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12/04/2016

O Verão é... (em 50 discos)

Y 12|JULHO|2002
música|capa

o verão é...
em 50 discos

“summertime and the living is easy...”. E o Verão é… melancólico, preguiçoso; apetece a pândega e o surf. Queima. E a música? Diz-se que é para todas as estações. Mas pode ser como o Verão: melancólica, preguiçosa, tão veloz como uma prancha e tão ardente como o sol. Finalmente, como uma miragem, porque é no Verão que o Outono mostra os primeiros sinais. O Verão é... em 50 discos – e em todos os outros que está a ouvir

Nota: artigo coletivo em que FM assinava os seguintes textos:

THE B-52´S, 1979
The B-52´s

No pico da new wave, quando não havia tempo para o Verão, os B-52’s bombardearam a pop com os penteados “Empire State Building” e as micro-saias de duas cantoras com nome de boneca: Cindy e Kate. Isso e o facto de as canções serem desalmadamente pop, plastificadas e tresandarem àquele tipo de inconsciência adolescente que faz a imbecilidade parecer um sentimento épico bastaram para colorir as festas de Verão montadas nesse final de década em todas as garagens de todas as casas de todos os subúrbios.

ORANGES & LEMONS, 1989
XTC

Apelidaram-nos de excêntricos. Eles encolheram os ombros e meteram mãos à obra na edificação de um dos edifícios mais sólidos da pop. Andy Partridge é um daqueles cérebros com circunvalações a mais, um espírito barroco e um génio da melodia, capaz de nos prender a alma com o acorde perfeito. “Oranges & Lemons” não será um dos melhores do grupo, mas é o que a capa mais psicadélica, com laranjas e limões a fingir de sóis, bons para espremer no Verão. Citrinos funk, um naipe de metais lambuzados de limonada, gomos de arco-íris e aquele tipo de voz que vai perder o comboio que só os ingleses excêntricos têm. E tem “The loving” – garantia de um arrepio de prazer.

STAN GETZ & JOÃO GILBERTO, 1964
Stan Getz/João Gilberto

Quando proliferam cocktails estragados de eletrônica, música de dança e Brasil, sabe bem “the real thing”. “The girl from Ipanema”, “Desafinado” e “Corcovado”, os clássicos, luzem. Interpretados com a alegria magoada de alguém que se sente só mas sente prazer na solidão. “Ah, porque estou tão sozinho?/ Ah, porque tudo é tão triste?/ Ah, a beleza que existe.../ A beleza que não é só minha/ Que também passa sozinha...”. É isso a bossa-nova: a tristeza mais quente do mundo, melancolia do fim do Verão, sabendo-se que tudo recomeçará sempre de novo.

MEDDLE, 1971
Pink Floyd

Depois de a chuva Syd Barrett ter passado, a música dos Pink Floyd clareou. A frescura e a indolência estivais chegaram com “Meddle”. É tudo água neste disco, das longas gotas que pingam, ondulando no lago de uma alucinação, da “suite” “Echoes”, a canções lânguidas que tentam fazer crer que tomar banho na praia do LSD não requer a digestão feita nem boia salva-vidas. “A Pillow of winds”, “Seamus” e “San Tropez” (o ácido fez cair o “it”) são passeatas nas nuvens, um piquenique no Sol, a olhar muito devagar e muito longe cá para baixo...

PARIS MILONGA, 1981
Paolo Conte

Este Piemontês de 65 anos é um génio. O crooner de um filme de Fellini, com o canto grave de Tom Waits, o talento de arranjador de uma Carla Bley, a pose “cool” de um Bryan Ferry e o humor de um faz-tudo à deriva num novelo de “spaghetti” sentimental. Tangos, variedades de faca e alguidar, as piscinas mal esvaziadas de Inverno, praias de Cinzano, o champanhe entornado na ressaca. Conte canta tudo. “Paris Milonga” é o Verão que imaginamos quando caminhamos ébrios ao longo da marginal.


calor é com eles

Barry Adamson na câmara escura, Perry Blake na Califórnia, Springsteen na América rural, Sakamoto em idílio brasileiro. O Verão vai ser com eles.

Nota: texto assinado por F.M., R.M.P. e V.C.

Está cada vez mais pequeno, o mundo. Músicas e culturas, tecnologia e pessoas, símbolos e modas, tudo se cruza e imiscui na auto-estrada da informação, em viagens mais e mais rápidas. Baile de máscaras, orgia ou reunião de trabalho, a verdade é que as diferenças se esbatem neste convívio por vezes forçado.
            Não será o caso do japonês Ryuichi Sakamoto, turista da arte há muito habituado a viajar em primeira classe, com bilhete de ida e volta, no Expresso-Oriente. O seu próximo álbum, a editar a 12 de Agosto (Sony), recria a música do brasileiro Antonio Carlos Jobim (em quem, mais do que o compositor de bossa-nova, Sakamoto viu um parente espiritual dos impressionistas franceses, como Debussy e Chopin) em colaboração com Jacques e Paula Morelenbaum.
            Mas o que poderia passar por mais um disco de versões é algo mais profundo. “Casa”, como o nome indica, foi gravado na casa de Tom Jobim, no Rio, tendo o japonês tocado no próprio piano, “ainda manchado de whisky e queimado por pontas de cigarro”, do brasileiro. As janelas estiveram abertas durante as gravações, deixando entrar o som das ondas e o bruá da cidade. Talvez mesmo algo mais, admite, referindo-se ao pássaro que entrou e pousou no tampo do piano, a meio de uma canção, para entoar a sua melodia. “Foi Tom Jobim que entrou ali, encarnando na ave, a exprimir o seu prazer, cantando uma vez mais a sua música”.
            Se Sakamoto e a ave-Jobim são música branca, o novo trabalho de Barry Adamson, “The King of Nothing Hill” (2 de Setembro, Zona Música), é, como é hábito, um filme negro imaginário, como crimes, charadas e diabolismos vários, no que o autor define como um disco sobre as “ilusões do poder”, se não mesmo sobre a vida enquanto suprema ilusão. Não por acaso, o antigo teclista dos Magazine e dos Bad Seeds de Nick Cave, já compôs para David Lynch. “The King of Nothing Hill” abre com funk e termina com pop. Pelo meio, o recheio é o mais interessante, como o próprio admite – um ambientalismo escuro, feito de conotações indecifráveis e máquinas devoradoras de cabeças. Verão na câmara escura, com papões.
            E se um jardim irlandês se transformasse no Verão californiano? “Got to get out of this place tonight”, começa por cantar Perry Blake (“This Life”), e a seguir já está numa canção chamada “California”, onde não pode deixar de assinalar que está em terra de Beach Boys e onde confessa que “a new life is what we need (...) maybe go to California, where it‘s warm”. O jardim do irlandês fez-se “road to Hollywood”, a soul refresca um universo que já chegara à saturação, a voz dá-se ares de Marvin Gaye, os horizontes alargam-se. Mantém-se a melancolia, a estrutura repetitiva... Provavelmente Blake nem se mexeu muito: “California”, o álbum (Universal, Agosto/Setembro) é uma daquelas viagens em que não chega a sair do mesmo sítio; em que o movimento é apenas ilusão.
            Se Perry Blake nos leva até uma imaginária Califórnia, Bruce Springsteen transporta-nos até à América rural. Regressa com “The Rising” (Sony, 29 Julho), o primeiro disco gravado com a E Street Band desde 1984. Da ruralidade, para uma imensidão de paisagens da América: o terceiro disco dos Queens Of The Stone Age, “Aongs for the Deaf” (Universal, 26 de Agosto), é um meio termo entre o saturado álbum de estreia e “Rated R”, o espantoso segundo disco; dos Sparta e dos Mudhoney haverá, respetivamente, “Wiretap Scars” (Universal, Agosto) e “When we were translucent” (Música Alternativa, Agosto).
            Depois do murro no estômago que foi “Xtrmntr” (“Exterminator”), o grupo de desestabilizadores liderados por Bobby Gillespie voltará a assaltar quem escutar “Evil Heat”. É o sétimo álbum dos Primal Scream (Sony Music, 5 de Agosto). Antes dele, a 22 de Julho, sai o novo dos Public Enemy, “Revolverlution”. Segue a linha dos anteriores trabalhos de Chuck D, Flavor Flav e Professor Griff: política e “scratching”.
            Mas, se existe projeto conotado com a leveza do Verão é o dos norte-americanos Thievery Corporation. Vão regressar em época de calor: “The Richest Man In The Babylon” (Setembro, pela Última). Quem também vai estar de volta em Setembro é o músico e produtor de Filadélfia King Britt. O projeto que lidera chama-se King Kooba e o nome do álbum diz tudo: “Indian Summer” (Ananana).
            De todos os nomes da inglesa Ninja Tune, poucos têm o sentido de humor e a “joi de vivre” de Mr. Scruff. Se quer ficar bem disposto no Verão aponte na agenda: 9 de Setembro. É nesse dia que sai “Trouser Jazz” (Ananana). Para um Verão mais preguiçoso convém ouvir o hip-hop de DJ Vadim – o disco dai a 23 de Setembro, pela Ananana.
            Outro trabalho a ter em consideração: os Steroid Maximus, um dos vários projetos de J.G. Thirwell (Foetus, Clint Ruin, Wiseblood). Em “Ectopia” ele dá largas a sua veia de compositor imaginário de bandas sonoras de filmes negros, num registo próximo do de Barry Adamson – um pouco menos glamoroso.

23/01/2015

A grande arte dandy dos XTC



Y 5|OUTUBRO|2001
música|reedição

a grande arte dandy dos XTC

A reedição, em imaculadas miniaturizações, da discografia correspondente á primeira vida do grupo, volta a repor no imaginário pop das últimas duas décadas a grande arte “dandy” dos XTC.

XTC sabe a “ecastasy”. No ano em que os XTC se formaram, em 1976, ainda não tinham aparecido as pastilhas que dão cor aos olhos e asas aos pés. Mas estava certo. Quando, já no final da década, o punk conseguiu por fim arranjar espaço para introduzir a energia bruta e a boçalidade na então depauperada indústria da pop, os XTC mostraram que afinal era possível ser forte e inteligente sem ter que dar um pontapé no traseiro da tradição.
            Hoje os XTC são sinónimo de sofisticação levada aos limites do hedonismo e de arranjos que exigem do estúdio no mínimo 72 pistas de gravação, de forma a fazer valer os seus direitos. Mas nem sempre foi assim.
            A história da pop, ao contrário de todas as outras, repete-se. A dos XTC volta a ganhar honras de escuta, agora dignificada por um pacote de reedições, da responsabilidade da EMI Toshiba japonesa (distribuição EMI-VC), da sua discografia maioritariamente dos anos 70 e 80. Fabulosas reproduções miniatura cartonadas dos originais em vinilo de “White Music” (1978), “Go 2” (1978), “Drums and Wires” (1979), “Black Sea” (1980), “English Settlement” (1982), “Mummer” (1983, “The Big Express” (1984, “Skylarking” (1986), “Oranges and Lemons” (1989) e “Nonsuch” (1992).
            Corria ainda a gloriosa época do rock progressivo quando Andy Partridge, futuro líder venerado dos XTC, formou em Wiltshire, Inglaterra, em 1972, os Star Park (Rats Krap ao contrário). No ano seguinte o grupo, já como o novo elemento, Colin Moulding, alterou o nome para Helium Kids, sob a influência corrosiva do proto-punk de Detroit dos MC5 e do “camp” sanguinolento de Alice Cooper. Ninguém adivinharia que o futuro haveria de se chamar estilo, inteligência e sonho.
            Ainda hesitante entre mudar de novo de nome, para XTC ou The Dukes of Stratosphear, Partridge optou pelo mais curto, ainda que os segundos tenham chegado a gravar os obscuros e psicadélicos “25 O’Clock” e “Psonic Psunspots” (Partridge costumava dizer que tinha nascido com duas décadas de atraso – a sua pátria era o psicadelismo). O punk chegara. Mas para os XTC a fase do “noise” e da adrenalina gratuita já pertenciam ao passado. Não admira que o álbum de estreia, “White Music”, fosse recebido com exclamações de admiração, como reação à “coragem” demonstrada pelo grupo. A “coragem” estava no fator melódico. Nas canções cantaroláveis. Numa “britishness” de dandies diletantes que contrastava fortemente com o cinzentismo dos prosélitos do alfinete. Tudo isto se encontra em “White Music”, álbum que contribuiu para que o punk se passasse a chamar “new wave”. Mesmo assim, é o álbum mais energético dos XTC, quase tosco, em comparação com as sinfonias pop que estavam para vir.
            “Go 2” é mais minimalista e urbano, atravessado por refregas industriais. Por esta altura, e em consequência de uma digressão conjunta com o grupo americano, era costume apelidar os XTC de “Talking Heads ingleses”. Fazia sentido. Mas enquanto a banda de David Byrne sobrevoava a América desenhando o mapa das suas paranóias, os XTC optaram por flutuar de balão sobre a velha England, fascinados pelos seus prados, os homens de chapéu de coco com o “Times” debaixo do braço, e os telhados de Londres num dia de chuva.

            Sinfonias barrocas. Com “Drums and Wires” a metamorfose estava completa. Os XTC tinham-se tornado uma banda pop com engenho e arte para preencher as “charts” com canções de irresistível apelo, como “Making plans for Nigel” e o míssil melódico “Senses working overtime”. Os cinco sentidos faziam mesmo horas extraordinárias.
            “Black Sea” apresenta-se já como um objeto de luxo, fruto de uma relação intensa com o estúdio. Andy Partridge, apesar de excêntrico e de se vestir de forma ridícula, como os “mods” dos anos 60, ou de calções e boné de ciclista, é um perfeccionista que sempre preferiu a confeção laboratorial em estúdio do que expor-se à avaliação ululante dos espetáculos ao vivo. Como Ray Davies, dos Kinks, tornou-se o retratista dos tiques, dos lugares e das personagens de uma Inglaterra presa entre as rendas vitorianas, as chaminés das fábricas, as tragicomédias familiares que se ocultam atrás de paredes de tijolo, e uma aristocracia de sonâmbulos e “toilettes” à deriva entre Wimbledon, Brighton e Ascot.
            O duplo “English Settlement” e “Mummer” são obras-primas de pop mesclada de folk e fantasia. Chamam-lhes os “álbuns rurais” e as capas de ambos são de facto manchas de verde, mar, bosques e humidade. É necessário ouvi-los muitas vezes para se colher deles o maior número de emoções.
            O comboio retrocedeu ligeiramente na estação de “The Big Express”. Canções saídas de uma rotativa em andamento acelerado, tiveram pouco para se cuidar em frente ao espelho.
            Mas acordados pela Primavera de “Skylarking”, o narcisismo e o gosto pela arquitetura barroca renasceram em todo o seu esplendor. Cada canção é uma filigrana de melodias, ora alinhadas ora em contramão. Os arranjos, entre o chilrear de aves do paraíso, orquestras campestres e guitarras de lâmina afiada, têm a mão de um deus qualquer. Provavelmente Todd Rundgren, que se encarregou da produção, um dos génios e magos de estúdio mais menosprezados da pop artificial, autor da descomunal alucinação sónica que é “A Wizard/A True Star”. Tão alto voaram os XTC em “Skylarking” que alguns atreveram-se mesmo a inovar o nome sagrado dos Beatles…
            Atingido o cume segue-se a queda. É inevitável. Mas os XTC caíram devagar. Primeiro em “Oranges and Lemons”, o álbum funky, das canções longas e ritmos musculados. A seguir, as melodias arrevesadas de “Nonsuch”, que tombam como flocos de neve.
            Com a chegada do Inverno, os XTC retiraram-se para hibernar. Regressaram em 1999, mais pujantes do que nunca, para orbitarem em torno de Vénus e morderem a maçã, na “continuing story”, “Apple Venus”. Mas essa é já outra história, com novos cambiantes. Comprovativa de que a história que Andy Partridge tem para contar, esteja ou não longe do seu epílogo, terá sempre um final feliz.


06/08/2014

XTC - Wasp Star (Apple Venus, Volume 2)

7 de Julho 2000

O ferrão da estrela

XTC
Wasp Star (Apple Venus, Volume 2) (8/10)
Cooking Vinyl, distri. Megamúsica

            Quando se fala em canções pop onde a sofisticação se casa com a tradição, a modernidade com o experimentalismo e a excentricidade com a qualidade, o nome dos XTC acorre imediatamente ao pensamento. Com inteira justiça. Desde que em 1978, em plena ressaca punk, lançou o clássico “White Music”, nunca mais a banda hoje liderada pela dupla Andy Partridge e Colin Moulding, sempre que em período de atividade, deixou de liderar o grupo restrito das bandas que ultrapassaram três décadas de atividade. Herdeiros da veia melódica dos Beatles (há mesmo em “Wasp Star” um tema, “Wounded horse”, em que John Lennon parece ter ressuscitado…) e dos Kinks, passaram pelo psicadelismo, o funk branco (o que levou a que fossem apelidados de Talking Heads britânicos) e a pop barroca orquestrada segundo os cânones lavrados por Phil Spector, levada às últimas consequências, o ano passado, no anterior e primeiro volume de “Apple Venus”. Neste álbum, aclamado pela crítica como um dos melhores do ano, os XTC refinaram tanto quanto era possível a produção e os arranjos, assinando um dos álbuns clássicos da pop dos anos 90.
            A continuação musical deste planeta em forma de maçã, pelo contrário, está a ser mal recebida pela mesma crítica, com os elogios a serem substituídos por um sem-número de reservas, apontando-se como principal defeito a linearidade e menor empenho posto nos arranjos. A escuta atenta de “Wasp Star”, “a estrela-vespa”, confirma as suspeitas desde logo levantadas pela gravura da capa – onde o tal planeta-maçã aparece mergulhado na obscuridade, apenas deixando antever em volta uma auréola de luz, como num eclipse – de que o álbum é o negativo do anterior; de que a luminosidade excessiva se apagou, para deixar ver outra coisa que em “Apple Venus, Volume 1”, de tão ofuscada pela luz, dificilmente podia ser apreciada em detalhe. Essa “outra coisa” é afinal o essencial em toda a obra dos XTC e em particular neste novo álbum: a arquitetura das canções, a composição da melodia e do ritmo nas suas componentes mais diretas, ao invés do que acontecia em “Apple Venus, Volume 1”, onde a sumptuosidade dos arranjos tudo ofuscava com a sua imponência.
            “Wasp Star” “reduz” o suporte instrumental ao clássico formato guitarra, baixo, bateria e alguns teclados, estando nalguns casos mais próximo do rock que da pop, se é que esta separação faz ainda algum sentido. Sendo uma continuação, “Wasp Star” é acima de tudo como uma corpo ricamente vestido ao qual tivessem sido retiradas todas as roupagens supérfluas, para deixar ver a beleza das formas, despojadas de todo o artifício. Como Andy e Colin já tinham anunciado por ocasião da edição do anterior volume, o novo álbum acolhe com redobrado ânimo a energia das guitarras elétricas e o resultado é mais uma coleção de grandes canções que picam como o ferrão de uma vespa: “Playground”, “Stupidly happy” (alguma crítica pegou na deixa, usando o título para ironizar sobre o grupo), “My brown guitar”, a fabulosa “Boarded up”, “We’re all light”, “Standing in for Joe”, “You and the clouds will still be beautiful” (um regresso à power pop dos primórdios), “The Wheel and the maypole” que, de uma vez por todas, inscreve nas enciclopédias o termo “pop de câmara”.
            Se “Apple Venus, Volume 1” era o “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos XTC, “Wasp Star é o seu álbum branco. E também neste caso o tempo fará justiça às suas qualidades. Para ouvir até se gastar a rodela do CD. Ou até os XTC regressarem com um novo golpe de rins e mais uma caixa de canções com o rótulo “perfeição”.

12/12/2010

XTC - Apple Venus, Volume One

Sons

30 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK

O que se esconde na pena de um pavão

Libertos finalmente da Virgin, editor para a qual gravavam há mais de 20 anos mas com a qual entraram em diferendo depois da edição de “Nonsuch”, em 1992, os XTC regressaram para se cobrir de glória. “Apple Venus, Volume One” é o melhor álbum da banda, agora reduzida ao duo formado por Andy Partridge e Colin Moulding (embora Dave Gregory ainda tivesse participado nas gravações), desde “Skylarking”, produzido por Todd Rundgren e considerado o seu trabalho mais sofisticado.
Para os ouvidos é um manjar dos deuses. Andy Partridge assina aqui o seu diploma de herdeiro legítimo dos mestres sagrados da pop, enquanto arte de encantamento supremo: Paul McCartney, Ray Davies e Brian Wilson. Equipado com uma orquestra e com toda a artilharia sónica do estúdio e, sobretudo, a atravessar uma fase de inspiração como já não se via desde os magistrais “English Settlement” e “Mummer”, Partridge montou o seu palácio de ilusões com o requinte e o engenho de um artista renascentista, fazendo com que cada canção soe como uma entidade completa, carregada de cores e de sabores.
O estúdio é usado como uma paleta, ou como um laboratório do alquimista, com o objectivo de descobrir e concretizar a quinta-essência da pop. Harmonias vocais intricadas e esculpidas até ao mais ínfimo detalhe, a par de orquestrações sumptuosas (que podem ir do pastoril ao épico, numa mesma canção) e de uma criatividade constante na procura de arranjos originais, tornam “Apple Venus, Volume One” numa catedral que se começa a admirar pelo lado de fora para, progressivamente, se deixar ver pelo interior, enquanto organização espacial e temporal de um entrançado de emoções e ambiguidades semânticas que a cada audição se vão organizando subjectivamente num “puzzle” de luxúria.
A quantidade de elementos e memórias musicais com os quais Andy Partridge vai montando os seus quadros atinge, nalguns casos, a esquizofrenia iluminada, como em “Greenman”, onde o sinfónico, o psicadelismo, a complexidade harmónica e o barroco das ornamentações se unem num corpo de medusa, um pouco à maneira do que fizeram, nos seus tempos áureos, os Gentle Giant. Mas, logo a seguir, a simplicidade de uma melodia que parece ter estado connosco desde sempre, como “Your dictionary”, irrompe com a força de uma evidência. Ou de um raio de luz. “Fruit nut” faz a demonstração de que os anos 60 não tiveram o exclusivo da criatividade em estado puro, aquela que dispensa todos os artifícios menos os da imaginação, para criar raízes e voar.
Não faz sentido perguntar o que há de novo na música dos XTC. Trata-se tão-só de uma nova forma de manipulação dos sentimentos, do reencontro do classicismo e da confirmação de uma forma única de dispor os ingredientes que fazem de uma canção pop algo de especial e indefinível. Não por acaso, em entrevista recente ao PÚBLICO, Colin Moulding referia-se, a propósito da construção de “Apple Venus, Volume One”, ao facto de as canções parecerem, em alguns casos, ter saído de uma grande produção teatral, ou de um musical dos tempos de ouro de Hollywood. Canções como “I can’t own her” nascem, de facto, com a vocação do palco, com enredos intricados, mas onde a acção se desenrola, como num passe de mágica, através dos sons.
Como quase todos os álbuns dos XTC, “Apple Venus” não se revela numa primeira audição. Exige tempo e atenção. A recompensa vale, porém, o esforço. Os XTC convidam-nos para a descoberta das formas que se escondem, como segredos, no âmago de outras formas. Como a vulva, a maçã ou o olho que são possíveis de vislumbrar incrustados no centro de uma pena de pavão.

XTC
Apple Venus, Volume One (9)
Cooking Vinyl, distri. Megamúsica

08/12/2010

Licor de maçã [XTC]

Sons

16 de Abril 1999

XTC gravam com orquestra

Licor de maçã


“Apple Venus, Volume One” é o álbum da luxúria dos XTC. A pena de um pavão onde se esconde a imagem da vulva de uma mulher. No planeta Vénus, Andy Partridge, herdeiro dos segredos pop de Paul McCartney e Ray Davies, faz escorrer da orquestra licor de maçã. Colin Moulding, o seu parceiro, falou ao PÚBLICO dos caminhos que levaram à feitura daquele que é o melhor álbum dos XTC desde “Skylarking”.

Foi preciso esperar sete anos para os XTC ultrapassarem o problema legal que levou à ruptura da banda com a Virgin. Tempo aproveitado para a maturação de uma galáxia de canções inglesas até ao caroço e tão suculentas como um pomar de melodias com raízes nos anos 60.
PÚBLICO – “Apple Venus” é um álbum magnífico, um dos melhores de sempre da banda, sem dúvida o melhor desde “Skylarking”. Concorda?
R. – Toda a gente diz isso. É um álbum que flui como um todo, algo que nem sempre conseguimos fazer antes. É, sem dúvida, o trabalho mais coerente desde “Skylarking”.
P. – Nota-se o prazer que tiveram em tirar o máximo partido das possibilidades oferecidas pelo estúdio. O prazer de manusear um brinquedo?
R. – Prefiro pensar que decorámos as canções apenas com aquilo de que elas precisavam, nada mais do que cada uma delas pudesse aguentar. Tratou-se de encontrar o vestuário certo para cada letra específica.
P. – Correm rumores de que “Apple Venus” esteve mesmo para ser o primeiro álbum a solo de Andy Partridge. É verdade?
R. – Quem disse isso foi Dave Gregory, o nosso ex-teclista, mas ele não tem razão. O álbum é o resultado de um esforço conjunto. Na realidade, o Dave não gostou muito da ideia de fazer este álbum, nem sequer queria gravá-lo. Ele até toca no disco, como é que podia ser um disco a solo do Andy? Penso que ele disse isso em desespero.
P. – Porquê desespero?
R. – Porque se sentia infeliz e tinha que o demonstrar. Ele nunca esteve de acordo em fazer um álbum com orquestra, preferia usar mais guitarras eléctricas, esse tipo de sonoridade. Mas se fizéssemos isso, estaríamos a repetir algo que já tínhamos feito em “Nonsuch”.
P. – Ao longo de todos estes anos, houve momentos de tensão, mesmo de alguma rivalidade, entre você e Andy. Andy foi sempre uma espécie de Lennon e McCartney ao mesmo tempo, enquanto você representou o papel de George Harrison, com contribuições muito mais esporádicas para o som do grupo. Sente-se confortável nessa posição?
R. – Andy escreve mais do que eu. Não se trata de uma divisão de 50 por cento para cada um. Digamos que eu fico com 25 por cento para mim...
P. – Consta que ele tinha na carteira 40 canções para este álbum e você, seis...
R. – Os números não são bem esses... Há aí um certo exagero da parte dele. É verdade que ele tinha mais canções do que eu, mas a verdade é que elas são todas as boas. E é ele quem toma as decisões. Mas, quando é preciso, também imponho os meus pontos de vista.
P. – A questão que se pode pôr é se as próprias canções de Andy seriam as mesmas sem o seu “input”...
R. – Sim, gosto de pensar que assim acontece. E, provavelmente, ele também influencia a minha escrita. No estúdio, pedimos sempre a opinião do outro. Ele pergunta-me se as suas canções precisam de mais alguma coisa. Há um ponto em que só a imaginação de uma pessoa não chega para fazer avançar uma canção. Temos funcionado bem desta maneira nos últimos 20 anos, não vejo razão para mudarmos.
P. – Antes de “Apple Venus”, editaram uma caixa com gravações ao vivo antigas para a BBC. Não acha que foi uma operação algo desnecessária, que não veio trazer nada de novo ao que já se conhecia da banda?
R. – A questão é que essas gravações para a BBC já estavam feitas há muito tempo e haveria sempre alguém para as explorar. Se não fôssemos nós, outra pessoa qualquer o faria, foi assim que nos foi apresentado o assunto. Corríamos o perigo de alguém comprar a licença de edição dessas gravações e editá-las de qualquer maneira, ou de uma maneira com a qual poderíamos não concordar. Assim, tomámos nós a iniciativa e apresentámos nós próprios esse material. Foi uma questão de controlo.
P. – Entre “Nonsuch” e o novo álbum há um intervalo de sete anos. Foi preciso todo este tempo para encontrarem inspiração?
R. – A questão é que, depois de 20 anos a gravarmos para a Virgin, não queríamos voltar a gravar para esta editora. É um assunto já batido, o contrato, que achamos injusto, que existia entre nós e a Virgin. Não quisemos desperdiçar, ou não ter qualquer compensação monetária, o material que tínhamos composto. Por isso estivemos todo este tempo sem trabalhar para o grupo, embora nos envolvêssemos em projectos com outras pessoas. No meu caso trabalhei com uma banda francesa, L’Affair Louie Triel [NR: Ou assim nos soou o nome, através do telefone...]. Também toquei e produzi um tema de um álbum da mulher de T-Bone Burnett, Sam Philips, “Martinis & Bikinis”.
P. – Além dos Beatles, evidentemente, os Kinks sobrevoam como uma nuvem “Apple & Venus”. “I’d like that”, por exemplo, é um tema tão marcado por Ray Davies que até esconde na letra uma tal “Victoria”...
R. – Sim, Ray Davies anda sempre por aí... É, sem dúvida, o artista que mais influencia o Andy. Mas há também os Beach Boys, Burt Bacharach e autores de musicais como a dupla Rodgers & Hammerstein. Uma das “críticas”, ou opiniões, que mais temos ouvido nos últimos tempos é que muitas das canções do álbum parecem ter sido retiradas de peças musicais. A mim isso agrada-me. Tanto eu como Andy adoramos bandas sonoras. É um género musical que está hoje mais ou menos morto e que gostaríamos de poder reavivar. Hoje em dia o que se faz é enfiar à força numa banda sonora um êxito pop qualquer. Não se escreve nada com qualidade de propósito para o filme. Gostaríamos de compor um dia algo tão bom como “What’s New, Pussycat”, por exemplo.
P. – “Apple Venus” é o “Sgt. Pepper’s” dos XTC?
R. – Não sei. Só sei que é um dos meus discos preferidos dos XTC. E a resposta tem sido boa em toda a parte. As pessoas parecem gostar. O facto de usarmos uma orquestra também afastou algumas pessoas. O facto de haver texturas orquestrais em vez de texturas mais tradicionais, de guitarra. Mas continuam a ser, apenas, canções pop...
P. – “Knights in shining karma” é um tema misterioso, dos mais misteriosos do disco. Fala de quê?
R. – Isso também eu gostaria de saber! (risos). Não fui eu que escrevi o tema, por isso é difícil avaliá-lo.
P. – Já houve quem dissesse que muita gente acha a música dos XTC brilhante, mas não faz a mínima ideia de que é que tratam as letras. Acha isso?
R. – No meu caso, penso que escrevo de uma forma bastante literal. Uma escrita muito clássica. Gosto de coisas directas, de estabelecer uma relação directa com os ouvintes. As pessoas vivem as canções, por isso gosto de escrever sobre sentimentos simples com que as pessoas se possam relacionar. Uma das minhas canções deste álbum, “Frivolous tonight”, provoca esse efeito, torna o coração de quem a ouve leve. Já ninguém quer escrever este tipo de canções, como “Big spender”, de Shirley Bassey, canções ligeiras. As novas bandas, especialmente as mais novas, escrevem todas sobre assuntos escuros e pesados, pensando que é a única maneira de serem levados a sério e isso não é verdade. A escrita de Andy é mais complexa. Tem sentidos ocultos, há sempre um lado que não é revelado e que exige um trabalho difícil de decifração. “Knights in shining karma” é um desses temas. Não sei o que significa mas sei que é para ser ouvido em momentos de solidão.
P. – Por falar em letras, é a primeira vez, se não estou em erro, que não aparecem impressas na capa, não é?
R. – Boa pergunta! Pessoalmente, preferia que as letras aparecessem, mas o Andy insistiu que, desta vez, não. Não percebi bem porquê, devo confessar. Um livrete não ficaria nada mal. O Andy achou que as pessoas deveriam ficar mais entregues a si próprias. Mas se houver pânico e gritos a pedir ajuda, com certeza que as incluiremos numa próxima impressão [risos].
P. – Quem teve a ideia para a capa?
R. – Foi tirada de um livro de arte editado nos anos 50, onde aparecia esta figura da pena de um pavão, fotografada em folha de alumínio muito brilhante. Visualmente, resulta muito forte. Se olhar bem para o centro da pena, há-de reparar numa forma, uma sombra, muito ambígua, que tanto pode ser interpretada como uma maçã como uma vulva de uma mulher, daí o título “Apple Venus”. Uma conotação sexual. Muita da música do disco está associada a esta ambiguidade.
P. – Presumo que, a seguir, sairá um “Apple Venus, Volume Two”?
R. – Incluímos este grupo de canções num volume 1 porque era este o som que nos apetecia fazer, deixando de lado as guitarras eléctricas. Mas a verdade é que ficaram de fora canções com guitarra eléctrica e vamos ter de as gravar. Por isso vamos começar a trabalhar, daqui a alguns meses, num volume 2, que será um álbum cheio de material à base de guitarra, a sair, talvez, em Fevereiro do próximo ano.

25/09/2008

XTC - Nonsuch

Pop Rock

29 ABRIL 1992

MELODIAS DE SEMPRE

XTC
Nonsuch
LP/ CD Virgin, distri. Edisom

Aconteceu o mesmo com “Skylarking” e “Oranges and lemons”, os dois trabalhos dos XTC anteriores a este “Nonsuch”. À primeira audição as canções parecem vulgares, vagamente conhecidas de outras ocasiões, decalques e retalhos de refrões anteriores. Mas fica sempre qualquer coisa, o apelo de melodias irressistíveis que invariavelmente levam a que se ouça o álbum outra e outra vez. Como por magia, a cada audição as transfiguram-se, vão revelando insuspeitadas riquezas, começam a possuir-nos e por fim já não as conseguimos largar.
Na tradição dos grandes excêntricos britânicos com Syd Barrett e Kevin Ayers, Andy Partridge, cérebro e principal estratega dos XTC, observa a realidade através de um caleidoscópio. Cada canção de “Nonsuch” é um mundo à parte, com regras próprias ditadas pela mente de um lunático apaixonado pelos anos 60, por um refrão perfeito e pelos malabarismos que o humor “nonsense” autoriza.
Música de imagens e de pequenos arcaísmos, desde logo evidentes nas pequenas gravuras alusivas a cada canção e no “Map of Surrey”, datado de 1611, da autoria de John Speed, representado na capa. Andy Partridge, Colin Moulding e Dave Gregory procedem como artesãos de antiguidades douradas, na minúcia de arranjos em que as surpresas instrumentais acontecem a cada instante.
As técnicas de composição não são menos inusitadas: “The ballad of Peter Pumpkinhead”, onde alguns viram sucessivamente o retrato de John Lennon, John Kennedy e Jesus Cristo, narra na verdade as várias fases de crescimento de uma abóbora; “Books are burning” versa a polémica dos “Versos satânicos” de Salman Rushdie e foi composta a partir da estrutura de “I get around” dos Beach Boys; “Omnibus” surgiu na sequência de uma gravação de “See Emily Play”, de Syd Barrett, tocada em velocidade no estúdio; “Wrapped in grey” é, segundo Partridge, um cruzamento de Burt Bacharah com Brian Wilson, ou seja Burt Wilson; “Crocodile” é “pop barulhenta sobre o ciúme”; em “The smartest monkeys” acentua-se o “lado fortemente nasal da coisa”. Nunca o termo “composição” fez tanto sentido. Quanto a si próprio, Andy Partridge define-se como um híbrido de Walt Disney com Benito Mussolini…
“Nonsuch” é composto por 17 canções que são outros tantos manifestos da arte do pormenor. Escritos segundo directivas como “toque como se estivesse à beira de um abismo” ou “toque como se estivesse a andar de bicicleta na Bélgica”, um pouco à maneira de Brian Eno e das suas estratégias oblíquas. Uma inflexão da voz, um desvio súbito na progressão melódica, a eclosão de um apontamento instrumental aparentemente despropositado remetem para álbuns de Eno como “Taking Tiger Mountain (by strategy)” ou “Another green World” e constituem o próprio cerne de toda a estratégia dos XTC, capaz de tornar uma melodia que à superfície pode parecer demasiado simples e familiar numa pequena sinfonia. (8)

03/06/2008

"The XTC Files" [XTC]

Pop Rock

2 de Outubro de 1996

Colin Moulding fala da nova colectânea do grupo

“THE XTC FILES”

São os “singles”, alinhados por ordem cronológica, de “Fossil Fuel, The XTC singles, 1977-92”, como poderiam ser outras gemas entranhadas na extensa galeria Pop, a um tempo límpida e complexa, dos XTC, descendentes excêntricos dos Beatles e dos Kinks, artesãos para quem construir três minutos de canção é uma tarefa sagrada.

Um fóssil, uma amobite em relevo na tampa do compacto, faz de sinal e de escudo, na despedida dos XTC da Virgin, editora onde gravaram a maior parte da sua discografia. “Fossil Fuel,the XTC singles, 1977-92”, um entre os vários “o melhor de” possíveis dos XTC, chama a atenção para o que já deveria ser uma evidência: os XTC são a melhor banda pop inglesa. E a mais clássica. E a mais incompreendida. Colin Moulding, baixista e compositor do grupo, em entrevista ao PÚBLICO, defendeu a sua dama.
PÚBLICO – Faz quatro anos que saiu “Nonsuch”. “Fossil Fuel” é uma tentativa de manter vivo, na memória, o nome do grupo?
COLIN MOULDING – O que se passa é que estamos prestes a acabar com a nossa velha companhia, a EMI-Virgin. O contrato especificava que podiam editar uma colectânea quando saíssemos.
P. – Já há planos para um álbum novo de estúdio?
R. – Sim, mas não queremos gravar mais nenhum disco na Virgin. De momento, estamos à procura de uma nova editora. Logo que assinemos um novo contrato, vamos começar a gravar. O que provavelmente acontecerá na Primavera do próximo ano. Para já, não temos a editora, nem sequer um título, mas decerto que já temos as canções.
P. – O que fizeram neste intervalo de quatro anos? Tem sido um longo silêncio, não?
R. – De facto, mas não inteiramente por nossa culpa. Houve problemas legais que não conseguimos resolver e que escaparam ao nosso controlo. Mas, individualmente, trabalhámos em sessões e em duas ou três produções. Eu trabalhei com uma banda francesa, L’Affair Lois Trio, Dave Gregory trabalhou com Mark Owen, dos Take That, e Andy Partridge produziu o álbum de Martin Newell [“The Greatest Living Englishman”], Além disso, foi editado, na América, um álbum em nossa homenagem, com Joe Jackson e Sarah McLaughlan, entre outros artistas.
P. – Quer dizer que os XTC já são história?...
R. – Espero bem que não! O novo álbum mostrará uma mudança radical no nosso estilo que irá surpreender as pessoas.
P. – Pensa que o melhor dos XTC está verdadeiramente nos “singles”?
R. – Talvez não. Não é bem um “best of” mas apenas uma colecção de “singles”, que são aquilo que o público em geral gosta mais de ouvir. De facto, não é o nosso melhor material…
P. – A maior parte da crítica musical, em que não nos incluímos, desvalorizou álbuns como “English Settlement” ou “Mummer”, ou seja, a fase posterior ao período inicial “new wave” do grupo. A revista “Q” classificou mesmo esses trabalhos como “irritantes” e “sem verdadeiras canções”. Esse tipo de apreciações não o incomodaram?
R. – É aborrecido, sim, mas o que é preciso ter em mente é a maneira como a banda evoluiu ao longo do tempo. Em geral, as pessoas que gostam dos nossos primeiros álbuns não gostam dos posteriores e vice-versa. Perdem-se fãs e ganham-se outros.
P. – Mas não será, também, porque a música do grupo, sobretudo a partir de “Black Sea”, se tornou mais difícil, não se deixando “apanhar” às primeiras audições?
R. – Sim, mas a melhor música deveria ser sempre assim, não é verdade? Ter que se ouvir uma série de vezes para ser apreciada em pleno. Não consigo imaginar o grupo a fazer outra vez um álbum como “White Music. Fizemos esses discos quando tínhamos vinte e poucos anos. Vinte anos depois, não é mais possível fazer discos assim, se quisermos continuar a ser nós próprios.
P. – Qual é, para si, o melhor álbum do grupo?
R. – Escolheria todo o período compreendido entre “Black Sea” e “Skylarking” [que abrange os menosprezados “English Settlement” e “Mummer”, duas peças fulcrais na obra do grupo].

Frutos do psicadelismo

P. – Os Talking Heads, relativamente à primeira fase, e os Beatles e os Kinks sempre foram citados como influências. Concorda?
R. – Os Talking Heads não! Se reparar, “White Music” tem mais a ver com banda desenhada de ficção científica. Os Beatles, sim, mais tarde, sobretudo em “Black Sea”. Assim como há várias canções nossas onde se sente a influência de Ray Davies e dos Kinks, como “The everyday story of small-town”, de “The Big Express”, ou “Respectable Street”, de “Black Sea”.
P. – Como em Ray Davies e nos Kinks, a música dos XTC caracteriza-se por uma acentuada “Englishness”. É um aspecto trabalhado ou uma inclinação natural?
R. – Essa característica existia, sim, mas tenho que reconhecer que, no último par de álbuns, o som se tornou mais “americano”, sobretudo em “Oranges and Lemons”. Essa foi, aliás, uma das críticas que as tais revistas, como a “Q”, nos fizeram. Mas sabe como é, recebe-se influências de todo o lado…
P. – “Oranges and Lemons” foi igualmente conotado com o revivalismo do psicadelismo…
R. – Foi como que um derradeiro vestígio do projecto The Dukes of Stratosphear, que era uma “pastiche” das bandas psicadélicas.
P. – Qual é o papel desempenhado nos XTC por cada um dos elementos do grupo? São todos tão excêntricos como Andy Partridge aparenta?
R. – O que posso dizer é que, quando nos juntamos os três, damos origem a uma espécie de híbrido muito estranho. Pessoalmente, vejo-me mais como simples baixista do que como compositor.
P. – Andy Partridge descreveu-se uma vez, a propósito da sua atitude no estúdio, como um cruzamento de Walt Disney com Benito Mussolini, um ditador benevolente. É mesmo assim?
R. – [risos] Não estou a ver a ligação com Walt Disney… Eu diria antes o cruzamento de Benito Mussolini com o seu amigo Adolfo…
P. – Dave Mattacks toca bateria em “Nonsuch”. Entrou em definitivo para o grupo ou preferem trabalhar sempre com bateristas convidados?
R. – Dave é um excelente baterista e gostaria que ele participasse no próximo álbum, mas não nos podemos dar a esse luxo. Penso que ele não gostaria de pertencer ao grupo, numa base permanente, está sempre ocupado com outros projectos.
P. – Quem teve a ideia de pôr o relevo com o fóssil da amobite a enfeitar a caixa do compacto?
R. – Foi Andy Partridge. Algum do material do disco é tão velho que quase se fossilizou – uma relação de fósseis. Basicamente, é o mesmo conceito de “Relics”, dos Pink Floyd.

02/06/2008

XTC - Fossil Fuel: The XTC Singles, 1977-92

Pop Rock

25 de Setembro de 1996
reedições poprock

Isto é pop!

XTC (8)
Fossil Fuel: The XTC Singles, 1977-92
2xCD Virgin, distri. EMI-VC

Perdidos no meio da confusão da pop britânica, em guerras para decidir se os melhores são os Pulp ou os Oasis, ou uns rapazotes chamados Babylon Zoo, os ingleses têm andado distraídos, não reparando que desde há anos a melhor e mais inteligente pop tem nascido de uma banda que decidiram ostracizar desde que em “Skylarking” optaram por lançar a sua música, como diria Julian Cope, “to-the-moooooon!”. A crítica foi unânime, os XTC eram bons quando eram crus. Para sermos precisos e preconceituosos, até “Black Sea”, álbum onde disseram adeus à melodia directa e à unidireccionalidade do “punk” e da “new wave”. Certo, já nessa altura os XTC pregavam outras mensagens e outros coloridos. Os primeiros ‘singles’, “Science friction”, “Statue of liberty” e “This is pop”, reclamam ainda estéticas idênticas, respectivamente, às dos Devo, Elvis Costello e Talking Heads (com quem foram frequentemente comparados). A partir daí, porém, seguiriam um caminho só deles, levando embora no bornal os ensinamentos dos Beatles – e dos Kinks – na prossecução de uma “englishness” genuína.
O estigma do pretensiosismo colou-se-lhes à pele a partir dessa altura, na “fuga” que empreenderam em direcção a um psicadelismo que devia menos ao LSD do que a Alice no País das Maravilhas, em álbuns como “English Settlement” e “Mummer” (que a “Q”, por exemplo, considera “irritante” e “sem verdadeiras canções”), subvalorizados pela história, que os pôs no caixote do lixo das bugigangas perigosamente próximas do “progressivo”. Por acaso serão talvez os dois melhores álbuns de sempre do grupo e que assinalariam o ponto de não retorno de uma música que de “Skylarking” até “Nonsuch”, passando pelo duplo “Oranges & lemons”, se rodearia de um manto de impenetrabilidade cada vez maior. Qualquer destes álbuns não se compadece com a voracidade do momento, necessitando de outro tipo de atitude até se tornar legível a sua organicidade e a riqueza das suas entranhas. À míngua de tempo e com o brilho ofuscante de novos estímulos, colou-se nos XTC o rótulo de “banda de ‘singles’”, como quem diz que deveriam ter deixado de gravar álbuns. Nada mais do que preconceitos. Se é verdade que os seus 45 rotações (semeados, na totalidade, ao longo dos álbuns) sempre foram pródigos em refrescar o mercado com pequenas peças pop de um barroquismo e refinamento que de disco para disco se acentuavam, tal deveria apenas servir de indicador de que “o melhor” do grupo sempre esteve guardado nos longas-durações.
Aconteceu que a preguiça terá impedido muita gente de penetrar além da porta de entrada. “Fossil Fuel”, embalado numa caixa com o molde, em alto-relevo, de uma amonite, não deixa, por todas estas razões, de ser o documento ideal para quem passou ao lado da discografia de álbuns do grupo, na mesma medida em que apresenta uma colecção com um número impressionante de algumas das melhores e, porque não dizê-lo, excêntricas canções alguma vez nascidas do outro lado da Mancha.