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02/03/2018

Yes, Pauline Oliveros...


Fernando Magalhães
21.01.2002 160425

Só para sair um pouco desta modorra... :)

Já não sei quem é que me perguntou qualquer coisa sobre um CD da PAULINE OLIVEROS com (?) os DEEP LISTENING BAND.

Confesso que não sou grande fã da senhora...dos discos que ouvi dela, se não estou em erro, na New Albion, não retive a ideia de uma música excepcional...

Em relação aos DEEP LISTENING BAND, lembro-me de ter achado alguma piada a um álbum, também na New Albion, julgo eu, gravado no interior de uma cisterna, para tirar partido da ressonância e das excepcionais condições acústicas...

Sobre o "Fragile", dos YES. Sem ser dos melhores álbuns dos YES (7,5/10, mesmo assim...) tem o tal "Heart of the Sunrise"...
Mas os YES nunca foram a minha banda "prog" preferida, embora tenha todos os álbuns deles até ao "Tormato" e dois CDs mais recentes, o vol. 2 do "Keys to Ascension" - 7/10 (via "o vendedor"...) e o "The Ladder" (6,5/10).

Quanto aos que valem a pena:

"YES" - 7,5/10 - canções pop prog psych
"Time and a Word" - 8/10 - idem, c/arranjos mais sofisticados
"The Yes Album" - 9/10 - um excelente complemento para fúria energética dos KING CRIMSON
"Close to the Edge" - 9/10 - clássico do Prog. A música popular aliada ao (bom) pretensiosismo.
"Tales from the Topographic Oceans" - 9/10 Mais ainda aqui. Há quem ache excessivo. Para mim é a obra magna dos YES - mas necessita de muitas e muitas audições para se penetrar neste mantra de múltiplas dimensões...
"Relayer" - 8,5/10 - A guitarra de Steve Howe em delírio, na longa suite do lado um - um portento!...Pena Jon Anderson já estar neste álbum apanhado na teia tecida por Vangelis...
"Going for the One" - 7,5/10 - álbum de manutenção, com o "clássico""Awake/Awake" a destacar-se.
"Tormato" - 7/10 - OVNIS com fartura e um tema "infantil", mas mágico, de Jon Anderson sobre o circo (é deste álbum ou do anterior, já não estou certo...
:) )

FM

Fernando Magalhães
21.01.2002 180628
quote:


Publicado originalmente por rat-tat-tat

Claro que agradeço sugestões! :) Ainda são audições muito fragmentárias e gostava de encontrar um certo sentido e coerência evolutiva (by the way: consegues-me definir "música concreta" em poucas palavras?)

Daqueles nomes acima referidos gosto de todos, embora já tenha ficado "pasmado" com um tema do Steve Reich, em que a estrutura é apenas constituída pela repetição da expressão "come out" (se não estou em erro!), com pequenas nuances e acelerações. Pareceu-me um daqueles casos de experimentação que não leva a lado nenhum.

E qual é o ponto de contacto dos Negativeland, com tudo isto?

tat



Vamos por partes :)

O termo "música concreta" (musique concrète, como costuma ser designada...) foi inventado pelo compositor francês Pierre Schaeffer e surge na sequência da escola serialista de Viena (Webern, Weber...) aplica-se a uma música eletro-acústica construída a partir (mas não só...) de sons "concretos", leia-se naturais (objetos, água, vozes humanas, sons de animais, etc) tratados eletronicamente.
O prolongamento natural da música concreta é a chamada música acusmática, em que os elementos sonoros provenientes de fontes que não os instrumentos musicais convencionais, já não são imediatamente identificáveis (samples, tapes, programas, etc).

O STEVE REICH tem álbuns excecionais, mas que exigem um tipo de escuta "diferente": Recomendo especialmente o "Music for 18 Musicians", editado na ECM. O minimalismo na sua essência mais nobre: uma música "multiplicadora de músicas", capaz de provocar em quem a ouve a audição de harmonias e sons que não estão (ou estarão?...) presentes materialmente no som executado. A experiência pode ser exaltante. Lembro-me de um concerto inolvidável, aqui há uns anos, na Gulbenkian, com música de S. Reich (em que o próprio esteve presente, se não me engano). Uma das peças, para seis pianos verticais, criava no auditor uma verdadeira "sinfonia" de músicas sobrepostas!!!

Quanto aos NEGATIVLAND...não têm rigorosamente nada a ver com estes universos musicais. O tipo de estética baseado em colagens que praticam terá mais a ver com um equivalente em banda-desenhada + pop eletrónica + sarcasmo, dos Residents ou dos percursores Frank Zappa e Faust. Os Negativland não pertencem a mundo da música erudita mas, pelo contrário, ao que de mais fundo e paradoxal existe no mundo da música popular - que a cada momento se encarregam de denunciar, desmistificar e sabotar. "car Boooooooooooob" (de "Escape from Noise")- BUUUMMMM!!!!

saudações

FM

Fernando Magalhães
21.01.2002 190707
O "Escape from Noise" é um disco chave dos anos 80.

O "Helter Stupid" é notável a nível do conceito (conheces a história? É sobre o pretenso massacre provocado por um jovem na sequência da audição de mensagens subliminares contidas num tema de "Escape...", "Christianity is stupid". O grupo divulgou a falta notícia e, claro, os media engoliram-na como verdadeira, lançando de imediato opiniões sobre os malefícios da música rock sobre a juventude, que estava provada a sua influência perniciosa nas mentes jovens, etc, etc, etc.

Infelizmente a música nunca consegue estar ao nível da mensagem. Nem sequer fiquei com este álbum!

FM

20/10/2016

Um cântico para Dolly [Steve Reich e Beryl Korot]

CULTURA
TERÇA-FEIRA, 5 NOV 2002

Um cântico para Dolly

“Todas as criaturas têm uma canção, o que é que elas cantam?” A pergunta, formulada por robot em “Three Tales”, vídeo-ópera de Steve Reich e Beryl Korot, é uma interrogação sobre o humano e a sua relação com a tecnologia

Steve Reich. Vídeo "state of the art". Novas tecnologias. Enfie-se no pacote da "ópera" um dos magos da escola minimalista americana dos anos 60, imagens em ecrã gigante e um computador eminência parda de uma obra, apesar de tudo animada ainda pelo sopro de humanidade do Ensemble Modern e do grupo vocal Synergy e... clique. Truque de hipnose.
                Acontece que a forma como o truque é executado remete para um exibicionismo tecnológico que serve de disfarce ao academismo. Reich demorou mais tempo do que Philip Glass, mas também ele acabou por se instalar no conforto dos seus próprios "clichés", afinal de contas, sempre passíveis de serem chamados de "estilo".
                Em termos musicais, "Three Tales", como se ouviu alguém comentar na sala, é uma espécie de "best of" da obra do compositor que combina resquícios de minimalismo domesticado, polifonias vocais cuja beleza é posta em relevo na primeira das três "histórias" de "Three Tales", "Hindenburg" (indicadoras do interesse de Reich pela música do pré-barroco) e o "sampling" intensivo. As imagens vídeo de Beryl Korot caem nestas maquinações como mosca no mel. Sincronismo perfeito entre música e imagens, mas também entre a execução em tempo real e a realidade tratada composta pelo material documental. Matemática em acção.
                "Three tales" está cheia de números e geometrias. Talvez porque, como diz uma das personalidades sonora e visualmente "manipuladas" em "Dolly", Marvin Minsky, professor de engenharia eléctrica e ciência da computação, "a mente é uma máquina de carne". Todavia, existe tragédia. Não uma tragédia que afete diretamente e altere o sentido das nossas vidas (isso era lá com os gregos, ou com esse maluco do Artaud...), mas, mesmo assim, a demonstração de uma inquietação.
                "Bikini", segunda das "tales", joga com a dilatação do tempo, preparando milimetricamente o olhar para a destruição que todos sabemos que irá acontecer. A repetição obsessiva da contagem decrescente, o avião que descola uma e outra vez, a acumulação de detalhes (rostos, mostradores, o céu), criam um longo intervalo de ausência narrativa e uma tensão que a música de Reich preenche como um coro de ecos, com os cantores do grupo Synergy a respresentarem a mesma pose e vestuário dos "homens máquinas" dos Kraftwerk.
                "Dolly", terceira e última sequência de "Three Tales", é ideologicamente a mais interessante, mas peca por ser, em termos formais, a mais redutora e redundante. O mote é dado pela clonagem (lá estão Dolly, a mitificação do DNA e a proclamada "independência" científica) derivando para a avaliação do corpo humano, da inteligência artificial e, em último grau, insinuar a montagem de uma nova humanidade na qual, como afirma Rodney Brooks, investigador de engenharia de robots inteligentes e da inteligência humana através da construção de robots humanóides, "estamos a começar a trazer a tecnologia para os nossos corpos".
                No ecrã repetem-se os rostos e as declarações de cientistas, sociólogos e místicos (entre outros, Ruth Deech, Richard Dawkins, Jaron Lanier, Steven Pinker, Robert Pollack, Cynthia Breazal, mas também o rabi Adin Steinsaltz), enquanto as vozes do coro e o sampling prolongam e repetem até à exaustão síncopes fonéticas e palavras de ordem ("máquinas, máquinas inteligentes", a mais repetida), música e vídeo geradores de duplos e mimetismos, em clonagem recíproca.
                "O corpo humano é extremamente limitado. Adoraria fazer um 'upgrade' a mim próprio" (Kevin Warwick, professor de cibernética que implantou no seu próprio corpo um pequeno computador e advoga a transformação do homem em cyborg), "Se todos pedíssemos provas antes de acreditarmos nalguma coisa, as religiões não chegariam a lado nenhum" (Richard Dawkins, autor do "best-seller" "O Gene Egoísta"), "Se eu fizer um 'scan' ao teu cérebro, e se fizer o 'download' dessa informação, terei um bocado de ti, aqui mesmo no meu computador pessoal" (Ray Kurzweil, inventor do sintetizador com o seu nome), são máximas que, no mínimo, obrigam a pensar. O público, que em número razoável, compareceu no CCB, aplaudiu de pé, antes de pensar.
                À laia de epílogo pertenceu a Kismet, robot humanóide concebido por Cynthia Breazal para interagir com seres humanos, a única frase que se diria nascida de uma alma: "Todas as criaturas têm uma canção. O que é que elas cantam?".
                Natália Correia costumava referir-se aos desalmados. Os que não têm. Nem alma nem canção.