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29/10/2019

Queirda, encolhi a música! [Stealing Orchestra]


Y 26|SETEMBRO|2003
música|stealing orchestra

Querida, encolhi a música!

Para os Stealing Orchestra um disco é um mundo de possibilidades. Com velhos discos e filmes montaram “The Incredible Shrinking Band”, que alargou o espectro sonoro da orquestra.

“The Incredible Shrinking Band”, segundo longa-duração dos Stealing Orchestra, depois de “Stereogamy” (e do EP “É Português? Não Gosto!”), rouba o que pode e onde pode. A começar pelo título, adaptado de um filme de série B, “The Incredible Shrinking Man” (Jack Arnold, 1957), hoje fita de culto.
            A operação de encolhimento traduz-se graficamente numa capa a fazer lembrar os Negativland e materializa-se literalmente na faixa de encerramento, “Happy ending theme”, segmento sónico que em segundos condensa as restantes 14 faixas. O disco termina com uma mensagem subliminar na voz de um Wally ambíguo que cada um tentará identificar.
            Pelo meio, os Stealing Orchestra, sob a alçada ideológica de João Mascarenhas, propõem as sonoridades mais estranhas, designadas por títulos não menos bizarros como “Que Deus te dê o dobro de tudo o que nos desejares”, “Tetris (beware boy, videogames are evil)”, “The darkside of a travesti”,”The living dead whistlig quartet”, “How to make a killer rat” e o inultrapassável “Sorry captain.but…shouldn’t we be thinking about cosmic hazards instead of destroying our spaceship and kitting the crew?”.
            São ilustrações, pinturas de som equivalentes às colagens surrealistas que Armando Brás criou para o folheto, ilustrativos de uma insanidade controlada que remete os Stealing para uma linhagem de grupos que inclui os Residents, Biota, Renaldo and the Loaf, Yello, Startled Insects, Olívia Tremor Control ou os já citados Negativland, bem como Pascal Comelade ou artistas como Duchamp, Breton, Ernst, e Salvador Dali.

asilos. Vale tudo e vale a pena averiguar. Os Stealing Orchestra sacam aos discos e filmes de vários estilos e épocas aquilo que neles é passível de ser manipulado até adquirir a forma de música. Os resultados variam de faixa para faixa como as simetrias de um caleidoscópio: valsas à maneira dos Stranglers, surf music, easy listening, jogos de consola, eletrónica-champagne, uma citação intrusa dos Pink Floyd psicadélicos (não, eles nunca ouviram, juram, e nós fingimos acreditar…), excertos de emissões e estática de rádio, vozes camufladas e melodias umas vezes diabolicamente retalhadas outras de uma simplicidade desarmante. Para confundir ainda mais, não faltam “Os Caretos de Podence”, com emulações de gaita-de-foles sintética de folk mirandesa formatada em disquete.
            Não há uma tradição, cá dentro como lá fora, para este “tipo” de música, pela razão de que a loucura, mesmo quando elevada a método (estético ou sociológico), é ferozmente individualista. Cada caso é um caso e entrar em cada um deles pode ser uma aventura imprevisível.
            Claro, encontram-se na pop asilos bem demarcados. Se os Negativland abusam da colagem como dispositivo de sabotagem, não só estética como política, e os Olivia Tremor Control recorrem ao “corte e costura” como ferramenta de um novo Psicadelismo, já Pascal Comelade se perfila como genuíno “naif” para quem a música é, como nos Stealing Orchestra, uma miniaturização de géneros e mitologias enrolados no cilindro de um realejo. O autor de “El Cabaret Galactico” é, de resto, das poucas influências assumidas pelo grupo português.
            Outros mestres-redutores, como os Residents (o seu álbum de 50 “jingles” de um minuto cada permanece como símbolo da publicidade filtrada pela esquizofrenia e pela perversão), inserem-se num projeto mais global de subversão que procura atingir o âmago da pop. Os Biota fazem o mesmo mas propagam a doença, infetando cada som com uma agonia. Idem em relação aos Startled Insects, com a diferença de que estes ousam interferir com os cânones da música de dança. Já os Renaldo and the Loaf são malucos a quem ofereceram instrumentos de música e um contrato de gravação e os Yello uma variação “light” dos Residents. Ponto assente: sem o trabalho pioneiro de Raymond Scott, o cientista e visionário louco de “Manhattan Reserach Inc.”, nenhum dos outros se atreveria a fazer o que fez e a expor as respetivas
taras em público.
            De entre esta lista de ilustres anjos do bizarro (parafraseando o título de um conto de Edgar Allan Poe) é no mundo mais afastado do horizonte de referências dos Stealing Orchestra que se detetam enigmáticas coincidências. E que outro grupo pode estar mais afastado da normalidade do que os Biota, autores de “Almost Never”, “Tinct” e “Object Holder”, compêndios e rituais de passagem para o pesadelo? Como os Biota, os Stealing Orchestra constroem parte da sua estranheza através da justaposição de instrumentos acústicos, como o piano ou o acordeão, e programações eletrónicas, segundo a lógica de “cadavre-exquis” surrealista, que encadeia as imagens mais incongruentes. Desta conjunção de contrários resulta uma fenda entreaberta que faz desequilibrar, ou apagar, as mnemónicas a que se recorre para fazer a descodificação de uma particular organização mental/musical. Se os Biota filtram no estúdio sanfonas e saxofones até estes soarem como emanações tuberculosas de hinos sobrenaturais, os Stealing Orchestra sequenciam valsas e fragmentos de uma folk imaginária, ou nem por isso (como nuns “Caretos de Podence” cujo mistério se desvanece ao conhecermos as origens transmontanas de João Mascarenhas), cuja força advém, precisamente, da ausência ou deformação de contexto. Nos Stealing Orchestra nada encaixa numa explicação lógica e tudo se passa como as imagens de um sonho. E, no entanto, o filme que fazemos com elas fala uma linguagem que reconhecemos. Ou julgamos reconhecer.
            E daí, talvez não, se pensarmos que “The Incredible Shrinking Band” demorou três anos e meio a gravar e que a organização destes O.V.N.I.s sonoros terá custado a João Mascarenhas mais do que uma noite sem dormir. Foi difícil encontrá-lo, porque encolheu até à escala de 1:260. Encontrámo-lo a praticar natação no interior de um dos sifões de água que matam a sede à Redação do PÚBLICO. Como é que lá foi parar, não quis dizer nem nós conseguimos imaginar. Mas não podíamos desperdiçar a oportunidade. Depois de se enxugar num pedaço de toalhete de papel e de escapar por um triz a ser espezinhado por um jornalista, prontificou-se a dar explicações. Já instalado no aconchego de uma caixa de fósforos, foi mesmo assim com alguma dificuldade que conseguimos ouvir com nitidez este “incredible shrinking man”. Segue-se a relação de algumas das verdades liliputianas que nos transmitiu.


ideias em lata.
MÉTODO DE COMPOSIÇÃO: “Faço as bases, com samples, depois gravo para CD, passo aos outros músicos [Pedro Vidal, Fernando Sousa, Gustavo Costa] e discutimos o que se pode aumentar aqui ou colar ali. Finalmente trabalho outra vez os temas e dou-lhes as programações para trabalharem sozinhos”.
LOCAL DE TRABALHO: Em casa. “Às vezes não consigo dormir. Estou com um som na cabeça e não descanso enquanto não conseguir fazê-lo. Vou para o computador ver se sai alguma coisa. Se sai, continuo, se não…”
FONTES SAMPLADAS: Discos e filmes. “A mais descarada: os Bonzo Dog Doo Dah Band, em ‘Time travelling waltz’, cinco segundos de Brigitte Bardot, de “Tous les garçons”, num ‘pitch’ lento.”
AUDIÇÕES RECENTES: Robert Mitchum. Ouve pouca eletrónica. “Não gosto do som eletrónico”. Nos anos 80: Front 242, Skinny Puppy. Mais tarde: Portishead. Massive Attack, Aphex Twin…
SOFTWARE UTILIZADO: “Básico e primitivo. Já o uso há 11, 12 anos, um programa que cabe três vezes numa disquete, quando hoje é tudo ‘software’ em dois CD. Habituei-me. É como um gajo que toca guitarra e não quer mudar de instrumento”.
UM HERÓI: Raymond Scott. A fase do jazz. “Gosto de todos os discos que saem pela Basta, como os dos Beau Hunks”. “Adoro os anos 20”.
O LIXO E O LUXO: “Um sample não tem que ser lixo só porque é de um artista mais foleiro. Às vezes ouço bandas a dizer, orgulhosas, que samplam os Kraftwerk. É uma treta. O que é que interessa de onde vêm os sons? O que interessa é o que se faz com eles. Tanto pode ser Piazzolla como Quim Barreiros”. Critério: “Tem a ver com a preguiça. Uso os sons disponíveis, não tenho pachorra para arranjar mais. Na escola, quando me mandavam fazer uma redação, se não me dessem um tema, não era capaz. Com um tema, desenvolvia facilmente. Um ‘sample’ é como se fosse um tema”
MÚSICO OU NÃO-MÚSICO: “Não-músico. Não leio pautas. Músico é um gajo que tanto toca num projeto experimental como numa cena mais foleira, para ganhar dinheiro. É uma profissão”.
ECLETISMO: “Tanto podemos fazer misturas de uma banda de ‘dead metal’ como os Holocausto Canibal como de Kubik. Uma vez tentei fazer uma música pimba, para ver se era fácil. Não saía. Afinal não é assim tão fácil. Como não é fácil fazer electroclash ou hip-hop”
CONCERTOS: “Nunca vi ninguém fazer nada de jeito em palco com um computador, os tipos estão ali a fazer de conta que estão a tocar. Antigamente levava um até que me fartei. Gravo as programações todas em CD, fazemos ‘play’ e tocamos por cima, como uma orquestra que estivesse lá atrás”.
UM FINAL FELIZ: “‘Happy ending theme’ é o disco todo comprimido a andar para trás, como um grande loop. Não vou revelar o que a voz diz no final. Dá mais gozo pôr o disco a rodar ao contrário e tentar perceber. Esperemos que ninguém leve a mensagem a sério…”


anjos do bizarro

No corpo da hidra monstruosa que é a
música pop não faltam excrescências
que extravasam os limites impostos
pelo “mainstream”, ou seja, pela
“normalidade”. Os álbuns
seguintes, nacionais e
estrangeiros, são clássicos
da marginalidade
cultivada como estética, em
que as únicas regras são as
da loucura, do perigo e da
transgressão. E do humor,
tantas vezes separador entre
a patologia, a obra de arte e o
gratuito.

THE RESIDENTS
The Third Reich ‘n’ Roll
Ed. Euro Ralph

Quem são, de onde vêm, o que pretendem? Ninguém sabe. Agem como toupeiras a escavar os túneis que minam os alicerces da pop. Os “eyeballs” de fraque e cartola são os diletantes do horror em banda-desenhada, “compères” de uma alucinação sem fim que vem dos anos 70 e hoje se estende por videojogos para maiores de 21. “The Third Reich ‘n’ Roll”, de 1976, é uma das etapas mais bizarras deste percurso pelos subterrâneos da pop, dividida num par de aberrações onde são amolgados e cuspidos, numa avalanche de ruído e vozes de diabretes, “hits” pop dos anos 60 e 70: “Swastikas on parade” e “Hitler was a vegetarian”. Ou de como destapar o diabo e escancarar o carácter intrinsecamente totalitário da música de massas.

BIOTA
Object Holder
Ed. Recommended

Ao contrário dos Residentes, é conhecida a identidade dos Biota: uma equipa de músicos e artistas gráficos sediados em Fort Collins, EUA, preocupados com o “bombardeamento das crianças pela tecnologia” e empenhados na manipulação eletrónica, até à aniquilação, de instrumentos acústicos como a sanfona, trompete, teclados e, em “Object Holder”, da voz humana
Se os Residents são a subversão da pop os Biota transferem-na para um mundo de espectros. A música é um aglomerado tóxico de anti-matéria em metamorfose, miasmas desfocados de “world” inexistente, “free jazz” nas rotações e pelos músicos errados. Como num teste Rorschach é a nossa imaginação que faz nascer os monstros.

NEGATIVLAND
Escape from Noise
Ed. Seeland

Os Negativland disparam aqui rajadas de colagem e eletrónica devedoras de Raymond Scott mas que antecipavam as atuais “funny electronics” alemãs, em canções que denunciam o ridículo e os podres do quotidiano da América. Pulveriza-se com veneno mata-ratos a mediocridade do rock “mainstream” (o verdadeiro “noise”), expõem-se os vícios do pai de família que vê às escondidas o canal Playboy ou, simplesmente, sintetiza-se o atual estado de coisas num título como “Methods of torture”. Entre os convidados, encontram-se “freaks” como Steve Fisk, Fred Frith, Mickey Hart e Jerry Garcia (Grafteful Dead), Henry Kaiser, Mother Mothersbaugh (Devo), Tom Herman (Pere Ubu), Alexander Hacke (Einsturzende Neubauten) e os…Residents.

MOLA DUDLE
Mobília
Ed. Anana

Os portugueses também sabem fazer esgares. Os Mola Dudle desarrumam a eletrónica de entretenimento para nos fazer tropeçar no espanto. Desarrumação com a aparência de caos, todavia encenada com uma exatidão matemática por Nanu e Miguel Cabral, os dois que arrastam a mobília e eletrodomésticos de museu pelo chão. “Found objects”, instrumentos convencionais manipulados até ao âmago da sua estrutura atómica, programações histéricas ou “easy listening” arrancadas aos cartazes da escola de circo da editora Storage Secret Sounds e vocalizações sem tino condensam uma música inteligente mas por enquanto capaz de divertir apenas aqueles ouvidos sem receio de gozar consigo mesmos. Vale a pena mobilar a música portuguesa desta maneira. Os Mola Dudle foram ao ponto de porem microfones nas mãos do caruncho.

KUBIK
Oblique Musique
Ed. Zounds

O que nos Mola Dudle soa a polimento dos móveis, em Kubik (Victor Afonso) é metal, cimento e objetos brutos. “Oblique Musique” insere-se numa escola de sons que remonta à música industrial, aproveita os ensinamentos do minimalismo e assimila métodos de colagem, quer da eletro-acústica e acusmática quer dos figurinos “prêt-a-porter” da pop, mas neste campo, como em tudo, vale a imaginação do autor. Kubik usa o sampler como artilharia pesada, avançando nas programações a bordo de um tanque e fazendo denotar granadas a cada intersecção de géneros como a música étnica, melopeias repetitivas e o catálogo geral de deformações causadas pela “industrial”. Admirável é o modo como Kubik sobrepõe citações e humor, tripas e automatismos, linguagem de máquinas e existencialismo humano, criando perspetivas mutáveis como uma gravura de Eischer.

05/12/2016

The Residents, pesadelo em technicolor

CULTURA
TERÇA-FEIRA, 2 OUTUBRO 2001

XV ENCONTROS ACARTE

The Residents, pesadelo em technicolor

“ICKY FLIX” EM ESTREIA AO VIVO

Cumpriu-se a história. Os Residents enfim em Portugal. Mais formais do que eram antes, mas ainda assim capazes de fazer o público arregalar os olhos perante o seu circo de horrores

Uma lenda é uma lenda é uma lenda residente. Devem as lendas permanecer para sempre como tal, meras representações simbólicas estruturantes do Real, motores invisíveis do mundo? Ou, pelo contrário, descerem à terra como anjos decaídos? Os Residents, banda "underground" (agora já não tanto...) americana que há 30 anos vem escavacando, com tanto de loucura como de método, as fundações da música pop ocidental, são uma lenda. E, ao fim de todo este tempo, o tempo que demorou a este coletivo de homens sem rosto nem nome, a desenrolar a sua visão única e distorcida do universo de emoções, sons e imagens alterados em que se movem, os Residents apresentaram-se em carne e osso em Portugal. No passado fim-de-semana, sábado e domingo, em Lisboa, com lotações esgotadas, na vetusta instituição que é a Fundação Calouste Gulbenkian.
            O que aconteceu nessas duas noites, em termos de receção do público, era previsível. Gente a aplaudir de pé, gritos de "obrigado", como se esta tivesse sido (e provavelmente terá sido...) a oportunidade de uma vida. Não é todos os dias que as lendas se mostram em carne e osso ao comum dos mortais, ainda que, no caso dos Residents, a "carne" e o "osso" tenham a consistência da alucinação.
            E, no entanto, sobretudo para quem tem acompanhado ao longo dos anos a carreira e a obra dos Residents – e que não se deixou impressionar pela tal carga simbólica e pelo "faits divers", ultracolorido e fosforescente, com que o grupo pintou esta sua performance, de genérico "Icky Flix" – ficou alguma frustração. O lado "freaky", desde sempre cuidadosamente cultivado pelos Residents, institucionalizou-se (teria a Gulbenkian aberto ao grupo as portas da sua casa, se assim não fosse?...). Foram uns Residents "mainstream", digamos assim, aqueles que passaram por Lisboa.

Catálogo geral
Foi, apesar de tudo, um bom concerto. Diferente q.b. Perigoso até, para quem se dispôs a investir numa leitura aprofundada do grande pesadelo em technicolor que os Residents, mesmo mais domesticados que há 20, 25 anos, trouxeram ao público português.
            "Icky Flix", o espetáculo, é uma espécie de catálogo geral de uma obra impossível de abarcar e catalogar de forma unidimensional. Sobre um ecrã suspenso sobre o palco, o mesmo "icky cube" que permite seleccionar as várias opções no formato DVD de "Icky Flix", serviu de "menu" ao alinhamento, indicando os títulos que iam sendo tocados. Ideia engraçada que acabou por irritar, ao acentuar o tal lado de mostruário que enfermou todo o espetáculo.
            Os músicos, em número de quatro (computadores, teclados e percussões eletrónicas, uma guitarra elétrica MIDI), apresentaram-se camuflados, como se esperava. Não disfarçados de "eyeballs", descontando o "compère" que deu início à função, que lá apareceu impecavelmente fardado de fraque e com a já mítica cabeça-em-feitio-de-olho, mas trazendo luzes de lanterna fixas na testa, a conferir-lhes o adequado ar de ameaça. Mr. Skull, o senhor deformidade, e uma "barbie"-fantoche fosforescente saída de uma "rave" psicadélica, foram os cantores, mimos e dançarinos de serviço e o principal foco de atração de um "show" que impressionou, sobretudo, pela qualidade e originalidade dos vídeos que foram sendo projetados.
            O mundo visual dos Residents é um "cartoon" grotesco e surrealista, feito de metamorfoses físicas e crueldades mais sugeridas do que explícitas. Tortura cósmica cujos efeitos se fazem sentir nos pequenos gestos do dia-a-dia. A mente perde-se neste jogo de monstros e universos paralelos que a cada momento se entrecruzam e contaminam. Como toupeiras, ou vermes, os Residents não fazem mais do que agitar a terra das aparências e trazer à superfície os demónios mais recônditos que habitam dentro de cada um de nós. À semelhança do que Cronenberg e Lynch (sobretudo de "Eraserhead") fazem nos seus filmes.
            Canções pop como o humanitário "We are the world", transformada em "We are the worms" ("nós somos os vermes"), foram amassadas até se tornarem dejetos auditivos. Mr. Skull e a boneca fosforescente mimaram a impossibilidade da relação amorosa numa dança de corpos incapazes de se tocar. Em "Where is she?", um dos raros momentos realmente dramáticos de "Icky Flix", Mr. Skull personificou a agonia da ausência do amor, gritando como uma criatura cega, a implorar a presença da mulher-fantasma.
            Terá sido, nesta inesperada dimensão, apesar de tudo amorosa, que o concerto – musicalmente, uma sinfonia eletrónica peso-pesada embora distante da anarquia Dada que fez dos Residents de antigamente os incontestados soberanos do bizarro – deixou recordações mais fortes. Ao nível do "encore", 20 minutos nos quais, prescindindo enfim de todo o aparato visual, os Residents provaram ser a Besta do rock'n'roll.
            No final, Mr.Skull, enredado na sua solidão, entre a maquinaria sonora por fim silenciada, exalou o último suspiro do náufrago, instantes antes de se afundar no oceano da sua paranóia, em "Freak show", cuja letra encerra todo um manifesto de intenções: “‘Apenas somos iguais no túmulo e na escuridão', disse um homem cuja cabeça foi mordida por um tubarão. Agora, se me perguntam porque é que eu continuo com tudo isto, duvido que saiba a resposta, por isso apenas faço um palpite: ‘Ter só metade da boca pode não ser grande coisa, mas ainda assim chega para metade de um beijo’”. E, da sua boca arrepanhada, o rosto erguido para o alto num esgar de súplica, tal qual o "Homem-Elefante", de David Lynch, desprendeu-se o horrível ruído. Derradeiro testemunho de uma humanidade perdida.

14/08/2015

Residents ('Eskimo') vs. Biosphere




"Residents ('Eskimo') vs. Biosphere" (Fernando Magalhães)

Fernando Magalhães
12.12.2001 150332

Então cá vai a minha opinião.

Biosphere é uma aurora boreal. "Eskimo" a noite polar, com os seus demónios a uivar.

São dois universos que não se chegam a tocar.

Um disco como "Cirque" dispõe à contemplação. "Eskimo" perturba e arranca-nos do conforto. Exige um tipo de audição mais "tensa", o risco é maior.

E convém não esquecer que Geir Jenssen é norueguês enquanto os Residents são americanos. É toda uma diferença de sensibilidades e formas de encarar o som musical.

Pessoalmente, e sem fazer grandes juízos de valor, considero, cada um no seu território, dois discos fundamentais.

FM

17/06/2015

Revelação do ano + Residents




"Revelação do ano + Residents" (Fernando Magalhães)

Fernando Magalhães
25.09.2001 121236

Uma maravilha, o álbum de estreia do duo inglês FORT LAUDERDALE, "Time is of the Essence" (ed. Symbiose).
Crítica já no próximo "Y".
Mas imaginem um cruzamento de dança/electrónica orquestral/psicadelismo/lounge...perfeitamente integrados num todo original. Stereolab + Angelo Badalamenti + Olivia Tremor Control + Strauss + ...
Para ouvir e reouvir muitas vezes!

"Icky Flix" dos Residents é o regresso à grande forma dos Residents. Um álbum épico e perturbante, que recupera a grandiosidade de "Not Available".
A versão em DVD inclui ainda mais música e uma quantidade de vídeos do grupo. Pela amostra das imagens do livrete interior, deve ser qualquer coisa de majestoso, perigoso e tripante.

FM

PS-Inqualificavelmente mau, o concerto de David Sylvian, ontem, no Coliseu. Ao fim de 45 min. desisti e fui-me embora.
Segundo já me disseram (inclusive admiradores do músico) até ao final foi sempre a piorar!

18/01/2015

Freak show olhos nos olhos [The Residents]



Y 28|SETEMBRO|2001
música|residents

freak show olhos nos olhos



Quem são os Residents? A pergunta tem sido obsessivamente feita nos últimos 30 anos. A mais famosa banda desconhecida do planeta atua pela primeira vez em Portugal. Sem bilhete de identidade, de fraque e olhos gigantescos no lugar da cabeça. Um concerto histórico.

Desde que se formaram, em 1970, no estado do Louisiana, terra de carnaval e de feitiços, os Residents têm conseguido manter o anonimato. Como e porquê? Como, ninguém sabe. Porquê, porque a questão é irrelevante, dizem eles, e apenas a obra importa. Não se sabe sequer se os músicos que amanhã e domingo irão apresentar no Centro de Arte Moderna, em Lisboa, o novo projeto multimédia “Icky Flix”, no âmbito dos Encontros Acarte, são os mesmos – pelo menos alguns deles – que nos anos 70 atiraram à cara da pop álbuns como “Meet the Residents”, “The Third Reich ‘n’ Roll” e “Eskimo”.
            O mistério é intenso, persistente e excitante. Tudo na biografia desta banda pode ser, de resto, mentira, avisa o “site” oficial, residents.com. O mito rodeia todas as atividades dos Residents. Daí o seu poder e eficácia. Os Residents mentem deliberadamente nas entrevistas. Os Residents são humanos? É muito provável que não…

            Olhos nos olhos. Quem são os Residents? Há quem jure a pés juntos ter estado a seu lado, ter-lhes tocado e conhecer as suas identidades. Nada de especial: são elementos do “staff” da editora Ralph, que formaram ainda nos anos 70 para gravar e distribuir uma música então dificilmente tolerável pelo “mainstream”. Um admirador conseguiu mesmo os seus autógrafos: “Mr. Resident”, “A resident” e “Residents”. Afinal, que importância tem saber os nomes? John Smith, Elvis Presley, Abigail Crunch, Manuel Ferreira (sim, pode acontecer que haja um português no grupo!)? Absurdo, inquietante, ridículo, irrisório. Mas… quem são os Residents? Que nome dar à ameaça?
            Ao vivo, os Residents apresentam-se de fraque e máscaras de globos oculares. Antes costumavam disfarçar-se de lagostas e passear pelos supermercados enfiados em uniformes de amianto. São um quarteto, como os Beatles. The “fabulous eyeballs”. Quando uma das máscaras oculares foi roubada, o quarto “resident” passou a ocultar-se atrás de um crânio e a chamar-se Mr. Skull.
            A inquietação, potenciada pelo anonimato, aumenta ao fazermos uma análise da sua obra. Desde o início, o grande objetivo dos Residents tem sido o de minar metodicamente os alicerces da música pop, introduzindo no espaço oco um sucedâneo, por vezes colorido, por vezes sombrio, umas vezes doce, outras amargo, mas sempre camuflado por uma camada em que o humor e a perversidade se confundem. As formas, os géneros, a mitologia, a iconografia da galáxia pop e, finalmente, as novas tecnologias multimédia, têm sido aspiradas, marteladas, amassadas, pervertidas (ou redimidas?) e vomitadas nos media pelos Residents. Existe uma filosofia e uma ideologia subjacentes ao “cartoon”. A desmontagem obedece a regras. Apaga-se a luz. Estudam-se os tiques. Substitui-se o recheio.
            A inversão tornou-se visível muito cedo. O single de apresentação, “Santa dog”, é um anagrama de “Satan god”. O EP “The Beatles Play the Residents and the Residents Play the Beatles” aprofunda o conceito de contaminação. Os Beatles, ícone absoluto da cultura pop, eram os primeiros alvos a abater. A capa e o título de “Meet the Residents”, álbum de estreia de 1973, são uma réplica adulterada de “Meet the Beatles”. Os rostos dos “fabulous four” de Liverpool desfeitos por caricaturas grotescas rabiscadas pelos “fabulous four” do Louisiana. Nos últimos anos assistiu-se a um regresso dos Residents à temática religiosa, isto é, ao tiro ao alvo sobre a Bíblia. Dinamitar o espírito para melhor metamorfosear a carne.

            Teoria da obscuridade. Flashback. Em 1966 os músicos que viriam a constituir-se como The Residents, antigos companheiros de escola (pobres professores!), abandonam o Louisiana, onde se dedicavam à gravação e recolha de música local, e estabelecem a sua base de operações em São Francisco, assistindo de perto ao “Summer of love”. Ervas daninhas em pleno roseiral. Em 1969, chegam rumores aos ouvidos de um guitarrista inglês, de seu nome Philip Lithman, posteriormente conhecido como Snakefinger. Vai de propósito à Califórnia, investigar. Mas antes, numa passagem pela Bavária, na orla da floresta negra, Lithman conhece uma misteriosa personagem, N. (Nigel?) Senada. Lithman e Senada travam por sua vez conhecimento com o grupo. N. Senada impressiona os futuros Residents com a sua “teoria da obscuridade” e o ensino de bizarras técnicas fonéticas.
            Quando, em 1971, a Warner Brothers recusa uma cassete que os quatro lhe tinham enviado, para hipotética inclusão numa coletânea, e a devolve à procedência, por escrito, em pacote endereçado simplesmente aos “residents” da morada indicada, estava encontrado o nome que se viria a tornar lenda: The Residents.
            Abramos aqui um parênteses, para falar do misterioso senhor Senada, nascido, ao que parece, na Alemanha, em 1907. Uns dizem que não passava de uma personagem ficcional inventada pelos próprios Residents. Mas N. Senada compôs e gravou músicas reais, sendo a sua obra mais conhecida, “Pollex Christi (The Thumb of Christ)”, inspirada em excertos de “Carmina Burana”, de Carl Orff. Senada advogava as virtudes do erro e afirmava ser impossível tocar corretamente as suas composições. Em 1938 desistiu de fazer música, alegando que esta se tornara “demasiado estarrecedora” para os ouvidos humanos. Parte então para o Canadá para estudar os costumes do povo “Inuit”. Com base nos seus apontamentos sociológicos sobre esta etnia esquimó, os Residents compõem “Eskimo”, de 1979. A partir daí o seu rasto perde-se por completo. Um musicólogo garante que N. Senada é Harry Partch, um dos compositores preferidos dos Residents (juntamente com Captain Beefheart), coincidindo as técnicas musicais de ambos.

            As toupeiras triunfam. Nenhum álbum dos Residents é mais marcado pela “teoria da obscuridade” de N. Senada, do que “Not Available”, banda sonora imaginária de um naufrágio mental. De acordo com a doutrina, “Not Available” só deveria ser editado quando todos, incluindo os seus autores, se tivessem esquecido da sua existência. Assim, o disco, segundo do grupo, foi gravado em 1974 mas apenas viu a luz do dia quatro anos mais tarde, quando o posterior “The Third Reich ‘n’ Roll”, já saíra, em 1976. Na prática, o segundo álbum dos Residents é oficialmente o terceiro.
            “The Third Reich ‘n’ Roll” contém disseminados todos os princípios da ideologia Residents, sendo e si mesmo um tratado de dissecação da música pop. Glosa êxitos dos Beatles e dos Stones e outros “hits” do “top ten” para os esventrar através do mesmo tipo de cacofonia epilética e aberração que os alemães Faust montaram no seu álbum de estreia. E afirma que Hitler era um vegetariano.
            Além de “Eskimo”, vento ártico sobre os rituais de morte dos esquimós, histeria, silêncio e terror, “Commercial Album”, de 1980, dispara sobre o coração da indústria – 40 temas com um minuto exato de duração cada, destinados a serem tocados como “jingles” na rádio. A pop assumida na sua condição de prostituta, a canção oferecendo-se como objeto de consumo imediato. A terrível gargalhada dos Residents fez-se ouvir bem alto nos salões da hipocrisia.
            Além de Snakefinger, já falecido e autor de magníficos álbuns a solo de inspiração residentiana (“Chewing Hides the Sound”, “Greener Postures”, “Manual of Errors”) e, a par dos Renaldo and the Loaf, um dos primeiros discípulos da banda, também Fred Frith e Chris Cutler, músicos-teóricos da banda inglesa Henry Cow (com conotações estéticas a Harry Partch, Faust e Mothers of Invention que, por sua vez, estavam ligados a Captain Beefheart…) passaram a ser colaboradores habituais dos “eyeballs”.
            A década de 80 é aproveitada pelos Residents para a composição de grandes trabalhos conceptuais. “Mark of the Mole” e “The Tunes of Two Cities”, partes um e dois de uma “Mole Trilogy” inacabada, contam a história do colapso da civilização humana e da sua derrota às mãos das toupeiras. Metáfora da infiltração subterrânea, da vitória das trevas sobre a luz, da noite sobre o dia, são obras-primas de pop, eletrónica, loucura, método e paradoxo. E metem medo.
            Saltando por cima de uma terceira parte que nunca existiu, o quarto capítulo da saga, “The Big Bubble”, apresenta os Residents como a banda de casino, The Big Bubble (chegou a especular-se se os rostos da capa não seriam afinal dos próprios…). As partes cinco e seis de “Mole Trilogy” são fantasmas.
            Na manga, estavam “The American Composers Series”, idealizadas para inundar o mercado durante 20 anos. Cessaram ao fim de dois álbuns, “George & James”, com versões da música de George Gershwin e James Brown, e “Stars & Hank Forever”, correspondente a John Philip Sousa e Hank Williams Sr. Uma vez mais, alguns dos mitos da música americana transformados em monstruosidades. Elvis Presley levou com a mesma dose, em “The King and I”, jogo de simulações (“I”/ “eye”) e exéquias ao rock ‘n’ roll.

            Circo de horrores. Simulação – a etapa que faltava para a armadilha se fechar e os Residents cerrarem em definitivo as mandíbulas em torno do pescoço da vítima. Se a fase “religiosa”, levada a cabo em “God in 3 Persons” e “Wormwood: A Curious Collection of Bible Stories”, usava como arma a caricatura e o cinismo para derrubar alguns dos santos dos seus altares, o que sucedeu a seguir levaria ainda mais longe a manipulação. Os Residents apropriam-se da tecnologia audiovisual mais sofisticada e aplicam-na no quarto virtual dos jogos eletrónicos de computador.
            O CD-Rom de “Freak Show” obriga o jogador a funcionar e a pensar como um psicopata à deriva num mundo de criminosos paranóicos. “Bad Day on the Midway”, também uma série de TV, leva-nos em deambulações por um circo de horrores.
            Os Residents criaram o seu mundo. Terroristas estéticos, observam-nos com o olhar gelado de “eyeballs” solenemente vestidos de fraque para a cerimónia do fim dos tempos que se avizinha. Cabe-nos a nós sair deste mundo de monstros, psicologicamente vivos e sãos. A sua obra infiltrou-se não só na música como em filmes, livros e vídeos delirantes. A sua música evoluiu da disformidade dos primeiros álbuns para o grotesco eletrónico dos anos 80 e deste para a frase litúrgica atual, evangelho a ecoar nos sininhos da demência e no clamor de maquinismos sugadores de almas. Tornaram-se um grupo pop. O grupo pop mais perigoso do mundo. Senhoras e senhores, meet the Residents!