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17/02/2020

Dan Ar Braz - A Toi Et Ceux


Y 27|FEVEREIRO|2004
roteiro|discos

DAN AR BRAZ
A Toi et Ceux
Columbia, distri. Sony Music
5|10

Dan Ar Braz fez pela vida. O guitarrista bretão que acompanhou Alan Stivell nos primeiros anos deste harpista, palmilhou a estrada que conduz ao castelo das estrelas. Hoje, como Carlos Nuñez ou os Chieftains, Braz é uma estrela que se pode permitir estourar orçamentos gordos, convidando artistas folk e rock de nomeada. O fundador do megaprojeto “Héritage des Celtes” enveredou a partir desse disco pelo caminho mais fácil, tentando chegar às massas pela via do choradinho “new age” e do postal do misticismo céltico, cozidos no caldeirão das fusões. Em “A Toi et Ceux”, sem grandes trutas no estúdio (só Mairtin O’Connor, no acordeão), Braz vende mais um bocadinho da alma ao diabo. “Mary’s dancing”, cocktail ligeiro de celtismo e música africana, com arranjo pindérico, e “Look around you” não abonam a favor. Do outro lado, “Dan’s fisel” oferece um bom desempenho de Ronan Le Bars nas “Uillean pipes” apesar do tema, bem como “Orgies nocturnes” (com boa bombarda e guitarra elétrica prog), recuarem exatamente ao ponto, nos anos 70, em que Alan Stivell anunciou ao mundo o folk rock bretão, no álbum “Chemins de Terre”. O resto, quase tudo, foi de mais.

13/02/2020

Paco de Lucía - Cositas Buenas


20|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

PACO DE LUCÍA
Cositas Buenas
Ed. e distri. Universal
7|10

Melhor “Cositas Buenas” do que nada. Paço de Lucía, um dos magos do flamenco, é incapaz de fazer maus discos. O “duende” pode estar mais ou menos adormecido dentro de si mas pode sempre esperar-se alguma chama. Sem o esplendor de álbuns como “Entre Dos Aguas”, “Siroco” ou “Almoraima”, “Cositas Buenas” impele à dança dervíchica e induz à sensualidade, dando voz e corpo à modernidade que tem sido desde sempre apanágio do guitarrista. O flamenco funde-se com o jazz rock no título tema e em “Antonia”, e com África, em “El dengue”. Estão presentes as palmas, os olés de incitamento e, na melhor de todas estas coisinhas boas, a voz de Camarón de la Isla (há aqui um enigma por resolver: as composições são novas, a voz não parece samplada mas a verdade é que o cantor há mais de dez anos que deixou o mundo dos vivos…) e a guitarra de Tomatito, em “Que venga el alba”. As bulerias, tangos, rumbas e tientos de “Cositas Buenas” mais do que fogo são água que refresca. A limpidez com que Paço de Lucía a faz nascer permanece impoluta.

23/12/2019

JUNE TABOR - An Echo Of Hooves


Y 2|JANEIRO|2004
june tabor|música

june tabor
sonhos de uma noite de inverno

Mais embrenhada na folk do que nunca, June Tabor adapta em An Echo of Hooves a tradição lírica dos cancioneiros inglês e escocês à sua própria personalidade de diva da noite.

Com a passagem dos anos, o rosto foi-se tornando mais sereno ao mesmo tempo que uma luz difusa se desprende da expressão. June Tabor não receia expor as mudanças do corpo – deixando-se, mais uma vez, fotografar em grande plano para a capa do novo álbum, “An Echo of Hooves” – porque estas não são mais do que a medida, a forma extrerior de um brilho e de uma voz que, cada vez com maior intensidade, vão lavrando uma obra ímpar na música popular dos nossos tempos.
            June Tabor tornou-se a cantora folk que transcendeu as geografias da tradição. E, no entanto, “An Echo of Hooves” parte das canções e do imaginário folk das Ilhas Britânicas, como se estes se confundissem com os caminhos da sua própria alma. “As baladas em língua inglesa e escocesa representam a ‘story telling’ na sua expressão mais pura e premente. Quando as estiverem a ouvir – porque estas são canções em que a letra e a música são igualmente importantes – sintam o vento e a chuva, contemplem o nascer da lua e captem ‘an echo of hooves’ no ar da noite”, escreve na contracapa do disco. Palavras cuja poesia é, de certa forma, traída quando o dicionário propõe como única tradução para “hooves”: “meteorismo, doença do gado com dilatação do estômago provocado por gases”. Tratar-se-á de meteoritos cheirosos que ao deflagrarem emitem os característicos, mas tão bucólicos, odores da bosta de boi, metáfora poética para o excesso de beleza (a “dilatação do estômago”…) e as virtudes da vida no campo? Seja como for, abandonemos este momento de enlevo e penetremos no âmago da coisa, que é como quem diz, na música. Que é como quem diz, num sonho. Que é como quem diz, na voz de June, uma voz que, como os raios da lua, provoca esse efeito de abrir uma fenda na realidade para dar passagem a uma dimensão onde tudo está suspenso. A música tradicional, na sua vertente mágica e onírica, respeita e diz respeito, precisamente, a esta condição.
            “An Echo of Hooves” reúne onze temas tradicionais, incluindo “Lord Maxwell’s Last Goodnight”, que June Tabor já selecionara para “Ashes and Diamonds”, de 1977, e, a fechar, “Sir Patrick Spens”, que não escutávamos desde o clássico “Full House”, dos Fairport Convention. Ausência total de originais numa imersão a cem por cento no cancioneiro. Na lista de acompanhantes, a par dos habituais Huw Warren (piano, violoncelo, acordeão), Mark Emerson (violino, viola, piano) e Tim Harries (contrabaixo), estão também Martin Simpson (guitarra), 23 anos depois do seu dueto com a cantora em “Cut Above” (1980), e, maior e mais agradável surpresa, Kathryn Tickell, nas “Northumbrian Pipes”.
            Para trás ficaram heterodoxias como o punk-folk enfiado num blusão de cabedal de “Freedom and Rain”, com os Oyster Band, a coleção de “standards” “Some Other Time” (onde é possível saborear a inolvidável experiência que é escutar June a cantar “All tomorrow’s parties”, dos Velvet Underground) ou, em menor grau, as cintilações estelares de “Aqaba”, “Angel Tiger”, “Against the Streams”, “Aleyn” ou “A Quiet eye”. June Tabor fez a viagem interior para emergir, mais bela, centrada e lúcida do que nunca, ao ar livre da vida, num retorno (que a cada novo álbum parece tornar-se irreversível) às raízes profundas do seu canto, a música tradicional.
            June Tabor está, de certa forma, só nesta viagem. Do outro lado do horizonte apenas se vislumbra Norma Waterson. São elas as sobreviventes de uma devoção e integridade sem limites. Shirley Collins desapareceu perdida num medo de papões e infortúnio que alguns “homens de negro”, como David Tibet ou Steven Stapleton, procuram congelar como emanação de um outro tipo de magia… Maddy Prior diverte-se com os mitos e constrói uma “new age folk” porventura chocante pelo excesso de colorido. Outras, como Linda Thompson, Jacqui McShee ou Mandy Morton perduram como fogos-fátuos cuja lembrança continuamos a estimar.
            June, não. June permanecerá até ao fim na senda da noite que conduz ao silêncio. Silêncio que impregna cada nota, cada inflexão, cada pausa, cada acentuação, cada ornamentação da voz em “An Echo of Hooves”.
            “The Battle of Otterburn” e “Hughie Graeme” destacam-se pela simples razão de neles se fazerem ouvir a “erotic pipes” de Kathryn Tickell – a sereia. “Bonnie James Campbell” é outra inflexão no génio de “Ashes and Diamonds” com o piano de Huw Warren a emprestar-lhe as cores do impressionismo. Para quem se quiser ficar nos arranjos “folky” com o selo dos anos 70 há “The duke of Atholl’s nurse” e “Young Johnstone”, ambas com a guitarra de Simpson. O momento de canto “a capella” acontece em “Bare Willie”, enquanto a continuação do processo de interiorização e renovação encetado com “Aqaba” chega com “The cruel mother”. Por fim, não vale a pena tentar encontrar semelhanças entre “Sir Patrick Spens” dos Fairport Convention de 1970 e o mesmo tema vocalizado por June Tabor. O que naqueles era profusão de vestes e ambiente medievais em June é drama, tempestade e morte. “For I saw the old moon late last night/With the new moon in her arms/Oh master dear if you set to sea/I fear you’ll come to harm”. A velha lua morreu ontem com a nova nos braços. June Tabor traz a eternidade no seu canto. Curioso: a sua voz soa em “An Echo of Hooves” menos grave. Como se tivesse subido um degrau das escadarias que conduzem ao céu.

JUNE TABOR
An Echo of Hooves
Topic, distri. Megamúsica
8|10

26/11/2019

Maddy Prior - Lionhearts


Y 7|NOVEMBRO|2003
roteiro|discos

MADDY PRIOR
Lionhearts
Park, distri. Megamúsica
7|10

Depois de “Arthur the King”, Maddy Prior volta a gravar um álbum temático centrado na vida de reis lendários da velha Inglaterra. “Lionhearts” narra a história de Ricardo I, “Coração de Leão”, na perspetiva da sua mãe, Eleanor da Aquitânia. Mais generalista e “entertainer” do que nos The Carnival Band, um “gosto adquirido” para quem não tem da música antiga uma ideia redutora e pruridos de purista, a antiga cantora dos Steeleye Span volta a colocar a sua voz magnífica ao serviço de uma música onde o ecletismo impera, misturando “uillean pipes” e sintetizador Moog, a new age épica de “Salah Ed-Din”, o rock FM com guitarras elétricas “à la” Mike Oldfield, de “Old lion”, e a recriação de “standards” folk como “Salisbury plain” e um “John Barleycorn” a recordar os melhores tempos dos Steeleye Span. Mas uma boa ideia nem sempre tem concretização à altura. O principal problema de Maddy Prior será hoje o de tentar agradar a várias camadas de público, da folk à “música de elevadores” inteligente, com os consequentes desequilíbrios e fraquezas que tal opção acarreta. “Lionhearts” é, apesar de tudo, um trabalho que não envergonha o seu passado, mesmo a pedir que o arrumem ao lado do disco de Natal dos Jethro Tull…

20/11/2019

Dervish - Spirit


31|OUTUBRO|2003 Y
discos|roteiro

DERVISH
Spirit
Whirling Discs, distri. MC-Mundo da Canção
9|10

Há coisas que não mudam. Ou somos nós que não damos pela mudança, porque crescem connosco. A música dos Dervish tem a eternidade dentro dela. “Spirit” é o espírito da Irlanda, o espírito do mundo, o espírito do Belo. E o espírito de Finn Corrigan, engenheiro de som, falecido este ano, a quem o álbum é dedicado. É um clássico que revivifica as velhas danças e baladas tradicionais, com uma “verve” e uma sabedoria que apenas o tempo e o amor concedem. O violino, o acordeão, a flauta e os “whistles” voam, saltando de um compasso para outro como duendes. E Cathy Jordan a levar-nos para o meio de florestas, castelos e fantasias. A capa é verde, da cor do mar. E não, não é a imaginação a pregar-nos uma partida: a voz de Cathy está mais macia, como a relva de um prado regado pela chuva. “Whelans”, incursão na folk progressiva, tem um segredo escondido…E prova que as danças irlandesas acordam mais notas do que as da vertigem e do fogo dos “jigs” e “reels”. Como proclamava o filósofo do alto da montanha: “Vede, há em mim um espírito que dança!”.

25/01/2019

Shantalla - Seven Evenings, Seven Mornings


Y 4|ABRIL|2003
roteiro|discos

SHANTALLA
Seven Evenings, Seven Mornings
Wild Boar Music, distri. MC – Mundo da Canção
9|10

A boa música tradicional irlandesa tem o poder de curar, de colorir os dias e as noites, de nos aproximar do que imaginamos ser a felicidade. Comecemos então por dizer que “Seven Evenings, Seven Mornings” nos faz sentir felizes. Logo ao primeiro tema, “John Riley”, livramo-nos das toxinas. Bastaria a voz (e o vigor do bodhran) de Helen Flaherty e a corrente de água cristalina a escorrer por um “moore” das cordas dedilhadas de Gerry Murray, para nos sentirmos mais vivos. Os arranjos estão próximos dos Planxty, fazendo lembrar a obra-prima deste grupo, “Cold Play and the Rainy Night”. Mas os Planxty não tinham uma cantora como Helen Flaherty. Voz-primavera, irlandesa dos sete costados, Helen é a estrela, o amor, a paixão, o verde, a sombra, a luz e o mistério da Irlanda profunda. Os Shantalla são ainda um coletivo portentoso de onde sobressaem os fabulosos desempenhos de Michael Horgan, nas “uillean pipes” (como não nos arrepiarmos ao escutar um lamento como “Spered hollvedel”?), flauta e “tin whistle”, e Kieran Fahy, no violino e viola de arco, sem esquecer o suporte estratégico de Joe Hennon, na guitarra, e o enriquecimento tímbrico adicional de Gerry Murray, no bouzouki, bandolim e acordeão. “Seven Evenings, Seven Mornings” está ao nível dos clássicos modernos dos Dervish e dos Altan. É tradição como a sabemos sentir nos mitos e nos sonhos.

Four Men And A Dog - Maybe Tonight


Y 4|ABRIL|2003
roteiro|discos

FOUR MEN AND A DOG
Maybe Tonight
Hook, distri. MC – Mundo da Canção
8|10

Apesar de uma capa de uma indigência confrangedora e de uma desnecessária, embora gorda de carnes, enésima versão de “Music for a found harmonium”, dos Penguin Cafe Orchestra (o tema, de tão recriado pelo atual universo folk, corre o risco de vulgarizar-se), “Maybe Tonight” convida a uma noite de farra. E por falar em gordura de carnes, Gino Lupari continua com o corpo tão cheio como o seu talento de “entertainer” e guerreiro do “bodhran”. Os Four Men and a Dog não são um grupo folk como os outros. Há quem diga que não são um grupo folk, mas uma formidável máquina de ritmos com o objetivo único de entontecer e fazer dançar mesmo a múmia mais entorpecida (se tocarem hoje no Intercéltico como tocaram numa edição anterior deste mesmo festival, decerto que haverá estragos...). “Maybe Tonight” faz passar o “caterpillar” rítmico pelos “rhythm ’n’ blues”, “boogie”, os compassos balcânicos, a “country”, o “rockabilly” e os “reels” da casa, ingredientes de um “cocktail” planetário bebido na refrega de um “pub”. Há, porém, algo de genuinamente irlandês no modo como estes quatro homens fazem a festa e neste particular os “sets” de “jigs”, polcas e “reels” são exemplares da sua fidelidade às origens. Mas “Baby loves to boogie” aí está para nos dizer que a Irlanda desta “troupe” de folgazões não se esgota na geografia de uma ilha.

09/01/2019

Carlos Nuñez - Un Galicien En Bretagne


21|MARÇO|2003 Y
roteiro|discos

carlos nuñez
peregrino do caminho francês

CARLOS NUÑEZ
Un Galicien en Bretagne
Saint Georges, distri. Sony Music
8|10

Quem tinha por certo que o homem jamais passaria de um artista de circo, capaz apenas de cometer proezas técnicas em todos os instrumentos a que deita mão, e de um aglutinador de épicos projetos centrados em torno de uma tradição céltica modernizada, com recheio de convidados sonantes, mas incapaz de ultrapassar os tiques impostos pelo estrelato, pode espantar-se. “Un Galicien en Bretagne” é o disco de Carlos Nuñez por quem os apreciadores de folk esperavam e, outros, desesperavam. É verdade que “A Irmandade das Estrelas” ou “Os Amores Libres” demonstravam já que o “virtuose” galego tinha todas as potencialidades para assinar um trabalho cuja dignidade e profundidade o afastassem de uma “comercialite” que ameaçava tornar-se crónica. “Un Galicien en Bretagne” é esse trabalho.
            Centrado na tradição da vizinha Bretanha, conta com um naipe de convidados com nomes menos sonantes mas não menos empenhados, na recuperação dos velhos “an dro” e outras danças e modalidades tradicionais desta região céltica do Noroeste de França. Na quantidade de instrumentos utilizados, Nuñez, pelo contrário, “exagerou” (gaita galega, guimbarda, “biniou koz”, whistles, flautas, flauta medieval, ocarina, “uillean pipes”, gaita-de-foles do séc. XIX, “aulos” grego, flautas de bisel...) ao mesmo tempo que é visível um entusiasmo, diríamos mesmo euforia, nesta aproximação de culturas gémeas, em parte gerada graças ao impulso de Dan Ar Braz, outro “superstar” da nova “celtic music”. Da mesma forma que os The Chieftains renovaram sucessivamente a sua música no encontro, entre outras, com a “country”, a Galiza, a China e também a Bretanha, também Nuñez surge agora como a criança deslumbrada que recuperou a chama nessa renovada assunção de novos sentidos e travessias. Entre as diversas maravilhas estão um imparável “Tro breizh” (Nuñez notável na flauta de bisel alto e no “biniou koz”), a impensável “ressurreição” de Alan Stivell, que o gaiteiro galego em boa hora chamou para tocar em “Noite pecha” (espantoso é o bretão ter aceite!...), cuja harpa céltica e canto regressam aos bons velhos tempos de “Chemins de Terre”, e a invasão de uma floresta viva de “ents” pela Bagad Ronsed Mor, em “Une Autre fin de terre”, um clamor de emoções a empurrar-nos para aquela “finis terra” onde outro mundo se abre para nos receber. “The Three pipes”, uma das peças-chave do disco, é um jogo a três entre a gaita galega (que associa à terra), as “Highland pipes” escocesas (conotadas com o fogo) e as “Uillean pipes” irlandesas (elemento água, tocadas por Liam O’Flynn). Pareceria fácil destrinçar o som das três, mas são trocadas as voltas e tudo se enovela num diálogo de cumplicidades e ilusões tímbricas. “Saint Patrick’s na dro” fará arrepiar aqueles para quem o celtismo tem a forma de uma espiral profundamente enrolada no ”chakra” da base da espinha pronta a desenrolar-se. ”Ponthus et Sidoine” com adaptação de Jordi Savall, é um diálogo entre este mestre da música antiga, na viola de gamba, e o galego, no ”low whistle”. Gravado num mosteiro, adivinha-se o ambiente de mistério. Mesmo o tom, levemente pimba, da vocalização feminina de Eimear Quinn, a fazer lembrar o lado mais pop de Gabriel Yacoub, acaba por adquirir um gosto e um sentido singulares. Conta uma peregrinação a Compostela. Esse Caminho que, cada vez mais, urge cumprir dentro de cada um de nós. Nuñez ousou empreendê-lo. O caminho francês, o mais sagrado que conduz à catedral. A partir de agora será difícil perdoá-lo se voltar atrás.

16/02/2018

Os melhores do ano 1991 [Eletrónica + World]


Pop Rock
1991

os melhores do ano

ELETRÓNICA

O ano que passou foi de triunfo para os eletrões. A eletricidade sempre foi um bom circuito de informação. Os sinais não enganam: passado e futuro tocam-se e confundem-se. Na Europa, sobretudo, de novo se constrói a torre de Babel.

Delerium
            Stone Tower
                (Dossier)
Produto típico da ala negra dos pseudomagos que apostaram em dar cabo das nossas cabeças, por dentro e por fora. Neste caso não há agressões psíquicas abaixo dos 2Hz ou acima das “frequências caninas”, nem grandes rituais de sangue provocados pelo rebentamento de tímpanos. Pelo contrário, embora na capa proliferem as habituais imagens de corpos em agonia, caveiras e arquiteturas de pesadelo, os Delerium, fação “ambiental” dos Front Line Assembly, enveredam pelas religiosidades obscuras, abrindo paisagens de sombra e labirintos por onde divindades pagãs aproveitam para se infiltrar. Longos mantras etno-demoníacos que incluem na versão CD cerca de meia hora extra de hipnose. Um tratado de necromancia que pode provocar habituação à paranóia. Para ouvir de noite, com cuidado.

Hans-Joachim Roedelius
            Der Ohren Spiegel
                (Multimood)
Dividido entre a devoção ao piano, a Erik Satie e Alban Berg e a nostalgia das explorações eletrónicas de antanho realizadas com Dieter Moebius, nos Cluster, Roedelius consegue aqui o equilíbrio perfeito entre duas pulsões contraditórias, a simplicidade e o barroco. Exorcizado o espectro das teclas de marfim em “Piano Piano”, para piano solo, Roedelius revela-se como um arquiteto de sons visionário, ombreando com Brian Eno na construção de estruturas tímbricas e harmónicas (no seu caso bastante mais complexas que as do autor de “Discreet Music”) que parecem desafiar a gravidade. “Reflektorium”, o tema mais longo do CD, tem o esplendor, os reflexos matizados e o requinte do pormenor de um candelabro de cristal.

Holger Hiller
            As Is
                (Mute)
Antigo membro dos Palais Schaumburg, autor de óperas sobre “calças” e auditor atento de Stockhausen, Faust, Einstuerzende Neubauten e de música pop num rádio a pilhas mal sintonizado, Holger Hiller produz música dourada a partir de detritos e excrescências sonoras a partir de excertos de Wagner. Diverte-se a misturar pedaços de sinfonias, de ruídos, de vozes e melodias incertas no seu cadinho de alquimista louco – o “sampler”, máquina mágica onde nada se perde e tudo se trasforma. À semelhança dos geniais “Ein Bundel Faulnis in der grube” e “Oben im Eck”, “As Is” é “como é”, um programa musical, na aparência sem sentido, mas onde a cada segundo o som dispara em direções surpreendentes, das refrações “dub” à pop do outro lado do espelho. O discurso da esquizofrenia tem a sua lógica própria.

Kraftwerk
            The Mix
                (EMI)
Ralf Hütter e Florian Schneider não vão atrás da Europa, a Europa é que lhes segue no encalço. Os dois alemães vestiram de novo as fardas de humanóide, carregaram baterias, ligaram os interruptores do estúdio Kling Klang e procederam como cirurgiões-robô especializados, com bisturis laser e uma ironia não menos cortante. Operaram maravilhas de cirurgia plástica nos clássicos da “techno-pop” industrial gerados pela maquinaria do Rur e polidos no paraíso de cristais de quartzo e fibra ótica de “Silicon Valley”: “The Robots”, “Computer Love”, “Autobahn”, “Radio Activity”, “Trans Europe Express” – binários e insinuantes como sempre, e agora mais dançáveis do que nunca. Regresso em forma ao futuro.

O Yuki Conjugate
            Peyote
                (Multimood)
Alinhados com os Lights in a Fat City, afilhados de Jon Hassell e das músicas do “quarto mundo”, atentos às pulsações das culturas e dos mitos africanos e aborígenes, os O Yuki Conjugate desenham os contornos de uma “realismo fantástico” que povoam de monstros projetados pela tecnologia eletrónica. “Peyote”, como o anterior “Into Dark Water”, sendo mais um produto representantivo da grande síntese do final do milénio, tendência “novo primitivismo”, avança por alamedas laterais, por via da alucinação, abolidas as noções tradicionais do espaço e do tempo. Música intuitiva, elemental, naturalista por essência e ambígua na condição de ícone da nova idade das trevas. Se “Into Dark Water” era a escuridão do fundo oceânico, “Peyote” é a miragem do deserto, a vibração desfocada, o retorno ao incriado.


WORLD

1991 foi sobretudo o ano de reedições em CD, de parte de discografias importantes – dos Planxty, Chieftains, Malicorne, Milladoiro e Steeleye Span. Tudo importações, claro. Outras “novidades” chegaram ao mercado nacional pelo menos com um ano de atraso, razão por que não puderam constar da presente lista.

Ad Vielle Que Pourra
            Come What May
                (Green Linnet)
Originários do Canadá, os Ad Vielle Que Pourra pretendem “unir o caldeirão de influências americano às raízes europeias”. Aliam o virtuosismo, ecletismo e magia, um pouco à maneira de uns Blowzabella mais extrovertidos. Há na música dos Ad Vielle uma energia contagiante, resultante da correta assimilação e articulação da tradicção francesa, e em particular da bretã, com a música de realejo, as valsas palacianas ou a canção de cabaré, em combinações instrumentais, ora frenéticas, ora bizarras, da bombarda e da gaita-de-foles flamenga, da sanfona, do violino, do acordeão e do bouzouki… Música para “viajar pelo mundo ou pelo interior de nós próprios”.

Catherine-Ann MacPhee
            Chi Mi’n Geamhradh
                (Green Trax)
Catherine canta em gaélico as habituais histórias da história escocesa, às quais a mistura das brumas célticas com as névoas não menos poéticas do “whisky” retira um pouco de credibilidade. Mas a falta de rigor científico e o tom pueril de canções como aquela que narra os desgostos amorosos de “um jovem vendo a rapariga que ama abandoná-lo, para casar com outro, o que lhe parte o coração [ao jovem, não ao outro]” são compensados pela excelência do canto. Entre um acompanhamento instrumental invulgar, a harpa cintilante de Savourna Stevenson garante, por si só, o sortilégio.

Hamish Moore & Dick Lee
            The Bee Knees
                (Green Linnet)
Caminho difícil e excitante, o da fusão das sonoridades tradicionais com o jazz. John Surman (“Westering Home”), Ken Hyder’s Talisker ou Jan Garbarek (“I Took up the Runes” e “Rosensfolle”, este com Agnes Buen Garnas), do lado do jazz, já o haviam tentado com sucesso. Do “outro lado”, registe-se a fase inicial dos Gwendal, de “À vos Désirs”, os suecos Filarforket, em “Smuggel” os ex-jugoslavos Zsarátnok, em “Holdudvar”, June Tabor em “Some Other Time”, Savourna Stevenson, em “Tweed Journey”, e aproximações pontuais da malograda Sandy Denny. “The Bee Knees” vive do diálogo/confrontação entre a gaita-de-foles e o “tin whistle” tradicionais de Hamish Moore, e os saxofones e clarinete-baixo de Dick Lee. Os puristas poderão franzir as sobrancelhas. Mas as pulsações do coração e as pernas nem por isso deixarão de acelerar.

Les Nouvelles Polyphonies Corses avec Hector Zazou
            Les Nouvelles Polyphonies Corses
                (Philips)
Sensível ao poder do eixo que liga a pedra e a terra ao céu, Hector Zazou, num exercício que acaba por se assumir como ponto culminante e corolário lógico de “Géographies” e “Géologies”, soube manter os computadores à distância exata da religiosidade e do arrebatamento do canto corso, deixando-lhes o espaço necessário à oração e à elevação. Os sons eletrónicos ou da profusa instrumentação utilizada neste projeto não interferem com a energia do canto, antes lhe servem de alavanca de apoio, facilitando-lhe a ascese e constituindo um estímulo adicional ao discurso da alma. A constelação de “figuras” presentes – Ryuichi Sakamoto, Ivo Papasov, John Cale, Steve Shehan, Manu Dibango, Richard Horowitz, Jon Hassell – participa e assiste fascinada à cerimónia.

Ron Kavana
            Home Fire
                (Special Delivery)
Permanecendo de certo modo à margem do circuito “folk” britânico tradicional, Ron Kavana é um rebelde apostado em dotar a música irlandesa de uma carga política que tende, por vezes, a ser minorizada, em detrimento do seu lado poético-mitológico. “Home Fire” recusa o perfecionismo de estúdio que, nos últimos anos, tem vindo a retirar muito da espontaneidade que caracterizou o grande “boom” da década de 70, traduzido no aparecimento de grupos como os Planxty, Bothy Band, De Dannan e Five Hand Reel, entre outros. Solução de compromisso entre as sonoridades mais marcadamente célticas das danças e dos instrumentais, e a importância dada às palavras, nas baladas de tom intervencionista. Mil vezes mais eficaz que Billy Bragg e infinitamente mais rico em termos musicais.

ENSEMBLE TRE FONTANE - L'Art Des Jongleurs, Vol. 2 + Guillaume de Machaut & Le Codex Faenza


Pop Rock

13 Julho 1994
WORLD

DO ANTIGO PARA A INOVAÇÃO

ENSEMBLE TRE FONTANE
L’Art de Jongleurs, vol. 2
(10)
Guillaume de Machaut & Le Codex Faenza
(8)
Alba Musica, distri. Megamúsica

Desculpem-me os leitores estes desvios, mas o facto é que nos últimos tempos as gravações mais interessantes têm aparecido na área das chamadas músicas antigas. É claro, na folk, as coisas não param, só que muitos discos, alguns deles brilhantes, não chegam ou ainda não chegaram aos nossos distribuidores.
Mas regressemos às “velharias” e a dois discos de um grupo, os Ensemble Tre Fontane que, feitas as contas e assimilados os sons, não anda longe na atitude de algumas formações atuais da folk europeia.
Sobretudo no segundo volume de “L’Art des Jongleurs” (o primeiro, que não conhecemos, incide na tradição vocal trovadoresca), o tratamento das fontes utilizadas sofre deslocações subtis que aproximam a música antiga a formas musicais e de sensibilidade contemporâneas um pouco à maneira do que acontece nesse monumento definitivo de abolição de tabus e fronteiras estéticas no tempo que é “Carmina Burana” segundo os Clemencic Consort.
No caso dos Tre Fontane – um trio originário do Sul de França, região trovadoresca por excelência – e em particular no primeiro e mais antigo dos discos em análise, são as percussões soltas e evidenciando uma espontaneidade muito própria do universo folk a fazerem a diferença.
Incidindo sobretudo no reportório instrumental da Idade Média, os Tre Fontane desenvolvem aqui, como na quase totalidade do disco posterior, a música anotada no Codex Faenza, descoberto em 1939, documento de primordial importância para o estudo e aprofundamento das técnicas interpretativas da música medieval. Às peças (baladas e “virelais”) de Guillaume Machaut, séc. XIV, músico e poeta considerado um dos melhores e mais representativos compositores no estilo da “ars nova”, juntam-se as “estampies” italianas, em voluntária acentuação de características comuns. Da audição de todas elas sobressai um sentimento de hedonismo exacerbado em que os sentimentos, da amargura mais profunda à exaltação amorosa, assumem proporções exageradas, pelo menos para a nossa triste e apagada maneira de sentir. A natureza, as voltas da roda do destino, a vida vivida em pleno, transformam-se em fonte de prazer constante. A música reflete essa “joie de vivre” e exacerbação da arte ou do amor cortês levados a um refinamento e elegância de linguagem sem precedentes na chamada “ars antiqua”, anterior historicamente à “ars nova”.
Faixas como “Tre fontane” ou as duas baladas de Machaut, exemplos de maior volúpia sensitiva numa obra que toda ela um jardim de flores no esplendor máximo da fragrância e da cor – “Dame comment…” e “Dame ne regarde pas…” são de molde a transformar por dentro quem as ouve.
Centrada quase exclusivamente nas obras de Machaut, a última produção até ao presente dos Tre Fontane é mais contida, dando a entender uma preocupação maior de fidelidade às fontes consultadas e uma contenção de estilo que se prolonga pela própria instrumentação, aqui limitada à sanfona, falutas de bísel, alaúde árabe e “sordun” (ou “sourdeline”, instrumento de palheta dupla de sonoridade aparentada ao fagote com um “vibrato” semelhante ao da gaita-de-foles), enquanto em “L’ Art des Jongleurs, vol. 2” se estende pela exuberância, além dos instrumentos citados, da “chamelie” (outro instrumento medieval de palheta dupla), bombarda e várias percussões (bendir, darbouka, tablas, tamborim, etc.). Entenda-se então a afirmação de Jacques Berque, aplicável por inteiro à música dos Tre Fontane: “A autenticidade não está na repetição exaustiva do antigo, mas sim no restabelecimento do antigo através da inovação”.

Catherine-Ann MacPhee - Chi Mi’n Geamhradh


Pop Rock
1991

Catherine-Ann MacPhee
Chi Mi’n Geamhradh
CD, Greentrax, distri. VGM

Catherine é uma mulher de peso. Mais de cem quilos, com certeza. Mas, como acontece com inúmeras divas, do maciço corporal desprende-se e eleva-se uma voz imponderável, de pássaro. A de Catherine tem a consistência e transparência de um lago. De um dos lagos que, um pouco por todo o lado, se espalham e espelham a sua Escócia natal. Catherine, tal como no seu álbum anterior, “Cànan nan Gàidheal”, canta em gaélico escocês, língua de ressonâncias mágicas, nascida das profundezas do mundo celta, hoje sobreviviente por amor ao fogo que mantém viva a identidade de um povo. Acompanhada pelos outros instrumentos, a solo ou em dueto com a harpa radiante de Savourna Stevenson (cujo álbum “Tickled Pink” é imprescindível em qualquer seleção criteriosa de obras dedicadas a este instrumento), Catherine vai desvelando o novelo da história, da terra ancestral e das gentes que a habitam, em canções que ecoam na memória, evocando outros tempos e outros mitos. Como ela própria diz: “Siomadh oidch a’bhithinn a’smuaintinn, gum bitheadh tu comhla rium gu brath.” Nem mais. ****

26/07/2017

Déanta - Ready For The Storm

Pop Rock

23 Novembro 1994

VENCER OS FANTASMAS

DÉANTA
Ready for the Storm (9)
Green Linnet, distri. MC-Mundo da Canção

Na corrida imparável para os lugares da frente na grande maratona da música tradicional da Irlanda, os Déanta aceleraram a fundo. Em competição direta com os Dervish na categoria de “principiantes” (noção algo relativa, tendo em conta a tenra idade com que na ilha se começa a pôr em prática o amor pela música), a primeira etapa foi vencida por estes últimos com “Harmony Hill”, contra a estreia dos Déanta.
“Ready for the Storm” responde à letra e ultrapassa sem apelo nem agravo “Harmony Hill”. Um passo de gigante dado por este grupo de cinco raparigas e um rapaz que alcançaram já a maturidade e um nível médio de execução instrumental que lhes permitirá, a breve prazo, entrar em competição direta (se é que não o fazem já) com as “trutas” da primeira linha (Altan, Skylark, Patrick Street, Open House, La Lugh, De Danann… Quanto aos Chieftains, insistimos em “arrumá-los” num local à parte…).
“Ready for the Storm” não sofre dos tremeliques nervosos que de algum modo tolhiam os movimentos dos músicos no álbum anterior. Melhorou a escrita e a capacidade inventiva dos arranjos, evidente desde logo no tema de abertura, “The mighty clansmen”, de uma riqueza harmónica extraordinária, bem como aquela energia mágica que parece possuir as melhores bandas irlandesas e as faz ultrapassarem-se a si próprias (os Dervish, por exemplo, que o digam, a propósito da sua atuação no último Intercéltico), liberta de forma exemplar no medley “Rocky reels”.
Deirdre Havlin está a tornar-se um caso sério na flauta. Basta escutá-lo no citado tema de abertura ou nos diálogos com o “bodhran” de Clódagh Warnock, em “Hammy Hamilton’s jigs”, e com o violino de Kate O’Brien, em “The Landsdowne lass”. Mary Dillon, por seu lado, perdeu a timidez e projeta com outra convicção e naturalidade a sua voz. Eficaz, no clássico crioulo “The lakes of Pontchartrain”, ágil e profunda como um oceano de emoções, em “Culloden’s harvest” (escrita pelo escocês Alastair McDonald sobre uma antiga canção gaélica do mar), simplesmente emocionante, em “Ready for the Storm”, um “standard” em potência.
Se “Déanta”, sem dúvida um bom álbum, não conseguia manter o mesmo nível elevado do princípio ao fim, sofrendo de uma ocasional “anemia” e de uma excessiva contenção (resultante dos tais receios – infundados – de falhar), em “Ready for the Storm” é difícil detetar pontos a seu desfavor, dada a maneira como o grupo conseguiu, como já dissemos, libertar-se dos fantasmas do passado. Os Déanta estão agora preparados para enfrentar não só qualquer tempestade, como a responsabilidade de receber e transmitir o testemunho musical de uma tradição imorredoira.

11/04/2017

Paco de Lucía - Zyryab

Pop Rock
17 de Abril 1991



Paco de Lucía
Zyryab
LP/MC e CD, Philips, distri. Polygram

Ao lado de Manitas de Plata, Paco de Lucía faz papel de grande embaixador do flamenco no mundo. Ao contrário de Manitas ou do menos conhecido (mas não menos importante) Pepe Habichuela, conservadores na atitude e no estilo, Paco de Lucía investe em áreas que só indiretamente têm a ver com a música cigana, como o jazz ou a canção de tons mais ligeiros (quem nunca trauteou “solo quiero caminar”?). Com John McLaughlin (com quem partilha um estilo particular de fraseado) e Al Di Meola, gravou um álbum exclusivamente dedicado às possibilidades da guitarra. “Zyryab” revela-se eclético no modo como aborda as típicas bulerias, tarantas, rumbas ou fandangos ciganos, através de uma liberdade formal que não receia juntar o discurso ortodoxo do flamenco às divagações jazz-rock ou a incursões mais marcadamente arabizantes, como acontece no título-tema “Zyryab”, valorizado ainda mais pela participação pianística de Chick Corea. ****

11/10/2016

De Danann e a moura encantada no Intercéltico

CULTURA
QUARTA-FEIRA, 27 MAR 2002

De Danann e a moura encantada no Intercéltico

FESTIVAL ENCERROU NO DOMINGO

Da Irlanda vieram, uma vez mais, os melhores sons do Intercéltico, com os de Danann a porem os pontos nos “is”: o mundo é mais real num “reel”

Pronto! Aquilo que mais se temia, aconteceu! O Festival Intercéltico do Porto, que entre 22 e 24 decorreu no Coliseu, abriu um grave precedente, melhor dizendo, abriu as portas e deixou entrar os mouros! Uma cantora tunisina e um guitarrista iraquiano. O "duende". Flamenco. Onde é que o mundo irá parar? A partir de agora, nada será como dantes.
                Ghalia Benali, a cantora árabe em questão, foi a lança em África, a ferir de sensualidade o Norte céltico. A sua atuação, com o grupo Timnaa, no sábado, longe de ser brilhante, foi... colorida. Coube, porém, aos De Danann, abocanhar a maior fatia de glória.
                Domingo, em dois "sets", o segundo dos quais infernal, o grupo decano da "folk" irlandesa conseguiu enlouquecer uma plateia ávida de participação. No Coliseu, dançou-se, correu-se em volta das filas, gritou-se de excitação. Imperturbáveis, sentados do princípio ao fim da sua dupla atuação, os De Danann foram avançando, entre "sets" instrumentais e as baladas cantadas por Eleanor Shanley em tom talvez demasiado gritado (não há por aí nenhum "pub") até ao delírio final.
                Frankie Gavin, se não é Deus, como diz a anedota, anda lá perto. Ou talvez seja mais legítimo dizer que toca violino como um diabo... Senhor de uma técnica e de um "feeling" espantosos, foi um regalo ouvi-lo ora a esticar ora a encolher o compasso dos "reels", criando síncopes e sobreposições só ao alcance dos mestres. Num dos "medleys", atreveu-se na mesma sequência a que os Fairport Convention chamaram "Flatback caper" no seu álbum "Full House". Ou seja, não teve medo das inevitáveis comparações com o Deus maior do violino tradicional que é Dave Swarbrick... Mas Frankie Gavin também tocou Bach à maneira de um "reel", "Hey Jude", dos Beatles, à maneira de um "reel"... "Reel" real. Irlanda para dançar.
                Iam os De Danann de "reel" em "reel" quando, mais ou menos a meio da segunda parte da sua atuação, um imenso sol rasgou o Intercéltico. Para além de todo o virtuosismo e do maior ou menor "output" de energia, a grande música aconteceu quando os teclados cessaram finalmente o seu apoio logístico – que a música irlandesa dispensa – e Frankie trocou o violino, primeiro pela flauta, e a seguir pelo "tin whistle", num extraordinário diálogo com o "bodhran" de Colm Murphy que antes já rubricara um solo não menos impressionante. Junte-se a isto uma vocalização "a capella" da cantora Eleanor Shanley, envolvida num silêncio religioso, e estava encontrado o melhor de todo o festival.

Bobos e odaliscas
Se os De Danann foram o génio que saiu da lâmpada do Intercéltico, na véspera, sábado, os galegos Os Cempés foram os bobos e Ghalia Benali a odalisca. Está certo que os Cempés tenham vindo a Portugal apresentar o seu novo álbum "Circo Montecuruto", mas não havia necessidade de tanta palhaçada. Serxio Cés, vocalista e saxofonista, então, exagerou. Numa voz de fantoche, fez paródia com tudo, mesmo num tema onde a sanfona e palavras que falam de crianças e velhos agredidos exigiam o silêncio. Ao invés, Serxio optou por uma sessão de guinchos e macacadas que tiveram o condão de irritar. Reconheça-se que teve piada ao mimar as poses de um guitarrista de "heavy metal" ou quando vestiu a pele de uma superestrela da treta, mas o resultado de tanta ânsia em querer mostrar que eram capazes de dominar uma plateia enorme como a do Coliseu, foi que a música teve pouco espaço para concentrar sobre si as atenções. As muiñeiras foram esmagadas pelo bailarico com pretensões pop. Não tocaram "A Loureana", do álbum "Capitan Re", o seu melhor tema de sempre, mas atiraram-se com denodo às valsas de circo e aos pasedobles de coreto. Sem descerem tão baixo como uns Celtas Cortos, a verdade é que os cem pés pareceram curtos. Foi pena, até porque Antón Varela é um gaiteiro excelente e os Cempés, na condição de ser ministrada ao seu vocalista uma dose cavalar de calmantes, são uma banda com todas as condições para singrar.
                E depois do circo, as Arábias. Com a cantora Ghalia Benali e os Timnaa. Ghalia exibiu no Coliseu do Porto o novo álbum, "Wild Harissa", um umbigo provocante, uma cabeleira sensual e um talento inato para o espetáculo. Quanto aos Timnaa, oscilaram entre os Gypsy Kings, o Brasil, o flamenco e a música árabe. Têm dois violinistas ágeis e velozes, por vezes trapalhões, um tocador de cajón compenetrado, um guitarrista iraquiano amante do flamenco e uma bailarina com mais jeito para mostrar trajes coloridos do que para dançar e sapatear. Mas lá que deram espetáculo, deram...
                Temos assim no pódio do 13º Festival Intercéltico do Porto: Medalha de ouro para os De Danann, de prata para os Kornog, de bronze para os restantes. Mouros no Intercéltico – é preciso descaramento! Falando a sério: o Intercéltico está vivo e para o ano promete ser de arromba.

04/10/2016

Balanço - O ano 1990 em World

Pop Rock
2 de Janeiro 1991

1990 foi sobretudo o ano de todos os encontros, cabendo ao Oriente a parte de leão, desde a enésima versão das vozes búlgaras às divagações elétricas centradas na Ásia. Em Portugal, o acontecimento do ano, nesta área musical, passou despercebido: numa perspetiva descentralizadora, realizaram-se no passado Verão, em Oeiras, Famalicão e Évora, os primeiros Encontros Musicais da Tradição Europeia, organizados por uma cooperativa nortenha. Foi possível escutar ao vivo a magia musical de regiões culturalmente tão ricas como a Escócia, a Cantábria, o Piemonte e a Occitânia, trazidas respetivamente por Andrew Cronshaw, Manuel Luna, La Ciapa Rusa e Perlinpinpin Folc. Também no capítulo das edições discográficas, nomeadamente de música celta, os adeptos não se puderam queixar, graças a alguns importadores nacionais que tornaram disponíveis, entre nós, catálogos tão importantes como os da “Topic”, da “Iona” ou da “Green Linnet”.

MARTA SEBESTYEN & MUZSIKÁS
Blues for Transylvania
Hannibal, distri. Nébula

Foi na Transilvânia que Drácula e Ceausescu, pela imaginação ou pela revolta verdadeira da população, se viram arrancados dos tronos do poder. Terra da violentos confrontos, telúricos e políticos, cantada pela voz forte e doce de Marta Sebestyen. Como em “The Prisoner’s Song” e “Muzsikas”, de novo se conta a história e o dorido queixume da alma romena, aqui expressos com tanta intensidade, como se do lamento de um “blues” se tratasse. No seio das “Muzsikas”, a tradição é assumida como ato. No ano passado, a banda tocava em homenagem às vítimas de Timisoara, conciliando o inconciliável – tradição e revolução.

MARI BOINE PERSEN
Gula Gula
Real World, distri. Edisom

Mari nasceu em Gamehisnjárga, promontório algures a norte da Escandinávia, atravessado pelo rio Anarjohka e habitado pela etnia Sámi. Os mapas não registam tal local. Nunca é tarde para se aprender geografia. Mari optou pela “civilização”, passando a sentir na carne o confronto entre diferentes culturas. Na escola ensinavam em norueguês. Resolveu mudar o estado das coisas, recuperando a língua e o espírito antigos. “Gula Gula” significa “Escuta a voz dos antepassados” – assombrações e melodias estranhas, auroras boreais que esculpem, lentamente, novas maneiras de sentir.

Banda Sonora do Filme “The Mahabharata”
Real World, distri. Edisom

O princípio do mundo, segundo a lenda hindu, recriado pela inspiração coletiva de um grupo de intérpretes de várias nacionalidades, baseada nos sons tradicionais, nomeadamente do Tibete e da Índia. Música de “fusão”, bem entendido, que combina diferentes sensibilidades e discursos musicais, unificados por uma comum aspiração à beleza absoluta. “Música do mundo” em todo o seu esplendor a que os poemas de Rabindranath Tagore e a voz de Sarmila Roy acrescentam a dimensão do sublime.

MOUTH MUSIC
Mouth Music
Triple Earth, import. Contraverso


Discos de música celta, saídos este ano, ainda cá não chegaram. Este “Mouth Music” (ou “Puirt a Beul”, em gaélico, designado um estilo vocal destinado à dança) acaba por ser um bom substituto, talvez não muito do agrado dos puristas, mas, de qualquer modo, uma entre outras interpretações possíveis da música tradicional escocesa. Os instrumentos de Martin Swan e a voz cristalina de Talitha MacKenzie fazem-nos acreditar que o mundo é uma história de encantar.

01/10/2016

Strobinell - Breizh Hud

Quarta-feira, 21 Maio 1997 POP ROCK
world

Strobinell
Breizh Hud
KELTIA, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO

Yann-Fanch Kamener, figura já lendária e um dos mais importantes cantores da música tradicional da Bretanha, define os Strobinell como “um grupo de mágicos, hoje reconhecido como uma das jóias da cultura musical” daquela região. “Breizh Hud” é um daqueles álbuns que deixam uma marca indelével no auditor. A Bretanha, nas suas múltiplas matizes anímicas, passa como uma sortilégio na música dos Strobinell, um grupo que parece rivalizar com os seus companheiros da “tríade do S”, Skolvan e Storvan, na conquista do ceptro de melhor grupo bretão. Como descrever o gozo imenso provocado pelo diálogo das bombardas de Jill Léhart e Patrig Ar Bal’ch – uma das delícias maiores deste disco sem defeito –, a fluência fluvial da flauta de Yan-Herri Ar Gwicher, os ritmos sincopados criados pela guitarra de Riwall Ar Menn, a presença discreta mas eficaz do novo recruta Philippe Turbin, nos teclados? Se quisermos comparar “Breizh Hud” com o álbum anterior do grupo, “An Aoutrou Liskildri”, ou com o monumental “Swing & Tears”, dos Skolvan, verifica-se que os Strobinell, ao contrário destes dois trabalhos, resolveram dispensar, por completo, as experimentações fusionistas, optando por uma leitura que, pondo em relevo as subtilezas próprias de um grupo contemporâneo, lhes acrescenta toda a força expressiva e alegria de viver de uma “fest noz”. E ouvindo uma balada como “Beleg gwegan ha kloareg mogero” não nos é possível deixar de recordar os dias mais belos de Alan Stivell… (9)