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10/04/2011

Peter Hammill - The Fall Of The House Of Usher - Deconstructed & Rebuilt + Roger Eno & Peter Hammill - The Appointed Hour

10 de Dezembro 1999
DISCOS - POP ROCK

Ópera de empreitada

Peter Hammill
The Fall of the House of Usher – Deconstructed & Rebuilt (7)
Roger Eno & Peter Hammill
The Appointed Hour (5)
Fie, distri. Megamúsica


Há uma maldição a pairar sobre esta ópera baseada num conto de Edgar Allan Poe que Peter Hammill demorou cerca de 20 anos a concretizar e que finalmente viu a luz do dia em 1991, como amaldiçoada era a mansão saída da imaginação do escritor inglês. O tema da decadência e da hiper-sensibilidade da personagem principal, Roderick Usher, desempenhado pelo próprio Hammill, assentam como uma luva no universo poético do antigo líder dos Van Der Graaf Generator mas a verdade é que a conjugação do libretto, escrito por Chris-Judge-Smith, com as partes vocais das restantes personagens, entregues a Lene Lovich, Sarah-Jane Morris, Andy Bell e Herbert Gronemeyer, não conseguiram evitar que “The Fall of the House of Usher” tivesse um tom de ópera-rock que, nalguns momentos, rondava perigosamente a grandiloquência balofa de um Meat Loaf.
Oito anos volvidos, Hammill terá chegado à mesma conclusão. Na impossibilidade de trocar os intérpretes, o cantor reescreveu a totalidade dos arranjos, modificando as vocalizações que a si diziam respeito, retirando as partes da bateria e acrescentados naipes corais de guitarras eléctricas. Também todo o trabalho de produção sofreu modificações já que Peter Hammill remodelou todo o conceito sonoro do álbum no seu estúdio particular. “The Fall of the House of Usher” soa agora mais cheio e electrónico com a contrapartida das novas vocalizações mostrarem um Hammill mais velho e menos disponível para os excessos histriónicos que caracterizavam a anterior versão. Mas por mais que Roderick Usher/Peter Hammill continuem a chorar a morte de Madeline a velha mansão jamais se erguerá das ruínas. Apesar disso, esta reconstrução, “demolida e reconstruída” de “The Fall of the House of Usher” é uma obra-prima, comparada com “The Appointed Hour”, uma colaboração de Hammill com o teclista Roger Eno. Os dois combinaram uma hora, fecharam-se cada um no seu estúdio a improvisar e depois encontraram-se para colar os respectivos desempenhos. Apesar de, segundo dizem, não ter havido qualquer tratamento ou ajustamento dos trabalhos individuais, não se notam fracturas nem costuras pela simples razão de que quase nada acontece ao longo de uma hora pachorrenta preenchida por pianadas e tapetes de sintetizador que têm mais a ver com o neo-romantismo de Eno do que com a ebulição criativa de Hammill. Sem correrem riscos para além do inusitado da ideia, Hammill e Eno limitaram-se a fazer “muzak” tão agradável quanto inconsequente, nada acrescentando de relevante às respectivas discografias.

02/04/2010

Roger Eno - The Flatlands

Sons

4 de Dezembro 1998
DISCOS – POP ROCK

Roger Eno
The Flatlands (7)
All Saints, distri. MVM

Pequena música de câmara. Peças interligadas em momentos de nostalgia emocional que pretendem juntar a inspiração do instante com a eternidade dos sentimentos. Admirador de Satie, cada vez mais mergulhado numa visão líquida da música, Roger Eno enaltece com intensidade os ambientes de tristeza abstracta que caracterizavam o autor das “Gimnopédias”, acrescentando-lhes uma nota de humanidade e os horizontes de uma paisagem mais humanizada. Se o álbum de estreia de Roger Eno, intitulado “Voices”, situava o piano no centro nevrálgico de um universo declarada e descaradamente satieano, toda a sua obra posterior se dirigiu no sentido de um classicismo que contraria o modo de aproximação ao silêncio do seu irmão mais velho, Brian Eno. “The Flatlands” flutua na música clássica à qual “foram extraídos os momentos mais velozes, deixando-se apenas aqueles instrumentos adoráveis de calma que as correntes da moda foram fazendo desaparecer”. Composto ao longo de um período de 18 meses, “The Flatlands” serve de modelo de um classicismo “light” que aflora a elegância minimalista de Daniel Schell ao mesmo tempo que recorda os tempos criativos de Michael Nyman e Wim Mertens, aproximando-se ainda, nos quadros mais carregados, como o do tema inicial, “Somewhere above”, da tragédia subaquática de Gavin Bryars, anotada em “The Sinking of Titanic”. Piano, uma secção de cordas, um oboé ou um vibrafone escondidos entre os arbustos de um jardim meticulosamente trabalhado, estabelecem atmosferas e melodias que afundam o coração em cuidados e alimentam as mais frágeis fantasias do espírito, como se cada nota, cada silêncio e cada cortesia desta música tecida no crepúsculo outro objectivo não tivessem senão fazer-nos deslizar no sonho.

27/11/2008

Um mar que lhe deu [Roger Eno]

Pop Rock

9 de Outubro de 1996

Irmãos Eno em acção. Roger lança álbum de canções sobre o mar. Brian escreve um diário.

UM MAR QUE LHE DEU

“Swimming”, o novo álbum de Roger Eno, tira o retrato a paisagens sonoras de praias solitárias e ventosas. Histórias de enforcamentos e cantos de embalar, pedaços de esquecimento trazidos pela brisa até à costa. Um álbum de atmosferas marítimas que não se envergonha de citar o irmão mais velho do seu autor, Brian Eno. E de aproveitar as lições da poesia e do cinema.

Embora igualmente seduzido pelo conceito de “atmosfera”, Roger Eno demarca-se cada vez mais do abstraccionismo do seu irmão, Brian Eno, ganhando uma autoconfiança que, inclusive, o levou a incluir no novo álbum um tema directamente influenciado por este. Mas as semelhanças param aqui. Se Brian é um cirurgião do imaginário e do tempo, Roger Eno viaja através dos elementos e de locais reais como um fotógrafo em busca de uma essência perdida. Tem por hábito tocar piano de frente para um quadro.
PÚBLICO – Em “Swimming” integrou, pela primeira vez, temas tradicionais. Que tipo de relação tem com este género de música?
ROGER ENO – Sempre me interessei pela música tradicional, sobretudo por ser tão personalizada e natural. Além disso, aprecio a maneira como, ao longo dos anos, a mesma canção se metamorfoseia em múltiplas variações, num processo contínuo de subtis transformações. Grande parte da música tradicional é muito poderosa do ponto de vista melódico, o que constitui, ao mesmo tempo, a sua força e uma limitação, se quisermos trabalhá-la ao nível dos arranjos. Frequentemente é tão autónoma que qualquer enfeite ou adição sobre a base melódica se torna supérflua. Todavia, este género de material pode ser trabalhado do ponto de vista da harmonia e da atmosfera e foi o que procurei fazer em “Swimming”.
P. – O primeiro tema, “The Paddington frisk”, não aparece creditado como tradicional, embora soe como tal…
R. – “The Paddington frisk” é uma brincadeira bastante mórbida. A frase “dançar o Paddington frisk” é um eufemismo de “enforcamento”, e “frisk” (“pulo”, “cambalhota”) o esticão do corpo dos condenados quando ficavam pendurados na forca. Compus, com alguma perversidade, uma melodia extremamente alegre para um sentimento de pavor.
P. – “The boatman” foi composto sobre um tema antigo, que nunca chegou a gravar, “The seaside”. Qual foi o contexto original em que o escreveu?
R. – “The seaside” era uma peça simples de piano que costumava tocar em concerto, servindo de base a uma improvisação, uma excursão de dez minutos com destino sempre incerto. Um dos meus métodos de trabalho é escolher o nome de uma peça antes mesmo de a escrever, ou de improvisar, funcionando o título como uma espécie de guia para um estado de espírito ou uma atmosfera particulares que, por sua vez, conduzem a evolução da música.
P. – A canção seguinte, “Slow river”, lembra bastante temas do seu irmão, em álbuns como “Taking Tiger Mountain (By Strategy)” ou “Before and after Science”…
R. – Quando escrevi essa canção apercebi-me, de facto, da sua semelhança com os trabalhos mais antigos de Brian, e de que as pessoas se iriam igualmente aperceber disso. Mas, por uma questão de honestidade, achei que devia incluí-la, sendo aliás uma das minhas preferidas do álbum. De resto, cheguei a pensar dedicá-la a Brian.
P. – Em “Swimming”, fez tudo sozinho, da produção, ao canto, passando pela produção e execução instrumental. É um álbum demasiado pessoal para incluir outras pessoas?
R. – Digamos que não necessitei do “input” de outrem. Pretendi desviar-me da instrumentação mais tradicional, optando por instrumentos que, regra geral, tenho negligenciado – guitarra, banjo, acordeão, etc. -, de maneira a dar um sabor completamente diferente ao álbum. Foi um prazer andar a esgravatar nos armários à procura de sons.
P. – Durante o processo de criação sentiu-se mais como um pianista, um arquitecto de texturas ambientais, um fotógrafo de sons ou um “simples” escritor de canções?
R. – Gosto de uma dessas definições, “fotógrafo de sons”, é bastante apropriada para o que tentei encontrar. De facto, um dos títulos provisórios para o álbum era “Postcards” [“postais”], funcionando cada tema como um instantâneo de um determinado momento. Era isto que tinha em mente quando pus a hipótese de dedicar cada um dos temas a um amigo particular, como se lhe estivesse a enviar um postal. Tentei retratar lugares e estados de espírito… Sim, “fotógrafo de sons” parece-me bastante bem.
P. – de que maneira o lugar onde vive, Woodbridge, no Suffolk, o afectou na composição do álbum?
R. – Um dos aspectos notáveis de se viver num lugar que se conhece bem é a descoberta constante de coisas que antes passavam despercebidas, detalhes, o modo como a luz altera o aspecto de uma rua, adornos num tecto nos quais nunca se tinha reparado… Procuro sobrepor diferentes camadas que estimulem constantemente a curiosidade, de maneira a que cada tema pareça sempre diferente a cada nova audição.
P. – A praia de Dunwich também teve alguma importância no processo. É, aliás, a mesma praia que já inspirara o seu irmão a escrever “Dunwich beach, Autumn 1960”, um canção do álbum “On Land”. É um lugar com uma mística especial?
R. – Dunwich é uma povoação perdida na costa leste de Inglaterra, com uma atmosfera de desolação, constantemente assolada pelos elementos. Afecta-nos de uma maneira especial. Sussurra-nos sobre o efémero, de glórias passadas, de coisas vagamente recordadas… Notam-se constantemente mudanças. Marcas de terra que foram apagadas… Como se, estranhamente, nos encontrássemos num lugar diferente…
P. – “Swimming” evoca igualmente Paris e o Sena, no Outono, fazendo lembrar o interlúdio musical de “Diva”, do realizador francês Jean-Jacques Beineix. Os filmes constituem, para si, uma fonte de inspiração?
R. – Esse filme, “Diva”, serviu de inspiração a “Grey promenade”, uma peça do meu primeiro álbum “Voices”…
P. – E a pintura?
R. – É, sem dúvida, uma grande fonte de inspiração, bem como a poesia. Um dos métodos que uso para improvisar é colocar um quadro no suporte das partituras do piano, tentando retratar a sua atmosfera pictórica em termos musicais. É um processo que pode ajudar a romper padrões vulgares de interpretação. A partir destas improvisações, aproveito alguns bocados e construo com eles novas peças.
P. – Em que língua cantou “Amukidi” e “Hewendaway”?
R. – Estava a cantar para as minhas filhas adormecerem, sem querer construí uma “lullaby” [canção de embalar], tanto a melodia como palavras em sentido. Gravei-a e tornou-se “Hewendaway”. A seguir, o meu produtor quis ouvir como é que ficava ao contrário. Trocou a onda sonora no computador e foi assim que nasceu “Amukidi”. A ideia funcionou e, a partir dela, fiz um arranjo ligeiramente diferente.
P. – Quais são as suas referências literárias?
R. – Dos escritores, Italo Calvino e Grahame Swift são os meus favoritos, também Flann O’ Brien. Regra geral, leio antologias de poesia e aprecio demasiados poetas para os mencionar todos aqui, desde obras anglo-saxónicas de autores anónimos a muitos ainda vivos.
P. – Além do que já mencionou, de que é que necessita para criar uma atmosfera musical específica, no caso de “Swimming”, relacionada com a água e com o mar?
R. – No caso de “Swimming”, viajei ao longo da costa, durante uns quatro meses, para me embeber dos ambientes dos diversos locais. O processo funcionou, penso, pelo menos nalguns temas. Uma vez que apanhava a ideia do percurso que tencionava seguir, continuava na mesma direcção, recolhendo outras ideias pelo caminho. Como um limpador de praias…
P. – “Where the road leads to nowhere” tem uma história. Pode fazer um resumo para os leitores?
R. – Mesmo a norte de Dunwich, fica Covehithe, outra cidade “perdida”. Construíram lá uma estrada que deveria ligar-se a outra localidade mas que, de repente, termina abruptamente numa falésia, apontando para o céu, sobre a praia. É uma imagem que desencadeia uma reacção poética forte e que tinha de ser aproveitada.
P. – “The parting glass” é o lugar, na alma humana, onde o vinho se confunde com a água?
R. – É um dos meus temas favoritos, com palavras e melodia directos e emotivos mas, para falar verdade, não misturo água no meu vinho…

26/11/2008

Roger Eno - Swimming

Pop Rock

25 de Setembro de 1996
Poprock

Sonata de Outuno

ROGER ENO
Swimming (7)
All Saints, distri. MVM

O percurso musical do irmão mais novo de Brian Eno tem sofrido uma evolução curiosa de seguir. Primeiro foi a transposição do sublime niilismo “maçon” de Erik Satie para um contexto ambiental, em “Voices”, para nós, ainda o seu melhor álbum. Seguiu-se a música de câmara e o fascínio pelos brinquedos acústicos, em “Between tides”, para na colaboração com a antiga vocalista dos Dream Academy, Kate St. John, se fragilizar no bucolismo, muito “british”, de “The Familiar”. Regressou ao classicismo, mas agira condimentado pelo melaço pseudominimalista de instrutores como Michael Nyman e Wim Mertens, em “In a Room” e “Lost in Translation” e aí parecia querer ficar a dormitar até que neste seu novo trabalhou despertou de novo com o formato de “canção”, só que desta vez sendo ele próprio a encarregar-se das vocalizações. “Descobriu” igualmente as delícias da música tradicional de raiz céltica. A polca/valsa de abertura é uma leitura superficial da “folk”, na atitude e no modo idêntica à de Mike Oldflield nos primórdios de carreira (no seu novo álbum, “Voyager”, regressou em força ao celtismo, embora o resultado seja para esquecer), em temas como “The sailor’s hornpipe”. O golpe de rins vem a seguir, em duas canções que se diriam decalcadas do fundo de catálogo do irmão, “The whole wide world” e “the slow river”, onde mesmo os títulos parecem pertencer a álbuns como “Another Green World” e “Before and after Science”. “In water”, por sua vez, corresponde à fase “Apollo Atmospheres & Soundtracks” do irmão e “Amukidi” é um jogo coral de ressonâncias africanas “A capella”. No título-tema ressalta a costela satieana, num “nocturno” ondulatório embalado por um acordeão e um piano de flores, ideal para acompanhar devaneios nas margens do Sena. “Over the hills” lembra as baladas dos King Crimson, ainda com Peter Sinfield, o tradicional “The boatman” mistura a pianada romântica “à la” Wim Mertens, um vibrafone de água e canto gaélico e “Hewendawa” é Enya no masculino. O mistério, marítimo ou não, fica a pairar em “Aryis”, para nós o melhor tema do disco e aquele que poderia lançar Roger Eno nas fileiras da ECM. O Outuno começa aqui.

09/09/2008

Roger Eno & Kate St. John - The Familiar

Pop Rock

10 MARÇO 1993

Roger Eno & Kate St. John
The Familiar
CD All Saints, distri. MVM

Dos dois irmãos Eno, Roger é, sem dúvida, o sal de frutos da família. Enquanto Brian se vai entretendo a pintar quadros com sons, Roger prefere melodias que ajudam à digestão. Autor de uma estreia promissora, “Voices”, em que recuperou com credibilidade o minimalismo pianístico-maçon de Erik Satie, a sequência “Between Tides” mostra-o interessado pela música de câmara ligeira num álbum com o seu quê de enjoativo. Neste novo trabalho, Roger Eno debruça-se sobre a amizade e os bons sentimentos, o que só lhe fica bem, até porque a música, por seu lado, serve igualmente para levantar os ânimos que o “stress” deitou por terra. Não é “new age” porque de “new” não tem nada, mas como massagem é eficaz. Regressam ecos de Satie, envoltos por arranjos mais carnudos, acompanhados, desta feita, por incursões de salão no universo purcelliano de Michael Nyman. As peças declaradamente ambientais embalam sem fazer adormecer. Kate St.-John empresta a voz de mosquinha na sopa a quatro temas na linha de jardinagem musical de Virginia Astley e, no fim, os dois acendem pauzinhos de incenso e trocam beijinhos de felicitações. Gente fina é outra coisa. (6)