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04/03/2019

UHF - La Pop End Rock


Y 20|JUNHO|2003
música|uhf

Nos 25 anos de carreira, um auto-retrato em forma de ópera-rock. António Manuel Ribeiro, Joad, numa viagem que se inicia no rock e não se sabe como termina. “La Pop End Rock”.

cavalos de corrida


2003 não é boa altura para se fazerem óperas rock. Aconselha a prudência a que se apague, pelo menos, o termo “ópera”. Os UHF fizeram ouvidos de mercador e foram para a frente com o seu último projeto, uma “ópera rock” intitulada “La Pop End Rock”, lançada – oh, heresia! – em duplo CD, com um rótulo a assinalar 25 anos de carreira.
            Os UHF podem não ser o grupo mais sofisticado do mundo mas serão, e sobre isso haverá poucas dúvidas, um dos mais coerentes e corajosos. Sempre fizeram o que achavam que deviam ser feito, sem olhar a preconceitos nem se deixando levar pelos ventos da moda. “La Pop End Rock” é, segundo os próprios, uma “obra ficcionada sobre a carreira oficial e a vida não documentada dos UHF”. Ficcionada ou não, as letras e as notas informativas sobre cada tema, que podem ser lidas no “livrete” fornecido independentemente (não cabia na caixa de plástico) do CD, remetem para ou descrevem episódios nos quais é difícil não descortinar peripécias e personagens reais que atravessaram a vida do grupo.
            António Manuel Ribeiro (AMR) é Joad, o herói, como Peter Gabriel o fora, com o pseudónimo Rael, em “The Lamb Lies down on Broadway”. As restantes personagens incluem uma fada, Ana, um crítico, um fã, o velho pastel, Shi, um dealer, o agente e duas groupies. E um coro (personificado num “grito de mãe”, no “homem da garagem” ou na “voz da serpente”), que a intervalos sublinha ou antecipa a ação, proclamando em registo épico: “genial”, “hospital”, “anormal”, “tribunal”. O tema de abertura, “Nascer/Os Primeiros acordes”, conta com a intervenção de uma orquestra sinfónica e, lá mais para a frente, é possível escutar-se naipes de cordas, além das guitarras de António Côrte- Real, o piano e Jorge Manuel Costa e, claro, a voz, mas também os sintetizadores, de AMR.
            Ao todo são 35 histórias/episódios/fragmentos, em registos que vão do confessional ao descritivo, do esoterismo místico dos contactos com uma misteriosa fada ao realismo exacerbado da vida na estrada – “Mais frango, não”, brada AMR em “Uma história com (a)gente”. Histórias que falam da droga, do álcool, da noite, da solidão, das ressacas, do desencanto, da desistência, do abandono e da reconciliação. De amores passageiros e amores que deixam marcas para sempre. Encontros e separações. Glória e rotina. Da alegria e das pulsões suicidárias. Dos palcos, das terras por onde se passa até se lhes esquecer os nomes, e dos hotéis. Dos críticos e de canções. Dos putos – os fãs, todos “número um”. Da raiva, de quimeras e de guitarras elétricas. De Joey Ramone. Do rock‘n’ roll. E, em epílogo, do DJ que”como ninguém, quer matar a cantiga”.

            um género que fez história. Foi nos anos 70 que o género “ópera rock” levou ao absurdo a fórmula do “álbum conceptual” que animou uma fatia razoável do rock progressivo. Se o rock progressivo era sonho, ambição e literatura, a “ópera rock” foi teatro e exagero. “Tommy” e “Quadrophenia”, dos The Who, permanecem como paradigmas de um género que, já no ocaso da década, originou “The Wall”, dos Pink Floyd e que antes passara, mais ou menos camuflado, por “The Lamb Lies Down on Broadway”, dos Genesis. Já “Hair”, “Oh, Calcutá” ou “Jesus Christ Superstar” inserem-se sobretudo na tradição do teatro musicado, no “music hall”, imbuído do espírito “hippie”, mais do que no teatro popular, de cabaré e cariz ideológico marcadamente de esquerda, desenvolvidas por Brecht, Kurt Weill e Hans Eisler. Antepassados da ópera rock, encontramo-los recuando aos anos 60, em obras como “S. F. Sorrow”, dos Pretty Things (da qual se diz ter influenciado Peter Townshend na idealização dos seus projetos megalómanos com os the Who) ou “The Story of Simon Simopath”, da banda inglesa de pop psicadélica Nirvana.
            Na atualidade, músicos/escritores como Philip Glass, Laurie Anderson, Robert Ashley, Meredith Monk, Heiner Müller ou Tod Machover subtraíram ao género o “rock”, substituindo-o por “vídeo”, “multimédia”, “performative art”, “programático”, etc, de acordo com conceções que revertem as formas tradicionais do teatro para os novos moldes permitidos pela introdução das novas tecnologias eletrónicas, tanto ao nível gráfico e cenográfico como musical. Os UHF apenas pretenderam contar uma história. A sua história. Com circunstância e alguma pompa. “Ópera rock” oblige...

            pela estrada certa. As pretensões dos UHF são mais modestas. Embora AMR, referindo-se à efeméride do 25º aniversário do grupo, afirme, sem falsas modéstias: “Se fôssemos americanos estávamos a caminho de sermos carimbados no rock ‘n’ roll hall of fame!”. Em vez de um álbum de tributo (“significa em geral que já se está com os pés para certo sítio!...”) preferiu a “provocação” do formato “ópera rock”. “Resolvemos ser nós a fazer a nossa história antes que aparecesse alguém a fazer alguma parvoada”.
            Fazer este duplo álbum exigiu dedicação a tempo inteiro. Só “La pop end rock”, chave do álbum, garante o veterano rocker nacional, “passou por três arranjos diferentes”. “La Pop End Rock” é álbum que permitirá aos admiradores do grupo, além da música, deliciar-se com a decifração das charadas que se encontram disseminadas pelas letras (quem é “Aime eme ra”?). “La Pop End Rock” tem orquestra, tem canções com a força de “Cavalos de corrida”, tem uma mística que o grupo, a mal ou a bem, tem conseguido manter intacta e bem colada ao corpo.
            Há quem odeie, quem encolha os ombros com desdém, mas também quem sinta uma curiosidade irresistível de espreitar para dentro de “La Pop End Rock”, nem que seja para avaliar o estado do rock em Portugal. Históricos ou dinossáurios, não desistem de dar o salto em frente e de não estancarem o fluxo de adrenalina que continua a escorrer sempre que se liga uma guitarra elétrica à corrente. AMR, Joad, é o herói com uma causa, o sobrevivente, o noctívago-agora-menos que fala dos Velvet, dos Doors, de Neil Young, de Keith Richards e de Peter Hammill, que afirma que “o rock português é do mais bem escrito do mundo” e que permanece à boca de cena a cantar “Do céu ao inferno, pode ser assim, do céu ao inferno, sem sair daqui!”. Provocatório, “La Pop End Rock” é um álbum sem papas na língua que obrigou mesmo a que se lhe colasse na capa o rótulo “linguagem explícita”. AMR é um pedaço vivo da tradição do rock ‘n’roll em busca, ainda e sempre, da redenção. “Por três minutos na vida/Acharei a felicidade/Na canção prometida/A minha felicidade”.
            Entre os naipes de violinos, o piano introspetivo, as guitarras galopantes e melodias que não cessam de dar a volta ao que sempre se trauteou dos UHF, descobrem-se boas canções: “Um anjo no meu quarto”, “Fora da garagem, já!”, o sarcástico “Quero um lugar no top inglês”, “Uma história com (a)gente”, “Joey Ramone”, “A noite inteira”, “A lágrima caiu”, “Por uma guitarra elétrica”, “Aqui vamos nós/sem disfarce”, a velvetiana “Memórias de hotel”, “Por três minutos de vida”, “Ai eme ra”... Joad há-de continuar a procurar, pela estrada, a que seja perfeita. A cantar “Eu escolhi a estrada certa”. A máscara de AMR é transparente.

UHF
La Pop End Rock
2xCD Capitol, distri. EMI – VC
7|10

02/08/2016

UHF + GNR

Pop Rock
17 de Outubro 1990

UHF
Julho, 13
LP duplo e CD, Edisom

GNR
In Vivo
LP duplo e CD, EMI-Valentim de Carvalho

São sobreviventes. São os dois que ficaram do tempo das iniciais: CTT, NZZN, TNT, lembram-se? Era a grande balda, a grande paródia. Duas guitarras, baixo e bateria chegavam para se gravar um disco. Assaquem-se as responsabilidades a Rui Veloso, que ainda hoje se deve estar a rir. Na época, UHF e GNR eram dois de entre tantos grupos que passaram pelo “Rock em Stock”, como toda a gente. UHF e “Jorge Morreu”, “Cavalos de Corrida”, “Rua do Carmo”, hinos entoados com entusiasmo por uma juventude que num ápice descobria que a música rock afinal não vinha só da estranja e que era possível encontrar entre portas o escapismo ideal para as suas angústias suburbanas. Porque era nos subúrbios, primeiro em Almada, depois nos arredores das restantes cidades, que respirava a alma coletiva dos UHF. Os GNR eram diferentes: “Espelho Meu” e “Sê um GNR” aliavam o narcisismo a uma subtil provocação. Onde os UHF apostavam desde o início num rock duro e “quadrado”, a banda de Vítor Rua escolhia a pop mais melodiosa, então ainda assimilada de forma incipiente. Com a chegada de Rui Reininho, tudo mudaria de figura.
UHF e GNR, ou vice-versa, para não ferir suscetibilidades, passaram, ao longo de dez anos, por fases boas e más. Houve crises, zangas, acidentes, discos de ouro, fracassos, grandes espetáculos, bailes de província, “apoteoses”, sempre adiadas, no estrangeiro. Entraram músicos, saíram músicos. Alexandre Soares, o mais recordado nos GNR. Renato Gomes, nos UHF. Ambos os grupos, independentemente da qualidade musical intrínseca do seu trabalho, souberam atravessar uma década mais ou menos incólumes. Gravando discos e, proeza das proezas, conseguindo, a dada altura, viver apenas desse trabalho. Instinto de sobrevivência só traduzido realmente em vida de facto, quando acompanhado pela tal qualidade, separadora do trigo e do joio. Dito de outro modo: A lei da selva em que sobrevivem os aptos e morrem os fracos e azarados, que o fator sorte também conta nestes casos. Evoluíram de forma diferente. Enquanto os UHF se mantiveram sempre fiéis a uma determinada linha, um rock de intervenção filtrado pelas vivências pessoais do seu líder incontestado, António Manuel Ribeiro, os GNR fizeram da heterogeneidade e surpresa constante o seu cavalo de batalha – entre “Espelho Meu”, “Avarias, “Hardcore” ou “Dunas” não existe rigorosamente nada em comum senão o inconfundível estilo vocal de Rui Reininho.
António Manuel Ribeiro e Rui Reininho são hoje, sem sombra de dúvida, duas das figuras de proa do rock ou da pop que por cá vamos tendo. Tão diferentes um do outro como um planeta de uma estrela. AMR (António Manuel Ribeiro) é o planeta, duro e sólido. RR (Rui Reininho) é a estrela, frágil e faiscante. AMR é Jim Morrison, voz rouca e monocórdica. RR é Bryan Ferry, ágil e amaneirado. AMR de há anos para cá que usa o mesmo corte de cabelo comprido, é anos 70, não liga ao “look”. RR usa cabelo curto e penteado, todo “style”, é pós-moderno, anos 80. Ambos são poetas, por assim dizer, mas enquanto AMR fala de coisas concretas e diretas como a “rua do Carmo”, “na tua cama” e “noites lisboetas”, com a convicção de quem quer mudar o mundo, RR, pelo contrário, esconde-se em trocadilhos e estrangeirismos ambíguos. Parece estar-se sempre nas tintas para tudo e a fazer cinema: “(Um chamado) eléctrico desejo”, “Morte ao Sol”, “Hardcore (1º escalão)”, “Vídeo Maria”. AMR ataca sempre de frente: É contra a tropa, defende com unhas e dentes as relações heterossexuais (de preferência numa cama que parece ser o lugar mais indicado para estas coisas), militante do rock que considera como “uma forma de vida”. RR não leva a sério nem sequer as suas próprias convicções. Quando diz que quer ver “Portugal na CEE” há quem acredite. Há rapazes na brincadeira, sobre as “dunas”. Provoca com um ar inocente. É capaz de afirmar a pés juntos que “Vídeo Maria” apenas diz respeito a uma tal Maria Isabel que até é sua amiga. Sobre o palco AMR é a imagem do rocker adulto, de guitarra ao ombro e dedo apontado ao “inimigo” – porta-voz de legiões de adolescentes que o idolatram sem reservas, espécie de messias com uma mensagem a transmitir. RR dança, é faz-tudo, representa sobre o palco mil personagens, ri-se muito, contradiz-se constantemente, como uma criança. AMR é cerveja e Incrível Almadense. RR é “bourbon” e Coliseu. AMR é UHF. RR é GNR (desculpa lá Vítor). “Julho, 13” e “In Vivo” são duas formas diferentes de se ser português, músico e bem sucedido. Representam como que a consagração das duas bandas nacionais que mais fizeram por vencer, à custa de muita incompreensão e de comer o pó da estrada.

Os discos, ambos duplos, não são melhores nem piores que os anteriores de estúdio. Incluem os temas que tornaram conhecidas as bandas respetivas, e que mais se venderam: “Efectivamente”, “Dunas”, “Hardcore”, “Bellevue”, “Vídeo Maria” ou “Valsa dos Detectives” (GNR); “Cavalos de Corrida”, “Rua do Carmo”, “Rapaz Caleidoscópio”, “Noites Lisboetas”, “Estou de Passagem” ou “Este Filme” (UHF). Todos os músicos participantes sabem do seu ofício e em ambos os discos é audível a participação eufórica do público. Excitação, energia, identificação, reconhecimento das canções. Objetos obviamente dirigidos ao consumo das massas. “Julho, 13” e “In Vivo” são também o exorcizar dos fantasmas do passado. Mas, se com a banda de Almada o tom é de pacificação, com a participação, nos três temas que preenchem a totalidade do terceiro lado, dos ex-UHF e seus fundadores, Renato Gomes, Carlos Peres e Zé Carvalho, em relação aos GNR o álbum marca a ferro e fogo o polémico conflito mantido entre os atuais membros da banda e o seu fundador Vítor Rua, num caso legal que se vem a arrastar sem que se vislumbre uma solução. Guerra e paz, nas águas mornas do meio discográfico nacional.  *** / ***

08/08/2014

UHF - 69 Stereo



Pop Rock

11 de Dezembro de 1996
portugueses

UHF
69 Stereo
ED. BMG

            Deixou de fazer sentido falar dos UHF como sobreviventes do rock português. Não será fácil encontrar razões que expliquem a longevidade do grupo de Almada. Mais do que o “alter ego” de António Manuel Ribeiro, os UHF cerram fileiras em torno, já não de uma causa, mas de um estado de espírito. “69 Stereo” é um álbum de afirmação e de crença. “O Povo do Mundo”, tema de abertura, enceta uma das melhores coleções de canções de sempre dos UHF. Está ao nível dos clássicos com a gaita de foles de Paulo Marinho a reforçar o tom de otimismo e universalismo do tema – um “hit”. A seguir, “Amor perdi”, uma balada em duo com Né Ladeiras, dá a conhecer uma surpreendente depuração e contenção vocal de António Manuel Ribeiro, apostando no registo do tipo Peter Gabriel mais Kate Bush, em “Don´t give up”. O papel de “rocker” do mundo é desempenhado por AMR com razoável convicção, em inglês, numa versão de “The passenger”, de Iggy Pop. Excelente, o trabalho de baixo de Fernando Delaere e da guitarra acústica de Rui Padinha, em “Sangue”. “O Primeiro Concerto” é UHF na sua posição mais clássica, de “Rua do Carmo” e “Cavalos de Corrida”, numa das habituais incursões retrospetivas nos anos dourados da juventude pós-25 de Abril. O tom autobiográfico, com passagem das folhas de um diário, prossegue em “Velhos amigos”. Surpreendente é, passados todos estes anos, AMR continuar com a mesma sinceridade e proximidade em relação à vida dos outros, com os seus pequenos e grandes dramas. Quem se recorda de “Jorge Morreu” sentirá com mais força as palavras de AMR quando canta “Velhos amigos onde estais, oiço os gritos que soltais”. “Foge Comigo Maria” é Lou Reed “light” e “Na Luiz da Noite” um bom desempenho das guitarras elétricas em mais um tema “average” UHF é um desabafo de AMR num dos seus santuários preferidos: o quarto, na solidão da noite. Esqueça-se a declamação de “Pálidos olhos azuis”, repescado do álbum a solo do vocalista saído há tempos, e passe-se diretamente para a lenta lamentação de “Dão-me prendas”, antes da guitarra elétrica voltar a lançar labaredas em “Ela (como ninguém)” e no tema final, “Pede ao pai”. Rock’n’roll de barba rija a fazer cara de mau e a piscar o olho aos anos 70, desta estereofonia na posição 69, uma das produções com assinatura de AMR mais sofisticadas de sempre dos UHF. Um regresso à boa forma de um grupo que não desiste de encarar o rock como um modo de vida. (8)