Viajar
para Saturno torna-se fácil, ouvindo a música dos Saturnia. Após um promissor
álbum de estreia, Luís Simões e Francisco Rebelo refi naram o alcance destas “trips”
que mergulham o espírito num oceano de sinestesias. Ainda que em “Kozmische
(parts 1 and 2)”, a batida se esgote no psicadelismo de pacotilha dos Ozric
Tentacles, desprende-se do álbum uma energia genuinamente indutora de estados alterados
que vão da euforia de danças dervíxicas ao intimismo de secretas alucinações.
“Hydrophonic Gardening” transporta ecos dos Pink Floyd, Klaus Schulze e Steve
Hillage, mas fi ltrados por uma visão capaz de transmutar estas influências
numa música personalizada. “Sunflower” lembra o misticismo dos Yatha Sidhra.
“Lava” fará as delícias dos viciados na “new age” da Hearts of Space, bem como
“Planetarium”, ideal para assistir à chegada de um ovni, como “The Way Home”, de Kevin Braheny. “Vimana” e “Omnia”, os mais tripantes frutos
cósmicos desta jardinagem hidrofónica, disparam ao espaço, acolhendo Syd
Barrett e as ondas aquáticas de “Meddle”. “Regulem os comandos para o coração
do sol” volta a ser a palavra de ordem. Os Saturnia levam-nos lá.
Guitarras e sintetizadores planam
entre galáxias e neurónios.
Em Portugal, os astrorockers
habitam em Saturnia.
pedras no
espaço
Quando o cérebro incha, a música
pede uma casa maior. Foi isso que aconteceu nos anos 60 e 70, quando o
psicadelismo, alimentado a quantidades mais do que razoáveis de LSD, obrigou a
tirar novas medidas ao espaço e ao tempo. Kubrick realizou “2001 – Odisseia no
Espaço”, a mesma “space oddity” que fez com que David Bowie se perdesse no
vácuo… Além de Bowie, muitos músicos embarcaram no filme. “Space is the place”
apregoava o jazzman alienígena Sun Ra, líder de uma Astro Intergalactic
Infinity Arkestra e navegador anarca, a bordo do sintetizador Moog, dos espaços
mais obscuros da música improvisada. Ainda no jazz, John Coltrane alimentou a
sua alma de estrelas e cometas. Ele próprio o sol de um sistema solitário. O
rock nem sequer precisou de bilhete – teve sempre a cabeça fora do lugar.
O
ácido lisérgico faz com que tudo se passe mais devagar e com cor. As faixas dos
LPs esticaram de duração. As emanações eletrónicas dos sintetizadores Moog,
A.R.P., VCS3 ou SEM, naves espaciais para a mente, a par do arsenal de
distorções proporcionados pela guitarra elétrica, como foram revelados ao mundo
por Jimi Hendrix, contribuíram para fazer vibrar os neurónios dos músicos das
décadas do psicadelismo e do rock progressivo, em frequências desfasadas da pop
e do rock mais convencional.
O
“space rock”, firmamento sónico suficientemente vasto para albergar fantasiosas
viagens, explodiu como uma supernova. Em Londres, em clubes como o U.F.O., onde
os Pink Floyd e os Soft Machine alucinavam graças à droga, à loucura de rapazes
digamos que fora do normal, como Syd Barrett e Daevid Allen, e a shows de luzes
que iluminavam as paredes e as cabeças de arco-íris. Por essa altura já a
guitarra em chamas de Hendrix voava em direção aos locais mais escuros do
firmamento, até se volatilizar num buraco negro.
Na
costa Oeste dos EUA, onde a trip avançou com maior rapidez, tornada movimento
sociocultural nos “love ins” ou nas desvairadas sessões de “acid rock” levadas
a cabo em São Francisco com a presença de bandas como os Grateful Dead e
Jefferson Airplane, e a tutela do papa do LSD, Timothy Leary. O espaço
tornara-se “o lugar”. Um lugar que, na Alemanha, se estenderia até mais longe.
Foi um ditador iluminado, Rolf-Ulrich Kaiser, patrão da editora Ohr (“ouvido”),
o impulsionador da viagem.
Rolf-Ulrich
Kaiser, a quem Julian Cope (na foto) – ex-Teardrop Explodes, “acid head”, um
dos genuínos psicadélicos do milénio, autor de uma obra incendiária de rock e
visionarismo – chama simplesmente “Kaiser”, no seu livro sobre krautrock,
“Krautrocksampler”, criou os conceitos da “kosmische musik” (“música cósmica”)
e “kozmisch couriers” (“carteiros cósmicos”). A Ohr foi uma janela aberta por
onde passaram, quais Peter Pans empanturrados de ácido, espaçonautas como Klaus
Schulze, Ash Ra Tempel, Mythos, Agitation Free, Annexus Quam e Wallenstein.
Destes, os Ash Ra Tempel e os Wallenstein foram os que conseguiram manter a
cabeça ao mesmo tempo no rock e no espaço.
carteiros
cósmicos. Os Ash Ra Tempel eram o templo. Manuel Göttsching e Klaus
Schulze, os sacerdotes. Como o LSD fornecido pelo “kaiser”, partiram para uma
“trip” que Cope, no seu livro, considera “assustadora”. Os Ash Ra Tempel
colaram os fundamentos do rock e os blues à eletrónica mais “out”, em
intermináveis improvisações que, na versão completa, o patrão da Ohr editou em
quatro álbuns assinados pelo coletivo The Cosmic Jokers. Enquanto Ash Ra
Tempel, o grupo lançou cinco álbuns em que a “desbunda cósmica” adquiriu
contornos de loucura (o baixista, Hartmut Enke, viria a ficar preso no “lado de
lá”…): “Ash Ra Tempel”, “Schwingungen”, “Seven-up” (com Timothy Leary, “the
acid priest”), “Join inn” e “Starring Rosi”. Não se explica a dimensão desta
trip por palavras.
Ainda
mais alto, Kaiser e os Ash Ra Tempel subiram aos Alpes para gravar com o poeta
suíço Sergius Golowin “Lord Krishna von Goloka”. Outro álbum mítico, “Tarot”,
conta com a presença do mago cigano Walter Wegmuller que desenhou um baralho
inteiro de cartas Tarot para acompanhar o disco.
Sobreviveram
ao cataclismo os que conseguiram sobrepor as suas qualidades de músicos à
ousadia das explorações lisérgicas: Manuel Göttsching, o guitarrista mais
planante do mundo, Klaus Schulze, um dos pioneiros da eletrónica cósmica, autor
de uma vastíssima discografia onde longuíssimas paisagens de sintetizador se
fundem com o romantismo de Wagner, e Harald Grosskopf, baterista dos
Wallenstein, a segunda banda mais importante do “space rock”. Em França,
Richard Pinhas, com os Heldon, e Cyrille Verdeaux, com os Clearlight,
destacaram-se de uma plêiade de bandas que pesquisaram o firmamento (Pôle, ose,
Lard Free…). Foi assim, até ao “crash”.
O
regresso à Terra foi duro. O punk chegou para apagar a luz. O espaço encolheu.
As estrelas foram tapadas com ferrugem. A viagem terminou na lama, nas
guitarras mal tocadas, no assassínio dos sintetizadores. O ácido coalhou e foi
trocado por anfetaminas e heroína. Deixou de haver espaço para visões.
Foi
preciso esperar 20 anos para que a nave voltasse a descolar. Começou na tecno,
subiu pelo “trance” e desapareceu de vista com o pós-rock. O espaço é novamente
um bom lugar para se estar, habitado pelos Stereolab, Biosphere ou Gorky’s
Zygotic Mynci. E ao ouvirmos Cope cantar em 1996 “Spacerock with me”, como um
hino de libertação do rock ‘n rol, percebe-se que hoje, como na mítica saga de
Kubrick, o limite é o infinito.
15
viagens The Byrds: Fifth Dimension (66) •
Pink Floyd: A Saucerful of Secrets (68) • Amon Düül II: Yeti (70) • Guru Guru:
U.F.O. (70) • Hawkwind: X In Search of Space (71) • Ash Ra Tempel: Schwingungen
(71) • Wallenstein: Blitzkrieg (72) • Khan: Space Shanty (72) • Agitation Free:
2nd (73) • Kingdom Come: Journey (73) • Gong: You (74) • Cosmic Jokers: The
Cosmic Jokers (74) • Clearlight: Clearlight Symphony (75) • Julian Cope:
Interpreter (96) • Stereolab: Emperor Tomato Ketchup (96)
The
dark side of saturnia
“Space rock” à portuguesa tem um
nome: Saturnia. Projeto de Luís Simões e Francisco Rebelo do qual foi editado
há pouco o segundo álbum, “The Glitter Odd”, é, de acordo com Luís Simões, uma
“mistura de coisas super contemporâneas, eletrónica, psicadelia e ‘head
music’”. Primeiro aspeto curioso: saiu numa editora neo-zelandesa, depois de
uma crítica ao disco de estreia publicada na revista “Progression”. Há
promessas de edição em selo português mas, por enquanto, quem o quiser adquirir
sem ter o incómodo de se deslocar até ao continente australiano, poderá fazê-lo
através da internet, com o endereço www.cronium.co.nz.
Mais personalizado e “dark” que o
álbum anterior, “The Glitter Odd”, liberto da nave Hawkwind, não dispensa o
zumbido psicadélico dos Pink Floyd, ainda sintonizados em LSD, do álbum
“Ummagumma” e o odor agridoce e as emissões telepáticas dos Gong. Aliás, é um
gongo que figura em lugar de destaque na capa do álbum e é um gongo que ressoa
na última faixa, “The Glitter Odd”, uma das mais tripantes – “até à data, o
tema mais experimental dos Saturnia, relacionado com a ‘musique concrète’
[N.R.: música concreta, como foi teorizada e posta em prática pelo compositor
francês Pierre Schaeffer], mas também com os Tangerine Dream, da fase ‘Zeit’”.
Luís Simões paira numa dimensão
alguns degraus acima da consciência normal. Fala em “atmospherics”, “pássaros”
e “ambientes espaciais”, a propósito da faceta mais floydiana de “The Glitter
Odd”. Um tipo de sonoridades que cada vez mais está a ser recuperado por bandas
contemporâneas, como faz notar. É o lado mais “etéreo” dos Saturnia que, com o
groove do “ambient tecno” e do “trance”, se traduz no apelo da dança – “da
cabeça, claro!”.
Embora ache legítima a opinião dos
que o acusam de saudosista, Simões não se preocupa. Tudo depende da forma de
compreender os “lapsos do tempo” e como estes se coadunam com os aspetos
“musicais” e “socio-musicais”. No fundo, “os anos 60 são uma coisa
perfeitamente atual, historicamente aconteceram apenas há uns minutos…”.
Revisionista
ou não, a música dos Saturnia tem como efeito impregnar os sentidos das
vibrações de uma “rave” intemporal, em que o Psicadelismo, o chill out cósmico,
o transe e a dança convergem em espirais onde o passado e o futuro se cruzam.
Se no álbum anterior deste grupo composto por Luís Simões e Francisco Rebelo
eram óbvias as referências à “space music” dos anos 70, personificada pelos
Gong, Ashra ou pelos Ozric Tentacles, em “The Glitter Odd” ressalta uma
vertente mais etérea apadrinhada pelos Pink Floyd (os Air são outros dos seus
afilhados, sem que alguém se sinta chocado com isso), em temas como “Still
Life” ou na sequência “A trick of the light”/”Azimuth/Menodel” onde assoma o
mesmo tipo de experimentalismos de “Ummagumma”. O resto são sintetizadores
ondulatórios, trip-hop espacial e, no título-tema que fecha “The Glitter Odd”,
finalmente o toque mágico no gongo capaz de atirar os Saturnia para os confins
da galáxia dos “pot head pixies”. O Saturno dos Saturnia não será o mesmo
planeta, do caos primordial, que Sun Ra habitava, mas esta viagem para lá da
orbita da Terra vale bem mais que qualquer sessão sem amanhã nas “dance
floors”.