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23/12/2019

Balanço [Jazz]


JAZZ
BALANÇO
PÚBLICO 3 JANEIRO 2004

Das recriações em grande estilo, de Bourassa e Hemingway, ao novo corte radical dos Spring Heel Jack se fez o melhor jazz chegado a Portugal este ano. Pontes para o futuro que os portugueses atravessaram sem receio. Nas reedições, saúdem-se as velhas glórias Armstrong, Holiday, Webster e Gordon mas 2003 foi também o ano de Sun Ra. Além dos dois capítulos do “mito solar” chegaram de Saturno outros dois momentos fulcrais da saga intergaláctica: “It’s After the End of the World” e o volume duplo das “Nuits de la Fondation Maeght”.

1 FRANÇOIS BOURASSA TRIO
Live
Effendi, distri. Multidisc
Bourassa é um pianista de exceção, capaz de equilibrar “clusters” tão vastos como o cosmos com miniaturas de ourives, além de fabuloso arquiteto e desenhador de “riffs”, de uma fluência e imaginação inesgotáveis. Cidades construídas dentro de cidades, segundo uma infinidade de escalas sobrepostas O modo como “30 Octobre 85” cresce de motivos simples para o recorte de frases cuja força e complexidade se concentram na recriação do “Big Bang”, em conjugação com o desempenho explosivo de André Leroux, no tenor, constitui um daqueles momentos raros de audição de música em que apetece gritar de excitação. Tudo a transbordar de “swing”, mais a oferta de um espetacular momento de bop e um “medley” de Monk que entra diretamente para a galeria dos clássicos.

2 SPRING HEEL JACK
Live
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
A dupla exilada do drum ‘n’ bass, John Coxon e Ashley Wales, reincide com o mesmo bando de “malfeitores” de “Amassed” (Han Bennink, Evan Parker, William Parker, Matthew Shipp e J. Spaceman) em duas longas improvisações que projetam a música numa selva de criaturas mutantes. O que em “Amassed” surpreendia pelo lado estrutural explode aqui num espetacular “tour de force” de jazz multidimensional e orgânico onde a raiva, a inteligência e a inovação andam de mãos dadas. Como se a “free music” dos anos 60 decidisse que o futuro lhe volta a pertencer.

3 GERRY HEMINGWAY QUARTET
Devils Paradise
Clean Feed, distri. Trem Azul
Como pode o diabo habitar no paraíso? Encare-se a questão do seguinte modo: O que Hemingway e os seus companheiros fazem é simultaneamente uma revolta e uma libertação das linguagens tradicionais do jazz, através de uma reconversão que devolve o prazer sob novas formas. Improvisador nato, o baterista mantém latente um estado de tensão que Eskelin estica até aos limites e Ray Anderson, pelo contrário, contraria, distendendo e embalando a música com um gozo infantil, de marchas, “gospel” e “Dixieland”.

4 DAVE HOLLAND QUINTET
Extended Play
2xCD ECM, distri. Dargil
Obra monumental gravada há dois anos no mítico Birdland de Nova Iorque. Holland justifica esta aventura em larga escala com a necessidade de explorar novas fórmulas para temas antigos, fazendo delas “veículo para a intuição e a imaginação”. “Extended Play” ostenta a novidade e a incandescência do princípio do mundo. E, porque não, do princípio do jazz. Contra tais factos, contra um baixo como este, não há argumentos.

5 GIANLUIGI TROVESI OTTETTO
Fugace
ECM, distri. Dargil
“Fugace” é um mundo. A música de baile italiana do pós-guerra, reminiscências do boogie-woogie e do jazz de Dixieland, o swing de Benny Goodman, citações de Louis Armstrong, mas também Scarlati, Duffay e Bartok, mais eletrónica em intricados rendilhados, combinam-se numa síntese absolutamente original que se desfruta como a visão de um vasto e épico “western spaghetti” em Cinemascope e som Sensaround.

6 JEAN DEROME/LOUIS SCLAVIS QUARTET
Un Moment de Bonheur
Victo, distri. Trem Azul
Sclavis, herdeiro de Portal, e Derome, canadiano com larga e por vezes burlesca obra na editora Ambiances Magnétiques encontram-se neste entusiasmante diálogo de música improvisada, em uníssonos, contrapontos e fugas que atingem o âmago do “free jazz” nos longos “L’errance” e “Suite pour un bal”, esta última cortada a meio por uma descarga de ruído e de…rock, na melhor tradição da escola RIO (“Rock in Opposition).

7 VANDERMARK 5
Airports for Lights
2xCD Atavistic, distri. Ananana
Saber e cheiro a Chicago. “Airports for Lights” junta em doses exatas o esquematismo hermético-matemático de Braxton, o fluxo sanguíneo de Parker e o palimpsesto de discursos sobrepostos de Dolphy. Mas Vandermark confronta-nos com um poder que é só seu. Entre o “bas fond” do pós-jazz de Chicago, o “blues” em figurações cubistas, o “hard bop” futurista e o “free” mais solitário e estratosférico, o saxofonista faz o que quer, com o desplante dos génios.

8 AKOSH S. UNIT
Vetek
Ed. e distri. Universal
“Vetek” cultiva o gosto pelas músicas do mundo, em sintonia com uma visão planetária construída sobre raízes comuns mas plurifacetada nas suas ramificações. Rasteja e amontoa tensões e clímaxes, profana os templos zen de Stephan Micus e Steve Shehan, acolhe o grito nas florestas cerimoniais de Boris Kovak para finalmente rejubilar na tradição e espalhar a felicidade e o êxtase.

9 JOHN SURMAN
Free and Equal
ECM, distri. Dargil
Inspirado na Declaração dos Direitos Humanos, este registo ao vivo no Queen Elizabeth Hall, Londres, junta o saxofonista inglês com Jack DeJohnette e a orquestra de metais London Brass numa obra em larga escala notável que combina sequências instrumentais majestosas, secções improvisadas, diálogos luminosos entre os dois solistas, o espírito do Barroco e o romantismo característicos de Surman.

10 MARTY EHRLICH
Line on Love
Palmetto, distri. Trem Azul
Adepto de aventuras conceptuais, Marty Ehrlich entrega-se a uma inflexão na tradição e num jazz de grande lirismo de que andava arredado em trabalhos como o igualmente estimulante “The Long View”. Os desempenhos no sax alto são de altíssimo calibre, como no surpreendente e hardbopante solo, em tempo lento, de “St. Louis Summer”, concluindo a tocar clarinete baixo na magnífica arquitetura rítmica de “The git go”.

11 MICHAEL BRECKER QUINDECTET
Wide Angels
Verve, distri. Universal
Brecker dirige uma “big band” de 15 elementos e não desperdiça a oportunidade para se revelar, além do saxofonista de costela coltraniana (embora sem a preocupação de atirar o jazz para esferas inatingíveis) que é, um surpreendente arquiteto e arranjador, capaz de fazer saltar da cartola soluções harmónicas e rítmicas surpreendentes. “Wide Angles” faz renascer no reino da fusão a esperança de que o jazz continue a ser a força-motriz.

12 TIM BERNE
Science Friction
Night Bird, distri. Trem Azul
“Science Friction” revela o lado descontraído e mais mundano do saxofonista. Emparceirado com o jazzrock, a turbina “funk” do movimento M-Base e o jazz progressivo, passam por aqui correntes realmente futuristas, na guitarra de Marc Ducret e nos teclados elétricos de Craig Taborn. Antecipação jazzística de um futuro que afinal continua a ser de marcianos verdes, máquinas do tempo e pistolas de raios laser.

13 JANE IRA BLOOM
Chasing Paint
Arabesque, distri. Multidisc
A saxofonista soprano e manipuladora de “live electronics” Jane Ira Bloom transpõe para música o universo pictórico do pintor Jackson Pollock. A luz, neste caso, não se esconde mas brilha no lirismo de “The sweetest sounds”, refletida nas “Many wonders” que recompensam quem se dispuser a viajar até ao término da “Alchemy”, onde uma “white light” se vislumbra enfim. Jazz sem amarras, filho da tradição mas pujante na tensão criativa.

14 DAVID S. WARE
Freedom Suite
Aum Fidelity, distri. Ananana
Ware, o mais Coltraniano dos tenoristas da nova geração, entrega-se à tarefa “Rollinsoniana” (ele que já recriara, de resto, deste compositor, “East Broadway Run Down”) com uma paixão que chega a ser avassaladora. Acompanham-no o habitual quarteto formado por Matthew Shipp (piano), William Parker (baixo) e Guillermo E. Brown (bateria), imprimindo em conjunto um sentido ascensional à obra que em Rollins se desenrola à luz de um sentido lúdico e de uma liberdade mais “horizontal”.

15 ANGELICA SANCHEZ
Mirror Me
Omnitone, distri. Trem Azul
Um estilo discreto de execução e ausência de preconceitos permitem a Angelica tocar tanto a música sacra de Olivier Messiaen como a “country” de Merle Haggard ou o “boogie pop” dos T. Rex. Mas “Mirror me” é jazz ao mais alto nível, em “environments” dirigidos à criatividade de solistas como o Michael Formanek e Tony Malaby. O diálogo entre a ternura e a ferrugem, do sax, e o metal e água da pianista, no título-tema, é um dos pontos altos e de maior extravagância de “Mirror Me”.


REEDIÇÕES
1 LOUIS ARMSTRONG The Complete Hot Five and Hot Seven Recordings, Vol. 1, 2 & 3 Columbia, distri. Sony Music
2 BILLIE HOLIDAY The Billie Holiday Collection, Vol.1, 2, 3 & 4 Columbia, distri. Sony Music
3 BEN WEBSTER Soulville Verve, distri. Universal
4 DEXTER GORDON Our Man in Paris Blue Note, distri. EMI-VC
5 SUN RA The Solar-Myth Approach, vol. 1&2 Sunspots, distri. Trem Azul

PORTUGUESES
1 CARLOS BARRETTO Locomotive Clean Feed, distri. Trem Azul
2 MÁRIO LAGINHA & BERNARDO SASSETTI Mário Laginha & Bernardo Sassetti Ed. autor, distri. FNAC
3 RODRIGO AMADO, CARLOS ZÍNGARO, KEN FILIANO The Space Between Clean Feed, distri. Trem Azul
4 SEI MIGUEL Ra Clock Ed. e distri. Headlights
5 JOÃO PAULO, PAULO CURADO, BRUNO PEDROSO As Sete Ilhas de Lisboa Clean Feed, distri. Trem Azul

17/12/2018

As curvas do caminho [Jazz]


8 FEVEREIRO 2003
JAZZ
DISCOS

Django Bates, Tim Berne, Matthew Shipp. Ou como o jazz pode enveredar por ínvios desvios. Umas vezes, perdendo-se, outras não.

As curvas do caminho

Triste Inverno, este, da nossa incredulidade, do nosso medo e da nossa insegurança. Como triste foi sempre uma grande parte do jazz e das vidas que o fizeram. Caminhos onde o amor não tem abrigo e fala baixo. “Speak low”, tema de abertura de “Quiet Nights”, do teclista inglês Django Bates (frequentador de paragens jazz-rock, ao lado de Bill Brufford ou do saxofonista Iain Ballamy, de resto aqui presente) é um murmúrio quente e melancólico como os de Annette Peacock, mistura de balada e eletrónica, “lounge” difuso de sentimentos e programações, com a voz de Josefine Cronholm em lugar de destaque. Um mundo suspenso nas margens do jazz e de uma “world” imaginária, tão próximo de Peacock como de Anja Garbarek, Sade e da bossa-nova. Suspiros, “scat” indolente, ventos do Tibete, Ballamy a tentar enquadrar no seu saxofone o jazz mais ortodoxo, e Weill, Tom Jobim e Duke Ellington, Bates a mexer nos botões e nos circuitos como se cozinhasse um bolo de “chantilly” na selva amazónica e Josefine a fazer o papel de diva lânguida numa cerimónia permissiva. Noites exóticas.
            Tim Berne também não é propriamente um purista, fazendo parte de uma família que reúne, entre outros, os irmãos Cline, Mark Dresser, Joey Baron, Bill Frisell, Drew Gress, Tom Rainey e — habitante já de outra dimensão — Michael Formanek.
            A arte do seu saxofone alto, influenciada por Julius Hemphill, por demasiadas vezes tem sido desvalorizada, ao mesmo tempo que são louvados os seus esforços na pesquisa e procura de novas formas de “desalinhamento”. Em “Open, Coma” (2001) encontramo-lo rodeado por uma banda de dez elementos constituída por músicos nórdicos, os Copenhagen Art Ensemble, pelo guitarrista-improvisador Marc Ducret e pelo trompetista de alto risco Herb Robertson, numa obra de grande fôlego gravada maioritariamente ao vivo no Jazzhouse de Copenhaga (apenas um dos quatro temas foi registado em estúdio, na Suécia) de “big band” ansiosa por libertar-se de todos os espartilhos.
            Quatro únicos temas, longuíssimos (“Eye contact” dura 46 minutos, “The legend of p-1”, 33 e “Impacted wisdom”, 41...) proporcionam encontros e desencontros, desvarios “free” e complexas arquiteturas coletivas, com largo espaço de manobra para os desempenhos individuais. Por vezes, parece faltar cola que mantenha unida a estrutura, ficando no ar uma certa ideia de gratuitidade. Talvez uma menor cronometragem garantisse maior identidade e estabilidade a esta música que recusa os géneros, sem, contudo, deixar de os utilizar, e sem esgotar as possibilidades oferecidas por cada um. O segundo CD sofre dos mesmos defeitos, mas a música adquire tonalidades mais sombrias, evocando alguns momentos de “The legend of p-1”  impressionismo lúgubre de Carla Bley em vestido de luto ou o cinema “alien” de Michael Mantler (Herb Robertson consegue soar como se soprasse de uma galáxia distante!...), enquanto Ducret dá largas à sua veia hendrixiana (ou, mais diretamente, herdada de Sonny Sharrock). Quanto a Berne, dá o melhor de si por volta do minuto dez de “Impacted Wisdom”, gritando nos agudos como se estivesse a pedir ajuda... Um bom, nalguns momentos impressionante, disco, que, no entanto, não consegue atingir a altura do gigante que aparenta ser.
            Gravado no ano seguinte, 2002, “Science Friction” revela o lado mais descontraído, mas também mais mundano, do saxofonista, sem que se possa confundir mundanidade com leviandade. Entre o jazzrock, a turbina “funk” do movimento M-Base e o jazz progressivo, passam por aqui correntes realmente futuristas, na guitarra de Ducret e nos teclados elétricos de Craig Taborn. Se “Open, Coma” é um disco para fazer pensar como um tratado hermético, “Science Friction”, pelo contrário, nada mais pretende do que pôr em alerta máximo os sentidos e fazê-los gozar (friccionar...) o mais possível. Não tem a dimensão épica de um Frank Herbert ou de um Robert Heinlein, nem o lirismo mágico de um Simak ou de um Bradbury, muito menos a esquizofrenia sagrada de um Philip Dick, esta antecipação jazzística de um futuro que afinal continua a ser de marcianos verdes, máquinas do tempo reguladas para o passado e pistolas de raios laser. Mas entra-se nele como num romance de aventuras. E basta escutar a maneira como o saxofonista sopra em “Manatee woman” para se perceber como um homem pode ser feliz.
            Nas já míticas “Blue Series” da Thirsty Ear, o pianista Matthew Shipp, atual parceiro das aventuras místicas de David S. Ware, arranca em “Equilibrium” uma música sem segundas leituras, baseada no “riffi ng” e num “punch” sem quebras. William Parker encarrega-se, como seria previsível, do contrabaixo, com a segurança e espírito interventivo de sempre, Gerald Cleaver chega a ser indigente na bateria (“The root”), mas é Khan Jamal, no vibrafone, que se afirma como primeiro dialogante do piano. Alguém disfarçado sob a sigla FLAM toca sintetizadores e organiza as programações, sem que o equilíbrio do todo se ressinta de excessiva eletrificação, embora “Nebula theory” e “Nu matrix” possam ser enquadrados nos mesmos parâmetros de “Amassed”, dos Spring Heel Jack: Jazz cósmico, com centro de gravidade nas estrelas, como Sun Ra lançara a profecia. “Cohesion” e “World of blue glass” são as faces opostas de uma mesma moeda. Manobra de diversão (concluída em “Portal”, curta homenagem ao músico francês) apelativa no primeiro caso. Assunção da interioridade como fonte primordial do jazz, no segundo. Não vive muito do jazz atual deste dilema?

DJANGO BATES
Quiet Nights
7 | 10

TIM BERNE
Open, Coma
7 | 10
Science Friction
8 | 10
Todos Night Bird, distri. Trem Azul

MATTHEW SHIPP
Equilibrium
7 | 10
Thirsty Ear, distri. Trem Azul