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13/02/2020

Fórmula 1 sem competição [Carlos Nuñez]


CULTURA
QUARTA-FEIRA, 18 FEV 2004

Crítica Música

Fórmula 1 sem competição

Carlos Nuñez
LISBOA Grande Auditório do CCB.
2.ª feira, às 21h. Sala cheia.

Um músico fabuloso pode dar um mau concerto? Às vezes acontece. Aconteceu na passada segunda-feira, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, onde Carlos Nuñez fez nova demonstração do seu virtuosismo sem que tal fosse sufi ciente para afastar o espetáculo, nalguns momentos, da vulgaridade.
Ponto assente: a tocar “tin whistle”, uma quantidade de flautas, ocarina ou gaita galega, Carlos Nuñez é um assombro e, nesse capítulo, a sua apresentação no CCB não fez mais do que confirmar as suas inegáveis capacidades de intérprete. Nos “reels” irlandeses, nas modalidades galegas, nos tempos rápidos (que no seu caso roçam a vertigem) ou nos lentos, Nuñez reafirmou a sua técnica quase sobrenatural, aliada a um sentido inato do tempo e à capacidade em extrair de cada tema a sua natureza mais íntima.
Mas Nuñez, sozinho, não pode fazer tudo. O quarteto que o acompanhou no CCB, por mais entusiasmo e empenhamento postos na função, não conseguiu estar à altura do solista. Pancho Alvarez, no bandolim, cumpriu sem brilhar, e Begoña Riobó mostrou que o seu violino entra em “panne” a partir da quinta velocidade, já para não falar da dificuldade em entrar no tom certo da única vez que foi chamada a cantar, em “Cantigueiras”, de “A Irmandade das Estrelas”. Quanto ao baterista Xuxo Nuñez, fez levantar uma vez mais a questão de saber até que ponto a bateria enriquece ou não as danças tradicionais. Neste caso, não enriqueceu.
Os ritmos quadrados, a batida primária, podem chamar as palmas mas enterram qualquer tipo de veleidade de fazer correr um “swing” de maior complexidade. Xuxo também tocou – mas quase não se ouviu, por deficiente amplificação, o “bodhran” – e tentou dar “show” num solo de percussão numa espécie de txalaparta improvisada. Soou a circo.
Claro, a tudo isto, acrescido a um reportório escolhido para agradar sem exigir, resvalando em certos temas para a folk-pimba, respondeu Nuñez com intervenções de cortar o fôlego. Num dos solos de gaita, antecipado por uma explicação didática e bem-humorada das diferenças entre as gaitas-de-foles escocesa, irlandesa e galega, reproduziu na galega (mas como consegue ele arrancar tais prodígios, apetece perguntar?) o timbre das “Highland pipes” escocesas antes de se lançar, desvairado, num tempo do outro mundo, onde a música, as emoções e os sentidos são arrastados para uma pista de corridas.
Houve surpresas. Com convidados portugueses. Lilia, uma das vozes reveladas na Academia de Estrelas, da TVI, lançada às feras, cumpriu com gravidade o papel que em “A lavandeira da noite”, do álbum “Os Amores Libres”, é desempenhado por Noa. Paulo Marinho e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, fizeram de micro-Bagad, em “El ottro Finisterre” e no final apoteótico, “Aires de Pontevedra”. Parte do público, que encheu o CCB, fez roda e invadiu o palco (como já acontecera, sábado, no Rivoli do Porto) dançando, mas sem folia, um “an dro” bretão mas, no final, nem sequer foram pedidos todos os “encores” que o alinhamento previa.
No meio da festa que não chegou a acontecer – o palco imenso do auditório do CCB afasta os músicos e arrefece os ânimos, neste tipo de música –, cumpre salientar um momento onde tudo foi redimido pela devoção, quando Nuñez homenageou Derek Bell, o harpista dos Chieftains falecido em Outubro de 2002, com Xuxo Nuñez a recortar ao piano as notas de cristal de uma harpa céltica.
Fez-se silêncio, a noite iluminou-se na despedida de um “air” (“Women of Ireland”, original composto por Bell para a banda sonora de “Barry Lyndon”) e Carlos Nuñez ergueu o “tin whistle”, soltando o eco das últimas notas em direção ao céu.

EM RESUMO
Um músico fabuloso não chegou para fazer um bom concerto. Mas a homenagem a Derek Bell roçou o sublime


24/10/2019

Elena Ledda e o erotismo das danças do Sul


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 16 SET 2003

Crítica Música

Elena Ledda e o erotismo das danças do Sul

Elena Ledda
CASTRO VERDE Cineteatro
dia 13, 22h00
Bastante público


O Verão não dá tréguas e Castro Verde, em pleno Baixo Alentejo, torra ao sol. Felizmente beneficiou do refrigério da música, no festival Planície Mediterrânica, integrado na programação do Sete Sóis Sete Luas, que terminou no domingo com espetáculos de Lula Pena e dos Ficções.
A felicidade fez-se sentir no sábado, no cineteatro da vila, quando os ouvidos e a alma acolheram a música da cantora da Sardenha Elena Ledda, responsável pelos projetos Suonofficina e o atual Maremannu, e senhora de uma voz capaz de deixar qualquer um de rastos (o calor não conseguiu tal). Até certo ponto, pelo menos. É que, se quase todos se encantaram, houve também quem se mostrasse indiferente a esta voz que ora transporta uma religiosidade a roçar o sublime, ora faz estremecer os corpos com o erotismo que atravessa, como um arrepio na pele, as danças do Sul. Mas nem o erotismo nem o sagrado foram suficientes para calar uma parte do público, que insistiu em conversar na plateia em voz alta, enquanto a criançada corria e guinchava pelas cochias.
No palco, os músicos cantavam com devoção uma liturgia ou polifonias dirigidas a Deus. Valeu que Deus, incluindo quando veste as roupagens de Terra, mesmo quando não se respeita o silêncio que lhe é devido, sabe fazer-se ouvir através das vozes que se colocam ao seu serviço. A de Elena Ledda é uma delas.
Umas vezes grave, outras gracioso, só ou apoiada por uma segunda voz, o canto de Elena escancarou sobre a noite de Castro Verde uma abóboda de estrelas. Cantou lengalengas e canções de ninar que há séculos fazem adormecer e acalmar as crianças (menos as do Cineteatro de Castro Verde) e espantam os papões. Emocionou ao interpretar um tema em curdo. Criou padrões intrincados nas polifonias a duas vozes. Improvisou com inspiração entre o transe ritual e acentos contemporâneos moldados no minimalismo. Os dois instrumentistas, um no bandolim outro no baixo elétrico, reforçaram a componente rítmica de alguns temas com balanço folk-rock, contribuindo para a descompressão de uma música que, nos momentos de elevação, não admite qualquer tipo de interferências.
Quando, porém, a religiosidade se materializou em citações diretas a Nossa Senhora e ao Menino Jesus ou na laicização musical dos cânones de uma missa tradicional, houve na sala quem, mais materialista, se agitasse na cadeira e desviasse o rosto, incomodado. Absorta – e, no entanto, tão próxima – no seu êxtase, imune às pressões da revolução, Elena Ledda fez o que tinha a fazer, cantando como uma diva em trânsito entre os enlevos do céu e as delícias da Terra. No final, quase todos se renderam, ovacionando-a de pé.

"Cante" alentejano e jazz com humor
Antes de Elena Ledda, cantaram as Camponesas de Castro Verde, com uma curta mas sentida sessão de "cante" alentejano. A anteceder o concerto propriamente dito, na rua, em frente ao anfiteatro, já tinham atuado os Funk Off, banda de jazz cómica italiana que coloca a música ao serviço do humor e vice-versa. As suas fanfarras, tão swingantes como desbragadas (algures entre os Bandemónio e os Madness, como se ouviu alguém comentar), as coreografias de circo, a interação com o público, as ordens berradas em jeito de "rap" ao megafone, as poses Monty Python e uma alegria e movimentação contagiantes arrancaram sorrisos, gritos, palmas e passos de dança à pequena multidão que se juntou em redor desta "big band" de "jazzmen" faz-tudos.
Mas a noite tinha ainda reservadas outras surpresas. A seguir ao concerto, numa tenda improvisada, um baile tradicional reavivou, ao som das violas campaniças, os ancestrais passes de dança que, durante séculos, foram repetidos no Alentejo, mas que a passagem do tempo vai apagando dos corpos e das memórias dos mais novos. Nada tradicionais, os Chocalhos subiram depois ao estrado para continuar o baile. Misturaram valsas e mazurkas, reggae e rock, batucadas e andamentos medievais, um tema dos Milladoiro e toques dos Gryphon. Têm um ágil percussionista (ao que parece, antigo elemento dos Ciganos de Oiro) e um "virtuose" flautista (flautas transversal e de bisel) e executante de instrumentos de sopro medievais que irá dar que falar. O CD de estreia dos Chocalhos, que têm tudo para triunfar menos o nome, sairá em breve.
Quando, por fim, um grupo de gaiteiros se juntou à festa, o Alentejo deixou de ser árabe para sucumbir à sedução celta. Vasta, ardente e luminosa planície mediterrânica, puxaram-na para Norte, mas continua a ser ela. Eixo em redor do qual a nova Europa irá bailar.

EM RESUMO
Castro Verde assistiu a um concerto memorável por uma das grandes vozes atuais do Mediterrâneo. Antes, divertiu-se à grande com as tropelias dos Funk Off. Pena a falta de respeito de algum público presente no cineteatro.

Irmãos Tejedor levam Sendim à loucura


CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 4 AGO 2003

Crítica Música

Irmãos Tejedor levam Sendim à loucura

LENGA-LENGA, LEILIA, TEJEDOR
Sendim, recinto principal
Sexta, dia 1, às 22h
Cerca de 2000 pessoas

Inacreditável. I-n-a-c-r-e-d-i-t-á-v-e-l! É o mínimo que se pode dizer do virtuosismo de José Manuel Tejedor, gaiteiro dos Tejedor, grupo asturiano que na tórrida noite de sexta-feira fechou o primeiro dia do festival Intercéltico de Sendim, que terminou ontem com a celebração, na igreja paroquial, de uma Missa Intercéltica.
Há muitos anos que não assistíamos a uma demonstração deste nível. Nas danças tradicionais mas, sobretudo, em duas peças solistas que recordaremos por muitos anos, José Manuel Tejedor foi simplesmente assombroso, num desempenho na gaita asturiana que deixou o público, positivamente, de rastos.
Vencedor quatro anos do troféu Macallan, no Festival de Lorient, na Bretanha, José Manuel Tejedor alia uma técnica irrepreensível a um estilo que tira o máximo partido da típica digitação fechada da gaita-de-foles das Astúrias. Não será por acaso que lhe chamam o "Induráin da gaita", tal a velocidade e a força da sua execução. Mas toda a atuação do grupo foi de altíssimo nível, dos outros dois irmãos Tejedor – Javier (acordeão diatónico, percussões, gaita) e Eva (voz e percussões) – aos convidados (incluindo Igor Médio, dos Felpeyu, no bouzouki), pondo a assistência a dançar, a fazer rodas e a gritar de entusiasmo.
Isto é, de resto, outra das coisas inacreditáveis deste Intercéltico de Sendim. Há um ambiente que não se descreve mas se vive a cada momento. No recinto do concerto (que no sábado rebentou pelas costuras para assistir aos irlandeses Dervish), mas também nas ruas, nos cafés, em todo o lado, sente-se o "celtismo" da região, exacerbado pelo festival. Em cada canto respira-se música e ouve-se o som de gaitas-de-foles tocadas por músicos amadores.
No pequeno largo em frente ao restaurante Gabriela, onde se come uma divinal posta sendinesa (atenção, nunca chamar, aqui, mirandês ou mirandesa ao que quer que seja, pois a rivalidade entre Sendim e Miranda do Douro é feroz...), grupos de forasteiros misturam-se com a população local, convivendo ao som da música céltica. Os sendineses amam a sua terra e fazem questão de o mostrar.
À noite é igual. Tio Ângelo Arribas, construtor e tocador de gaita, entra no terreiro à frente do grupo dos melhores alunos do curso de gaita mirandesa que lecionou durante o ano no Centro de Música Tradicional Sons da Terra. Os miúdos tocam, orgulhosos, cinco temas tradicionais. E afinados - vai-se fazendo escola na arte de construir e tocar a gaita de Miranda.
Henrique Fernandes, gaiteiro da terra, apresentou, a abrir o festival, um programa especial que, além do trio habitual de gaita, bombo e caixa, incluiu um grupo de pauliteiros e cantoras convidadas. A "Alvorada" com que abriu, a solo, as hostilidades, foi a melhor que alguma vez lhe ouvimos tocar. As Leilia vieram a seguir da Galiza dizer que ficou para trás o tempo em que eram "apenas" o mais conceituado grupo de cantoras e pandeireteiras da sua região. Agora a sua música tem a acompanhá-la um grupo instrumental o que, se não melhora substancialmente a qualidade, tem a virtude de tornar o som ritmicamente mais cheio e acessível.
Mas Sendim é Sendim e tudo o que é da casa tem o gosto e a cor das coisas amadas. Numa das tendas instaladas no recinto, tio Ângelo Arribas não perde uma oportunidade de tocar para os curiosos e de mostrar a qualidade de fabrico dos seus instrumentos (gaitas mas também ponteiras e flautas – "fraitas" – pastoris). Mais embevecido fica quando duas belíssimas louras vindas da região "inimiga" de Miranda do Douro, se colocam ao pé de si, uma de cada lado, para se deixarem fotografar os três. Chamam-se Marta e Inês e, apesar de terem adorado o concerto dos Tejedor, torcem o nariz ao "show" de virtuosismo do seu gaiteiro: "Estamos habituadas e gostamos é de ouvir o som das gaitas da nossa região." Mas reconhecem que tocar da maneira como o faz José Manuel Tejedor, "tem que se lhe diga". Consumado o programa oficial do primeiro dia, seguiu-se a folia, na Taberna dos Celtas que fica mesmo ao lado.
Houve loucura etílica e musical completa, potenciada pelo calor. Gaiteiros saltam para cima das mesas (entre os quais Henrique Fernandes) e percussionistas, profissionais e improvisados, por todo o lado, criando uma atmosfera guerreira e tribal. Canta-se e bate-se nas mesas, dança-se e grita-se, a música mal se ouve, por vezes, no meio da confusão. No exterior, a mesma coisa, mais gaiteiros, vindos não se sabe de onde. O nascer do sol aproxima-se mas ninguém parece dar-se conta. Sendim está febril. O Intercéltico fez da terra uma rainha transmontana.

16/10/2019

Boa onda em música para multidões [FMM Sines]


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 29 JUL 2003

Crítica Música

Boa onda em música para as multidões

Kronos Quartet + Kad Achouri + The Skatalites
(Festival Músicas do Mundo)
SINES Castelo
Sábado, às 21h30. Lotação esgotada.

Terminou no sábado a 5ª edição do festival Músicas do Mundo de Sines. Com a festa do costume, a cargo dos The Skatalites, engalanados com o fogo de artifício da praxe, mas a atuação entusiasta (para muitos entusiasmante), desta instituição do "ska" não chegou para tirar o Músicas do Mundo de uma certa ideia de massificação e de ter sido, em termos de música ouvida, um dos piores da sua história.
Compreende-se a opção da organização – impecável, nos aspetos logísticos – em ter como principal preocupação para este ano, levar ao castelo o maior número possível de pessoas. Em época generalizada de crise e de falta de apoios camarários, era preciso mostrar serviço. Objetivo cumprido a 100 por cento. Nunca como neste ano o público comparecera de forma tão maciça, lotando por completo o interior do castelo. 5000 entradas vendida por noite, na sexta-feira e no sábado, não impediram que outras tantas centenas ficassem de fora e tivessem que se contentar em assistir ao festival através do ecrã gigante afixado num dos muros do castelo.
Mas se a aposta no público foi ganha o mesmo não se pode dizer da qualidade musical. À exceção dos Danças Ocultas e do grupo afegão Ensemble Kaboul, aos quais se juntaram, no último dia, os Kronos Quartet, tudo o resto esteve abaixo do que seria lícito esperar, nalguns casos pautando-se pelo pior que a "world music" tem para oferecer: sopas incaracterísticas que de étnico já pouco ou nada têm, embaladas em papel de fusão e batidas preguiçosas que lá vão chegando para pôr as pessoas - mais preocupadas em curtir a todo o custo do que em ouvir música pela música - a dançar. Foi pena que os Kronos Quartet mal se pudessem ouvir. Com um volume de som baixíssimo, a música chegava como um sussurro à zona mais recuada do castelo, soando como acompanhamento de luxo de um estado de espírito geral que não estava para aí virado. A dado momento pararam mesmo de tocar, perdendo-se largos minutos na resolução de um qualquer problema técnico. Por fim lá reentraram no seu mundo privado, em Sines preenchido por composições do álbum "Nuevo", mas também por uma curiosa versão de um tema dos Sigur Rós.
Kad Achouri, que atuou a seguir, foi confrangedor. Chamar "world" à sua mistela pimba de sons afro-latinos sobre ritmos tcham-tcham-tcham é ofensivo para as tradições do planeta. O que este francês de origem argelina fez em Sines, em nome de uma modernidade que ele se encarrega de trair, caberia perfeitamente numa daquelas emissões da nossa televisão que animam as tardes de praia, entre um passatempo e uma Cola, de tal forma o popular desceu à cave do popularucho. As liberdades permitidas pelo seu álbum "Liberté" estatelaram-se na permissividade. Imaginem um Manu Chao de refugo. Kad Achouri nem sequer foi pândego.
No fecho do festival, os The Skatalites vieram da Jamaica e não interromperam por um só minuto a sua descarga de "Ska" mesclada de rhythm 'n' blues. Verdade seja dita que o ritmo se manteve inalterável do princípio ao fim o que, se serviu às mil maravilhas a sua finalidade dançante, matou, por outro lado, qualquer veleidade em fazer algo mais subtil. O fogo de artifício – este ano também em regime económico e menos espetacular do que tem sido hábito – interrompeu a música um pouco a despropósito mas nada pareceu perturbar a boa onda que caracteriza o Músicas do Mundo.
Bom seria que para o ano se repensasse o rumo que este festival tenciona tomar. É que música de qualidade e com menos concessões não é incompatível com a adesão das massas, como de resto as anteriores edições já fizeram questão de demonstrar.

EM RESUMO
O festival Os Kronos Quartet, apesar do baixo volume de som, salvaram o terceiro e último dia do Músicas do Mundo mas a festa veio com os The Skatalites. Kad Achouri foi para esquecer.

Totonho soltou a cabra no Músicas do Mundo de Sines


CULTURA
DOMINGO, 27 JUL 2003

Totonho soltou a cabra no Músicas do Mundo de Sines

Ao fim de dois dias, o 5.º festival Músicas do Mundo pode orgulhar-se de ser o mais participado de sempre. Música, com “M” grande, para já, só a dos portugueses Danças Ocultas e dos afegãos Ensemble Kaboul. Do Brasil ouviu-se um enorme estrondo.


Surpreendentemente, foram os brasileiros Totonho e os Cabra a arrancar a maior e mais furiosa onda de aplausos registada ao fim de dois dias do festival Músicas do Mundo, que ontem terminou em Sines. Chanfana de cabra, prato pesado, esteve prestes a provocar indigestão mas, servida como ceia, foi engolida pelos mais resistentes com sofreguidão.
            Totonho e o seu grupo, últimos artistas a atuar sexta-feira num castelo completamente lotado, cantam e falam com alguma dificuldade. A música do grupo é simplória, os ritmos são de uma pobreza confrangedora, mas o entusiasmo e a convicção mostram um empenhamento total, uma raiva genuína, um desejo de vomitar as tripas e de comunicar, custe o que custar. Houve quem não aguentasse e fosse abandonando o recinto, insensível à mistura de batuque, megafone e rap disparados à queima-roupa. Os que aguentaram, porém, renderam-se, transformando em ritual pagão o que de início parecera chinfrineira e erro de “casting” do festival.
            É o Brasil do Nordeste, o Brasil pobre, o Brasil profundo que Totonho e os Cabra lançam à cara de quem os ouve. Totonho é o cabra (embora o seu verdadeiro apelido seja Bezerra), que grita através de um megafone imprecações e palavras embrulhadas em escarros. “Segura a cabra” foi o hino repetido no encore, por entre eletrónica industrial (consta que o grupo aprecia os alemães Einstuerzende Neubauten) e cordas gordurentas. Totonho está pouco à vontade em palco, inicia frases de explicação sem as terminar, engasga-se, tudo parece coisa de amadores. E os Cabra são-no, de facto, embora o vocalista não seja nenhum Zé Cabra. Ensaia passos fora de ritmo, ergue um totem com a cabeça de uma cabra, não se percebe o que diz mas percebe-se que está a ser sincero e que gostaria que a música servisse, de facto, para mudar a sociedade e o mundo. Grita, imita um cão a ladrar e faz de cabra mais do que uma vez. Em “Babaovo midi” rima Peter Tosh com Macintosh mas é preciso chegar à parte final do “concerto” para tudo fazer sentido, através de um rock pesado, implosivo, massacrante.
            Nos bastidores ele e o grupo choram e abraçam-se, comovidos. O público pede “encores” (foram os únicos a dar dois) e parecem não acreditar que são desejados. Têm que ser empurrados para o palco. Tinham estado ali, nus, arriscando-se ao ridículo. Mas regressam, como heróis. Totonho acerta finalmente nos movimentos do corpo e da voz, improvisa no lugar certo, os outros músicos perdem a timidez e dão o máximo de si próprios, enlouquecidos. “Segura a cabra”, mas a cabra já se transformara num demónio. Tudo poderia começar nesse momento e, quando as luzes se apagam, já de madrugada, continuam a ouvir-se os gritos dos jovens das filas da frente a pedir mais.
            A melhor música da noite veio dos Ensemble Kaboul, do Afeganistão. Talvez numa sala fechada tivesse soado ainda melhor. Ainda assim, para quem entrasse a tempo (e esta é uma música que, como o “raga” indiano, necessita que entremos nela e não o contrário), o transe instalou-se de forma subtil e gradual, como a serpente que, sem nos darmos conta, se enrola em torno do coração e o hipnotiza. Solos de percussão e de instrumentos de corda exóticos criaram um clima de relaxamento no qual a voz da cantora Mahwash se encaixou sem se destacar. Música para se ouvir deitado a olhar para as estrelas.
            No registo oposto, o trio de cantoras veteranas Mahotella Queens e o seu grupo elétrico, limitou-se a pôr as pessoas a baloiçar o corpo. Sessentonas mas bem ginasticadas, as rainhas dançaram, mudaram de roupa, vestiram camisas transparentes, mostraram as pernas e o rabo, foram alegria e comunicabilidade e, no final, depois de um tema da tradição zulu (o melhor da sua atuação), desfizeram-se em elogios a Sines, ao público, ao festival, prometendo voltar. A “Mbaquanga”, da qual mostraram a versão em plástico, uma africanada batida em rock automático, funcionou, como um “preset” de ritmo.
            No dia de abertura, os Danças Ocultas, na apresentação de temas de um álbum a editar em breve, mostraram que a europeização parece ser caminho obrigatório para este quarteto de acordeões diatónicos. Estão mais adultos, e composições como “La danse idéale”, “Danças ocultas” e “Tristes europeus”, são tapeçarias de câmara, dignas da grande folk em qualquer parte do mundo. Arranjos intrincados, uso sábio do contraponto e uma erudição que não dispensa o contacto com as fórmulas populares dão garantias de que o grupo poderá ser, num futuro muito próximo, par de pleno direito de formações como Trans Europe Diatonique ou de solistas como Alain Genty e Riccardo Tesi.
            Quinta-feira terminou com os Simentera, de Cabo Verde, que mostraram o que é habitual nos grupos com esta proveniência: um balanço a que os corpos dificilmente resistem, um calor que se entranha na pele, belas vozes femininas nas baladas e histórias para contar, como a do guitarrista mais velho, com apenas três dedos numa das mãos e filhos feitos em todas as ilhas do arquipélago, façanha que o público aplaudiu devidamente — o fértil guitarrista agradeceu, erguendo os braços em triunfo. Infelizmente houve também um suporte rítmico sem grande imaginação, um saxofonista sofrível e um tempo excessivo de atuação, dando a entender que os Simentera, caso os deixassem, ficariam no palco toda a noite.
            O Músicas do Mundo cumpre, assim, o ritual. Dentro do castelo, a “world music”, sobre relva (sim, sim, aqui não há pó, o chão é verde e confortável!...) e sob o céu do Verão alentejano. Fora dele, o folclore do costume: tendas de artesanato e de chás, falsos e verdadeiros hippies (para os distinguir, basta ver se há crianças e cães por perto, caso haja, são verdadeiros), “rastas” e bailarinas, aprendizes de malabaristas e outros cromos que, não se sabe bem porquê, estão sempre presentes neste tipo de festivais. Vimos mas não ouvimos djembés, louvado seja o Deus da música do mundo.

31/01/2019

Bólides irlandeses ultrapassaram Mercedes [Festival Intercéltico]


CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 7 ABR 2003

C r í t i c a M ú s i c a

Bólides irlandeses ultrapassaram Mercedes

XIII FESTIVAL INTERCÉLTICO
Gaiteiros de Lisboa + Four Men and a Dog
4 de Abril, sala praticamente cheia
Mercedes Péon + Altan
5 de Abril, sala cheia
PORTO Coliseu

Terminou o 13.º Festival Intercéltico do Porto. Em apoteose. É quase sempre assim, quando a Irlanda desce ao Porto, com festa rija, toda a gente a dançar e um ar de felicidade estampado nos rostos e nos corpos. Os Altan cumpriram com brilho, sábado, no Coliseu, a tarefa de que foram incumbidos, divulgando a mensagem renovada de uma Irlanda definitivamente enraizada nos hábitos culturais do Intercéltico. Grande concerto, em crescendo, sem concessões. É assim que deve ser, atrair o público até à música, levá-lo a compreendê-la, senti-la e aceitá-la, ao invés de apelar aos desejos mais básicos de quem ouve. Os Altan começaram devagar, com o canto “a capella” de Mairead Ní Mhaonaigh (na foto). Os “jigs” e “reels” apareceram naturalmente, sem tiranizar a beleza de baladas como “Roaring water” ou “A tune for Frankie” (dedicado ao malogrado flautista e fundador dos Altan, Frankie Kennedy). Aos poucos os corpos soltaram-se. Vieram as danças, a imparável vontade de participar.
            Mairead, além da voz que se conhece, mostrou ser uma exímia violinista, entrando em diálogos vertiginosos com Ciaran Tourish, sem o apoio de quaisquer percussões. A assistência mostrou estar à altura dos acontecimentos, sabendo dosear a folia com o silêncio, como quando cantou, sem uma desafinação, uma melodia a quatro tempos ensinada por Mairead. Com os Altan a Irlanda profunda esteve presente no Porto e deixou marcas.
            Na véspera foi uma outra Irlanda que passou pelo Intercéltico. Ao contrário dos Altan, os Four Men and a Dog praticam uma música mais universal e tecnicista. Ausente Gino Lupari (para grande desapontamento de muitos), trocado pelo competente e amplificado Jimmy Higgins, no “bodhran”, o quarteto selou uma atuação tecnicamente irrepreensível de onde sobressaíram as acrobacias violinísticas de Cathal Hayden e Gerry O’Connor. A forma como transformaram “Music for a Found Harmonium”, dos Penguin Cafe Orchestra, num tema com uma complexidade harmónica que o original não possui foi exemplar da atual abordagem estilística dos Four Men and a Dog, um grupo que, sem Gino Lupari, manifestamente se tornou mais musical, ganhando em rigor o que perdeu em teatralidade e “verve” humorística. Mesmo assim, um “boogie” saído da cartola mostrou que ainda anda por ali à solta um cão vadio...
            Desiludiram as duas bandas chamadas a fazer as primeiras partes. Na sexta-feira, os Gaiteiros de Lisboa esticaram demasiado a corda. Inegável continua a ser a originalidade de uma música única no panorama da “folk” europeia. Polifonias intrincadas, uma tensão instrumental feita da polaridade entre a música antiga e a modernidade mais radical, um humor inteligente e “nonsense” mordazes, a força de percussões arrancadas ao cancioneiro
português mais genuíno, tudo isto esteve presente na atuação dos Gaiteiros na noite portuense. Faltou a unidade, a sustentação prática de um edifício cuja complexidade não cessa de aumentar. Se o motor rítmico funcionou e as vozes compensaram com a beleza do labirinto um ou outro défice de colocação, o mesmo não se poderá dizer das gaitas-de-foles numa noite em que andaram manifestamente perdidas. Nem sempre é possível acompanhar a força das marés, e a onda gigante, o macaréu, dos Gaiteiros é força da Natureza, umas vezes doce, outras tempestade difícil de domar.
            Mercedes Peón, na abertura de sábado, não esteve melhor. Não que o público não tivesse gostado. Adorou. Mas porque a cantora galega lhes ofereceu prato de fácil digestão: batidas rock de baixo elétrico e bateria, cânticos fortes servidos por um vozeirão que se deve ter feito ouvir na outra margem do Douro, gaitadas meia-bola-e-força e canções dignas de uma “Operação Triunfo” não tiveram dificuldade em impor-se. Mas Mercedes foi mais veículo de carga do que automóvel de luxo. No “stand” do Intercéltico, os bólides irlandeses continuam a ser os mais viáveis.

EM RESUMO
Duas Irlandas, a profunda dos Altan e a universalista dos Four Men and a Dog, “arrasaram” o Coliseu do Porto.
Gaiteiros e Mercedes foram a arranjar para a oficina

Orquestra Victor Jara [13º Festival Intercéltico do Porto]


CULTURA
SÁBADO, 5 ABR 2003

C r í t i c a M ú s i c a

Orquestra Victor Jara

Brigada Victor Jara + Shantalla
PORTO Coliseu dos Recreios
Quinta dia 3, às 21h30
Meia sala

Não correu de feição a estreia no palco principal do Coliseu dos Recreios da banda irlandesa Shantalla, a abrir a 13ª edição do Festival Intercéltico do Porto, perante pouco público e com o azar e o clima de crise a fazerem-se sentir. Helen Flaherty, a fotogénica cantora do grupo, não esteve presente, devido à morte do pai, sendo substituída à última hora por Niamh Parsons, que o Intercéltico já acolhera como cantora dos Arcady.
            Niamh não teve culpa. Voz e sensibilidade à altura, defendeu-se da notória falta de ensaios, optando por vocalizações “a capella”, ou com o apoio cauteloso da guitarra de Joe Hennon e as tímidas pontuações decorativas do violino de Kieran Fahy e o acordeão de Gerry Murray. Foi, porém, no desempenho instrumental que os Shantalla desiludiram, não fazendo jus às capacidades que dão a entender no belíssimo álbum “Seven Evenings, Seven Mornings”.
            Michael Horgan, que no disco faz maravilhas, aparentou ser um executante vulgar nas “uillean pipes”, embora tenha ficado a ideia de uma amplificação deficiente do instrumento. O palco enorme do Coliseu confirmou, por outro lado, estar longe de proporcionar a intimidade de um “pub”... Os músicos e as notas pareceram desligados, faltou alegria, com o público a reagir automaticamente aos apelos à dança e aos apartes que entraram na rotina, das referências ao álcool ao “peço desculpa mas o meu português é muito fraco” da praxe. Difícil filtrar o ar da tristeza do tempo...
            Na primeira parte a Brigada Victor Jara surpreendeu. Arrancada a um estado de letargia que ameaçava conduzir a banda para o estatuto de “velha glória” resignada a receber o “prémio de carreira”, a música readquiriu uma vitalidade e um sentido de urgência que o recente álbum ao vivo não fazia prever. O palco encheu-se de 19 músicos, incluindo uma secção de metais dirigidos pelo trompetista Tomás Pimentel e quatro gaiteiros galegos dirigidos por Xosé Gil Rodrigues. Muita gente numa ameaça de confusão que nunca aconteceu, graças à liderança forte do violino, cada vez mais depurado e classizante, de Manuel Rocha, e dos teclados de Ricardo Dias, a quem a Brigada Victor Jara deve muita da atual fase de renovada pujança e criatividade.
            Entre um reportório constituído por cinco originais a incluir no próximo álbum – “Dailadou”, “Caracol”, “Durme”, “Lenga lenga” e “Meninas vamos à murta” – e temas antigos como “Menino Jesus”, “Mi morena” e “Bento airoso”, submetidos a arranjos originais, destacaram-se uma épica “Cantiga bailada”, repetida no “encore”, com a Brigada transformada em orquestra de folk progressivo, e o inesquecível desempenho vocal de Catarina Moura, em “Durme”, tema da tradição sefardita a exigir concentração, afinação e emotividade sem falhas, que teve na cantora uma intérprete de exceção. A forma como resolveu a transição de tom no final de uma das frases provocou arrepios.
            O Intercéltico termina hoje com atuações da cantora galega Mercedes Péon e da superbanda irlandesa Altan.

EM RESUMO
No confronto Portugal-Irlanda, uma renovada Brigada Victor Jara derrotou os Shantalla desfalcados da sua cantora habitual

16/02/2018

Semear para colher, no Porto [7º Festival Intercéltico do Porto]


cultura TERÇA-FEIRA, 2 ABRIL 1996

Brigada Victor Jara e Arcady fecham com chave de ouro as portas do Intercéltico

Semear para colher, no Porto

A colheita do Porto Intercéltico proporcionou, no terceiro e último dia do festival, um Iranda “vintage” e um reserva coimbrã B.V.J. Aos produtores Arcady e Brigada Victor Jara se deve uma das melhores provas deste ano. “Many Happy Returns” e “Danças e Folias” foram os derradeiros brindes célticos a uma cidade que soube fazer a festa.

Boa, média, excelente. A qualidade da música pode variar. Mas o que permanece, o que cria raízes e lavra a terra onde a música cresce, até ser floresta, é o que resulta da aliança entre o amor e o trabalho. Lição que ficou, terminado mais um Intercéltico. Os espetáculos fazem vibrar, uns mais, outros menos, mas é no recolhimento de uma conferência, no calor de uma conversa ou na troca de um disco que a onda de fundo se propaga.
            No domingo, dia de fecho da sétima edição do Intercéltico, os portugueses Brigada Victor Jara trouxeram ao Porto a festa e a multiplicidade de um país musicalmente riquíssimo. Pregões, pauliteiros, baladas e danças, troca de sons e de culturas, convidados – uma cantora galega, Raquel, o telurismo dos Açores, no teatro visceral de Zeca Medeiros, Tomás Pimentel, no fliscorne, Dudas, na guitarra, André Sousa Machado, nas percussões – uma paleta de timbres e de emoções fruto uma atividade que já leva anos de existência, criaram a folia e a ternura. O Porto tributou-lhes merecida homenagem, chamando-os ao palco, no final de uma atuação ao nível da que alcançaram no dia de aniversário no S. Luiz, para dois encores e um interminável aplauso.
            Como vai sendo habitual, coube aos irlandeses a honra de dar a volta à chave de fecho do festival. Nos antípodas da loucura rockeira demonstrada no ano passado pelos Four Men & A Dog, os Arcady representaram a Irlanda profunda. Sem cedências, obrigando o público a entrar a pouco e pouco na sua teia de “jigs” e “reels”. Até à rendição. Baseados no reportório do seu novo álbum, “Many Happy Returns”, estenderam um tapete onde a exuberância dos compassos de dança abriu alas ao canto de uma grande senhora chamada Niamh Parsons. Mesmo adoentada, Niamh cantou por três vezes “a capella”, estarrecendo uma plateia que soube sentir o sagrado e por isso lhe concedeu a dádiva do silêncio. Da escuta em catedral. Jacky Daly, no acordeão, e Johnny “Ringo” McDonagh, no “bodhran”, tocaram como verdadeiros mestres que são. Em vez de arriscarem dar cabo da caixa de velocidades, preferiram a aceleração em suavidade. Sem ser empurrado, ao ritmo de passeio, quando se deu conta, o Terço estava no meio de uma corrida de Fórmula Um. A espiral intercéltica de De Danann – Dervish desenrolou mais uma volta com os Arcady.
            E vamos ao balanço do Festival. Para não ficarmos atrás dos prémios que o Intercéltico decidiu este ano, pela primeira vez, atribuir, resolvemos também nós apresentar um Quadro de Honra para os melhores “celtas” de 1996. Recebem este louvor: Público do Porto – pela sensibilidade e conheciemento de que deu mostras. Uma das maiores ovações dos festival foi para uma vocalização “a capella” da cantora dos Arcady, o que diz tudo. Niamh Parsons – arquétipo da arte vocal feminina na Irlanda. A sua voz cura as maleitas da alma. Carlos Nuñez – o génio que pairou nas alturas. Gaiteiros de Lisboa e Brigada Victor Jara – por provarem que a música de um país pode ser maior do que esse mesmo país. Delegação galega – vieram com a sua cultura, os seus instrumentos musicais, a sua vontade de intercâmbio e de diálogo. O eixo Porto - Vigo torna-se, dia após dia, mais forte que o de Porto - Lisboa… Atividades paralelas – é assim que se criam raízes e se faz nascer paixões. Organização – como de costume, impecável. Mundo da Canção e Câmara do Porto, nas respetivas competências, teimam em fazer-nos felizes.
            A desilusão pertenceu aos Strobinell. Não saíram da casca. Corresponderam às expetativas as Värttinä, uma língua de fogo que varreu o Terço, e os Arcady, por tudo o que atrás ficou dito.
            Semear para colher. O mais importante de tudo foi ouvir, ao longo dos três dias do festival, jovens perguntando onde se pode comprar e quanto custa uma gaita-de-foles. Ama e faz o quiseres, dizia Santo Agostinho.

Síndrome das gaitas loucas [Festival Intercéltico do Porto]


DOMINGO, 31 MARÇO 1996

Banda de Carlos Nuñez enlouquece o Terço

Síndrome das gaitas loucas

Paddy Moloney, mestre “uillean piper” dos Chieftains, tinha razão. Carlos Nuñez é mesmo um “génio absoluto”. Não se toca gaita-de-foles, como fez este galego no dia de abertura do Intercéltico, só com técnica. É preciso mais, muito mais. A entrega total e uma alma enorme. Ele e a sua banda lavraram a sua assinatura no livro de atas dourado no festival. Na primeira parte, os Gaiteiros de Lisboa deixaram claro que, na sua barbárie, o conceito é mais importante do que a execução. O seu tem um nome: revolução.

Foi um dos “primeiros dias” do Festival Intercéltico mais fortes de sempre, o de sexta-feira. Cinema do Terço cheio. Ambiente de expetativa e cumplicidade a condizer. Nervosos, de início, os Gaiteiros de Lisboa renovaram no Porto a sua proposta de arrancar das entranhas da tradição o sumo da modernidade. Na sua música, feita de choques e bandeiras mas também de namoros e de silêncios, aprendemos a ouvir as vozes do passado como se elas tivessem algo de novo para nos dizer. E têm. E tiveram. José Salgueiro comandou as cavalarias altas dos tambores. Selvagem, impôs a disciplina. No solo que anteceu “lenga lenga” optou pela subtileza das madeiras em vez do clamor das peles. Construtor dos alicerces, deixou que os sopros – gaitas-de-foles, flautas, uma trompa, os “túbaros” de Orfeu – erguessem as paredes. Finas, de cristal, como na “la sarandillera” a quatro vozes; De fogo, no uníssono das gaitas, numa marcha a clamar pelo orgulho de um Norte português que a cada deserção da burocracia centralista se vai perdendo no esquecimento. Os Gaiteiros, mesmo sem ser uma das suas melhores noites, uniram o território e o público presente num desejo apaixonado de libertação do terrível amplexo de 40 anos (ou será melhor acrescentar outros 22?...) de ditadura cultural que reduziram a pó a ponte que une aquilo que fomos aquilo que somos.
            Na Galiza não têm o mesmo problema. Existe uma consciência nacional e a defesa de valores que sendo os de uma região pertencem ao legado do planeta. Carlos Nuñez e a sua banda deram uma lição, na segunda parte do espetáculo. O protegido dos Chieftains saiu do beco onde se enfiara com os Matto Congrio para a luz da tradição galega revista nos seus moldes pessoais. Ele e a sua banda, todos “virtuoses” nos respetivos instrumentos, puderam esse virtuosismo ao serviço da música e de uma paixão. Enrico Iglesias (não esse em que estão a pensar…), um violinista de geometria rigorosa mas capaz de deixar comandar pelo calor das emoções, Pancho Alvarez, um ex-Na Lua (impagável a sua personificação, em voz e violino solo, do cego Florêncio), e Diego Bouzón, exímios nas cordas e no humor de um jogo de pernas digno de verdadeiras coristas de can-can, criaram o pátio de recreio ideal para o tal “génio absoluto” de Carlos Nuñez se espraiar.
            Carlos é o que se chama um talento nato, força da natureza, protegido dos deuses, que não se explica mas apenas se escuta com a admiração que é devida aos sobredotados. Nas flautas e na gaita-de-foles – um segundo corpo em simbiose com o físico –, a música levanta voo, arde em cada nota, acelera até ao absurdo do gesto impossível que soa fácil. Nas “suites” da “Illa do tesouro”, composta para um disco dos Chieftains ou noutra da autoria destes mesmos irlandeses, incluindo o clássico “Women of Ireland”, imortalizado na tela em “Barry Lyndon”; numa “Valsa do Minho” ou numa polka, num fandango ou numa jota, Carlos Nuñez elevou o nível de execução e de exigência técnica da gaita-de-foles aos limites da perfeição. Não nos lembramos de nenhum gaiteiro irlandês que consiga tocar um “reel” à velocidade com que o galego o executou. Muito menos recordamos alguma vez ter visto o tradicional, por adoção, “Music for a found harmonium”, dos Penguin Cafe, atingir uma tal dimensão de folia coletiva, como aconteceu a fechar este concerto de antologia, onde não faltaram dois “encores” nem um par de dançarinos.
            A tarde de ontem decorreu ao ritmo de uma conferência sobre a gaita-de-foles, por Xosé Lois Foxo, do lançamento de um novo catálogo de música nórdica, por um texano, Philip Page, que se perdeu de amores pela Finlândia, e da apresentação do novo livro de Mário Correia, “Eurofonias – Uma Viagem Musical pela Europa dos Povos”. Mas isso são outras histórias, não menos estimulantes, para contar no rescaldo do festival.

22/03/2017

India songs [Mercedes Sosa]

QUARTA-FEIRA, 28 JUNHO 2000 cultura

Lenda da canção argentina entusiasma a Aula Magna

India songs

AOS 65 anos, Mercedes Sosa continua a ser senhora de um vozeirão. A cantora argentina que é uma das lendas vivas da canção popular sul-americana levou ao rubro uma assistência composta maioritariamente por fãs que, na noite de sexta-feira, quase encheu a Aula Magna da Universidade de Lisboa.
            Apesar de ser uma viatura de luxo Mercedes entrou no espetáculo em regime de baixas rotações. Coberta da cabeça aos pés com um vestido e uma écharpe vermelha enrolada em volta do pescoço, a cantora veterana de rosto índio, parecia uma estufa ambulante. A voz, porém, impôs-se de imediato, mesmo se toda a primeira parte do concerto incidisse no reportório de baladas interventivas que construíram parte da sua reputação e ajudaram a fundar, nos anos 60, o movimento “Nuevo Cancionero Argentino”, culminando com uma tocante interpretação de “Gracias a la vida”, de Violeta Parra e com “Alfonsina y el mar”, a canção que lançou a sua já longa carreira.
            Impercetivelmente foi surgindo a outra Mercedes Sosa. Com a troca dos manifestos de liberdade pela liberdade do canto livre das ideologias, e da écharpe vermelha por uma verde.
            Uma espantosa sucessão de cinco temas encetados com o épico “Los hermanos” e coroada com “Como pajaros en el aire” mostrou a Mercedes étnica, um todo-o-terreno, digamos assim, que projetou a voz nos registos do grito e das técnicas de canto tradicionais tribais (improvisadas?) atirando as emoções para a flor da pele e expondo o canto nas suas texturas mais carnais. Socorrendo-se, num par de temas, de um tambor, Mercedes Sosa mostrou nessa altura toda a intensidade que a sua música pode ter.
            “De fiesta en fiesta”, “Vestido y un amor”, “Solo le pido a Dios”, “Viejas promesas” e “Sina”, do brasileiro Djavan, levaram o concerto ao colo até a apoteose, “Maria, Maria”, da dupla, também brasileira, Milton Nascimento/Fernando Brant, com o refrão, conhecido de todos, a ser entoado em coro, de pé, pela assistência em peso.
            Eram inevitáveis os “encores”, pedidos de forma insistente, quase em delírio, com gritos atirados da plateia a pedirem esta ou aquela canção. Mercedes Sosa, fatigada mas deliciada com o acolhimento do público português, acedeu, voltando ao palco por duas vezes, numa delas para interpretar novo tema de Violeta Parra, “Volver a los 17”, em ambas repetindo o refrão de “Maria, Maria”, aquele que estava no ouvido de todos. Ao fim de quase 40 anos de carreira, Mercedes está longe de precisar de ir à revisão.

Boa música a más horas [Dervish]

cultura SEXTA-FEIRA, 23 JUNHO 2000

Dervish atuaram de raiva em Santa Maria da Feira

Boa música a más horas

O timbre, a pureza, a força da voz de Cathy... Meu Deus, quando canta, a pequena irlandesa transforma-se numa deusa! Em Santa Maria da Feira, a desoras e com um som impróprio, ela e os Dervish fizeram esquecer as adversidades e levaram-nos para o céu.

Fazendo jus à designação da entidade organizadora do concerto que teve lugar na noite da passada quinta-feira em Santa Maria da Feira, o festival Sete Sóis Sete Luas, os Dervish começaram a tocar duas horas e meia depois do previsto. Assim, em vez das 22h30, a banda irlandesa deu início à sua atuação por volta da uma da manhã. Mais um esforço e tinham esperado até de manhãzinha pelo nascer do sol... Problemas com o som (o costume...) provocaram o atraso.
            Sara Tavares e a sua banda foram os primeiros a sofrer com o desatino da equipa responsável pelo som que, segundo a opinião de alguns, está mais habituada a trabalhar em comícios políticos do que com música tradicional da Irlanda o que, convenhamos, não é exatamante a mesma coisa... Um som que, volta e meia, pura e simplesmente, desaparecia, ia-se abaixo, dava o berro, deixava os músicos no palco a chuchar no dedo. Para uma música que vive da energia e da constância do andamento "funky", pode ser fatal. Eles, apesar de tudo, aguentaram-se bem e souberam aquecer o público.
            Consumada a primeira atuação da noite, já os ponteiros do relógio tinham ultrapassado há muito a meia-noite, tirar os instrumentos do palco e não tirar, experimentar os microfones, ligar e desligar cabos e amplificadores, quando os Dervish subiram para o palco, era uma da manhã. Previa-se o pior. A assistência, saturada com a espera, dava mostras de alguma e justificada impaciência. Quando o violinista do grupo, Tom Morrow, testou o som do seu instrumento, logo alguém da primeira fila lançava o comentário mortífero: "Olha um violino, agora é que vou adormecer!".
            Insensíveis ao ambiente de contestação, os Dervish procuravam o melhor som possível. No mínimo, "um som", fosse ele qual fosse. Lá o encontraram, por fim, partindo, surpreendentemente e dadas as circunstâncias, para um concerto memorável, de raça e de raiva.
            O frio da noite e as agruras da espera desapareceram como que por encanto. O septeto agarrou num ápice a assistência com um "set" inicial de jigs arrebatador. Os corpos agitaram-se, arrancados do torpor para as alegrias da dança. Liam Kelly, o primeiro a solar, na flauta, mostrou que já não falta muito para igualar as proezas de Matt Molloy, o mestre que passou pelos Planxty, The Bothy Band e The Chieftains.
            Quando a vocalista do grupo, a bela e franzina Cathy Jordan, cantou a primeira balada da noite, todo o sofrimento ficou para trás. Cathy está simplesmente divinal. A pureza do timbre, a força, a interiorização, as ornamentações combinam-se num todo sem paralelo no panorama atual da música tradicional irlandesa. A par disto, e ao contrário das anteriores apresentações que vimos dela em Portugal, Cathy aprendeu a tirar partido do corpo e da sua muito peculiar forma de sensualidade, ilustrando cada canção com uma coreografia gestual de cigana céltica. Envergando um vestido vermelho-sangue, Cathy arrebatou os olhares e os corações.
            Os outros músicos da banda são, como se costuma dizer, "uns senhores". Sobretudo Liam Kelly, na flauta, Tom Morrow, no violino, e um notável Shane Mitchell, no acordeão, revelaram um virtuosismo a toda a prova. Uma coisa são os jigs e reels da praxe tocados com competência, outra, bem diferente, para melhor, é ouvi-los tocados por quem os sente na alma e na pele. O coração afeiçoado a esta música sem igual no universo nota a diferença. É o swing, o feeling, a força que vem de dentro para se aliar ao talento e à técnica.
            No meio do público, era visível a satisfação. Tornava-se difícil permanecer quieto, mesmo aqueles para quem a simples visão de um violino é um convite à sonolência. Mesmo esses renderam-se ao entusiasmo, à energia e à entrega dos Dervish que, em certas alturas, pareceram fazer deste concerto uma questão de vida ou de morte.
            Com um reportório baseado sobretudo nos álbuns "At the End of the Day" e o novo "Midsummer's Night", os Dervish provaram em Santa Maria da Feira porque são considerados uma das maiores bandas irlandesas da atualidade. Só foi pena terem tocado tão pouco tempo, cerca de 50 minutos, sem "encores", devido ao adiantado da hora. Mesmo assim, numa atitude de extrema cortesia, pediram encarecidamente ao público para não debandar depois da sua atuação, alertando para a qualidade do grupo que atuaria a seguir, a Ala dos Namorados, que Cathy considerou dos melhores que alguma vez ouviu, "com vocalizações excecionais".
            O vocalista excecional, claro, era Nuno Guerreiro, acompanhado pelo resto da Ala dos Namorados. Quando começaram, passava das duas da manhã. Já era muito tarde para se apreciar em pleno a música do grupo e, no recinto, apesar do pedido dos Dervish, foram poucos os resistentes. A "vingança" da Ala dos Namorados está marcada para Pontedera, em Itália, onde, no próximo mês, decorrerá mais uma das extensões do festival Sete Sóis Sete Luas.

Mistério de Cracóvia no festival do Seixal [Festival Cantigas do Maio]

cultura QUARTA-FEIRA, 7 JUNHO 2000

Trio polaco assina atuação impressionante no Cantigas do Maio

Mistério de Cracóvia no festival do Seixal

Música sobrenatural no Cantigas do Maio. Os polacos Kroke impregnaram a Fábrica Mundet com o aroma do sagrado. A tradição klezmer sem tempo nem fronteiras numa experiência que rondou a transcendência. Desiludiram os Verd e Blu. O festival fechou com rituais africanos da África do Sul e Moçambique.

São apenas três os músicos que constituem os Kroke, em homenagem à cidade polaca de Cracóvia que antes da 2ª Grande Guerra alojava 64 mil judeus e hoje apenas conta umas escassas centenas. Chamam-se Tomasz Kukurba, no violino, Jerzy Bawol, no acordeão, e Tomasz Lato, no acordeão. Steven Spielberg "descobriu-os" há sete anos quando os viu atuar, nessa mesma Carcóvia, na época em que procedia às filmagens de "A Lista de Schindler". O Seixal ficou deslumbrado com os Kroke na noite de sexta-feira. Uma atuação que deixou marcas.
            A noite começou, porém, com alguma desilusão causada pela atuação, aquém das expetativas criadas pelos discos, dos gascões Verd e Blu. Trajando de forma talvez demasiado informal (leia-se "abandalhada") para uma apresentação em público, para mais num festival com a importância do Cantigas do Maio, de bermudas, t-shirts de alças e chinelos, davam a imagem de um grupo de turistas recém-chegados de uma tarde de praia na Caparica. Não seria grave se a prestação musical não se tivesse pautado, como se pautou, pela mesma nota de amadorismo. Os Verd e Blu trataram a belíssima música da Gasconha ("a mais bela do Cosmos", como insistentemente referiu o vocalista e acordeonista Joan-Francés Tisnèr) com uma displicência que não se pode confundir com humor.
            As piadas constantes não disfarçaram a falta de rodagem, as hesitações e as quebras. É verdade que a beleza das polifonias e das melodias instrumentais da música da Gasconha são suficientes para impressionar qualquer público mas fez pena assistir ao modo como os Verd e Blu quase a delapidaram.
            A festa não dispensa o rigor e bem faria o grupo em meditar sobre a diferença entre informalidade e descuido.
            Os Kroke atuaram a seguir. E fez-se luz. Seguindo de perto o alinhamento do novo álbum "The Sounds of the Vanishing World", o trio polaco atuou em crescendo, impondo impercetivelmente um clima de espiritualidade e mistério.
            Ao contrário dos Verd e Blu, surgiram trajados a rigor, a preto e branco, todos de chapéu, com o violinista Tomasz Kukurba, no centro do palco, a impor a imagem de um Freddy Kruger redimido pela sacralidade dos sons. Ele é, de resto, a alma e o ponto focal dos Kroke. A uma técnica irrepreensível alia uma intensidade e uma capacidade de interiorização que ficaram bem patentes no Seixal. A força da música dos Kroke passa em grande parte por esta concentração absoluta de Tomasz Kukurba, pela forma como todas as notas nele se aprumam num eixo apontado para as estrelas.

Percussão contrabaixo

            A meio da atuação já o concerto se transformara num ritual. Kukurba acrescentou ao som amplificado do seu violino, o assobio e a voz, num complemento tímbrico justaposto ao do instrumento. De notar que certas acelerações do violino deveram muito do seu impacto ao fraseado, absolutamente espantoso, do acordeonista Jerzy Bawol, este sim, com uma condução em alta velocidade. Tomasz "aproveitou" esta estrutura milimétrica para colocar, como se costuma dizer, a cereja no cimo do bolo, desenhando ornamentações e uma espacialidade que definem a música do grupo.
            Já perto do final, num dos muitos momentos exaltantes da atuação dos Kroke, Kukurba fez um solo de percussão no tampo do contrabaixo, ao mesmo tempo que Tomasz Lato solava nas cordas. A música klezmer (música judaica tradicional instrumental da Europa do Leste) cortava as amarras do tempo e da história, projetando-se na contemporaneidade e na experimentação. Quando, por fim, os três músicos abandonaram o palco da Mundet, já o espírito dos assistentes planava sobre o Seixal.
            Terra, cores quentes, tambores, danças guerreiras. A noite de encerramento do Cantigas do Maio decorreu num registo diametralmente oposto ao da véspera, com a África a ocupar em toda a linha o festival. Primeiro com as polifonias zulus dos ex-mineiros Colenso Abafana Benkokhelo, da África do Sul, a seguir com a orquestra de timbilas e dançarinos de Venâncio M'bande, de Moçambique.
            Recorreram ambas as formações a coreografias tradicionais ligadas aos usos e costumes das respectivas regiões de origem. Os Colenso mostraram semelhanças com os mais mediáticos Ladysmith Black Mambazo, enquanto os moçambicanos criaram um padrão infantigável de micropolirritmias nas timbilas (família dos xilofones) que permitiu compreender uma das fontes onde foi beber o minimalista Steve Reich... E ou se mergulha nesta música de corpo e alma e se viaja até ao coração da África profunda até se alcançar o transe ou se fica de fora a assistir e então, rapidamente, o fastio se instala. Houve na assistência quem reagisse das duas maneiras. Nós aventurámo-nos na selva e elegemos esta atuação uma das melhores do festival.
            Uma palavra final para os Folia, da Galiza, que, nestas duas últimas noites, a seguir aos concertos principais, souberam criar o melhor ambiente na tenda de convívio, e para a organização, a Associação José Afonso, que, em conjunto com a Câmara do Seixal, contribuíram, uma vez mais, para o progressivo aumento de prestígio do Cantigas do Maio, um festival que em definitivo se institucionalizou como um dos melhores do género em Portugal.