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19/11/2008

No Noise Reduction - The Complete No Noise Reduction + Vítor Rua E Os Ressoadores

Pop Rock

21 de Junho de 1995
álbuns poprock

AVARIAS
NO NOISE REDUCTION

The Complete No Noise Reduction (8)
Moneyland, distri. Música Alternativa
VITOR RUA E OS RESSOADORESScratch (7)
Ed. e distri. Ananana

Dois conceitos alternativos para a música portuguesa. Os No Noise Reduction, de Rafael Toral e Paulo Feliciano, partem da compreensão do ruído, qualquer ruído, como célula ou tecido musical, transformado em música através de processo que podem passar pela simples recontextualização das fontes sonoras, como um leitor de CD ou vinilo riscado (ex: o som de um aspirador deixa de ser simplesmente o som de um aspirador se for colocado numa situação conceptual deslocada da sua esfera natural), ou por formas de tratamento sonoro efectuadas “a posteriori” (filtragens electrónicas, samplagens, “cut-up”). Deste tipo de operações resultaram 46 segmentos sónicos que podem ser encarados como uma espécie de “ready-mades” (objectos reinventados ou despojados das suas funções originais, apresentados como obras de arte) musicais que tanto podem incluir o processamento de fontes musicais simples, como a voz ou uma guitarra eléctrica, como agruparem-se em construções/montagens complexas e de sintaxe mais elaborada, em peças como “Stewart mix”. “Everyone else’s universe” ou “The Incredible Marvin”, que poderemos designar de canções, numa estética bastante próxima dos Negativland. Um acto de risco que começou por ser assumido há alguns anos, com a participação na colectânea “Em Tempo Real” (cujas canções estão aqui todas incluídas), e agora se desenrola na sua máxima extensão. De forma coerente e – algo que vai faltando ao meio – criativa.
O risco está de igual modo presente no compacto de Vítor Rua com os Ressoadores. Neste caso sobrelevam os conceitos de manipulação e aleatoriedade. O instrumentista dos Telectu preparou previamente instrumentos e situações musicais que depois colocou na mão dos seus “discípulos”, criando deste modo acções de interactividade entre uma base pré-programada e a “execução” – de níveis técnicos bastante díspares – em tempo real dos vários participantes, tornados extensões de Rua, ao mesmo tempo manipuláveis mas apesar de tudo com uma margem de liberdade descoberta no próprio instante do contacto. Sequências repetitivas, pequenas gravuras ambientais, cacofonias sem lógica perceptível e explorações tímbricas várias, sobretudo da guitarra, alinham-se num discurso cuja unidade advém dessa espécie de caos organizado que o anima.

15/10/2008

Vários - Vidya

Pop Rock

13 MARÇO 1991

VÁRIOSVidya
LP, Potlatch

Projecto de Vítor Rua, dos Telectu, gravado entre os meses de Janeiro de 1990 e 1991, no estúdio caseiro de Nuno Rebelo, e que inclui praticamente todos os músicos de algum modo conotados com aquilo a que poderíamos chamar “cena ‘underground’ lusitana”. 19 temas, sem título, organizam-se numa montagem em que sucessivamente vão intervindo os diversos participantes: Vítor Rua, Jorge Lima Barreto, Elliott Sharp (num excerto gravado ao vivo na sua recente actuação ao lado dos Telectu), Carlos Zíngaro, Saheb Sarbib, Miguel Azguime, D.W.Art, Sei Miguel, João Peste, Nuno Rebelo, Luís Desirat, Rodrigo Amado, Rafael Toral, dois Osso Exótico, Tó Zé Ferreira, Rui Azul, Miguel Megre, Fala Miriam, Bruno Rascão, João Paulo Feliciano, Paulo Eno e o duo Duplex Longa. Música experimental, ambiental, industrial, numa colagem de géneros e estilos que tem pelo menos a virtude de lutar, em termos estéticos, contra a normalização vigente. Há momentos excelentes, outros nem tanto. Dos primeiros, realce para: a “raga” electrónico-industrial dos Telectu, no tema nº5; os ambientes muito jon-hasselianos do tema seguinte, como suporte para as divagações violinísticas de Carlos Zíngaro; o solo percussivo de Miguel Azguime, no tema nº8; os zumbidos eléctricos de Paulo Eno, controlados por Rua num encosto aos Nurse With Wound no tema nº9; a dança das vocalizações fantasmagóricas de João Peste com o computador de Rua, no nº11; os ambientalismos obscuros e estruturais de Rua, Tó Zé Ferreira e Nuno Rebelo, nos temas nº14 e 15; o breve caos controlado que alia os King Crimson de “Red” à vertigem Naked City do tema nº17, pelos Duplex Longa; a apropriação das Frippertronics por Vítor Rua, que encerra o disco. Para o fim, o momento mais brilhante, aquele que abre o segundo lado – cruzamento dos Residents com fragmentos melódicos de “Strangers in the Night”, tocados por um Rua que soube aprender os ensinamentos do malogrado Snakefinger, valorizado pelas notáveis prestações de Rui Azul, na electrónica e no solo de sax tenor. A vanguarda começa a organizar-se em Portugal. ****

07/08/2008

Versifero rezental e os rechinos [Vítor Rua e os Ressoadores]

POP ROCK

29 de Março de 1995

VERSIFERO REZENTAL E OS RECHINOS*

O humor e as estratégias do acaso desempenham papéis importantes no mais recente projecto musical de Vítor Rua, os Ressoadores, dos quais acabou de ser lançado, com selo Ananana, o CD “Scratch”. Os Ressoadores são alunos de um seminário de guitarra, leccionado pelo músico dos Telectu, que no ano passado deu origem a um espectáculo ao vivo. “Desta vez, além das quinze pessoas que participaram no seminário, reuni os convidados Paulo Eno, António Duarte e Fernando Guiomar”, diz Rua, referindo-se à gravação, objectivo principal desta segunda fase do projecto.
Pouco vulgar é o mínimo que se poderá dizer dos métodos utilizados para a feitura de “Scratch”, cuja direcção estética é da inteira responsabilidade de Rua. Os títulos, por exemplo, foram escolhidos por Jorge Lima Barreto, que retirou ao acaso de um dicionário palavras com iniciais iguais às dos nomes dos vários participantes. Assim, o tema tocado por José Guilherme chama-se “Júpiter genitor” e o de Nuno Silva, “Nebelina sociauxia”. Encontram-se ainda “Facial galiambo”, “Pingo apotrópio”, “Goliardo favila” e “Oxítono hoje muvuga”, entre outras designações bizarras. “Não foi por pretensiosismo”, garante Vítor Rua, a rir.
Além dos títulos, também o próprio corpo musical surgiu a partir de procedimentos do mesmo estilo. Um dos casos mais “radicais”, segundo o guitarrista, é o tema “Geada flavo”, interpretado por Gonçalo Freitas. Dada a ausência forçada de um dos participantes – necessariamente dezoito,- um para cada faixa -, foi preciso arranjar um substituto. Vítor Rua conta que telefonou para Gonçalo Falcão, guitarrista e produtor executivo do projecto, que trabalha numa empresa de “design gráfico”, dizendo-lhe que “tinha um problema”. “Meio a sério, meio a brincar, perguntei-lhe se não haveria alguém no escritório interessado em participar. Ele levantou o telefone e gritou para trás: ‘Alguém quer entrar num disco?’ Ouviu-se uma voz ao fundo a dizer ‘sim!’. Perguntei o que é que tocava. ‘Assobios!’, respondeu a voz, ainda a pensar que era brincadeira. Assobios? Óptimo! Disse para aparecer no dia seguinte às dez da manhã para fazer a gravação!” E assim foi, com o anónimo executante a ser creditado em “Scratch” com uma “whistle guitar”… “É um dos temas que mais gosto”, concluiu Vítor Rua.
Todos estes episódios constituem, pela atitude, uma forma original de Vítor Rua manifestar a sua discordância de um certo pretensiosismo que, segundo ele, afecta o meio artístico nacional: “Há uns tempos, podia dizer-se que havia grupos de rock português maus e bons. No caso da música improvisada, ou das novas músicas, eram tão poucas as pessoas a fazerem-na – o Zíngaro, Telectu, Miso Ensemble… - que não fazia sequer sentido fazer comparações valorativas. De repente, hoje, qualquer pessoa, sobretudo se tiver um pai rico, grava um disco e, como não tem jeito, vai para a música improvisada. Como não consegue fazer três acordes, já não dá para ir para o rock. Então põe uns paus entre a guitarra, compra três discos do Derek Bailey e está a gravar, com uma teoria qualquer na capa do disco, do tipo a dizer ‘polirritmia’ ou expressões como ‘work in progress’ ou ‘politonalidade’…” Vítor Rua fez questão que “Scratch” não tivesse qualquer texto explicativo, fazendo acompanhar essa ausência de informação com uma estrutura musical onde coabitam os ressoadores, desde principiantes a professores de guitarra. “Quase como se as pessoas, nem todas, fossem um instrumento em si, que eu estivesse a tocar”, diz Rua, assumindo por inteiro a sua condição de manipulador. “A ideia foi criar para cada pessoa, ou cada situação, um eco-sistema metodológico de maneira que pouco importava o que cada um iria fazer. À partida estava tudo pré-determinado.”


* título inventado segundo a mesma lógica de “Scratch”, com as mesmas iniciais de “Vítor Rua e os Ressoadores”.