Mostrar mensagens com a etiqueta Realejo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Realejo. Mostrar todas as mensagens

29/08/2016

Realejo em "Sanfona" [6º Festival Intercéltico do Porto]

POP ROCK
Quarta-feira, 5 Abril 1995

REALEJO EM “SANFONA”


A SANFONA, ESSE INSTRUMENTO COM ASPETO de besouro gigantesco – um cordofone tocado com teclas e onde é preciso girar uma manivela – cujo som se confunde com as próprias lamentações da Terra, ocupa o lugar de destaque na música dos Realejo. Fernando Meireles, além de as tocar, constrói ele próprio não só sanfonas como outros instrumentos utilizados pelo grupo. A música antiga escrita para este instrumento está na base da criação do grupo, de que fazem ainda parte Manuel Rocha, no violino e bandolim (também elemento da Brigada Victor Jara e, ocasionalmente, da banda acompanhante de Né Ladeiras), Amadeu Magalhães, na gaita-de-foles, flautas, sanfona, braguesa e cavaquinho, Rui Seabra, na guitarra, e Ofélia Ribeiro, a mais recente aquisição, no violoncelo. O reportório dos Realejo estende-se desde a Idade Média ao Romantismo, passando pela Renascença e pelo Barroco, com destaque para os compositores franceses – aqueles que, ao longo dos séculos, cultivaram com maior consistência tanto a construção como a música escrita para a sanfona (é em França que a prática e desenvolvimento deste instrumento se encontram mais desenvolvidos, com largas dezenas de executantes, entre os quais alguns de grande craveira, como Jean-François Dutertre, Gilles Chabenat e Valentin Clastrier, e a organização de concursos e seminários). A música portuguesa tradicional, claro, marca presença em força. Sobretudo a transmontana, cujas características musicais são especialmente “moldáveis à combinação da sanfona com a gaita-de-foles”, como acentua Manuel Rocha. Os Realejo não são um grupo populista, no sentido de fazerem uma música imediatista, antes evidenciam um outro tipo de postura que, em termos musicais, se traduz num classicismo assumido. “Música tradicional de câmara”, como escrevemos uma vez sobre o grupo. Não poderia começar de melhor maneira o Intercéltico. Ainda para mais, na mesma altura em que o grupo lançará o seu primeiro compacto, intitulado “Sanfonia”.

23/10/2009

Realejo - Cenários

Sons

15 de Maio 1998
PORTUGUESES

Luz sobre o cenário
Se os Gaiteiros de Lisboa explodem na ruptura das normas e os Vai de Roda navegam numa fusão galaico-portuguesa próxima de uma New Age inscrita no compêndio da tradição, os Realejo “limitam-se” a tocar a música de que gostam, de forma superlativa e com a naturalidade dos predestinados. O que os distingue daqueles dois grupos, que constroem a sua música sobre uma contextualização e teorização prévia, extramusical. Escute-se uma faixa como “Bendito das trovoadas”. Ou “Maragato son”. É música de outra dimensão, que transcendeu a escolaridade, os estilos e – muito importante, apesar de algumas vozes afirmarem o contrário – as limitações técnicas que amiúde condicionam a liberdade de ideias e intenções. As duas faixas citadas pertencem, respectivamente, ao reportório tradicional da Beira Baixa e de Miranda do Douro, mas os Realejo transformam cada uma delas em autênticas sinfonias de bom-gosto, dos arranjos à interpretação, passando, inclusive, por modificações estruturais. Sendo portugueses, os Realejo fizeram a sua música ultrapassar as fronteiras nacionais. Sendo tradicionais, os Realejo afirmam a modernidade, no sentido mais nobre do termo, em que não se “inventa” recorrendo a colagens, quase sempre forçadas, de estilos, ou artimanhas de estúdio, mas antes se afirma a importância da interiorização e da individualização, pondo a forma ao serviço de uma vivência interior.
Os Realejo possuem o dom, raro, do entendimento da essência sonora, da alma, de cada instrumento. Sua é então uma música de concertamento, de diálogo apaixonado, em que as vozes da sanfona, da gaita-de-foles, do violino, do violoncelo, da concertina ou das cordas dedilhadas se fundem com a própria alma dos músicos. Facto a que não é alheio Fernando Meireles aliar o talento de intérprete (na sanfona mas também no cavaquinho e no bandolim, em “Final de Inverno”, por exemplo) ao de mestre construtor. Os Realejo contam ainda nas suas fileiras com um compositor e arranjador de excepção, Amadeu Magalhães, transmontano de gema mas cidadão do mundo, no modo como assimilou e intuiu um universalismo que, de “Sanfonia” para estes “Cenários”, alargou o conceito de música de raiz tradicional portuguesa para formas musicais ao nível do que melhor se faz, hoje, na Europa. “Cenários” é música para ser dançada. É música para se cortejar a dama oculta (“Deus te salve ó Rosa”, tema algarvio de ressonâncias medievais onde choram o violoncelo de Ofélia Ribeiro e o violino de Miguel Areia). Música para o cérebro se deleitar em jogos contrapontísticos (a versão de “Music found harmonium”, o original de Amadeu Magalhães com a sua concertina esfuziante, em “Nunca me canso”).

Realejo
Cenários (10)
Ed. Movieplay, distri. Euroclube

22/09/2009

Deu a mosca na sanfona [Realejo]

Sons

20 de Março 1998

Realejo montam novos cenários

Deu a mosca na sanfona

Demorou, mas finalmente vai ver a luz do dia o segundo álbum dos Realejo, intitulado “Cenários”. Excelentes executantes, uma sonoridade única e o prazer intenso de tocar combinam-se num dos grandes álbuns folk portugueses de sempre. Os seus autores explicaram ao PÚBLICO as razões da demora, em que a editora tem culpas no cartório, e a nova postura em palco que trouxeram de Saint Chartrier. Na Galiza, os Realejo estão a provocar uma pequena revolução.

Fernando Meireles, construtor de instrumentos, tocador de sanfona, bandolim e cavaquinho, e Amadeu Magalhães, arranjador, gaita-de-foles, ponteira, flautas, concertina, cavaquinho, bandolim, braguesa e percussões, constituem o núcleo principal dos Realejo, grupo de música de raiz tradicional originário de Coimbra e um dos mais originais da cena folk nacional. A estes e a Ofélia Ribeiro, que já participara no álbum de estreia do grupo, “Sanfonias”, juntaram-se os novos elementos José Nunes, guitarra e bandolim, e Miguel Areia, violino. Prosseguindo um trabalho de renovação cujo espírito vai muito além de uma prospecção do passado, os Realejo são, juntamente com os Vai de Roda e os Gaiteiros de Lisboa, um dos grupos cuja existência permite acreditar que a música portuguesa pode avançar no mesmo passo do resto da Europa.
PÚBLICO – Por que razão foi preciso esperar tanto tempo pela edição deste vosso segundo álbum?
FERNANDO MEIRELES – No nosso contrato temos uma cláusula em que não podemos dizer mal da editora! [Risos.] De facto já tínhamos este disco preparado desde 1996 e gravado desde o ano passado. Digamos que houve alguns dos chamados “problemas técnicos” que atrasaram todo o processo... A verdade é que temos gravado imenso material e estamos a metê-lo na gaveta. Gravámos o primeiro disco em 95, o segundo deveria ter sido gravado em 1996, em 97 poderíamos ter gravado o terceiro e tínhamos agora o quarto... Mesmo o primeiro disco poderíamos tê-lo feito dois anos antes...
P. – Esse atraso sistemático não tem prejudicado a carreira do grupo?
F. M. – Obviamente que sim. São paragens forçadas.
AMADEU MAGALHÃES – O grupo está sempre em evolução. A editora, fazendo este tipo de coisas, não nos deixa progredir em termos de trabalho. Não conseguem acompanhar o nosso ritmo.
P. – De acordo com essa evolução, o que é que mudou de “Sanfonias” para estes novos “Cenários” dos Realejo?
F. M. – Estamos a tocar cada vez melhor os instrumentos e a experimentar, com eles, sonoridades e ritmos novos.
P. – O som do grupo sugere uma grande cultura e hábitos de audição regulares da vossa parte. É verdade?
F. M. – Eu ouço muita música. O Amadeu não ouve tanto, o que é bom, porque acaba por fazer as coisas sem sofrer grandes influências exteriores.
A. M. – Sou o controlador... Faço os arranjos e componho os temas originais.
F. M. – Em relação aos novos elementos fui eu que lhes incuti o gosto por esta música. Tenho e ouço imensos discos, que estou sempre a mostrar aos outros. Por exemplo, comprei ultimamente o novo “Hippjock”, dos Hedningarna, dos quais gosto imenso, embora reconheça que estão a entrar um bocado em demasia nos ritmos de discoteca... Também comprei o disco de estreia de um novo grupo irlandês, os Danú, que adquiri no Festival de Saint Chartrier deste ano, no qual participámos. Também comprei um álbum dos franceses Yole. E estamos a ouvir muito os Berroguetto. Em relação à sanfona, gosto de Nigel Eaton, e, dos franceses, Gilles Chabenat, Patrick Bouffard...
A. M. – Também ouvimos muito o Júlio Pereria. Na guitarra, gosto de Preston Reed. Na gaita-de-foles, Carlos Nuñez.
P. – Os mais novos do grupo, o que é que ouvem? Têm alguns heróis?
JOSÉ NUNES – Júlio Pereira! Sou o fã número um dele.
MIGUEL AREIA – Eu ouço outro tipo de coisas, devido à minha formação clássica. No violino clássico admiro o Isaac Stern. Na tradicional ainda não encontrei referências.
OFÉLIA RIBEIRO – Violoncelistas da clássica: Pablo Casals, Rostropovitch, Misha Maiski.
P. – No início de carreira assumiam-se como um grupo de folk de câmara. Mantêm a mesma postura, sobretudo em palco?
F. M. – Não, estamos mais voltados para o público, há uma empatia maior. Em certos temas tocamos de pé. E o novo reportório é mais dançável, mais extrovertido.
P. – Mas esse lado mais intimista, pelo menos a julgar pelo álbum, não desapareceu...
F. M. – Claro, não deixámos nunca de assumir esse lado. Continuamos a actuar, sempre que nos pedem, em igrejas ou em salas de museus. Só que agora, quando tocamos ao ar livre, o som é diferente, a dinâmica mudou completamente, amplificámos os instrumentos...
P. – Podendo parecer odiosas as comparações, é lícito afirmar que, em oposição ao lado mais conceptual dos Vai de Roda ou dos Gaiteiros, os Realejo são mais espontâneos, mais estritamente “musicais”?
A. M. – Para nós é simples. O que gostamos tocamos – com toda uma vivência cultural implícita. O que precisamos, e o que queremos, é tocar bem, tirar o maior partido possível dos diversos instrumentos. Não queremos sintetizadores para fazer a chamada “cama”. Preferimos desenvolver ao máximo os instrumentos tradicionais. Só depois é que poderemos, eventualmente, partir para outros caminhos.
P. – Em Portugal, e em particular neste género de música, essa exigência técnica não faz parte dos hábitos da maioria...
F. M. – Nunca houve preocupação dos construtores em fazer bons instrumentos. E as pessoas que os tocam não têm a preocupação de os tocar bem. O único que deu um pontapé nesta situação foi o Júlio Pereira. A partir dele é que apareceu muita gente a aperceber-se de que era possível fazer melhor com os nossos instrumentos, a nossa cultura e as nossas vivências. Em Portugal começa a acontecer agora o que há muito já acontece na Irlanda e, mais recentemente, na Galiza, em que o nível técnico médio dos executantes é elevadíssimo. Em Coimbra está a acontecer um pouco isso. O Amadeu dá aulas. Eu ensino a fazer instrumentos. Já há gente que aparece a querer tocar o bandolim ou o cavaquinho como eles devem ser tocados. Mas tem sido um trabalho apenas custeado por nós, os apoios oficiais são nulos.
P. – Os Realejo têm, cada vez mais, um som europeu, na linha de timbres quentes (gaita-de-foles, sanfona, violino, ausência quase total de percussões) de grupos como os Yole ou os Ad Vielle Que Pourra. Concordam?
A. M. – Sim, e as referências tradicionais estão, sobretudo, implícitas. Um tema como a “Cantiga do realejo” não soa a tradicional mas a música de câmara ou a música antiga.
F. M. – Não vamos tocar a música de um cavador como ele a tocava na origem. Pegamos nos temas apenas porque gostamos deles. É a única forma de manter viva uma tradição.
P. – Qual tem sido a recepção da vossa música no estrangeiro?
F. M. – Como já dissemos, tocámos o ano passado em Saint Chartrier. Foi uma experiência muito intensa para todos nós. Nunca tínhamos estado num ambiente musical tão intenso. Apercebemo-nos de muitas coisas. Mesmo a nossa nova postura em palco mudou um bocado por causa disso.
P. – E a Galiza?
F. M. – Já tocámos lá várias vezes. Aconteceu mesmo uma coisa muito gira. Conhecemos muita malta da Galiza e, quando os conhecemos, os galegos eram muito fundamentalistas. Agora já não são tanto; se calhar, um bocadinho por causa da nossa influência. Já não é só a gaita com gaita, começam a meter guitarras. Tocam na sanfona temas para gaita. Até já querem a “mosca” [pormenor técnico que permite, por uma espécie de sacudidela brusca na manivela, obter um timbre adicional e contrastante com a “drone” de fundo] na sanfona!


Outras ligações

Fernando Meireles, Amadeu Magalhães e Ofélia Ribeiro, além dos Realejo, integram uma formação de música antiga, os Ars Musicae, sob a direcção artística de Virgílio Caseiro, um musicólogo de Coimbra.