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29/08/2016

Um "gwerz" para o milénio [Skolvan - 6º Festival Intercéltico do Porto]

POP ROCK
Quarta-feira, 5 Abril 1995

UM “GWERZ” PARA O MILÉNIO

Entre os vários nomes que vão estar presentes no Intercéltico os Skolvan são talvez os que melhor souberam estabelecer o compromisso entre a fidelidade às origens e a invenção de linguagens mais ajustadas à realidade dos tempos atuais. Com três álbuns no ativo, “Musique à Danser”, “Kerz Ba’n’ Dans” e “Swing & Tears”, este último considerado pelo POPROCK um dos melhores de 1994, a banda bretã promete figurar no quadro de honra do festival. A conversa com o acordeonista do grupo, Yann-Fañch Perroches, facultou-nos uma ideia mais clara sobre o estado em que se encontra hoje a música tradicional na Bretanha.

quais são as diferenças mais significativas entre uma “festoù-noz” (ou fest-noz”, abreviando), e as festas populares das outras reições de França?
            Yann-Fañch Perroches – A diferença essencial é a presença da música e da dança tradicionais. O objetivo de uma “fest-noz” é a dança. Ou seja, um baile. Nas outras regiões da França os bailes populares apenas conhecem as danças “modernas” (valsas, rock, etc) com orquestras que tocam os sucessos do momento, como variedades francesas ou internacionais. Este tipo de bailes também existe na Bretanha mas são mais raros. Muitas festas bretãs, religiosas ou mesmo casamentos, terminam em “fest-noz”. É de sublinhar a necessidade de que haja uma orquestra, cantores ou “sonneurs” para animarem uma “fest-noz”. Discos é que nunca, como acontece nos bailes vulgares. Uma “fest-noz” é ainda um lugar de convívio entre os músicos. O bar também é muito importante!...
            P. – À semelhança de outros grupos da Bretanha os Skolvan atuam tanto nas “fest-noz” como no círculo folk das cidades. Onde é que sentem mais prazer em tocar?
            R. – São ambos importantes. A “fest-noz” permite-nos comunicar com um público de dançarinos, logo, de conhecedores. A simbiose entre a música que tocamos e o prazer dos dançarinos é muito importante. Mas dar a conhecer a nossa música a outros tipos de público é igualmente interessante. Por outro lado os concertos são uma ocasião para tocarmos temas que não costumamos tocar nas “fest-noz”, como marchas ou determinadas melodias. Enfim, a “fest-noz” dá mais espaço à improvisação e à espontaneidade.
            P. – Depois do “boom” da música tradicional bretã desencadeado por Alan Stivell e Glenmor, nos anos 70, houve um interregno de quase duas décadas até ao aparecimento de uma nova geração de grupos como os Strobinell, Storvan e os próprios Skolvan. Mas enquanto a primeira vaga era bastante politizada, a nova parece ter sobretudo preocupações de ordem estética. Será que os músicos estão acomodados?
            R. – O que se passa é que não estamos habituados à situação política do país. A reivindicação é hoje mais subtil. É através da força da nossa música e da nossa cultura que reivindicamos. O Estado francês ainda não conseguiu asfixiá-las. Embora a necessidade de reconhecimento internacional o obrigue à concessão de algumas ajudas financeiras. Mas tem razão quando diz que o nosso percurso artístico é antes de mais (ou unicamente?) estético. Isto não significa que não possamos ser de certa forma militantes. Tocamos gratuitamente para escolas, na Bretanha e demos um concerto de solidariedade para com a Bósnia.
            P. – Os Skolvan mantêm uma postura diferente de grupos como os Bleizi Ruz, Ti Jaz ou le Gop, considerados de fusão. O que pensa deste tipo de opção?
            R. – Não somos juízes desses grupos. Mas, em geral, o resultado parece-nos bastante insuficiente, do ponto de vista estético, embora as experiências não sejam em si negativas. Creio que os Skolvan fazem também fusão, mas de uma forma talvez menos flagrante. Não queremos de modo algum transformar a essência da nossa música.
            P. – Declararam uma vez numa entrevista à “Trad. Magazine” (edição nº 94 de Set./Out. de 94), que “estava fora de questão transformar um ritmo ou um fraseado para a música soar como rock ou reggae”...
            R. – Ou, dito de outra maneira, nem pensar em mudar um ritmo, para parecer “reggae”... Mas se músicos de “reggae” quiserem trazer a sua música e confrontá-la com os nossos próprios ritmos, então tanto melhor! O resultado seria forçosamente música bretã, porque nós continuamos a tocar como antes. Em “Swing & Tears”, apesar do contributo de músicas diversas, como o jazz, o rock ou o reggae, todas as nossas danças, ritmos e pulsações são respeitadas. Eis a razão pela qual penso que os Skolvan são um grupo apreciado tanto pelos bons dançarinos como pelos “velhos” cantores e “sonneurs” tradicionais. Eles não têm a impressão de que a sua música está desfigurada embora, evidentemente, nós a tivéssemos “modernizado”.
            P. – Na mesma entrevista referem que a parte rítmica é o “ponto fraco” da música tradicional bretã...
            R. – Sim, mas apenas no sentido em que as percussões são muito pouco utilizadas. Está tudo por inventar. Tem havido poucas tentativas, salvo da parte dos bateristas de rock, mas essas não serão as mais convenientes para a subtileza dos nossos ritmos. Bateristas de jazz ou étnicos, indianos ou turcos, por exemplo, seriam bastante mais apropriados. Dito isto, no caso de “Swing & Tears”, o percussionista é Dominique Molard, um baterista bretão que toca numa “bagad” [banda de “cornemuses”, em bretão, “biniou” ou “biniou-kozh” (gaita-de-foles), bombardas e tambores, parente das “pipe bands” escocesas, por exemplo].
            P. – Na rapsódia “La banane das l’oreille”, falam de uma “tradição moderna”, o “Cercle circassien”, surgido recentemente nas “fest-noz”, referindo de passagem a Irlanda. Será algo parecido com a “irlandização” da música bretã?
            R. – Não tem nada a ver! O “cercle circassien” veio da Grã-Bretanha, pela via dos meios folk parisienses! É verdade que com alguma frequência o acompanhamento musical é constituído por “jigs” irlandeses, mas outro ritmo qualquer, desde que seja um 6/8, serve. Por exemplo, um dos temas mais populares é uma tarantela italiana. Estes “jigs” são em geral interpretados de forma caricatural, do ponto de vista rítmico. É com isto que nós nos divertimos um pouco no disco, tocando à maneira “rock” no primeiro tema, enquanto os dois últimos soam bastante “irish”.
            P. – Que técnica utilizam para trabalhar os diálogos, típicos dos “sonneurs”, no “biniou” e na bombarda? Estou a pensar no facto destes dois instrumentos serem tocados no grupo, pela mesma pessoa, Youenn Le Bihan...
            R. – Inspiramo-nos nas duplas de “sonneurs”, assim como nos cantores, mas apenas no espírito. O fraseado, as variantes, as improvisações do diálogo entre o “biniou” e a bombarda são reproduzidos por nós pelo “piston” [cornetim] ou o violino com o acordeão.
            P. – Quem é “Mme. Bertrand”, de quem o grupo utilizou um registo de voz, no tema “Gwerz Skolvan” e que volta a ser citada em “Tears”?
            R. – O nome dos Skolvan foi tirado diretamente da interpretação fantástica desse mesmo “gwerz” [forma de canção bretã] por Mme. Bertrand. É uma cantora mítica na Bretanha. Poucas pessoas a conheceram. Mas foi uma das maiores cantoras que a Bretanha alguma vez teve. Quisemos homenageá-la. Foi também uma maneira de mostramos o modo como nos inspiramos para fazer a nossa música. Os temas são em primeiro lugar escutados na sua forma mais despojada e depois arranjados de modo a chegarmos a algo tão elaborado como “Tears”.
            P. – Os Skolvan são tão sanguinários como o nome sugere [“Skolvan”, personagem terrífica...]?
            R. – Isso cabe a si decidir, depois das respostas que lhe dei...

19/07/2016

Lar doce lar [Maura O'Connell]

Sons

29 Agosto 1997

Lar doce lar

Maura O’Connell nunca se considerou uma cantora tradicional, embora tivesse feito parte dos De Danann. Um almoço glorioso e uma sessão de canto numa quinta com Dolores, Rita e Sarah Keane contribuíram para a gravação do seu novo álbum, “Wandering Home”, a descoberta da alma irlandesa e do caminho de regresso para casa.

Da Irlanda para a América e de novo para a Irlanda é o percurso desta cantora que, juntamente com Dolores Keane – que considera a maior – e Mary Black, é uma das maiores vozes irlandesas da velha guarda. Depois de uma passagem pelos De Danann, dedicou-se a cantar autores contemporâneos, como Richard Thompson, no novo álbum “Wandering Home”, que interpreta com o histrionismo de uma verdadeira atriz.
PÚBLICO – “Wandering Home” é um retorno às suas origens irlandesas, diferente dos seus álbuns anteriores, onde interpreta temas de vários compositores e o som é mais americano...
MAURA O’CONNELL – Como eu, há muitas pessoas que viajaram pelo mundo e se interessaram por outras músicasm além da do seu país natal. Habituamo-nos de tal forma à música que nos está mais próxima que a tomamos como algo natural, sem a valorizarmos o suficiente, ao ponto de acharmos mais interessante o que ouvimos lá fora. Até que chega um dia em que nos apercebemos da sua beleza, quase como turistas. Na verdade, nunca prestara atenção suficiente à música irlandesa, mesmo nos dois anos em que estive nos De Danann, a única experiência que tive com a música tradicional.
P. – Na contracapa do disco refere, como uma das razões que a levaram a esta aproximação, o ambiente familiar da sua infância, passada na casa em Ennis...
R. – Sim, mas em minha casa os meus pais ouviam sobretudo ópera, por isso não se pode dizer que tenha crescido a ouvir música tradicional, como aconteceu, por exemplo, com Dolores Keane. É verdade que este disco é um regresso a casa, mas nos meus álbuns anteriores já havia temas irlandeses, embora contemporâneos, canções de Paul Brady ou de Gerry O’Beirne. Nunca me senti uma cantora tradicional, falta-me a naturalidade. Considero-me antes uma cantora que canta o que quiser.
P. – Falou em Dolores Keane. Nas notas de capa menciona também uma tarde memorável passada com ela e com as suas tias, Sarah e Rita, determinante na gravação de “Wandering Home”...
R. – Foi um dia mágico, num Verão em que não parou de chover na Irlanda. Mas este foi diferente, maravilhoso. Elas vivem numa quinta antiga, no condado de Galway. Estavam lá 30 ou 40 pessoas, a equipa toda da digressão. Ofereceram-nos um almoço magnífico e, a seguir, começaram a cantar, com toda a naturalidade. Já as conhecia antes, elas são famosas nos círculos tradicionais, mas foi a primeira vez em que a sua música me afetou profundamente. Não sei se por causa da informalidade da situação, a simples visão de as ver cantar. Fiquei completamente apaixonada pelo som e pelo sentimento. Para algué, como eu, que sempre gostou de música soul americana, impressionou-me a alma com que as duas cantavam. Abriram-me os olhos. Percebi que também havia soul na música irlandesa.
P. – Por que razão foi viver para Nashville?
R. – Os meus interesses estiveram sempre voltados para a música americana. Mas nos anos 80 a minha carreira desenvolveu-se na Irlanda, depois de deixar os De Danann, quando comecei a gravar os primeiros álbuns a solo. Acontece que a Irlanda é um país demasiado pequeno para albergar a quantidade incrível de cantoras tradicionais que lá existem. Depois, fiz muitos amigos na América, como o meu produtor Jerry Douglas, que me fazem sentir muito bem aqui. E o meu marido é americano. Tenho sorte em poder trabalhar também na Irlanda, como no projeto “A Woman’s Heart”.
P. – O que pensa desse projeto?
R. – Vendeu milhões. Foi aquele que obteve mais sucesso, de todos aqueles em que me envolvi. Um encontro das cantoras mais velhas, como Dolores Keane, Mary Black e eu, com as mais novas, Frances Black e Eleanor Shanley.
P. – A propósito, que opinião tem de Dolores Keane, a cantora que a antecedeu nos De Danann?
R. – Dolores é a rainha. Em absoluto, a melhor cantora de todas.
P. – É ou era?
R. – Bem, ainda acredito que, numa noite boa, Dolores não tem rival. Lembro-me de a ver, há uns anos, em frente ao microfone, era como se a música viesse diretamente da terra.
P. – Voltemos a sua casa e à música que ouvia...
R. – Que não era tradicional, mas do tipo de ópera ligeira, como algumas das canções deste álbum, “I hear you calling”, composta por John McCormack, ou “Down by the Sally gardens”, em oposição ao registo mais tradicional de “Down the moor”, por exemplo, que surgiu da audição da música dos De Danann e de outros grupos dos anos 70. Mas a minha memória está mais povoada com coisas do estilo de “lullabies” de Brahms...
P. – O álbum dos De Danann em que participa como vocalista principal é “The Star Spangled Molly”. A seguir abandonou o grupo. Porquê?
R. – Como já disse, nunca me considerei uma cantora tradicional. Eles dizem que me convidaram depois de me terem ouvido cantar num bar, numa festa. Eu acho que foi por o empresário deles me conhecer... Fui a primeira cantora a cantar com eles depois de Dolores Keane, que esteve com o grupo por volta de 1974, 1975. Após uma fase com cantores masculinos surgi eu, iniciando-se um período de dez anos dos De Danann com vocalistas femininas. O convite inicial era para os acompanhar durante seis semanas numa digressão pela América. Disse-lhes que não conhecia nenhuma canção tradicional, mas para eles estava tudo OK. O que eu fazia nessa altura, e continuei a fazer depois de sair do grupo, era cantar canções de autores de que gostava, como Bonnie Raitt, Emmylou Harris, “Mississipi” John Hurt, velhos blues.
P. – Mas nesse disco canta praticamente só tradicionais...
R. – Sim, mas a verdade é que o único tema vagamente tradicional que trouxe comigo quando entrei para o grupo era “Maggie”, escrito em Chicago em 1850, que um amigo meu tocava na guitarra como um blues urbano. Isto para se perceber que a maior parte dos temas de “The Star Spangled Molly” foram compostos ou compilados na América, embora toda a gente os tenha aceite como canções irlandesas.
P. – A era dos chamados “Dias da rádio”, que dá uma atmosfra especial a esse disco e que também está presente neste seu novo álbum numa canção como “I hear you calling”, não é verdade?
R. – Precisamente. John McCormack, um tenor, cantava esse tipo de reportório. Toda a gente fala dos tenores irlandeses, ele era “o” tenor irlandês. Esta era também a música que ouvia em casa dos meus pais, mas quando se é novo não se quer saber da música que os pais ouvem. Há uns anos comprei uma série de CD de McCormack e foi aí que descobri essa canção, composta em 1926.
P. – Antes de “The Star Spangled Molly” já tinha cantado noutro álbum dos De Danann, “Anthem”, numa versão de “Let it be” dos Beatles...
R. – As vozes principais pertenciam a Mary Black e Dolores Keane. Eu fazia apenas o coro. Não cantei em mais nenhum álbum dos De Danann.
P. – Não é verdade. Canta na última canção de “Song for Ireland”, “Barney form Killarney”...
R. – Canto o quê? Não canto nada, não sou eu!
P. – Temos o disco à nossa frente, onde podemos ler “voz de Maura O’Connell”. E ouve-se, de facto, uma voz feminina...
R. – Não pode ser! Tenho que receber os direitos de autor! [risos]
P. – A sua carreira construiu-se, a partir dos De Danann, na América e em Nashville, onde coheceu e colaborou com os New Grass Revival. Isso não a afastou do público irlandês?
R. – Nunca me procupei com isso. Volto a frisar o facto de que nunca fui uma cantora tradicional. O que fiz depois de sair do grupo foi continuar o que já fazia antes. Na Irlanda, apenas meia dúzia de pessoas é que me iria ver num clube folk qualquer. Em Nashville, pelo contrário, logo o primeiro álbum que gravei a solo foi disco de ouro.
P. – Fez parte dos De Danann, mas neste álbum colabora com Donal Lunny e canta um tema de Paul Brady, que pertenceram ambos aos Planxy...
R. – Certo. Paul Brady nasceu, como eu, no condado de Clare. Donal Lunny, que também pertenceu aos Bothy Band, é um tipo formidável. Um dos melhores. A única coisa que tive de fazer foi cantar. O álbum foi gravado em oito dias, um dos mais fáceis da minha carreira e, sem dúvida, o que meu deu maior prazer.
P. – Há no nov álbum uma canção, “Down where the drunkards roll”, de Richard Thompson, onde a tragédia se escreve como um épico. Por que a escolheu, tendo em conta que, como já disse numa outra sua entrevista, gosta de vestir a pele das personagens que canta, assumindo o lado mais teatral da música?

R. – É uma “killer song”. Já a cantava mesmo antes de entrar para os De Danann, com Mike Hanrahan, dos Stockton’s Wing, que são da mesma região que eu, Ennis, com quem formei um duo chamado Tumbleweed. Há anos que a queria gravar, a dúvida estava em onde a encaixar. Finalmente acabei por incluí-la neste álbum irlandês. A minha tarefa é fazer as pessoas sentirem a mesma emoção que eu sinto quando ouço pela primeira vez uma canção. Como um ator que entra na personalidade da personagem, quer se trate de alguém com o coração destroçado ou de alguém que se sente feliz.

29/12/2014

Com a tranquilidade no olhar [June Tabor]



DESTAQUE

ENTREVISTA COM JUNE TABOR, QUE CANTA HOJE À NOITE NO CCB

COM A TRANQUILIDADE NO OLHAR

SERÁ A TERCEIRA APRESENTAÇÃO AO VIVO EM PORTUGAL DE JUNE TABOR, UMA DAS VOZES E FIGURAS MAIS MARCANTES DA MÚSICA POPULAR BRITÂNICA DAS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS. COMEÇOU PELA FOLK, ARRISCOU O PUNK, GOSTA DE FLIRTAR COM O JAZZ E É DETENTORA DE UMA CARREIRA IMACULADA. “A QUIET EYE” É O SEU MAIS RECENTE DISCO. UM DISCO “HAUNTING”, “FANTASMAGÓRICO”, COMO ELA DIZ.

JUNE TABOR nasceu em Warwick, Inglaterra, no último dia do ano de 1947. Ao longo da década de 60 e da primeira metade dos 70, viveu, como todas as cantoras inglesas da sua geração, um pouco apagada na sombra de Sandy Denny. A nobreza e a absoluta ausência de concessões da sua música acabaram, porém, por impô-la como uma das maiores cantoras das Ilhas Britânicas.
Embora o seu nome esteja ligado sobretudo à música tradicional, são frequentes as incursões pelo jazz e pelos compositores contemporâneos. Já gravou com os punk-folkers Oysterband e atuou ao lado dos Albion Band e dos Fairport Convention. Colaborou com Nic Jones, Martin Carthy, Peter Bellamy, Savourna Stevenson e Maddy Prior, formando com esta última o grupo Silly Sisters. Nos últimos anos, a sua música ganhou um apuro formal e uma elegância inultrapassáveis que nos álbuns se traduzem numa quase fantasmagoria.
            June Tabor, que já atuou duas vezes em Portugal, afirmou uma vez que “os nossos problemas seriam resolvidos se o mundo fosse governado por jardineiros… os verdadeiros, claro”. June é um desses jardineiros que semeia a terra com as sementes de outro mundo.
            Apresentar-se-á em trio com Huw Warren, no piano, e Mark Emerson, no violino e viola de arco.
            PÚBLICO – Durante anos consecutivos foi a vencedora crónica na categoria de “melhor cantora” nos prémios da revista “Folk Roots” que, finalmente, resolveu instituir um prémio especial de carreira só para si. Sentiu-se arrumada numa gaveta?
            June Tabor – Esse concurso… É sempre bom quando se ganha. Fica bem no currículo… Mas a responsabilidade também aumenta. Acabou por ser do meu interesse e da revista ter sido tomada essa decisão.
            P. – Ao fim de quase 30 anos de carreira, já não tem nada para provar?
            R. – Ao mundo, decerto que não. A mim, provavelmente, sim… Quando nos dirigimos aos outros, são importantes as suas opiniões sobre a imagem de mim própria que procuro transmitir. Mas quando tentamos provar alguma coisa a nós próprios, o caso muda de figura. Neste caso sou o mais acérrimo dos críticos. Os níveis de qualidade que imponho a mim própria são mais exigentes do que qualquer pressão que possa vir do exterior.
            P. – Ainda sente essa pressão de cada vez que entra em estúdio para gravar um novo álbum?
            R. – Sem dúvida! Os nervos são uma coisa necessária. E a adrenalina… Às vezes os nervos surgem sem razão aparente. É preciso acreditarmos em nós próprios para conseguirmos ultrapassar estas fases. Eu consigo-o quase sempre.
            P. – Os seus discos são todos bons. Se calhar as pessoas têm curiosidade em saber quando dará um passo em falso…
            R. – … E espero nunca dar! Mas a verdade é que quando se termina um disco, está feito, já não se pode mudar nada. Fica escrita a versão definitiva e é possível ser-se julgado de uma maneira diferente daquela que se gostaria. É difícil dizer qual é a versão definitiva de uma canção. Em princípio qualquer coisa que fica gravada, em geral, nunca é tão boa como numa apresentação ao vivo. Gravar um disco é uma atividade estranha, artificial. Depois, o dinheiro para o fazer é limitado, a não ser que se seja famoso e se possa ficar fechado anos num estúdio. No caso da folk, não costuma haver muito dinheiro e o tempo em estúdio é limitado o que torna problemático captar a essência de uma canção. Às vezes, por sorte, consegue-se… De resto, todo o processo de apresentação de um disco é artificial, um exercício efémero num caminho que é a vida inteira. Não será a fórmula mais sincera de todas…

“Cantora folk é um pouco redutor”

            P. – Gostaria de ser considerada a primeira dama da folk?
            R. – Não seria verdade. Tanto canto canções folk como outras que não o são. Gostaria que me encarassem como uma cantora de canções fortes que conta histórias fortes, venham elas de onde vierem. “Cantora folk” é um pouco redutor…
            P. – Mas a verdade é que metade dos temas que fazem parte do seu novo álbum, “A Quiet Eye”, são tradicionais…
            R. – Sim, serão 50 por cento, mas mesmo essas não são interpretadas de uma maneira tradicional.
            P. – Ainda a propósito de “primeiras damas”, o som de álbuns como “Angel Tiger”, “Against the Streams”, “Aleyn” ou “A Quiet Eye” tem a mesma qualidade espectral de um disco como “Once in a Blue Moon”, de Lal Waterson com Oliver Knight ou dos mais recentes trabalhos de Norma Waterson…
            R. – Espectral? Bem, eu ainda aqui estou deste lado do telefone! (risos). Mas sei o que quer dizer, a minha música tem, de facto, essa qualidade fantasmagórica (“haunting”). No trabalho de produção é muito importante descobrir o som específico de cada voz. O som das vozes de Norma e Lal tem essa qualidade.

Letras que contem uma boa história

            P. – Qual o papel de Huw Warren, que há anos faz os arranjos para as suas canções, nesse processo?
            R. – Funcionamos cada vez melhor um com outro, é uma aprendizagem mútua. Primeiro escolho as canções com base nas letras e faço um primeiro esboço do modo como acho que devem ser interpretadas e do tipo de instrumentação que deve ser usada. Digamos que aprendo a cantar a canção, só depois, já em conjunto, é que decidimos qual vai ser o acompanhamento. Em princípio cada canção é interpretada ao vivo duas ou três vezes até chegar à forma certa. No caso de “A Quiet Eye” tudo isto demorou bastante tempo antes de Huw escrever as partituras para a orquestra.
            P. – Essa é outra das questões levantadas pelo disco. Li uma crítica negativa ao modo como a secção de metais (não) ligava com a sua voz, chamando aos arranjos “música de casino”. Não partilho desta opinião, mas gostaria de ouvir o seu comentário.
            R. – Toda a gente tem direito a fazer as críticas que quiser mas é óbvio que não concordo. Música de casino? Há sempre alguém à procura de poder dizer mal de qualquer coisa. Essa é a forma mais reles de deitar abaixo, de denegrir o que considero ser um trabalho esplendoroso a todos os níveis, instrumentação, interpretação, arranjos, escolha de reportório. Estou-me absolutamente nas tintas para as pessoas que fazem esse tipo de afirmações, são opiniões que valem pouco mais que zero! Fiz-me entender?
            P. – Completamente! Pessoalmente os arranjos para metais fizeram-me lembrar – e, utilizando o seu termo – os arranjos “esplendorosos” de “Anthems in Eden”, de Shirley e Dolly Collins, um clássico. Muito mais que o trabalho exaustivo com instrumentos de sopro dos Brass Monkey…
            R. – Adoro esse álbum mas nem sequer me lembrei dele na altura das gravações. Mas gosto da comparação! Os Brass Monkey são outra coisa, os nossos arranjos usam sobretudo as surdinas, segundo técnicas muito próximas do jazz. Pouca gente reparou nisso…
            P. – O longo tema “The writing of Tipperary/It’s a long way to Tipperary” é um dos destaques de “A Quiet Eye”.
            R. – É épico. Sempre gostei deste tema mas não sabia qual a melhor maneira de o cantar. Decidi-me finalmente como resultado desta minha primeira colaboração com elementos da Creative Jazz Orchestra.
            P. – Richard Thompson, Maggie Holland e Nic Jones, todos ligados à folk, estão presentes com composições em “A Quiet Eye” e são escolhas óbvias, mas é a primeira vez que canta Ewan MacColl, em “The first time I ever saw your face”…
            R. – Uma personalidade tremenda e um grande compositor. Mas apesar de admirar quase todas as suas canções não há muitas que se adaptem a mim. É algo de subjetivo.
            P. – Afirmou há pouco que escolhia sempre as canções a partir das letras.
            R. – Sim, tudo o resto é secundário. Procuro letras que contem uma boa história ou que contenham uma sugestão visual forte, com economia de palavras. O máximo de coisas ditas num mínimo de espaço. Canções que façam sentir e pensar.

JUNE TABOR
Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, hoje, às 21h30
Bilhetes entre 1500$ e 4000$


AS QUATRO FASES DA LUA

ASHES AND DIAMONDS, 1977
Primeira obra-prima. O álbum do “escândalo”, onde June Tabor, purista das puristas, utiliza um sintetizador. Canções “a capella” alternam com arranjos instrumentais belíssimos, como “Now I’m easy”, “The earl of Aboyne” e “Cold and raw”. E “Lisbon”, balada que narra o encontro amoroso, no Renascimento, de uma portuguesa com um marinheiro inglês, no porto de Lisboa. Quarto crescente.

AQABA, 1988
Deslumbrante. Nesta altura já June Tabor passeava a voz e o talento por músicas de outras paragens. É o disco de apresentação de Huw Warren, em quem a cantora descobre o parceiro ideal. A voz parece pairar no éter, criando um ambiente de religiosidade. June cobre-se com o manto da noite. Lua cheia.

AGAINST THE STREAMS, 1994
Juntamente com o anterior “Angel Tiger”, é um álbum de depuração que descobre o ponto de equilíbrio: com um mínimo de meios, o máximo de emoção. Ainda a continuação de um ciclo, eternamente reaberto, de regresso à música tradicional. Uma noite de luar banhada pelo espírito da paz. Quarto minguante.

A QUIET EYE, 2000
Um manto de negrume adensa-se sobre esta voz, cada vez mais grave, de uma das maiores cantoras inglesas vivas. É um disco essencialmente “folk” onde cada balada é transformada num “standard” para a eternidade. Do exotismo “world” de “Pharaoh” ao “tour de force” folky “The writing of Tipperary/It’s a long way to Tipperary”, que recupera os ambientes do fabuloso “Ashes and Diamonds”. Lua nova.


UMA GERAÇÃO NA SOMBRA

SANDY DENNY dominou o panorama das vozes femininas folk em Inglaterra durante uma década, desde a sua estreia discográfica com os Strawbs, em 1967, até ao seu álbum a solo de despedida, “Rendez-Vous”, de 1977. No ano seguinte, uma hemorragia cerebral provocada pela queda de umas escadas na casa de um amigo privou o mundo de uma voz que sempre viveu ensombrada pela tragédia.
            Nestas condições era difícil a qualquer outra cantora folk inglesa, por maiores que fossem as suas capacidades, sobressair na sombra que era todo o espaço que Denny deixava às suas “rivais”. June Tabor faz parte desse grupo de cantoras originárias do circuito folk inglês dos anos 60 que lutava por um lugar ao sol. Curiosamente, o seu primeiro registo discográfico, “Silly Sisters”, surge em 1976, ou seja, numa altura em que a carreira de Denny se aproximava do ocaso e numa união de esforços com Maddy Prior, então nos Steeleye Span, outra das cantoras que também sempre lutara por se destacar do brilho ofuscante da antiga vocalista dos Fairport Convention.
June Tabor e Maddy Prior, ambas consideradas expoentes da folk britânica (não esqueçamos que a competição também foi sempre feroz com a vizinha Irlanda que, em matéria de “marketing”, tem sabido apresentar as suas melhores vozes embaladas com o irrecusável rótulo de “celtic”… não estavam, porém, sozinhas, nesta luta pela emancipação.
Nomes como Jacqui MsShee, dos Pentangle, Shirley Collins, Anne Briggs (uma das mestres de June) ou, mais ligadas ao folkrock, Bridget St. John, Gay Woods (da primeira formação dos Steeleye Span aos quais regressou recentemente), Linda Thompson (ex-mulher de Richard Thompson), Beverley Martyn (ex-mulher de John Martyn) ou Polly Bolton, dos Trees, surgiam com alguma regularidade na página de folk do jornal “Melody Maker”, pela pena de Colin Irwin, mas apenas as duas primeiras, Jacqui e Shirley, conseguiram atravessar de forma ativa e marcante as duas décadas consequentes.
Além destas, havia uma papisa: Norma Waterson, que debutara no seio de uma estranha família de cantores amantes da tradição rural inglesa e das danças “morris”, os The Watersons, hoje reavaliados como a raiz comum. A sai irmã Lal, já falecida, e o seu atual marido, Martin Carthy, o “Dylan inglês”, como lhe chamam, faziam igualmente parte desse coletivo cuja importância nunca é demais destacar.
Mas Norma nunca se preocupou em sair do anonimato. Foi preciso esperar até ao final do milénio para o seu nome ser dignificado, através de dois álbuns a solo que são outras tantas obras-primas da folk, junção perfeita dos veios mais antigos com uma atitude que não poderia ser mais contemporânea: “Norma Waterson” e “The Very Thought of You”, qualquer deles considerado pelo PÚBLICO como dos melhores dos respetivos anos.
Sem Norma, sem June, sem Maddy, sem Shirley e, indubitavelmente, sem Sandy, não haveria futuro. Mas elas existiram. E uma herança inestimável é transportada hoje por jovens como Eliza Carthy (na foto), menina-prodígio, cantora e violinista, filha de Martin Carthy e Norma Waterson, Kate Rusby ou Jo Freya (ex-Blowzabella).


ARTES | sexta-feira, 15 setembro 2000

05/08/2014

A cola invisível dos génios [Dervish]



Sons
30 de Junho 2000

Cathy Jordan, dos Dervish, em entrevista exclusiva ao PÚBLICO

A cola invisível dos génios

Admiradores dos Bothy Band, os Dervish consideram-se sobreviventes. Apesar da energia que transmitem numa sala de concertos, garantem que poderiam tocar num “pub” dias a fio, sem se repetirem. Uma cola invisível mantém-los unidos há uma década. O PÚBLICO conversou com a vocalista Cathy Jordan.

Com dez anos de vida e seis álbuns editados, os Dervish atingiram o topo, proeza de que poucos grupos de música tradicional da Irlanda se podem orgulhar. Cathy Jordan explicou ao PÚBLICO as razões deste sucesso, fruto de um trabalho árduo e de uma fidelidade constante às raízes. O novo álbum “Midsummer’s Night” e mais uma atuação, a terceira, em Portugal, no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas, fizeram aumentar ainda mais o cartel do grupo em Portugal.
PÚBLICO – Antes de ser convidada para ser a vocalista dos Dervish, que relação tinha com a música?
Cathy Jordan – Canto desde miúda. Toda a gente na minha família canta, pai, mãe, irmãos e irmãs. Nasci numa quinta isolada, na Irlanda rural, e a única distração que havia era a música. Os vizinhos vinham a minha casa, traziam consigo os instrumentos, tocava-se e cantava-se durante toda a noite. A minha irmã estudava num colégio em Sligo e foi lá, numa sessão de música tradicional, que encontrei os músicos dos Dervish.
P. – Conhecia nessa altura os principais grupos irlandeses dos anos 70, como os Planxty ou os Bothy Band? O seu estilo vocal lembra, por vezes, o de Triona Ní Dhomnaill, dos Bothy Band…
R. – Tomo isso como um cumprimento. Eu não diria que canto como ela mas admito que tanto os Dervish como muitas outras bandas irlandesas nunca teriam existido se os Bothy Band não tivessem existido. Eram génios que revolucionaram por completo os arranjos da música tradicional, introduzindo-lhes instrumentos como a guitarra, o bouzouki ou o mandocello.
P. – quando uma das tendências atuais mais fortes é a produção de fusões de toda a espécie, os Dervish mantêm-se relativamente próximos da ortodoxia…
R. – Poderíamos tocar música tradicional irlandesa na atmosfera de um “pub” durante horas a fio, durante dias, e nunca repetir um tema. É o que gostamos de fazer e é o núcleo central do nosso trabalho. Não queremos mudar por mudar. Se a música é suficientemente boa num “pub” é porque é, de facto, boa. Tocamos os temas na sua forma mais tradicional, com o violino e o acordeão fiéis ao original. É ao nível do acompanhamento que adaptamos e modificamos a estrutura dos acordes e dos ritmos.
P. – Essa tradição genuína continua viva na Irlanda?
R. – Com certeza. Viva e de boa saúde. Existem milhares de músicos na Irlanda que passam essa tradição de geração em geração.
P. – Continua a ouvir os velhos cantores?
R. – Absolutamente! São os professores. Um dos primeiros músicos irlandeses a gravar um disco, nos anos 20, era de Sligo, o violinista Michael Coleman. Todos os atuais músicos de Sligo olham para ele como um génio. A um nível técnico, nenhum outro músico conseguiu até hoje igualá-lo.
P. – Na sua primeira apresentação em Portugal, no Festival Intercéltico do Porto, atuaram ao lado dos Déanta. Eles desapareceram depois disso, enquanto os Dervish não pararam de crescer e de conquistar prestígio. A competição é de tal forma forte que os mais fracos ficam pelo caminho?
R. – Essa competição existe. Mas quando começámos, no início dos anos 90, havia apenas os Chieftains, os Altan existim há cinco anos… Foi uma época sem qualquer “boom” da música irlandesa, ao contrário do que se verifica hoje. Não havia então uma competição forte mas também não havia grandes incentivos. Trabalhámos arduamente, tivemos que comprar o nosso próprio autocarro e formar a nossa própria editora. Foi um processo gradual. Quando chegámos a um degrau mais alto da escada começaram a aparecer uma quantidade de outras bandas que viram o que nós tínhamos feito e evitaram cometer os mesmos erros que nós cometemos. Essas bandas atingiram o mesmo nível que nós em menos tempos.
P. – Que erros foram esses?
R. – Bem, nos negócios, sobretudo nas relações com as editoras, na promoção e “marketing” dos discos. Quando começámos nenhuma editora se interessou por nós. Ninguém queria arriscar na música tradicional irlandesa. Hoje é diferente, as novas bandas têm facilidade em assinar contratos. As companhias pressionam-nas desde cedo a participar em festivais e a verdade é que ganham rapidamente bastante dinheiro. Nós estamos juntos há todo este tempo – ao fim de dez anos é preciso que haja uma cola invisível que permita a qualquer grupo sobreviver – e só agora começámos verdadeiramente a ter alguns lucros. Ao ponto de pensarmos financiar alguns novos projetos, como compormos música para uma mini-série de televisão, na Irlanda, e fazermos um vídeo sobre o grupo.

Do “pub” para o auditório

P. – Não é costume as bandas irlandesas durarem tanto tempo. A regra é os músicos saltarem de um projeto para outro…
R. – Sim, mas se já conseguimos chegar tão longe, achamos que é possível continuar. Seria interessante verificar quantas das bandas hoje em atividade conseguirão sobreviver nos próximos anos… algumas delas fantásticas, como os Danú ou os Lúnasa. Mas vai ser difícil. Se conseguirem ultrapassar os primeiros cinco anos e gravarem pelo menos três álbuns, então assim, talvez consigam… Mas há quem fique cego ao tocar para grandes audiências. Depois há as contas para pagar. Não chega ser-se bom músico, também é preciso tratar dos negócios. Os Bothy Band ou os Planxty não ganharam um “penny” enquanto existiram! Por outro lado, quando se assina por uma grande editora, surgem pressões, como aconteceu com os Altan.
P. – É possível a uma banda como os Dervish sobreviver sem sair do circuito da Irlanda e entrar no circuito europeu?
R. – Não como uma banda. Pode fazer-se carreira mas apenas como músico de sessões. Uma banda não tem qualquer hipótese. Nós podemos dar 150 concertos por ano e apenas dois ou três são na Irlanda. Embora haja hoje mais dinheiro na Irlanda do que havia antes, escasseiam as salas de concertos e há uma falta de interesse. Para a maioria das pessoas não faz sentido pagar para ver uma banda tocar numa sala de concertos se pode ouvir esta música de graça num “pub”. Não veem a diferença entre o músico que toca à esquina da rua e a banda que atua num auditório – é tudo “deedle-didle-dee” [fonética aproximada…]. É uma pena, porque algumas dessas pessoas, que se “arriscam” a pagar bilhete para nos ver atuar numa sala, ficaram espantadas e deliciadas com o poder e a energia, com algo a que nunca assistiram antes.
P. – “Midsummer’s Night” é um álbum “clássico”. Não a preocupa que o grande público, para quem a música irlandesa não passa de uma moda, possa perder o interesse pelo grupo, até porque os Dervish não condescendem em alterações radicais da sonoridade?
R. – “Midsummer’s Night” foi o primeiro álbum que gravámos com a formação atual de sete músicos, o que aumentou o leque de opções dos arranjos. As possibilidades tornaram-se infinitas. Temos uma base de dados com o nome de cerca de 15 mil fãs, de todo o mundo. É claro que as pessoas que compram os nossos álbuns à espera de ouvir rock abandonarão de imediato o grupo. Mas se o nosso objetivo principal fosse agradar às grandes audiências nunca teríamos optado por tocar música tradicional! É verdade que existe hoje uma moda mas nós já cá estávamos antes dela aparecer e tudo aponta para que continuemos depois de desaparecer.