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23/12/2016

Canções para os amigos [Suzanne Vega]

QUINTA-FEIRA, 17 JUNHO 1999 cultura

Concerto ameno no CCB

Canções para os amigos de Suzanne Vega

MAL SUBIU para o palco, com uma guitarra acústica e um sorriso tímido no rosto, Suzanne Vega foi recebida pelo público de Lisboa como uma filha mimada. Ao fim de poucos segundos – na primeira das suas duas apresentações em Portugal, a segunda aconteceu ontem, no Cinema do Terço, no Porto – a cantora nova-iorquina tinha toda a gente na mão. O seu sorriso de quem está em paz consigo mesmo, a sua simplicidade e o seu sentido de humor, amplamente exercitado nos apartes e nas histórias que foi contando, são desarmantes. Este foi, de resto, o aspeto mais interessante do concerto, o modo como a cantora estabelece comunicação com o público, através de um tom coloquial que emprega em simultâneo o didatismo, a improvisação e a desmistificação.
            Suzanne recordou episódios da sua vida passada, as suas viagens (as raparigas más, embora não seja bem o seu caso, ao contrário das boas, que vão para o céu, vão a todo o lado e não para o inferno...), pediu desculpa pelo longo afastamento dos palcos portugueses (já cá tinha estado há cerca de nove anos) e explicou por que razão o assunto de uma das suas canções não é, definitivamente, o pénis. Satisfeita com a resposta do público, convidou-o a seguir viagem com ela até aos próximos espetáculos. Houve quem gritasse logo que sim. Suzanne sentiu-se em casa, apaparicada, e relaxou. Acendeu a luz para as canções brilharem e elas mostraram a vida que as anima. A magia da sua presença fez o resto.
            Suzanne expôs-se, no modo como se apresentou no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), armada apenas com uma guitarra acústica e as acentuações, no baixo elétrico, de Michael Visceglia. Arriscou a ganhou. Servida por um som que permitiu acompanhar em detalhe a letra de cada canção, a “cantora que tombou do céu”, como já lhe chamaram, passeou o seu “charme” por canções como “Marlene on the wall”, a abrir o concerto, “Small blue thing”, “World before Columbus”, “Rock in the pocket (song of David)”, “In Liverpool”, “Rosemary” e “Blood sings”, fechando com dois dos temas mais conhecidos, “Luka” e “Tom’s diner”, este último “a capella” e com o público a acompanhá-la com estalos dos dedos e a entoar com muito cuidado o refrão “hm hm hm hm hmhmhm”.
            Voltou para os encores, com mais uma série de exercícios de intimismo, entra as quais “The queen and the soldier”, uma canção que, ela própria não sabe bem porquê, agrada a toda a gente. Recompensada, afirmou que, por vontade dela, ficaria toda a noite a cantar canções de enfiada, se não tivesse ainda que apanhar o avião para o Porto. Canções que não perderam pitada da sua força no formato reduzido com que foram apresentadas, dando razão à sua autora quando, na entrevista ao PÚBLICO, declarava ser em primeiro lugar uma compositora e só depois uma cantora. Mais do que um concerto, a atuação de Suzanne Vega foi o reencontro de velhos amigos que, ao fim de uma longa e dolorosa separação, puseram a conversa em dia.

Inquérito a Suzanne [Suzanne Vega]

cultura QUARTA-FEIRA, 16 JUNHO 1999

Cantora nova-iorquina atua hoje no Porto

Inquérito a Suzanne

Depois de Lisboa, o Porto recebe hoje Suzanne Vega, a cantora a quem chamam “a garota de Nova Iorque” e “a mulher que tombou do paraíso”. Ela não se considera nem boa nem má rapariga, mas uma sonhadora. No seu livro de sonhos cabem o amor pela filha, Ruby, um livro de Emily Brontë, um filme com Marilyn e uma canção de Lou Reed.

Em vez da entrevista convencional, o PÚBLICO propôs a Suzanne Vega uma espécie de inquérito, que teve o condão de lhe provocar umas vezes surpresa, outras embaraço. Mas ela divertiu-se e nós também. Hoje à noite, no Cinema do Terço, às 21h30, é a vez de o Porto saborear a voz, as estórias e as canções de Suzanne Vega.
         PÚBLICO – Escolha três das suas canções para dedicar à sua filha Ruby.
            SUZANNE VEGA – “Birthday”, de “99.9 Fº”, “World before Columbus” e “Caramel”, ambas de “Night Objects of Desire”.
         P. – Mais uma para oferecer ao seu pior inimigo.
            R. – Oh, essa é das difíceis. Nunca escrevi para os meus inimigos. Embora “Rock in his pocket (song for David)” pudesse ser utilizada com esse fim…
         P. – Gostaria de ser lembrada como a Joan Baez dos anos 90?
            R. – Gosto imenso de Joan Baez, pelo seu envolvimento político e pelo humor. Mas não gostaria de ser comparada com ela porque é uma grande cantora e uma compositora razoável, enquanto eu prefiro ser recordada como uma excelente compositora com uma voz razoável.
         P. – Imagine que nunca tinha ouvido música rock antes. Sentiria hoje o mesmo impacto que sentiu na sua adolescência quando assistiu a um concerto de Lou Reed?
            R. – Provavelmente, sim. O que eu sempre achei interessante nele são as estórias por detrás das canções que, por regra, são tocantes. Não foi o som que me impressionou quando o ouvi pela primeira vez, podia estar a tocar uma guitarra ou um ukelele que não faria a mínima diferença. Não teve nada a ver com ser ou não música rock. Estou-me nas tintas para o rock.
         P. – Conte-nos uma boa história passada num restaurante famoso, o Tom’s Diner, que costumava frequentar e sobre o qual compôs, aliás, uma canção.
            R. – Famoso, agora, porque na época em que escrevi sobre ele era um local pequeno e sujo onde as pessoas iam beber café à noite. Depois tornou-se limpo e famoso. Há uns anos filmaram cenas da série de TV “Seinfeld” frente à fachada…
         P. – Qual dos rótulos se aplica melhor a si: “Bon chic bon genre” ou “As boas raparigas vão para o céu, as más vão para o inferno”?
            R. – [risos] Não me considero nem boa nem má rapariga. É uma pergunta delicada… Sou independente. Quando se está a crescer, as pessoas acham que somos bons ou maus, a mim disseram-me sempre que era uma pessoa enfiada no meu mundo, um mundo de sonhos.
         P. – Por falar em sonhos, qual é o seu sonho mais brilhante?
            R. – Deixe-me pensar… Ter mais dois filhos com quem a Ruby possa brincar. Levar a vida de que gosto, o que estou prestes a conseguir, com dinheiro suficiente para poder cantar e tocar apenas quando me apetece. O meu ritmo é lento, como tal gostaria de nunca ter que me apressar para chegar a algum lado. E atirar o relógio para o lixo.
         P. – O seu pesadelo mais sombrio?
            R. – Ser pressionada para passar de uma coisa para outra. Ter que me confrontar com as “deadlines” dos outros, fazer o que me dizem sem ter oportunidade de dialogar.
         P. – O seu desejo mais obscuro?
            R. – Não respondo. As perguntas estão a entrar num território demasiado pessoal! Talvez lhe conte alguma coisa daqui a uns dois ou três anos, se passar por aqui [risos].
         P. – No seu livro “Urgent Whispers” (“Murmúrios Urgentes”, ed. Assírio & Alvim), ao ouvir fado, escreve que a alma dos portugueses está nas canções que canta. A sua alma onde está?
            R. – Nas palavras, nas letras que escrevo. Um pouco, também, nas melodias que, regra geral, são tristes.
         P. – Paixão e amor são duas coisas diferentes? Uma pode existir sem a outra?
            R. – Uma pode existir sem a outra, embora de forma não satisfatória. É uma pergunta interessante porque estou, precisamente, a passar por um processo de separação. O meu casamento acabou e tenho pensado sobre esse tipo de questões.
         P. – Sexo virtual?
            R. – Existe, mas não é nada que eu recomende. É sexo apenas com a mente. Como um jogo de vídeo. Ou pornografia.
         P. – Monica Lewinsky e Bill Clinton. Quem é a vítima e quem é o culpado?
            R. – Oh, não! Para ser sincera, penso que foram os dois uns idiotas. Talvez tenha sido ele a vítima… Se considerarmos que ela lhe apareceu, logo ao primeiro encontro, vestida apenas com roupa interior… Do que é que ela estava à espera? Por outro lado, ele mostrou ser um homem que não se consegue controlar nesse género de questões… O tratamento jornalístico dado ao caso é que foi completamente desapropriado, fora de controlo. A vítima real acabou por ser Hillary Clinton.
         P. – Mário Soares, ex-presidente de Portugal, conhece e gosta da sua música. E Bill Clinton?
            R. – Não deve ligar nenhuma, tem outras coisas em que pensar, acredite! Mas sei, através de uma carta que recebi de Tipper Gore, mulher do vice-presidente, que ela gosta imenso de “Luka” e ainda ouve o meu segundo álbum, “Solitude Standing”.
         P. – Um crítico referiu-se a si uma vez como “a rapariga que tombou do paraíso”. Agora que já conhece bem o planeta Terra, sente-se melhor aqui ou tenciona voltar para o céu?
            R. – A Terra é ok, já me habituei.
         P. – “O paraíso é um lugar onde nunca acontece nada”, escreveu David Byrne numa das suas canções. Concorda?
            R. – Não penso assim. Seria demasiado chato. A minha filha, de quatro anos, disse-me esta manhã que chegou de Vénus (risos)…
         P. – “The girl from Ipanema” é uma das suas canções favoritas. Considera-se “The girl from New York”, como alguém já lhe chamou?
            R. – Claro! Adoro ouvir isso! Há milhões de raparigas em Nova Iorque, quem é que não gostaria de ser encarado como símbolo da cidade?
         P. – Com qual destas artistas gostaria de trabalhar: Laurie Anderson, Joni Mitchell ou Rickie Lee Jones?
            R. – Provavelmente, Laurie Anderson. Gosto muito de Rickie Lee Jones, com quem já me encontrei em diversos concertos. Mas com Laurie, sinto que somos compatíveis. Já foi minha vizinha e tomei o pequeno-almoço várias vezes com ela. Tem uma personalidade avassaladora. Mesmo quando está a falar de coisas simples, é uma pessoa interessante de observar e de ouvir.
         P. – E dos homens: Stan Ridgway, Tom Waits ou Tim Buckley, se ainda fosse vivo?
            R. – Stan Ridgway! É fantástico, além de ser um excelente contador de histórias, os seus espetáculos têm uma força impressionante. Assisti uma vez a um deles e fiquei completamente de rastos. Tom Waits tem uma personalidade demasiado egocêntrica e carismática para partilhar o palco com mais alguém.
         P. – Mitchell Froom (marido e produtor dos dois últimos álbuns da cantora, “99.9 Fº” e “Nine Objects of Desire”) mudou mais a sua música ou a sua vida?
            R. – Mudou ambas. E hoje mais do que nunca por causa da nossa filha. Na música, ajudou-me a trazer à superfície algo que já existia antes mas estava escondido, uma qualidade abrasiva e facetas de alienação, de violência. Encontrou o som certo para as minhas palavras.
         P. – Philip Glass, no seu estatuto atual, capaz de escrever uma ópera todos os dias, é um génio ou um chato? Não precisa de responder…
            R. – Outra pergunta interessante, sou fã dele, por isso claro que é um génio. Uma vez cometi o erro de levar o flautista do grupo a um concerto dele. Não conseguiu suportar mais do que 15 minutos. Claro que às vezes poderia compor coisas com menos de duas horas de duração… Um dos meus discos favoritos é “Mishima”. No ano passado assisti a um concerto em que apresentou a sua versão de “Low”, de David Bowie. Achei fantástico. Está cada vez melhor com a idade.
         P. – Gostou do modo como ele trabalhou as suas canções em “Songs from Liquid Days”?
            R. – Na altura soaram-me um bocado estranhas. Lembro-me de ter torcido o nariz e pensado que eu teria feito de outra maneira. Mas não me competia a mim decidir.
         P. – Se conseguisse escapar ao fim do mundo que livro levaria consigo? Disco? Filme? Canção? E uma das suas canções?
            R. – Livro: “O Monte dos Vendavais”, de Emily Brontë. Disco: “The Songs of Leonard Cohen”, de Leonard Cohen. Filme: teria que ser alegre o que é difícil já que tenho tendência para gostar de filmes sombrios como “Repulsa”, de Roman Polanski. “Rebeca”, de Hitchcock, também é bastante bom mas deprimente. Talvez “There’s no Business like Showbusiness”, com Marilyn Monroe. Sim, levaria esse. Canção: “Walk on the wild side”, de Lou Reed. Das minhas: “The queen and the soldier”, por qualquer razão, as pessoas das mais diversas culturas parecem compreender e gostar dela. Tornou-se ainda mais popular do que “Luka”.
         P. – Ainda vai ter tempo para gravar um novo álbum?
            R. – Espero que sim. Mas vou ter que andar depressa. É a maior “deadline” de sempre (risos). Espero ter todas as canções prontas até Outono e fazer sair o disco na Primavera.
         P. – 99,9º graus Fahrenheit de febre. Que acontece quando se chega aos 100?
            R. – Começa-se a alucinar. É quando percebemos que estamos realmente doentes.
         P. – Uma das suas canções chama-se “Tired of Sleeping”, “cansada de dormir”. Alguma vez se sentiu cansada de estar acordada?
            R. – Constantemente! Apesar da canção, nunca fico cansada de dormir. Quem me dera dormir mais! É algo que não tenho feito nos últimos tempos. Desde que a minha filha nasceu, há quase cinco anos, não consegui dormir duas noites seguidas.
         P. – Alguém lhe oferece uma fortuna para fazer um concerto só com versões instrumentais. Aceitaria o desafio?
            R. – Não. Porque não teria muito sucesso. Tudo o que existe de importante nas minhas canções está nas letras. Seria um concerto chato e as pessoas pediriam de volta o dinheiro dos bilhetes. Os organizadores iriam à falência e eu nunca mais poderia voltar a trabalhar.


20/09/2016

Os desejos da casta Susana [Suzanne Vega]

SUZANNE VEGA ATUA NO PORTO E EM LISBOA

OS DESEJOS DA CASTA SUSANA

Vega é nome de estrela. Ela evita sê-lo. "Pálida", "etérea" e "transparente", como já lhe chamaram, Suzanne Vega continua a observar o mundo através de um prisma aguçado por lucidez em demasia e alguma insegurança. "Há uma parte de mim que sente que talvez tenha feito alguma coisa errada para me ter tornado tão popular", garante, com uma ponta de ironia. Volta a Portugal na próxima semana. Para nos oferecer os seus objetos de desejo.

PARA ESTA cantora norte-americana de 40 anos que professa a doutrina budista e admira Simone de Beauvoir mas que afirma adorar Nova Iorque, porque o medo e a violência que varrem a cidade lhe provocam excitação, o sucesso chegou devagar mas com firmeza. Cinco álbuns foram mais que suficientes para a colocar num dos pedestais da música popular deste século. Provavelmente ao lado de Leonard Cohen, a sua alma gémea.
            Hoje, Suzanne Vega, quer queira quer não, é uma estrela. Os seus fãs assediam-na diariamente com centenas de cartas. De dois géneros diferentes, representativas do tipo de emoções que a sua personalidade desencadeia: as que começam por "I want to fuck you" e as que começam por "I want to kill you".
            O brilho de Suzanne Vega é anunciado em 1987, com o sucesso, à escala planetária, de "Luka", uma canção do seu segundo álbum, "Solitude Standing", sobre um rapaz submetido a maus tratos pelos pais. Ao mesmo tempo a jovem Suzanne, filha de pais incógnitos, procura o seu pai biológico que encontra, finalmente, na pequena cidade de Newport Beach, na Califórnia. Imagina-o como todas as crianças imaginam os seus pais: perfeito.
            A realidade, porém, mostra-se diferente. O pai é um homem gordo, de bochechas salientes. "Impossível chamar-lhe papá", desabafa. Prefere imaginar como pai um tio, que vê numa fotografia. "Um indivíduo alto, pálido e magro" que morrera anos antes, alcoolizado. Suzanne Vega fixa-se nessa imagem e dedica-lhe uma canção, "Blood sings". "Tinha os mesmos lábios que eu", recorda. É o princípio de uma visão em que a realidade se confunde com o sonho, o voltar da primeira página do seu "Book of dreams" particular. Anos depois uma mulher envia-lhe um pacote com aparas de unhas, cabelos e uma amostra de sangue, garantindo ser a sua mãe biológica. Suzanne entra em paranoia. "Agora já não me sinto segura de mim. A prova é que há cada vez mais médicos nas minhas canções. Antes eram soldados". A febre sobe aos "99,9º F", temperatura do corpo humano ligeiramente acima da normal que dá título ao seu álbum de 1992.

“Sem refrão nem melodia”

            Filha adotiva de uma norte-americana e de um porto-riquenho, Suzanne Vega vive a sua juventude no Harlém hispânico. Aos 9 anos descobre que aqueles não são os seus pais verdadeiros. Aceita com dificuldade a ideia de ser branca. Começa a compor canções aos 14 anos. Sobre temas incómodos como o isolamento, a violência e a amputação, mas em que o distanciamento e o simbolismo estão presentes. A revolta e o sonho moldam a sua personalidade musical. Assiste pela primeira vez a um concerto de rock, de Lou Reed, com quem aprende que é possível compor uma canção "sem refrão nem melodia", características que considera "limitativas".
            Quando "Luka" alcança o êxito que se conhece Suzanne opõe-se com tenacidade ao seu aproveitamento em campanhas humanitárias: "Seria oportunismo". Em vez disso a cantora procede como uma pintora: "Tento dar aos sentimentos das pessoas forma, cor e textura".
            Após um período de rodagem nos clubes folk de Greenwich Village, grava em 1985, com Lenny Kaye (ex-guitarrista de Patti Smith) o seu álbum de estreia, "Suzanne Vega", envergando ainda as vestimentas militantes das cantoras folk de protesto dos anos 60, como Joan Baez, Joni Mitchell, Judy Collins, Laura Nyro ou Melanie. Mas na sua voz percebe-se já uma combinação original de pureza, calor e inquietação. Deste álbum sobressai a primeira de grandes canções, "Marlene on the wall".
            "Solitude Standing", o álbum seguinte, gravado dois anos mais tarde, inclui "Luka" e abre-lhe as portas para outros voos. As suas canções estendem-se ao cinema ("Left of center" é incluído na banda sonora de "Pretty in Pink", de Howard Deutch) e imiscuem-se no minimalismo de Philip Glass, no álbum mais comercial deste compositor, "Songs from Liquid Days".
            "Book of dreams" e "Tom's Dinner" (um bar situado na rua 102, na Broadway, que Vega costuma frequentar) fazem parte do grupo das canções arquetípicas deste álbum. A última delas acabaria por se tornar num "hit", após ter sido samplada pela banda "no wave" DNA. Em 1991 seria editado um álbum só de versões deste tema, "Tom's Album", pelos R. E. M., Nikki Sudden e Beth Watson, entre outros.
            "Days of Open Hand" (1990), "99,9º F" (1992, produzido por Mitchell Froom, com quem casou) e "Nine Objects of Desire" (1996) fazem a transição da menina mal comportada dos primórdios para uma observadora atenta e concentrada no envolvimento instrumental das suas canções. Se "Days of Open Hand" ilustra este crescente interesse pela forma, "99,9º F" representa a primeira incursão sem entraves nos territórios da música eletrónica, enquanto "Nine Objects of Desire" se pauta por um retorno a formas de composição mais depuradas e pela assunção da bossa nova como uma das influências recorrentes na sua música.
            Nos últimos dois anos o nascimento de Ruby alterou a sua vida. O corpo – "O meu corpo mudou e afetou a minha voz" – e o espírito. Como canta em "World before Columbus", que dedica à filha: "Se o teu amor me fosse tirado, mesmo a luz mais brilhante se tornaria difusa".
            Suzanne Vega atuou em Portugal, em Cascais, em Dezembro de 1990. Poemas de infância e letras de canções escritas antes da gravação do seu primeiro álbum foram editadas há cinco anos no livro "Murmúrios Urgentes" (coleção Rei Lagarto, ed. Assírio & Alvim), com tradução de Fátima Castro Silva. O álbum mais recente, a coletânea "The Best of Suzanne Vega, Tried and True", concretiza uma ideia antiga. Como ela diz: "Poderia perfeitamente pegar em todas as minhas canções e voltar a editá-las de forma diferente, para que as pessoas as pudessem experimentar também de maneiras diferentes".

sexta-feira, 11 Junho 1999

ARTES & ÓCIOS

18/02/2015

É outono em Nova Iorque [Suzanne Vega]



Y 19|OUTUBRO|2001
música|suzanne vega

é outono em nova iorque

Em Songs in Red and Gray, Suzanne Vega fala dos seus dramas pessoais num tempo em que o drama passou a ser de todos.
Canções de como o amor também dói como uma guerra.

“Songs in Red and Gray” foi editado logo após os trágicos acontecimentos ocorridos em Nova Iorque a 11 de Setembro. Nada será igual ao que era antes na escrita de Suzanne Vega. Mas como canta em “Last year’s troubles”: “Um infortúnio ainda é um infortúnio e o diabo ainda é o diabo”. A cantora e compositora nova-iorquina falou ao PÚBLICO sobre o medo e o desconhecido. E do seu próprio Outono.

Imaginamos que já tenha respondido a esta pergunta dezenas de vezes nas últimas semanas… onde se encontrava na manhã de 11 de Setembro?
        Estava em Nova Iorque e a primeira coisa em que pensei foi no meu irmão, que se encontrava a trabalhar num edifício situado entre as duas Torres. Felizmente escapou ileso. Só depois é que me fui apercebendo de tudo o que estava a acontecer através da televisão. A princípio, não quis acreditar… como para muitas pessoas, parecia estar a ver um filme. Mas depois vi as Torres a desmoronarem-se e compreendi que era real. Um amigo meu, Jack Hardy, que compôs o último tema do álbum (“St. Clare”) e que não tem televisão, saiu para a downtown também à procura de um irmão que trabalhava numa das Torres e presenciou de perto o desmoronamento. Teve de fugir e abrigar-se debaixo de uma porta. As pessoas fugiam na direção do rio. Foi inacreditável!
O que aconteceu mudou a sua forma de encarar o mundo. Vai passar a escrever de forma diferente?
          É difícil responder. Passei as últimas semanas a reavaliar as canções do novo álbum e cheguei à conclusão de que não conseguirei voltar a escrever do mesmo modo. Ao longo de todos os meus discos fiz parte, desde os tempos de estudante, de uma associação de compositores “interventivos”. Presentemente, ainda não sei através de que ângulo passarei a ver as coisas. É duro. As notícias chegam a cada momento. Na “downtown” ainda cheira a queimado…
Poderá acontecer algo de semelhante aos anos 60, durante a guerra do Vietname: um ressurgimento da música social e politicamente empenhada? A opinião pública começa a dividir-se sobre as consequências da intervenção no Afeganistão…
            Penso que sim… Mas a atitude será diferente. Nos anos 60 havia uma rebelião contra o governo. Agora é mais confuso. A ideia de que a retaliação deveria ser imediata é localizada, centrada em Nova Iorque, não sei até que ponto se generalizou na América. O sentimento que impera é o medo. Para se poder falar sobre o que aconteceu é preciso pôr primeiro os sentimentos em ordem. A questão é: como?
“Songs in Red and Gray” é um álbum intimista. Perante a evidência trágica da história, que sentido encontra ainda na exposição de dramas pessoais?
            Sim… eu sei… o álbum saiu uma semana e meia a seguir aos atentados e agora que o ouço sinto que os meus problemas pessoais parecem pequenos em comparação com a crise global que atravessamos. Mas é preciso continuar a escrever canções. Mas como escrever canções sobre a tragédia, quando começo a pensar em Jack e no seu irmão, ou nas pessoas que estavam nas Torres? Mesmo os compositores da tal associação que referi estão a repensar as suas prioridades.
E quais são as suas prioridades?
            A minha filha, sempre. Tem sete anos. Não está a viver de perto o que aconteceu (vivemos na “uptown”), embora, claro, tenha assistido a tudo pela televisão e ficado chocada. Tentei explicar-lhe com palavras simples o significado da guerra, as imagens dos aviões a chocar contra as Torres, mas ao mesmo tempo proporcionar-lhe um sentimento de segurança. Sei que muitas crianças preferem não falar do assunto e refugiar-se no seu mundo de fantasia. É complicado explicar aquelas imagens de fogo, de pessoas a saltarem pela janela… Nenhuma criança poderá compreender o que se passou.
            As pessoas estão assustadas. Nos aeroportos, a empregada pede o B.I. e deseja-nos um bom voo e as pessoas desatam a chorar.
Uma das canções, “If I were a weapon”, aborda a dicotomia amor-ódio, relações sentimentais que se transformam em guerras… Depois de tudo o que está a acontecer, ainda há lugar para a fúria e a violência na música pop? Em Hollywood os realizadores estão a evitar filmar esses tópicos…
            Penso que esse lugar ainda existe. Fiz uma canção para “99,9ºF” chamada “Blood makes noise”, uma canção muito dura, de confrontação e de medo. Na minha última digressão hesitei em tirá-la do alinhamento, mas acabei por não o fazer e funcionou bem. As canções ganham leituras diferentes, com o tempo. Estive a ouvir “Last year’s troubles”, do novo álbum, e tive uma sensação esquisita ao ouvir um verso como “trouble is still trouble ande vil still evil”…
“Priscilla”, pelo contrário, proporciona alegria…
            Oh, é uma canção simples, sobre alguém que, apesar da idade avançada e de não ser muito bonita, é feliz.
É uma das várias canções onde aparece a palavra “dança”…
            Suponho que sim (risos), mas desde que parti um braço e ando com ele engessado nem sequer posso tocar guitarra. Contudo, a imobilidade fez-me ter mais consciência do meu corpo, dos seus mais ínfimos movimentos. É desconfortável, mas se as pessoas percebessem que nem todas as coisas boas são confortáveis, talvez repensassem as suas prioridades.
“Songs in Red and Gray” é apontado como um dos seus álbuns mais conotados com a poética de Leonard Cohen. Concorda?
            É possível. Adoro Leonard Cohen, mas a minha escrita é mais doméstica. Escrevo sobre o que me rodeia, as mais ínfimas coisas. Ele fá-lo como se tudo se tornasse uma referência, como dramas que podem ser visitados e vividos pelos outros. Quando ele usa um imaginário religioso é o mundo inteiro que está envolvido, enquanto eu me sirvo dele para as minhas explorações pessoais. Em “It makes me wonder”, por exemplo, a Virgem Maria simboliza tanto o lado espiritual como o carnal. Ambos co-existem. É uma canção sobre uma demanda de um ideal irrealista. E, ao contrário de Cohen, não cozinho as minhas refeições embora saiba preparar este ou aquele prato (risos).
Essa canção tem um sabor bastante folk…
Sim, tem muito a ver com Woody Guthrie.
O produtor e autor dos arranjos é Rupert Hine, que passou os anos 70 a gravar discos de rock progressivo. Por que razão o escolheu?
            Foi ele que me “escolheu” depois de ouvir uma “demo” acústica que lhe enviei e ter ficado comovido. Perguntou-se se eu estava disposta a uma reorientação da minha música. Respondi-lhe que não. Ficou um bocadinho desiludido pois estava mesmo disposto a fazer uma remodelação completa, mas acabou por conferir ao disco um “groove” que me agrada.
Há folhas mortas. As cores do álbum são os dourados e o vermelho. As mesmas da sua alma, neste momento?
            Sim são ambos outonais.

05/02/2015

O mestre Leonard Cohen deveria aprender com a discípula Suzanne Vega



Y 12|OUTUBRO|2001
música|clássicos

O mestre Leonard Cohen deveria aprender com a discípula Suzanne Vega

Leonard Cohen e Suzanne Vega têm novos álbuns: Tem New Songs e Songs of Red and Gray. Mestre e discípula. Qual é um e qual é outro? É diferente o Outono de ambos. Cohen renunciou ao céu e afirma-se feliz. Vega continua a piscar, inquieta, mordida pelas abelhas. O ferrão asiu do espírito dele para se cravar na alma dela. Ele cala. Ela dança.

Antes de denegrir o novo álbum de Leonard Cohen e, consequentemente, ser alvejado por todo o tipo de impropérios e outros projéteis verbais pelos admiradores incondicionais deste cantor canadiano que acabou de lançar “Ten New Songs”, devemos confessar que nele sempre apreciámos, em primeiro lugar, o poeta. A música sempre desempenhou na sua obra um lugar secundário, espécie de lenga-lenga melódica que acabou por se institucionalizar como estilo.
É verdade que o velhote que há oito anos aderiu à “filosofia” zen, passando a viver como um monge-cozinheiro no Mount Baldy Zen Center, mas que não dispensa o seu copito (“I fought against the bottle/But I had to do it drunk”, diz um dos versos de “That don’t make it junk”, uma das canções do novo álbum), tem jeito para lidar com as palavras, ainda que, mesmo neste aspeto, “Ten New Songs” esteja longe de evidenciar a acutilância, por vezes apocalíptica, dos primórdios cohenianos, em álbuns como “The Songs of Leonard Cohen”, “Songs from a Room” e “Songs of Love and Hate”.
É um disco de textos simples e música mais simples ainda, nalguns casos a roçar a indigência. Como sempre tem acontecido no passado, mas este disco provoca ainda mais, ou se adora ou se detesta a forma como Leonard Cohen expõe, de forma risível, a sua luz, aos olhos alheios. Já foi intolerável, pela intensidade da exposição, este confronto.
Ao fim de 66 anos de vida desenrolada com a persistência de uma contínua viagem em direção ao silêncio, ficou pouco. Para alguns, o essencial. Para outros, o óbvio, de mãos dadas com o lugar-comum. Mas essa é afinal a etapa última da viagem de auto-descoberta e da renúncia de si próprio. Leva-se uma vida para dizer do fundo do mar o que o comum dos mortais diz de cabeça no ar. Verdades evidentes, ridículas, simplistas. A diferença reside apenas na maneira e na vida de quem as diz. Entre o idiota e o santo, a gramática é a mesma. O sopro do Verbo é que é diferente.
Recentemente Cohen abandonou o mosteiro onde residiu durante quase uma década, reconhecendo a ausência de uma verdadeira vocação espiritual. Renunciou. Curioso: o zen, via do paradoxo, acende-se precisamente quando aquele que o persegue o abandona, o ter cede ao ser. A mão fica cheia ao desistir de segurar. Neste aspeto, Leonard Cohen não tem feito outra coisa senão prosseguir uma coerência que – faça-se-lhe justiça – sempre pautou a sua obra. A simplicidade de “Ten New Songs” desarma. Mas também incomoda. E pode ser irritante. A própria capa do disco mostra o velho cantor e compositor com uma expressão imbecilóide no rosto. Claro que também podemos ver na fotografia a serenidade de um bonzo. Ainda aqui, tudo depende, da intensidade ou da mentira do olhar.

A vida negra. Dito isto, que até soa a elogio, feliz ou infelizmente, “Ten New Songs”, feito em estreita colaboração com duas mulheres (as mulheres sempre preencheram os tempos vivos e os tempos mortos de Cohen) – Sharon Robinson, produtora e co-autora de todos os temas e Leanne Ungar, engenheira de som –, se descolado da lenda e da aura de profeta que sempre rodeou o canadiano de voz de gato-pingado, soa a uma papa vagamente “soul” armada sobre programações a trote do cansaço.
O tema central é, como sempre foi e continuará a ser até chegar o momento de Cohen optar em definitivo pelo silêncio absoluto, o amor. Manda a regra imutável da pop e da arte em geral – o amor infeliz. As fugas, as desistências, as traições, as incompreensões, enfim, todo o conjunto de emoções dolorosas que o ser amado nos inflige, sabe-se lá por que motivações maquiavélicas, e nos faz ser desgraçadamente humanos.
Em “Ten New Songs” Leonard Cohen continua a tentar perceber as razões da avalanche. Faz várias perguntas, quase todas a si próprio, e as respostas, à míngua de uma revelação, surgem na forma de canções. Mas as perguntas de “Ten New Songs” soçobram no vazio e o vento do desalento não deixa de soprar. Ao mesmo tempo que faz o trabalho de limpeza da introspeção, Cohen interroga o advogado do céu ou, na sua ausência, do inferno, justificando as suas maleitas com o mal universal e a indiferença de um Deus que implica com ele e lhe faz – ou fez – a vida negra. Daí a simbologia e estrutura poética religiosa (bíblica?) impressa em canções como “Here it is”, “Boogie street” (ainda o vinho, na sua dupla dimensão dionisíaca e litúrgica…) e “The Land of Plenty”. Não há melhor maneira de tornar universal a dor individual.
A “coroa”, o “vinho” e a “cruz” que Leonard Cohen depõe em “Here it is” passam por ser os sinais de uma agonia que finalmente encontrou plausibilidade e redenção na visão desprendida de quem, já no crepúsculo da viagem, nada mais deseja senão compreender. Mas daí até versos como “May everyone live/And may everyone die/Hello, my love/and my love, goodbye” (em “Here it is”), sobre caixa de ritmos cha-cha-cha, serem tomados como novo evangelho dos deserdados do amor, vai uma certa distância…
O próprio Cohen, em 1988, a propósito das conotações religiosas da sua música, afirmara: “Pensei que poderia espalhar luz, iluminar o meu mundo e o dos que estão à minha volta, que poderia seguir o caminho dos Bodhisattva, o caminho do serviço, da ajuda aos outros. Acreditei que conseguiria mas não fui capaz. Este é um terreno no qual os homens mais fortes, mais corajosos, mais nobres, mais bondosos, mais generosos do que eu, homens que capazes de cometer feitos extraordinários, se despedaçaram ao longo do caminho. Quem lida com o Sagrado acaba por ser dilacerado”.
Treze anos volvidos, no novo álbum, faz a confissão do fracasso, em “The land of plenty”: “Na verdade, não tenho coragem/Para permanecer onde devo permanecer/Não tenho realmente temperamento/Para deitar uma mão amiga”.
“The land of plenty” expõe de forma límpida o dilema: “Don’t really know who sent me/To raise my voice and say:/May the lights in the land of plenty/Shine on truth some day” e, mais íntimo, “Don’t really know why I came here/knowing as I do/What you really think of me/What I really think of you”. Quer dizer, atendendo ao cansaço e à idade, ou aos conselhos que o seu amigo monge Joshu Sasaki lhe terá sussurrado ao ouvido durante a sua estadia no mosteiro, Leonard Cohen desistiu, deixando a esperança para quem tiver ainda a Força: “For the innermost decision/That we cannot but obey/For what’s left of our religion/I lift my voice and pray:/May the lights in the land of plenty/Shine on the truth, some day”. Uma certa forma de “new age” existencial que cai bem. Se é que é possível cair bem… Talvez seja. No presente, Leonard Cohen diz: “Estou feliz”.

Danças com abelhas. Será Suzanne Vega capaz de estender a mão? De conservar e usar a força? De ser feliz? Como Leonard Cohen, seu mestre, Suzanne (uma das canções do canadiano chama-se assim, “Suzanne”) colocou o ênfase na palavra “song” no título do seu novo álbum, “Songs in Red and Gray”. Assunção de um estatuto de cantor-compositor clássico que dispensa associações. As canções a “vermelho” e “cinzento” – o vermelho do coração, o cinzento do cérebro – têm uma só assinatura, imediatamente reconhecível: “Canções Suzanne Vega”. À semelhança de Cohen, há uma voz e um estilo inconfundíveis, quer se goste ou não deles. E, ainda como Leonard Cohen, Suzanne Vega não resiste a cantar sobre as suas desventuras amorosas. Com uma diferença: apesar dos santos e penitentes que assombram “Songs in Red and Gray”, para si, o fim de uma relação não é o fim do mundo.
Suzanne, 42 anos, revolve com outra força as feridas de cada um de nós. Menos mito (mesmo a “Virgin Mary” de “It makes me wonder” é a companheira de “uma exploração carnal” do “sagrado” e do “profano”) e mais sangue fresco.
Nos 66 anos de Cohen, o sangue corre frio e devagar. Nela tudo arde ainda. O ardor do ferrão da abelha cravado na carne. Depois, quer se queira quer não, Suzanne Vega sabe colorir as suas histórias com um vigor instrumental que Cohen desde sempre dispensou. E pintar-se com as imagens de uma simbologia da terra: folhas, abelhas, uma rosa-chaga, um baralho de cartas, aberto em copas – corações. Será uma forma de se cobrir. Cohen vai nu. Ela dança, como uma bailarina.
“Songs in Red and Gray” é, como não poderia deixar de ser, um álbum feito à medida de quem sente e sabe cantar com ternura aquilo que sente. Cohen vai descamando a alma como um réptil. Vega brilha ainda como uma estrela cujo brilho irradia. Cohen arrefece. Vega aquece. Mesmo se “Songs in Red and Gray”, balouçando entre a maquinaria de cetim de “99,9ºF”, orquestrações folky e o arvoredo outonal de segredos ditos, às escondidas, num sonho, não acrescente uma vírgula à grandeza, sinónimo de beleza, oferecida em “Days of Open Hand”.
Ainda assim, o mestre deveria aprender com a discípula. Que é, aliás, o que fazem todos os verdadeiros mestres.