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27/12/2019

Tiradas a ferro [Jazz]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 17 JANEIRO 2004

Sclavis, que tirou retratos-fantasma? Pethman, que tirou do frio a arte de Ellington? Parker, que tirou de si próprio um livro de memórias? Quem tira o jazz da perdição? Ainda há quem lance boas tiradas.

Tiradas a ferro

A noite de Louis Sclavis pode ser de lua nova e jazz apagado, como aconteceu em “Dans la Nuit”, álbum anterior deste músico francês. Mas também lua cheia. Desse álbum para o novo “Napoli’s Walls” a lua mudou de fase e a transição está inscrita no tema de abertura, “Colleur de nuit”. Noite italiana inspirada na obra do artista gráfico Ernest Pignon-Ernest, autor de uma série de esculturas em pedra negra e serigrafias incrustadas nas paredes de prédios antigos de Nápoles. Representações fantasmagóricas e perturbantes, da morte, da Virgem, do Inferno, de ritos ancestrais que evocam os arquétipos da humanidade.
            Sclavis traçou, com base na obra deste artista, o seu próprio filme, iluminado pelos fogos vesuvianos, das mitologias e dos quadros de uma Nápoles vista não através de uma perspetiva realista ou folclórica, mas como “cidade de ficção”. A música contemporânea, a eletrónica, microdivagações de câmara, ópera bufa, teatro de marionetas e citações das tradições musicais e canções napolitanas agitam-se numa dança de fogos-fátuos e sonhos labirínticos que recriam, acima de tudo, arquiteturas da imaginação.
            Como Trovesi (com quem o saxofonista e clarinetista partilha algumas conceções e pontos de fuga sobre o jazz contemporâneo), Sclavis incorpora no seu discurso elementos díspares para os sintetizar numa música tão personalizada como universal. Acompanhado por Vincent Courtois (violoncelo e eletrónica), Médéric Collignon (trompete de bolso, vozes, trompa, percussão, eletrónica) e Hasse Poulsen (guitarra), o livre-pensador francês oferece-nos sarabandas e sinestesias, múltiplos matizes e texturas, que se percorrem como as ruas e vielas da cidade, observada pelos olhos de um estrangeiro. Uma música de “adivinhações modernas”, “aparências” (aqui, o jazz, tal qual as imagens de Ernest, é um “trompe-l’oeil”) e “portas secretas” que nos toca e nos chama para a solidão do esteta que observa e sorve a Beleza como um vinho raro e requintado.
            Da Finlândia não desaguam apenas icebergues formados na geleira ECM. A surpresa escandinava chama-se “The Music of Esa Pethman”, da série “The Modern Sound of Finland”, antologia de temas escritos entre 1964 e 1966 pelo compositor, tenorista (emissão forte, timbre áspero mas apelativo) e flautista Esa Pethman, nascido em 1938.
            A remasterização de 24 bits valoriza os mínimos pormenores de uma música que soube assimilar a arte de Duke Ellington, referência incontornável para este autodidata para quem o mais importante não é a teoria, nem as grandes edificações arquitetónicas, mas a melodia. “Nunca estudei composição. Tenho a impressão de que os ensinamentos técnicos apenas reduziriam as minhas composições a estereótipos”, diz. Pediu a um amigo que lhe ensinasse os rudimentos necessários para harmonizar e orquestrar as suas pequenas melodias, por vezes bizarras, de um jazz que nasceu no “hard pop”, se cultivou em Ellington e se expressa em arranjos tão “out” como os de “Shepherd song”, com as suas soluções dignas da caderneta de Raymond Scott.
            Sibelius e os românticos finlandeses atravessam igualmente a música deste compositor um pouco excêntrico, tão à vontade a afirmar que o jazz é, em termos de composição, “uma música limitada”, como, logo a seguir, que este mesmo jazz lhe confere “liberdade em termos rítmicos”, confessando ao mesmo tempo o seu deslumbramento ao ouvir um solo de Charlie Parker ou de Sonny Rollins. Há uma orquestra de passo trocado, swing em contratempo, fagulhas e geada. E “Al Secco”, por si só uma noite inteira de baile e recital da meia-noite.
            Na Bélgica também se faz pela vida. Kris Defoort, de quem já conhecíamos o álbum “Sound Plazza”, volta a estar presente, com um trabalho anterior, de 1999, que junta dois formatos e momentos distintos: “Passages”, no primeiro CD, reúne temas em quarteto (com Mark Turner em destaque no sax tenor), sendo o segundo inteiramente preenchido por cinco “Passages” compostas para uma coreografia de Fatou Traoré e executadas por uma formação instrumental alargada a que o pianista chamou Dreamtime. Neobop cruzado por referências eruditas, uma incisão de Ornette Coleman (“Round trip”) e incursões na atonalidade, no primeiro caso. Uma escrita mais ambiciosa, orquestral e diversificada, no segundo, sem que nela se detetem, porém, sinais de génio. Ou, pelo menos, uma alma com a incandescência da de Esa Pethman.
            No caso de George Schuller e do seu irmão Ed Schuller, a matilha Schulldogs, trata-se antes de mais de um espectro alucinado a correr pelo jazz fora, aos uivos e a arrastar correntes. “Hellbent” junta o baterista e o baixista com Tim Berne e Tony Malaby, respetivamente nos saxofones alto e tenor, dois dos nomes mais requisitados do jazz atual. Recupera-se e cultiva-se a componente performativa e ritual do “free jazz”, o grito, a estridência e a subversão rítmica e harmónica, ainda que um dos temas, “Distant cousin”, pretenda ser uma “reinvenção abstrata” de “Evidence”, de Thelonious Monk. As progressões são orgásticas, partindo da prospeção e do tatear iniciais para o clímax. Caminhos outrora perigosos mas que hoje se percorrem com um sorriso de segurança e reconhecimento nos lábios. Os aventureiros e visionários de antanho não morreram em vão.
            Malaby aparece de novo, agora como parceiro de Mark Helias (contrabaixo) e Tom Rainey (bateria), em “Verbs of Will”. Boa música improvisada. Mas porque será que temos a sensação de se ter criado em Nova Iorque uma espécie de “lobby” que parece ter estagnado num conceito e em tiques de uma vanguarda que deixou de o ser? Questão pertinente e por resolver: o jazz tem ainda salvação? Como e por onde? Pela via da entropia e da definitiva passagem de testemunho à “música improvisada”, liberta em definitivo das regras e dogmas da tradição? Ou pela da crucificação, através da assimilação e adequação de outras formas e filosofias musicais (como fazem Trovesi e Sclavis) onde as antigas noções (o “swing”, o “blues” – os dois grandes pilares) adquirem novos significados e se transmutam em práticas universais? “Verbs of Will” é novo que soa a velho, independentemente do inegável talento e cultura jazzística dos intervenientes. No fim de contas são os deuses, os génios, os grandes solitários, que fazem o trabalho sozinhos. Deixemos, então, de procurar o “grande jazz” e louvemos, ao invés, os grandes músicos. Rezando para que estes não nos abandonem e a Grande Obra possa prosseguir.
            William Parker dá-nos razão. O que noutros é bordão neste contrabaixista é necessidade básica e alimento vital. A improvisação incendeia-se, sente-se que tem de ser assim, que o trajeto das notas, por mais árduo que seja, é o único possível. Nos grandes músicos é a música que orienta o executante, que faz o músico, e não o contrário. Que lhe dita a lógica e as ordens. Músico com “M” maiúsculo é aquele que sabe ouvir e obedece, abrindo e esculpindo o silêncio com o seu espírito e com as suas próprias mãos. Parker faz isto, em “Scrapbook”, caderno de apontamentos e memórias em trio com Billy Bang (violino) e Hamid Drake (bateria). Música livre, inspirada em pessoas e lugares, pelos espaços e tempos percorridos. O violino de Bang estende-se como a voz do destino, swingando entre a alegria e o desespero, timbre e ritmos sintonizados num conceito cósmico da música. Parker é assombroso do princípio ao fim. Passadas e ânimo de gigante, mundo maior que os mundos que o rodeiam, berço de galáxias e buraco negro onde a música nasce e se desintegra para renascer, diferente e com a frescura das géneses e o fogo das revoluções, no momento seguinte. Aponte-se, então: indispensável.

LOUIS SCLAVIS
Napoli’s Walls
ECM, distri. Dargil
8 | 10

ESA PETHMAN
The Music of Esa Pethman
Warner Music Finland, distri. Ananana
9 | 10

KRIS DEFOORT QUARTET/DREAMTIME
Passages
2xCD De Werf, distri. Multidisc
6 | 10

GEORGE SCHULLER SCHULLDOGS
Hellbent
Playscape, distri. Trem Azul
7 | 10

MARK HELIAS’ OPENLOOSE
Verbs of Will
Radio Legs, distri. Trem Azul
7 | 10

WILLIAM PARKER
Scrapbook
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
9 | 10

09/11/2018

Conversa entre gigantes em Coimbra [Jazz]


CULTURA
SÁBADO, 18 JANEIRO 2003

Conversa entre gigantes do jazz no CCB

WILLIAM PARKER EM COIMBRA

Duos no CCB. Jazz ao Centro em Coimbra. O jazz no centro das atenções. Steve Lacy, Geri Allen, Lee Konitz, Joey Baron tocam hoje em Lisboa. O quarteto de William Parker, em Coimbra

Jazz a dois é conversa. Amena, inflamada ou, se der para o torto, da treta. Jazz a duas vozes é o que esta noite se poderá escutar em concerto duplo no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a partir das 21h.
            São quatro os conversadores, qualquer deles de monta, cada qual com muitas histórias para contar, para dizer ao outro e lhe pedir explicações, respostas ou um simples comentário. O outro fará o mesmo. A história do jazz está cheia destas conversas.
            Steve Lacy, um dos saxofonistas mais prolixos e inquietos do jazz contemporâneo, terá como parceiro a pianista Geri Allen. Ele, homem de longas fidelidades ("são as relações a longo prazo que prezo mais"), com Kent Carter, Jean-Jacques Avenel, Oliver Johnson (recentemente falecido) ou a sua mulher Irène Aebi, mostra-se, no entanto, disponível para a descoberta de outras músicas que completem ou desafiem a sua. A de Geri Allen esteve sempre debaixo da sua mira. Cumprirá hoje esse desejo.
            Lacy é o viajante por natureza que aprendeu com a tradição a fabricar o futuro. Duke Ellington, que continua a considerar "o músico nº1", ensinou-o a gostar de jazz. Com Thelonious Monk, de quem é intérprete de exceção, manteve a ligação afetiva ao bebop. Mas, é claro, por ele passou grande parte da excitação que nos anos 60 ganhou o rótulo, a reputação e o grito de "free jazz". Esteve ao lado de Cecil Taylor (foi quem lhe revelou Monk), Ornette Coleman, Don Cherry e Jimmy Giuffre. Era quando o seu saxofone - o difícil soprano, ao qual se dedicou em exclusivo, num caso ímpar de fidelidade a um instrumento a que a maior parte dos saxofonistas recorre em segunda escolha - soava mais agreste e libertário. A passagem dos anos arredondou-lhe o som, levando-o para junto do calor do alto.
            Enrico Rava, Louis Moholo, Derek Bailey, Evan Parker, Steve Potts (Lacy foi dos poucos a reconhecer-lhe importância), John Stevens, Trevor Watts e Roswell Rudd, além da bizarra nave espacial chamada Musica Elettronica Viva, foram alguns dos músicos livres que consigo fizeram o jazz passar a fronteira do bop. Nos anos 80 encontrou no piano de Bobby Few um lugar de conforto.
            Até hoje a sua atividade e os seus interesses estenderam-se à canção (de veia Brecht/Weilliana, na voz da sua mulher), ao teatro (trabalhou com Merce Cunningham), à poesia (gravou com Bryon Gysin, como Willam Burroughs, (poeta das máquinas de linguagem do mal) e ao cruzamento com outros universos musicais, da música do Oriente (um dos seus projectos próximos é compor sobre poemas zen e cânticos budistas) a peças impressionistas como as "Gnossiennes" de Erik Satie, que transpôs para o sax soprano.
            Geri Allen há-de levar em atenção as palavras de Lacy: "Quando toco com um estranho que nunca me ouviu antes ou só ouviu através de um disco, é possível que ele não me entenda e pense que estou perdido. Então é ele próprio que se perde e a coisa pode tornar-se uma grande confusão".
            Da sua extensa discografia, sugerimos (escolha necessariamente subjetiva e parcelar) os álbuns: "The Forest and the Zoo", "Scretching the Surface" (triplo CD que reúne alguns dos trabalhos mais experimentalistas, como "Lapis" e "The Owl", gravados nos anos 70 em Paris, onde viveu grande parte da sua vida), "Saxophone Special +", "Weal & Woe", "Trickles", "The Way", "Two, Five & Six/Blinks", "We See", "Vespers" e "5 x Monk 5 x Lacy" (sax soprano solo, Lacy e Monk em jogo de reflexos).

O universo dos outros
Geri estará decerto atenta. "Gosto de entrar no universo dos outros. É como ir para outro país e outra cultura - tem-se a sorte de se poder olhar para o nosso lado de dentro, mais de perto. E adquire-se uma maior clareza quando se volta ao nosso próprio universo", diz. Discípula de Kenny Barron, Geri Allen possui uma musicalidade, um vigor e um swing inconfundíveis. Mergulhou fundo no movimento M-Base, tocando com Steve Coleman ("Motherland Pulse", recenseado no Mil Folhas da semana passada). Andrew Cyrille, Julius Hemphill, Arthur Blythe, Dewey Redman, Lester Bowie, James Newton, Charlie Haden e Paul Motian puderam igualmente apreciar e aproveitar a poesia poderosa do seu piano. O seu novo disco tem por título "Twenty One". Dúvida para hoje à noite: será que trará consigo o sintetizador?
            Conversam a seguir Lee Konitz, saxofonista alto e soprano, e Joey Baron, baterista. De novo duas gerações frente a frente. Konitz é a voz dissidente do bebop que ousou contrariar o domínio de Charlie Parker e apontar novas direções, até chegar ao "cool", consciente de que o timbre e o fraseado do seu alto não são fáceis de assimilar.
            Lennie Tristano, de quem foi fanático discípulo e acompanhante - e, por consequência, de Warne Marsh, outro saxofonista "desalinhado" - foi provavelmente o pianista que melhor o compreendeu, da mesma forma que ele foi dos poucos a compreender Tristano. Talvez por isso este saxofonista um pouco marginal que tanto se rodeia dos maiores solistas como de jovens aprendizes entusiastas, que participou nas sessões de "The Birth of the Cool" com Miles Davis e que acusou Anthony Braxton de ter insultado a música de Tristano, aprecie a companhia de bateristas "melódicos". Como Joey Baron, em relação ao qual manifestou uma ânsia enorme de tocar.
            Baron, o baterista do momento, é, como se costuma dizer, pau para toda a obra. Está no rock, no R&B, na "downtown", na música improvisada como no mais redundante "mainstream". A lista de participações é infindável: Dizzy Gillespie, Tony Bennett, Chet Baker, Laurie Anderson, Art Pepper, Stan Getz, David Bowie, Philip Glass, John Abercrombie, Al Jarreau, John Scofield, The Lounge Lizards, Tim Berne... Depois dos Naked City (com John Zorn, Fred Frith, Bill Frisell e Wayne Horvitz), integra atualmente os Masada, de John Zorn, Dave Douglas e Greg Cohen. É líder dos Barondown, em trio com Ellery Eskelin e Steve Swell. A sua mais recente gravação tem por título "Down Home".
            Hoje à noite se verá quem irá aprender com quem. Divertir com quem. Arriscar com quem.

Steve Lacy + Geri Allen;
Lee Konitz + Joey Baron
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
Às 21h. Tel. 213612444.
Bilhetes entre 5 e 20 euros


Baixo grande em Coimbra

O jazz da frente continua a dar cartas em Coimbra, através dos seus concertos mensais, no âmbito de Coimbra 2003, Capital Nacional da Cultura. William Parker e o seu quarteto prosseguem esta noite o ciclo Jazz ao Centro — Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra.
            Além de Parker, contrabaixista de reconhecidos méritos que sucede em linha direta a mestres como Jimmy Garrison, Paul Chambers e Charles Mingus, fazem parte do quarteto Rob Brown (saxofone alto), Lewis Barnes (trompete) e Hamid Drake (bateria).
            Parker faz uma súmula bastante convincente e totalmente personalizada do “free jazz”, do “hard bop” e do novo jazz que dispensa catalogações. Já no final dos anos 80 participa numa série de gravações com o pianista Cecil Taylor (“Looking”, “Celebrated Blazons”, “Olu Iwa”, “Melancholy”...), associando-se posteriormente a improvisadores como Peter Brotzmann, Paul Rutherford, Derek Bailey e Peter Kowald, integrando as fileiras da editora FMP (“Free Music Productions”).
            O vozeirão do seu contrabaixo, como em Mingus, reivindicativo da primeira pessoa em discurso direto, dá ainda explicações no Little Huey Creative Music Ensemble de Nova Iorque.
            O seu álbum mais recente, “Raining on the Moon”, com o selo Thirsty Ear (editora que, segundo alguns, estará a desempenhar neste novo milénio o mesmo papel que a Blue Note nos anos áureos do jazz comprendido entre as décadas de 40 e 60) surge curiosamente inserido numa linha tradicionalista, ou neotradicionalista, onde se cruzam os fumos da “downtown”, a citação bop e o cabaré.
            Coimbra será o segundo ponto de passagem do quinteto pela Europa.

William Parker Quartet
Coimbra Teatro Académico Gil Vicente
Às 21h30. Tel. 239855636. Bilhetes a 10 euros (estudantes: 8 euros)

19/09/2016

Ouvidos sedentos [Branford Marsalis Quartet + William Parker + Mat Maneri + Myra Melford & Marty Ehrlich]

JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 21 DEZEMBRO 2002

Quatro exemplos que provam que a vanguarda não roeu a corda. A tradição está lá, E o prazer.

Ouvidos sedentos

A fotografia tem a mesma luz, os mesmos tons de pôr-do-Sol-melaço do último e decorativo álbum de Charlie Haden (“American Dreams”), mas as semelhanças ficam-se por aqui. Em “Footsteps of our Fathers”, o saxofonista tenor e soprano puxa pelos galões e assina um dos seus melhores trabalhos dos últimos anos. Quatro versões: “Giggin’”, de Ornette Coleman, “Concorde”, de John Lewis, pianista do Modern Jazz Quartet e, sobretudo, dois “tours de force” do jazz moderno, “The Freedom Suite”, de Sonny Rollins, e “A Love Supreme”, de John Coltrane.
                Se na leitura de Ornette a clareza do timbre e a agilidade discursiva se sobrepõem aos subterfúgios e ênfases do autor de “The Shape of Jazz to Come”, dando razão a quem descreve os solos de Branford neste tema como “um cruzamento entre um grande orador, um ‘cartoon’ de Disney e um pregador evangélico” e “Concorde” paira com a mesma graciosidade e o “swing” europeu típicos dos MJQ, é nas duas “suites”, executadas na totalidade, que o saxofonista se redime de anteriores concessões ao “mainstream de mercado”. Branford não é o inventor infatigável e instintivo que era Sonny Rollins (pode ser difícil conciliar a cultura com o instinto…), optando por examinar em detalhe o espectro emocional de “The Freedom Suite” (1958). Espantosa a forma como, à maneira de Rollins, altera o grão e a intensidade do tenor no interior de um mesmo desenvolvimento melódico/harmónico.
                “A Love Supreme” é mais problemático. Obra maciça que apenas faz sentido na economia individual de Coltrane, é, acima de tudo, uma via. Branford distinguiu nela a espiritualidade, evitando paroxismos (inevitáveis em Coltrane) que soariam a truque de ilusionismo. Ou, como o Quixote de Pierre Ménard, igual e diferente ao de Cervantes, reescreveu a mesma obra, nota a nota, porem fazendo-a genuinamente sua. O “amor supremo” de Branford Marsalis é o mesmo e outro, em comparação com o de Coltrane. Joey Calderazzo, ao piano, é que, manifestamente, não é McCoy Tyner…

Chuva de contrabaixo
                Na editora Thirsty Ear (“ouvido sedento”) trabalha-se bem. A “Amassed”, dos Spring Heel Jack, candidato fortíssimo a melhor álbum do ano, juntam-se “Raining on the Moon”, de William Parker, e “Sustain”, de Mat Maneri. O primeiro é uma declaração orgulhosa do contrabaixo. Parker é herdeiro de Mingus e isso nota-se. Cada nota é um manifesto. Cada solo, uma ideologia. Enunciada em detalhe, quase com desfaçatez. Rob Brown, no sax alto, e Louis Barnes, na trompete, exemplificam a liberdade de muito do jazz contemporâneo, dialogando ou combatendo em todos os territórios disponíveis, do “free” à “downtown”, da balada parkeriana ao cabaré. Leena Conquest, cantora convidada, não escapa ao “cliché”, faltando-lhe a profundidade das grandes vozes. Compensa com a variedade e faz de MC, no título-tema. É ela o elo fraco de um álbum que, de outra forma, subiria mais alguns furos.

Violino-gato
                William Parker participa em “Sustain”. Aqui, todavia, não há espaço para as famílias conversarem em redor da tradição. É provável que Leena Conquest fugisse esbaforida ao escutar os sons “esferovite a raspar no vidro” que Mat Maneri arranca do violino, no tema de abertura. Mat é discípulo de Ornette (daí o estilo “gato”, arranhado e assanhado) e Stuff Smith (o “swing”), aluno da escola libertária aberta por Leroy Jenkins e frequentada por caloiros como Philip Wachsmann, na formatação de um estilo onde o jazz, a eletrónica e a nova música improvisada são pilares de uma estrutura ao mesmo tempo firme e mutável. “Sustain” é uma construção em progresso, sobreposição de tensões (nos saxofones está Joe McPhee…) e de módulos, cuja articulação nunca se faz de forma evidente. Evidência não é, de resto, critério válido senão para a filosofia. Diga-se antes incandescência, precariedade, perigo, caminhada, por vezes aparentemente discordante, mas sempre com os olhos postos no todo. “Alone” surge cinco vezes como título, mas é no esforço de unificação e no encontro dos cinco músicos – além de Parker, McPhee e do líder, também Gerald Cleaver, na bateria, e Craig Taborn, nos teclados: a quem se deve um solo de piano a céu aberto, em “Alone (construct)” – que a solidão se sublima.
                Parker e Maneri fazem descer os arcos aos abismos, em “Alone (unravel)”, “drone” telúrica de baixos, “Nerve” conta com um McPhee ao mais alto e psicótico nível. Em “Divine”, o som do coletivo emerge do magma, da angústia para a nota superior, que, finalmente, se faz ouvir, luminosa… Apanhá-la pode não ser tarefa fácil para os que receiam as alturas ou desconhecem as técnicas de alpinismo…

Momentos a dois
                Gravado há dois anos e editado no ano passado, “Yet Can Spring” junta duetos de Myra Melford (piano) com Marty Ehrlich (saxofone alto, clarinete e clarinete baixo). Ehrlich já fizera parte do Extended Ensemble da pianista, por sua vez outrora elemento da AACM de Chicago. Seja nas composições originais, em novas versões de faixas já incluídas em “Above Blue” e “Sojourn” (para a editora Tzadik, de John Zorn), numa composição da “artista pop que tem vergonha de o ser”, Robin Holcomb, ou num “blues” de Otis Spann, a comunicação é perfeita. Myra, fraseado limpo e afirmativo, sem poluentes, consegue ser raiz e flor. Afasta-se para tão longe até roçar a citação prog-clássica, em “Here is only moment” (que consegue apanhar as notas de um tema dos Genesis?)
                Ehrlich vai do desprendimento a uma concentração sobrenatural, ora gritador, ora fonte incessante de melodias. Fúria e comoção. Nele o intelecto comanda. Ou era o que se poderia pensar, tendo em conta o exemplo dado por muitos dos seus álbuns a solo. Norma quebrada por culpa da pianista, que, a cada momento, lhe puxa o tapete debaixo dos pés para logo lhe estender novas plataformas de escuta e entendimento. Ehrlich surpreende-se, “foge” para o monólogo, enreda-se em modulações multidimensionais. A forma como Myra lhe lança as coordenadas certas e ele as aproveita, em “The natural world”, a par da balada “Yellow are crowds of flowers, I”, contrasta pela serenidade. E, não sei se sabiam, mas Myra e Marty sabem dos “blues”. Ouçam-nos a baloiçar em “Don’t you know”, de Otis Spann. De rebolar de prazer.


Branford Marsalis Quartet
Footsteps of our Fathers
Marsalis Music, distri. Dargil
8|10

William Parker
Raining on the Moon
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
7|10

Mat Maneri
Sustain
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
8|10

Myra Melford & Marty Ehrlich
Yet Can Spring
Arabesque, distri. Trem Azul
8|10