente discutível), o canadiano de 43 anos Bryan Adams, autor de êxitos como "Run to you" e ilustre representante, nos anos 80, do chamado "rock sentimentalão", atua a 24 no Coliseu do Porto e a 25 no Pavilhão Atlântico, em Lisboa. Os Zwan, projeto novo de Billy Corgan, ex-Smashing Pumpkins, tocam no Coliseu de Lisboa, no dia 22. O mês de Fevereiro começará aliás com a figura solar de Ney Matogrosso, que regressará aos Coliseus do Porto (dia 3) e Lisboa (dia 5) para fazer a apresentação do álbum "Ney Matogrosso interpreta Cartola", preenchido com sambas do compositor Cartola.
            Entretanto, o jazz contemporâneo continuará a marcar pontos. Com o "Jazz ao Centro" a trazer o DKV Trio, formado por três notáveis da cena de Chicago: Ken Vandermark (saxofones), Kent Kessler (baixo) e Hamid Drake (bateria).
            Março não tem que saber. Vai ser o mês do "hard rock", "heavy metal" e sonoridades afins. Os Satyricon tocam dia 6 no Hard Club e, no dia seguinte, no Paradise Garage. Os Paradise Lost, mais eletrónicos, trocam a ordem das salas - dia 17 no Paradise, dia 18 no Hard. A 23 chega o "black metal" dos Cradle of Filth, no Paradise.
            Absolutamente imperdível será o concerto do "Jazz ao Centro", protagonizado pelo quarteto do saxofonista David S. Ware, com Matthew Ship (piano), William Parker (contrabaixo) e Guillermo E. Brown (bateria). Ware é um coltraniano no ascetismo e um ayleriano no ardor das labaredas e na intensidade do grito. A sua obra "Godspellized" (1996) é prima. Sangue e luz. Experiência arrasadora. Ao vivo também será assim.
            Em Abril haverá blues. Ligeiramente loucos. Por Bob Log III. Performance marcada para dia 24, no Le Son, em Coimbra. E "Jazz ao Centro", claro, com o quinteto de Jemeel Moondoc, saxofonista alto situado estilisticamente entre Ornette Coleman e Marion Brown. Os alemães Guano Apes farão a apresentação do novo álbum, ainda sem título, nos Coliseus de Lisboa (dia 16) e Porto (dia 17).
            Maio receberá Joe Jackson, o "new waver" que se converteu ao jazz que se converteu à música de câmara (dia 15 no Coliseu do Porto, 16 na Aula Magna, em Lisboa), e os Massive Attack, a 21 e 22 no Coliseu dos Recreios em Lisboa, na apresentação do novo álbum "100th Window".
            Lou Reed também se espera que esteja cá no dia 21. Não se sabe ainda é em que sala. No "Jazz ao Centro", outro concerto de arrancar os cabelos, pelo trio do tenorista e pianista Charles Gayle, um dos proscritos do jazz a quem a história, alguma história, fez por fim justiça. O seu "free" é mais que livre. Com Coltrane, uma vez mais, no horizonte, em "Touchin' on Trane" (1991).
            E pronto, poderá dizer-se que, em matéria de concertos em Portugal para os próximos meses, os haverá para todos os gostos. Com fortes aplausos para o jazz.

23/02/2018

Razões para não ter gostado do concerto dos Gybe!



Fernando Magalhães
01.02.2002 180613

Razões: [Para não ter gostado do concerto dos Gybe!]

1 - Os bybe são músicos cultos mas primários. Para além dos aspetos formais da música (ouvido um tema, estavam ouvidos todos, o leque de notas utilizado foi escasso...) que até nem serão os mais importantes (as cordas saíram amiúde de tom, enfim...) não basta carregar no volume e na ênfase na massa sonora para criar densidade emocional.

O Rui Catalão definiu bem o que se passou. Dizia ele que era música "vai acima, vai abaixo"

2 - As citações a Glenn Branca, Savage Republic, Velvet Undergound, Magma, King Crimson, até um decalque da introdução eletrónica de "Baba O'Riley", dos The Who (que é aliás, uma referência velada a Terry Riley...) tornaram o concerto num imenso e, pior que isso, previsível "pastische".
E que ninguém que tenha gostado volte a dizer mal do Rock Progressivo, pois houve partes em que aquilo era positivamente Rock sinfónico, com fraseados melódicos pindéricos no topo

3 - Os bybe impressionaram pelo artifício. Não houve profundidade naquilo que fizeram (ainda Rui Catalão, dixit: "Não consigo descortinar aqui um mínimo de verdadeira boa música que seja!"). Imagino que - e isto acontece em todos os concertos - houvesse uma espécie de condicionamento emocional prévio do público presente. Às vezes convém adotar uma posição mais objetiva. Claro que o prazer que a maior parte das pessoas retirou da música é um facto. Mas...para mim isso não é garantia de qualidade. Lamento, mas é assim que penso. Já ouvi música infinitamente melhor, com seis ou sete pessoas na sala. Serei elitista? Se ser elitista é não fazer concessões - sou elitista!

Dito isto, até foi agradável como música de fundo.

Gostaria que quem põe os bybe nos píncaros tivesse disponibilidade para ouvir uns UNIVERS ZERO, por exemplo, ou uns PRESENT, e imaginar como soará esta música ao vivo...
É a diferença entre os mestres e aprendizes esforçados.

FM

03/04/2017

DJing in the rain [Número Festival]

SÁBADO, 2 DEZEMBRO 2000 cultura

Inundações na noite de abertura do Número Festival, no Parque Eduardo VII, em Lisboa

DJing in the rain

Houve inundações na abertura do Número Festival. A água da chuva entrou pela tenda dentro, encharcando os pés das muitas pessoas que acorreram ao Parque Eduardo VII para ouvir música eletrónica. Na enxurrada de DJing, a música dos Pan Sonic e das Chicks on Speed mal conseguiu boiar.

Várias coisas não funcionaram na primeira das três noites (quinta-feira) do festival Número que tem estado a decorrer no Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa tenda de circo instalada para o efeito. Em noite de tempestade, a água da chuva correu com fartura pelo chão, transformando-o em leito de rio. Além disso, embora o horário fosse cumprido quase escrupulosamente, houve DJing a mais para concertos a menos, o que encurtou sobremaneira as atuações dos dois grupos de palco, Pan Sonic e Chicks on Speed. Por questões de estética assumida ou erro de cálculo, rodaram em demasia os leitores de CD e gira-discos. Números para serem revistos no futuro.
Passaram, em primeiro lugar, num ecrã triplo, as imagens de uma curta-metragem realizada pelo Pogo Teatro. A banda-sonora com música de Shabotinski, Klaus Nomi e Gustavo Lamas ajudou a suportar a visão ultra-realista de uma Lisboa reduzida a ícone do vazio metamorfoseada pela mente em cenário de ações virtuais.
F. Fadigas não perdeu tempo, sentando-se de imediato aos comandos da mesa de som. O primeiro DJ da noite compôs uma massa de sons abstratos sem ponta de "groove" a que as pessoas se pudessem agarrar. Faltou-lhe o que manifestamente existe na dupla Major Eléctrico, que atuou a seguir: uma estratégia. Pedro Santos e José Moura improvisaram como uma entidade única lançando para a pista jatos de "noise", batidas subliminares e "cut-ups" que terminaram com a truncagem da voz de um anunciante de telemóveis.
Temia-se uma sova sonora a sério dada pelos finlandeses Pan Sonic. Nada que não pudesse ser resolvido com um par de tampões para os ouvidos mas, para estupefação de alguns e sobretudo para os que estiveram presentes na atuação do duo o ano passado no Festival Reset! - onde o massacre foi avassalador -, a música orientou-se por outras coordenadas. Embora a energia física que se desprende da eletrónica dos Pan Sonic se fizesse sentir e os estômagos agradecessem a massagem das baixas-frequências, a música esteve sempre focada, alternando passagens de ruído rosa com as típicas batidas "pata de elefante" ou martelo-pilão que fazem dos Pan Sonic os Kraftwerk dos esgotos, com o computador de ritmos a simular a sequência "boing, boom, tchak" de um dos álbuns dos magos de Dusseldörf. Poder e concentração num concerto que pecou por ser curto.
De outro DJ em agenda, Russell Haswell, esperava-se nova dose de agressão ou, no mínimo, de provocação. Mas se o início do seu "set" chegou a prometer sobressaltos, cedo os pratos se acomodaram às batidas de uma tecno parasitada que não estimulou ninguém – antes recordou que o bar estava ali mesmo ao lado a pedir mais uma cerveja...
O que ninguém esperava era que em vez de cerveja fosse a água o líquido da noite. Estava toda a gente a acomodar-se frente ao palco para receber as meninas Chicks on Speed quando a barragem rebentou e o dilúvio irrompeu pela calçada. Homens e mulheres transformaram-se em coelhos aos saltos em busca de uma margem. Chegar ao bar era nesta altura tarefa impossível, formando-se na zona um pequeno lago onde só faltava ouvir o coaxar das rãs.
Tempestade, alguma confusão, mas, por fim, as Chicks on Speed lá tomaram de assalto o palco, vestidas como as ninfetas punk-futuristas do início da década de 80, como Siouxsie Sioux. Começaram com a eletrónica num caos e os circuitos mal ligados mas a coisa era fácil de compor. A música das Chicks é de uma simplicidade desarmante. O que elas fazem com uma boa-disposição e empenhamento notáveis é mascar os lugares-comuns da "new wave" sintética de há 20 anos, piscar o olho ao "disco", pôr as caixas-de-ritmo em piloto-automático e armar uma pose "kitsch" para tirar o retrato aos anos e aos sons de bandas como Kas Product, Automatic Kids e Fad Gadget. Mas foi giro ouvir as pequenas cantarem "Warm leatherette" de The Normal, um hino da pop eletro-industrial da época, ou colorirem-se com os "confettis" dos B-52's numa atuação que deixou toda a gente feliz e a pedir mais. Pedido aceite e correspondido com "Euro trash girls", título que não poderia vir mais a propósito.
Já com a enxurrada estancada, o Número regressou de novo às mãos dos DJs, desta feita com a equipa da Fat Cat. Mas o que apetecia mesmo era uma toalha...
O Número Festival termina hoje com atuações do pai dos "grooves" do inferno, Aphex Twin, a "click-house" e tecno ambiental de Kid606 e People Like Us, uma rapariga de quem se diz ter ficado enfeitiçada pelos malfeitores sónicos Negativland. Queira Deus que não chova!...

A voz pendurada no estendal [Fátima Miranda]

cultura TERÇA-FEIRA 12 SETEMBRO 2000

Fátima Miranda amanhã no Rivoli do Porto

A voz pendurada no estendal

Fátima Miranda transformou o palco do CCB num estendal de roupa branca sobre o qual passearam fantasmas, fantasias e sombras de um mundo alucinado. Já não há facas atravessadas na cabeça mas a cabeça da cantora espanhola continua trespassada pela loucura. Agora encenada em "ArteSonado", o seu mais recente golpe de génio.

O que mais impressiona e surpreende em Fátima Miranda é a forma como se expõe sem limites aos olhares do público. E como de cada vez parte para uma viagem recheada de perigos sem a garantia de regresso. O que aconteceu na noite de domingo no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, para uma sala quase cheia, e voltará a acontecer amanhã no Teatro Rivoli, do Porto, foi o espetáculo/ritual condensado do nascimento, vida e morte de uma mulher que por companhia tem apenas a sua própria arte.
Primeiro o escuro uterino. A noite. Fátima surge em cena banhada em luz negra para cantar através de um tubo de plástico fluorescente que faz girar sobre a cabeça. É "Llamada!", chamada em chama, o tema que abre o seu mais recente álbum, "ArteSonado", a "arte que soa", entre outros significados mais esotéricos, e é impossível não pensar nos mesmos movimentos circulares feitos por alguns feiticeiros no chamamento dos deuses.
A partir deste momento, a voz segue em direção ao infinito. Violentada, repuxada do avesso, em beijos, gritos, números de contorcionista, de bruxa, de criança, de outros entes que nascem de dentro do inconsciente aberto como uma caixa de Pandora.
O concerto-performance de Fátima Miranda que integra elementos musicais, visuais (Andreas Grainer assina o desenho de luz) e cénico-dramáticos, com base no alinhamento de "ArteSonado", é uma experiência da voz mas também uma experiência de revelação dos mecanismos da mente. Tema após tema, Fátima Miranda vai estendendo roupa branca - ela própria enverga um vestido branco - num estendal montado no palco. Já não há facas na cabeça, como havia na anterior apresentação da cantora há dois anos neste mesmo local, mas lençóis.
Lençóis brancos que se animam com as cores de slides projetados ou que funcionam como testes projetivos para a imaginação. Em "Nila blue", os lençóis suportam o azul do mar, lençóis de água que logo se transformam em fantasmas e em janelas que dão para o outro lado. No meio da aldeia da roupa branca a voz da cantora vai operando prodígios, em contraponto consigo própria numa série de desdobramentos e diálogos com sequências pré-gravadas até à solidão final "a capella".
Fátima Miranda ascende ao sagrado para finalmente o corromper e fazer chafurdar na lama. Se toda a primeira parte de "ArteSonado" aponta para a elevação, graças ao recurso a técnicas vocais das mais diversas proveniências, já os temas finais, "RePercusiones 1: Esto es de lo que no tiene nombre" e "Asaetada" (o único que não faz parte do CD) exploram até à exaustão o lado mais lúdico, carnavalesco e sarcástico da cantora. Despedaçam-se os estereótipos femininos associados à futilidade através de uma sucessão de metamorfoses do rosto, da desmontagem dos gestos e conversações do quotidiano da mulher que lê revistas de sociedade e comunica por telemóvel. Uma delirante solução luminotécnica reduz a condição feminina à dimensão do circo.
Mas Fátima Miranda vai ainda mais longe ao entrar sem vergonha no domínio da escatologia, ligando os sons da voz aos do corpo com uma série de meneios corporais e fonéticos que culminam na explosão final (e literal...) de uma performance de aerofagia que pôs meio CCB de cara à banda.
Por fim, pousada no chão como uma ave exausta, Fátima dirige-se pela primeira vez diretamente ao público, nomeia a sua equipa e volta a abrir as asas com uma vocalização feita de espiritualidade. E assim, quando tudo parecia ter entrado nos eixos de uma "coisa civilizada", eis que a cantora se diverte a confundir o funcionário do CCB que lhe traz o tradicional ramo de flores e agradece com um "muito obrigadinho". Muito obrigadinho? No CCB? Risos curtos, não se faz, é um pequeno escândalo. Mas o público aplaude de pé. Fátima sorri.

FÁTIMA MIRANDA
PORTO Grande Auditório do Teatro Rivoli, amanhã, às 21h30.
Bilhetes entre 2000$00 e 2500$00

23/02/2017

Acordar com o buzinão [Tony Conrad]

cultura SEGUNDA-FEIRA, 13 MARÇO 2000

Tony Conrad espanta e convence no Museu de Serralves, no Porto

Acordar com o buzinão

Ocultos por uma cortina, como dois fantasmas, Tony Conrad e Alexandria Gelencser refutaram todas as noções tidas por seguras sobre a música e a sua interpretação. Não foi a música das esferas, mas o magma anterior à criação que revelaram ao público do Porto. O som em estado bruto.

Um buzinão em estereofonia. Foi assim que soou a música do norte-americano Tony Conrad, na sua primeira e única apresentação em Portugal, sábado, no Museu de Serralves, no Porto, no âmbito do ciclo On/Off, paralelo à exposição "Andy Warhol – A Factory". Um buzinão produzido em simultâneo por um parque automóvel inteiro e uma frota de navios.
            Durante cerca de uma hora e um quarto, Tony Conrad e a sua companheira Alexandria Gelencser "executaram", respetivamente no violino e no violoncelo, uma "drone" ininterrupta em que todas as noções convencionais de "composição" e "interpretação" se diluíram no "continuum" sonoro.
            Nem Tony Conrad, nem a sua companheira são intérpretes no sentido tradicional do termo. Nem sequer artistas com uma presença convencional em palco. Atuaram todo o "concerto" ocultos por uma cortina onde eram projetadas as suas silhuetas, como sombras chinesas. Ela sempre imóvel, ele num estranho bailado com o violino, e com um chapéu estilo Freddy Kruger.
            Utilizaram-se ambos dos respetivos instrumentos para instalarem na sala um som sem princípio nem fim, neste ponto de acordo com os princípios enunciados pelo guru La Monte Young, a quem Conrad esteve umbilicalmente ligado e cujas teorias procurou refutar. Alexandria tocou sem uma pausa sistematicamente a mesma nota, mais ou menos amplificada (aliás, foi essa capacidade em se manter fiel a uma única nota que terá seduzido Conrad em primeiro lugar e o terá levado a convidar para o palco a "violoncelista"...). Sobre esta nota, Tony Conrad acrescentou um molho de outras, arranhadas, arrancadas em postas de sangue ao violino. As únicas alterações sensíveis eram provocadas pelo aumento ou diminuição do volume e da carga de distorção provocada por meios eletrónicos. E assim, durante um período de tempo impossível de ser medido segundo os parâmetros normais, todos – músicos e público – aguentaram com estoicismo este "happening" descolado da fonte primordial do som.
            Diga-se que, embora radical pelo lado da insistência numa única tónica, por vezes no limite do suportável, esta música encontra parentesco estético em músicos como Charlemagne Palestine, Steve Reich (nas primeiras obras, como "Four Organs" ou "Phase Patterns", embora num quadro de sistematização que Conrad em absoluto dispensa) e o próprio La Monte Young. Uma música que, partindo de uma síncrese inicial, pretende, pela libertação sistemática de harmónicos, induzir o ouvinte num segundo nível, superior, de audição, levando-o a ouvir uma espécie de "música secreta" formatada pelo seu próprio subconsciente. Exemplo magnífico: há anos, na Gulbenkian, Steve Reich criou um nirvana virtual sustentado unicamente pelos harmónicos de seis pianos verticais.

            Mas Conrad não é Reich. Para que este salto qualitativo aconteça é necessário, quer se queira quer não, virtuosismo da execução. E foi por aqui, e só por aqui, que o "concerto" de Conrad e da sua companheira revelou a sua dissidência. Não aconteceu uma segunda música, sobreposta à da superfície, porque tanto o violino como o violoncelo nunca vibraram em sintonia com a música das esferas que os minimalistas almejavam. Como um Boeing que em vez de asas tivesse lagartas. Em lugar de harmónicos em suspensão, ouviu-se um ranger de dentes, um som que, insistentemente, rasou o chão. Mas essa é, afinal, a intenção de Tony Conrad – a desmistificação do minimalismo, amarrando o auditor à estaca zero da música. Desta opção poderá resultar outra espécie de transe, um estado de entorpecimento provocado pela monotonia e pela opacidade do som. Mas fosse qual fosse o modo como cada um, no auditório do Museu Serralves, interiorizou esta recusa sistemática do politicamente correto, a verdade é que a resposta final foi um prolongado aplauso de que o próprio Conrad, provavelmente, não estaria à espera. Só no final, ele e Alexandria se mostraram fisicamente ao público, para agradecer. Um homem gorducho com ar de avô bonacheirão e uma quase criança de olhar assustado. Sós, sem qualquer proteção, expostos perante uma hipotética e afinal não confirmada agressividade ou indiferença do público, conseguiram o prodígio de dar a ouvir o fluxo do som anterior a toda a música e mostrar o gesto que antecede a sua interpretação. O buzinão teve, afinal, o condão de nos acordar.