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26/11/2019

Voz direita, fado curvo [Mariza]


CULTURA
NOV 2003

Crítica Música


Voz direita, fado curvo

MARIZA
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
10 de Novembro, 21h
Sala cheia

Mariza triunfou em toda a linha na segunda de duas noites no grande auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, para uma sala à cunha que aplaudiu cada trejeito vocal e corporal da artista (que nos próximos dias 14 e 15 atuará no Teatro Rivoli, no Porto). O fado nem por isso.
O fado não se dança. Mariza dança, irrequieta, e tenta moldar o fado à sua imagem e semelhança. Infelizmente para ela, o Fado, com maiúscula, tem rosto de esfinge e o corpo hierático do destino. Na a máscara do espetáculo.
No concerto de segunda-feira ficaram patentes as virtudes e defeitos que caracterizam o canto desta jovem para quem o sucesso e a fama chegaram com rapidez.
Mariza tem voz e tem presença. A primeira usa-a ao desbarato. É uma voz que se ouve à distância, mas à qual falta, por enquanto, controlo e contenção. Apesar dos contrastes, Mariza dificilmente resiste a projetar a voz para regiões que a música, em certos casos, dispensaria, padecendo da chamada “síndrome Dulce Pontes”. Foi o caso, flagrante, de “Primavera”, ou, já no “encore”, de “Ó gente da minha terra”. Tanta goela aberta, rompendo a direito até ao grito, teve como consequência um ligeiro desfasamento de tom na zona dos agudos, demasiado altos relativamente ao acompanhamento das guitarras. Quando isto acontece, a voz de Mariza esbarra nos ouvidos como uma ventania que tudo arrasa, incluindo a música, incluindo o fado.
Presença, Mariza tem. O aspeto exótico impressiona, a par de uma coreografia e de palavras ensaiadas ao pormenor. Mas é uma figura espampanante, de “music-hall”, com acentos e requebros que a própria não consegue – ou não quer – dominar, cujo sentido diverge amiúde do do fado. Desloque-se, no entanto, a perspetiva, e esqueça-se aquilo que, obviamente, a cantora ainda não tem e que em Amália, por exemplo, com quem inevitavelmente já foi comparada, se chamava majestosidade/simplicidade – o próprio paradoxo de quem unia, em cruz, o profano eo sagrado.
Então sim, deparamos com uma “entertainer” segura de si própria, a dançarina extrovertida de “Oiça lá, ó senhor vinho”, a apreciadora de música tradicional portuguesa, a cantora àvida de experiências e de comunicação com um público que, faça ela o que fizer, já a adora. No CCB comprovou-se esta faceta, esta ousadia da autora de “Fado Curvo”, com a voz a aguçar-se em sibilâncias reptilíneas ou em diálogo com as percussões de Dalu e o piano de Tiago Machado, este último a envolver-se de forma intimista coma voz e com os versos de António Botto, em “Anéis do meu cabelo”. Antes já o piano traçara as principais linhas de força dos arranjos de “O deserto”, com intervenção jazzística de Laurent Filipe, na trompete. Luís Guerreiro, na guitarra portuguesa, António Neto, na guitarra acústica, e Fernando de Sousa, no baixo acústico, brilharam num tema instrumental, ainda que, no acompanhamento da voz, pudessem ter aqui ou ali obtido vantagem caso tivessem optado por seguir o lema “guitarra toca baixinho”.
Feita a soma, num concerto que pode considerar-se curto (uma dúzia de temas, fora os “encores”), chegou para pôr o público em euforia e a aplaudir freneticamente de pé. Num derradeiro gesto de chamamento do fado, Mariza desceu do palco para, sem microfone, se entregar a uma desgarrada a meias com as vozes castiças de Maria Amélia Proença e Marco Rodrigues. Ainda aqui, poré, o foi difícil não sentir o gesto elegante da esteta sobrepondo-se à perturbação e ao silêncio da noite que era suposto evocar-se. Mas talvez, no fim de contas, tudo não passasse afinal desse tal fado curvo que distorce a visão e estanca o sangue que escorre do coração.

EM RESUMO
Mariza e o fado nem sempre coincidem. Há uma voz poderosa e a uma tendência para o excesso. Nada obstou, porém, ao triunfo da primeira, em duas noites a abarrotar de público no CCB.

20/11/2019

O som grave da locomotiva de Carlos Barretto


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 28 OUT 2003

O som grave da locomotiva de Carlos Barretto


Carlos Barretto, um dos mais destacados instrumentistas e compositores do jazz feito atualmente em Portugal, apresenta esta noite ao vivo o seu novo álbum, “Lokomotiv”, em quarteto com Mário Delgado (guitarra), José Salgueiro (bateria e percussões) e Sérgio Carolino (tuba), este último a substituir o francês François Corneloup, presente no disco como executante de saxofone barítono.
            Descontando as necessárias adaptações ditadas pela troca de instrumentos, mantém-se, porém, um som que sabe tirar o máximo partido possível da conjugação das sonoridades graves, nomeadamente nos diálogos entre as notas mais baixas dos sopros e o contrabaixo tocado com arco. “Uma coisa deliberada”, diz o autor de “Solo Pictórico”, álbum de contrabaixo solo editado no intervalo entre “Radio Song” e “Lokomotiv”: “São instrumentos graves, o clarinete baixo [por Louis Sclavis, outro expoente do novo jazz francês, no anterior “Radio Song”], o saxofone barítono e o contrabaixo. Dá para invertermos os papéis, ao nível do acompanhamento e dos solos.”
            “Lokomotiv” pode ser considerado como a continuação de uma estética iniciada com o aclamado “Radio Song”, eleito pelo PÚBLICO melhor disco português de jazz do ano passado. Jazz feito em Portugal e não jazz português, porque a música do contrabaixista recusa-se a aderir a padrões determinados por quaisquer regionalizações, inserindo-se, ao invés, numa corrente universalista, embora de acordo com os parâmetros de um som marcadamente europeu.
            Em vez do “hermetismo” de ligações demasiado acorrentadas ao folclore de uma determinada região, neste caso o português, o contrabaixista é adepto de um “universalismo” que lhe permite integrar na sua música elementos como “o rock, a música contemporânea, o cinema americano ou coisas orientais…”.
            “Lokomotiv”, como “Radio Song”, refuta qualquer tentativa de análise paternalista para se assumir como grande jazz em qualquer parte do mundo. Desprende-se desta música uma energia e uma frescura contagiantes, a par de um sentido apurado do equilíbrio certo entre composição e improvisação, embora Barretto não esconda o prazer que esta última lhe proporciona. “O que eu gosto mais é de improvisar, incluindo nas partes escritas. Às vezes construo uma pequena melodia, mas inserida num contexto suficientemente aberto para acontecerem outras coisas, sempre variáveis. Este disco tem mais improvisação que o anterior.”
            Um trabalho de equipa, “como o Futebol Clube do Porto”, em que “todos dão ideias”, que é, desde já, sério candidato a, uma vez mais, levar para casa o título de melhor do ano.

Carlos Barretto
“Lokomotiv”
LISBOA Teatro S. Luiz.
Tel. 213257650. Às 21h.
Bilhetes entre 5 e 15 euros.

14/11/2019

Fado marítimo [Carlos do Carmo]


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 14 OUT 2003

Crítica Música

Fado marítimo

Carlos do Carmo
LISBOA Coliseu dos Recreios
13 Outubro
Sala cheia

Era para ter sido apenas um. Foram dois. Podiam ter sido mais. Os espetáculos de celebração de 40 anos de carreira de Carlos do Carmo, que sábado e domingo tiveram lugar no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O público de Carlos do Carmo é Lisboa inteira. Mas não só. Vieram pessoas de todos os pontos do país, mas também de Paris ou de Nova Iorque, de propósito para acompanhar o fadista nesta data especial. E o homenageado correspondeu dando, como de costume, tudo de si, numa entrega sem limites em que o homem, a cidade e o fado se entrelaçam.
Domingo, consumada a efeméride “oficial” do dia anterior, foi, como o próprio fadista acentuou, “diferente”: “É esse o desafio”. Porque as pessoas eram outras e é para elas que Carlos do Carmo canta, iríamos jurar que para cada uma em particular, se tal fosse possível.
Ignorando a idade e o cansaço, a voz continua, hoje como há 40 anos, límpida. Fazendo escorrer a emoção sem a sufocar. Cantou-se o fado, por entre os silêncios de que o fadista tanto gosta, e a euforia. “Cantou-se” e não “cantou” porque o público fez questão de cantar “Os putos” e “Canoas do Tejo”, chamando a si as melodias.
Com Ricardo Dias, o bandoneonista Walter Hidalgo (a misturar as águas do Tejo e do rio de la Plata, Lisboa e Buenos Aires, o fado e o tango, em “Dois portos”), ou com Júlio Pereira (num encontro a meio da sala, sob a luz de um holofote, na evocação da vida anónima de “O vendedor de castanhas”), Carlos do Carmo disse a dois a amizade e o respeito pelas várias músicas do mundo.
Mais difícil, a exigir ginástica e concentração absolutas, foi o dueto com o contrabaixista Carlos Bica, em “Teu nome Lisboa” (“mais tarde ou mais cedo, vou-os pervertendo a todos, e trazendo-os para o fado”). Bica, porém, não se deixou “perverter”, sem se afastar em demasia de um fraseado tipicamente jazzístico. Mais do que acompanhar, espicaçou e propôs vias de diálogo em território neutro.
O momento de interregno em que foram exibidos, em projeção vídeo, depoimentos de músicos e amigos (Vasco Graça Moura, Manuel Alegre, Moniz Pereira, Fernando Tordo, Luís Represas, Ana Moura e a sua mulher Judite do Carmo) aos quais o fadista ia respondendo, como se estivesse a falar com elas em pessoa, acentuou a solenidade, mas também a cumplicidade do acontecimento.
Mas foi quando a orquestra Sinfonieta de Lisboa, sob a direção de Vasco Pearce de Azevedo, tocou os arranjos escritos por Bernardo Sassetti, alguns também pelo maestro, para “Fado Ultramar”, “Fado maestro” ou “Um Homem na cidade”, que o fado se transfigurou em mar universal. Entrou-se num oceano de estrelas, mil marés nas ondas dos violinos e dos metais. Em contraponto, Sassetti, debruçado sobre o piano, entregou ao fado as notas do impressionismo. Carlos do Carmo retribuiu, chamando-lhe um “dos maiores talentos da música portuguesa”.
Por fim, mas não o fim – “Tens que continuar!”, gritou alguém, emocionado, da Geral –, a enganar o cansaço que duas horas ininterruptas de espetáculo inevitavelmente provocam, Carlos do Carmo avançou de novo, desta vez sozinho, para o meio do seu público, para cantar, sem amplificação, as lágrimas a bailarem-lhe no rosto, “Viela”. As palavras e a voz a pairarem, mais nítidas do que nunca, sobre aquele silêncio marítimo onde tudo aflui e se resolve. Como na Lisboa de Álvaro de Campos, dos versos: “E a grande cidade agora cheia de sol/ E a hora real e nua como um cais já sem navios/ E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira/Traça um semicírculo de não sei que emoção/ No silêncio comovido da minh’alma...”. O fado.

03/04/2017

Ala que se faz luz [Ala dos Namorados]

SÁBADO 21 OUTUBRO 2000 cultura

“Cristal” apresentado no CCB, em Lisboa

Ala que se faz luz

Foi quase brilhante a apresentação da Ala dos Namorados na segunda de duas noites no CCB para mostrar as canções do novo álbum "Cristal". Depois de uma primeira parte de fado e intimismo foi hora de "showtime", com grandes canções, convidados e Nuno Guerreiro no seu melhor, a dançar e a cantar.

Apenas uma das treze canções do novo álbum da Ala dos Namorados, "Canção de Edite", ficou de fora do alinhamento de quinta-feira, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, na apresentação do novo álbum "Cristal". Ontem foi a vez do Coliseu do Porto receber o grupo.
Doze em vez de treze, talvez para não dar azar. Sorte teve quem lá esteve para ouvir aquela que será hoje a única banda portuguesa a poder acalentar esperanças de percorrer a mesma estrada que leva às estrelas dos Madredeus.
Primeiro foi uma concha de segredos. Com os seis músicos concentrados no centro do palco, "unplugged", expostos ao que desse e viesse.
Veio primeiro a introdução instrumental, ao jeito dos "dias da rádio", do "Fado da rádio", seguindo-se "Medo do escuro", "Mistérios do fado" e "Fado de amor e pecado. Nuno Guerreiro foi fadista e Manuel Paulo acordeonista de "vaudeville", apenas se lamentando que, nesta ala mais calma da Ala, João Gil insistisse nas introduções à guitarra nota a nota em estilo cochicho. O instrumental "Ruas e praças" antecedeu "A rua do gato preto" e "Lisboa ausente", fechando a primeira parte com as sonoridades medievais de "Não tragais Bourzeguis pretos" e "Lua de todos", este último com João Gil a improvisar em duo com o guitarrista convidado Mário Delgado, mal amplificado, de tal forma que o ex-Trovante foi mesmo obrigado a aproximar o ouvido para conseguir ouvir o que se passava na guitarra do seu companheiro. Quando o técnico de som se lembrou finalmente de subir o volume de som, já a improvisação dera o que tinha a dar.
Intervalo. Entre a música escolhida para entreter passou um tema pop progressivo, "Isn't it quiet and cold?", do primeiro álbum dos Gentle Giant. Fosse quem fosse o programador, os nossos parabéns!
Extensivos – os parabéns – à Ala dos Namorados que, ao longo de toda a segunda parte, deu espetáculo. Já com os músicos espalhados pelo palco, os seis que habitualmente integram a Ala mais os convidados Daniela Brito, no violoncelo, e o brasileiro André Rocha, nas percussões, a música explodiu em luzes e cambiantes sonoros.
Um "Café paraíso" em pleno território do Progressivo e "Como seria" desembocaram no épico "Razão de ser". Nuno Guerreiro foi para a boca de palco dançar e tirar moedas dos bolsos numa performance coreográfica que a música completou de forma magnífica, com "glam", funky no clarinete baixo de José António Santos, luzes de cabaré e farrapos esvoaçantes de "Eleanor Rigby", dos Beatles, a clicarem segredos na memória. "Showtime"!
O music-hall de "Olha por ti" (com as cornetas de "Winchester cathedral" a soar) e o Brasil de "História de pedra", recriado por André Rocha no berimbau e com Manuel Paulo imaginativo nas programações eletrónicas, foram outros momentos altos de uma noite de cristal ao rubro. Tão ao rubro que o tema seguinte, "Rosa negra", foi dedicada aos bombeiros. Mas ao contrário dos soldados da paz a Ala dos Namorados ainda ateou mais o fogo, com o lança-chamas das percussões a espalhar as labaredas e tempo de antena alargado para Manuel Paulo no piano fazer o vento mudar várias vezes de direção.
"Alice", jazzy, concluiu com Nuno Guerreiro a castigar o ar com o já famoso "pontapé Marco", enquanto a "Rapariguinha do shopping", de Rui Veloso, alardeou alegria na secção de sopros, aumentada pelo trompete de Laurent Filipe e o trombone de Ruben Santos. Manuel Paulo, num registo de órgão Hammond, conferiu ao tema um toque "lounge".
"Zé passarinho", "Fim do Mundo" e "Loucos de Lisboa" teriam fechado com chave de ouro se o público, como era previsível, não tivesse pedido mais. Entusiasmados com a reação da sala e consigo próprios (Nuno Guerreiro balbuciava "emoções" e "sentimentos" em atropelo) a Ala voltou para "Luar um dia", "Solta-se o beijo" e um "Siga a marinha" que André Rocha transformou numa sessão de timbalada ao usar um carrinho-de-mão como instrumento de percussão.
"Cristal" brilhou com intensidade no CCB. Nuno Guerreiro está a cantar como nunca, exibindo-se como um verdadeiro "entertainer". Os cinco instrumentistas funcionam como uma máquina. A Ala dos Namoradas venceu mais uma vez a batalha.

Uma voz nas voz dos outros ["Uma vela por Amália"]

cultura DOMINGO 8 OUTUBRO 2000

Espetáculo “Uma vela por Amália” relembra a fadista

Uma voz na voz dos outros

Apagou-se a vela do 1º aniversário da morte de Amália. Cantou-se o fado. Cantou-se a memória e a saudade. E revelou-se a presença arrepiante de uma nova fadista, Katia Guerreiro, sósia da diva.

Cumprido um ano sobre a sua morte, Amália permanece viva apenas nos discos, nos filmes e no coração de cada um. Tudo o mais é saudade. E o que sobra é vaidade.
            Espectáculos como o do aniversário do 1º ano da morte da fadista, realizado na noite de sexta-feira no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, sob o genérico "Uma vela por Amália" e transmitido em directo pela TVI, funcionam como um lenitivo. As pessoas vão para ouvir um eco, para ouvir uma voz que já se foi, impressa nas vozes dos que por cá ficaram. Vão porque necessitam da ilusão que faz esquecer a ausência. Vão para ouvir cantar o fado.
            Muitos sopraram uma vela por Amália no Coliseu. O espetáculo foi longo, ainda mais longo pelo atraso com que se iniciou – mais de uma hora – provocado pelas exigências do directo. O povo, depois de minutos antes se ter comprimido e protestado de viva voz contra a abertura tardia das portas, esteve pacato lá dentro, sossegado pelas imagens da novela que a TVI passava em directo nos monitores do Coliseu.
            Por fim lá chegou o bolo com a vela. Melhor dizendo, 18 velas, tantos foram os artistas que cantaram. Depois das palavras de apresentação de João Braga, com a sobriedade que se impunha, veio o fado. Com a arquitetura da velha de Lisboa como pano de fundo.

Uma nova geração de fadista

            Amália já não se encontra entre nós. Mas para além da saudade que deixou, deitou sementes ao fado. Graças a ela, à sua vida e à sua voz, o fado está hoje bem servido por uma nova geração de cantores capazes de manter aceso o fado nas décadas vindouras. Joana Amendoeira, Teresa Tapadas, Ana Sofia Varela e Maria Ana Bobone, pela ordem que foram entrando em cena, são todas senhoras de belas vozes, têm alma e uma presença física invejável. São bonitas e cantam bem. Ana Sofia Varela será das quatro a que melhor junta à graça a garra.
            Deixámos propositadamente de fora o nome de Katia Guerreiro, recém-formada em medicina ("consultório à disposição" como brincou João Braga) e estreante em espectáculos ao vivo com esta dimensão. O fadista-apresentador bem avisou que qualquer elogio ficaria além da realidade. Tinha razão. O impacte provocado pela sua presença é arrepiante. Katia Guerreiro é fisicamente uma sósia de Amália. Quem gravou o espectáculo do Coliseu experimente parar a imagem. Assustador. O rosto, o franzir das sobrancelhas, a boca, a expressão, os olhos fechados, a inclinação da cabeça. É Amália nos tempos da juventude. Será encenação minuciosamente preparada por Katia Guerreiro? A maquilhagem? Ou será ela mesmo assim? Depois a voz, até a voz toca no mesmo registo mais grave de Amália. Katia cantou "Barco negro" e"Amor de mel, amor de fel". Um fantasma pairou no Coliseu.
            João Maria Tudela, Rodrigo Costa Félix, Raúl Indipwo, Paulo de Carvalho, Paulo Bragança, António Pinto Basto, Carlos Zel, Maria Armanda, Margarida Bessa, Maria do Céu, Waldemar Bastos, Tito Paris e João Braga foram as outras vozes que levaram a memória e a música de Amália pela noite de fora, acompanhados pelas guitarras e violas de Raúl Nery, Carlos Gonçalves, José Luís Nobre Costa, Jaime Santos Jr. e Joel Pina. Com a presença na sala do presidente da edilidade lisboeta, João Soares, ouviram-se ainda depoimentos televisivos de Daniel Proença de Carvalho, Artur Agostinho, Ruy de Carvalho e Alexandra.
            Na assistência bebeu-se cada verso, os lábios e a alma conheciam de cor cada fado de Amália. Passou só um ano mas a saudade é já imensa.

02/01/2017

Xutos e Violinos

TERÇA-FEIRA, 7 SETEMBRO 1999 cultura

Banda encerra Festa do “Avante!”

Xutos e Violinos

MILHARES de jovens que em Agosto militaram nos festivais da Zambujeira, Paredes de Coura e Vilar de Mouros acorreram no passado domingo ao Festival do Avante! para assistir ao comício do Partido Comunista Português e às actuações de José Casanova, Margarida Botelho e do cabeça de cartaz Carlos Carvalhas. Seria assim nos sonhos da organização, num mundo perfeito argamassado na dialéctica materialista. Na realidade, a juventude reuniu-se, sim, mas para ouvir os seus heróis, que não são nem Marx nem Lenine, mas sim os Xutos e Pontapés, que actuaram a seguir. E se no concerto-comício a música não diferiu muito do habitual, já a prestação do quarteto que está a comemorar vinte anos de carreira e recentemente lançou "Dados Viciados" teve a novidade do acompanhamento, em dois temas, do quarteto de cordas Os Corvos.
            O palco 25 de Abril, encimado por um monstruoso sistema de luzes, recebeu em apoteose os Xutos e Pontapés, com a multidão a agitar bandeiras e de braços em cruz (ritual do grupo), numa feliz adaptação da foice e martelo comunistas que caiu bem neste ano em que se celebra o 25º aniversário do 25 de Abril. Aliás, imediatamente antes dos Xutos arrancarem, as colunas debitaram, por esta ordem, a música de "Grândola, vila morena", o Hino das Forças Armadas e "O Povo unido nunca mais será vencido". Os jovens compreenderam a mensagem e dançaram, alguns ensaiando mesmo uns passos de "mosh" (dança típica dos espectáculos de rock que consiste em saltar para todos os lados descontroladamente, tentando derrubar quem se encontra próximo num raio de cinco metros).
            Estava montado o cenário ideal para os Xutos fazerem explodir a sua revolução, até porque ao redor de todo o recinto não faltavam slogans, afixados um pouco por todo o lado em letras gordas: "CDU - Para que não fique tudo na mesma", "CDU - A Esquerda que não imita a Direita", o mais críptico "Não deixe que eles ponham as mãos em tudo" ou a máxima, que poderia ser de Serafim Saudade, "Sim à paz! Não à guerra! Não à NATO!".
            Por fim os Xutos começaram a tocar, iluminados por jorros de fogo-de-artifício: "Esquadrão da morte", "Não sou o único", "Dantes" (um dos vários temas com a presença, na guitarra, de Ronnie Champagne, produtor de "Dados Viciados"), "Jogo do empurra", "Enquanto a noite cai", "Homem do leme", "Esta cidade", "Maria" e tantos outros que ajudaram a criar a reputação daquele que será, porventura, o mais emblemático grupo de rock português (que nos perdoem os UHF...) em actividade.
            Os Corvos, um quarteto de cordas que, para já, se especializou em versões do reportório dos Xutos, acrescentaram os seus violinos, viola e violoncelo aos temas "Quando eu morrer" e "Circo de Feras", enfiando um interlúdio instrumental pelo meio. Os primeiros mostraram a faceta escondida - a música progressiva - da banda, que soou como os Curved Air. Mas quando os Corvos, decerto discípulos de Michael Nyman, executaram sozinhos uma sequência instrumental mais lenta de música de câmara, o público manifestou o seu desagrado com assobios e cânticos futebolísticos.
            Ultrapassado, porém, este momento de música erudita, Tim, Zé Pedro, Kalú e João Cabeleira (e numa quantidade de temas, também Gui, no saxofone) voltaram a desenrolar a sua lista interminável de hinos suburbanos e a fazer vibrar a imensa multidão de fãs. "Vida malvada" foi dedicada, "com o coração, o fígado e os intestinos", a todas as bandas que já tocaram na Festa do Avante. O período de "encores", estendido por quase meia hora, deu direito a fogo-preso, com os corações e cruzes, ícones do grupo, desenhados a chamas, a rematarem um concerto ao nível dos que o grupo nos habituou, com as doses certas de energia, empenhamento e ideologia. Alguns elementos do público, facção revisionista, não resistiram e voltaram a gritar o já mítico apelo "Ó Elsa!" que sobrevoou há tempos inúmeros festivais em Portugal. No fundo, está certo – A Festa do Avante é hoje um dos últimos redutos da tradição.

Missa com soldadinhos de plástico [Ensemble JER]

SEXTA-FEIRA, 30 JULHO 1999 cultura

Ensemble JER na Sé de Lisboa

Missa com soldadinhos de plástico

O ENSEMBLE JER interpreta esta noite na Sé de Lisboa, pelas 22h, a "Missa do Homem Armado", de Guillaume Dufay, um compositor franco-flamengo do século XV. Dufay foi pioneiro no uso das canções populares em missas de Cantus Firmus, em que a mesma melodia servia de base à totalidade da peça. O concerto é o último desta temporada organizado pela Galeria Zé dos Bois. Um óptimo recital de música antiga em perspectiva num recinto a condizer.
            Contudo, para os mais académicos, um aviso: é possível que se sintam chocados com a demonstração de originalidade e criatividade do universo musical que, desde 1990, ano da sua fundação, JER e o seu grupo de músicos/performers percorrem. Porque um concerto do Ensemble JER constitui inevitavelmente um manifesto de humor - no sentido mais elevado do termo, de completa transfiguração do mundo - em forma de espetáculo e vice-versa. Jogo ambíguo que espanta, choca e atrai. Por isso convirá responder a algumas perguntas prévias.
            O que é um saxofone JER? Quem é Wagner-JER? O que é, e para que serve, o Ensemble JER? É preciso Jer para crer. JER é José Eduardo Rocha, compositor, arranjador, ideólogo, frequentador assíduo das lojas de brinquedos e mentor do Ensemble com o seu nome, o Ensemble JER, também designado por Os Plásticos de Lisboa.
            O Ensemble JER foi incumbido de uma missão (para mais pormenores consultar o endereço http.//www.ip.pt/~ip267096/home.htm). É um "grupo de artistas-músicos especialmente formado para interpretar um reportório criado e dirigido por José Eduardo Rocha e destinado a uma organologia especial que inclui instrumentos de plástico, brinquedos musicais, percussões e outros". Ao vivo, os elementos do grupo tanto podem aparecer vestidos como os antigos soldados romanos, como envergar mini-fraques vermelhos ou camisolas às riscas no estilo Freddy Kruger.
            Um saxofone JER, percebe-se agora, é um instrumento de plástico, da marca Chicco ou Antonelli, mas nem por isso menos nobre que um reluzente Selmer submetido a banho de prata. Quanto a Wagner-JER é "Volkswagner", clone de plástico de "Os Mestres Cantores de Nuremberga", obra do genial compositor romântico Richard Wagner, cuja versão-JER teve a sua estreia mundial em 1996 no Teatro Maria Matos. Entre as composições originais de JER incluem-se "Futebol", "Sinfonia Náutica" e "Piccola Sinfonia Pimba".
            Esta noite será apresentada a missa "L'Homme Armé", de Guillaume Dufay, compositor da Renascença cuja importância iguala a de Josquin des Prés ou Palestrina. "L?Homme Armé", canção muito em voga durante a Guerra dos 100 anos, com a Europa pejada de soldados, serviu de "cantus firmus" a uma série de missas que a tomaram como fonte de inspiração. Dufay foi um dos primeiros a fazê-lo.
            Composta em 1450, a "Missa do Homem Armado" de Dufay está subdividida em cinco movimentos: "Kyrie", "Gloria", "Credo", "Sanctus" e "Agnus Dei". José Eduardo Rocha, o seu ensemble (Francisco Suspiro, Nuno Silva, José Lopes, Alexandre Pedro, Leonor Areal e Armando Pereira) e a cantora soprano convidada, Margarida Marecos, encarregar-se-ão de extrair dela o supra-sumo da espiritualidade, através do plástico, material sagrado por excelência.
            Na primeira parte será apresentada uma "Suite Transmontana", composta por JER no ano passado. Ciclo de sete danças/"quadros que evocam uma viagem fabulosa", inspirada numa estadia de José Eduardo Rocha em Trás-os-Montes. "O castelo de Celorico", "O auroque de Foz Côa", "Rio de Onor", "A barragem da Serra Serrada" ou "A anta de Zedes" são alguns dos andamentos desta "suite" comprovativa de que a própria Natureza não seria tão bela sem a presença do plástico.

23/12/2016

Amélia Muge derrota frieza do público

cultura DOMINGO, 11 JULHO 1999

Festival Sete Sóis Sete Luas, em Pontedera

Amélia Muge derrota frieza do público

Pontedera assistiu na noite de sexta-feira ao terceiro espetáculo de música portuguesa em terras italianas, no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas. Depois dos Realejo e das Danças Ocultas, foi a vez de Amélia Muge encher a noite toscana com os sons, por vezes difíceis, do seu álbum mais recente, "Taco a Taco". Uma entorse num pé e a sisudez de um público que parecia formado por estátuas constituíram os principais obstáculos que a cantora ultrapassou com a força da sua voz e o carisma da sua presença.

O público italiano, pelo menos o de Pontedera, pequena cidade situada em plena região Toscânia, é assim: quando gosta, bate palmas, mas mais nada. Se uma canção lhe agrada especialmente bate durante mais tempo. É tudo. Nem um grito, um assobio, a mais pequena agitação na cadeira, "niente". A polidez e o recato absolutos. O cenário para o concerto de Amélia Muge estava montado no jardim da villa Malaspina, em Montecastello, o mesmo local onde há dois anos atuou Teresa Salgueiro, acompanhada pela guitarra de António Chainho. A paisagem parece decalcada de um filme de Ermano Olmi, feita no silêncio das estrelas e dos ciprestes. Amélia Muge veio perturbar esta serenidade. Mesmo não havendo "paredes para fazer tremer", como ela gosta que aconteça nas suas atuações.
            Antes do concerto, o azar bateu-lhe à porta. Uma queda pelas escadas abaixo do hotel teve como consequência uma entorse num pé. Mas mesmo o pé afetado não impediu a cantora portuguesa de passar o exame com uma perna às costas. Porque de um exame pareceu tratar-se, diante daquela série de figuras rigidamente postadas em frente ao palco mas que, no final, aprovaram com distinção.
            Amélia entregou-se, como sempre fez, de alma e coração. Mesmo fatigada, mesmo com o pé a doer, mesmo com o som e as luzes sem serem as melhores, conseguiu que a sua música se insinuasse, primeiro nos ouvidos, depois no coração, de uma plateia empedernida.
            "O mal-lavado", "Cantigas a Rosalia" e "A roupa do marinheiro" criaram ambiente mas não derreteram o gelo. Ambiente de estranheza que o público italiano não soube muito bem como lidar antes de chegar à conclusão de que estava perante uma voz e uma música diferentes do que é costume associar-se à música portuguesa. "O tolinho da aldeia" reforçou esta aparente incompatibilidade entre quem esperava a facilidade e quem ofereceu a coerência e a intransigência em pactuar com qualquer espécie de truques.

Portunhol fluente

            Em "Taco a Taco" a cantora procurou explicar, num portunhol fluente, o teor da canção, acabando, no entanto, por encolher os ombros e reconhecer que mesmo os portugueses não percebem do que é que se trata. Até que chegou o momento mágico da noite. A senha foi o nome de Fernando Pessoa, autor da letra de "Nevoeiro", mas a magia aconteceu com a soberba interpretação vocal, plena de emotividade, como se a hora do poema verdadeiramente chegasse naquele instante. O público não teve outro remédio senão entregar-se, aplaudindo com uma salva de palmas interminável.
            Nesta altura foi possível perceber que é pela duração do aplauso e não por qualquer outro tipo de manifestação emotiva que se deve aferir a aprovação, ou não, do público de Pontedera. Se aplaude muito tempo é porque gosta. Se permanece imóvel como uma vedação de estacas, o melhor a fazer é arrumar as malas. No caso de Amélia Muge pode dizer-se que, segunda esta bitola, a assistência entrou em delírio, já que aqui e ali se chegaram a ouvir "bravos" (mais sussurrados do que gritados...) de incitamento.
            A partir de "Nevoeiro" tudo se tornou mais fácil. Em "Cantiga de segada" os italianos tiveram mesmo direito a um momento de identificação, uma vez que a polifonia vocal criada pelas vozes de José Manuel David e Amélia Muge navega nas mesmas correntes mediterrânicas que passam pela Córsega, ou ainda mais perto, pela Sardenha.
            José Manuel David foi, de resto, o motor instrumental de todo o concerto, passando da gaita-de-foles para a flauta, do kissange para o piano e, no último tema, "A saia da Carolina" – entre a música antiga, o folclore português e ressonâncias árabes –, para uma cromorna da Renascença. José Martins e João Lobo rubricaram um interessante dueto de percussões, em "Moby Dick", e Rui Pereira, "Dudas", soltou-se em "A saia da carolina", num dos seus idiomas preferidos, o jazz, neste caso executado num alaúde árabe, solando com a alma e os dedos de um Rabih Abou-Khalil. Yuri Daniel foi o esteio seguro, no contrabaixo.
            Voltaram todos ao palco, apesar de alguma hesitação (a reação de Amélia Muge às palmas finais, embora mantendo-se a compostura de sempre, foi perguntar se isso significava um pedido de encore...). O público queria mesmo mais. Amélia acedeu, oferecendo-se num exercício intimista, interpretando a solo "Se não tenho outra voz", sobre um poema de José Saramago, terminando, já com todos os músicos de novo em palco, com "A avó Emília". Foi o cabo dos trabalhos para explicar a palavra "avó" ("nonna", em italiano). Uma luta taco a taco contra a distância e o comedimento da qual a música portuguesa e, em particular Amélia Muge, saíram vencedores.

19/12/2016

Beijar perdidamente [Ala dos Namorados]

cultura SEGUNDA-FEIRA, 10 MAIO 1999

Ala dos Namorados soltam canções no CCB

Beijar perdidamente

“SOLTA-SE O beijo” e solta-se a música da Ala dos Namorados, agora, mais do que nunca, apostados em deixar de ser uma banda de culto. O concerto do grupo de João Gil, Nuno Guerreiro e Manuel Paulo, sábado, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, constituiu um passo gigantesco nesse sentido.
            Com um alinhamento idêntico ao do álbum ao vivo “Solta-se o Beijo”, a Ala dos Namorados ofereceu um espetáculo sem falhas e recheado de boas canções. As mais antigas e as novas. Novas, é como quem diz. “Não tragais borzeguis pretos”, por exemplo, foi composta por Gil, “no século XVI…”. Do cabaré à música de variedades, do namoro com a folk e a clássica ao fado, das memórias brasileiras a inflexões “jazzy” animadas por um swing subtil, a Ala soltou-se num beijo que levou a assistência a aplaudir de pé.
            Tudo brilhou:  os castiçais com velas que iluminavam o palco de mistério, os acentos tímbricos e os rendilhados dos clarinetes de José António Santos, as vagas de piano de Manuel Paulo, a fonte de reflexos acústicos da guitarra de João Gil. E, obviamente, a voz de Nuno Guerreiro, em viagens entre a terra e o céu. Uma voz que em “Alice” foi um espetáculo dentro do espetáculo.
            As vozes convidadas das Vozes da Rádio fizeram miséria na forma como se movimentaram, dentro de um mesmo tema, entre a sátira e a elevação. Sara Tavares fez com que as palavras escritas por Catarina Furtado para a canção “Solta-se o beijo” ganhassem uma segunda vida. Já no mais do que merecido período de “encores”, Nuno Guerreiro cantou nas alturas um fado com dedicatória a Amália. E com todos os músicos reunidos em palco a cantarem em conjunto com o público “Perdidamente”, de Luís Represas, atingiu-se a euforia.

12/12/2016

Adufes, adufões e adufeiros [Adufe]

DOMINGO, 7 FEVEREIRO 1999 cultura

José Salgueiro abre Festnia no CCB

Adufes, adufões e adufeiros

ADUFÕES, ENORMES adufões suspensos em fila no fundo do palco, iluminados por detrás, enchiam na sexta-feira, dia 5, o campo visual do espetáculo de abertura do Festival Etnia, que até ao fim do mês preencherá os fins-de-semana do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
            José Salgueiro idealizou esta nova modalidade, revista e, sobretudo, aumentada (mais ou menos para dois metros de lado), de um dos mais típicos instrumentos tradicionais portugueses e a partir dela iniciou um novo projeto musical ao qual chamou, precisamente, Adufe.
            Tudo se joga no aspeto cénico e sonoro dos quatro adufões que José Salgueiro idealizou para este espetáculo. Visível é, no modo como os músicos “atacam” a pele deste enorme instrumento, a influência da postura dos tocadores de tambores japoneses Taiko. Os movimentos sincronizados, a pose guerreira, até o fragor e a profundidade dos graves produzidos pelos adufões sugerem a escuta e a visão dos grandes regimentos percutivos que eclodem no país do sol nascente.
            A primeira parte do concerto dos Adufe incluiu um “Tronco” e “Aqui há latas”, este último tema retirado do álbum de estreia dos Tim Tim por Tim Tum, dos quais José Salgueiro também fez parte. Brilharam os adufões e o lado ritual do grupo, apenas quebrado pela entrada em cena das Adufeiras de Monsanto, convidadas do espetáculo.
            “Arvoredo”, “Macelada” e “Lá em cima o castelo” trouxeram a proximidade das raízes para o palco do CCB, o toque animal e anímico dos adufes a marcar o tempo das vozes e de tempos mais antigos. A proximidade das raízes e não as raízes propriamente ditas porque no segundo daqueles temas primou o conceito de fusão, com o acompanhamento de uma “drone” gutural soprada numa grande trompa por um dos elementos dos também convidados Boomerang, um marimbofone percutido em registo minimal por José Salgueiro e as distorções e reverberações da guitarra elétrica, algo deslocada e ainda à procura do seu lugar próprio na música do grupo, de Mário Delgado. Rui Vaz protagonizou um dos melhores momentos da primeira parte do concerto com uma vocalização possante em “Moda d’azeitona” logo seguida, a fechar, por mais uma trovoada dos adufões, em “Adufão”.
            Depois do intervalo, “Lamento do castanho”, “Marcha” e “Lenga-lenga”, estes dois últimos extraídos do álbum “Invasões Bárbaras”, contaram com a presença não anunciada no programa, dos Gaiteiros de Lisboa, apresentando quatro dos seus elementos armados – o que até nem é muito vulgar acontecer no seu próprio grupo – de gaitas-de-foles. “Lilaré dos cinco sentidos” antecedeu nova aparição das Adufeiras de Monsanto para cantarem “Eras tão bonita” e “Senhora do Almurtão”, desta vez apoiadas no fundo telúrico criado pelos quatro adufões.
            O público, que esteve longe de encher a sala, gostou e pediu mais. Para o “encore” estava guardado um dos momentos musicalmente mais cativantes de todo o concerto, um “Vai-te embora, ó papão” que começou um intrincado dueto de percussões de Salgueiro e Acácio Salero e terminou num uníssono de gaita-de-foles de Rui Vaz com a guitarra elétrica de Delgado, aqui bastante mais integrada e a fazer sentido na lógica geral dos Adufe. Para já, todo o projeto soa um pouco como uma derivação, mais percussiva, dos Gaiteiros de Lisboa (aos quais, aliás, Salgueiro também pertence, o mesmo acontecendo com Rui Vaz), dando, porém, garantias de possuir dentro de si os germes de um discurso autónomo que o futuro decerto se encarregará de confirmar.

28/11/2016

A vida come-se? [Lula Pena no Sete Sóis Sete Luas]

CULTURA
QUARTA-FEIRA, 18 JUL 2001

A vida come-se?

LULA PENA ATUOU NO SETE SÓIS SETE LUAS

A música frágil de Lula Pena foi o prato forte de mais uma jornada italiana do Sete Sóis Sete Luas, na mesma noite em que se serviu o já célebre banquete do festival

Chamemos-lhe uma idiossincrasia. À música de Lula Pena, que ontem se apresentou na Villa Malaspina, em Montecastello, em mais uma jornada italiana do festival Sete Sóis Sete Luas. Sozinha em palco com uma guitarra, a sua figura era a imagem perfeita da fragilidade, da exposição pública sem defesas.
            A música não ajuda a desfazer esta imagem. No limite, o híbrido de fado, bossa-nova, português com e sem sotaque brasileiro, que a autora do álbum “Phados” molda numa ladainha de um ritual desconhecido, é não-música, não-voz, não-guitarra, não-não, no sentido mais prosaico dos termos.
            A voz desce de tom até se tornar pouco mais do que sopro, a guitarra tece uma malha frágil de hesitações ou é percutida como tambor a marcar a cadência de uma alma moribunda, as melodias enovelam-se num avesso da emoção, deixando, por sua vez, a audiência exposta à distância e à inacessibilidade de uma forma de expressão que se constrói como estranheza, alheia às lógicas do mundo.
            Intimismo é termo demasiado enfático para descrever o que, por momentos, mais pareceu descanso eterno, monólogo, sombra de uma sombra emanada de uma tumba. Lula Pena tem segredos para contar mas o lugar mais indicado para o fazer será um círculo de amigos, a penumbra de um cubículo, um confessionário. Apesar de tudo, o público italiano pareceu gostar, aplaudindo numa espécie de adormecimento a cerimónia fria servida pela cantora, na mesma noite que tinha ainda reservado o já célebre bacanal de carne montado pelo talhante e “poeta carnale”, Dario Cecchini, que Santa Maria da Feira pôde saborear, em versão completa e dionisíaca, no mês passado, no âmbito deste mesmo festival.
            Em Itália, o festim foi servido no terraço do Associazione Culturale Immagini, entidade organizadora do Sete Sóis Sete Luas, com a diferença de que não foi festim nenhum. O próprio Cecchini anunciou com pompa e voz tonitruante estar ali para celebrar a “paixão” e a “poesia” da carne. Poesia ainda terá havido, paixão, nem tanto. O convite não poderia ser mais belo: “Venham comer, porque esta é carne sagrada. À noite esquartejamos anjos”... A ideia era devorar, o mais poética e apaixonadamente possível, carne, carnuça, de anjos, de porco ou de vaca, intercalando a mastigação ritual com momentos de música e declamação de poesia.
            Mas — oh!, desilusão —, se no que diz respeito às artes nobres, o espírito se satisfez com a voz belíssima de Cristiana Arcari e as intervenções instrumentais (no piano, flauta de cana baixo, uma terrina de metal posta a vibrar, na voz, modulada à maneira “tibetana”...) de Bruno de Franceschi, bem como com as declamações de Dante, dito com “verve” e “crueldade” pelo próprio Cecchini, já a carne propriamente dita andou arredada do excesso e, pior ainda, dos pratos: um mero montinho vermelho da dita, crua (saborosa), um salame, o resto para enfeitar.
            A seguir, o chefe Luís Soto Mayor, vindo expressamente de Santa Maria da Feira para fazer pecar diariamente, pela gula, toda a comitiva do festival, apresentou uma açorda de peixe (numa noite dedicada à carne), de acordo com sua filosofia gastronómica de mestiçagem da cozinha portuguesa com os sabores da diáspora, e leu uma cantiga de escárnio e maldizer de Martín Juarez. Um Quinta do Vale do Mougo de 1995, da Bairrada, e um dourense Quinta do Portal, do mesmo ano, fizeram o que nenhuma carne do mundo conseguiria: pôr todos de bem com o mundo.
            Atuaram ainda a Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor e um grupo vocal e de violas campaniças, de Castro Verde, apresentado na ocasião pelo etnomusicólogo José Alberto Sardinha. E comeu-se um combinado de queijo “Pecorino” com requeijão e uma “mostarda mediterrânica”, doce e picante. “Como a vida”, comentou alguém. A vida come-se?

22/11/2016

A festa do Gil [João Gil]

 CULTURA
SÁBADO, 23 JUN 2001

Crítica Música


A festa do Gil

João Gil e convidados
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
20 e 21 de Julho
Lotação esgotada

O Grande Auditório do Centro Cultural de Belém encheu-se, terça e quarta-feira passadas, na festa do 25.º aniversário de carreira de João Gil, escritor de canções. De entre o desfile de estrelas convidadas sobressaíram três instantes de magia, protagonizados por Jorge Palma, Isabel Silvestre e o próprio João Gil.
Tudo começou com "Saudade", mitigada pelo reencontro dos ex-Trovante Gil, Luís Represas e Manuel Faria. "125 Azul" prolongou a memória do grupo que nos anos 80 ajudou a dignificar a música popular portuguesa. Mas as recordações aos poucos vão abandonando o sótão das sombras do que foi para se iluminarem na luz do que ainda é. "Ficava aqui a noite toda a tocar contigo", lança Luís Represas ao amigo. Despede-se com um "diverte-te!".
João Gil parece estar a divertir-se. Manuel Paulo, da Ala dos Namorados, substitui Faria. Chispam faíscas da azáfama dos músicos, mas Gil refresca os ânimos: "Vamos devagar, vamos com calma, noto uma certa tensão no ar...". Os outros acalmam-se. Paulo Ribeiro entra para cantar "Lua dos Imortais" e "Olhos nos Olhos". Traz consigo algum nervosismo e a primeira canção começa por não lhe sair bem. À segunda, porém, entra no espírito da letra.
As luzes apagam-se. O piano ilumina-se. Jorge Palma chega e ordena: "Senta-te aí". Bluesy. Mas o melhor vem com "Alice". Fabulosa interpretação arrancada do fundo. O homem pode às vezes desafinar, desatinar, desaustinar, mas, caramba, tem os blues dentro de si. "Alice" foi outra Alice. João Gil percebe-o: "A canção é ainda melhor do que eu pensava!".
Camané, o maior fadista masculino da atualidade, tem direito a três canções. Não está inteiramente à vontade, ainda que disponha dos seus músicos habituais. "Travessa" aquece e "Fim", com letra de Mário de Sá-Carneiro, ronda o arrebatamento, mas, a sós com o piano de Manuel Faria, tropeça numa ratoeira do tom armada por um "Perdidamente" mal ensaiado.
Intervalo. Faz-se a contagem de VIP. Catarina Furtado, mulher de João Gil, é quem dá mais nas vistas. Fátima Lopes passa o tempo a controlar com ar sisudo as câmaras da SIC. Nayma, Rita Ferro Rodrigues, Margarida Marinho, Margarida Pinto Correia e Cila do Carmo distribuem "charme".
Mas a ilusão e o espetáculo voltam. Agora ninguém tira o protagonismo à Ala dos Namorados e ao seu vocalista Nuno Guerreiro, que se mostra endiabrado. Canta mais agudo do que nunca, incita os seus camaradas, salta e exibe os bíceps. Depois do "vaudeville" de "Ruas e Praças", "Rua do Gato Preto" dá para um solo impecável ao piano de Manuel Paulo e destaca as pontuações no baixo de Zé Nabo e as marcações rítmicas de Bruno Vaz.
Entra Isabel Silvestre, parecendo deslocada no contexto. Cantora do povo – de Manhouce – para o povo, canta apenas "Ao Sul", na companhia do piano de Manuel Paulo. A sua voz é uma chama trémula e uma lágrima. Arrepios. O contexto adequou-se a ela.
Sara Tavares é o contrário. Extrovertida, swingante e sorridente. "Luar um Dia" sai tórrida. Tanto como o comentário: "Estão aqui os meus namorados!". João Gil, com Catarina Furtado por perto, estremece ligeiramente... Sara acaba por namorar apenas com Nuno Guerreiro, num dueto com conta peso e medida de "Solta-se o Beijo". Antes do "grand finale", acende-se outra luz. João Gil, sem mais ninguém por perto, canta e sangra na guitarra de 12 cordas a canção mais simples e mais pungente da noite, "No Colo de Meu Pai", a tal que escreveu na infância durante uma viagem de comboio entre a Covilhã e a Soalheira, na companhia dos pais.
Depois da solidão atiram-se os foguetes. Toda a última parte fica a cargo dos ressuscitados Rio Grande. Tim, Rui Veloso, Jorge Palma cantam à vez, mas agora quem comanda é Vitorino, que não só rubrica uma interpretação imaculada em "O Caçador da Adiça" como, de concertina em punho, em "Fui às Sortes e Safei-me", puxa e "provoca" os outros, ao desafio. Para João Gil e Rui Veloso, pouco afoitos nas guitarras: "Rapazes do Sul!...". A Manuel Paulo, no acordeão: "É um instrumento difícil...". Para Tim, no baixo: "Só isso?". E apresenta "um solo de palmas pelo Jorge Palma".
Já com todos os participantes no palco e a plateia a aplaudir de pé, canta-se em grande confusão e emoção, "Loucos de Lisboa" e "Zé Passarinho". João Gil ainda tem tempo para agradecer a toda a gente, em particular, a João Monge, letrista dos Ala. Mas sobretudo "ao seu amor". Uma coisa "à americana", diz, com a comoção bem visível no rosto.

EM RESUMO
Em noite de sintonia, amizade e boa música, Jorge Palma, Isabel Silvestre, Vitorino e o anfitrião brilharam com uma intensidade especial

Quem tem Teresa tem Graça [Madredeus]

CULTURA
DOMINGO, 7 ABR 2001

Crítica Música

Quem tem Teresa tem Graça


Madredeus
Parque da Cidade, Porto
5 de Abril, 22h.
Lotação a dois terços

Chuva, obras, trânsito caótico, buracos, chuva, obras, buracos. O centro do Porto está a saque. Se em relação à chuva será difícil fazer alguma coisa, já em relação às obras, o bom senso não aconselharia a que estas se fizessem antes e não durante o ano do Porto-2001? Por tudo isto, as cerca de 1000 pessoas que estiveram presentes, na noite de quinta-feira, numa tenda chapitô instalada no parque da Cidade, para ouvir a estreia ao vivo do novo álbum dos Madredeus, "Movimento", sentiram-se no céu. Céu que ainda estará disponível, no mesmo local, hoje, a 12, 13 e 14, seguindo depois para Lisboa, em espetáculos marcados para os dias 19, 20, 21, 24, 27 e 28, no Parque das Nações.
O teto da tenda estava, de resto, coberto de estrelas, mas o fundo era vermelho, da cor do vestido de Teresa Salgueiro. A música dos Madredeus, essa, está cada vez mais azul. "Parece uma igreja!" foi um dos comentários murmurados em surdina por alguém pasmado com a solenidade de uma assistência que parecia estar ali para assistir à celebração de um culto e não para presenciar um concerto de música. Não se ouvia uma mosca. Uma palavra sussurrada para o lado. Um espirro, uma tossidela, uma fungadela. Não se ouvia nada. Decididamente, a música e o público dos Madredeus têm pouco a ver com a fúria do rock'n'roll.
Com início às dez horas, os Madredeus deram início à liturgia, perdão, ao concerto. Foram tocados todos os temas do novo disco, embora sem seguir o mesmo alinhamento, em alternância com "êxitos" mais antigos como "Oxalá", "Pomar das laranjeiras", "A tempestade" e, já no encore, "Haja o que houver". Falta rodagem, mas o essencial já lá está: as canções, algumas delas desde já merecedoras de figurar no livro dos clássicos dos Madredeus, o rigor cada vez mais de músicos de câmara dos quatro instrumentistas e, acima de tudo, a beleza intocável da voz de Teresa Salgueiro. Imaculada, como sempre.  Num mundo a naufragar em vagas cada vez mais encarpeladas, a música dos Madredeus flui como as águas de um rio que desliza devagar. Descendo lentamente meio tom de cada vez.
Dos novos clássicos, dois há que rondam o sublime: "O labirinto parado" e "Graça – a última ciência". Lá perto andam "Afinal – a minha canção", "O segredo do futuro" e "Tarde, por favor". Na última canção da 1ª parte, "Brumas do futuro", composta de parceria com António Victorino de Almeida, em dedicatória aos capitães do 25 de Abril, uma surpresa: a presença em palco, ao piano, do próprio maestro. O tema não é grande coisa, assim com laivos de Nino Rota e cançoneta, o maestro e os sintetizadors de Carlos Maria Trindade não chocaram de frente, mas o mais extraordinário foi comprovar que é possível instalar num palco um piano de cauda em apenas três segundos. Nem a Ferrari, numa troca de pneus, faria melhor.
Depois de um intervalo aproveitado por quase toda a gente para socializar, os Madredeus regressaram para concluir a apresentação de "Movimento". "Graça – a última ciência" foi cantada por Teresa Salgueiro de forma emocionante, com garra (é raro vê-la com as garras de fora), sobre cascatas de cristal de harpa, emulada por Carlos Maria Trindade no sintetizador. Quem tem Teresa tem Graça. O mesmo se poderá dizer de "O segredo do futuro". Apesar da segunda parte ser "Qué sera, sera" mais Aphrodite's Child, é uma grande canção. Teresa Salgueira não é nem Joan Baez nem Demis Roussos. Graças a Deus.
Antes de "A quimera" fechar o concerto, foi feita pela cantora a apresentação dos músicos, caso alguém não soubesse. "Esqueci-me de dizer que a cantar está a Teresa Salgueiro", disse a terminar. Ah, então ela era a do vestido! Também agradeceu, sobretudo ao Porto-2001 que, afinal, parece que existe.
"Tarde por favor", uma das melhores interpretações da noite, swingante de sensualidade e ascetismo estremunhado, "Haja o que houver" (saudada com muitos aplausos pela assistência que até aqui nunca tinha perdido a compostura) e "Vozes no mar" preencheram os encores.
O maior defeito dos Madredeus? A simplicidade. A maior virtude? A simplicidade. É como na vida – tudo depende do ponto de vista.

EM RESUMO
Barricada de silêncio: De um lado, o silêncio de onde nasce a voz de Teresa Salgueiro. Sagrado. Do outro, o silêncio de uma assistência que não tugiu nem mugiu. Assombrada.