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24/02/2020

TUXEDOMOON - Cabin In The Sky


Y 2|JULHO|2004
roteiro|discos

tuxedomoon
cabine de provas

TUXEDOMOON
Cabin in the Sky
Crammed, distri. Megamúsica
8|10

Notícia excitante: os Tuxedomoon estão vivos. Melhor ainda: gravaram um álbum novo. Chama-se “Cabin in he Sky” e é, pelo menos, tão bom, como os álbuns clássicos da banda de São Francisco que se estreou com “Half-Mute” na mesma editora dos Residents e assinou a obra-prima “Desire” ou o angustiante e subterrâneo “Suite en Sous-Sol”. Corriam os anos 80, o tempo passou entretanto, mas o melhor permanece intacto – uma sonoridade única e canções que parecem querer desmoronar-se a qualquer instante mas acabam por se aguentar orgulhosas na sua própria lógica. O saxofone e teclados de Steven Brown e o violino de Blaine L Reininger fazem o som. Um romantismo estranho (é costume dizer-se, e é capaz de ser verdade, que os Tuxedomoon são a banda mais europeia da América) e estranhas combinações de letras em italiano (“Diario di un egoista”, “Luther blisse”) e ambientes cinematográficos fazem as canções. A folha de promoção não poupa nos elogios e, ao tentar definir “Cabin in the Sky”, garante que o disco suscita no ouvinte “impressões simultâneas de Miles Davis, eletrónica alemã, Paolo Conte, Radiohead, Debussy, ciber-ciganos, Michael Nyman, Velvet Undergound e uma dúzia de outros”. Descontando o prazer que é sempre ver citado Paolo Conte, o álbum é Tuxedomoon “vintage”, ainda que, desta feita, o grupo se tenha socorrido das colaborações de John McEntire, Aksak Maboul, Tarwater, Marc Collin, Juryman e DJHell. Mais a propósito, a mesma folha, abre um catálogo de pintura e lança os nomes de Pollock, Bacon, Miro e Dali. Já faz mais sentido. Cada canção é um híbrido que abarca várias influências, constituindo-se em quadros de disformidade e de uma beleza que atinge os píncaros do surrealismo em “La Piu Bella”, construído a partir de um sample com a voz de um anónimo italiano. No extremo oposto, “Here ‘til Xmas” é electro, graças à presença de DJHell, o mesmo que que há dois anos gravou uma série de remisturas de um dos temas mais antigos dos Tuxedomoon, “No Tears”, e “Chinese mike” combina elementos dos Cabaret Voltaire, respiração asmática, uma secção de sopros e batida falsamente “house”, enquanto “The island” cola ondas de poluição a ruído rosa, sintetizador borbulhante e um saxofone lânguido, num tom mais experimental semelhante ao dos álbuns a solo de Peter Principle, e “Luther blisset” (de novo com letra em italiano) é irresistível na junção de ritmo tecno com “free jazz”. Há os habituais ambientes de feira, nostalgia gelada, um baixo poderoso (“A Home away” esmurra-nos o estômago), acordeão, programações poderosas, jazz de bordel e grandes canções, como “Baron brown”, entre a declamação e uma “catchiness” com algo a fazer lembrar os finlandeses Wigwam. A atitude já não é tão punk como nos primórdios mas a inteligência e a desfaçatez continuam intactas.
Os Tuxedomoon tornaram-se uma das grandes bandas do séc. XXI e “Cabin in the Sky” tem a elegância de um fato Armani.

17/02/2020

Abrir a boca de espanto [Brian Eno]


Y 18|JUNHO|2004
roteiro|discos

brian eno
abrir a boca de espanto


BRIAN ENO
Here Come the Warm Jets
8|10

BRIAN ENO
Taking Tiger Mountain (By Strategie)
10|10

BRIAN ENO
Another Green World
10|10

BRIAN ENO
Before and After Science
10|10
Virgin, distri. EMI-VC

Brian Peter George St. Jean le Baptiste de La Salle Eno. Brian Eno para os amigos. Derrubou, remodelou e fugiu a sete pés da pop, criando com a sua “música discreta” as fundações de um edifício novo, com a etiqueta de “ambiental”, para a eletrónica dos nossos dias.
Mas no princípio era o artifício e a experimentação com as cores e formas da pop, lidas, relidas e regurgitadas como algo desfasado das normas ou, para usar o léxico do próprio, desenhadas de acordo com as “estratégias oblíquas”. Eno acabara de abandonar os Roxy Music, onde a força da sua imagem fazia espumar de ciúmes o “dandy” Bryan Ferry. Plumas e lantejoulas e um sintetizador de trazer por casa transitaram para “Here Come the Warm Jets”, álbum de fazer torcer o pescoço no esforço de encontrar referências apaziguadoras. Não havia. Aqui a pop desta Ruth Marlene aristocrata de cabelo ralo e pintura borrada era convulsão, as melodias pareciam existir desde sempre para se acoitarem em arranjos de um “não músico” que integrava o erro e o acaso no seu modo de agir. Alguns temas são demolidores. Diretos, lancinantes e, apesar disso, correndo ao pé-coxinho, como “Blank Frank” e o hino que arde, “Baby’s on fire”. As guitarras de Robert Fripp e Phil Manzanera serviam de rastilho. Pelo meio, experimentação e falsas baladas orgulhosamente pimba como “Some of them are old”. Bowie aprendeu a lição.
“Taking Tiger Montain (by Strategy)” é a primeira obra-prima. Inspirado nas “estratégias oblíquas” e na pintura de Peter Schmidt, refina a pop do disco de estreia. Impossível classificar estas canções que soam familiares e alienígenas, simples e incrivelmente complexas. Eno, o não-músico, descobria em cada nota, em cada reviravolta nas manipulações de estúdio, o prazer da criança que brinca com o desconhecido. “The true wheel” utiliza uma máquina de escrever para fazer o ritmo e a hipnose final, “Taking tiger mountain”, é uma lenta ascensão em espiral, “trompe l’oeil” auditivo cujos círculos sugerem um movimento que é pura ilusão.
Com “Here Come the Warm Jets” (uma das bíblias do pós-rock) Eno inicia o seu processo de afastamento da pop para se aproximar de uma música feita de fragmentos. A voz apaga-se para deixar brilhar a eletrónica e os efeitos especiais, as melodias ocultam-se e revelam-se em jogos de cabra-cega mas tudo se ilumina numa saudade de ouro em “Golden hours”, pura evocação não se sabe bem de que passado glorioso. Fripp, Phil Collins e John Cale são alguns dos participantes deste álbum feito de coincidências e confidências sussurradas demasiadamente baixo para lhe furtarmos um sentido único.
“Before and After Science” deve ser arrumado na estante dos discos fundamentais dos anos 70. É o retorno às canções construídas como colagens, mas agora envoltas na névoa minimalista resultante do contacto entre Eno e a dupla germânica Cluster, num tema como “By this river”, influência decisiva nos dois sentidos, já que também Moebius e Roedelius se deixariam enredar nas malhas do inglês nos seus “Cluster & Eno” e “After the Heat”. “Before and After Scince” anuncia ainda a new wave, no esplendor da sua energia concentracionária. “King’s lead hat” é uma homenagem, com título em anagrama, aos Talking Heads e “No one receiving” e “Kurt’s rejoinder” fazem boa companhia ao lado da trilogia do Bowie de Berlim, para quem este disco viria a constituir leitura obrigatória.
Eno inventou a sua própria ciência e passaria os anos seguintes a teorizar sobre ela. Viria a seguir a fase dos murmúrios, das metamorfoses do céu sobre Manhattan e da música sonhada num leito de hospital com a qual reinventaria, como John Cage, o silêncio. Antes, porém, vale a pena agarrar estes quatro álbuns que fazem a pop abrir a boca de espanto...

The Yardbirds - For Your Love... + Having A Rave Up With The Yardbirds


27|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro


YARDBIRDS

For Your Love, Heart Full of Soul & Others
8|10
Having a Rave Up With The Yardbirds
9|10
Sunspots, distri. Trem Azul

É comprar bilhete e recuar até ao tempo dos blasers justos, camisas, gravatas e “look” a fingir de atinado. Meados dos anos 60, o “cocktail” de drogas, “blues” e chá das cinco anunciava já o psicadelismo mas pouco tempo antes das fl ores e cabeleiras começarem a crescer o som pop inglês rimava “rhythm ‘n ‘blues” com uma veia melódica por vezes barroca. Os Yardbirds foram gigantes desta época. Com escassa discografia editada no país de origem, viram os seus melhores trabalhos serem lançados do outro lado do Atlântico, como “Little Games” e os agora remasterizados “Having A Rave Up With The Yardbirds”, de 1966, e “For Your Love”, antologia de 1965. “For Your Love”, título de canção que se tornaria “standard” dos anos 60, é mais energético e r&b em sangue, com a guitarra, já a escorrer ácido, de Jeff Beck que nesta altura tomara o lugar no grupo antes ocupado por outros dois futuros “guitar heroes”, Eric Clapton e Jimmy Page, e as vocalizações de Keith Relf (formaria os Renaissance e morreria poucos anos mais tarde). “Rave Up”, mais subtil, tem “blues” demoníacos, clássicos como “Heart full of soul” e “Evil hearted you” e proto-prog (“Pounds and stomps”). A pop inglesa de guitarras nasceu e mordeu aqui.

13th Floor Elevators - The Psychedelic Sounds Of 13th Floor Elevators


27|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

13TH FLOOR ELEVATORS
The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elevators
Sunspots, distri. Trem Azul
9|10

Do alto desta pirâmide 300 doses de LSD nos contemplam. 300 foram as vezes que, segundo as crónicas, Rocky Erickson ingeriu a substância mágica. Viria a flipar e a ser preso mas ainda teve tempo para gravar, em 1966, uma das obras-primas do psicadelismo. Subiu de elevador até à pirâmide de 25 andares e de lá fez a apologia de uma nova visão da realidade. “The Psychedelic Sounds...” é essa viagem guiada até ao cume, com direito a sexo, experimentação, sonhos lisérgicos e, no último tema, a redescoberta de Deus. Não se pense, porém, que Rocky era do tipo “flower power”, “California dreamin’”, incenso e tangerinas. A sua loucura é amarga e o som dos 13th Floor tresanda a rock de garagem. Em estados alterados de audição corre-se o perigo de não encontrar a saída. A bússola e o relógio deixam de funcionar em mantras (imaginem os Velvet sem a auto-disciplina) onde a guitarra de Stacey Sutherland, a voz e a cabeça de Rocky e o tempo reverberam, se deformam, encolhem e dilatam, e em canções como “Splash 1” que estabelecem a comunicação telepática entre Syd Barrett e Rocky. Tiveram ambos mau fim. Deixaram ambos traçado um caminho estreito que conduz às estrelas. Ou ao lado escuro da lua.

Joni Mitchell - The Complete Geffen Recordings


27|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

JONI MITCHELL
The Complete Geffen Recordings
4xCD Geffen, distri. Universal
6|10

Os anos 80 não foram gentis para Joni Mitchell nem ela foi gentil para os anos 80. “Wild Things Run fast” (1982), “Dog Eat Dog” (1985), “Chalk Mark in a Rain Storm” (1988) e “Night Ride Home” (1991) foram (des)considerados desfasados da época. A cantora canadiana retorquiu, queimando os “eighties” como a década da decadência e do materialismo. Mas Joni condescendeu e estes quatro trabalhos podem ser considerados os mais fracos da sua discografia. Afastada da veia jazzística e experimental de “The Hissing of Summer Lawns”, “Hejira” e “Mingus”, entrou de cabeça na pop mas deu-se mal com a superficialidade de uma música formatada no lado mais plastificado da eletrónica. Se “Wild Things” pode ser apreciado como operação de simplificação, com entrada no rock FM, “Dog Eat Dog” desce aos baixios da electropop e “Chalk Marks…” afunda-se no lodo de colaborações pouco enriquecedoras (Peter Gabriel, Willie Nelson, Tom Petty e Billy Idol). Em “Night Ride Home”, felizmente, Joni sacudiu a poeira e as ramelas dos olhos e arranjos, despertando de novo para as grandes canções. Os discos, remasterizados, ressurgem em caixa e capas de cartão que são simplificações das originais.

13/02/2020

Ani DiFranco - Educated Guess


Y 13|FEVEREIRO|2004
roteiro|discos

ani di franco
declaração de independência

ANI DI FRANCO
Educated Guest
Righteous Babe, distri. Megamúsica
8|10

O caso de Ani di Franco faz pensar. Com alma educada na folk e corpo tatuado no punk, a cantora de 34 anos, natural de Buffalo, é a lutadora por excelência contra o sistema, a “workaholic” infatigável, adepta do “faça você mesmo”, mas também a compositora inspirada e uma “true original” que, álbum após álbum (e já lá vão 17), vem traçando uma obra ímpar no panorama dos “singer songwriters” norte-americanos. Se longe vão os tempos em que Ani percorria os EUA de costa a costa no seu Volkswagen de molde a satisfazer os compromissos de um calendário de 200 concertos por ano, a verdade é que, nem por isso se aproximou mais do que quis ou que devia do “mainstream”.
            “Educated Guest” é tão marginal ao sistema como qualquer dos seus discos anteriores, ao ponto de assegurar, sozinha, a composição, interpretação, gravação e misturas das 14 canções. Mas Ani foi mais longe desta vez. Além do prodigioso trabalho de som que torna sonicamente fascinante um álbum quase exclusivamente elaborado com a voz e uma guitarra acústica, com esporádicas pontuações de piano elétrico ou de “wind chimes”, é a própria música que evidencia uma riqueza e complexidade que neste álbum conseguem ser tão ou mais cativante do que alguns dos seus trabalhos mais “produzidos”, como “Little Plastic Castle” ou “Up Up Up Up Up Up”. Ani declama, examina-se ao espelho em “overdubs” vocais, tira da guitarra refrações e reflexos de eletrónica artesanal ou aumenta a ressonância até às dimensões de uma caverna.
            Depois, o seu sentido de ritmo e de dinâmica contradizem tudo o que a indústria musical exige atualmente das “divas” pop. Ao invés de fórmulas adocicantes e “groove” sintético, a música de “Educated Guest” elimina tudo o que não tenha a luminosidade do espírito e a textura sanguínea e musculada da carne. Implosões e explosões de palavras e frases de guitarra que tanto bebem no “blues” e no “jazz” como numa “folk” espectral ilustram um sentido intrincado do tempo e o desejo de experimentação, a par de uma elegância que jamais se dilui no novelo de canções psicológica e socialmente empenhadas. Ani apenas terá como concorrentes Joni Mitchell e, no caso de “Educated Guest”, o álbum mais “difícil” da cantora canadiana, “The Hissing of Summer Lawns”, sem os sintetizadores e as percussões africanas; e, esporadicamente, Annette Peacock, com quem partilha o gosto pela “spoken word” “swingante”, em que a acutilância e a ternura se confundem, em poemas apontados a alvos precisos, como “Grand Canyon” – uma raspagem ao relevo emocional e social da América e um retrato cruel dos seus habitantes, tão carregados de sarcasmo como de esperança – como ela, “born of the greatest pain/ Into a grand canyon of light”.
            Ani canta e “scata” como uma criança magoada, um sádico em busca de vítimas, uma “blueswoman” (por vezes mais próxima do misticismo descarnado de um John Fahey) em transe, uma sonhadora, uma guerreira. “Educated Guest” é a primeira grande declaração de independência da pop deste ano.

07/02/2020

O voo de pássaros cruéis no ar envenenado [Einstürzende Neubauten]


Y 13|FEVEREIRO|2004
música|einstürzende neubauten


Os edifícios podem ter-se desmoronado mas os Einstürzende Neubauten não desistem de esgravatar nos escombros. Depois de, no álbum anterior, terem feito amor com o silêncio, muniram-se, no novo “Perpetuum Mobile”, de pistolas de ar comprimido e da visão dos pássaros. Mas que ninguém se iluda: tresanda a miasmas.

O voo de pássaros cruéis no ar envenenado

Arrumaram no armazém os berbequins e os martelos-pilões dos primeiros álbuns. Mas apesar de já não sangrarem em palco nem espancarem pontes como faziam nos tempos em que destruíam tudo em seu redor, os Einstürzende Neubauten (EN) continuam tão ou mais ameaçadores do que antes. “Perpetuum Mobile”, o novo álbum, sussurra-nos perversidades aos ouvidos, reforçando a transição dos Neubauten do metal batido dos primórdios para os Neubauten das ventanias tóxicas. Em termos elementares e alquímicos, do fogo para o ar. “‘Perpetuum Mobile’ é o silvo da primeira viagem pelo ar. O próximo álbum será o som do seu impacto”, dizem eles na revista “Wire”. A terra aproxima-se e o choque pode ser brutal. Acautelem-se.
            Em “Perpetuum Mobile” a música do quinteto, de cuja formação original apenas restam Blixa Bargeld (também elemento dos Bad Seeds, de Nick Cave, grupo que abandonou recentemente para se dedicar às gravações do novo Neubauten), Alexander Hacke e Andrew Chudy, respira nas camadas altas da atmosfera mas o efeito nefasto dos gases venenosos não se dissipou. É verdade que já não há ciclopes armados de malhos para nos esmigalharem os miolos como acontecia nas obras de demolição “Kollaps” (1981), “Zeischnungen des Patienten O.T.” (1983) e os três volumes da antologia “Strategies Against Architecture”, que colocavam os EN na fila da frente da legião industrial, na sua vertente mais radical e niilista, a par dos Throbbing Gristle e dos primeiros Test Dept. e SPK, mas a violência, apesar de dissimulada, não se dissipou. A serração fechou as portas, a carne do talho apodreceu, o metal enferrujou. Porém, a viagem através do sofrimento não cessou. Hoje os Neubauten envergam “smoking” e arvoram um sorriso fino de crueldade nos lábios para, como os demónios de “Hellraiser”, nos romperem a pele com um bisturi.
            “Halber Mensch” (1985) e “Fuenf auf der Nacht Oben Offenen Richterskala” (1987) deram início à derrocada mas não puseram fim ao cataclismo. “Haus der Luege” (1989), inundado com esperma de cavalo, virava a página das perversões e com “Tabula Rasa” (1993) e “Ende Neu” (1996), incursões algo falhadas na eletrónica, os Neubauten prepararam o terreno no qual iriam semear as novas minas.
            “Silence is Sexy”, de 2000, trouxe o monstro para o campo das canções. Um silêncio de mau agouro a envolver um erotismo sonoro malsão, com palavras que se infiltram na mente como agulhas de ponta incandescente e sons regurgitados das regiões mais recônditas do inconsciente. “Perpetuum Mobile” pegou nesse silêncio carregado de ameaças e insuflou-o de ar comprimido, fazendo a música subir como um balão que esconde nas suas entranhas uma colónia de vermes. Já não há, como antes, tanques de guerra, estruturas de cimento e óleos pesados. Mas há pistolas de ar comprimido, sinos de loucura, papel, plástico e sirenes de alarme. Também percussões metálicas, como não podia deixar de ser, todavia mais maneirinhas. E pássaros. Não os que trazem consigo a Primavera mas aves cruéis como as de Hitchcock.
            Afinal de contas, os Neubauten não mudaram assim tanto. Desprezam, como sempre desprezaram, a indústria e o “mainstream” e, numa concessão às velhas estratégias de sova do passado, permitiram-se mesmo uma performance de percussão numa escada (não, não se trata de terem tocado na escada mas de tocá-la de facto, ou seja, dar-lhe uma carga de porrada).
            Eles subiram pelo ar. É de lá que desencadeiam tempestades. E é a altitude que lhes confere a visão do cimo, a visão do poder. Poder-se-á pensar que o convívio de Bargeld com Nick Cave serviu para aveludar o discurso e em “Perpetuum Mobile” não faltam canções (com melodias atrativas, pasme-se!) que dão razão a tal argumento. O disco esteve, de resto, para se chamar “The New Song”, o que também fazia sentido. Não se pense, porém, que “Perpetuum Mobile” é um mar de rosas. Quando menos se espera irrompem secções de eletro-acústica e música concreta (o segundo CD, um DVD-áudio em formato 5.1 “surround”, apenas legível em leitores de DVD e PC, é uma imersão no interior do som, enquanto matéria palpável) e “riffs” infernais que, curiosamente, lembram o trabalho pioneiro dos também germânicos Faust.
            Será ódio, será amor, o certo é que “Perpetuum Mobile”, apesar de cultivar, ainda e sempre, a agressão (ou o desporto, como adiante se verá…), não pretende ser repudiado mas ouvido. E discutido. Durante os vários meses de trabalho de estúdio os fãs do grupo puderam acompanhar, passo a passo, via Internet, as gravações, comunicando com os músicos e tendo acesso a demos. É também esse momento, ou movimento, de troca, que pauta o atual estado de coisas na organização Neubauten. Há um objetivo final (“a besta ainda não acordou por completo”, lê-se na letra de uma das canções) e os estrategas de Berlim conhecem-no (pudera, lá do alto, vê-se tudo com maior clareza!). Ponhamos também nós o nariz e as antenas no ar. Mas com cautela.
            Também à cautela, conversámos com Alexander Hacke, baixista do grupo. Falso alarme. O tipo tem sentido de humor.

            “Perpetuum Mobile” esteve para chamar-se “The New Song”…
            O título tem a ver com o processo de produção. “Perpetuum Mobile” é um maquinismo que se sustenta a si próprio. Foi o que tentámos fazer, contornar o sistema da indústria, e gravar um disco suportado pelas pessoas que gostam do que fazemos, sem a interferência de nenhuma editora.
            É importante sentirem que as pessoas gostam do grupo? Nos primeiros anos não parecia, com toda aquela agressão e violência…
Eu não lhes chamaria agressão e violência, mas entusiasmo (risos). Era mais como no desporto, aquela energia que é necessário acumular para se conseguir resultados. Houve quem visse nisso algo de patológico... Os Neubauten lidaram sempre com a investigação e a experimentação tecnológica. Fizemos “sampling” antes dele existir. Experimentamos igualmente ao nível da escrita e da dramatização, em pôr em prática determinados conceitos, mas é claro que também nos queremos divertir.
Foi por causa desse processo que o álbum levou quase um ano a fazer?
Mas foi o que gravámos em menos tempo! O anterior demorou três anos. O facto de termos todas aquelas pessoas a acompanhar a gravação obrigou a que chegássemos a horas ao estúdio (risos). Chegávamos lá e já estavam cem pessoas à espera. Tínhamos que mostrar trabalho.
Não era constrangedor?
Bem, elas “estavam” no computador. Mesmo as pessoas que não gostam do que fazemos, e havia uma ou duas dessas, o simples facto de estarem presentes já nos ajudava. Isso e centenas de mensagens de apoio. Mas não era propriamente uma democracia, submetermos cada decisão a sufrágio, do estilo: “Devemos usar um sol maior ou um sol menor?” (risos). Os nossos admiradores puderam ver-nos sem máscaras, ao contrário da maior parte dos artistas que se escondem e pretendem ser aquilo que não são. Para alguns terá sido como aceder a um “site” porno, pagar cinco euros para ter direito a alguma intimidade ou à ilusão de ficar mais perto… E houve os que ficaram desapontados, por não terem assistido a algo mais glamoroso ou misterioso.
Na “Wire” defendem ser este um álbum que reflete o “silvo do ar”. E que o próximo ilustrará o impacto na terra.
A frase é do Rudolf Moser, a típica declaração de um baterista (risos). Mas é verdade que o ar é o elemento mais presente na atual fase do grupo, em oposição ao fogo de antigamente. Antes púnhamos fogo em cada palavra das canções, nas apresentações ao vivo, fogo em todo o lado… Desta vez, quando começámos a trabalhar, colámos na parede um mural onde escrevíamos metáforas, sobre coisas que nos interessavam. Acabámos por notar que falávamos sobretudo de respiração, de murmúrios, de tempestades, de ventos. O ar tinha que ser o elemento principal do álbum.
Há outra perspetiva, a perspetiva aérea do observador, que controla de cima porque consegue ver o quadro completo dos acontecimentos…
Sim. Como os pássaros [uma das canções o disco tem como título “Um pássaro raro”]. A perspetiva do pássaro. Outro dos tópicos do disco é a “passagem”, a viagem, a mudança. Antes falávamos principalmente das estruturas interiores, neste álbum falamos de sair para o exterior, da transformação num novo ser.
Sim, mas e do ponto de vista do poder político? A partir de um helicóptero é possível à polícia controlar os movimentos de uma manifestação de rua, por exemplo…
Sim. Vigilância. Obviamente que não nos escondemos num buraco no chão (risos).
A vivência de Berlim continua a ser determinante?
Continuo a viver em Berlim mas passo grande parte do tempo fora. Agora é fácil. Os Neubauten começaram por ser uma banda de Berlim Ocidental, daí toda aquela agressividade contra um certo elitismo “arty” que se fazia sentir nessa parte da cidade. Havia idiotas que se sentiam bem assim, que achavam que não se devia receber influências do exterior. Com a queda do Muro, uma quantidade de putos irrompeu do lado oriental, trazendo novas ideias e criatividade.
As sonoridades de “Perpetuum Mobile” refletem também a relação do grupo com os objetos e os materiais enquanto artefactos sonoros e musicais. Como executam essa pesquisa?
Muitos desses objetos têm melhor aparência do que som. De certa forma os Einsturzende Neubauten têm a ver com uma maneira especial de olhar para as coisas e para a música. Há coisas que só consigo tocar com o grupo.
Como se sente na qualidade de executante de baixo elétrico, no meio de tipos que batem e tiram sons de toda a espécie de objetos estranhos?
Oh… Sinto-me muito feliz por fazer de “idiota” do grupo (risos). São só quatro cordas mas adoro as frequências baixas. O baixo foi sempre determinante na música dos Neubauten. Quando o anterior baixista, Marc Chung, abandonou o grupo fiz questão de ficar no baixo em vez de passar essa função a outro músico.
Os Neubauten representam a continuidade de uma certa tendência do krautrock, personificada por uma banda como os Faust?
Há dois grupos que marcaram a nossa sonoridade. Mais do que os Faust, citaria os Can, ao nível dos métodos de produção e de pesquisa, e os Ton Steine Scherben, um grupo de ativistas, politicamente empenhados, também dos anos 70, muito parecidos connosco nos primórdios. Na raiva.
Mas são os Faust que hoje em dia desempenham o mesmo papel que os antigos Neubauten, com sonoridades industriais e a destruição dos palcos por onde passam…
São loucos, uma cambada de sociopatas! (risos) Esses tipos são completamente pirados! (risos). No fundo são “hippies”. Nós somos pessoas normais que apenas fazemos o nosso trabalho.

EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN
Perpetuum Mobile
2xCD Mute, distri. EMI - VC
8|10

Lisa Gerrard & Patrick Cassidy - Immortal Memory


Y 6|FEVEREIRO|2004
roteiro|discos

LISA GERRARD & PATRICK CASSIDY
Immortal Memory
4AD, distri. MVM
6|10

Agasalhem-se, bebam uma aguardente, cheguem-se perto da lareira. Lisa Gerrard, a voz de mármore dos Dead Can Dance e This Mortal Coil, passeia-se pelo cemitério numa noite de luar. “Immortal Memory” depura o gótico e as recriações de música antiga dos Dead Can Dance, com toques de “folk” e mitologia céltica (Cassidy é um compositor irlandês que a cantora conheceu quando trabalhava na banda sonora de “Gladiador”) e uma grandiosidade expressa em grandes massas orquestrais, numa produção tumular e em canções que sugam a alma até esta ficar da cor de um lençol. “The song of Amergin” poderia passar por Enya do outro lado do espelho, na banda sonora de uma versão de terror de “O Senhor dos Anéis”, com Lisa a invocar as entidades do além com os seus cânticos de diva sonâmbula. A partitura de Howard Shore para o filme de Peter Jackson parece ser, de resto, a principal referência de “Immortal memory”, ao nível dos arranjos, a julgar por orquestrações como as de “Maranatha” e “Amergin’s invocation”, esta a roçar a clonagem… Evocam-se lendas e rituais solenes, perdidos no tempo e na memória mas os grandes glaciares desta música que dança, mais ou menos ostensivamente, com a morte, têm efeitos bem mais profundos na obra dos The Zone, Lustmord ou nas inultrapassáveis e temivelmente belas litanias de “Zamia Lehmanni (Songs of Byzantine Flowers)”, dos SPK.

Wim Mertens - Skopos


Y 6|FEVEREIRO|2004
roteiro|discos

WIM MERTENS
Skopos
Usura, distri. Megamúsica
6|10

Wim Mertens tem um dilema. Empenhado na criação de uma obra monumental, nalguns casos impenetrável, dispersa por trilogias, tetralogias e infinitologias, sente-se, por outro lado, impelido a mostrar um lado mais acessível e “fácil” da sua música. “Skopos” pertence à categoria do Mertens “ligeiro” e “mainstream”. Armado do seu “ensemble”, o compositor flamengo cria um híbrido de estilos e sonoridades exóticas capazes de seduzir o ouvido pelo imediatismo. Flamenco e música árabe fazem a sua aparição em “And growth can be heard”, “Further hunting” é pretexto para percussões em compasso de “house” subliminar e “Swirling backwards” reinventa o lado erudito dos Tuxedomoon, enquanto “From out of which” retoma as velhas pianadas num registo pop próximo dos Penguin Cafe Orchestra e “Bold forgetting” e “Working the ploughs” apostam no minimalismo romântico que depois de “O Piano” de Nyman não cessou de se repetir. Sem dúvida bonito, mas longe da estranha música de câmara de “Vergessen”, “Struggle for Pleasure” e “Maximizing the Audience”, aqui apenas igualada pelo belíssimo (e Nymaníssimo…) epílogo, “Bewildering din”.

29/01/2020

Os outros Nirvana


30|JANEIRO|2004 Y
nirvana|música

Os outros Nirvana


A história de um equívoco que serviu para dar a conhecer uma das mais requintadas e ignoradas bandas da pop dos 60’s. Os primeiros álbuns estão aí. O mito começa a nascer.

É um dos equívocos mais divertidos da pop – a confusão que se instala sempre que um fã declara a grande banda que foram os Nirvana e outro, mais velho, concorda, com um sorriso largo no rosto, acrescentando que sim, que foram uma deliciosa banda psicadélica, responsável por magníficas canções açucaradas por cubos de LSD.
            “Estás a gozar comigo!?”, urra o primeiro, considerando a tirada ofensiva para a memória do seu ídolo, Kurt Cobain. “De modo nenhum!”, insiste o segundo, alargando ainda mais o sorriso. Tal discussão termina com o segundo a explicar ao primeiro, num gesto magnânimo, a causa de tamanha discrepância, aplacando deste modo a estupefação e, nalguns casos, a fúria do acérrimo defensor dos heróis do “grunge”.
            Pois bem, caros leitores, as enciclopédias registam de facto duas bandas com o nome Nirvana, cada uma delas em ação num período distinto. Os Nirvana de “Nevermind” e do rock escavado como uma ferida não cicatrizada estão bem documentados. Não é deles, porém, mas dos outros que se começa a falar, um pouco por todo o lado (discotecas lá fora, por exemplo, passam a sua música nas colunas e enchem com ela os escaparates e muitas revistas da especialidade incluem recensões aos discos nas respetivas páginas de reedições).
            A perplexidade causada pela existência de dois Nirvana estendeu-se à própria banda de Seattle, ao tomar conhecimento dos seus homónimos de três décadas antes, e da consequente proibição legal em utilizar o nome. O “litígio” foi resolvido amigavelmente, com os Nirvana ingleses a abdicarem do uso exclusivo do nome. Melhor ainda: num gesto que aumentou ainda mais a confusão, os Nirvana originais gravaram uma versão do “single” “Lithium”, dos Nirvana modernos, arrumando-a, ao lado de inéditos de arquivo, na antologia de 1996, “Orange and Blue”.
            O resultado não se fez esperar. Alguns comentários afixados no site da Amazon, de compradores “enganados”, são hilariantes. Um exemplo: “O meu primo ofereceu-me este disco no meu aniversário, sem se dar conta de que não são os mesmos Nirvana, os que fazem boa música!”. Outro: “Isto é mau! Realmente mau! Se gostam dos Nirvana de Seattle, não comprem este disco”. Menos preconceituoso, DJ Shadow samplou o tema “Love suite” (de “To Markos III”) em “Stem”, incluído no seu álbum de estreia na Mo Wax, “Endtroducing”.

            os outros. Mas quem são estes “outros” que desencadeiam tanto o ódio como a admiração? Eram uma banda de pop psicadélica britânica que nos anos 60 gravou pérolas pop de sonho, como “Tiny goddess”, “Pentecost hotel” e “Rainbow Chaser”, e três álbuns cuja música tem o poder de transformar os admiradores dos Nirvana dos 90’s em psicóticos enraivecidos: “The Story of Simon Simopath” (67), “All of Us” (68) e “To Markos III” (70). Todos disponíveis nas lojas portuguesas, em novas versões remasterizadas e acrescidas de “bonus tracks”, substituindo as mais antigas da Edel dos dois primeiros, editados à época pela Island.
            Patrick Campbell-Lyons e Alex Spyropoulos, um irlandês e um grego, formavam a dupla criativa dos Nirvana e desta aparente incompatibilidade de culturas terá resultado a originalidade da música – uma pop ornamentada por arranjos barrocos para melodias evanescentes. Não é um som típico, nem da pop nem do psicadelismo, mas um híbrido dos dois.
            “The Story of Simon Simopath” é um dos mais antigos “concept albums” da pop britânica, a par de “S. F. Sorrow”, dos Pretty Things, e “Ogden’s Nut Gone Flake”, dos Small Faces. A história, inspirada na literatura de Ficção Científica, descreve as aventuras do dito Simon e a sua aprendizagem no espaço sideral (a história conta que no hospital psiquiátrico não lhe encontraram qualquer anomalia), o que, atendendo à contribuição do LSD na manufatura do álbum, terá sido fácil de conseguir. As canções são fábulas às cores, pintadas com violoncelos, gliockenspiel e “french horn”, e títulos como “Wings of love”, “Satellite jockey”, “In the courtyard of the stars” e “Pentecost hotel”, este último uma das melodias memoráveis que fazem de “The Story of Simon Simopath” um disco indispensável para quem gosta da pop psicadélica inglesa, na sua vertente mais angelical, cultivada por grupos como Zombies, The Association e Kaleidoscope/Fairfi eld Parlour, ou da sua correspondente americana personificada pelos Millenium e Sagittarius. A nova reedição apresenta o mesmo alinhamento nas versões stereo e mono, mais quatro inéditos, incluindo um bizarro “Requiem to John Coltrane” em registo de “free pop”.
            “All of us” é um manjar de melodias requintadas. “Rainbow chaser”, enfeitado com cravo e luxuriantes arranjos orquestrais, é um clássico do “acid rock” bucólica, ao nível do melhor que se fez em Inglaterra nos anos 60. “Tiny goddess”, outro exemplo da veia melódica da dupla Lyons/Spyropoulos, evoca tanto os Beatles, como os Beach Boys de “Pet Sounds” e os Bee Gees (não fujam já aos gritos!) do período psicadélico dos quatro primeiros álbuns (“First”, “Horizontal”, “Idea” e “Odessa”). Bem, é verdade que o refrão de “Melanie blue” imita os Bee Gees naquilo que estes tinham de mais pindérico. Mas “Trapeze” – ao mais puro estilo dos Fairfield Parlour de “From Home to Home” – consegue falar de Camelot e de trapézios voadores sem cair no ridículo e a flauta de bisel e o violoncelo conferem a “The show must go on” um ambiente de pop de câmara semelhante ao dos Fuchsia (outra banda obscura da folk-gótica-psicadélica inglesa). “Girl in the park” fulge como um cristal cuja melodia os Kinks não desdenhariam, “You can try” poderia trazer a assinatura de Brian Wilson e “St. John’s wood affair” é Paul McCartney a rodar um caleidoscópio, canção-camaleão onde cabe uma mão cheia de viagens de LSD. “The touchables”, por sua vez, é o canção-tema do filme com o mesmo nome realizado por Robert Freeman. E assim sucessivamente, cada canção com a capacidade de prender o ouvido através de um arranjo ou de uma volta especiais, quais mini-sinfonias cuidadosamente esculpidas mas que a cada momento ameaçam levantar voo e desaparecer.
            Em comparação com “The Story of Simon Simopath” e “All of Us”, “To Markos III”, gravado quando o desentendimento entre Lyons e Spyropulos já se fazia sentir muda para um tom que raia o patético em temas como “Aline cherie” e “Love suite”. O equilíbrio das vozes desfaz-se no exagero, caindo no “music hall” e em sugestões de “glam”, sobrando do delicado psicadelismo dos primeiros álbuns apenas “It happened two Sundays ago” e “Christopher Lucifer”.
            Consumada a saída do grupo de Spyropulos, Campbell-Lyons faria sozinho a transição dos Nirvana para o rock progressivo, em “Local Anaesthetic”, álbum de 1971 composto por apenas dois longos temas (“Modus operandi” e “Home”) para a Vertigo, editora lendária do Progressivo da qual Lyons se tornou um dos principais produtores. Apesar de altamente colecionável na edição original em vinilo (o CD saiu pela Repertoire) a música alterna boas “jams” progressivas com o horrível. A magia, essa já desaparecera nas asas de Simão Simopath.

NIRVANA
The Story of Simon Simopath
8|10

All of Us
9|10

To Markos III
6|10

Island, distri. Universal

The Who, a ópera do cérebro


Y 30|JANEIRO|2004
roteiro|discos

the who, a ópera do cérebro


THE WHO
Tommy
2xCD Polydor, distri. Universal
9|10

“Tommy, can you hear me?”, o grito, ouvido nos quarto cantos do mundo onde se ouve música rock, volta a ecoar, passados 35 anos. Tommy, o rapaz cego, surdo e mudo que se relacionava com a realidade através dos jogos de flippers, nos quais era imbatível, está de regresso. Agora em formato de super áudio CD (legível também nos leitores vulgares), em som Surround e aumentado para dois discos. Sujeito a nova remistura por Pete Townshend, o álbum tem agora a companhia de 17 temas extra, incluindo “demos” e apontamentos dispensáveis. Lamenta-se ainda, em comparação com a anterior reedição (em CD simples), a ausência das letras e a eliminação do grafismo original.
            Mas é “Tommy”, a ópera-rock, que renasce das cinzas. Na altura foi recebida com aclamações de “obra-prima” mas também como uma exploração chocante da temática do autismo e da violação (numa parte da narrativa, Tommy, ainda criança, é violado por um tio). “Tommy” é ambas as coisas, marcado pelo acesso de misticismo de Townshend, na altura influenciado pelas ideias de Meher Baba (o grande álbum da banda, “Who’s Next”, abriria mesmo com o tema-dedicatória “Baba O’Riley”).
            Sexo, drogas (o ácido, claro, estava-se em 1969…e em 2004, o último número da Mojo dedica 40 páginas ao tema!...), ilusões, traumas, religião, falhanços e, em última instância, o triunfo e a glória do herói, metamorfoseado em Messias, refletem as preocupações do líder e guitarrista dos The Who, para quem a realidade não é percebida exclusivamente pelos sentidos mas por uma visão interior. “Tommy” é essa viagem de descoberta interior. O disco teve, aliás, títulos provisórios elucidativos, como “Amazing Journey”, “The Brain Opera”, “Journey into Space” e “Deaf, Dumb and Blind Boy”. Sofreu percalços. De grande música derivou para o espetáculo de pacotilha em que Ken Russell o transformou, ao fazer do tema matéria para o seu filme e, consequentemente, convocando para a banda sonora uma chusma de estrelas para interpretarem, no filme e no disco, as personagens idealizadas por Townshend. Esse, porém, é outro “Tommy”, porventura até mais conhecido.
            As 24 canções de “Tommy” são jogadas acutilantes de pop e rock que integram elementos de psicadelismo (“Christmas”, “Cousin Kevin” ou “Smash the mirror”, por exemplo, mais do que “The acid queen”, são suficientes para amolgar o cérebro), melodias de sedução e precisão notáveis e arranjos que desmentem em absoluto a ideia da ópera-rock ser invariavelmente um amontoado balofo de exibicionismo de meios e lugares-comuns. “It’s a boy”, “Pinball wizard” e “I’m free” são as canções mais conhecidas, aquelas às quais as radios e as memórias se agarraram, mas é a sequência total que impressiona.
            “See me, feel me, touch me, heal me” é o pedido de auxílio, lançado insistentemente pelo deus dos “flippers”. “Tommy”, o disco, faz o mesmo apelo.

Hey Jimi! [Jimi Hendrix]


Y 30|JANEIRO|2004
música|reedições


Hey Jimi!

Uma caixa de 10 singles, outra com um concerto em Londres exaustivamente documentado, mais um DVD de um espetáculo em Berkeley – os colecionadores esfregam as mãos.

Astérix, Obélix, Abraracourcix, Hendrix. Irredutíveis guerreiros. O último, Hendrix, impressionou particularmente, graças aos seus feitos como músico. Jimi Hendrix, rocker e guitarrista de Seattle, morto aos 28 anos, foi um guerreiro da luz. Ao desaparecer, levou consigo as estrelas e as explosões flamejantes da sua Fender Stratocaster. Preparava aquele que seria o seu quarto álbum de estúdio, “First Ray of the New Rising Sun”. Mas a nova aurora nunca chegou a nascer.
            A partir dessa data, 18 de Setembro de 1970, nunca mais parou a especulação em torno do seu nome. Como já acontecera, aliás, em vida. Sucederam-se as histórias, inventaram-se pormenores, fizeram-se prognósticos sobre o futuro hipotético, sobre o estilo musical que iria marcar as etapas seguintes. Segundo uns, Hendrix preparava-se para ser um músico de jazz (faz sentido). Dispusera-se a aprofundar as suas raízes “blues” (faz sentido), garantiam outros. Manteria a mesma direção (faz sentido) dos três anteriores álbuns (“Are you Experienced?”, “Axis: Bold as Love”, “Electric Ladyland”), afiançava outra fação.
            Provavelmente Hendrix faria como sempre fez, fecharia os olhos e seguiria para onde a guitarra lhe mandasse. E, também provavelmente, foi isso mesmo que aconteceu e foi a guitarra que lhe ordenou a morte. Ela já estava presente na música, enquanto celebração impossível de uma transcendência que ao simples mortal é vedada, pela via que Hendrix escolheu – a via da mão esquerda (ele que era esquerdino) e do poder.
            Em conformidade, correu-se a esgravatar na vida e nos arquivos de estúdio, onde o guitarrista deixara quilómetros e quilómetros de fita gravada, bem como nos registos ao vivo de concertos. Editaram-se dezenas de álbuns póstumos – dos quais o mais importante será “The Cry of Love” –, antologias e “bootlegs”, sem qualquer espécie de controle ou, no mínimo, de respeito pela sua memória. Até ao dia (em 1995) em que a família, através do pai, Al Hendrix, e da meia-irmã, Janie, comprou os direitos legais da obra e meteu mãos à obra de pôr ordem na casa e um ponto final à especulação e ao caos editorial.
            Para tal, criaram o selo Experience Hendrix, chamaram os engenheiros de som John McDermott e Eddie Kramer (responsável pelas gravações originais do guitarrista) para tomar conta das remasterizações dos três álbuns gravados em vida por Hendrix, lançados no mercado em 1997, e até uma quantidade razoável de gravações de interesse apenas para os colecionadores, organizadas e comercializadas através de outro selo criado pela família, a Dagger Records, com autorização legal para editar “bootlegs” do artista.

            experiências. No entanto, o fluxo editorial está longe de poder ser considerado estancado. Três novos “objetos” com a marca Hendrix surgem agora quase em simultâneo no mercado português: “The Singles Collection”, “The Last Experience” e “Jimi Plays Berkeley”.
            “The Singles Collection” é uma caixa com 10 singles remasterizados e embalados em capas de cartão a imitar os originais. “The Last Experience” junta em três CDs o concerto da Jimi Hendrix Experience no Royal Albert Hall, de Londres, a 24 de Fevereiro de 1969, editado pela primeira vez na sua totalidade, uma vez que a anterior reedição apenas apresentava a versão usada originalmente como banda sonora do filme “Experience”. Por fim, “Jimi Plays Berkeley” é um DVD do duplo concerto no Berkeley Community Theatre, realizado a 30 de Maio de 1970.
            A caixa de “singles” vale pelo objeto em si, uma vez que não se compreende a específica seleção de “singles”. Não estão todos. Mas os que estão oferecem, além da curiosidade da embalagem, um som excecional, resultado da remasterização de Eddie Kramer (os mais puristas torcerão o nariz, em nome da autenticidade, mas…). São eles: “Hey Joe”/”Stone free”, “Purple haze”/”51st anniversary”, “The wind cries Mary”/”Highway chile”, “Burning of the midnight lamo”/ “The stars that play with laughing Sam’s dice”, “Foxy lady”/ “Manic depression”, “Crosstown traffi c”/ “Gypsy eyes”, “Voodoo chile”/ “Hey Joe”/ “Watchtower”, “Stepping stone”/ “Isabella”, “Dolly Dagger”/ “Night bird flying” e o disco de Natal com o “medley”, “Little drummer boy – Silent night – Auld lang syne”/ “Three little bears”. Todos temas que já constavam de anteriores edições. Podem ser ouvidos agora em separado. Como brinquedos eventualmente perigosos…
            Imagens de agitação estudantil na cidade justapostas à música de Hendrix fazem parte do material que preenche o DVD “Jimi Plays Berkeley” dos concertos de Berkeley, originalmente editados num documentário vencedor do 1º prémio do Festival de Cinema de Amsterdão. As imagens originais foram transferidas digitalmente para o novo formato e a banda sonora remisturada em stereo e 5.1 “audio surround” por Eddie Kramer. As “special feautures” apresentam ainda, apenas em formato áudio, a totalidade do segundo concerto, também misturado em som “surround”. Temas como “Hey baby (new rising sun)”, “Lover man”, “Stone free”, “Machine gun”, “Foxy lady”, “Purple haze” e “Voodoo child (slight return)” são aqui executados pela Jimi Hendrix Experience, então formada pelo baterista Mitch Mitchell e o baixista Billy Cox que, entretanto, substituíra Noel Redding, do trio original.
            Por fim, a “última experiência” respeita pela primeira vez, além da totalidade do concerto, também o alinhamento original do espetáculo no Royal Albert Hall, iniciado, logo após a afinação da guitarra (faixa 1), com “Lover man”, uma versão de “Rock me baby”, de B. B. King. O primeiro CD inclui versões longas de “Stone free”, “Red house”, bem como “Foxy lady” e “Sunshine of your love”, dos Cream. No segundo estão, entre outros, “Little wing”, “Voodoo Chile (slight return)”, “Room full of mirrors”, “Purple haze” e “Star-spangled banner”, o hino americano interpretado com as notas do Apocalipse no final do festival de Woodstock, em 1969, que ficou imortalizada nas imagens do documentário de 1970 de Michael Wadleigh. Os últimos sons, colados no final, de Hendrix a destruir o amplificador com a guitarra, figuram com título “Smashing of the amps”, como se fosse uma verdadeira canção. Pensando bem, poderia ser…
            Há ainda duas versões editadas (“Bleeding heart” e “Room full of mirrors”) e uma sequência de “soundchecks” de interesse duvidoso que começam no segundo compacto e se estendem pela totalidade do terceiro. Os colecionadores agradecem. Os simples melómanos ou admiradores de Hendrix, duvida-se que gastem o “laser” do leitor de CD a reproduzir os ensaios, experiências de som e outras operações técnicas ou de aquecimento para o concerto propriamente dito.
            Há, acima de tudo, um Hendrix em combustão, em solos demolidores (“I don’t live today” diz tudo em poucos minutos). Nas suas mãos a Stratocaster era um vulcão, uma espada, um circuito eletrónico complexo, um tanque de guerra, uma mulher, loucura. Mas também lágrimas e devoção aos “blues” (“Red house”). “Foxy lady” prova, por outro lado, que a sua guitarra era, mais do que um instrumento musical, uma nave espacial. Foi a bordo dela que Jimi Hendrix partiu para o espaço.

JIMI HENDRIX
The Singles Collection
10xCD single, Experience Hendrix, distri. Universal
8|10

The Last Experience
Charly. distri. Música Activa
7|10