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27/12/2019

Vários - On Paper


Y 23|JANEIRO|2004
roteiro|discos

VÁRIOS
On Paper
2xCD Crónica, distri. Matéria Prima
8|10

O suicídio esclarecido de Sócrates, encarado como prova da imortalidade da alma, faz sentido em termos ontológicos. Acontece que, quando calha a nós, como diria Woody Allen, faz sentido, sim, mas “no papel”. Esta discrepância entre a Fé e a desconfiança da razão encontra eco no trabalho de “colagem/descolagem” empreendida por artistas sónicos portugueses como Vítor Joaquim, @C, Paulo Raposo, Longina e Pedro Tudela, a partir de um tema deste último, “Rasgão.aif”, e do papel, simultaneamente superfície rasa e suporte de informação. “Aceitar que se trata de uma matéria que acumula informação por camadas e conjugações” como ponto de partida, determina as múltiplas manipulações/funções de “On Paper” em que o som do papel (rasgado, dobrado, batido à máquina…) é processado eletronicamente. Ao contrário da máxima de Allen, porém, resulta desta operação não a dúvida ou o medo, mas uma paleta diversificada de músicas inseridas no “industrial”, na música concreta, no ambientalismo digital sujo ou em abstrações órfãs de paternidade estética. Soa incómodo, no papel. Aos ouvidos, felizmente, ainda mais.

Vários - Songs In The Key Of Z, Vol.2


Y 9|JANEIRO|2004
roteiro|discos

génios da twilight zone

VÁRIOS
Songs in the Key of Z, Vol.2
Gammon, distri. Ananana
10|10

“Songs in the key of Z, Vol.2”, compilado e produzido pelo mesmo Irwin Chusid que revelou ao mundo “Innocence and Despair”, do Langley Schools Music Project, é o equivalente musical de uma coleção de filmes de série Z. Falamos, é claro, de loucos, lunáticos e habitantes de outros planetas (“Plan 9 from Outer Space”?) que num ou outro momento iluminado das suas vidas (neste disco, regra geral nos anos 80 e 90) resolveram graver música.
            “The Curious Universe of Outsider Music”, pois é este o subtítulo, reúne delírios inclassificáveis (tanto quanto as respetivas biografias e fotos dos artistas) que apenas uma mente igualmente desfasada da normalidade conseguirá arrumar e descrever com algum método. Arrumemo-los então.
            Shooby Taylor começa por fazer um “scat” inenarrável, estilo “Hans Eisler em looney tune”, sobre fundo de órgão Farfisa. Já Bingo Gazingo & My Robot Friend opta em “You’re out of the computer” por oferecer uma extraordinária mistela de uma melodia pop arrancada ao cérebro de R. Stevie Moore com demência Pere Ubu e sinais de ZX Spectrum. Segue-se B.J. Snowdown numa não menos inolvidável recriação de “America”, digna de figurar num “sketch” da “Mad TV” como o de Will Sasso e Alex Bornstein no dueto de “Love of my life”… “You’re driving me mad”, de Alvin Dahn (já não faz música, mas tocava 50 instrumentos e estava “determinado a deixar uma marca indelével na indústria da música”, o que, a julgar pela amostra, manifestamente conseguiu). Guitarras elétricas, “heavy metal” e, de novo, mestre R. Stevie Moore, num tema poprock que faz o termo “alternativo” soar a “mainstream”. A congressista liberiana Malinda Jackson Parker mima Nina Simone por cima de um piano que ameaça rebentar, num manifesto contra a peste, escolhendo para título “Cousin mosquito # 2” (sim, existe uma primeira picadela incluída num “Songs in the Key of Z”, Vol.1” editado pela Cherry Red em 2000). A pop espacial – os Air (ou antes deles os Hot Butter) encontram os White Noise na Era de Aquário – chega ao planeta Terra via The Space Lady, numa versão cósmica de “I had too much to dream (last night)”, dos Electric Prunes. Luie Luie, “master musician”, apresenta (com introdução filosófica prévia) um instrumental executado em 14 trompetes, chamado “Touch of light”, extraído do álbum “Creator of Touchy” – imersão numa galáxia de vibrato estelar em ressaca de LSD. Há ainda o “dance hall jazz” de Eddie Murray, a “canção-poema”, com letra de Pablo Feliciano, “Five feet nine and a half inches tall”, de Dick Kent, ideal para animação de casamentos, e a “Hawaii country” com falta de voz de Gary Mullin, em “Recitation about Ray Acuff”.
            Wayne Pereira canta, de forma tocante, uma melodia de bêbedo vagabundo semelhante à que Gavin Bryars usou em “Jesus blood never failed me yet” e Bob Vido, “the one-man band”, gravou em 1975, “High-speed” – proeza circense em que não sabemos o que mais admirar, se a falta de proficiência com que Vido manuseia as cornetas, concertina e tambores, se a vocalização (?), onde não são percetíveis os mínimos resquícios de sensibilidade ou aptidão musicais. Thoth, pelo contrário, apesar de se vestir como um troglodita, é um “virtuose” do violino que em “The herma, scene 5: Recitation/Na” canta como... um theremin… ou uma variante histérica de Meredith Monk… num “puirt-a-beul” de esquizofrénico. “Avant-garde”, pois claro.
            E Tangela Tricoli, bebé a tentar cantar afinada? E Buddy Max (13 álbuns gravados por este entusiasta da polca)? E Mark Kennis, numa gravação caseira, onde canta e berra “a capella” a história da sua vida, repetindo incessantemente “I grew up in Iowa, in the heart of the heartland”?
            Todos os intervenientes nestas “canções de série Z” são estrelas que o mundo não conhece e, muito menos, compreende. Super homens e mulheres afetados pela Kryptonite. Artistas para quem a música é um conceito radicalmente pessoal e relativo. Ou, como disse Charles Ives: “Don’t pay attention to the sounds. If you do, you may miss the music. You won’t get a heroic ride to Heaven on pretty little sounds.” E na contracapa: “Se tudo o que conseguir ouvir são imperfeições é porque você está a ouvir mal”. Nota máxima, como divertimento... diferente.

25/08/2016

Vários - "Lambarena"

Pop Rock

20 Abril 1994
WORLD

VÁRIOS
Lambarena
Celluloїd, import. Contraverso

BACH NEGRO

A cobra mordeu a própria cauda. O ciclo está prestes a fechar. “Lambarena” concilia o que na aparência parecia inconciliável. A fusão do mestre do barroco Johann Sebastian Bach com a música tradicional de África. Promoveu o encontro Albert Schweitzer, na cidade de Lambaréné, no Gabão. A coisa torna-se ainda mais estranha quando lemos na ficha técnica que a realização deste projeto, segundo uma ideia original de Mariella Bertheas, esteve a cargo de Pierre Akendengué e Hughes de Courson, um antigo elemento do grupo francês Malicorne. Bach e África, a matemática e a intuição, o contraponto e a repetição rítmica, polos opostos que deixaram de o ser. Até certo ponto. A receita lê-se na pequena fórmula enunciada na capa (uma embalagem cartonada em forma de cruz, no formato digipack): “Pela exaltação, a regra encontra o ritmo. Pela exaltação o ritmo encontra a regra.” Não diz muito, mas é bonito. Com a audição, faixa a faixa, o espanto instala-se.
“Lasset uns den nicht zerteilen” é um canto da região do Ogoué sobre um excerto da “Paixão segundo S. João”, com arranjo de Hughes de Courson. “Fugue sur Mayingo” desloca o conceito de fuga através de um coro feminino clássico que entoa a música de uma sociedade iniciática feminina chamada Ndjembé. Uma melodia fang do Norte do Gabão põe em diálogo um xilofone africano com um violoncelo, traçando a aproximação entre as simbologias rosacruciana e fang, numa jiga retirada da Suite nº4 em mi bemol maior para violoncelo, de Bach. Em “Bombé/Ruht wohl, ihr heilingen gebeine”, palmas rítmicas de uma cerimónia ritual Bouiti Apindji acompanham os encantamentos proferidos por um feiticeiro/orador, adaptando-se de forma incrivelmente natural a um excerto da “Paixão segundo S. João”, tocado em cravo e violino. A mesma peça do compositor alemão que, em “Herr unser herrsher”, a aliança das percussões dos convidados Naná Vasconcelos e Sami Ateba faz soar a uma “pastiche” de Jean-Michel Jarre. Já a junção do tradicional “Pepa nzac gnon ma” com o Prelúdio da partitura para violino nº3, interpretada pelo grupo Elugu Ayong e Hervé Cavellier no violino, o balafone, os tambores e o canto tradicional africano misturam-se de forma harmoniosa com a melodia clássica. Um piano apoiado num batuque faz a ponte entre um tradicional arranjado por Akendengué e o Prelúdio nº14, BWV 883.
Não param aqui as surpresas nem as ligações julgadas ilícitas. Um “Agnus Dei” em que a Missa em si BWV 232 desagua num ritmo dos pigmeus não anda longe das músicas do Quarto Mundo inventadas por Jon Hassell. De novo uma sociedade iniciática do Gabão, deste feita masculina, a Yassi, no Ogoué Médio, região onde fica situada a cidade de Lambaréné, junta o tradicional Okoukoué à Cantata 147. O barroco entrelaça-se com os ruídos da selva. Bach continua ao ritmo dos tambores, num cerimonial de invocação dos espíritos, com Naná Vasconcelos a percutir jarras e o coro numa interpretação do tema “A caça”, de Bach, a diluir-se nos sopros de um corno de antílope. As núpcias do absurdo ficam consumadas de forma um pouco patética na Cantata 147 – “Jésus, que ma joie demeure”, misturada com extratos de “Mouse biabatou”, num triângulo kitsch de bolhas da selva imaginária de Jon Hassell, murmúrios da sociedade iniciática Lissimbou e um órgão beato fora do lugar.
Para o fim deixámos o tema que por si só vale todo o disco. Uma música realmente nova e sem classificação possível, talvez a única que em “Lamabarena” faz esquecer o termo “fusão”, nasce de “Inongo/Invention à trois voix nº3 en ré majeur, BWV 789”. O arco musical ongongo (instrumento ritual da religião Bouiti) de Yvon Kassa, o órgão de Oswaldo Calo e uma voz humana (ou de um deus pagão?), gutural e ritmada, dão origem a qualquer coisa de sobrenatural, uma entidade musical autónoma que transcende a dicotomia África-Ocidente. Respiração do mundo, um estremecimento de ar, oração da selva numa capela verde de esmeraldas vegetais.
Para que conste, os oficiantes de “Lambarena” são os grupos do Gabão Okoukoué, Awana Africa, Elugu Ayong, Kokayl, Nzi Nimbu, M’Boudi, Nzimba, Mendzang M’Assove, Lissimbu e o grupo coral  Le Chant sur la Lowé, tendo a seu lado uma formação de 34 músicos europeus – coro, orquestra e solistas –, encarregados da interpretação das partituras de Bach. A aldeia global, a anulação das distâncias, aí está, para o melhor e para o pior. Sobre esta obra construída sobre o paradoxo diria o publicitário Pessoa: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.” (8)

14/03/2016

Vários - Art School Dancing

Y 17|MAIO|2002
discos|roteiro

VÁRIOS
Art School Dancing
Harvest, distri. EMI - VC
7|10 

Surpreendente, ou talvez não, o aparecimento desta coletânea que repesca alguns dos artistas que gravaram para este catálogo especializado no rock progressivo, entre 1969 e 1972. A par dos dois génios loucos que furaram o boqueio ao Progressivo, Syd Barrett e Kevin Ayers, encontramos aqui deliciosos exemplos da excentricidade “arty” que atravessou a pop inglesa neste período: a pop bucólica dos Barclay James Harvest, o anarquismo freak dos Edgar Broughton Band, o raga-rock dos Third Ear Band, o psicadelismo pop dos primeiros Deep Purple e The Move, uma versão de “Sabre dance” dos Spontaneous Combustion, o “King Kong” de Frank Zappa pelos Babe Ruth ou a imitação “ainda mais psicadélica que os originais” dos Forest, discípulos dos Incredible String Band. Os Electric Light Orchestra mostram a sua classe (a do álbum de estreia…) e a costela “Beatles + Kronos Quartet” no delirante e espasmódico “Look at me now” e Roger Waters assina com Ron Geesin o hino de peidos e arrotos que abre o inenarrável “Music from the Body”, de 1970, enquanto, do lado dos anjos, Shirley Collins, deusa da folk, transmite transcendência com “God dog”.

07/11/2015

VÁRIOS - Portuguese Electr(o)domestic Tracks 1.0 + @C - +



Y 11|JANEIRO|2002
escolhas|discos

@C
+
8|10
VÁRIOS
Portuguese Electr(o)domestic Tracks 1.0
7|10
Ed. e distri. Variz

Por uma vez, saúde-se o aparecimento de uma variz na perna enfezada da música eletrónica nacional, sinal de que corre nela ainda algum sangue. Em “+” dos @C encontramos o mesmo tipo de imponderabilidade e o conceito de “forma igual a conteúdo” que afetam grande parte da música eletrónica atual, na sua vertente mais programática. Sete temas, sem título, são outras tantas formulações improvisadas de um espaço de decifração articulado, nos meandros da mente digital. Ignorem-se antigos parâmetros de descodificação, padrões emocionais formatados por séculos de música acústica, o que “+” propõe, com extraordinária acutilância, é, precisamente, a mutação, esse algo “mais” capaz de acrescentar ao som eletrónico puro um novo corpo alucinatório. Mais ingrata será a tarefa de hierarquizar a diversidade de propostas contidas na antologia “electro-doméstica” da Variz. Importa, para já, destacar a disponibilidade e a quantidade de novos projetos que responderam ao repto lançado pela editora. Há uma cena nova a borbulhar. Mais difícil será retirá-la do espaço virtual onde, por agora, se abriga.

05/01/2015

Ester Brinkmann + Groenland Orchester + V/A "Staedtizism 2"



Y 27|JULHO|2001
discos|escolhas

ESTER BRINKMANN
Der Übersetzer – Il Traduttore
Supposé, distri. Ananana
7|10

GROENLAND ORCHESTER
Nurobic
Stora/Freibank, distri. Ananana
7|10

VÁRIOS
Staedtizism 2
Scape, distri. Ananana
8|10

Toalhas mentais

Com o calor a apertar, e sem que a música eletrónica dê sinais de abrandamento, há que achar um compromisso entre o refresco e o eletrochoque, a lazeira e a apoplexia. Com os Groenland Orchester não chega a haver dilema. À semelhança dos Schlammpeitziger, a música desta formação eletrónica alemã, oriunda de Hamburgo inserida na chamada estética do “smile” computorizado (leia-se: com raízes no krautrockliveinderfabrik amassado com bonecos dos Cluster), institucionalizou-se. O que era novidade e diversão passou a ser apenas diversão. Não que as fantasias eletrónicas montadas por Günter Reznicek (também Nova Huta, também estratega experimentalista em nome próprio) e Jyrgen Hall, perdessem o traço e a cor. Ter-se-ão até tornado mais berrantes e ganho nitidez. E paisagens familiares não implicam um passeio menos recreativo. Continuam doces como algodão de açúcar as melodias, balouçantes e suaves, como flocos de neve, as batidas, vivazes, como a imaginação de uma criança, as combinações tímbricas, dos Groenland Orchester. Títulos como “Riso up”, “Rabbi playstation”, “Fanfaren der herzen” (vivam os “vocoders” do circo Nova Huta, com dedicatória a todos os Kubins do mundo!), “Saluti da pavia” (e se os Mouse on Mars se cruzassem com os Severed Heads numa auto-estrada de mel?), “Farfalle mekon” e “Tonika oase” (olh’ó pós-rock, olh’ós Stereolab, olh’á mãozinha da Stora…) sugerem néons a piscar, armários de disfarce, férias em lugares de plástico, jogos de consola de compota… A música dos Groenland Orchester é como aqueles comboios pequenos para turistas, nas estâncias balneares: fazem viagens curtas mas cheia de atrações para olhar.
            Pelo contrário, a proposta de Ester Brinkmann (Thomas Brinkmann armado em travesti…) exige óculos e estudo. Terceira parte de um trilogia dedicada à palavra, encetada em “Totes Rennen” e continuada em “Weisse Nächte”, “Der Übersetzer” (“o tradutor”) serve-se da tecno minimal cara a Brinkmann para colar excertos ou longas dissertações faladas, nas vozes de Jannis Koullenis e do seu tradutor Edward Winklhofer. O efeito fonético é hipnótico, lembrando, por vezes, as sinfonias sónico-literárias de Robert Ashley ou os ritmos semânticos de Scott Johnson para “John Somebody”, intercalados por pedaços de dança eletrónica irresistíveis à boa maneira do autor de “Rosa” e mentor dos Soul Center. Apesar do obstáculo linguístico o córtex faz na mesma a tradução. Muito livre. Recordando que toda a palavra era na origem energia mágica.
            Com “Staedtizism 2” entramos no domínio do conceptualismo puro e da fuga absoluta às catalogações. A distinção entre forma e conteúdo dilui-se em organismos eletrónicos ou eletro-acústicos em permanente metamorfose. No geral, esta antologia soa como um pacote mais sumarento e palpável que a sua irmã “Clicks & Cuts”. O mesmo é dizer que, se as linguagens são semelhantes (click house, tecno minimal, digital ambient…), a forma como são tratadas distingue-se pela maior complexidade e diversificação de tonalidades. A destoar do circuito frio está a derivação da escola de Chicago de John Tejada numa coleção cujos melhores momentos pertencem a Burnt Friedman, com a sua sonda de dub psicadélico, e aos Beige, com algo parecido aos “Insect Musicians” de Graeme Revell. Excelente para secar o cérebro, depois do banho.


04/12/2014

"Brazil Classics 3" + Margareth Menezes - "Ellegibo"



Pop Rock

3 ABRIL 1991
LP’S

O NORDESTE EM CHAMAS


VÁRIOS
Brazil Classics 3
LP / CD, Sire, distri. Warner port.
MARGARETH DE MENEZES
Ellegibo
LP / CD, Polydor, distri. Polygram

Pontes entre a terra-mãe e o céu. Passado e futuro. Ponto de encontro da África, Brasil e o resto de mundo. Duas gerações que se olham e se cruzam, no canto maravilhoso do Baião, no frenesim incendiado do forró, do acordeão e das festas Juninas de Luís Gonzaga, Dominguinhos, Gonzaguinha e Jackson do Pandeiro ao universalismo e sensualidade baiana de Margareth de Menezes, a mesma que “roubou” o “show” a David Byrne durante a “tournée” de “Rei Momo”.
Em Margareth de Menezes, David Byrne vê uma das grandes e mais promissoras vozes da música popular brasileira. “Brazil Classics 3” recupera e homenageia a música dos mestres. Byrne, vem nos compêndios, perdeu-se de amores pelo Brasil. Por lá ficaram a sua música e a sua alma. Se “Rei Momo” juntava a visão nova-iorquina heterodoxa do vocalista dos Talking Heads ao universo imenso e luxuriante dos ritmos sul-americanos, a colectânea “Brazil Classics” mergulha nas raízes e na essência do Brasil negro e mágico, do afoxé e do samba, das favelas e da selva, do Nordeste e do Candomblé, do sofrimento e alegria das gentes do sertão, na voz e canções encantadas de alguns dos seus expoentes.
“Brazil Classics” é música de festa, de ritmos e melodias nordestinos, sintetizados no forró, termo que se diz ter origem, por volta de 1900, nas danças populares organizadas por engenheiros ingleses encarregados de construir o sistema ferroviário daquela região e destinadas a todos os trabalhadores (“forró” seria assim um equivalente fonético de “for all”...). David Byrne chama-lhe “mistura de ska e polca em velocidade acelerada”. Acordeão, triângulo e “zabumba” (tambor baixo) formam a necessária e tradicional combinação instrumental a que formas híbridas posteriores (nomeadamente as infusões funk ou a fusão com o rock, ou fo-rock) acrescentaram os metais, violinos e electricidade.
Luís Gonzaga, falecido há dois anos, o homem dos chapéus enormes e fatos espampanantes (só isso já lhe valeria a admiração de Byrne...), abre magistralmente o disco com “O fole roncou”, forró/xaxado inebriante que canta o amor em volta do fogo, naquele registo único que casa as vertentes pagã e cristã da alma brasileira. Gal Costa, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Anastácia, Nando Cordel e Amelinha, Gonzaguinha, Clemilda, Jorge do Altinho, Genival Lacerda, o Trio Nordestino e Elba Ramalho completam a lista de nomes presentes. Qualquer tema chega para se compreender e, sobretudo, sentir onde se encontra o Brasil autêntico, do fundo, muito longe, séculos antes e depois, do vazio das telenovelas e do romantismo serôdio do ídolo de pés de barro, Roberto Carlos.
Frevos, arrasta-pés, sambas, aboio-toadas – danças que duram toda a noite até de madrugada. Vozes que cantam até a morte da depor, com um beijo, diante dos anjos. Impossível conter um frémito de emoção quando se ouve o “Querubim” de Dominguinhos ou Luís Gonzaga cantar em dueto com Elba Ramalho “Sanfoninha choradiera”. Cantares de centro que queimam de prazer. Alegria que, de tão triste, faz doer.
Com Margareth de Menezes, o Brasil muda de figura. Tornada mundialmente conhecida graças às actuações com que abriu o recente “show” de David Byrne, a cantora junta numa mistura explosiva o reggae, o forró, o funk-samba, a lambada e o afoxé eléctrico com a electrónica, uma voz e corpo de uma sensualidade que enlouqueceu a Europa e uma espiritualidade entroncada na genuína tradição religiosa da Baía.
Evidente a influência africana no modo como a música se exterioriza através das pulsões corporais e da dança (conta quem viu que Margareth a dançar é como um vulcão em actividade). Tropicalismo apoteótico. Energia em estado puro. Diz que, quando canta, “tudo se transforma em energia”. Como um sol.
“Negra melodia”, reggae inspirado directamente em Bob Marley (a quem o compositor Jards Macalé ensinou por sua vez o samba), já anteriormente recuperado por Gilberto Gil; o delírio funky de “Tudo à toa”; a lambada sensual de “Abra a boca e feche os olhos” (atenção arcebispo!); a balada em tons “bluesy” “Maravilha morena” (cuja letra evoca, na musicalidade e jogos que entre si disputam as palavras, os feitiços de Caetano Veloso) ou os ascéticos “Ifá, um canto para subir”, baseado nos rituais do Candomblé (juntamente com “Abra a boca”, os dois temas recuperados da “tournée” “Rei Momo”), e “Hino das águas” são alguns bons exemplos da arte maior de Margareth de Menezes, de resto unanimemente reconhecida pelos consagrados. “Ellegibo” vem de novo, e de forma brilhante, recordar que o mundo existe também para além do Atlântico, em redor do Equador. Muita da música do planeta nasceu e nasce aí.