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18/08/2014

Não tenham medo, eles só precisam da vossa amizade [Reedições]



Sons

4 Junho 1997

Não tenham medo, eles só precisam da vossa amizade

Passados 25 anos sobre a época mais produtiva e estimulante do progressivo, entre 1970 e 1974, o prazer está na busca dos pequenos e grandes tesouros que se ocultam nas bandas menos conhecidas, embora algumas delas sejam dignas de figurar ao lado dos seus pares bem sucedidos.

Para os pesquisadores, a vaga de reedições de música progressiva dos anos 70 que tem chegado à discoteca Torpedo constitui material de consulta essencial. Torna-se possível a descoberta de nomes e segunda linha que, por este ou aquele motivo, nunca lograram a mesma projeção mediática ou o sucesso alcançado pelos nomes que constam nas enciclopédias mais generalistas. Nomes como King Crimson, Gentle Giant, Van Der Graaf Generator, Yes, Genesis, Jethro Tull ou Emerson, Lake and Palmer, para só falar dos ingleses.

Passados 25 anos sobre a época mais produtiva e estimulante do progressivo, entre 1970 e 1974, o prazer está na busca dos pequenos e grandes tesouros que se ocultam nas bandas menos conhecidas, embora algumas delas sejam dignas de figurar ao lado dos seus pares bem sucedidos. Já aqui escrevemos, há tempos, sobre os álbuns dos CMU (“Open Sppaces” / “Space Cabaret”), Tonton Macoute (“Tonton Macoute”), Spirigyra (“ST. Radigunds”) e Beggars opera (“Waters of Change”). A estes acrescente-se agora “First Utterance”, dos Comus, “(Have No Fear, I Only Need Your) Friendliness”, dos Stackridge, “Time Is…” dos Raw Material, e “Sea Shanties”, dos High Tide.

First Utterance, dos Comus, é um dos clássicos menosprezados dos 70. David Bowie descobriu o grupo em 1969. Infelizmente para os Comus, Bowie não constituiu grande ajuda, já que ele próprio, nessa época, lutava para sair do anonimato. A crítica não soube o que fazer, na data da sua edição, em 1971, com “First Utterance”. A revista “Sounds” definiu o tema de abertura como “o cruzamento entre uma versão histérica do coro das bruxas de McBeth com guinchos de Marc Bolan a ser estrangulado até à morte”. Na “Record retailer” falou-se numa “cacofonia de sons incoerentes”. O crítico da “Record Mirror” foi mais sucinto: “Soa aos T. Rex a 94rpm.” Houve apreciações favoráveis, como a de John Peeel, mas mesmo nestas perpassava uma evidente perplexidade. Opinião unânime era a de que não havia, então, mercado para o tipo de música que os Comus tinham para oferecer.
Volvido mais de um quarto de século, continua a assustar esta mistura endemoinhada (e agora remasterizada) que aliava a teatralidade vocal dos Genesis com um gosto por melodias clássicas, de uma forma esquizofrénica, e constantes desvarios do violino e do oboé, prenunciadores de um free rock extemporâneo. Alguns anos mais tarde, os Comus foram aceites pela Virgin, para a qual gravara, “To Keep From Crying”, um álbum mais acessível que contava com as colaborações de Lindsay Cooper, dos Henry Cow, e Didier Malherbe, dos Gong. (See for Miles, 8)

Delicioso é o termo que melhor define, e abreviando o título, Friendliness, dos Stackridge, um grupo de pop progressivo que se tornou conhecido sobretudo pelo lado cómico-provocatório das suas prestações ao vivo. Em disco, porém, a doçura de canções como “Lummy days”, o luminoso instrumental, “Friendliness”, “Syracuse the Elephant” ou o impagavelmente intitulado “Father Frankenstein is behind your pillow” estavam ao mesmo nível da excentricidade e de um talento inato para a composição de melodias que deviam tanto aos Beatles como à poesia rural de um álbum como “Treason”, dos Gryphon. (Repertoire, 8)

Em “Time is...”, segundo álbum dos Raw Material, esta banda não escondia que os seus heróis eram os Van Der Graaf Generator. “Ice queen” é uma emulação dos “riffs” típicos da banda de Peter Hammill, com o seu saxofonista e flautista, Michael Fletscher, a fazer uma imitação razoável de David Jackson. Faltava, era claro, aos Raw Material o génio de Hammill, mas a combinação de melodias psicadélicas com longas passagens instrumentais, nos sopros e teclados, de temas como “Empty houses” ou “Insolent lady” conferiam a este disco uma aura de magia peculiar, embora toda a segunda parte não consiga manter a mesma criatividade, socorrendo-se de alguns “clichés”, já então estafados, do cósmico-progressivo à maneira dos Hawkwind. (Repertoire, 7)

Também interessante é Sea Changes, dos High Tide, um “power-trio” alucinado impulsionado pela guitarra de Tony Hill e com a loucura adicional do violino elétrico de Simon House, futuro elemento dos Hawkwind e esporádico acompanhante de Bowie. Veja-se aqui a versão britânica e, apesar de tudo, mais elegante dos energúmenos alemães Guru Guru. Curioso mas massacrante em último grau. (Repertoire, 6)

Falta acrescentar que se encontra escondido nas prateleiras da “megastore” da Virgin o Second Album dos Curved Air, onde a voz de Sonja Kristina, o violino de Darryl Way e os teclados de Francis Monkman ensaiavam, de forma magnífica, a sua visão de uma música rock com pretensões sinfónicas, que haveria de pulverizar-se no conto de fadas surreal e experimental do álbum seguinte “Phantasmagoria”, uma das chaves-mestras de todo o progressivo. (Warner Bros. import. Loja Virgin, 8)

Para ler e consultar, encontra-se disponível na discoteca Planeta Rock a versão inglesa da enciclopédia de grupos progressivos italianos editada pela Vinyl Magic. Reúne farta informação, com discografias completas, entrevistas, reprodução de capas e, como bónus, um CD. Com ela chegaram também os álbuns de algumas dessas bandas: Stormy Six, Quella Vecchia Locanda, Corte dei Miracoli, The Trip, Delirium...

19/10/2009

Bloco de notas - Reedições Pop

Sons

24 de Abril 1998
BLOCO DE NOTAS – POP

Reedições

Krautrock, capítulo 23, referência nº 362 aos Neu!. A caixa com a obra completa do grupo, “Komplett”, maculada por irritantes ruídos, já pode ser substituída. “Neu!2”, com o seu “segundo lado” construído em torno de mudanças de rotações e manipulações várias de estúdio do single “Super/Neuschnee”, está de volta, o mesmo acontecendo com “Neu!75”, terceiro álbum de originais da dupla Michael Rother/Klaus Dinger, que alterna um ambientalismo naturista com arranhões eléctricos e a histeria que antecipava de um ano o golpe publicitário dos Sex Pistols. Ainda em edições com a caveira mas limpas de barulho residual. (import. Virgin, 8 e 8).
Do capítulo anos 70 saúda-se a chegada, para muitos desejada, de “The Man in the Bowler Hat”, dos Stackridge, que sucede a “(Have no Fear) I only Need your Friendliness”, que também volta a estar disponível, mas agora ambos em quantidades mais satisfatórias. Os Stackridge foram os Beatles do Progressivo, na forma como nas suas canções combinavam uma veia melódica digna de Paul McCartney com arranjos cuja excentricidade e imprevisibilidade os colocava perto de grupos como os Gryphon e os Gentle Giant. Comprovativo desse talento inato para fazer de cada canção um clássico está o facto de o produtor de “The Man in the Bowler Hat” ser nada mais nada menos do que George Martin, esse mesmo, o produtor de “Sgt. Pepper’s” dos Beatles. (Edsel, distri. Megamúsica, 9)
Na década anterior, por volta de 67, como se devem lembrar, andava tudo doido. Em matéria de psicadelismo, verdadeiro ou da treta, um grupo para ser grupo, tinha que juntar na sua música “sitars” indianas, vocalizações arrastadas e guitarra “fuzz”. Os leitores não devem conhecer os Strawberry Alarm Clock. Podem fazê-lo agora. Nesse ano de graça das flores que Scott McKenzie punha no cabelo e os designers nas capas dos discos, os SAC gravaram um dos singles que ficou como um marco dessa época “Incense and peppermints” (demorou seis meses para chegar a Top One, nos Estados Unidos...). É uma daquelas melodias da 5ª dimensão, com mudanças de tonalidade a esvaírem-se em perfeição num cogumelo pop embalado em prata de todas as cores. O álbum de estreia tem o mesmo nome, embora a presente reedição o alterasse para “Strawberries Mean Love”, título piroso e redundante. Mas, paciência, os sons que dele se volatilizam, entre o melhor “vintage” de 67 e o kitsch ao modo dos Mystical Astrological Crystal Band, garantem a “trip” até katmandou. (Big Beat, import. Virgin, 8).
Enterrado no túmulo do esquecimento tem estado igualmente “Begin”, primeiro e único álbum gravado pelos The Millenium, com data de edição original de 1968. Os The Millenium foram um grupo de estúdio criado para pôr em prática as concepções pop-bubblegum-surf music-experimental-psicadélicas de Curt Boettcher (falecido há onze anos), um duplo, não menos genial, de Brian Wilson. O universo estético e sonoro em que “Begin” se move é um palacete de espelhos e diversões arquitectadas com cordas de gelatina, fantasmas escondidos em vibrafones, guitarras com cordas de luz, um prelúdio barroco em cravo, silhuetas espectrais e momentos de pura “twilight zone” como “Karmic dream sequence”. A arrumar entre “Odessey and Oracle”, dos Zombies e “Tangerine Dream” dos Kaleidoscope ingleses. (Rev-Ola, import. Virgin, 9).
Para terminar saltemos até ao Canadá, acertando a máquina do tempo para 1984, para nos perdermos nas histórias de bombistas da realidade, de Andre Duchesnes, que em “Le Temps des Bombes” tanto se posiciona, em termos poéticos e nas entoações vocais, próximo do humor surrealista de Ferdinand Richard, como se exercita nos campos de jazz “rive gauche” e magnético dos seus compatriotas Robert-Marcel LePage e René Lussier. (Ambiances Magnétiques, distri. Áudeo, 8).