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01/02/2019

Mistérios e maravilhas do progressivo português


11|ABRIL|2003 Y
tantra|música

mistérios e maravilhas do progressivo português

Em Portugal o Progressivo chegou a conta-gotas. Quando lá fora se varriam os cacos e o punk encolhia o rock’n’roll a três notas e o dobro de cuspidela, em Portugal os músicos “descobriam” ser possível fazer algo mais que a canção popular interventiva, a pop canónica dos Beatles e o nacional-cançonetismo.
            Ao contrário, porém, do que sucedeu em Inglaterra, Itália ou França, faltava-nos tradição. Tínhamos a MPP de José Afonso e companhia e, mais para trás, o ié-ié. Também não abundavam os bons executantes e, pior, bons executantes originais. Restava aos músicos que se deixaram impressionar pelos King Crimson, os Gentle Giant, os Jethro Tull, os Genesis, os Yes ou os Van Der Graaf Generator assimilar e copiar os modelos estrangeiros.
            Houve bandas promissoras que nunca chegaram a gravar, como os Kama Sutra ou, para muitos uma das melhores bandas progressivas portuguesas de sempre, os Ephedra. Os Psico tinham em Filipe Pires (mais tarde nos Heavy Band, imortalizados numa célebre primeira parte de um concerto dos Atomic Rooster em Almada) um dos maiores guitarristas da sua geração. Os Perspectiva guardaram o projeco “A Quinta Parte do Mundo” na gaveta. Já os Anangaranga deixaram registados “Regresso às Origens” (79) e “Privado” (80), hoje bastante procurados pelos colecionadores estrangeiros. Dos Saga há a anotar o conceptual “Homo Sapiens”.
            Os Beatnicks, com a vocalista Lena d´Água, poderiam ter ido mais longe do que foram. Ficaram a recordação de um concerto inolvidável em Sintra onde o grupo se entregou com brio à execução de um tema de meia-hora, “Cosmonicação”, no meio de fumos coloridos e projeção de slides psicadélicos, a gravação de dois singles e um álbum tardio, “Aspectos Humanos” (1982).
            Miguel Graça Moura, hoje maestro da “clássica”, lançou os Pop Five Music Incorporated (lembram-se do indicativo do programa radiofónico “Página Um”?) e, a seguir, os Smoog, um dos primeiros grupos a utilizar um sintetizador Moog, acabado de desembrulhar por MGM no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 1973, na primeira parte de um espetáculo do “bluesman” Freddie King.
            Não chegava para criar uma atmosfera, muito menos uma corrente. Mantendo apenas ténues ligações ao Progressivo, a Banda do Casaco, de Nuno Rodrigues e António Pinho, gravaram álbuns importantes como “Do Benefício de um Vendido no Reino dos Bonifácios” (74), “Coisas do Arco da Velha” (76), “Hoje há Conquilhas Amanhã não Sabemos” (77) e “Contos da Barbearia” (78). Mais datado, o álbum dos Filarmónica Fraude, “Epopeia” (69), destaca-se como uma curiosidade resgatada pelo tom de crítica social bem humorada das letras de António Pinho. Júlio Pereira coseu rendilhados progressivos à música tradicional portuguesa em “Fernandinho Vai ao Vinho...” (76)”. Luís Cília gravou um álbum instrumental de ressonâncias progressivas, “Transparências” (78). Quanto ao Quarteto 1111, renovou a pop nacional, entrando para a lenda com “Onde Quando e Porquê Cantamos Pessoas Vivas” (74).
            “Mestre” (73) e “Ascenção e Queda” (76), dos Petrus Castrus, o segundo recentemente reeditado em CD em miniatura cartonada, fornecem pistas honestas do que poderia ter sido o “Progressivo Português” mas não tiveram continuação. Outro álbum, furiosamente apreciado pelos maníacos colecionadores de Progressivo japoneses, tem a assinatura de José Cid: “10000 Anos Depois, entre Vénus e Marte” (79, um delírio “sci-fi” colorido pelas sonoridades do “Mellotron” e do “Moog Synthesizer”).
            Sobram os Tantra, de Manuel Cardoso, o único grupo clássico do Progressivo lusitano. Tinham (e têm...) um conceito próprio, presente na teatralidade (a história regista a apresentação de “Mistérios e Maravilhas”, 1977, no Coliseu de Lisboa como réplica nacional ao “show” dos Genesis), com máscaras e cenários alusivos, e no conteúdo musical. Seguir-se-ia “Holocausto” (79) e a posterior encarnação de Manuel Cardoso na personagem Frodo, que deu origem ao álbum “Noites de Lisboa” (82). Frodo que agora desceu de novo à “Terra”.

Frodo ataca [Tantra]


Y 11|ABRIL|2003
música|tantra

Tantra, Manuel Cardoso, Terra. O regresso da mais importante banda de Rock progressivo português, com os seus delírios mas também o seu idealismo.

frodo ataca

“Terra” é um álbum pautado por preocupações humanísticas e ecológicas. Também um testemunho apocalíptico de tempos à beira do fim. Manuel Cardoso, místico e admirador de Björk, tem, porém, os pés assentes na terra. “Terra” poderá ser o início de um novo ciclo que dará a Frodo uma nova missão. E os Tantra poderão voltar a tocar ao vivo, embora sem a teatralidade que marcou as suas atuações nos anos 70. “Não voltarei a mudar de roupa seis ou sete vezes por espetáculo. Não perdi a energia mas agora apetece-me apenas tocar e compor. Num contexto como o da música de câmara”, diz Manuel Cardoso/Frodo. Que ainda não perdeu o anel do poder e o tenta lançar à Terra.
            Existe em “Terra” uma continuidade apesar da produção ter pouco a ver com a realidade, em 1977, que deu origem a “Mistérios e Maravilhas”...
            Quando fizemos a primeira maqueta, os temas soavam já aos Tantra. Foi importante seguir o aspeto espiritual e musical anteriores, senão não faria sentido manter o nome. Tantra é uma forma de olhar o mundo, com fazer algo superior a nós próprios, em conjunto. A música é complexa mas não por futilidade.
            A introdução do tema “Estrada sensível” faz-se através de uma sequência eletrónica que soa computorizada...
            Mas não há um único computador! Temos o Guilherme da Luz, que faz os efeitos sonoros, com sintetizadores analógicos e digitais. Ele e eu temos um projeto paralelo de música cósmica com guitarras completamente loucas, chamado Everness, com o qual já gravámos um CD de edição limitada.
            Por que razão chamaram ao disco “Terra”. Não é um pouco redundante?
            Refere-se a algo mais do que o simples aspeto ecológico. Os textos e a lógica de algumas composições deste “concept album” reportam-se ao facto da Terra não ser senão uma parte de nós. Não existe isso de “salvar a Terra”; ou salvamos tudo ou não salvamos nada. Nós somos a Terra, o inimigo somos nós. A luta consiste em salvar a nossa ideia de civilização e em criar harmonia para que o planeta e os seus habitantes formem uma única entidade. A ecologia só faz sentido inserida numa perspetiva de uma mudança global.
            Mas o mundo criado para a capa do disco é um mundo virtual criado por computador...
            Não queríamos cair nem na descrição básica nem no bonitinho horroroso. Tentámos fazer passar a imagem de uma viagem de estados de espírito que, no fundo, é uma chamada ao “Eu” que está parado, algures, à espera que o assunto se resolva. Há uma parte de nós que descansa num paraíso interior esquecido, à espera que o mundo seja salvo por si, mas temos que ouvir as vozes que nos chamam para a luta, fazer a transposição e passar para o lado de cá e estar ativo. Tudo se passa num universo onírico. Entre a realidade e o sonho onde todos habitamos.
            As vocalizações estiveram a seu cargo, embora não seja propriamente um grande cantor. A que se deveu esta opção?
            Já nos discos antigos me debrucei sobre esse assunto. Substitui-se ou não o cantor? Canto razoavelmente em inglês, em português, no rock, não, já não gosto. A questão está em que não sou um cantor nem faço esse papel, mas um narrador melódico, teatral. Teatralizo, sou alguém que está a viver uma experiência, a gritá-la do fundo da alma. A voz é um instrumento solo, como a guitarra.
            Como Peter Gabriel?
            Mas o Peter Gabriel canta melhor do que eu! Digamos que as atitudes são semelhantes.
            Tudo isso se sente no tema “À beira do fim”. Não é tecnicamente famoso mas a emoção passa. Talvez mais ainda do que no original de 1977.
            É o tal elo que liga espiritual e até musicalmente os Tantra antigos aos atuais. Infelizmente o mundo não mudou nada. A realidade está como estava nessa altura. A nova roupagem tem a ver apenas com um novo som e um novo espírito da banda. Menos frenético. Eu estou mais calmo.
            A partir de 1976, o termo “Progressivo” foi banido. Hoje a situação mudou, com o termo a ser, inclusive, adotado de forma abusiva. Como explica esta viragem?
            Sente-se um grande cansaço em relação às soluções repetitivas do rock e da pop. Embora a pop, estranhamente, de há uns dez anos a esta parte, até seja mais inovadora, sobretudo pelo lado das mulheres. Estou a pensar nas grandes cantoras folk e country americanas que têm dado lições. Mas também na Björk, um génio. Ouço-a cantar e páro — pela voz, pela originalidade e estranheza dos ambientes.
            Que discos tem dela?
            Nenhum. Nunca tive discos. Ouço música nos sítios. Nunca tive gira-discos na minha vida, não gostava de discos. Gostava das capas, de os ver redondinhos, mas detestava o som. Ouvia música no carro em cassetes. Só agora comecei a fazer uma coleção de CD, cujo som me agrada: música clássica... e a refazer o meu “top ten” antigo, do que tinha em cassetes, Rolling Stones, Hendrix...e coisas mais novas, Anglagard...e portugueses — adoro os Madredeus, os The Gift...
            Existiu nos anos 70 um Progressivo português?
            Antes dos Tantra existiram grandes bandas de Progressivo, os Kama Sutra e os Ephedra. Não perdia um concerto destes últimos. Já tinha visto ao vivo os The Byrds, Frank Zappa, Pink Floyd, Supertramp, Mahavishnu Orchestra, Hawkwind, mas no “top one” das bandas que vi ao vivo estão os Ephedra. Além dos Tantra, era o rock mais bonito que se fazia em Portugal. Menos a meu gosto, mais para o lado dos Van Der Graaf Generator e King Crimson, havia os Kama Sutra e os Ara-Zen. Depois dessas bandas surgiram os Anangaranga e uns assomos mais pró-sinfónicos dos Beatnicks pós-Tantra.
            O que tinham os Tantra a mais do que a concorrência?
            Acima de tudo, determinação e trabalho. Durante três, quatro anos, trabalhámos 8 a 12 horas por dia, incluindo sábados. E estava lá eu, que tenho tendência para lutar pelas coisas, para não deixar que haja o mínimo esforço estúpido. O defeito de muitas bandas portuguesas é perderem muita energia em discussõezinhas, parvoeiras e tricas. Onde eu estou não há tricas. Também pertencíamos a um meio burguês que nos permitiu ter algum apoio, embora tivéssemos pago todo o nosso material com um empréstimo bancário, pago até ao último tostão.
            Concorda com quem chamava aos Tantra os “Genesis portugueses”?
            Não. Mas nunca me chateou. Era uma visão curta das coisas, apenas se reparava nos pormenores. É o mesmo dizer que o Mahler sofreu influência de Beethoven e Bach e que, por esse motivo, eram iguais. Todos aprendemos uns com os outros. Uma das coisas que me dá mais prazer, é ler nos “sites” de Progressivo que os Tantra não se parecem com ninguém.
            Frodo, a personagem tirada de “O Senhor dos Anéis”, volta a estar presente em “Terra”. O recente interesse pela obra de Tolkien teve influência nesse regresso?
            As pessoas achavam que o Manuel Cardoso, por fazer meditação, devia ser uma determinada personagem. Inventei o meu próprio Frodo. O Frodo tinha uma qualidade que existe em todos nós: é um herói, falha imenso e precisa dos outros. Hoje continuo a ser Frodo. Gostaria muito de poder dizer que sou o Gandalf, mas não sou. E se alguma vez na vida chegar a ser o Gandalf, o feiticeiro, serei sempre o “cinzento” e não o “branco”.

23/11/2008

Tantra - Mistérios E Maravilhas

Pop Rock

7 de Fevereiro de 1996
Os melhores de sempre – música portuguesa

Tantra “Mistérios e Maravilhas”

Como foi


Em Inglaterra explodia a raiva “punk”. Por cá, a tendência era fazer complicado. Soar como uma orquestra rock. Os Tantra conseguiram-no melhor do que ninguém. Eram o grupo progressivo por excelência, com longas canções e títulos como “Variações para uma galáxia”. Exímios instrumentistas faziam alarde disso. Bem como de uma teatralidade sem precedentes no rock português. “Quando começámos, éramos só eu e o Armando Gama”, explica Manuel Cardoso. “Ele tinha tendência de ir para a pop e eu para o rock sinfónico, na linha dos Genesis, Yes ou Pink Floyd. Vieram depois o Américo Luís, no baixo, de bases rock mas com tendência para o jazz, e o baterista Tó Zé Almeida, também com uma base rock mas todo virado para o progressivo.” Manuel Cardoso tinha acabado de chegar de Inglaterra, onde fizera parte de um grupo de música de “base celta”. Aí aprendeu “uma das coisas fundamentais para que os Tantra funcionassem: um método de ensaios nessa época totalmente diferente do que se praticava em Portugal”. Trabalho duro. Profissionalismo.
Um profissionalismo que ficou bem patente em todos os que assistiram ao memorável concerto dados pelos Tantra no Coliseu dos Recreios, uma encenação musical na linha do que a banda de Peter Gabriel fizera em “The Lamb lies down on Brodway” e valeu ao grupo de Manuel Cardoso o epíteto de “Genesis portugueses”. “A coisa mais gira é que só a nível imediato é que aquilo foi influência dos Genesis. Nos Tantra havia várias traves-mestras de influências: por um lado a onda do progressivo americano, de ‘monstros’ como o Billy Cobham ou John McLaughlin, por outro seguíamos os Yes ao nível da influência espiritual, eram a nossa escola. O lado visual vem muito de uma força minha, apesar de em tudo o que fazíamos haver uma colaboração de todos. Sempre tive uma tendência muito grande para o teatro, para escrever, para o cinema, sempre fui um apaixonado pela mímica, pela expressão corporal”, garante o guitarrista.
“Mistérios e Maravilhas” é progressivo cantado em português. “Por uma questão de pureza daquilo que queríamos fazer.” No álbum seguinte, “Holocausto”, passaram para o inglês, “pela mesma razão”. Frodo, a personagem de cabeça bicuda cujo nome é do heróis “hobbit” que atravessa as páginas de “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien, e viria a tornar o alter-ego de Manuel Cardoso, surgiu mais tarde. Sinal de um onisrismo, nas suas facetas contraditórias, e de uma viagem que no caso dos Tantra não coincidiu com o uso de alucinogéneos. “Os Tantra nunca tiveram nada de psicadélico. O coração mecânico, o ‘drive’ por detrás do grupo, era eu. Desde o princípio, achei que era uma banda onde devia haver valores positivos. A noção de viagem prende-se com o facto de tanto eu como o baterista fazermos meditação, ‘raja yoga’. Era uma viagem espiritual.” Manuel Cardoso também praticou tantrismo.
O nome “Tantra” foi escolhido, no entanto, apenas por ser “universal”. O de Frodo apareceu por razões de outra natureza. “Tinha uma vida muito espiritual, mas ao mesmo tempo saía à noite até às cinco, seis da manhã, para ouvir música. Uma vida que, para as outras pessoas, não encaixava bem com a tal espiritualidade. Isso irritava-me. Decidi que, se as pessoas achavam que o Manuel Cardoso não tinha o direito de fazer aquilo, se mudasse de nome, iriam entender que quem estava diante delas era uma personalidade que não conheciam e tinham que aprender a conhecer. Ao Manuel Cardoso era fácil chegar ali e dizer: ‘Então Manel, o que é que andas aqui a fazer? Então tu fazes meditação e estás aqui às quatro da manhã na ‘boite’ a beber uma Cuba livre e a dançar?’” Como Frodo, Manuel Cardoso, “atravessou a confusão” e “saiu do outro lado”.
Os Tantra não lutavam contra confusão de qualquer espécie. “As coisas encadeavam-se naturalmente. Existia um estado de espírito em que as músicas surgiam e se encaixavam de uma forma quase mágica.” “Mistérios e Maravilhas” é, para o guitarrista do grupo, “fruto de uma forma de estar” típica da sua época. “No que estava feito ali havia uma relação muito directa entre o que fazíamos e o que sentíamos. Hoje trabalha-se a música de uma maneira mais técnica, mais efectiva. Para nós, nessa altura, a vida estava de facto cheia de mistérios e maravilhas.”
Menos misterioso é o mínimo que se pode dizer do período de gravação do disco. “Uma epopeia”, nas palavras do músico. “O disco foi gravado em oito pistas, o que nos apresentava problemas graves. Por exemplo, levámos a nossa aparelhagem para o estúdio da Valentim e pusemos a bateria, que normalmente necessita só para si desse número de pistas, a passar pela nossa mesa de mistura de dezasseis canais que depois entraram noutros dois da mesa final. O técnico fazia o som no andar de baixo, só com a bateria, que depois era gravada no andar de cima. Foi quase um milagre gravar todos os outros instrumentos nas restantes seis pistas.”
Histórias, aconteceram várias. A do baterista que o médico “proibiu de tocar para o resto da vida” por “ter um problema de coração”, mas que acabou por gravar todo o álbum seguinte e fazer a digressão completa da banda. Ou da maneira como o piano de Armando Gama era transportado para os espectáculos, “cinco ou seis a carregarem um piano vertical de um quarto andar de um daqueles prédios antigos da Avenida da República, sem elevador, pelas escadas abaixo, para o concerto”. Coisas de “amadores” que “adoram o que fazem”. Trabalho, trabalho, trabalho. Uma das formas que permitiu a construção do sonho. “Nos dois primeiros anos ensaiámos doze horas por dia, incluindo os sábados. Mais dois ou três anos numa média de oito horas por dia, já com fins-de-semana livres, embora tocássemos aos sábados. Só mais tarde é que passámos para quatro horas por dia. Trabalhávamos que nem uns cães. Para fazer aquele género de música era preciso trabalhar muito, era muito complicado. Ainda hoje é difícil tocar algumas partes.”
Hoje, Manuel Cardoso, concluído um período de actividade na publicidade e na produção de bandas novas como os Doutores e Engenheiros ou os Vodka Laranja, pretende, de novo, “interactivar com a sociedade” enquanto músico. O desejo de regressar aos palcos só espera pela concretização do seu novo projecto, uma nova banda de “rock sinfónico” na mesma “linha espiritual” dos Tantra. Será a ressurreição do progressivo em Portugal? Mistério! O reactivar da “máquina da felicidade”? Maravilha

Como é

Era num tempo em que os dragões voavam num aquário e o mundo se oferecia em mistérios e maravilhas. Um tempo em que a música se fazia sem segundas intenções, apenas pelo desejo e necessidade de exteriorizar ideias e emoções. Por mais estranhas e, por vezes, desajustadas da realidade que fossem. Era assim em 1977, em Portugal. Já deixara de o ser em Inglaterra, no ano em que o progressivo era massacrado pelo “punk”. Por cá, o desfasamento temporal permitiu aos Tantra serem os primeiros e talvez únicos representantes da música progressiva produzida com o mesmo profissionalismo dos grupos “lá de fora”.
É verdade que antes já José Cid mostrara o esboço do que poderia ser um psicadelismo lusitano, os Petrus Castrus tinham apresentado o seu “Mestre” e os Beatnicks, com Lená d’Água, deixaram perder no esquecimento uma épica “Cosmonicação” apenas revelada ao vivo a alguns eleitos. Mas foram os Tantra que encheram o Coliseu de Lisboa, trazendo as máscaras, o virtuosismo instrumental e os efeitos especiais para uma música que até essa altura raramente excedera o amadorismo e nunca conseguira afirmar um conceito estético suficientemente autónomo para ultrapassar o mero estatuto de curiosidade.
Os Tantra tinham modelos, nunca o negaram, como os Genesis, pelo lado da teatralidade, os Yes, na complexidade orquestral dos arranjos, ou um jazzrock de fusão irmanado no misticismo de John McLaughlin. Souberam contudo reivindicar uma fantasia e liberdade de movimentos próprios. Um sentido de viagem, de sonho e libertação interiores que para muitos serviu de escape contra um quotidiano cinzento e musicalmente confrangedor. São ideias que ao longo da década seguinte deixaram de fazer sentido, mas que hoje a emergência de um novo psicadelismo e a busca de algo mais na música do que o simples funcionalismo ajudaram a recuperar. Os mistérios e as maravilhas não perderam a cor.