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17/08/2016

Entre a escuridão e a luz [Richard & Linda Thompson]

Pop Rock

19 MAIO 1993



ENTRE A ESCURIDÃO E A LUZ

Na Folk e áreas afins os casalinhos funcionam. Em termos musicais, pelo menos. Não faltam exemplos de pares cuja prole discográfica resultou em cheio. Richard Thompson e a sua mulher Linda são um desses casos. Com a mulher o eterno derrotista aprendeu a cantar canções de amor. Antes de as luzes se apagarem.

Talvez porque a pressão exterior seja menos intensa, os artistas conotados com a música tradicional funcionam bem aos pares. Marido e mulher podem juntar forças e talento, sem preconceitos, partindo do princípio que duas cabeças funcionam melhor que uma só. Sandy Denny e Trevor Lucas, Maddy Prior e Tim Hart, John e Beverley Martyn, Shirley Collins e Ashley Hutchings e, claro, Richard e Linda Thompson deixaram para a posteridade obra consistente. Sandy Denny, a mulher que fez na Folk o mesmo que Billie Holiday no jazz, formou com o marido, Trevor Lucas, um dos agrupamentos que marcou a primeira fase do Folk Rock britânico, os Fotheringay. Maddy Prior e Tim Hart formam “tandem” desde há muitos anos. Nos Steeleye Span e, enfim sós, nos dois volumes de “Folk Songs of Olde England” e no belíssimo “Summer Solstice”. Em duo com a mulher Beverley, assinou John Martyn dois dos seus melhores trabalhos: “Stormbringer” e “The Road to Ruin”. “No Roses”, junção pioneira da “morris dancing” com o Rock, resultou da inspiração conjunta de Shirley Collins com o “pai” dos Albion Band, Ashley Hutchings que, como Richard Thompson, fez parte da formação inicial dos Fairport Convention.

Estranha relação

            Mas nenhum destes casais conseguiu, como Richard Thompson e a sua mulher Linda, operar em regime de continuidade. Richard e Linda foram feitos para trabalhar em conjunto. O pessimismo mesclado de cinismo do ex-Fairport Convention adquiriu na voz de Linda outro tipo de cores e uma profundidade dramática que afastava as canções de simples traumas e angústias pessoais, trazendo-as para um contexto mais universalista. Richard Thompson afirma que todas as suas canções são, de uma maneira ou de outra, canções de amor. Mesmo quando se trate de um “Strange affair” ao ritmo trágico de um “Wrong heartbeat”.
Richard Thompson conheceu Linda através de Sandy Denny. Linda Peters, como então se chamava, era vocalista de apoio da diva, numa das suas bandas anteriores aos Fairport. O guitarrista encetou desde logo com ela uma relação amorosa que rapidamente passaria a artística. “Trabalhar em bandas separadas”, disse ele, “era extenuante para uma relação entre dois jovens inexperientes como nós”. Começaram a atuar juntos no circuito dos clubes e universidade e finalmente casaram, em 1972. Sucedeu-se uma lista de álbuns, gravados entre 1973 e 1982, que guardaram um lugar à parte na Enciclopédia do Folk Rock britânico, de “I want to see the Bright Lights tonight” (73), a sua obra-prima, rosário de desilusões amorosas, inquietude e humor-negro que percorre toda a paleta de emoções que vão da escuridão total às luzes amargas de uma feira, a “Shoot out the Lights”. As luzes, no princípio e no fim. Que se acendem e apagam, a marcar os limites de uma relação. Pelo meio, outros tantos diálogos a dois entre sensibilidades e vozes que se complementavam na perfeição: “Hokey Pokey” (1974), “Pour Down like Silver” (1975), “First Light” (1978) e “Sunny Vista” (1979).

Religião e creme de gelado

            Durante as gravações de “Hokey Pokey”, Richard e Linda mudaram de som e encontraram uma religião. Musicalmente foi o encontro com a banda Mighty Baby que Richard definiu como a “resposta britânica à Tamla Motown”.  A luz divina e a tradução, em termos religiosos, dos seus conflitos existenciais, encontrou-os o guitarrista no Islão e no sufismo dos muslim. O casal entrou para a seita passando a sua música, a partir de então, a refletir uma nova visão e perspectiva sobre os dilemas de sempre. Não se tratava, ainda segundo as palavras do autor de “Henry the Human Fly”, de “uma conversão”, mas antes da sistematização de algo em que ele sempre acreditara. Menos uma “adopção” ou “conversão” a uma doutrina e mais um “reconhecimento”, a integração e projeção da personalidade individual numa quadro de valores coletivo. No fundo a transposição da terapia psiquiátrica a que o músico se submetera em 1969 – fruto do choque sofrido com a morte da sua primeira namorada, Genie Franklin, vítima do acidente de camião que transportava a primeira formação dos Fairport Convention, no qual faleceu igualmente o então baterista Martin Lamble – para um diferente contexto.
             Mas nem tudo foram cardos e recordações dolorosas. Em “Hokey Pokey”, no título tema, Richard e Linda usaram o creme de gelado como metáfora para os prazeres do sexo e, em termos mais poéticos, para “todas as formas de gratificação sensual”. Richard chamou a essa canção a primeira da “fase pós-islâmica”. “It’s only fun”, acrescentou, dando a entender ter por fim conseguido libertar-se dos traumas do passado.
            A felicidade e o gozo obtido com o creme de gelado foram contudo sol de pouca dura. Agora a dilaceração era de outra ordem: entre a ortodoxia do islão e as pulsões da carne. A outro nível: entre a utilização da música como veículo de mensagem ideológica e a escrita espontânea de canções que apenas procuravam retratar os sentimentos de uma pessoa vulgar. Afinal o eterno conflito entre a personalidade humana e o sopro divino.
            Ultrapassado o período místico, que levou Richard Thompson e a mulher a posarem vestidos de muslim na capa de “Pour Down like Silver”, à realização de um “Islamic tour” e ao recurso à instrumentação e poesia árabes nos discos (como a tradução do poema “Song and praise of the Shaykh”, de Si Fadul Al-Huwari), o álbum “Sunny Vista” inflete deliberadamente no imaginário burguês ocidental, no seu vazio e nas suas taras, naquele que fica como um dos álbuns mais mordazes, em termos conceptuais, da dupla.
            Frustrada a edição de um álbum, cuja produção, a cargo de Gerry Rafferty, não satisfez Richard Thompson, que na altura a considerou “demasiado encrespada”, a atividade artística do casal terminou com “Shoot out the Lights”, título emblemático para um álbum que o guitarrista declarou ter composto “a pensar na invasão do Afeganistão, pelas tropas de Brezhnev”.
            Em 1982, completando uma década de união conjugal, Richard e Linda puseram fim à relação. Pressões externas, aliadas a conflitos internos, motivaram a separação. Linda casou, pouco tempo depois, com outro. Richard prosseguiu a sua história, agora solitário. A história de um combate contra a escuridão.


Richard Thompson
Watching the Dark (8)
3xCD Hannibal, distri. MVM

            “Watching the Dark” ilumina facetas conhecidas de Richard Thompson, da sua carreira com a mulher, Linda Thompson, aos álbuns a solo, a par de recantos e prestações mais obscuros: baladas gravadas ao vivo com acompanhamento de guitarra acústica, inéditos previstos para inclusão num álbum não editado, registos ao vivo de clássicos como “Calvary cross” ou um tema do período “sufi”, gravado com Fred Frith, Henry Kaiser e Jon French para o álbum “Live, Love, Larf & Loaf”. Ainda um bom motivo para recordar a voz de Sandy Denny, presente em dois temas retirados de “Unhalfbricking”, álbum de 1969, dos Fairport Convention: “A sailor’s life” e “Genesis hall”.
            Sequências de extroversão rock alternam com os instantes de recolhimento criados pela voz sombria de Linda Thompson (incluindo “The great Valerio”, pura fantasmagoria). Entre os vários temas tradicionais destaca-se o inédito “Poor wee jockey Clarke” no qual Richard Thompson toca sanfona.
            John Kirkpatrick, Watersons, Clive Gregson e Christiane Collister, Aly Bain, Dave Swarbrick, Ashley Hutchings, Sandy Denny, Phil Pickett, Nic Jones, Sue Draheim e Barry Dransfield participam ao lado de Shawn Colvin, John Hiatt, Henry Lowther, Danny Thompson e Gerry Rafferty, nesta biografia musical de um homem que não tem medo do escuro.


Nota: Este texto integra um destaque denominado “Casais”

09/08/2016

Richard Thompson - Rumour And Sigh

Pop Rock
12 de Junho 1991

RICHARD THOMPSON
Rumour and Sigh
LP e CD, Capitol, distri. EMI – Valentim de Carvalho


Primeiro, a história: guitarrista inspirado, por vezes genial, Richard Thompson integrou a banda pioneira do folk rock britânico, Fairport Convention, durante o período áureo que culminou nas obras-primas “Liege & Lief” (ainda com Sandy Denny) e “Full House”. A carreira a solo que posteriormente encetou serviu para acentuar as oscilações da sua veia criativa, próprias de uma personalidade dada a extremos, ao mesmo tempo que revelou um guitarrista de primeira linha. Mas foi de parceria com a sua então mulher, Linda Thompson, que gravou aqueles que, até à data, permanecem como os seus melhores trabalhos: “I Want to See the Bright Lights Tonight”, “Shoot Out the Lights” e “Hokey Pokey”, demonstrações brilhantes de como servir-se da raiz folk para enriquecer e revigorar o discurso rock. Sozinho, gravou discos regulares, com exceção do fabuloso compêndio da guitarra em estado de graça que é “Strict Tempo”. Da folk passou à pura excentricidade, por caminhos sinuosos que o levariam a figura insubstituível em discos dos “outsiders” David Thomas (vocalista dos Pere Ubu) e Golden Palominos. Quando está bem disposto, alinha em quarteto com Fred Frith, Henry Kaiser e John French. “Daring Adventures” e “Amnesia” sofriam da síndrome “nada de especialmente genial ou inovador”. Passados três anos sobre a edição deste último, “Rumour and Sigh” não vem alterar substancialmente a situação. À partida, pareciam estar reunidas condições para despoletar aquele pequeno “it” que faz a diferença entre a claridade agradável e a luz do Sol, através de uma escolha diversificada e criteriosa dos músicos convidados. Infelizmente, a música volta a não estar à altura das expetativas. Os esforços conjugados de Alex Acuna, percussão, Simon Nicol (antigo companheiro nos Fairport Convention), guitarra, John Kirkpatrick (expoente da folk de tendência mais ruralista, autor de discos magistrais a solo ou com Sue Harris), acordeão e concertina, Phillip Pickett (membro ocasional dos Albion Band, especialista em música antiga), bombarda, fagote da Renascença e cromorna, Aly Bain (Boys of the Lough), violino, e a dupla Clive Gregoson/Christine Collister, harmonias vocais, não chegam para elevar Thompson aos picos da transcendência. Se a lista de músicos referida ( e a própria instrumentação utilizada) apontavam para um aprofundamento da vertente rural, na prática isso não aconteceu, optando, em vez disso, o guitarrista por um rock ligeiramente matizado que raramente consegue descolar. Richard Thompson é incapaz de escrever más canções, mas isso não serve de pretexto para o desculpar de uma certa atitude de indulgência, frequentemente presente nos seus trabalhos. “Rumour and Sigh” (inspirado num poema de Archibald MacLeish) diz respeito aos rumores e suspiros de “mares inimaginados” e era intenção do seu compositor criar uma música diferente de tudo aquilo que os outros pudessem fazer. Se a intenção era essa, na prática não o conseguiu, limitando-se a cumprir o que dele se espera, ou seja, baladas adequadamente sombrias, que lidam com as suas obsessões habituais (bêbedos que tombam nas vielas, solidões irremediáveis, marginais à solta, a decadência moral do império britânico), aproximações à música “cajun” (Don’t sito n my Jimmy Shands”) ou antiga (a introdução de “Backlash love affair”), impecáveis prestações guitarrísticas (refira-se que neste disco o músico utiliza pela primeira vez uma sanfona). Acima da média sobem os três temas finais, respetivamente o tratado muito “French, Frith, etc” de “Mother knows best”, a balada fantasmagórica “God loves a drunk” (mesmo assim fazendo suspirar pela voz de Linda Thompson) e o surrealismo de “Psycho street”, cruzamento bizarro entre os Incredible String Band e os Pere Ubu num baile de província. Enfim... (suspiro). ***


31/01/2011

Richard Thompson - Mock Tudor

Sons

10 de Setembro 1999
POP ROCK

Quadros de um rapaz dos subúrbios

Richard Thompson
Mock Tudor (8)
EMI, distri. EMI-VC


“Pode tirar-se o rapaz dos subúrbios, mas não se pode tirar os subúrbios do rapaz.” A frase, que um dia alguém aplicou a David Bowie, natural de Brixton, nos arredores de Londres, assenta como uma luva a Richard Thompson, outro nativo dos subúrbios londrinos, temática que este músico já havia abordado com a sua então mulher, Linda Thompson, em “Sunnyvista”, e que agora retoma neste seu mais recente capítulo a solo, depois do duplo “You? Me? Us?”, de 1996. Com produção de Tom Rothrock e Rob Schnapf (trabalhou com Elliott Smith), “Mock Tudor” está dividido em três “capítulos”, correspondentes aos períodos cronológicos que marcaram a relação de Richard Thompson com Londres, mais concretamente, a zona norte da cidade: “Metroland” (1953-1968), “Heroes in the suburbs” (1969-1974) e “Street Cries and Stage Whispers” (1974 até hoje).
Está ao nível dos melhores trabalhos deste músico cuja carreira se iniciou nos Fairport Convention até se tornar nome de referência para gente como os REM, Bruce Springsteen, David Byrne, Nancy Griffith, Elvis Costello, Shawn Colvin, Evan Dando e Bob Mould. Sem atingir o estatuto de obra-prima de “I Want to See the Bright Lights tonight” (com Linda Thompson) nem explodir no delírio de excentricidade de “In Strict Tempo”, “Mock Tudor” ilustra, no entanto, o que de mais consistente – folk-rock personalizado ao mais alto nível – existe na sua veia criativa, num álbum que carrega com menos força do que é habitual na tecla do sarcasmo e da miséria.
Do rock ‘n’ roll de coração adolescente do tema de abertura, “Cooksferry queen”, ao pungente tema final, “Hope you like the new me” (evocativo da tristeza que se infiltrava no âmago da música de três grandes nomes, entretanto desaparecidos, da folk contemporânea, e aos quais o álbum é dedicado: Nick Drake, Sandy Denny e Lal Waterson), “Mock Tudor” traça o quadro subjectivo dos subúrbios da capital inglesa na última metade deste século, com o cinzento do cimento polido pela chuva e a vida aprisionada nos reflexos das poças de água das ruas. Há grandes canções neste tríptico, como “Uninhabited man” (com Thompson na sanfona), “Sibella” ou “Hope you like the new me”, uma “pastische” dos Police, em “Crawl back (under my stone)”, apontamentos “country” (“Walking the long miles home”) e sequências de folk-rock evocativas dos Fairport de “Liege & Lief” e “Full House”, (“Two faced love”). Richard Thompson não é um compositor simpático e a sua obra adquire, por vezes, uma irritante opacidade. Por isso a relação de “Mock Tudor” com o auditor poderá ser semelhante à do músico com a sua cidade natal – de “amor-ódio”, como ele próprio diz. E a sua música, como Londres, “um lugar idealizado para se viver”.

05/02/2009

Richard Thompson & Danny Thompson - Industry

Sons

13 de Junho 1997
POP ROCK

Dentadas

“Não se trata de fazer a história da era industrial, do séc. XVIII até aos dias de hoje. Não penso que isso seja possível. A natureza de uma canção de três minutos obriga à pintura de pequenos quadros. É mais sobre as impressões causadas pela indústria e pelo seu fim... e a transição do industrial para o pós-industrial... É isto que espero que este álbum reflicta.” É nestes termos que Richard Thompson introduz o seu novo projecto de parceria com o contrabaixista e elemento fundador dos Pentangle, Danny Thompson, cujo percurso posterior, com o seu colectivo Whatever, está marcado pelo jazz.
Ainda segundo Richard Thompson – antigo guitarrista dos Fairport Convention que posteriormente formou dupla com a sua mulher Linda, enveredando, nos anos 80 e 90, por uma música de cariz experimentalista, ao lado de gente como Fred Frith, Henry Kaiser, Jon French (com os quais gravou um par de álbuns, incluindo o notável “Live, Love, Larf & Loaf”) e os Pere Ubu –, “Industry” representa um novo passo na sua carreira que, paradoxalmente, procura correspondência na glória dos seus álbuns a solo dos anos 70, encetados por “Richard the Human Fly”.
O tema de “Industry” é o ideal para Richard Thompson libertar todo o seu azedume e a sua reconhecida apetência para cantar os assuntos mais tristes e deprimentes. O encerramento das minas de carvão, o estado de degradação a que chegaram as cidades, o trabalho infantil, a resistência das mulheres, as greves e o desemprego são alguns dos temas abordados neste álbum de cores escuras, como quase todos na obra do guitarrista.
“Chorale”, o instrumental inicial, é uma despedida da Inglaterra rural, do seu estilo de vida bucólico e pastoral, asfixiado pelas manápulas da indústria. Outro instrumental melancólico, “Children of the dark”, retrata a escuridão de uma mina onde trabalhavam crianças. A guitarra e o contrabaixo flutuam num mar de desamparo em “Drifting through the days” antes de as cordas desatarem a chorar, entre o “progressivo” e a música de câmara. “Pitfalls” oscila entre os Gentle Giant e a escola inglesa de jazz, nos seus desenvolvimentos de violino e saxofone. O rock excêntrico de “Live, Love, Larf & Loaf” é redimensionado numa veia quase “rockabilly” pelos saxofones de Paul Dunmall e Tony Roberts, em “Big chimney”.
A única nota de algum optimismo de “Industry” surge pela via de uma inversão/mutação que interioriza o fascínio pela força da estética industrial. “New rhythms” acentua a cadência implacável da máquina, com a sua batida metálica e repetitiva, contra a qual se insurge uma gaita-de-foles, antes da derivação para um fraseado jazzístico. Mas é “Saboteur” o tema que melhor ilustra esta dialéctica de ódio/fascinação pela máquina. Um trabalhador de uma fábrica de algodão sente-se enlouquecer com o poder e o barulho ensurdecedor da maquinaria e decide sabotá-la. Mas, quando desce à cave para o fazer, fica hipnotizado pela beleza do metal, mostrando-se incapaz de levar a sua intenção por diante.
Participam em “Industry”, entre outros, o seu antigo companheiro nos Fairport Convention Dave Mattacks, na bateria, a cantora Christine Collister, Peter Knight (violinista dos Steeleye Span) e elementos dos Whatever, de Danny Thompson, nos sopros.

Richard Thompson & Danny Thompson
Industry (9)
Hannibal/Rykodisc, distri. MVM

06/10/2008

French, Fred, Kaiser, Thompson - Live, Love, Larf And Loaf + Invisible Means

Pop Rock

5 JUNHO 1991
IMPORTAÇÃO DO CATÁLOGO DEMON RECORDS

FRENCH, FRED, KAISER, THOMPSON
Live, Love, Larf and Loaf (1987) ****
Invisible Means (1990) ***

Logo pelo título percebe-se que é uma brincadeira. Jon French (antigo companheiro de Captain Beefheart), Fred Frith (guitarrista genial, compositor genial, produtor genial, fundador de grupos geniais como Henry Cow, Art Bears, Skeleton Crew, etc, enfim – um herói), Henry Kaiser (guitarrista genial, com inclinações – como Frith, aliás – para tratar a guitarra de forma pouco ortodoxa) e Richard Thompson (guitarrista genial, membro fundador dos Fairport Convention, movendo-se com todo o à-vontade entre as cenas folk e “avant-garde”, colaborando, por exemplo, com o inclassificável gordo dos Pere Ubu, David Thomas) juntaram-se para uma boa piada que acabou por resultar brilhante. Rock’n’roll, “pastiches” de música chinesa, “surfin’ USA”, de Chuck Berry, jazz paranóico, vale tudo, num “cocktail” explosivo de humor delirante, virtuosismo instrumental e canções de se lhes tirar o chapéu. Três anos depois, o quarteto tornou-se mais sisudo. Os “quatro da vida airada” levaram-se a sério e acabaram por fazer um disco à beira do rock “mainstream”. A excelência técnica, obviamente, permaneceu.

13/05/2008

Richard Thompson - Me? You? Us?

Pop Rock

1 de Maio de 1996
poprock

Ricardo coração de prião

RICHARD THOMPSON
Me? You? Us? (8)
2XCD Capitol, distri. EMI-VC

O coração de Richard Thompson é um coração infectado por um amor louco. “Me? You? Us?” é o “Kama-Sutra” das relações fracassadas. Apaixonar-se é entrar num beco e perder-se no abismo da solidão e do desencanto. Richard Thompson é assim, sempre foi, mas notou-se mais a partir do momentos em que abandonou os Fairport Convention e passou a conviver regularmente com as vanguardas, como nomes como Fred Frith ou os Pere Ubu. Mas foi na companhia da sua ex-mulher, Linda Thompson, que gravou um dos álbuns mais magoados de sempre da pop britânica, “I Want to See the Bright Lights Tonight”. “Me? You? Us?” é o seu melhor álbum a solo de sempre, desde a estreia “Henry the Human Fly” e o instrumental “In Strict Tempo”. Isto porque, ao contrário de obras recentes, o guitarrista e cantor não deixou desta vez que a neblina que eternamente cobre o seu rosto se reflectisse no tom monocórdico que caracterizava, por exemplo, o anterior “Mirror Blue”. É um álbum desesperado, como sempre, mas colorido por uma postura estética diversificada, como se Thompson tivesse finalmente conseguido a distância necessária para observar, sem neles se enredar, os mecanismos da dor e do desencontro. Há uma ironia mais cruel do que nunca, desde logo presente no tema de abertura, “Razor dance”, o amor (ou as suas ruínas) como instrumento de tortura, bem como no grafismo da contracapa, onde a face esfolada do artista revela, num dos lados, um mecanismo de relojoaria e, no outro, os “músculos da expressão”. Dividido em dois compactos, um eléctrico, de genérico “Voltage Enhanced”, outro “unplugged”, “Nude” – guitarra acústica, voz e pouco mais -, “Me? You? Us?” dispara à queima-roupa no primeiro e sofre em silêncio no segundo. “Voltage Enhanced” encerra, no meio de versos saturados de veneno e do sarcasmo mais mortífero, alguns dos melhores solos de guitarra de sempre da Thompson, da lamentação de “Put it there pal”, com a mesma força trágica de “Meurglys III”, um tema de Peter Hammill com os Van Der Graaf Generator, de “World Record”, à fúria contida de “Business on you”. Um álbum cuja escuridão não impede o entusiasmo da escuta, de onde se destacam ainda o “rock’n’roll cajun” de “Am I wasting my love on you?”, a solidão cósmica de “Bank vault in heaven” e o “flash-back” em forma de cicatriz do tema final “The ghost of you walks”.
No segundo disco, “Nude”, Thompson entra para o mesmo clube de Tim Buckley e Nick Drake, dos que cantam em surdina o sofrimento e os azares da vida, uma mudança de registo que reduz um pouco a variedade emocional e o impacte dramático do primeiro disco. As facas, os espelhos quebrados e os frascos de veneno permanecem, só que agora encerrados num invólucro de secura. Na forma de um despojamento sem margens onde as únicas cores vêm de uma sanfona que chora ao longe em “Sam Jones”, do violino e violoncelo que animam a longa despedida, “Woods of darney” e, sobretudo, de “Cold kisses”, onde o saudosismo folk brilha com a mesma luz gelada das estrelas de Scott Walker, em “Tilt”. À imagem de “Me? You? Us?”, no seu todo, um álbum cuja grandeza se equivale à dimensão do seu desespero.