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22/03/2017

O bolerista e os soneros [Vitorino e Septeto Habanero]

cultura TERÇA-FEIRA, 4 JULHO 2000

Vitorino e Septeto Habanero atuam juntos em mini-digressão

O bolerista e os soneros

Vitorino, o bolerista, e os soneros Septeto Habanero voltam a apresentar-se juntos e ao vivo em Portugal, retomando uma colaboração encetada em disco com o álbum "La Habana 99". Boleros para fazer dançar Portugal até ao final de Agosto.

O bolero, uma das danças típicas e mais românticas da música tradicional cubana, há muito que anda a bailar na cabeça do cantor alentejano Vitorino. Um amor antigo, moldado em recordações de infância, filtradas "através do travesseiro duma cama de ferro", em casa do avô Salomé, onde, no rés-do-chão transformado em sala de ensaios, mesmo por baixo do seu quarto, uma pequena orquestra da família "executava com enorme prazer e divertimento as grandes canções clássicas dos anos 40/50 americanas, assim como os velhos boleros, mambos e tchás". "A minha avó mandava-me cedo para a cama e eu adormecia num delicioso sono de acordes longínquos e que a distância e a espessura das paredes adoçava e transformava em música de anjos brincalhões e heróis, que me enchiam a imaginação e os sentidos", recorda o autor de "Flor de la Mar" na folha de apresentação do álbum "La Habana 99", gravado no ano passado em Havana, com o Septeto Habanero, formações mítica da música cubana. Com a gravação deste disco ficava concretizada metade desse sonho.
            A segunda cumprir-se-á finalmente através de uma série de espetáculos que hoje, amanhã e na quarta-feira têm lugar no Teatro Tivoli, em Lisboa, prosseguindo ainda este mês em Vila Nova de Famalicão (dia 7), Braga (dia 8) e, já em Agosto, Portimão (14), Açores (18), Porto (19) e Viseu (26). Para trás ficam as más recordações da estreia ao vivo do cantor alentejano com o grupo cubano, no ano passado, no Parque das Nações, ao ar livre de uma noite gelada de Fevereiro, onde faltou clima e público a uma música toda ela apaixonada pelos perfumes e danças dos trópicos. "Entrava-nos a nortada pela boca adentro", recorda Vitorino ao PÚBLICO. Entre esse Inverno e este Verão, gravaram no ano passado em Havana o álbum "La Habana 99" que com as suas 30.000 unidades já vendidas em Portugal se prepara para ser disco de platina.
            Desta feita, "com condições ideais" e numa "sala lindíssima", tudo se conjuga para uma noite que permitirá reviver os sons e as imagens da época dourada, os anos 40 e 50, das danças de salão. Vitorino é o cantor convidado do Septeto, após se ter oferecido como "voluntário". "Eles procuravam um cantor para cantar com eles em Portugal e eu disse logo: Sou eu!". Vitorino enviou-lhes alguns discos seus, os cubanos ouviram, gostaram, e escolheram as canções. "Sou como um vocalista à boa maneira dos anos 20" explica, com orgulho e visível satisfação, o cantor alentejano que em breve lançará com o seu irmão Janita Salomé um álbum ao vivo de canções menos conhecidas de José Afonso.
            Quando subir esta noite ao palco do Tivoli, Vitorino representará com gosto a mesma personagem dessa época que teima em persistir em Cuba que encarna na capa de "La Habana 99", a do cantor romântico, estrela de Santiago de Cuba e de Hollywood. Do cantor de boleros, "porque o bolero é branco, o que tem a pele mais clara, enquanto o 'son' já é mulato", diz, assumindo-se como europeu. "Eles [o Septeto Habanero] avaliaram com muita acuidade as minhas características e acharam que eu era bolerista. Sonero creio que não sou", confessa. "Soneros são eles, eu sou bolerista". E pormenoriza, dando mostras do conhecimento profundo que tem desta música presente no seu imaginário desde criança: "O que eles fazem é o bolero-son, não é o bolero-filin, um bolero muito declamado, próximo do fado".
            Fazem parte desta lenda viva da música de Cuba, que Vitorino honrará com todo o seu saber e experiência de grande cantor do Sul, o veterano Pedro Ibañez (voz, guitarra e líder do grupo), Emílio (voz e guijo), Digno (voz e clave), Joselito (voz e maracas), Chino (trompete), Faustino (baixo9, Ferro (bongo) e Felipe (guitarra).

VITORINO COM SEPTETO HABANERO
LISBOA Teatro Tivoli, hoje, amanhã e 5ª feira, às 22h. Bilhetes entre 3000$ e 4500$.

22/11/2016

A festa do Gil [João Gil]

 CULTURA
SÁBADO, 23 JUN 2001

Crítica Música


A festa do Gil

João Gil e convidados
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
20 e 21 de Julho
Lotação esgotada

O Grande Auditório do Centro Cultural de Belém encheu-se, terça e quarta-feira passadas, na festa do 25.º aniversário de carreira de João Gil, escritor de canções. De entre o desfile de estrelas convidadas sobressaíram três instantes de magia, protagonizados por Jorge Palma, Isabel Silvestre e o próprio João Gil.
Tudo começou com "Saudade", mitigada pelo reencontro dos ex-Trovante Gil, Luís Represas e Manuel Faria. "125 Azul" prolongou a memória do grupo que nos anos 80 ajudou a dignificar a música popular portuguesa. Mas as recordações aos poucos vão abandonando o sótão das sombras do que foi para se iluminarem na luz do que ainda é. "Ficava aqui a noite toda a tocar contigo", lança Luís Represas ao amigo. Despede-se com um "diverte-te!".
João Gil parece estar a divertir-se. Manuel Paulo, da Ala dos Namorados, substitui Faria. Chispam faíscas da azáfama dos músicos, mas Gil refresca os ânimos: "Vamos devagar, vamos com calma, noto uma certa tensão no ar...". Os outros acalmam-se. Paulo Ribeiro entra para cantar "Lua dos Imortais" e "Olhos nos Olhos". Traz consigo algum nervosismo e a primeira canção começa por não lhe sair bem. À segunda, porém, entra no espírito da letra.
As luzes apagam-se. O piano ilumina-se. Jorge Palma chega e ordena: "Senta-te aí". Bluesy. Mas o melhor vem com "Alice". Fabulosa interpretação arrancada do fundo. O homem pode às vezes desafinar, desatinar, desaustinar, mas, caramba, tem os blues dentro de si. "Alice" foi outra Alice. João Gil percebe-o: "A canção é ainda melhor do que eu pensava!".
Camané, o maior fadista masculino da atualidade, tem direito a três canções. Não está inteiramente à vontade, ainda que disponha dos seus músicos habituais. "Travessa" aquece e "Fim", com letra de Mário de Sá-Carneiro, ronda o arrebatamento, mas, a sós com o piano de Manuel Faria, tropeça numa ratoeira do tom armada por um "Perdidamente" mal ensaiado.
Intervalo. Faz-se a contagem de VIP. Catarina Furtado, mulher de João Gil, é quem dá mais nas vistas. Fátima Lopes passa o tempo a controlar com ar sisudo as câmaras da SIC. Nayma, Rita Ferro Rodrigues, Margarida Marinho, Margarida Pinto Correia e Cila do Carmo distribuem "charme".
Mas a ilusão e o espetáculo voltam. Agora ninguém tira o protagonismo à Ala dos Namorados e ao seu vocalista Nuno Guerreiro, que se mostra endiabrado. Canta mais agudo do que nunca, incita os seus camaradas, salta e exibe os bíceps. Depois do "vaudeville" de "Ruas e Praças", "Rua do Gato Preto" dá para um solo impecável ao piano de Manuel Paulo e destaca as pontuações no baixo de Zé Nabo e as marcações rítmicas de Bruno Vaz.
Entra Isabel Silvestre, parecendo deslocada no contexto. Cantora do povo – de Manhouce – para o povo, canta apenas "Ao Sul", na companhia do piano de Manuel Paulo. A sua voz é uma chama trémula e uma lágrima. Arrepios. O contexto adequou-se a ela.
Sara Tavares é o contrário. Extrovertida, swingante e sorridente. "Luar um Dia" sai tórrida. Tanto como o comentário: "Estão aqui os meus namorados!". João Gil, com Catarina Furtado por perto, estremece ligeiramente... Sara acaba por namorar apenas com Nuno Guerreiro, num dueto com conta peso e medida de "Solta-se o Beijo". Antes do "grand finale", acende-se outra luz. João Gil, sem mais ninguém por perto, canta e sangra na guitarra de 12 cordas a canção mais simples e mais pungente da noite, "No Colo de Meu Pai", a tal que escreveu na infância durante uma viagem de comboio entre a Covilhã e a Soalheira, na companhia dos pais.
Depois da solidão atiram-se os foguetes. Toda a última parte fica a cargo dos ressuscitados Rio Grande. Tim, Rui Veloso, Jorge Palma cantam à vez, mas agora quem comanda é Vitorino, que não só rubrica uma interpretação imaculada em "O Caçador da Adiça" como, de concertina em punho, em "Fui às Sortes e Safei-me", puxa e "provoca" os outros, ao desafio. Para João Gil e Rui Veloso, pouco afoitos nas guitarras: "Rapazes do Sul!...". A Manuel Paulo, no acordeão: "É um instrumento difícil...". Para Tim, no baixo: "Só isso?". E apresenta "um solo de palmas pelo Jorge Palma".
Já com todos os participantes no palco e a plateia a aplaudir de pé, canta-se em grande confusão e emoção, "Loucos de Lisboa" e "Zé Passarinho". João Gil ainda tem tempo para agradecer a toda a gente, em particular, a João Monge, letrista dos Ala. Mas sobretudo "ao seu amor". Uma coisa "à americana", diz, com a comoção bem visível no rosto.

EM RESUMO
Em noite de sintonia, amizade e boa música, Jorge Palma, Isabel Silvestre, Vitorino e o anfitrião brilharam com uma intensidade especial

02/05/2011

"PORTUGUESE is better!"

Sons

7 de Janeiro 2000

Debate sobre a utilização do português ou do inglês na música portuguesa

“PORTUGUESE is better!”

Cantar em inglês ou português é, ou não, uma questão retórica, quando se trata de produzir, promover e vender música feita em Portugal neste início do ano 2000? A verdade é que a máxima “A minha pátria é a língua portuguesa” de Fernando Pessoa já não faz muito sentido. Tirar dividendos da globalização, ou, pelo contrário, resistir-lhe o mais possível são as duas vias divergentes defendidas pelos convidados deste debate: Amélia Muge, Vitorino, Rui Reininho, Jorge Dias e Miguel Cardona.


Longe vão os tempos em que o português era considerado uma língua difícil de se cantar. E se os intérpretes da chamada “canção de autor”, como Vitorino ou Amélia Muge, desde sempre cultivaram o gosto pela língua portuguesa e a necessidade de fazer passar uma mensagem – fruto de uma atitude fortemente ideológica –, já as gerações mais novas adoptaram, paradoxalmente, o inglês, como forma de resistência. Afinal de contas o próprio Vitorino, apologista do fortalecimento de um circuito das músicas do Sul, já cantou em inglês, o mesmo acontecendo com Rui Reininho, nos GNR. Quanto aos mais novos, Miguel Cardona, dos Coldfinger, e Jorge Dias, baixista dos More República Masónica que recentemente organizou o festival Interferências, encaram de forma natural o facto de cantarem em inglês, não sendo menos portuguesa a sua música. Amélia Muge, que recentemente cantou em galego nos Camerata Meiga contrapõe a necessidade de confrontar modelos e fórmulas de produção. Todos estão de acordo numa coisa: a música portuguesa não é defendida como deveria e a culpa é das multinacionais, que apenas se preocupam em promover os artistas internacionais, e dos “media”, que não divulgam em quantidade suficiente o produto nacional. “Oh, yes!”

O passado. Era de facto difícil cantar em português até “Chico Fininho” vir, na década de 80, provar o contrário? Mais atrás ainda, era proibido cantar em inglês, caso se quisesse “intervir” artisticamente contra o regime do Estado Novo?

VITORINO – “Encontram-se ‘cantautores’ nos Sheiks, que, em determinada altura, afirmaram em entrevistas que o português não era ‘cantabile’. Foi quando os Beatles chegaram à ribalta para transformar a relação da canção entre os povos. Em Portugal, era sobretudo a música de expressão latina que se ouvia. O inglês acabou por se impor de uma maneira brutal, com uma gigantesca máquina de promoção por detrás. Aqui, os resistentes eram o Zeca e o Adriano. Hoje, já existe um rock lusitano cantado em português.”
“Tive um grupo, na Escola de Belas-Artes, com o Manuel João, dos Ena Pá 2000, onde cantava uma canção dos Beatles, “Here comes the sun”. Como estava todo vestido de preto, levei logo com uma trincha de branco.”
MIGUEL CARDONA – “O Vitorino fala de um ponto de vista político. Eu falo de um ponto de vista cultural. Quando quero expressar-me, reporto-me a fenómenos que me marcaram. E isso foi-me tudo dado em inglês, em francês… Ao extrapolar a imaginação é fácil recorrer a vivências, imagens cinematográficas, estereótipos, aos quais tenho acesso através do inglês.”
RUI REININHO – “Cantar em português foi para mim uma espécie de repto, de reacção a uma geração que só cantava em inglês, o que eu achava completamente bacoco. Por que raio é que um fulano havia de se esconder a cantar numa língua que não era a dele? E os textos em inglês, normalmente, são do secundário para baixo.”

O presente, parte 1. O mundo é um lugar pequeno. A “minha pátria é a língua portuguesa” ou pode ser também a inglesa?

VITORINO – Se pudesse, gostava de cantar em sérvio, ou em gaélico. Em inglês é que não… Por isso é que comecei a cantar em castelhano [num álbum recente, “La Habanera 99”, com reportório cubano e a presença do Septeto Habanero]…”
“Os textos em inglês que muitas bandas cantam estão sintacticamente errados.”
AMÉLIA MUGE – “Nada do que o Fernando Pessoa escreveu em inglês o impediu de escrever o que escreveu em português. E o Eça teve um cargo importante no consulado em Paris. Eu canto em português, porque é a maneira de resolver, em mim própria, influências que recebo de muitos sítios. Fazer uma canção com a mesma matéria, a mesma língua, com que penso. Um poema é, antes de mais, uma base de trabalho sonora.”
MIGUEL CARDONA – “Escrevo em português e em inglês. Quando é um ‘rapport’ autobiográfico, escrevo em português. É a única via para ser sincero comigo mesmo. As coisas não me acontecem em inglês. Mas quando saio da minha vida, já posso recorrer ao inglês.”
JORGE DIAS – “Está associada a quem canta em inglês uma ideia de antipatriotismo. É uma estupidez completa. Não há coisa que mais me entristeça do que poder absorver uma islandesa como a Björk, uns judeus belgas ou uns tipos franceses, todos a cantar em inglês, e não conseguir ver ninguém do meu país a conseguir vingar lá fora, a conseguir mostrar que em Portugal se fazem coisas tão actuais e tão interessantes como no resto da Europa, sem ser remetido para a categoria do exotismo.”
RUI REININHO – “Os brasileiros apropriaram-se da linguagem de computador e já falam em ‘downlodar’ ou ‘browsar’.”
“Noutro dia reparei num cartaz de uma ‘rave’. É impressionante como se faz uma solicitação destas sem uma única palavra em português. É uma tentativa de globalizar. Em Atenas ou no Senegal seria a mesma coisa. É tudo a mesma tribo.”
“É importante a defesa da língua portuguesa. Aprendi um bocado isso com os nossos amigos galegos. Não lhes passa pela cabeça cantar em inglês. E, se calhar eles, em certos aspectos, até são mais modernaços do que nós.”
MIGUEL CARDONA – “Os espanhóis dobram tudo. Tem a ver com uma certa ideia de nação. Nós, enquanto artistas, reportamo-nos muitas vezes a coisas exteriores. Um guitarrista fala do seu ‘amp’, num som “de Rhodes”, há toda uma linguagem corrente em inglês.”

O presente, parte 2. As editoras são as bruxas da história, porque só promovem o produto que vem de fora. Os “media” são vilões, porque só escrevem sobre música chinesa. O Estado não apoia. Há preconceitos e barreiras a romper.

MIGUEL CARDONA – “O rock cantado em português não sofre da mesma injecção de espuma que o inglês. É possível ler nos jornais ‘revivals’ de Bob Dylan ou Pink Floyd, com a cumplicidade de toda a gente, que não passam de meras manobras de promoção de limpeza de fundo de catálogo. Com certeza que não vão buscar os NZZN ou os Tantra e promovê-los na América…”
VITORINO – “A rádio não passa música portuguesa, enquanto as percentagens de música anglo-americana são brutais. O Ministério da Cultura só dá força ao cinema. Tem que começar a apoiar a música portuguesa. Os Beatles foram condecorados pela Rainha.”
JORGE DIAS – “As bandas que cantam em inglês também não passam na rádio. Não por cantarem nesta ou naquela língua, mas porque não têm o apoio de uma grande campanha de ‘marketing’. Não há critérios de avaliação. As pessoas limitam-se a colar-se a modelos de sucesso. Como, com raras excepções, não se consegue criar cá nenhum desses modelos, ninguém liga. Quem está no centro da decisão pertence à geração do Rui, os que conquistaram para a música a língua portuguesa, mas que, de repente, fecharam os olhos. Existe hoje um caciquismo, entre aspas, nos ‘media’ e, sobretudo, nas editoras. Apresenta-se uma banda a cantar em inglês e é recusada só por esse facto, nem sequer chegam a ouvir.”
RUI REININHO – “Tenho pena de que ninguém tenha rompido aquela barreira do meio milhão de discos. Toda a gente encravou nos 300 mil. É uma barreira psicológica.”

O futuro. Globalizar ou resistir. O que é que podemos fazer? Talvez socializar.

AMÉLIA MUGE – “As coisas que vêm do Norte têm uma conotação de tecnologicamente mais avançadas, enquanto o étnico estaria umbilicalmente ligado a um certo terceiro-mundismo. A imagem da música, da cultura portuguesa, enquanto for passivamente vendida sob estas conotações de mercado, tem que submeter-se à máxima do ‘quanto mais étnico’ melhor. Se calhar o circuito que vende os Madredeus não é o mesmo que vende a música tradicional portuguesa, no seu sentido folclórico.”
VITORINO – “Há uma grande música deste século, a música anglo-americana dos anos 60 e 70, conotada com um movimento social universal. Depois entrou numa decadência horrível, quando começou a ficar visual, a ouvir-se através dos ‘clips’. Subverteu-se a escuta. No Midem latino de Miami as estatísticas afirmavam que nos últimos três anos a música anglo-saxónica já tinha perdido no mundo um espaço de 6 por cento para as músicas de expressão castelhana. A única possibilidade que temos de exportar uma música cantada em português no mundo é fazer uma aliança com os brasileiros, como os espanhóis têm com toda a América Latina e as Caraíbas. Infelizmente os brasileiros fecharam-se a nós nos anos 60, coincidindo com a ditadura.”
“A salvação é a socialização dos meios. Dentro de uns dois anos eu ou o Rui Reininho podermos gravar em casa sozinhos. Os anglo-saxónicos inventaram os ‘media’ e nós vamos aproveitar e socializá-los.”

17/11/2008

Saudades ao estetoscópio [Vitorino]

POP ROCK

3 de Maio de 1995

Saudades ao estetoscópio

Vitorino, depois de “Fados Meus”, de Paulo de Carvalho, e de “Só”, de Jorge Palma, será o próximo artista a apresentar-se na atmosfera especial e sem artifícios dos Concertos Íntimos, que estão a decorrer no auditório do antigo Cine-Teatro do Casino Estoril. Uma tentativa, para Vitorino, de recuperar o conceito de “temporada”, característico da “escola francesa, de ficar uns tempos num teatro”. “Anos 60-70, As Saudades” foi o título genérico escolhido pelo artista para designar a linha geral que orientará cerca de duas horas de canções ligadas à história e às memórias daquelas duas décadas. Uma ideia que parece ter sido criada de propósito para o autor de “Leitaria Garrett”, já que Vitorino é uma espécie de enciclopédia viva de uma época em que os actos se regiam por ideais e não por interesses, como hoje é norma acontecer. Lisboa, o Alentejo, a errância pela Europa, lutas e camaradagens várias, cruzam-se na vida e no imaginário de Vitorino como num caleidoscópio.
Em toda a discografia do cantor é visível esse interesse pela natureza íntima das coisas, pelas razões e pelas emoções irrisórias, mas que, não poucas vezes, mais do que os grandes manifestos de intenções, fazem mover as pessoas e evoluir os lugares. Sabe-se do conhecimento e do gosto de Vitorino pelos salões de dança, pelos passos que conduzem à paixão, pelas horas mortas em que tantas vezes uma vida se decide. Os boleros, os tangos – “um imaginário muito presente na música portuguesa, havendo mesmo grandes compositores em Portugal deste género musical, como o Cruz e Sousa, que compôs para o Tomás Alcaide” – as quermesses e os bailes de finalistas, os bairros e as suas tentações. Com tudo isto Vitorino se cruzou, a par do convívio, directo ou indirecto, com as músicas e as atitudes importadas do estrangeiro. Os ideais e a revolução, deixaram marcas na sua música. Vitorino canta a cidade e o campo, as vielas e os montes, as noites de sol e os dias de luto. Anarquista por vocação, fez-se cantor por devoção.
Por isso a sua voz soará talvez com maior força – decerto, mais próxima e com outras “As Mais Bonitas” para cantar – numa pequena sala do que debaixo dos holofotes gigantes e da antropofagia das massas. Uma celebração de nostalgia? Talvez, se considerarmos que a música não passa de uma sucessão de modas e de um corte sistemático com o passado. Porque, sob as luzes mais baixas do pequeno auditório do Casino, Vitorino vai cantar os extremos da música portuguesa, se Zeca Afonso a Tony de Matos. Mas também as canções estrangeiras dos anos 60 e 70, dos Beatles – “uma música já muito evoluída nos anos 70, em relação aos serões para trabalhadores que se fazia em Portugal, que eram de um conservadorismo e um hermetismo a toda a prova, existindo só por teimosia, uma teimosia beirã, a teimosia do Botas. Isso reflectia-se em toda a música portuguesa, que só começou a mudar com o Adriano e com o Zeca” – de Gianni Morandi, de Jacques Brel, entre tantos outros, “que influenciaram a juventude e a própria música portuguesa” destas duas décadas. Segundo “um olhar irónico e com algum humor”. Vitorino recorda ainda, pondo alguma pimenta nas palavras, essa época “em que havia cantores, hoje muito presentes, que diziam que a língua portuguesa não prestava para cantar”.
Com o cantor, recentemente chegado de alguns espectáculos de boa memória em Goa – “lá têm uma admiração cega pela cultura e língua portuguesas, e saudades de um tempo que, se calhar, era melhor” -, vão estra em palco, em mais este “concerto íntimo”, Janita Salomé, Filipa Pais, que cantará a Billie Holiday e a Ella Fitzgerald, “cantoras eternas, cujos ‘hits’ estiveram bastante presentes nos anos 60 e 70”, e André Cabaço, juntamente com o pianista Vasco Gil, também responsável pelos arranjos musicais, o baterista Rui Alves e o percussionista Quim N’Jojo.
Vitorino, visto à lupa e escutado ao estetoscópio.


VITORINO
“Anos 60-70, As Saudades”
Auditório do antigo Cine-teatro do Casino Estoril
4, 5, 6 e 7 de Maio