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12/04/2016

O Verão é... (em 50 discos)

Y 12|JULHO|2002
música|capa

o verão é...
em 50 discos

“summertime and the living is easy...”. E o Verão é… melancólico, preguiçoso; apetece a pândega e o surf. Queima. E a música? Diz-se que é para todas as estações. Mas pode ser como o Verão: melancólica, preguiçosa, tão veloz como uma prancha e tão ardente como o sol. Finalmente, como uma miragem, porque é no Verão que o Outono mostra os primeiros sinais. O Verão é... em 50 discos – e em todos os outros que está a ouvir

Nota: artigo coletivo em que FM assinava os seguintes textos:

THE B-52´S, 1979
The B-52´s

No pico da new wave, quando não havia tempo para o Verão, os B-52’s bombardearam a pop com os penteados “Empire State Building” e as micro-saias de duas cantoras com nome de boneca: Cindy e Kate. Isso e o facto de as canções serem desalmadamente pop, plastificadas e tresandarem àquele tipo de inconsciência adolescente que faz a imbecilidade parecer um sentimento épico bastaram para colorir as festas de Verão montadas nesse final de década em todas as garagens de todas as casas de todos os subúrbios.

ORANGES & LEMONS, 1989
XTC

Apelidaram-nos de excêntricos. Eles encolheram os ombros e meteram mãos à obra na edificação de um dos edifícios mais sólidos da pop. Andy Partridge é um daqueles cérebros com circunvalações a mais, um espírito barroco e um génio da melodia, capaz de nos prender a alma com o acorde perfeito. “Oranges & Lemons” não será um dos melhores do grupo, mas é o que a capa mais psicadélica, com laranjas e limões a fingir de sóis, bons para espremer no Verão. Citrinos funk, um naipe de metais lambuzados de limonada, gomos de arco-íris e aquele tipo de voz que vai perder o comboio que só os ingleses excêntricos têm. E tem “The loving” – garantia de um arrepio de prazer.

STAN GETZ & JOÃO GILBERTO, 1964
Stan Getz/João Gilberto

Quando proliferam cocktails estragados de eletrônica, música de dança e Brasil, sabe bem “the real thing”. “The girl from Ipanema”, “Desafinado” e “Corcovado”, os clássicos, luzem. Interpretados com a alegria magoada de alguém que se sente só mas sente prazer na solidão. “Ah, porque estou tão sozinho?/ Ah, porque tudo é tão triste?/ Ah, a beleza que existe.../ A beleza que não é só minha/ Que também passa sozinha...”. É isso a bossa-nova: a tristeza mais quente do mundo, melancolia do fim do Verão, sabendo-se que tudo recomeçará sempre de novo.

MEDDLE, 1971
Pink Floyd

Depois de a chuva Syd Barrett ter passado, a música dos Pink Floyd clareou. A frescura e a indolência estivais chegaram com “Meddle”. É tudo água neste disco, das longas gotas que pingam, ondulando no lago de uma alucinação, da “suite” “Echoes”, a canções lânguidas que tentam fazer crer que tomar banho na praia do LSD não requer a digestão feita nem boia salva-vidas. “A Pillow of winds”, “Seamus” e “San Tropez” (o ácido fez cair o “it”) são passeatas nas nuvens, um piquenique no Sol, a olhar muito devagar e muito longe cá para baixo...

PARIS MILONGA, 1981
Paolo Conte

Este Piemontês de 65 anos é um génio. O crooner de um filme de Fellini, com o canto grave de Tom Waits, o talento de arranjador de uma Carla Bley, a pose “cool” de um Bryan Ferry e o humor de um faz-tudo à deriva num novelo de “spaghetti” sentimental. Tangos, variedades de faca e alguidar, as piscinas mal esvaziadas de Inverno, praias de Cinzano, o champanhe entornado na ressaca. Conte canta tudo. “Paris Milonga” é o Verão que imaginamos quando caminhamos ébrios ao longo da marginal.


calor é com eles

Barry Adamson na câmara escura, Perry Blake na Califórnia, Springsteen na América rural, Sakamoto em idílio brasileiro. O Verão vai ser com eles.

Nota: texto assinado por F.M., R.M.P. e V.C.

Está cada vez mais pequeno, o mundo. Músicas e culturas, tecnologia e pessoas, símbolos e modas, tudo se cruza e imiscui na auto-estrada da informação, em viagens mais e mais rápidas. Baile de máscaras, orgia ou reunião de trabalho, a verdade é que as diferenças se esbatem neste convívio por vezes forçado.
            Não será o caso do japonês Ryuichi Sakamoto, turista da arte há muito habituado a viajar em primeira classe, com bilhete de ida e volta, no Expresso-Oriente. O seu próximo álbum, a editar a 12 de Agosto (Sony), recria a música do brasileiro Antonio Carlos Jobim (em quem, mais do que o compositor de bossa-nova, Sakamoto viu um parente espiritual dos impressionistas franceses, como Debussy e Chopin) em colaboração com Jacques e Paula Morelenbaum.
            Mas o que poderia passar por mais um disco de versões é algo mais profundo. “Casa”, como o nome indica, foi gravado na casa de Tom Jobim, no Rio, tendo o japonês tocado no próprio piano, “ainda manchado de whisky e queimado por pontas de cigarro”, do brasileiro. As janelas estiveram abertas durante as gravações, deixando entrar o som das ondas e o bruá da cidade. Talvez mesmo algo mais, admite, referindo-se ao pássaro que entrou e pousou no tampo do piano, a meio de uma canção, para entoar a sua melodia. “Foi Tom Jobim que entrou ali, encarnando na ave, a exprimir o seu prazer, cantando uma vez mais a sua música”.
            Se Sakamoto e a ave-Jobim são música branca, o novo trabalho de Barry Adamson, “The King of Nothing Hill” (2 de Setembro, Zona Música), é, como é hábito, um filme negro imaginário, como crimes, charadas e diabolismos vários, no que o autor define como um disco sobre as “ilusões do poder”, se não mesmo sobre a vida enquanto suprema ilusão. Não por acaso, o antigo teclista dos Magazine e dos Bad Seeds de Nick Cave, já compôs para David Lynch. “The King of Nothing Hill” abre com funk e termina com pop. Pelo meio, o recheio é o mais interessante, como o próprio admite – um ambientalismo escuro, feito de conotações indecifráveis e máquinas devoradoras de cabeças. Verão na câmara escura, com papões.
            E se um jardim irlandês se transformasse no Verão californiano? “Got to get out of this place tonight”, começa por cantar Perry Blake (“This Life”), e a seguir já está numa canção chamada “California”, onde não pode deixar de assinalar que está em terra de Beach Boys e onde confessa que “a new life is what we need (...) maybe go to California, where it‘s warm”. O jardim do irlandês fez-se “road to Hollywood”, a soul refresca um universo que já chegara à saturação, a voz dá-se ares de Marvin Gaye, os horizontes alargam-se. Mantém-se a melancolia, a estrutura repetitiva... Provavelmente Blake nem se mexeu muito: “California”, o álbum (Universal, Agosto/Setembro) é uma daquelas viagens em que não chega a sair do mesmo sítio; em que o movimento é apenas ilusão.
            Se Perry Blake nos leva até uma imaginária Califórnia, Bruce Springsteen transporta-nos até à América rural. Regressa com “The Rising” (Sony, 29 Julho), o primeiro disco gravado com a E Street Band desde 1984. Da ruralidade, para uma imensidão de paisagens da América: o terceiro disco dos Queens Of The Stone Age, “Aongs for the Deaf” (Universal, 26 de Agosto), é um meio termo entre o saturado álbum de estreia e “Rated R”, o espantoso segundo disco; dos Sparta e dos Mudhoney haverá, respetivamente, “Wiretap Scars” (Universal, Agosto) e “When we were translucent” (Música Alternativa, Agosto).
            Depois do murro no estômago que foi “Xtrmntr” (“Exterminator”), o grupo de desestabilizadores liderados por Bobby Gillespie voltará a assaltar quem escutar “Evil Heat”. É o sétimo álbum dos Primal Scream (Sony Music, 5 de Agosto). Antes dele, a 22 de Julho, sai o novo dos Public Enemy, “Revolverlution”. Segue a linha dos anteriores trabalhos de Chuck D, Flavor Flav e Professor Griff: política e “scratching”.
            Mas, se existe projeto conotado com a leveza do Verão é o dos norte-americanos Thievery Corporation. Vão regressar em época de calor: “The Richest Man In The Babylon” (Setembro, pela Última). Quem também vai estar de volta em Setembro é o músico e produtor de Filadélfia King Britt. O projeto que lidera chama-se King Kooba e o nome do álbum diz tudo: “Indian Summer” (Ananana).
            De todos os nomes da inglesa Ninja Tune, poucos têm o sentido de humor e a “joi de vivre” de Mr. Scruff. Se quer ficar bem disposto no Verão aponte na agenda: 9 de Setembro. É nesse dia que sai “Trouser Jazz” (Ananana). Para um Verão mais preguiçoso convém ouvir o hip-hop de DJ Vadim – o disco dai a 23 de Setembro, pela Ananana.
            Outro trabalho a ter em consideração: os Steroid Maximus, um dos vários projetos de J.G. Thirwell (Foetus, Clint Ruin, Wiseblood). Em “Ectopia” ele dá largas a sua veia de compositor imaginário de bandas sonoras de filmes negros, num registo próximo do de Barry Adamson – um pouco menos glamoroso.

09/05/2011

Ryuichi Sakamoto - Cinemage + BTTB

14 de Janeiro 2000
POP ROCK

Ryuichi Sakamoto
Cinemage (5/10)
BTTB (6/10)
Sony Classical, distri. Sony Music


Ryuichi Sakamoto é um dos mais destacados representantes, digamos mesmo o seu imperador oriental, da chamada “estética B.A” (predominância do estilo e do “look”, inclui artistas como The Divine Comedy, Jay Jay Johanssen, Michael Nyman, Belle Chase Hotel, etc). Cidadão do mundo, sabidão dos sons, o japonês ex-Yellow Magic Orchestra e oficial do exército japonês no filme de Oshima, sabe servir-se como ninguém do seu inegável bom gosto e da sua atitude pós-moderna para se passear com diletantismo por todas as músicas que o Ocidente e o Oriente afogaram na panela da globalização. “Cinemage” parte de uma ideia original: um álbum de versões. De coisas cinematográficas como “The last emperor” e “Little Buddha” a “Wuthering heights”, com participações de DJ Spooky, David Torn e David Sylvian (outro dos reis da estética B.A., aliás…). “Cinemage” é um álbum clássico, orquestral e elegante como o seu autor, derramando estilo por todos os lados. Tem a beleza morta de uma estátua funerária. É chato, pronto. “BTTB” ouve-se melhor, até porque permite baixar o volume sem causar danos de maior na arte do japonês. É um álbum de piano solo no qual Sakamoto demonstra o seu conhecimento e as suas inclinações, há muito assumidas, para a escola pianística impressionista francesa da transição do século XIX para o XX, de Satie, Debussy e Fauré, entre outros. Bonita música, música agradável que logo no tema de abertura evoca o intimismo de um Shegundo Galarza sozinho no “hall” do hotel. Ideal para usufruir numa noite romântica em boa companhia. Com “spot” publicitário e tudo.

20/11/2010

Ryuichi Sakamoto - Love Is The Devil

Sons

19 de Fevereiro 1999
DISCOS – POP ROCK

Ryuichi Sakamoto
Love is the Devil (7)
Asphodel, distri. EMI-VC

“Love is the Devil" é um filme de John Maybury (colaborador de Derek Jarman em filmes como “Jubilee” e “The Last of England”) sobre a vida do pintor inglês Francis Bacon, realizado no ano passado e ainda não estreado em Portugal. Ryuichi Sakamoto compôs a banda sonora deste filme que retrata a agitação da “swinging London” dos anos 60 e onde se juntam o erotismo, a poesia e a decadência. Ao contrário de alguma produção recente do músico japonês, mais voltada para o “mainstream”, este seu novo trabalho reflecte a sua faceta mais esotérica e impressionista, numa sucessão de quadros gelados exclusivamente pintados com electrónica e ocasionais traços de piano sepulcral. A julgar pelos títulos das faixas, a vida do pintor ter-se-á desenrolado num círculo restrito de lugares: o museu, a casa de banho, o atelier e a cama. Provavelmente na casa de banho de um museu ou na cama do atelier. Por isso mesmo, a música é fechada, escura, evoluindo numa sucessão de curtos “sketches” com um ambiente de claustrofobia e erotismo doentio, no qual se poderá detectar a sintomatologia terminal da música do autor (e actor) da banda sonora de “Merry Christmas Mr. Lawrence”. São quartos vazios onde apenas se escutam ecos e reflexos distorcidos do mundo exterior, pulsações de carne fria, emoções e movimentos despojados de ternura, nada mais senão um esteticismo sem esperança, variante “soft” dos Coil, aos quais Sakamoto confere a acutilância de um bisturi. Terá sido esta atmosfera sufocante (mas nunca saturada) o motivo que levou à edição de “Love is the Devil” na Asphodel, uma editora vocacionada para o “illbient”. Depois de os Roxy Music terem dito que o amor é uma droga, o final do século pretende que o amor seja o demónio. Tempos de inversão...

15/07/2009

O pomo da discórdia [Ryuichi Sakamoto]

Sons

23 de Janeiro 1998

Ryuichi Sakamoto grava peça sinfónica

O pomo da discórdia

Ryuichi Sakamoto mudou de visual. Deixou crescer a barba e de ser louro, e trocou o ar “chic” da sua última visita a Portugal por uns ténis coçados e um novo álbum debaixo do braço, “Discord”, que irá tocar no nosso país por ocasião da Expo. Entretanto, voltou a estar por cá, para explicar um sonho que teve, sobre a fome em África. À pergunta “o que é que podemos fazer?”, e apesar de ter chamado a um dos seus espectáculos “F”, não respondeu da mesma forma que Abrunhosa. Compôs uma sinfonia.

Depois das versões para piano de câmara de “1996” e dos divertimentos pop de “Smoochy”, Ryuichi Sakamoto atirou-se à escrita de uma grande peça sinfónica em quatro andamentos sobre o tema da salvação. Ou a impossibilidade dela.
Para este japonês diletante – que nos anos 80, com os Yellow Magic Orchestra, fez sombra aos Kraftwerk como o grupo mais tecnopop do planeta, e nos anos 90 se tem dedicado, sobretudo, a representar e a compor para muitos filmes –, chegou a altura de se preocupar com os grandes problemas que afligem a humanidade. Notícias sobre a fome em África fizeram-no ter pesadelos. Daí que tenha sentido um impulso que o levou a escrever sobre a necessidade de salvação.
“Discord”, o álbum sinfónico resultante, traduz-se numa longa peça intitulada, paradoxalmente, “Untitled 01”, dividida em quatro andamentos. No último, podem ouvir-se mensagens gravadas e reproduzidas em simultâneo com as vozes de Patti Smith, Laurie Anderson, Bernardo Bertolucci, David Byrne, David Torn e DJ Spooky, entre outros. A todos eles Sakamoto perguntou: “O que é que a salvação representa para si?”
Para ele representou um disco cheio e melancólico, onde a inocência da magia amarela (como, antes, a do submarino amarelo) deixaram de ser possíveis. Deram lugar a uma tragédia. Imensamente elegante, como não podia deixar de ser.
PÚBLICO – É mesmo verdade que o ponto de partida para a composição de “Discord” foi um sonho?
RYUICHI SAKAMOTO – A ideia inicial, surgida durante a minha digressão de Janeiro do ano passado, genericamente designada por “F”, foi a de fazer orquestrações para as versões contidas em “1996”. Mas acabei por desistir. Tocámos essas canções tantas vezes que acabei por me fartar delas. Fiquei sem saber o que fazer.
Foi então que tive esse sonho, uma noite, que me disse para esquecer essas tais orquestrações, deixar para trás o passado e a escrever uma peça de música completamente nova. Uma peça sinfónica. Foi o que fiz. Corri para o meu estúdio e comecei ma escrever. A orquestra já tinha ido alugada. Tinha mesmo que escrever uma sinfonia. Tive um mês para o fazer. O álbum foi gravado com a orquestra, num concerto ao vivo.
P. – Foi esse sonho que lhe indicou a temática do álbum?
R. – Se tivesse um ano inteiro para pensar no assunto, talvez tivesse sido diferente. Mas só tinha um mês. Era preciso arranjar uma motivação. Como que procurei nos arquivos da minha memória algo que fosse emotivamente forte. Acabei por me centrar no sentimento provocado pela leitura de várias notícias sobre o problema da fome em África. Nas minhas reacções a esse problema.
P. – “Discord” pode ser encarado, de alguma forma, como um manifesto?
R. – A base sobre a qual o fiz foi a sensação provocada pela pergunta: “Há alguma coisa que eu possa fazer para salvar estas pessoas?”
P. – A música pode fazer alguma coisa?
R. – Não, a música não pode fazer nada. O que a música pode fazer é tornar-se numa reacção à realidade, fazer, talvez, as pessoas tomarem consciência dela, ao mundo em que vivem. E, em consequência, levá-las, por seu lado, a reagir. A música pode ainda ajudar-nos a partilhar os nossos problemas.
P. – E para a pergunta “o que é que a salvação representa para si?”, tem alguma resposta?
R. – Não tenho uma resposta. Não é importante eu dar uma resposta. O importante é cada um tentar responder a uma pergunta que não é simples. Em concreto, o problema passa pela compreensão, nos dias de hoje, da política, com a economia, a indústria e a história. Tudo está comprimido numa única realidade.
P. – “Discord” é um disco religioso?
R. – Talvez espiritual seja o termo mais indicado. Embora não seja praticante de qualquer religião, sou bastante sensível aos problemas colocados por elas. Pensei que as pessoas poderiam ter uma quantidade de opiniões diferentes sobre o problema da salvação. Por isso, fiz a pergunta a uma série delas.
P. – Não deixa de ser curiosa a sua evolução: de uma música materialista e robotizada, como era a dos Yellow Magic Orchestra, para as actuais preocupações humanistas...
R. – Não sigo um caminho linear, ando aos saltos daqui para ali, sou um indivíduo frenético. Provavelmente, serei hoje uma pessoa muito diferente da que era nos anos 80. Embora continue a trabalhar com as máquinas, com sequenciadores, “samplers” e computadores. Mas talvez seja necessário recuar às razões que me levaram, desta vez, a compor para uma orquestra. A tal ideia de orquestrar as versões de “1996” partia do pressuposto de utilizar a tecnologia mais sofisticada para captar o elemento mais analógico de todos: o ser humano. O meu próprio corpo estava ligado a um computador que transformava os movimentos em impulsos sonoros e visuais.
No concerto que farei, com base em “Discord”, no próximo dia 11 de Fevereiro, no World Financial Centre’s Winter Garden, em Nova Iorque [N. R. – com a colaboração de DJ Spooky, The Electra String Quartet, o guitarrista David Torn e o violinista Everton Nelson], a tecnologia terá um papel determinante, mas não propriamente musical. Será transmitido em directo pela Internet e as pessoas poderão em casa “aplaudir electronicamente”, transmitindo informação para um ecrã colocado em frente aos músicos da orquestra.
Tornou-se habitual, nos últimos tempos, fazer este tipo de transmissões “cybercast”, em vez do conceito tradicional de “broadcast”. Mesmo em Dezembro do ano passado, em Tóquio, quando toquei absolutamente sozinho, estava rodeado por um enorme aparato tecnológico.
P. – O “man machine” profetizado pelos Kraftwerk?
R. – Sim “the man machine”, uma relação entre o homem e a máquina. Cada vez mais intensa e mais rápida.
P. – Continua a acompanhar as evoluções tecnológicas na área da música?
R. – Sim, mas a maneira como esta tecnologia é usada varia muito, um engenheiro e um músico usarão a mesma máquina de maneiras muito diferentes. O que é útil para um não o é para outro. Há desenvolvimentos tecnológicos que só começarão a ser plenamente aproveitados daqui a um, dois anos. Outros, provavelmente, não terão qualquer utilidade. Trata-se no fundo de uma maneira de expandir a nossa liberdade e criatividade. Como poder trabalhar a partir de músicas antigas ou tradicionais. Os músicos estão sempre “esfomeados”.
P. – Coexistem em si um Ryuichi Sakamoto “tradicional” e outro mais virado para o futuro?
R. – Não tenciono alargar a distância entre esses dois “extremos”, mas continuarei a explorá-los. O mundo não é tão simples como isso – uma simples divisão entre o “velho” e o “novo”. É mais uma coisa tridimensional. É esta tridimensionalidade que tento desenvolver, através da imaginação.
P. – Entre as pessoas que contactou para recolher as respectivas vozes, no último movimento de “Untitled 01”, “Salvation”, o nome de Patti Smith parece um pouco deslocado, entre gente como Laurie Anderson ou DJ Spooky...
R. – Na maior parte das pessoas contactadas, mandei-lhes a pergunta e eles enviaram-me a gravação com a resposta, numa cassete DAT. No caso de Patti Smith, foi diferente. Cruzei-me com ela por acaso na plataforma da estação de comboios de Tóquio, ela estava a fazer na altura, uma digressão pelo Japão. DJ Spooky conhecia-a e foi ele que ma apresentou. Mas a gravação foi obtida por acaso. Tinha comigo um computador portátil e pus o microfone à frente dela.
P. – A propósito de DJ Spooky, continua a interessar-se pela música de dança?
R. – Costumava ouvir muito “hip-hop”, mas agora interesso-me mais pelo “drum’n’bass”. Na verdade, em paralelo com “Discord”, vai ser editado um álbum de remisturas do segundo movimento de “Untitled 01”, “Anger”, na editora Ninja, por vários DJ, que aproveitaram algumas partes retiradas desta peça. Não é bem “drum’n’bass”, é difícil de definir... Mas adoro ouvir todas as remisturas. Mostram-me uma nova direcção: a possibilidade de misturar “breakbeats” com elementos de música clássica.

11/12/2008

Ryuichi Sakamoto - Smoochy

Pop Rock

12 Fevereiro 1997
poprock

Ryuichi Sakamoto
Smoochy
MILAN, DISTRI. BMG

Como David Bowie ou Peter Gabriel, Ryuichi Sakamoto evoluiu de criador de uma música original que influenciou algumas correntes musicais deste século para o cidadão do mundo, atarefado na promoção de um estilo e imagem de marca. A música que qualquer destes autores faz hoje, sendo, por norma, no mínimo, interessante, é, quase sempre, irrelevante. No caso de Ryuichi Sakamoto, que ainda no final dos anos 70 extrapolou o mecanicismo dos Kraftwerk para um contexto simultaneamente anacrónico e futurista, cirando a música de baile perfeita para robôs apaixonados, aquilo que faz hoje é conservar-se a par das últimas tendências da moda, mantendo, embora, em relação a estas, a elegância e uma certa distanciação. Apaixonado pela música brasileira, essa influência é evidente apenas enquanto componente subjectiva de um discurso que aparece demasiadamente aprisionado às estruturas rítmicas do trip-hop, as quais, curiosamente, poderiam ser invocadas no trabalho pioneiro dos YMO. Mas Sakamoto tanto é um adepto das aplicações da cibernética aos ritmos de dança, como um apaixonado pelos compositores impressionistas do início do século e é essa síntese entre a nostalgia e a vontade de inovação que fica por resolver em “Smoochy”. Se temas como “Bring them home” e “Manatsu no yo ana” vêm na linha classicista do que Sakamoto já propusera no anterior “1996” e “Aoneko no torso” cede ao velho fascínio por Satie, a maioria dos restantes hesita na direcção para onde seguir, perdidos entre um psicadelismo passadista e crepuscular “made in Rio” e o sonambulismo de canções que ora se refugiam no legado dos YMO, como “Poesia”, ora se afogam num movimento, o trip-hop, que o japonês jamais consegue ultrapassar. (6)

09/12/2008

"Um beijo no Rio" [Ryuichi Sakamoto]

Pop Rock

29 JANEIRO 1997

Brasil “sensual” de Ryuichi Sakamoto

“UM BEIJO NO RIO”

“Sensual” é o termo que Ryuichi Sakamoto utiliza para descrever o seu último álbum, “Smoochy”. As influências vão de Visconti e Godard a Miles Davis, mas a principal, como no caso de Arto Lindsay, é a música brasileira. O Rio de Janeiro, em versão “trip-hop” de um japonês “agarrado” à tecnologia, mas que receia ser subjugado pelo excesso de informação da Internet.

“Smoochy” é o título do novo álbum do japonês Ryuichi Sakamoto. Influenciado pela música brasileira, prolonga uma tendência já demonstrada anteriormente, quando o antigo elemento dos Yellow Magic Orchestra sugeriu a Arto Lindsay que gravasse um álbum igualmente inspirado nos sons do Brasil. Arto concordou e o resultado foi “O Corpo Sutil” – já recenseado nas páginas deste suplemento –, sobre o qual o americano tece os comentários que podem ser lidos na página mesmo ao lado. Sakamoto produziu ainda a faixa “É preciso perdoar”, com Caetano Veloso e Cesária Évora, para a recente colectânea, “Red, Hot and Rio”.
“Smoochy”, do calão inglês “smooch” (“beijar”), é, nas palavras da editora, um álbum “sensual”, um título bastante apropriado, já que o disco, segundo o seu autor, “foi fortemente influenciada pela música brasileira, cujas melodias tendem para a sensualidade”. O alinhamento compreende 13 temas, nos quais colaboram com o japonês os brasileiros Jaques Morelenbaum, no violoncelo, e Everton Nelson, no violino, que já tinham tocado no álbum do ano passado, “1996”. Amadeo Pace, Arto Lindsay, Yoshiyuki Sahashi, Alexander Sipiagin, Miki Nakatani, Toshikori Mori, Vinicius Cantuária (outro brasileiro, presente em “O Corpo Sutil”), Lawrence Feldman, Vagabond Suzuki, Gil Goldstein e Hiroshi Takano são os restantes músicos convidados de “Smoochy”. O último tema, “Tango”, conta ainda com a participação de Soraya, cantora argentina na berra que preenche regularmente o pequeno ecrã no canal de música mexicano HTV.
Num exclusivo para o PÚBLICO, Ryuichi Sakamoto comentou cada um dos temas de “Smoochy”, explicando previamente as motivações gerais que levaram à sua feitura: “Comecei a escrever as canções para ‘Smoochy’ em Maio de 1995. Afadiguei-me como nunca para compor este álbum. Iniciei o projecto colocando a mim próprio algumas questões que nunca conseguira resolver desde que sou músico: ‘O que é que eu desejo realmente fazer?’, ‘o que é que procuro exprimir quando toco piano?’, ‘por que sinto vontade de escrever novas canções?’, ‘que prazer é que tudo isto me dá?’” Questões pertinentes, sem dúvida, as quais levam a que toda a gente retenha a respiração, na angústia que precede as grandes revelações.
Bom, Sakamoto alivia um pouco a tensão na explicação que dá a seguir: “Após todas estas interrogações pessoais, decidi levar em frente a ideia que já desenvolvera no meu álbum precedente, ‘Sweet Revenge’, isto é, sublinhar a melodia, tendo, desta vez, decidido explorar um pouco mais este potencial. Para isso, tive necessidade de escutar com mais atenção a voz do meu coração…”
Depois, uma espécie de confissão: “Mas, à medida que fazia este álbum, fiquei apanhado pela Internet. Esta interferiu, na medida em que a Internet é um vasto gerador de informação ilimitada. A minha criatividade sentiu-se ameaçada, porque compor é, essencialmente, criar nova informação. Absorver demasiada informação pode constituir um obstáculo para o artista, cuja tarefa é produzir algo de novo. Esta tarefa apela a uma ausência de informação. E a Internet é a antítese disso.”
Faixa a faixa, e apesar da tentação da Internet, o coração de Ryuichi Sakamoto decidiu o seguinte:

“Bibo no aosora”
“Inspirado pelo filme ‘Morte em Veneza’, de Visconti, é uma história acerca da morte, o mar e o céu azul, observados através de óculos com lentes infravermelhas. Mas as principais personagens são femininas, o que difere um pouco da história de Visconti.”

“Aishiteru, aishitenai”
“Põe em destaque a voz de Miki Nakatani, uma actriz japonesa. Após uma entrevista com ela de três horas, colei a sua voz à música. Este processo inspirou-se no processo de montagem utilizado por Jean-Luc Godard nos seus filmes dos anos 60.”

“Bring them home”
“Um ‘requiem’ pelos mortos que invoca uma sensação de profundo desespero. Inspirou-se numa canção muito triste intitulada ‘Five millions dead’.”

“Aoneko no torso”
“Para mim, é uma canção sobre uma sensualidade que não é quente, mas fria.”

“Tango”
“É a história de um homem que foge para a Argentina, depois de ter abandonado a sua terra natal e a sua amante.”

“Insensatez”
“Uma colagem de sons que gravei no Rio de Janeiro. Esta peça também sofreu a influência da obra de Miles Davis nos anos 70.”

“Poesia”
“Os tópicos centrais são o mar, os trópicos, assobiar e o estado de espírito de se estar optimista.”

“Dennogiwa”
“Um conto dos anos 90 sobre o ‘interface’ da ecologia com as redes informáticas.”

“Hemisphere”
“A minha perspectiva sobre uma canção ‘Samba numa nota só’ – a história de um homem que bebe rum todo o dia, sob um sol abrasador, de que se desprende uma sensação de resignação e remorso.”

“Manatsu no yo no ana”
“A primeira canção que escrevi para o álbum. O final é uma interpretação do ar calmo, mas sufocante de Times Square, à meia-noite, que traz à minha cabeça imagens da noite, da lua, da cidade e penumbras azuladas.”

“Rio”
“Outra colagem de sons que gravei no Rio, do mar e miúdos num aeroporto. A melodia principal surgiu, no entanto, quando passeava nas ruas de Nova Iorque de madrugada.”

“A day in the park”
“Desenvolveu-se a partir de uma frase de guitarra de um canção que escrevi para as Geisha Girls, chamada ‘Shonen’. Foi inspirada em manhãs luminosas, em crianças a brincarem no parque, nas suas mães, nos pensamentos dos pais ao compreenderem que os seus filhos um dia os abandonarão. As vozes deste tema pertencem a Vivian Sessoms.”

“Tango (version castellano)”
“Nesta versão, a vocalização é de Soraya.”

26/11/2008

Ryuichi Sakamoto - 1996

Pop Rock

12 de Junho de 1996

Ryuichi Sakamoto
1996
MILAN, DISTRI. BMG

1996 não está para brincadeiras. Falta pouco para o final do milénio e os compositores andam ansiosos para mostrar aquilo que valem. “Aquilo que valem” quer dizer o abandono da música popular e a criação de obras, perdão “opus” eruditos, que exigem piano de cauda, cordas e a encomenda de uma peça para o Kronos Quartet. O antigo teclista dos Yellow Magic Orchestra achou que esta era a altura ideal para se libertar do fardo de antigas companhias como Iggy Pop, David Sylvian ou Youssou N’Dour, já para não falar nos pecados “proto-“techno” dos Yellow Magic Orchestra. Ao contrário do seu antigo companheiro, Haruomi Hosomo, que evoluiu da electrónica “hard” dos YMO para uma leitura subtil da “pop” pancultural, em “Omni Sight Seeing”, e da “house” ambiental, em “Quiet Meditations from the Quiet Lodge”, Sakamoto enveredou pela via espartana. Em “1996”, o japonês toca piano, só toca piano, fazendo-se acompanhar pelo violoncelo da Jaques Morenlenbaum e o violino de Everton Nelson, na recriação de alguns temas antigos que abrangem vários trechos de bandas sonoras, como “The Last Emperor”, “Merry Christmas Mr. Lawrence” e “The Sheltering Sky”. Mas tanto estes como os originais soam anémicos e académicos, longe dos melhores tempos de mr. Sakamoto. O álbum, na sua edição europeia com 15 temas (a japonesa tem 16 e a norte-americana, 12) sairá por cá, a 24 deste mês. (4)

03/11/2008

Ryuichi Sakamoto - Wild Palms

Pop Rock

14 JULHO 1993
NOVOS LANÇAMENTOS POPROCK

Ryuichi Sakamoto
Wild Palms
CD Capitol, distri. EMI-VC

É um problema, isto das bandas sonoras. Faltam as imagens e, pronto, quase sempre a música não funciona, ficando nua e desamparada, sem bonecos a que se agarrar. Há excepções, claro, mas não é o caso destas palmeiras musicadas pelo ex-Yellow Magic Orchestra, para a série do mesmo nome realizada por Oliver Stone para a cadeia americana ABC. São 13 temas à deriva no vazio, em busca de quem os guie, entre a new-age preguiçosa, o neoclassicismo, da escola Nyman, Mertens e quejandos, e a “techno” a metro, com uma perninha do inevitável “sample” de vozes étnicas a fingir de diferente. Uma receita mil vezes repetida a que Sakamoto não conseguiu dar a volta ao texto, isto é, às imagens. A desforra surge no final, com a repescagem de cinco velhos temas dos anos 60 e 70: “She’s not there”, dos Zombies, “I need your lovin’”, de Don Gardner e Dee Dee Ford, o clássico “Can’t take my eyes off you”, de Franki Valli, “Lightnin’ strikes”, de Lou Christie, e o instrumental clássico-“kitsch” “Classical gas”, de Mason Williams. Vitória do “velho” sobre o “novo”. (4)