24/02/2020

Os elefantes têm a cabeça macia [Jazz]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 8 JULHO 2004

Frames é a jóia da coroa de um lote de discos de uma editora, a Ogun, que contrapõe músicos ingleses e sul-africanos.

Os elefantes têm a cabeça macia

Cruzaram-se na Ogun, deram-se bem. Nesta editora que tem vindo a divulgar o melhor do jazz inglês, desde os anos 70 e da “Free music” até aos dias de hoje, músicos ingleses e sul-africanos dão-se as mãos, que é como quem diz, trocam de jazz, numa síntese de sons e sensibilidades da qual têm resultado trabalhos de grande qualidade.
            Principal ponto de encontro: a Chris McGregor’s Brotherhood of Breath, “big band” liderada pelo pianista Chris McGregor. Nela pontificam alguns dos principais nomes do jazz da África do Sul, como Louis Moholo, Radu Malfatti, Dudu Pukwana e Mongezi Feza, além do próprio McGregor, enquanto os ingleses se fazem representar por Evan Parker, Gary Windo, Marc Charig e Nick Evans. Desta formação, cuja estreia magistral, “Chris McGregor’s Brotherhood of Breath”, apenas foi reeditada em CD em catálogos de rock progressivo, a Repertoire e a Akarma, chega-nos “Live at Willisau”, de 1973. Jazz abrasivo, coletivo, pujante no modo como vozes solistas e secções instrumentais se digladiam, dialogam, ramificam em mil e uma colorações que vão beber à música tradicional e às modalidades do Soweto.
            Louis Moholo apresenta o seu projeto Viva La Black nas improvisações largas que caracterizam “Freedom Tour, Live in South Afrika 1993”, gravado na Cidade do Cabo e Durban, na África do Sul, é um batimento ritual que inclui cantorias, chamamentos, risos o “What a wonderful world” de Louis Armstrong, e uma atmosfera geral onde a descontração vive paredes meias com a tensão, na busca da melhor forma de expressar o instante criativo. “Bush Fire”, de 1997, sustenta-se no diálogo entre Moholo e Evan Parker, num quinteto que inclui outros dois sul-africanos, Pule Pheto (piano) e Gibo Pheto, um dos dois baixistas, localizado auditivamente no canal esquerdo da gravação, juntamente com o inglês Barry Guy, que se faz ouvir no canal direito. Extraordinários os diálogos entre o soprano e o tenor de Parker e o solo contínuo de Moholo, nomeadamente os apontamentos na “snare drum” a envolverem o desenvolvimento temático de cada tema. Pheto acrescenta “staccatos” da lavra de um Cecil Taylor (escute-se a raiva com que percute as teclas do piano, em “South Afrika is free – ok?”) e os dois baixos garantem a coesão de um álbum de música improvisada ao mais alto nível, orgânica, vital e, em caso algum, gratuita.
            O caso de Lol Coxhill é um caso à parte. Excêntrico por natureza, entregou-se nos anos 70 às delícias do rock progressivo alinhando ao lado de Mike Oldfield no The Whole World de Kevin Ayers, com quem gravou “Shooting at the Moon”. Outros atestados do seu desalinho incluem colaborações com Heidi Berry, a cantora folk Shirley Collins e o grupo punk The Damned. “Coxhill on Ogun” junta dois álbuns distintos, “Diverse” e “The Joy of Paranoia” ambos gravados na década de 70. É, na maior parte dos casos, e fazendo jus a essa paranoia que tem muito de humor, um delírio cozido a solo no sax soprano em “Diver” ou em “The Wakefield Capers” onde a a música escorre através do funk, do rhythm ‘n’ blues, do reggae e do free jazz. “The Clück variations”, um dueto com o pianista Veryan Weston inspira-se numa composição de Webern e “Divers” (a par de “Diver” uma das duas peças de “Diverse”) pinta-se com as camadas sobrepostas da música de câmara.
            Na ponta extrema e mais “jazzy” da escola de Canterbury, Elton Dean, Hugh Hopper, Dave Sheen e Alan Gowen, formavam os Soft Head, derivação dos Soft Heap, por sua vez uma prótese dos Soft Machine. Música construída sobre “riffs” saturados pelo baixo de Hugh Hopper, em desenvolvimentos cíclicos imbuídos do espírito e das formas da fase jazzística dos Soft Machine, mostra Elton Dean como o mais livre dos improvisadores do quarteto enquanto o malogrado Alan Gowen nem sempre encontra o espaço de manobra ideal para a sua inigualável veia melódica, seja no piano elétrico ou no sintetizador, como tão bem deixou exemplificado nos Gilgamesh e National Health, duas das formações de Canterbury às quais pertenceu. De entre os álbuns aqui em análise é sem dúvida o mais acessível, eventualmente tão macio como a cabeça do elefante que serve de ilustração à capa.
            Também já falecido, o baixista sul-africano Harry Miller radicado desde o início dos anos 60 na Inglaterra tem compilados num triplo CD os cinco álbuns que gravou em vida, quatro para a Ogun, um para a Vara records: “Children at Play” (em solo absoluto, no contrabaixo, flauta e efeitos percussivos), “Family Affair”, com os Isipingo (Marc Charig, Mike Osborne, Malcolm Griffi ths, Keith Tippett e Louis Moholo), “Bracknell Breakdown” (duos com o trombonista Radu Malfatti), “In Conference” (com Willem Breuker, Trevor Watts, Julie Tippetts, Keith Tippett e Louis Moholo) e “Down South”, com um quinteto com Han Bennink.
            “Children at Play” não é uma brincadeira de crianças, embora o jogo lúdico seja uma constante, na forma como Miller constrói melodias e ritmos plenos de imaginação, com o seu contrabaixo a funcionar em multipistas, tocado com arco como o ventre de uma baleia ou simplesmente dedilhado com a agilidade e sapiência de um mestre. “H and H” remete para uma melodia medieval no meio de quatro temas de entre os quais se destaca “Homeboy”, com Miller a fazer sobrevoar sobre o contrabaixo swingante uma flauta entoando uma melodia da África do Sul e “Children at play, phase III” entra por um túnel subterrâneo nos domínios da música clássica. “Family Affair” funciona segundo os parâmetros típicos da música de fusão inglesa dos anos 70, ainda sem os tiques que viriam a caracterizar o género, e de uma “free music” pujante de ideias e energia. “Jumping” faz saltar o corpo e o coração de alegria e entre os efeitos que provoca tem o de nos lembrar que este Keith Tippett é o mesmo que tocou como convidado em álbuns dos King Crimson, o mesmo acontecendo, aliás, com o próprio Miller, que tocou em “Islands”, um dos álbuns deste grupo. “Bracknell Breakdown” é o mais difícil do lote, feito de intrincadas conversas com o trombone que vão até à atonalidade. Avesso à estética do grito, torna-se curioso verificar como o registo do trombone de Malfatti se aproxima da microtonalidade e da estética minimalista de muita da atual música improvisada. Breuker e Watts combinam da melhor maneira em uníssonos e contrapontos. As raízes africanas afloram uma vez mais, em “Orange grove”, e Julie Tippets “scata” como uma gata em “Dancing damon” e num misto de sirene de alarme e Robert Wyatt, em “Traumatic experience closed”. Raízes que marcam também “Down South”, o mais étnico mas também o mais declaradamente imbuído da estética do “free jazz” dos cinco álbuns.
            Keith Tippett volta a estar no centro das atenções em “Frames”, subintitulado “Music for an Imaginary Film”, um épico gravado com a sua Ark onde pontificava a nata do jazz inglês dos “Seventies” (Stan Tracey, Elton Dean, Trevor Watts, Brian Smith, Larry Stabbins, Marc Charig, Henry Lowther, Nick Evans…), bem como Harry Miller, Louis Moholo e Peter Kowald. Podendo ser considerado um sucessor do megaprojeto Centipede, de “Septober Energy”, e registado na mesma época em que o pianista se concentrava nos seus Ovary Lodge (não foram reeditados em CD pela Ogun?), “Frames” possui essa dimensão cinematográfica, devendo ser escutado em ecrã gigante. Grandes naipes orquestrais, desenvolvimentos lentos e majestosos, cânticos ascensionais, momentos de demência e de minimal-repetitivo (uma sequência do segundo tema faz lembrar a música de Philip Glass envolvida em arame farpado) nas margens do que poderá ser designado de “jazz progressivo”, fazem a glória deste trabalho magnífico e “monstruoso” que é também o triunfo da composição, posta ao serviço, embora evitando os seus excessos e vazios, da própria essência da “free music”.

CHRIS McGREGOR’S BROTHERHOOD OF BREATH
Live at Willisau
8 | 10

LOUIS MOHOLO’S VIVA LA BLACK
Fredoom Tour, Live in South Afrika 1993
7 | 10

LOUIS MOHOLO QUINTET
Bush Fire
8 | 10

LOL COXHILL
Coxhill on Ogun
8 | 10

SOFT HEAD
Rogue Element
7 | 10

HARRY MILLER
The Collection
9 | 10

KEITH TIPPETT’S ARK
Frames
10 | 10

Todos Ogun, distri. Trem Azul

TUXEDOMOON - Cabin In The Sky


Y 2|JULHO|2004
roteiro|discos

tuxedomoon
cabine de provas

TUXEDOMOON
Cabin in the Sky
Crammed, distri. Megamúsica
8|10

Notícia excitante: os Tuxedomoon estão vivos. Melhor ainda: gravaram um álbum novo. Chama-se “Cabin in he Sky” e é, pelo menos, tão bom, como os álbuns clássicos da banda de São Francisco que se estreou com “Half-Mute” na mesma editora dos Residents e assinou a obra-prima “Desire” ou o angustiante e subterrâneo “Suite en Sous-Sol”. Corriam os anos 80, o tempo passou entretanto, mas o melhor permanece intacto – uma sonoridade única e canções que parecem querer desmoronar-se a qualquer instante mas acabam por se aguentar orgulhosas na sua própria lógica. O saxofone e teclados de Steven Brown e o violino de Blaine L Reininger fazem o som. Um romantismo estranho (é costume dizer-se, e é capaz de ser verdade, que os Tuxedomoon são a banda mais europeia da América) e estranhas combinações de letras em italiano (“Diario di un egoista”, “Luther blisse”) e ambientes cinematográficos fazem as canções. A folha de promoção não poupa nos elogios e, ao tentar definir “Cabin in the Sky”, garante que o disco suscita no ouvinte “impressões simultâneas de Miles Davis, eletrónica alemã, Paolo Conte, Radiohead, Debussy, ciber-ciganos, Michael Nyman, Velvet Undergound e uma dúzia de outros”. Descontando o prazer que é sempre ver citado Paolo Conte, o álbum é Tuxedomoon “vintage”, ainda que, desta feita, o grupo se tenha socorrido das colaborações de John McEntire, Aksak Maboul, Tarwater, Marc Collin, Juryman e DJHell. Mais a propósito, a mesma folha, abre um catálogo de pintura e lança os nomes de Pollock, Bacon, Miro e Dali. Já faz mais sentido. Cada canção é um híbrido que abarca várias influências, constituindo-se em quadros de disformidade e de uma beleza que atinge os píncaros do surrealismo em “La Piu Bella”, construído a partir de um sample com a voz de um anónimo italiano. No extremo oposto, “Here ‘til Xmas” é electro, graças à presença de DJHell, o mesmo que que há dois anos gravou uma série de remisturas de um dos temas mais antigos dos Tuxedomoon, “No Tears”, e “Chinese mike” combina elementos dos Cabaret Voltaire, respiração asmática, uma secção de sopros e batida falsamente “house”, enquanto “The island” cola ondas de poluição a ruído rosa, sintetizador borbulhante e um saxofone lânguido, num tom mais experimental semelhante ao dos álbuns a solo de Peter Principle, e “Luther blisset” (de novo com letra em italiano) é irresistível na junção de ritmo tecno com “free jazz”. Há os habituais ambientes de feira, nostalgia gelada, um baixo poderoso (“A Home away” esmurra-nos o estômago), acordeão, programações poderosas, jazz de bordel e grandes canções, como “Baron brown”, entre a declamação e uma “catchiness” com algo a fazer lembrar os finlandeses Wigwam. A atitude já não é tão punk como nos primórdios mas a inteligência e a desfaçatez continuam intactas.
Os Tuxedomoon tornaram-se uma das grandes bandas do séc. XXI e “Cabin in the Sky” tem a elegância de um fato Armani.

Eugene Chadbourne no Porto e em Lisboa


CULTURA
QUARTA-FEIRA, 30 JUN 2004

EUGENE CHADBOURNE NO PORTO E EM LISBOA

Eugene Chadbourne merece ser considerado um dos excêntricos mais inovadores do “underground” nova-iorquino. Aos 50 anos este lunático que chamou à sua própria música LSD C&W (“LSD country & western”) apresentará em Portugal – em dois concertos, hoje, no Porto, e amanhã, em Lisboa – a sua mistura de folk ácida, jazz, rock e guitarra “bottleneck” servidos com uma boa dose de humor.
Influenciado pelos Beatles, Chadbourne começa a interessar-se pela experimentação depois de ouvir Jimi Hendrix, desenvolvendo técnicas especiais com caixas de “fuzz” e pedais de distorção. Acabou por trocar a guitarra elétrica por uma acústica. O jazz percorre-lhe as veias. Ouve Coltrane e Roland Kirk. Mais tarde Derek Bailey e Anthony Braxton. Torna-se jornalista e declara-se objetor de consciência, seguindo para o Canadá em vez do Vietname. Regressa aos EUA em 1976 para mergulhar a fundo na cena “downtown”, gravando o seu primeiro álbum a solo, “Solo Acoustic Guitar”, e iniciando colaborações com John Zorn e Henry Kaiser.
Desenvolve um estilo muito pessoal, inclassificável. Uma mistura de improvisação livre, música de protesto, jazz vanguardista e vocalizações estridentes. Nos anos 80 forma com Kramer os Shockabilly, onde ilustra o seu modo particular de encarar a música rockabilly. Em 1987, grava o tal “LSD C&W” e junta-se aos Camper Van Beethoven para a gravação de um álbum de “covers”.
Colabora com Fred Frith, Han Bennink, Toshinori Kondo e Elliott Sharp e, no rock, com os Sonic Youth, Butthole Surfers e They Might Be Giants. Desde então, a sua lista de álbuns cresce interminavelmente, abarcando títulos como “The President He Is Insane”, “Dinosaur on the Way”, “Corpses of Foreign War” (com os Violent Femmes), “Vermin of the Blues”, “Country Music of Southeastern Australia” e “I Support the Troops and I Want my Money Back”. Tanto toca versões de Tom Jobim e dos Motorhead como faz a transposição para banjo de uma “suite” de Bach. O seu ecletismo, aliado ao humor e à espontaneidade, permite-lhe, como diz a revista “Wire”, “subir a qualquer palco em qualquer parte do mundo e, instantaneamente, fazer com que o mais difícil dos públicos se renda ao seu trabalho.”

Eugene Chadbourne
PORTO Café Concerto Rivoli. Tel.: 223 392 219.
Hoje, às 22h30. Bilhetes a 5 euros.
LISBOA Galeria Zé dos Bois. Tel.: 213 430 205.
Dia 3, às 21h30. Bilhetes a 7,5 euros.

17/02/2020

Abrir a boca de espanto [Brian Eno]


Y 18|JUNHO|2004
roteiro|discos

brian eno
abrir a boca de espanto


BRIAN ENO
Here Come the Warm Jets
8|10

BRIAN ENO
Taking Tiger Mountain (By Strategie)
10|10

BRIAN ENO
Another Green World
10|10

BRIAN ENO
Before and After Science
10|10
Virgin, distri. EMI-VC

Brian Peter George St. Jean le Baptiste de La Salle Eno. Brian Eno para os amigos. Derrubou, remodelou e fugiu a sete pés da pop, criando com a sua “música discreta” as fundações de um edifício novo, com a etiqueta de “ambiental”, para a eletrónica dos nossos dias.
Mas no princípio era o artifício e a experimentação com as cores e formas da pop, lidas, relidas e regurgitadas como algo desfasado das normas ou, para usar o léxico do próprio, desenhadas de acordo com as “estratégias oblíquas”. Eno acabara de abandonar os Roxy Music, onde a força da sua imagem fazia espumar de ciúmes o “dandy” Bryan Ferry. Plumas e lantejoulas e um sintetizador de trazer por casa transitaram para “Here Come the Warm Jets”, álbum de fazer torcer o pescoço no esforço de encontrar referências apaziguadoras. Não havia. Aqui a pop desta Ruth Marlene aristocrata de cabelo ralo e pintura borrada era convulsão, as melodias pareciam existir desde sempre para se acoitarem em arranjos de um “não músico” que integrava o erro e o acaso no seu modo de agir. Alguns temas são demolidores. Diretos, lancinantes e, apesar disso, correndo ao pé-coxinho, como “Blank Frank” e o hino que arde, “Baby’s on fire”. As guitarras de Robert Fripp e Phil Manzanera serviam de rastilho. Pelo meio, experimentação e falsas baladas orgulhosamente pimba como “Some of them are old”. Bowie aprendeu a lição.
“Taking Tiger Montain (by Strategy)” é a primeira obra-prima. Inspirado nas “estratégias oblíquas” e na pintura de Peter Schmidt, refina a pop do disco de estreia. Impossível classificar estas canções que soam familiares e alienígenas, simples e incrivelmente complexas. Eno, o não-músico, descobria em cada nota, em cada reviravolta nas manipulações de estúdio, o prazer da criança que brinca com o desconhecido. “The true wheel” utiliza uma máquina de escrever para fazer o ritmo e a hipnose final, “Taking tiger mountain”, é uma lenta ascensão em espiral, “trompe l’oeil” auditivo cujos círculos sugerem um movimento que é pura ilusão.
Com “Here Come the Warm Jets” (uma das bíblias do pós-rock) Eno inicia o seu processo de afastamento da pop para se aproximar de uma música feita de fragmentos. A voz apaga-se para deixar brilhar a eletrónica e os efeitos especiais, as melodias ocultam-se e revelam-se em jogos de cabra-cega mas tudo se ilumina numa saudade de ouro em “Golden hours”, pura evocação não se sabe bem de que passado glorioso. Fripp, Phil Collins e John Cale são alguns dos participantes deste álbum feito de coincidências e confidências sussurradas demasiadamente baixo para lhe furtarmos um sentido único.
“Before and After Science” deve ser arrumado na estante dos discos fundamentais dos anos 70. É o retorno às canções construídas como colagens, mas agora envoltas na névoa minimalista resultante do contacto entre Eno e a dupla germânica Cluster, num tema como “By this river”, influência decisiva nos dois sentidos, já que também Moebius e Roedelius se deixariam enredar nas malhas do inglês nos seus “Cluster & Eno” e “After the Heat”. “Before and After Scince” anuncia ainda a new wave, no esplendor da sua energia concentracionária. “King’s lead hat” é uma homenagem, com título em anagrama, aos Talking Heads e “No one receiving” e “Kurt’s rejoinder” fazem boa companhia ao lado da trilogia do Bowie de Berlim, para quem este disco viria a constituir leitura obrigatória.
Eno inventou a sua própria ciência e passaria os anos seguintes a teorizar sobre ela. Viria a seguir a fase dos murmúrios, das metamorfoses do céu sobre Manhattan e da música sonhada num leito de hospital com a qual reinventaria, como John Cage, o silêncio. Antes, porém, vale a pena agarrar estes quatro álbuns que fazem a pop abrir a boca de espanto...

The Yardbirds - For Your Love... + Having A Rave Up With The Yardbirds


27|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro


YARDBIRDS

For Your Love, Heart Full of Soul & Others
8|10
Having a Rave Up With The Yardbirds
9|10
Sunspots, distri. Trem Azul

É comprar bilhete e recuar até ao tempo dos blasers justos, camisas, gravatas e “look” a fingir de atinado. Meados dos anos 60, o “cocktail” de drogas, “blues” e chá das cinco anunciava já o psicadelismo mas pouco tempo antes das fl ores e cabeleiras começarem a crescer o som pop inglês rimava “rhythm ‘n ‘blues” com uma veia melódica por vezes barroca. Os Yardbirds foram gigantes desta época. Com escassa discografia editada no país de origem, viram os seus melhores trabalhos serem lançados do outro lado do Atlântico, como “Little Games” e os agora remasterizados “Having A Rave Up With The Yardbirds”, de 1966, e “For Your Love”, antologia de 1965. “For Your Love”, título de canção que se tornaria “standard” dos anos 60, é mais energético e r&b em sangue, com a guitarra, já a escorrer ácido, de Jeff Beck que nesta altura tomara o lugar no grupo antes ocupado por outros dois futuros “guitar heroes”, Eric Clapton e Jimmy Page, e as vocalizações de Keith Relf (formaria os Renaissance e morreria poucos anos mais tarde). “Rave Up”, mais subtil, tem “blues” demoníacos, clássicos como “Heart full of soul” e “Evil hearted you” e proto-prog (“Pounds and stomps”). A pop inglesa de guitarras nasceu e mordeu aqui.

13th Floor Elevators - The Psychedelic Sounds Of 13th Floor Elevators


27|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

13TH FLOOR ELEVATORS
The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elevators
Sunspots, distri. Trem Azul
9|10

Do alto desta pirâmide 300 doses de LSD nos contemplam. 300 foram as vezes que, segundo as crónicas, Rocky Erickson ingeriu a substância mágica. Viria a flipar e a ser preso mas ainda teve tempo para gravar, em 1966, uma das obras-primas do psicadelismo. Subiu de elevador até à pirâmide de 25 andares e de lá fez a apologia de uma nova visão da realidade. “The Psychedelic Sounds...” é essa viagem guiada até ao cume, com direito a sexo, experimentação, sonhos lisérgicos e, no último tema, a redescoberta de Deus. Não se pense, porém, que Rocky era do tipo “flower power”, “California dreamin’”, incenso e tangerinas. A sua loucura é amarga e o som dos 13th Floor tresanda a rock de garagem. Em estados alterados de audição corre-se o perigo de não encontrar a saída. A bússola e o relógio deixam de funcionar em mantras (imaginem os Velvet sem a auto-disciplina) onde a guitarra de Stacey Sutherland, a voz e a cabeça de Rocky e o tempo reverberam, se deformam, encolhem e dilatam, e em canções como “Splash 1” que estabelecem a comunicação telepática entre Syd Barrett e Rocky. Tiveram ambos mau fim. Deixaram ambos traçado um caminho estreito que conduz às estrelas. Ou ao lado escuro da lua.

Joni Mitchell - The Complete Geffen Recordings


27|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

JONI MITCHELL
The Complete Geffen Recordings
4xCD Geffen, distri. Universal
6|10

Os anos 80 não foram gentis para Joni Mitchell nem ela foi gentil para os anos 80. “Wild Things Run fast” (1982), “Dog Eat Dog” (1985), “Chalk Mark in a Rain Storm” (1988) e “Night Ride Home” (1991) foram (des)considerados desfasados da época. A cantora canadiana retorquiu, queimando os “eighties” como a década da decadência e do materialismo. Mas Joni condescendeu e estes quatro trabalhos podem ser considerados os mais fracos da sua discografia. Afastada da veia jazzística e experimental de “The Hissing of Summer Lawns”, “Hejira” e “Mingus”, entrou de cabeça na pop mas deu-se mal com a superficialidade de uma música formatada no lado mais plastificado da eletrónica. Se “Wild Things” pode ser apreciado como operação de simplificação, com entrada no rock FM, “Dog Eat Dog” desce aos baixios da electropop e “Chalk Marks…” afunda-se no lodo de colaborações pouco enriquecedoras (Peter Gabriel, Willie Nelson, Tom Petty e Billy Idol). Em “Night Ride Home”, felizmente, Joni sacudiu a poeira e as ramelas dos olhos e arranjos, despertando de novo para as grandes canções. Os discos, remasterizados, ressurgem em caixa e capas de cartão que são simplificações das originais.

Dan Ar Braz - A Toi Et Ceux


Y 27|FEVEREIRO|2004
roteiro|discos

DAN AR BRAZ
A Toi et Ceux
Columbia, distri. Sony Music
5|10

Dan Ar Braz fez pela vida. O guitarrista bretão que acompanhou Alan Stivell nos primeiros anos deste harpista, palmilhou a estrada que conduz ao castelo das estrelas. Hoje, como Carlos Nuñez ou os Chieftains, Braz é uma estrela que se pode permitir estourar orçamentos gordos, convidando artistas folk e rock de nomeada. O fundador do megaprojeto “Héritage des Celtes” enveredou a partir desse disco pelo caminho mais fácil, tentando chegar às massas pela via do choradinho “new age” e do postal do misticismo céltico, cozidos no caldeirão das fusões. Em “A Toi et Ceux”, sem grandes trutas no estúdio (só Mairtin O’Connor, no acordeão), Braz vende mais um bocadinho da alma ao diabo. “Mary’s dancing”, cocktail ligeiro de celtismo e música africana, com arranjo pindérico, e “Look around you” não abonam a favor. Do outro lado, “Dan’s fisel” oferece um bom desempenho de Ronan Le Bars nas “Uillean pipes” apesar do tema, bem como “Orgies nocturnes” (com boa bombarda e guitarra elétrica prog), recuarem exatamente ao ponto, nos anos 70, em que Alan Stivell anunciou ao mundo o folk rock bretão, no álbum “Chemins de Terre”. O resto, quase tudo, foi de mais.

E Deus desceu à cave [Nick Cave]


CULTURA
QUINTA-FEIRA, 26 FEV 2004

Crítica Música

E Deus desceu à cave

NICK CAVE
LISBOA Centro Cultural de Belém
3ª-feira, dia 24, às 21h30.
Lotação esgotada

Encarado frio, não foi um concerto de antologia, embora a espaços chegasse a ser entusiasmante. Nick Cave, o cantor australiano das baladas soturnas através das quais tenta ficar de bem com Deus e com o diabo, e do rock incendiário que ainda subsiste no seu trabalho com os Bad Seeds, regressou a Portugal para lotar na noite de terça-feira (o concerto de ontem teve igualmente lotação esgotada) o grande auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e reatar os laços de sangue que o unem à sua imensa legião de admiradores portugueses.
Mas se os cardos do rock picaram e fizeram arder, as rosas das baladas chegaram a provocar bocejos. Cave, o “crooner” de colarinho grande, fato escuro e cigarro aceso ao canto da boca, tocou piano e cantou na sua voz grave o habitual caminho que, nas suas canções, se estende da salvação à condenação. Da elevação de “Hallelujah” ao assassínio como uma das belas artes de “Henry Lee”.
O problema esteve nesse pequeno pormenor também ele capaz de assassinar uma boa canção: o velho desafinanço. E Cave desafinou, andou à deriva em busca do tom certo, atingindo o nível mais baixo numa desastrosa interpretação de “Do you love me?” (se cantasse sempre assim não haveria, decerto, quem o amasse…), um dos temas, juntamente com “Love letter” e “God is in the house”, do álbum “No More Shall We Part”. Contudo, se a voz falhou, a emoção esteve sempre presente. E nos temas rock, com as tripas de fora, ele e o grupo foram avassaladores, como em “Wild life”, retirado do velho reportório dos Birthday Party, e na demencial descarga de raiva e decibéis, já nos “encore” (foram três), de “Stagger Lee, do álbum “Murder Ballads”, onde o violinista Warren Ellis provou ser mais eficaz no registo “noise” (várias vezes segurou e tocou o instrumento como se tratasse de uma guitarra elétrica) do que nas “performances” mais melódicas das baladas.
“Watching Alice” (de “Tender Prey”), “Lucy” (de “The Good Son”) “Sad waters” (de “Your Funeral… My Trial”) e “The singer” (composto por e em homenagem a Johnny Cash, do álbum “Kicking Against the Pricks”) foram outros temas escolhidos por Cave para prender o CCB, a par dos mais recentes “Wonderful life” (a abrir o concerto) e “Still in love”, “He wants you” e “Rock of Gibraltar”, do novo “Nocturama”, com direito a esquecimento de uma letra, diálogos em português arrevesado com o público e apresentação de atestado de baixa por danos psicológicos (“os anos 80 provocaram-me alguns estragos cerebrais… e os 90… bom, pensando bem, os 70 também…) que é, ao mesmo tempo, certificado de garantia da energia demoníaca que subjaz a toda a sua música, de “West country girl” (transformada em “evil song”…) a cada golfada de sangue que espirra de feridas ainda abertas. “Ganda maluco!”, gritou alguém do camarote.
O público, escusado dizer, adorou, entrando em delírio quando Cave se aproximou da boca de cena para cumprimentar os fãs, incluindo uma rapariga em transe depois de ter conseguido ser beijada na boca pelo cantor. O beijo da serpente. Mas que importa, se as sementes daninhas continuam a ter terreno fértil em Portugal?

EM RESUMO
O Cave soporífero de algumas baladas foi suplantado pelo velho rocker dos Birthday Party. Chegou a ser demolidor

13/02/2020

Noturnos do velho Nick [Nick Cave]


Y 20|FEVEREIRO|2004
roteiro|ao vivo

noturnos do velho Nick

Não há perdão para os nossos pecados. Deus é o “croupier” de um casino onde se joga a salvação. Quando o navio vai ao fundo os primeiros a abandoná-lo são os ratos. O capitão do navio é um rato. Salve-se quem puder do naufrágio e rezem-se as últimas orações aos santinhos que restam. Nick Cave, que atua por duas noites no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a 24 e 25, já rezou tudo o que tinha a rezar mas está por saber se a sua alma ficou da cor de um lençol ou suja como antes, nos tempos dos Birthday Party e da fase perigosa dos Bad Seeds.
Há quem lhe chame cínico e o ache gasto. Ele está simplesmente mais velho e, provavelmente, farto de pregar no deserto. O seu último álbum, “Nocturama”, tem extremado as opiniões. Nada de novo na capela, viciou-se nos Evangelhos, bradam uns. Está mais depurado e – olhem lá – tão furioso como nunca, garantem outros, agitando a bandeira do último e arrasador tema, “Babe, I’m on fire”, 15 minutos de incêndio que reduzem o mundo a cinzas.
A verdade, a existir alguma, está, como quase sempre acontece, no meio termo. “From Her to Eternity” leva o seu tempo e o cantor australiano avançou pelo caminho das pedras. Como Diamanda Galas, Cave é prisioneiro da culpa, que sublima através de uma arte apocalíptica e de uma religiosidade com os contornos da vingança.
O rock não chega para expiar os pecados mas serve para martirizar. Cave e Galas recusam ser mártires e, como tal, optaram por infligir aos outros o martírio – a praga, a peste, a paixão (“Babe, I’m on fire” é a sua mais recente e universalista ferroada) que, de entre as doenças da alma, é mais letal. Por isso recuaram ambos à matriz do “blues” e do “gospel”, só que em vez da auréola dos santos deixaram crescer chifres na cabeça e exalam um hálito a enxofre. O “bom filho” não o é, certamente, de Deus. “And the Ass Saw the Angel”? É bem possível, pois Lúcifer tem esse estatuto.
Musicalmente, Nick Cave roda, sem dúvida, em torno de sonoridades e obsessões que não são novos na sua obra. A entrada de Blixa Bargeld, dos Einstürzende Neubauten, para os Bad Seeds significou o reforço do esqueleto e da musculatura do grupo mas mesmo essa terapia parece já não surtir efeito sobre um “rocker” que, aparentemente, em definitivo deixou de o ser. Porém, a poesia e o terço de “Nocturama” continuam a deixar marca. O hábito pode provocar sintomas semelhantes aos da morfina.
Ou será que “Babe, I’m on fire” é o primeiro passo do eterno retorno? Nesta litania cujo objetivo é idêntico ao dos Neubauten, isto é, a demolição sistemática das casas (“Home is in my head”, cantava alguém e Cave chamou ao seu primeiro DVD, recentemente editado, “God is in the House”…) que sustentam e abrigam os medos de cada um de nós, e a incineração dos crucifixos na pira da loucura.
Um ex-seminarista, Ernest D. Gengenbach, escreveu, no auge do período do Surrealismo, uma obra intitulada “A Experiência Demoníaca”. Salvou-se ou não, no final, leiam o livro. Nick Cave anda por aí, a desviar-se ou, vá lá saber-se, a dar comida à mão aos seres noturnos. O branco da capa de “Nocturama” é o da noite.

NICK CAVE
LISBOA|Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
Pç. Império. Dias 24 e 25, às 21h30.
Tel.: 213612444 . Bilhetes entre €50 e €30

Paco de Lucía - Cositas Buenas


20|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

PACO DE LUCÍA
Cositas Buenas
Ed. e distri. Universal
7|10

Melhor “Cositas Buenas” do que nada. Paço de Lucía, um dos magos do flamenco, é incapaz de fazer maus discos. O “duende” pode estar mais ou menos adormecido dentro de si mas pode sempre esperar-se alguma chama. Sem o esplendor de álbuns como “Entre Dos Aguas”, “Siroco” ou “Almoraima”, “Cositas Buenas” impele à dança dervíchica e induz à sensualidade, dando voz e corpo à modernidade que tem sido desde sempre apanágio do guitarrista. O flamenco funde-se com o jazz rock no título tema e em “Antonia”, e com África, em “El dengue”. Estão presentes as palmas, os olés de incitamento e, na melhor de todas estas coisinhas boas, a voz de Camarón de la Isla (há aqui um enigma por resolver: as composições são novas, a voz não parece samplada mas a verdade é que o cantor há mais de dez anos que deixou o mundo dos vivos…) e a guitarra de Tomatito, em “Que venga el alba”. As bulerias, tangos, rumbas e tientos de “Cositas Buenas” mais do que fogo são água que refresca. A limpidez com que Paço de Lucía a faz nascer permanece impoluta.

Fórmula 1 sem competição [Carlos Nuñez]


CULTURA
QUARTA-FEIRA, 18 FEV 2004

Crítica Música

Fórmula 1 sem competição

Carlos Nuñez
LISBOA Grande Auditório do CCB.
2.ª feira, às 21h. Sala cheia.

Um músico fabuloso pode dar um mau concerto? Às vezes acontece. Aconteceu na passada segunda-feira, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, onde Carlos Nuñez fez nova demonstração do seu virtuosismo sem que tal fosse sufi ciente para afastar o espetáculo, nalguns momentos, da vulgaridade.
Ponto assente: a tocar “tin whistle”, uma quantidade de flautas, ocarina ou gaita galega, Carlos Nuñez é um assombro e, nesse capítulo, a sua apresentação no CCB não fez mais do que confirmar as suas inegáveis capacidades de intérprete. Nos “reels” irlandeses, nas modalidades galegas, nos tempos rápidos (que no seu caso roçam a vertigem) ou nos lentos, Nuñez reafirmou a sua técnica quase sobrenatural, aliada a um sentido inato do tempo e à capacidade em extrair de cada tema a sua natureza mais íntima.
Mas Nuñez, sozinho, não pode fazer tudo. O quarteto que o acompanhou no CCB, por mais entusiasmo e empenhamento postos na função, não conseguiu estar à altura do solista. Pancho Alvarez, no bandolim, cumpriu sem brilhar, e Begoña Riobó mostrou que o seu violino entra em “panne” a partir da quinta velocidade, já para não falar da dificuldade em entrar no tom certo da única vez que foi chamada a cantar, em “Cantigueiras”, de “A Irmandade das Estrelas”. Quanto ao baterista Xuxo Nuñez, fez levantar uma vez mais a questão de saber até que ponto a bateria enriquece ou não as danças tradicionais. Neste caso, não enriqueceu.
Os ritmos quadrados, a batida primária, podem chamar as palmas mas enterram qualquer tipo de veleidade de fazer correr um “swing” de maior complexidade. Xuxo também tocou – mas quase não se ouviu, por deficiente amplificação, o “bodhran” – e tentou dar “show” num solo de percussão numa espécie de txalaparta improvisada. Soou a circo.
Claro, a tudo isto, acrescido a um reportório escolhido para agradar sem exigir, resvalando em certos temas para a folk-pimba, respondeu Nuñez com intervenções de cortar o fôlego. Num dos solos de gaita, antecipado por uma explicação didática e bem-humorada das diferenças entre as gaitas-de-foles escocesa, irlandesa e galega, reproduziu na galega (mas como consegue ele arrancar tais prodígios, apetece perguntar?) o timbre das “Highland pipes” escocesas antes de se lançar, desvairado, num tempo do outro mundo, onde a música, as emoções e os sentidos são arrastados para uma pista de corridas.
Houve surpresas. Com convidados portugueses. Lilia, uma das vozes reveladas na Academia de Estrelas, da TVI, lançada às feras, cumpriu com gravidade o papel que em “A lavandeira da noite”, do álbum “Os Amores Libres”, é desempenhado por Noa. Paulo Marinho e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, fizeram de micro-Bagad, em “El ottro Finisterre” e no final apoteótico, “Aires de Pontevedra”. Parte do público, que encheu o CCB, fez roda e invadiu o palco (como já acontecera, sábado, no Rivoli do Porto) dançando, mas sem folia, um “an dro” bretão mas, no final, nem sequer foram pedidos todos os “encores” que o alinhamento previa.
No meio da festa que não chegou a acontecer – o palco imenso do auditório do CCB afasta os músicos e arrefece os ânimos, neste tipo de música –, cumpre salientar um momento onde tudo foi redimido pela devoção, quando Nuñez homenageou Derek Bell, o harpista dos Chieftains falecido em Outubro de 2002, com Xuxo Nuñez a recortar ao piano as notas de cristal de uma harpa céltica.
Fez-se silêncio, a noite iluminou-se na despedida de um “air” (“Women of Ireland”, original composto por Bell para a banda sonora de “Barry Lyndon”) e Carlos Nuñez ergueu o “tin whistle”, soltando o eco das últimas notas em direção ao céu.

EM RESUMO
Um músico fabuloso não chegou para fazer um bom concerto. Mas a homenagem a Derek Bell roçou o sublime


Um galego da Bretanha em portugal [Carlos Nuñez]


CULTURA
SÁBADO, 14 FEV 2004

Um galego na Bretanha em Portugal


Um galego. Um galego na Bretanha. Um galego, Carlos Nuñez, cidadão do mundo que hoje à noite toca no Porto, e na próxima segunda-feira em Lisboa. Carlos Nuñez volta a atuar em Portugal, desta feita para apresentar o novo álbum “Un Galicien en Bretagne”.
            Carlos Nuñez é um virtuoso da gaita. Alguém que faz milagres com o instrumento. Nada de mal-entendidos, porém. Nuñez não é nem um pornógrafo nem um Messias, mas um fabuloso executante de gaita-de-foles galega. Também de flauta e “tin Whistle”. O seu tecnicismo é de tal ordem que a mítica banda irlandesa The Chieftains o apadrinhou, convidando-o para participar no álbum “Santiago” e em inúmeros espetáculos ao vivo. Escutar Nuñez e Paddy Moloney (nas “Uillean pipes” irlandesas) tocando ao desafio é uma das delícias que a audição de folk de raiz céltica pode proporcionar.
            Mas Nuñez não necessita de padrinhos. A sua obra a solo alcançou já enorme projeção internacional. Em parte devido à estratégia de convidar para cada disco artistas de renome, em parte pela excelência de uma música que consegue conciliar o respeito pelas raízes e a inovação. Carlos Nuñez é um celta de coração e, por essa razão, um músico universalista aberto às outras culturas do mundo.
            “A Irmandade das Estrelas”, de 1996, inspirado no Caminho de Santiago, deu início a uma peregrinação que o levaria às estrelas e ao estrelato no circuito folk europeu. Entre os convidados figuram Dulce Pontes, Ry Cooder, Luz Casal, Sinead O’Connor, Paddy Moloney e a Vieja Trova Santiaguera.
            “Os Amores Librés”, de 1999, é uma interessante justaposição do Norte celta e do Sul andaluz. Nuñez experimenta novas técnicas e registos emocionais na gaita galega, inflamando-a com o fogo do flamenco. Teresa Salgueiro, Sharon Shannon, Cármen Linares, Vicente Amigo, Dan Ar Braz e Frankie Gavin estão entre os convidados.
            “Mayo Longo”, de 2000, com Liam O’Flynn e Hector Zazou, mantém a “verve” mas “Todos os Mundos”, de 2002, roça o descalabro, resvalando para fusões cuja comercialite indica eventuais pressões do mercado (os discos de Nuñez tornaram-se êxitos de vendas).
            Carlos Nuñez viu a luz vermelha e emendou a mão. O novo “Un Galicien en Bretagne” (com Gilles Servat, Dan Ar Braz, Alan Stivell, Patrick Mollard, Gilles le Bigot…) recupera o equilíbrio sem abdicar da modernidade. É um Nuñez de novo apaixonado pelas modalidades tradicionais, em particular pela música bretã. Além do mais, Nuñez tornou-se homem de muitas gaitas. O seu virtuosismo estende-se agora às “uillean pipes” e, claro, à “biniou-koz” bretã, na recriação dos ancestrais “an dro”. Esta noite, o CCB poderá tornar-se palco de uma “festounoz” – os bailes mágicos que até hoje religam a Bretanha à Eternidade.

CARLOS NUÑEZ
PORTO, Teatro Rivoli. Tel. 223392200. Às 21h30. Bilhetes entre 7,50 e 20 euros.
LISBOA, Centro Cultural de Belém. Tel. 213612444. Segunda-feira às 21h. Bilhetes entre 5 e 25 euros.

O improvisador planetário [Jazz]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 14 FEVEREIRO 2004

O alargamento das fronteiras e da “praxis” da música improvisada foi um dos objectivos em vida de Peter Kowald. “World” afinal também liga com jazz. Neste caso, um mundo tão global que se estendia a outros planetas.

O improvisador planetário

Morreu em Nova Iorque, há três anos – Peter Kowald, o improvisador planetário. Não foi o mais amado dos improvisadores, mas foi certamente um dos mais inquietos e imaginativos. Era alemão, de Wuppertal, tocava contrabaixo e, ao longo de uma carreira pautada pela busca e pelo alargamento dos horizontes da improvisação, tocou com a Globe Unity de Alexander Von Schlippenbach, com Manfred Schoof e Peter Brötzmann (no incontornável disparo de “Machine Gun”) e ajudou na fundação da editora FMP (“Free Music Productions”).
            O contacto com várias culturas do globo levou-o a integrar no léxico da improvisação novas linguagens, recolhidas sobretudo da música tradicional, mas também à adaptação de tecnologias e outros idiomas extrínsecos ao jazz. Nunca quis a fusão, mas privilegiou o diálogo. No jazz como na folk, também ele, como nós, abominava a sopa. Talvez por isso os apreciadores do jazz mais canonizado o encarassem com alguma indiferença. Tanto pior – para Kowald o importante não era a ortodoxia, mas a descoberta.
            O segundo volume de “Duos” é uma oportunidade irrecusável para comprovar a extensão desta prática e desta atitude. Composto por gravações registadas entre 1986 e 1990, o álbum apresenta diálogos, discussões, “big bangs”, iluminações e maldições partilhadas com outros aventureiros. A lista é impressionante: Evan Parker, Jeanne Lee (também já desaparecida), Toshinori Kondo, Julius Hemphill (idem), Seizan Matsuda, Diamanda Galas, Conrad Bauer, Butch Morris, Fred Frith, Masahiko Kono, Andrew Cyrille, Floros Floridis, Michihiro Sato, Derek Bailey, Marilyn Mazur, Junko Handa, Yoshisaburo Toyozumi e Tom Cora (idem, idem). Os contrapontos e réplicas provêm da eletrónica, saxofone, clarinete, baixo, violoncelo, trombone, bateria… mas também dos étnicos shakuhachi, shamisen, biwa… E da voz endemoninhada da bruxa Galas. É “world music” no sentido mais lato do termo, não enfermada a qualquer tipologia. Kowald rompeu os limites sem se render no niilismo. Não é audição fácil, nem poderia ser. A gramática avançada do alemão ignorava as evidências. Dependia dele pescar no fundo de águas agitadas por diferentes graus de ondulação e contaminação.
            Cada um destes duos é conversa singular, nalguns casos hermética, mas empenhada em reter e pronunciar o essencial. “Drones” e baixas frequências subterrâneas, histeria de arco, vociferar furibundo, contemplação tensa, contágio, fogo. O contrabaixo de Kowald era um animal mitológico, organismo mágico e mutante que da música do outro fazia janela, porta e espelho. Retire-se a senha com qualquer um dos nomes citados. Ver-se-á que Kowald se ajusta aos seus tempos e aos seus mundos sem perder a personalidade própria. Ouça-se, por exemplo, o que ele faz com Galas ou o que Galas faz com ele. Se ela é a feiticeira, o seu contrabaixo é a varinha do mago. Ela “scata” no inferno, como é seu hábito; ele responde com um zumbido de vespa assassina, o ferrão pronto a espetar-se. No Jazz? Mas é jazz, isto? Que importam os rótulos? Kowald não age como um “jazzman”, mas como um conspirador, xamã, ladrão e cavalheiro. Procurem lugares ermos mas não pensem em descortinar fronteiras. A “Global Village” que Kowald criou em vida era a sua pátria. E, lá, todos os que a visitavam sentiam-se livres.
            E já que falamos em duos, Joe McPhee e Evan Parker estão à altura um do outro, em “Chicago Tenor Duets”. Ao ecletismo intuitivo do primeiro responde o conceptualista dos Spontaneous Music Ensemble com uma visão mais intelectualizada, mas também mais frenética. O contexto é simples no enunciado – onze duetos de saxofone tenor – resultando a complexidade da complementaridade, mais do que da soma. Como seria de esperar, recorrem ambos as técnicas extensivas, nomeadamente o “ataque” à palheta e a respiração circular, como no “Duet 4”. Música de vísceras mas também de chamamento (“Duet 7”), vive tanto da concentração como da interrogação sobre a estabilidade que resulta do choque entre dois combatentes. Na prática, porém, é mais pacífico do que parece.
            Retornemos ao conforto da Nagel Hayer e à sua inesgotável reserva de jazz bem escorado na tradição. “Real Life Stories” (2001), de Donald Harrison, saxofonista alto, arrisca pouco, contando com uma secção rítmica competente que tira o melhor partido da inspirada contribuição de Eric Reed, ao piano. Jazz arreigado às convenções mas, definitivamente, bem tocado e sentido. Tem um tema de Sonny Rollins (“Oleo”), outro de Dizzy Gillespie (“A night in Tunisia”), outro ainda de  Paul Desmond (“Take five”, servido por um alto à altura do original). Três ultraclássicos que reforçam a veia tradicionalista destas histórias da vida real. Harry “Sweets” Edisom, trompetista principal da “big band” de Count Basie, entre 1938 e 1950, parceiro de Ben Webster e Art Tatum, falecido em 1999, após uma vida bem recheada de jazz, volta a swingar na nossa memória numa sessão ao vivo de 1986, no Quasímodo de Berlim, “There Will Never be Another You”. A guitarra de Giorgio Crobu tem métrica fluente e instinto, Hendrik Meurkens espalha colorido com gama alta de reverberação no vibrafone e Torsten Zwingenberger (atualmente elemento do grupo de Lyambiko, leia-se o texto da semana passada) acentua com alguma graça os contratempos. “Sweets” faz o resto, com o seu trompete sem arestas afiadas, atinado nas surdinas, em temas de Gillespie, Ellington, Gordon, Gershwin ou Jobim (numa “Wave” dispersa pelo caricatural e a genuína melancolia da bossa-nova).

PETER KOWALD
Duos 2
FMP, distri. Multidisc
8 | 10

EVAN PARKER & JOE McPHEE
Chicago Tenor Duets
Okka, distri. Ananana
7 | 10

DONALD HARRISON
Real Life Stories