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31/01/2019

Orquestra Victor Jara [13º Festival Intercéltico do Porto]


CULTURA
SÁBADO, 5 ABR 2003

C r í t i c a M ú s i c a

Orquestra Victor Jara

Brigada Victor Jara + Shantalla
PORTO Coliseu dos Recreios
Quinta dia 3, às 21h30
Meia sala

Não correu de feição a estreia no palco principal do Coliseu dos Recreios da banda irlandesa Shantalla, a abrir a 13ª edição do Festival Intercéltico do Porto, perante pouco público e com o azar e o clima de crise a fazerem-se sentir. Helen Flaherty, a fotogénica cantora do grupo, não esteve presente, devido à morte do pai, sendo substituída à última hora por Niamh Parsons, que o Intercéltico já acolhera como cantora dos Arcady.
            Niamh não teve culpa. Voz e sensibilidade à altura, defendeu-se da notória falta de ensaios, optando por vocalizações “a capella”, ou com o apoio cauteloso da guitarra de Joe Hennon e as tímidas pontuações decorativas do violino de Kieran Fahy e o acordeão de Gerry Murray. Foi, porém, no desempenho instrumental que os Shantalla desiludiram, não fazendo jus às capacidades que dão a entender no belíssimo álbum “Seven Evenings, Seven Mornings”.
            Michael Horgan, que no disco faz maravilhas, aparentou ser um executante vulgar nas “uillean pipes”, embora tenha ficado a ideia de uma amplificação deficiente do instrumento. O palco enorme do Coliseu confirmou, por outro lado, estar longe de proporcionar a intimidade de um “pub”... Os músicos e as notas pareceram desligados, faltou alegria, com o público a reagir automaticamente aos apelos à dança e aos apartes que entraram na rotina, das referências ao álcool ao “peço desculpa mas o meu português é muito fraco” da praxe. Difícil filtrar o ar da tristeza do tempo...
            Na primeira parte a Brigada Victor Jara surpreendeu. Arrancada a um estado de letargia que ameaçava conduzir a banda para o estatuto de “velha glória” resignada a receber o “prémio de carreira”, a música readquiriu uma vitalidade e um sentido de urgência que o recente álbum ao vivo não fazia prever. O palco encheu-se de 19 músicos, incluindo uma secção de metais dirigidos pelo trompetista Tomás Pimentel e quatro gaiteiros galegos dirigidos por Xosé Gil Rodrigues. Muita gente numa ameaça de confusão que nunca aconteceu, graças à liderança forte do violino, cada vez mais depurado e classizante, de Manuel Rocha, e dos teclados de Ricardo Dias, a quem a Brigada Victor Jara deve muita da atual fase de renovada pujança e criatividade.
            Entre um reportório constituído por cinco originais a incluir no próximo álbum – “Dailadou”, “Caracol”, “Durme”, “Lenga lenga” e “Meninas vamos à murta” – e temas antigos como “Menino Jesus”, “Mi morena” e “Bento airoso”, submetidos a arranjos originais, destacaram-se uma épica “Cantiga bailada”, repetida no “encore”, com a Brigada transformada em orquestra de folk progressivo, e o inesquecível desempenho vocal de Catarina Moura, em “Durme”, tema da tradição sefardita a exigir concentração, afinação e emotividade sem falhas, que teve na cantora uma intérprete de exceção. A forma como resolveu a transição de tom no final de uma das frases provocou arrepios.
            O Intercéltico termina hoje com atuações da cantora galega Mercedes Péon e da superbanda irlandesa Altan.

EM RESUMO
No confronto Portugal-Irlanda, uma renovada Brigada Victor Jara derrotou os Shantalla desfalcados da sua cantora habitual

25/01/2019

Shantalla - Seven Evenings, Seven Mornings


Y 4|ABRIL|2003
roteiro|discos

SHANTALLA
Seven Evenings, Seven Mornings
Wild Boar Music, distri. MC – Mundo da Canção
9|10

A boa música tradicional irlandesa tem o poder de curar, de colorir os dias e as noites, de nos aproximar do que imaginamos ser a felicidade. Comecemos então por dizer que “Seven Evenings, Seven Mornings” nos faz sentir felizes. Logo ao primeiro tema, “John Riley”, livramo-nos das toxinas. Bastaria a voz (e o vigor do bodhran) de Helen Flaherty e a corrente de água cristalina a escorrer por um “moore” das cordas dedilhadas de Gerry Murray, para nos sentirmos mais vivos. Os arranjos estão próximos dos Planxty, fazendo lembrar a obra-prima deste grupo, “Cold Play and the Rainy Night”. Mas os Planxty não tinham uma cantora como Helen Flaherty. Voz-primavera, irlandesa dos sete costados, Helen é a estrela, o amor, a paixão, o verde, a sombra, a luz e o mistério da Irlanda profunda. Os Shantalla são ainda um coletivo portentoso de onde sobressaem os fabulosos desempenhos de Michael Horgan, nas “uillean pipes” (como não nos arrepiarmos ao escutar um lamento como “Spered hollvedel”?), flauta e “tin whistle”, e Kieran Fahy, no violino e viola de arco, sem esquecer o suporte estratégico de Joe Hennon, na guitarra, e o enriquecimento tímbrico adicional de Gerry Murray, no bouzouki, bandolim e acordeão. “Seven Evenings, Seven Mornings” está ao nível dos clássicos modernos dos Dervish e dos Altan. É tradição como a sabemos sentir nos mitos e nos sonhos.

Se um grupo irlandês agrada a muita gente... [Festival Intercéltico]


CULTURA
QUINTA-FEIRA, 3 ABR 2003

Se um grupo irlandês agrada a muita gente…

FESTIVAL INTERCÉLTICO

Shantalla, Four Men and a Dog e Altan. Dose tripla de música irlandesa no Intercéltico. O Festival começa hoje no Porto e estende-se a Lisboa, Montemor-o-Novo e Arcos de Valdevez


Ex-líbris da cidade do Porto, o Festival Intercéltico desce, nesta sua 13ª edição, até ao Sul do país. Ao Alentejo, imagine-se, terra de mouros para quem as polifonias do cante ou o rasgar de uma viola campaniça falam mais alto ao coração do que o gemido de florestas distantes do fole de umas "uillean pipes" irlandesas. Desta vez não será apenas o Coliseu do Porto a acolher a festa e a beleza de uma música que insiste em demarcar-se da voragem consumista. Lisboa, Montemor-o-Novo e Arcos de Valdevez entraram no mapa.
            Hoje mesmo, o melómano folk poderá escolher entre ficar na capital para ouvir, no Coliseu dos Recreios, os grupos irlandeses Altan e Four Men and a Dog, ou assistir ao Intercéltico na sua sede própria desde o primeiro dia e receber no Coliseu portuense a Brigada Victor Jara e os também irlandeses Shantalla. Irlanda que, como se vê, se faz representar em força no Intercéltico deste ano, de novo sob a alçada do MC - Mundo da Canção.
            Shantalla, Four Men and a Dog e Altan (estreia absoluta no Intercéltico, embora já tivessem actuado num dos Encontros Musicais da Tradição Europeia) são os ilustres representantes de uma linhagem de presenças intercélticas que inclui os De Danann, The Chieftains, Déanta, Dervish, Arcady, Patrick Street, Solas e Lúnasa. Mas três bandas irlandesas no mesmo Intercéltico, eis a grande novidade. Espera-se algo de especial.
            Os Shantalla, que hoje partilham o palco com a Brigada Victor Jara, deixaram gratas recordações a quem os viu e ouviu há três anos, entre copos e conversas, no café-concerto do Teatro Rivoli. Cresceram entretanto. Tanto, que hoje nada devem às grandes bandas clássicas irlandesas da atualidade. O novo álbum, "Seven Evenings, Seven Mornings", é a prova viva de que a música dos Shantalla tem tudo para nos transportar até ao céu do "puirt a beul" vocal ou ao círculo "diabólico" dos "jigs" e dos "reels". Com ou sem "whiskey", ou um "pint" de Guinness, a ajudar. Helen Flaherty é a voz iluminada de um colectivo onde pontifica o talento instrumental de Kieran Fahy, no violino e viola de arco, Michael Horgan, nas "uillean pipes", flauta e "tin whistle", Joe Hennon, na guitarra, e Gerry Murray, no acordeão, bouzouki, bandolim, "whistles" e percussão.

Gino, o grande
Amanhã, depois dos Gaiteiros de Lisboa, em processo de apuramento dos muitos confrontos e maravilhas presentes no seu novo álbum, "Macaréu", será a vez dos Four Men and a Dog tentarem repetir, ou ultrapassar, a loucura que na sua apresentação no Intercéltico de 1995 quase fez estourar de folia a vetusta sala do Coliseu do Porto. Sob a liderança, vocal e visual, do anafado Gino Lupari, gigantesco na presença física, na "verve" humorística e no ritmo imprimido ao "bodhran", os quatro homens e um cão apresentam-se como arautos de um ecletismo levado ao extremo, com uma música que assimila, espalha, integra, recria e transfigura não só as modalidades tradicionais irlandesas como o "boogie", os "blues", o "rockabilly", a "salsa", a "country", o "rap", o "rhythm'n'blues" e, no novo álbum, "Maybe Tonight", a música tradicional russa e (mais) uma versão de "Music for a found harmonium", dos Penguin Cafe Orchestra.
            Sábado, no fecho do festival, estarão presentes os Altan, dos casos mais emocionantes de ascensão no panorama da nova folk europeia, após o trauma causado nos anos 80 pela morte de um dos seus elementos fundadores, o flautista Frankie Kennedy. Tal não impediu a progressão deste grupo com origem em Donegal que, de álbum para álbum - entre a sua discografia contam-se pérolas como "Horse with a Heart", "Harvest Storm", "Island Angel", "Blackwater", "Another Sky" e "The Blue Idol" -, tem conquistado um número cada vez maior de admiradores. Mairead Ni Nhaonaigh é a voz que promete pôr mais do que um coração de rastos.
            Mas não só da Irlanda, em termos de presenças internacionais, se faz o Intercéltico. A anteceder o concerto dos Altan, a cantora galega Mercedes Péon levará ao Coliseu do Porto o espanto, a beleza convulsiva e alguma inquietação. Cabeça rapada, como Sinéad O'Connor, a voz localizada naquele registo, misto de devoção e luciferismo, de cantoras malditas como Meira Asher e Diamanda Galas, Mercedes percorre as gamas mais obscuras da folk galega, de muiñeiras e "alalas" modificadas por uma visão que mergulha no seu núcleo mágico e transfigurador. "Isué", o seu álbum de apresentação, tem tanto de novo como de atraente. De iconoclastia como de provocação. Logo veremos se, como se diz, as raparigas boas vão para o céu e as más para todo o lado.