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02/01/2017

Xutos e Violinos

TERÇA-FEIRA, 7 SETEMBRO 1999 cultura

Banda encerra Festa do “Avante!”

Xutos e Violinos

MILHARES de jovens que em Agosto militaram nos festivais da Zambujeira, Paredes de Coura e Vilar de Mouros acorreram no passado domingo ao Festival do Avante! para assistir ao comício do Partido Comunista Português e às actuações de José Casanova, Margarida Botelho e do cabeça de cartaz Carlos Carvalhas. Seria assim nos sonhos da organização, num mundo perfeito argamassado na dialéctica materialista. Na realidade, a juventude reuniu-se, sim, mas para ouvir os seus heróis, que não são nem Marx nem Lenine, mas sim os Xutos e Pontapés, que actuaram a seguir. E se no concerto-comício a música não diferiu muito do habitual, já a prestação do quarteto que está a comemorar vinte anos de carreira e recentemente lançou "Dados Viciados" teve a novidade do acompanhamento, em dois temas, do quarteto de cordas Os Corvos.
            O palco 25 de Abril, encimado por um monstruoso sistema de luzes, recebeu em apoteose os Xutos e Pontapés, com a multidão a agitar bandeiras e de braços em cruz (ritual do grupo), numa feliz adaptação da foice e martelo comunistas que caiu bem neste ano em que se celebra o 25º aniversário do 25 de Abril. Aliás, imediatamente antes dos Xutos arrancarem, as colunas debitaram, por esta ordem, a música de "Grândola, vila morena", o Hino das Forças Armadas e "O Povo unido nunca mais será vencido". Os jovens compreenderam a mensagem e dançaram, alguns ensaiando mesmo uns passos de "mosh" (dança típica dos espectáculos de rock que consiste em saltar para todos os lados descontroladamente, tentando derrubar quem se encontra próximo num raio de cinco metros).
            Estava montado o cenário ideal para os Xutos fazerem explodir a sua revolução, até porque ao redor de todo o recinto não faltavam slogans, afixados um pouco por todo o lado em letras gordas: "CDU - Para que não fique tudo na mesma", "CDU - A Esquerda que não imita a Direita", o mais críptico "Não deixe que eles ponham as mãos em tudo" ou a máxima, que poderia ser de Serafim Saudade, "Sim à paz! Não à guerra! Não à NATO!".
            Por fim os Xutos começaram a tocar, iluminados por jorros de fogo-de-artifício: "Esquadrão da morte", "Não sou o único", "Dantes" (um dos vários temas com a presença, na guitarra, de Ronnie Champagne, produtor de "Dados Viciados"), "Jogo do empurra", "Enquanto a noite cai", "Homem do leme", "Esta cidade", "Maria" e tantos outros que ajudaram a criar a reputação daquele que será, porventura, o mais emblemático grupo de rock português (que nos perdoem os UHF...) em actividade.
            Os Corvos, um quarteto de cordas que, para já, se especializou em versões do reportório dos Xutos, acrescentaram os seus violinos, viola e violoncelo aos temas "Quando eu morrer" e "Circo de Feras", enfiando um interlúdio instrumental pelo meio. Os primeiros mostraram a faceta escondida - a música progressiva - da banda, que soou como os Curved Air. Mas quando os Corvos, decerto discípulos de Michael Nyman, executaram sozinhos uma sequência instrumental mais lenta de música de câmara, o público manifestou o seu desagrado com assobios e cânticos futebolísticos.
            Ultrapassado, porém, este momento de música erudita, Tim, Zé Pedro, Kalú e João Cabeleira (e numa quantidade de temas, também Gui, no saxofone) voltaram a desenrolar a sua lista interminável de hinos suburbanos e a fazer vibrar a imensa multidão de fãs. "Vida malvada" foi dedicada, "com o coração, o fígado e os intestinos", a todas as bandas que já tocaram na Festa do Avante. O período de "encores", estendido por quase meia hora, deu direito a fogo-preso, com os corações e cruzes, ícones do grupo, desenhados a chamas, a rematarem um concerto ao nível dos que o grupo nos habituou, com as doses certas de energia, empenhamento e ideologia. Alguns elementos do público, facção revisionista, não resistiram e voltaram a gritar o já mítico apelo "Ó Elsa!" que sobrevoou há tempos inúmeros festivais em Portugal. No fundo, está certo – A Festa do Avante é hoje um dos últimos redutos da tradição.

12/12/2016

Xutos com XX anos

QUARTA-FEIRA, 13 JANEIRO 1999 destaque
DESTAQUE

Xutos com XX anos

De feios, porcos e maus os Xutos & Pontapés passaram em 20 anos a clássicos do rock português. O "sémen" – título do seu single de estreia – foi lançado a 13 de Janeiro de 1979, entre o pó de uma sociedade recreativa de Campo de Ourique, em Lisboa. Na altura em que o "punk" agonizava e o rock'n'roll comemorava um quarto de século de existência. Faz hoje precisamente 20 anos. "Chico Fininho" ensinara a cantar rock em português. Mas poucos acreditavam em projetos a longo prazo. Volvidas duas décadas, com uma legião de fãs e um culto atrás de si, os Xutos recolhem os louros de uma carreira onde o talento, o suor e a crença se misturam em doses iguais. Vinte nomes importantes da música portuguesa juntaram-se para gravar um duplo álbum de homenagem, intitulado "XX Anos, XX Bandas", a editar no próximo dia 18, onde contam a sua própria versão dos acontecimentos. Mas para Tim, Zé Pedro e Kalú a estrada vai continuar depois das homenagens. Coberta, como sempre tem sido, de poeira e de glória. O PÚBLICO entrevistou-os e ficou a saber o que eles pensam de si próprios e das bandas que participaram no álbum. Porque "XX Anos, XX Bandas" é também uma coleção de excertos da história dos outros.

Há 20 anos atrás, a música portuguesa confrontava-se com um dilema. Como é hábito, a principal dificuldade estava em acertar o passo com o andamento lá de fora. O que fazer quando em Inglaterra o "punk" já entrara em agonia e por cá era ainda a descoberta de que era possível, afinal de contas, cantar rock em português? A única vantagem estava na necessidade em andar depressa.
            A 13 de Janeiro de 1979, na pequena sala lisboeta da Sociedade dos Alunos de Apolo, em Campo de Ourique, voltou-se uma página importante da música popular feita em Portugal. Foi aí que os Xutos & Pontapés tocaram ao vivo pela primeira vez. Hoje, a duas décadas de distância, percebe-se que o passado e o futuro se apertaram nessa sala enevoada pelo fumo dos charros e encharcada em cerveja, ao som de compassos partidos, no misto de violência e euforia que sempre acontece quando algo morre e outra coisa diferente nasce em seu lugar.
            Nessa noite, o "punk" morreu apressadamente, mal balbuciara as primeiras obscenidades. Uma heresia que em Portugal teve apenas dois papas: Os Faíscas (de onde nasceriam os Heróis do Mar de Pedro Ayres de Magalhães) e os Aqui d'El Rock que clamavam "É preciso violentar o sistema" ao mesmo tempo que violentavam os ouvidos de quem os ouvia.
            Mas acabara de haver uma revolução. Com cravos ou sem eles, queria-se avançar rapidamente e em força, e romper com a memória. Por isso a noite em que o rock 'n' roll festejou os seus 25 anos de existência foi a mesma em que foi feito o seu enterro. Nela se soube da existência de um Elvis português, Zeca do Rock, de seu nome artístico, que aí teve a sua noite de glória e desapareceu. Foi neste cenário agitado que Os Faíscas deram por terminada a sua missão "punk", deixando ainda para a posteridade uma mistificação que permaneceu em segredo durante longos anos.

A revelação de Jójó Benzovac

            Os Faíscas tocaram bem (segundo os critérios em voga nessa época, ou seja, alto, depressa e a espumarem da boca). Ou, segundo a opinião corrente, não tocaram mal. Muito melhor foi, ainda segundo a opinião unânime dos presentes, a banda-mistério que tocou a seguir: Jójó Benzovac e os Rebeldes. Quatro mascarados anónimos, com o rosto distorcido por "collants" de senhora enfiados na cabeça. Esses sim, além de tocarem melhor que os Faíscas, ofereceram uma música original. O rock português acabara de encontrar nesta banda de encapuçados os arautos do futuro. A História, porém, não teve oportunidade de confirmar as esperanças que então foram depositadas no grupo. Para Jójó Benzovac e os Rebeldes essa foi a primeira e única atuação ao vivo da sua carreira.
            O grupo-fantasma não era senão uma variante disfarçada de alguns dos músicos dos Faíscas, mais um grupo de amigos, que desta forma se retiraram a coberto de um mito e de uma imensa gargalhada. Começou aí outra história. Uma história que hoje cumpre 20 anos sem dar sinais de querer parar nos tempos mais próximos. Das cinzas do "punk" nasceu, nessa mesma noite de magia e comédia, uma das mais importantes bandas de rock nacionais: os Xutos & Pontapés. Eles e os UHF asseguraram a sobrevivência e continuidade do rock cantado em português, entre a hecatombe de dezenas de outras bandas menores que abortaram nas manápulas da engrenagem.
            Foram, de certeza, as duas únicas que assumiram que o rock nunca foi um estilo de música mas sim uma atitude e, quer se queira quer não, um estilo de vida. Só assim se compreende que a música dos Xutos, não sendo hoje substancialmente diferente do que era há 20 anos atrás, tenha sobrevivido e conquistado as preferências de, pelo menos, duas gerações de ouvintes. Isto, mais a energia, a crença e a autenticidade.

Fabricantes de hinos

            A música dos Xutos & Pontapés renovou-se porque se renovou a capacidade dos seus elementos acreditarem nela. Se, em diversas fases da carreira do grupo, a entrada e saída de músicos (Zé Leonel, hoje nos Ex-Votos, Gui, saxofonista errante, Francis, tornado o Mike Oldfield português) coincidiram, de algum modo, com os momentos de crise, elas representaram também um processo de catarse e de procura de novas formas para – e é isto que garante a coesão do núcleo principal formado por Tim, Zé Pedro e Kalú – uma mesma essência.
            Nessa noite de fantasmas, há 20 anos atrás, celebrada na Sociedade dos Alunos de Apolo, os Xutos tocaram pouco tempo, cheios de coragem e assolados pelo medo, entre a timidez e o exibicionismo, numa luta sem tréguas com as guitarras, o baixo e a bateria. Mas revelavam já uma virtude: eram genuínos.

Como os Stones

            Ainda que as vendas dos primeiros discos (os singles "Sémen" e "Toca e foge" e o álbum "1978-1982", todos divulgados no programa "Rotação", de António Sérgio) não correspondesse às expetativas e a imagem da banda ferisse algumas sensibilidades, foi essa autenticidade que o público captou. Apesar de alguma da sua produção mais recente revelar uma maior sofisticação – como a sessão "unplugged" (isto é, sem amplificação), "Ao Vivo na Antena 3", a banda sonora "Tentação" e "Dados Viciados" –, os Xutos foram sempre fabricantes de hinos para as gerações rebeldes. "Remar, remar", "Homem do leme", "Circo de feras", "Contentores", "Quero mais", "Não sou o único" ou "Longa se torna a espera" são palavras de ordem para quem se alimenta de palavras de revolta, servidas por melodias cuja força e simplicidade formam uma condensação perfeita da fúria, do espanto, da dúvida e da loucura de quem avança sem olhar para trás. Um segredo que se encontra exposto desde o início no próprio nome do grupo.
            A estas características foram sensíveis, por uma razão ou por outra, todos os artistas que participam em "XX Anos, XX Bandas", por mais longe que estejam, em termos de pressupostos estéticos, dos originais: Clã ("Conta-me histórias"), Lulu Blind ("Quero mais"), Despe & Siga ("Vida malvada"), Sitiados ("Maria"), Jorge Palma com Flak ("Nesta cidade"), Cool Hipnoise ("Dantes"), Bizarra Locomotiva ("Se me amas"), Ornatos Violeta ("Circo de feras"), Boss AC/Sam ("Não sou o único"), Quinta do Bill ("Homem do leme"), Paulo Gonzo ("Chuva dissolvente"), GNR ("Quando eu morrer"), Mão Morta ("Mãe"), Rui Veloso ("Negras como a noite"), Censurados ("Enquanto a noite cai"), Ex-Votos ("Sémen"), Entre Aspas ("Doçuras"), Rádio Macau ("Morte lenta"), Da Weasel ("Esquadrão da morte") e Sétima Legião ("Longa se torna a espera") . É fácil perceber as razões da adesão de todos eles. Parafraseando o título do filme de Jerzy Skolimowski, os Xutos & Pontapés são "o navio-farol" do rock português. O rochedo e a bíblia por que se rege a geração de músicos mais novos. Como os recém formados Os Corvos, quarteto de cordas com formação clássica influenciado pelos Kronos Quartet e Apocalyptica que se dedica a executar versões de câmara de temas dos Xutos.
            Por isso há quem os compare aos Rolling Stones. Como a banda de Mick Jagger, orgulham-se de ser feios, porcos e maus. Mas cheios de classe. Com uma diferença: ao contrário dos Stones, os Xutos não abdicaram de lutar.
            Ainda antes da edição de "XX Anos, XX Bandas", marcada para a próxima segunda-feira, é hoje lançado no auditório da FNAC (em Lisboa), pelas 18h, o livro "20 Anos – Uma Fotobiografia dos Xutos e Pontapés", editado pela 101 Noites e El Tatu, com imagens de vários fotógrafos portugueses e legendas do jornalista Jorge Pires. A mesma obra será apresentada no Porto, no próximo dia 30, também pelas 18h, na FNAC Norte Shopping. Quanto ao concerto anunciado para próximo dia 15 no Pavilhão Multiusos do Parque das Nações, foi cancelado devido a doença de um dos elementos do grupo, o guitarrista João Cabeleira.


as bandas e as canções na versão de Tim e Zé Pedro

Clã

            TIM – A personagem da música é feminina, há duas ou três músicas dos Xutos em que isso acontece, e foi a primeira canção dos Xutos feita sobre uma relação amorosa. É também uma canção muito direta. Não vou dizer que uma bandas são melhores do que outras, mas esta versão é uma das minhas preferidas no disco, e os Clã têm feito um trabalho muito bom, fico agradecido por se terem empenhado nesta versão. Os Clã também tinham uma outra versão, menos conhecida, dos Xutos, que é a “Lei animal”.
            ZÉ PEDRO – Nunca nos cruzámos na estrada com os Clã, mas por tudo isto que o Tim disse, eles foram convidados para o disco. [Para Tim], portanto, tu fazes a análise temática…
            TIM – … E tu tratas do historial.

Lulu Blind

            Z.P. – Foram a primeira e última banda que produzi até à data. O álbum “Dread”, que saiu pela El Tatu. Acompanharam-nos em digressão com os Bizarra Locomotiva e tocámos todos juntos no Campo Pequeno, em 94. Sou amigo do Tó Trips, que é o autor da capa do disco de tributo, ainda hoje somos companheiros de noite.
            T. – Talvez sejam das poucas bandas que sempre tocaram por prazer, por adorarem o que fazem. Isso não justifica alguns exageros estéticos, mas são de facto bem formados, não se encontraram por acaso numa esquina e decidiram tocar, são muito empenhados. Escolheram o “Quero mais”, o lado b do nosso primeiro single, uma escolha que reflete o que dizia sobre eles não fazerem as coisas por acaso. Foi das primeiras músicas que fiz para os Xutos, e é um tema muito direto, básico e simples e é nisso que tem a sua força. Os Lulu tropeçaram num problema, que toda a gente que toca encontra, e eles deram a volta de uma maneira engraçada.

Despe & Siga

            Z.P. – Foram a primeira banca com quem fomos para a estrada, quando eram os Peste & Sida. Temos uma ligação muito forte com eles.
            T. – Lembro os Peste como o primeiro grupo com a mesma maneira de estar que nós tínhamos, em relação à estrada e fazer música. Esta versão é fruto do trabalho de grupo, o Luís Varatojo, não desfazendo, parece-me o menos vivo na gravação, o que é sinal de que o tema foi comandado pelo grupo. Ou seja, o Luís viu-se obrigado a cantar no tom que os outros tocaram.

Sitiados

            T. – Com todos os altos e baixos que tiveram, os Sitiados sempre mantiveram aquele culto da febra, o lado popular e festivo da música. Nesta versão do “Maria” tentaram chamar outra vez a alegria que lhes faltou a meio da carreira. Usam o acordeão, que é apropriado à canção. Esta música era um problema para nós nos concertos, porque não tinha a ver com rock, não encaixava.
            Z.P. – No Portugal Ao Vivo, em Alvalade, tocámos juntos, o João Aguardela fez o “Chuva dissolvente” com os Xutos. Fora inúmeros concertos em Coimbra, Festa do Avante e por aí fora.

Jorge Palma e Flak

            Z.P. – O poema é do João Gentil, personagem que eu conheci e depois apresentei aos Xutos. Era um poeta de Lisboa e era frequente acompanhar o Palma a tocar na rua. Eu e o Kalú já tocámos com o Jorge Palma na Palma’s Gang, para além de sermos amigos.
            T. – Recebi uns quantos telefonemas do Jorge por causa desta canção. Disse que queria o “Esta cidade” por ser uma dupla homenagem, aos Xutos e ao Gentil, só que ele tem um problema com os estúdios que é nunca acabar as coisas. Depois de algum tempo telefonou-me a dizer que a canção estava a andar, mas só quatro semanas depois é que recebi uma mensagem dele no meu telemóvel, a dizer: “Epá, já acabei a música, pá, acabei… Estou em Veneza.” Falando da música – o Palma a solo propõe-se uma tarefa exigente. Se apresenta as mesmas canções como músicos como o Flak ao lado, cria momentos únicos, e é isso que ele faz com o “Esta cidade”. Esta versão é única, e há mais uma ou duas no disco, como a do Rui Veloso e a do Paulo Gonzo. São temas que eles fizeram extemporaneamente e não devem repetir em concertos, o que é em si uma forma de homenagem bonita.

Cool Hipnoise

            T. – Das versões mais surpreendentes. Eles têm um trabalho de base rítmico muito, muito bom. No lado melódico ou solista não são tão fortes. A outra versão nossa que fizeram [“Remar, remar”], o problema era mesmo esse. Nesta deixaram os problemas para segundo plano. O “Dantes” foi uma das nossas primeiras músicas de fusão, não se encaixava bem no nosso estilo, e é engraçado o que fizeram à música.
            Z.P. – A ligação histórica aos Cool Hipnoise [faz uma pausa] é a versão do “Remar, remar” [risos].

Bizarra Locomotiva

            Z.P. – O “Se me amas” só saiu em single, com o “Submissão”. Os Bizarra também tocaram no Campo Pequeno, connosco e com os Lulu Blind. Pela postura, quando apareceram eram os primeiros a usar o sampler de forma interessante, chamaram-nos a atenção e daí terem sido convidados para esse concerto.
            T. – Quer o Armando quer o Sidónio são dois personagens. O Armando é um músico de exceção, não é por acaso que participa em tantos projetos. Trabalha muito e com coerência. A postura dos Bizarra Locomotiva é extremamente violenta, já os vi várias vezes e, mesmo em França, a opinião das pessoas é que eram um excesso. Mesmo os putos mais malucos olhavam e diziam: “Não era tanto assim, mas valia matar uma galinha em palco e tirar-lhe o sangue do que cantar aquelas coisas daquela maneira.” O “Se me amas” é um tema odiado pela minha mulher, por representar o oposto do que tínhamos falado sobre o amor. O discurso, nesta versão, está muito bem feito, é subversivo.

Ornatos Violeta

            Z.P. – O Porto esteve muito tempo sem dar bandas ao país e os Ornatos vieram quebrar essa monotonia, de certa forma levantaram a pedra para que outros se revelassem.
            T. – Os Ornatos são daquelas bandas que ainda vivem juntas, acreditam muito no conjunto, cheios de genica e gostam de tocar. A versão do “Circo de feras”, que levou um toque na letra, revela muito a mão do Mário Barreiros, um produtor que é uma sombra ao longo do álbum. Nos Clã o toque do Mário não se nota, mas nos Ornatos sim, há uma altura em que o tema começa a andar à roda e aquilo, não desfazendo nos Ornatos, é do Barreiros.
            Z.P. – É um tipo impecável e trabalha como ninguém.

Boss AC & Sam

            TIM – É um prazer ouvir o Sam a cantar. Sempre achei que com o General D a voz dele perdia-se. Nesta versão do “Não sou o único” as vozes juntam-se bem, o rap do Boss AC é engraçado e a voz do Sam é muito melódica.
            ZÉ PEDRO – O Boss AC apareceu connosco em palco no Super Bock Super Rock, e também na segunda versão do Portugal Ao Vivo. Cantou o “Estupidez”, tema que tinha gravado com os Xutos. O Kalú já trabalhou com os Family, onde o Boss AC esteve. Quando pensámos em trabalhar com um “rapper” o Boss AC foi a primeira escolha.

Quinta do Bill

            T. – A versão do “Homem do leme” mostra as duas faces da Quinta do Bill. São uma banda com formato clássico de rock e têm influências celtas e de “folk”, audíveis aqui. O original tinha um andamento rápido, a versão acústica da Antena 3 era mais lenta. Eles tocaram uma parte de rock, muito acelerada, mas quando entra a parte “folk”, só com os violinos, percebe-se que se fosse mais lento a melodia perdia-se. Acontece o que apontei aos Despe & Siga, já que se tocassem noutro tom a voz estaria melhor, embora o Moisés tenha cantado bem.
            Z.P. – Não temos nenhuma ligação ao vivo com a Quinta do Bill, embora o Tim já tenha tocado com eles. Nunca tivemos grande proximidade, mas estão aqui na mesma.

Paulo Gonzo

            Z.P. – Somos amigos.
            T. – Estava à espera, por ser o “Chuva dissolvente”, que a versão do Paulo tivesse um solo de harmónica, mas só tem um solo de guitarra com umas harmónicas ao fundo. Em relação ao original, esta marca mais as diferentes partes da música. Quanto à voz do Paulo Gonzo, pode-se gostar ou não, mas é uma peça deste dominó.

GNR

            T. – Houve um concerto connosco, os GNR e os Silence 4 aqui há uns tempos. Enquanto estávamos nos camarins, mesmo antes de atuar, entra o Rui Reininho e diz: “Pá, aquela história da versão, estava a pensar em fazer o ‘Morte lenta’, achas bem?” e eu disse claro. Eles pôs-se a cantar e percebi que queria dizer o “Quando eu morrer”. Depois perguntou-me: “E achas que a gente trabalhe com o Mário Barreiros nisto?”. Disse-lhe que era excelente ideia. A versão soa a GNR do futuro, não do presente. Acho que se aproveitarem podem fazer um bom disco produzido pelo Barreiros.
            Z.P. – Fizemos demasiados concertos com os GNR para enumerar.

Mão Morta

            Z.P. – O “Mãe” é uma ótima música para os Mão Morta. Os Mão Morta nunca quiseram assumir uma carreira, ela foi acontecendo. Põem-se à margem do reboliço, são independentes.
            T. – Há que realçar que eles tiraram duas coisas ao original com o “sampler”. O refrão e a guitarra do Zé Pedro servem de ponte entre a nossa versão e a dos Mão Morta. O Adolfo conta a história melhor do que eu, mas no refrão socorreu-se do original.

Rui Veloso

            T. – É surpreendente que o Rui Veloso tenha trabalhado com o Armando, já que pertencem a géneros quase opostos, um trabalha com a pureza do som, outro com o ruído. O Rui Veloso usou uns truques para gravar a voz num tom tão grave, que já brincou comigo.
            Z.P. – O Rui é uma figuraça e já nos cruzámos muitas vezes. Assisti a um dos seus primeiros concertos e vi-o fazer a primeira parte dos Police, quando o álbum dele tinha saído e havia uma certa magia à volta da figura dele.

Censurados

            T. – Uma das bandas mais próximas dos Xutos. O Ribas estava sempre nos nossos concertos e os Censurados jogaram um papel importante na criação da nossa editora, a El Tatu. A versão dispensa grandes comentários, são os Censurados. Pesados e com entrega.
            Z.P. – Os Censurados juntaram-se para este disco. Eles passaram a ser os Tara Perdida, mas voltaram atrás no tempo e ficamos agradecidos.

Ex-Votos

            Z.P. – Um dos responsáveis pela existência dos Xutos é o Zé Leonel, que era o nosso vocalista e deu-nos muita força no arranque, uma fase delicada.
            T. – Nesta versão de “Sémen”, uma música que é do Zé Leonel, eles fizeram do melhor que conseguem.

Entre Aspas

            Z.P. – Tocámos com eles uma vez. Não estão aqui os nossos “amiguinhos” mas bandas, há uma razão musical para a escolha. Nos Entre Aspas creio que se verifica outra vez a situação da voz ser obrigada a seguir a banda. O original era mais despojado, eles usam máquinas e outros instrumentos que enchem o som. Resulta bem.

Rádio Macau

            Z.P. – Com os Rádio Macau temos uma aproximação muito chegada [risos]. Pronto, eu vivo com a Xana. Este tema é um passo importante para o regresso dos Rádio Macau, pois testaram a maquinaria nova para os próximos trabalhos.
            T. – É pena, como dizia o Zé Pedro outro dia, que a “Morte lenta” tenha tão pouca letra porque a Xana fica limitada a escassas palavras. A instrumentação está mais madura do que os trabalhos anteriores, nota-se a evolução e isso deixa-me curioso quanto ao futuro deles.

Da Weasel

            Z.P. – O Pac [vocalista dos Da Weasel] disse esperar que gostássemos tanto do tema como eles gostaram de o fazer. Pois sim, gostámos.
            T. – Parece-me que o “Esquadrão da morte” é uma música muito significativa para os Da Weasel. Sempre tiveram músicas bem feitas, e esta é mais uma prova dessa qualidade, pela produção e pela agressividade demonstrada pelos vocalistas. A música podia ir por outro lado, mas eles agarram-na com personalidade, gosto disso.

Sétima Legião

            Z.P. – Partilhámos editora com os Sétima Legião e já fomos produzidos pelo Ricardo Camacho, que viria depois a integrar os Sétima. Vi-os a primeira vez como trio, tinham uma sonoridade muito próxima de Joy Division e New Order.
            T. – A Sétima Legião tem músicos muito bons que fazem aqui uma versão sem espinhas. Não é por acaso que o Camacho escolheu o “Longa se torna a espera”, canção que ele produziu quando gravávamos o “Remar, remar”.

15/11/2016

Com uma pequena ajuda dos amigos

CULTURA
SÁBADO, 24 MAR 2001

Com uma pequena ajuda dos amigos

Homenagear os Beatles é uma boa ideia. Sobretudo quando hoje, volvidos 30 anos sobre a extinção do grupo, já é possível afirmar com alguma segurança que eles foram uma das bandas pop mais importantes de sempre. Mas não é fácil pegar numa canção dos Beatles. São demasiado perfeitas e completas. "She loves you", por exemplo. Tem uma melodia indigente e uma letra parva, mas na voz de John Lennon e Paul McCartney soa como uma sinfonia ao amor.
            "Come Together" juntou no palco do Pavilhão Atlântico, em Lisboa, uma série de artistas portugueses dispostos a interpretar, recriar ou massacrar as canções dos "fabulous four". Na plateia, cotas, adolescentes e cotas disfarçados de adolescentes salivavam na expetativa de embarcar na máquina do tempo para viajar até esses anos em que uma canção pop justificava toda uma existência. A máquina, na maior parte dos casos, emperrou.
            Coube aos Blind Zero carregar na tecla "on". Abriram sonolentos com "I'm only sleeping" antes de passarem a duas canções psicadélicas, "do tempo em que os ácidos eram de boa qualidade", "Strawberry fields forever" e "Tomorrow never knows". Se a voz do vocalista naufragou nas "nuances" de melodias apenas passíveis de decalque sob o efeito das tais substâncias alucinogéneas de qualidade, as guitarras mergulharam num mar de eletricidade, garantindo aos Blind Zero o comprovativo de "banda que ousou arriscar". Terminaram com "She loves you" sem conseguirem fazer esquecer que a letra é mesmo indigente e a letra mesmo parva.
            Nos intervalos entre cada atuação, o ecrã gigante instalado acima do palco mostrava imagens de arquivo da RTP, com excertos de documentários, clips, filmes e canções dos homenageados. "Love me do", "Yesterday", "Can’t buy me love", "Yellow submarine"... Recordações dos anos de histeria.
            Mafalda Veiga cantou "Drive my car", "You've got to hide your love away" e "Hey Jude" como se tivesse acabado de sair da cama. Transformou uma canção quadrada como "Hey Jude" num retângulo rombo. Atuação preguiçosa, a provocar bocejos.
            Curiosamente, foi uma banda cujos membros ainda não eram nascidos quando os Beatles morreram, os Silence 4, a primeira a socorrer-se da criatividade, em vez da vénia. Transformaram "Help" numa litania arrastada sobre a solidão e "Blackbird" numa canção nova onde apenas o coro guardava as notas da melodia original.
            A Ala dos Namorados pareceu não ter muito a ver com os Beatles. Preocuparam-se com a perfeição formal em "Eleanor rigby", tiraram partido da voz de Nuno Guerreiro num dueto voz/piano, em "Yesterday" e juntaram efeitos de "vaudeville" a "Penny lane". Competentes mas demasiado frios.
            Os Clã foram outra das surpresas da noite. Se "Everybody's got something to hide except me and my monkey" manteve o mesmo formato rock, a carga energética que lhe foi injetada pela banda do Porto transformou o tema num hino contemporâneo, o mesmo acontecendo a "A hard day's night". Mas foi em "Lucy in the sky with diamonds" que os Clã mostraram que não estavam ali apenas para "brincar com uma coisa séria". A voz de Manuela Azevedo, processada eletronicamente, tirou Lucy da tumba para cavalgar de novo até às estrelas com os olhos de caleidoscópio a brilhar.
            Para o fim ficaram os mais velhos, os que se lembram melhor. Não pareceu. "Sgt. Peppers lonely heart's club band", "With a little help from my friends" e "While my guitar gently weeps" foram transformadas pelos Xutos & Pontapés numa sessão de berraria. Os Xutos pontapearam os Beatles. Faltava Rui Veloso, beatlemaníaco confesso. Nas bancadas a expetativa adensava-se. As manas Jardim (uma quantidade delas) ajeitavam as t-shirts, o cabelo e a pose para as objetivas da imprensa cor-de-rosa, bamboleando-se ao som de "Get back".
            Quando Rui Veloso tomou conta do palco, sentiu-se um brilhozinho nos olhos dos mais velhos. O pai do rock português desdramatizou. "Something" foi apresentado como "Qualquer coisa" e "Girl" como "Moçoila". Cantou num registo equidistante de Tom Jones, Serafim Saudade e Zé Cabra. "The long and winding road", em tom de "music hall", preparou o terreno para "Let it be", com a letra projetada no ecrã gigante, de maneira a poder ser cantada em coro por todos. O final, pretensamente apoteótico, juntou a troupe inteira de artistas no palco para mais uma dose de "Let it be", tornada gigantesca sessão de karaoke. Mas mesmo o adepto mais ferrenho dos Beatles já estava cansado e, ao fim desta dose de Beatles a martelo, suspeita-se que suspirasse por ouvir os Rolling Stones. Vai uma homenagem?
            Apesar de tudo, espera-se que "Come together" não tenha acontecido em vão. É bem possível que, "with a little help from these friends", a coletânea "1" volte a conquistar o número um...

Graus de Beatlemania
Blind Zero: Psicadélicos
Mafalda Veiga: Preguiçosa
Silence 4: Criativos
Ala dos Namorados: Formais
Clã: Lúdicos
Xutos & Pontapés: Barulhentos
Rui Veloso: Meloso

11/11/2016

Beijinhos e pontapés

CULTURA
QUARTA-FEIRA, 30 MAI 2001


Beijinhos e pontapés

“XIII” – O NOVO ÁLBUM DOS XUTOS

A música do grupo está mais subtil, sem perder a força que sempre o caracterizou. Mário Laginha é um dos convidados

Se é difícil a uma banda de rock manter-se viva nos tempos que correm, até porque, como toda a gente sabe, o rock morreu, mais difícil ainda é, além de viva, conservar o entusiasmo e ter alguma coisa para dizer.
            Mas é isso mesmo que os Xutos & Pontapés conseguem com o seu mais recente álbum, intitulado “XIII” e lançado na passada segunda-feira. Se é o 13º álbum da sua discografia, ou não, nem os próprios músicos se lembram. “Acho que não é!”, reconhece Tim, com um sorriso largo no rosto, diante do prato de comida irlandesa que lhe aconchega o estômago antes de arrancar para o espetáculo no Pavilhão Atlântico, onde os Xutos fizeram a primeira grande apresentação pública do novo álbum.
            É rock, como Tim, Zé Pedro, João Cabeleira e Kalú (com a participação esporádica de Gui, no saxofone) sempre souberam fazer, mas agora embrulhado numa capa astral a fazer de conta que é Pink Floyd e onde até a guitarra elétrica de João Cabeleira soa, num tema como “Deitar a perder”, a David Gilmour.
            Os Xutos convertidos ao rock progressivo, ou nem por isso? Nem por isso. Buzzcocks e Stranglers são outras das referência presentes, a provar que os Xutos não perderam a sua face punk. A energia está lá na mesma, com a diferença que neste disco os instrumentos têm mais espaço para respirar e a subtileza dos arranjos vai ao ponto de conceder tempo de antena a Mário Laginha, que num interlúdio de “Inferno”, composto para a banda sonora do filme de Joaquim Leitão, tece uma malha pianística que se interliga de forma harmoniosa com o resto da canção. No final de “Inferno”, Tim arriscou mesmo terminar o tema com uma sequência clássica em quarteto de cordas. “Peguei nas malhas de guitarra do Cabeleira e comecei a arranjar, a arranjar até chegar àquele final”, explica Tim.
            O bom e o bonito para os fãs mais “hard” do grupo, que assim se verão confrontados com uma subtileza a que não estarão habituados na sua banda fetiche. Neste e noutros temas de “XIII”, que também conta com a produção de Mário Barreiros, os Xutos, diz Tim, “começam por expor os ambientes”, com calma, para “os instrumentistas trabalharem aquilo que já se fez”. Ficam as canções mais “completas”. Com mais “substrato”, indo “ao fundo das coisas”.
            Ao vivo, como será? Deverá o público vestir fraque e vestido de noite e saudar cada canção no final com um polido “bravô”? Tim ri-se. Os Xutos jamais serão aquilo que desde o início condenaram — uma banda acomodada. “Atiramos-lhe o ‘Circo de feras’!”, contrapõe o vocalista do grupo, que no recente espetáculo de homenagem aos Beatles se vestiu a preceito com a farda do Sargento Pimenta.
            O álbum, pontos nos “is”, é dos melhores de sempre dos Xutos & Pontapés. Estão lá os hinos, o diário dos subúrbios, a vida de músico, o tempo que não para. A fúria, temperada pela ternura. Beijinhos e pontapés.

26/09/2016

Droga de guitarras [Xutos & Pontapés]

Quarta-feira, 19 Março 1997 POP ROCK

Xutos e Pontapés jogam novo álbum, novo som e nova editora

Droga de guitarras

“Dados Viciados”, o novo disco dos Xutos e Pontapés, primeiro na EMI-VC, joga os trunfos das guitarras – o “instrumento do século” –, da energia e de um som internacional. Tentámos criar um ambiente poderoso onde as canções pudessem fluir e depois ‘drogá-las’ com as guitarras”, diz Tim, para quem os Xutos passaram a ter, além da vontade, o conhecimento das regras do jogo.

Logo após a curta atuação ao vivo do grupo, na noite da passada sexta-feira, no casino da Figueira da Foz, que serviu para apresentar o novo álbum, “Dados Viciados”, Tim explicou ao PÚBLICO os lances mais recentes. Além da sorte, é preciso saber aproveitar. Quando o “jogo sai bom” deve-se “jogar o melhor que se souber”. “Dados Viciados” é o melhor jogo que os Xutos alguma vez tiveram? Fazem-se apostas.

                PÚBLICO – “Dados Viciados” é um título curioso. Qual foi a ideia?
                TIM – Bom, tivemos montes de problemas para registar os nomes. Seis canções tiveram mesmo que ser renomeadas porque já existiam outras com o mesmo nome. “Mãos de veludo”, por exemplo, teve que desaparecer. Deve ser porque, se calhar, há muita música portuguesa…
                P. – A que se deve esta mudança de editora, com a entrada para a EMI-VC?
                R. – Depois de nove ou dez anos a trabalhar com as mesmas pessoas, com os mesmos chefes, sentíamo-nos como se estivéssemos a malhar em ferro frio. Já não havia retorno. Nem a excitação, pelo nosso lado, em arranjar ideias novas para apresentar às pessoas, nem ideias novas das pessoas para nos apresentarem. Ainda por cima, com o processo que acabou com os Resistência, acabou por ser ainda mais difícil manter um diálogo coerente com a editora que tínhamos na altura.
                P. – Quais são os termos deste novo contrato?
                R. – Dois discos em três anos.
                P. – Que importância teve o produtor Ronnie Champagne na gravação de “Dados Viciados”?
                R. – O Ronnie Champagne tinha vindo cá fazer um trabalho com os Blind Zero. Conhecíamos esse trabalho e os Blind Zero, bem como a repercussão que aquele teve na estrada, que foi bastante boa. Precisávamos realmente de uma pessoa de fora, de fora mesmo, que não nos conhecesse nem como estrelas nem como músicos, mas que nos ajudasse, nos proporcionasse um trabalho coerente a um nível mundial. Algo como se fosse novo. O padrão é outro. O padrão português tem algumas limitações.
                P. – Como definiria esse novo padrão?
                R. – É um padrão de rock internacional, ou seja, uma coisa que tanto soa bem aqui como lá fora. O Ronnie fez um trabalho aqui que não vai ter vergonha de mostrar em Los Angeles, em Paris, em Xangai ou onde quer que seja. É como se nós fizéssemos na realidade parte de uma cultura rock universal.
                P. – Quer dizer que vai haver uma aposta no mercado internacional?
                R. – Não! Foi só um aproveitamento desse conhecimento. Ainda por cima, o Ronnie chegou cá e tratou-nos exatamente como nós estávamos à espera. Não sei bem explicar… É como se uma pessoa toda a vida pensasse que era defesa-direito e depois houvesse um selecionador que o chamasse mesmo para esse lugar. As coisas casaram mesmo bem. Não houve um entusiasmo por aí além, do estilo de haver um som fantástico no estúdio, mas que depois é impossível, mas apenas um trabalho muito continuado.
                P. – Quanto tempo estiveram em estúdio?
                R. – Cinco semanas a gravar, em Paços Brandão. Todos os dias. Sempre a chover, a chover…
                P. – “Dados Viciados” é sobretudo um disco com uma grande energia das guitarras. Onde é que a foram buscar?
                R. – Foi preciso, porque nós sempre achámos que éramos uma banda de guitarras, com a minha voz a cantar. Eu e o Kalu fazemos as músicas e o substrato. Mas o que faz mesmo a diferença são as guitarras, a velha fórmula que este final do século consagrou. Duas guitarras, um baixo, bateria e vozes.
                P. – Guitarras cheias de efeitos especiais, então de “fuzz” nem se fala…
                R. – Do que houver! A droga que houver é a que a gente mete! Se houver “fuzz” é “fuzz”, se houver outra coisa é outra coisa! Foi um bocado esse o espírito do disco, tentar criar um ambiente poderoso, onde as canções pudessem fluir por elas e depois conseguir “drogá-las” com as guitarras… É o instrumento deste século!
                P. – O tema é o jogo. Trata-se um álbum conceptual?
                R. – É meio! Escolhemos esse tema porque, em grande parte, para nós, já é um jogo fazer os temas dos Xutos e Pontapés. Já reflete tantas e tantas músicas para trás, tantos e tantos concertos, que agora resolvemos encarar isto como algo de que gostamos mesmo. Imagine que tem as cartas na mão e que o jogo lhe sai bom. Então deve jogar o melhor que souber.
                P. – O jogo saiu bom?
                R. – Sim. Foi esse o espírito que eu quis quando o Cabeleira solasse, que tivesse um som fascinante. Ou que o Zé Pedro tocasse de uma forma irrepreensível. Ou quando eu cantasse, o fizesse da forma mais natural.
                P. – Os Xutos estão a ficar perfecionistas, à boa maneira dos grupos dinossauros, é isso?
                R. – Dinossauros perfecionistas! Mas à nossa maneira.
                P. – Então, afinal, os dados não estão “viciados”?
                R. – O vício foi mesmo esse. Dantes não conhecíamos as regras do jogo. Íamos a jogo porque sim, só porque tínhamos vontade. Agora vamos a jogo mas sabemos. Por isso podemos permitir-nos certas coisas, mesmo no disco, de que noutros tínhamos medo. Como pôr as guitarras tão alto, fazer solos de determinada maneira ou acabar música sem ser no refrão. Coisas que, se calhar, as pessoas podem não perceber mas que para nós, músicos, tem muito a ver com o “88” ou com o “Circo de Feras”, discos que estabilizaram a nossa maneira de ser e que nós, já desde 1992, tentamos quebrar, mas agora, além da vontade, com saber.
                P. – “Dados Viciados” foi feito a pensar na estrada? Dá ideia que vai funcionar bem ao vivo…
                R. – Deus queira que sim! Nós pensámos nisso. A maior parte da nossa energia e do nosso prazer vem de tocarmos ao vivo.
                P. – Onde é que os dados estão mais viciados: no futebol, na política ou na música?
                R. – Na música não estão. No futebol estão bastante. Na política deve estar quase igual ao futebol.
                P. – Qual foi o trunfo mais forte que os Xutos jogaram neste disco?
                R. – Trabalho.