16/10/2026

O Atlântico visto por um "bit" [Vasco Martins]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock

 

O ATLÂNTICO VISTO POR UM “BIT”

 

Ele é um solitário que vem tecendo a sua obra longe das multidões. Uma espécie de iluminado. Pela luz do Atlântico e das ilhas de Cabo Verde. Vasco Martins tem vários álbuns gravados, cada um incidindo numa tónica particular. Do piano solo a duetos de guitarra, da música de câmara à “contemporânea” e à eletrónica, passou finalmente à “new age”, numa trilogia dedicada à música do Sul, da qual acabou de ser editada a primeira parte, intitulada “Memórias Atlânticas”.

 

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Vasco Martins é uma espécie de Gismonti português, mantendo com este músico brasileiro algumas parecenças – na estética, na instrumentação e nos processos. Até na farta cabeleira. Gismonti, diga-se em abono da verdade, toca um bocadinho melhor. Um e outro não conseguiram libertar-se com facilidade dos anos 70, com todo o seu cortejo residual da iconografia “hippie”. Vasco Martins não se libertou de todo. “Memórias Atlânticas”, primeira parte, gravada e já editada em CD com o selo UPAV, de uma trilogia cujos restantes capítulos, “Momentos Silenciosos” e “Ritual Periférico”, vão ser editados até ao final deste ano sob o genérico “Southbound Music”, é um disco cheio de sons agradáveis de sintetizador que faz alusões discretas ao folclore de Cabo Verde e tem montado todo o aparato destinado à exportação.

O principal problema de Vasco Martins é que discos do tipo destas “Memórias Atlânticas” já foram feitos e refeitos há um certo tempo, por volta de 1976, 77, para sermos mais exatos, por músicos como Vangelis ou Jean-Michel Jarre, sem que já nessa altura tivessem resultado grandes avanços para a música. Nesta perspetiva, acabam por ser mais relevantes obras prévias do autor, como “Vibrações”, de 1979, para piano solo, os diálogos de guitarra acústica com o cabo-verdiano Voginha, em “Vivências ao Sol”, gravado em 1985, ou as três peças reunidas num álbum de 1986 – “Quinto Mundo”, para orquestra de câmara, interpretada por “Les solistes de Paris”, “O solstício e o homem solitário” e “Mahabutas” (os elementos), com interpretação do Opus Ensemble.

Infelizmente, “Memórias Atlânticas” radica antes na fase “progressiva”, presente nos álbuns “Universo da Ilha” (86) e “Oceano Imenso” (87). Com boa vontade é possível detetar nesta primeira parte da trilogia a influência africana, em todo o caso, não com a intensidade com que era percetível em “Para Além da Noite”, álbum de 85, onde os instrumentos acústicos tocados por membros do Opus Ensemble se juntavam de forma harmoniosa aos sintetizadores, no tratamento das “mornas” cabo-verdianas escritas pelo compositor tradicional B. Léza.

 

Uma obra grandiosa

 

Em toda a discografia citada aparecem referências cósmicas e ao mar. Não deixam de causar uma certa impressão títulos de obras, decerto grandiosas, como “Pirâmides” e “Cosmos”, escritas para grande órgão, grande ensemble, tudo em grande. Além disso, deve desculpar-se Vasco Martins, pela sua juventude, quando escreveu nas contracapas dos discos tiradas como “a liberdade tem que ser essencial: cria-se como ideia cósmica e sensível, e profundamente humana”, “no piano há um não sei quê de abandono, uma mistura de lirismo e força” e a enigmática “mesmo no deserto nasce a ‘Welwitschia Mirabilis’...”. Serão (grandes) verdades, mas ditas desta maneira... Também devemos ter um certo cuidado em manter a sisudez perante um título como “Através de uma janela = infinito + homens”, entre outros mais ou menos longos que engordam a ficha técnica de “Vibração”.

Mas há na obra de Vasco Martins (grandes) virtudes: é ele próprio quem financia os seus discos, em edições de autor, a tentativa de fazer a síntese entre as culturas atlânticas e a música ocidental “erudita”, a investigação. A estética das capas deixa um pouco a desejar, mas compreende-se, dada a provável escassez de meios.

“Memórias Atlânticas” e, presumivelmente, a trilogia inteira, procurando capitalizar no mercado da “new age”, recusa o risco, preferindo o comodismo de soluções harmónicas, melódicas e rítmicas já antes exploradas até à exaustão, e com melhores resultados, por uma multidão de outros músicos europeus – uma prova de como a memória pode se traiçoeira. Em Portugal, há um bom exemplo do que é possível fazer, dentro do género, sem cair nos lugares-comuns: o álbum “Mr. Wollogallu”, da dupla Carlos Maria Trindade-Nuno Canavarro, menos pomposo mas bastante mais imaginativo e exploratório. Talvez a música de Vasco Martins se torne exaltante no dia em que este conseguir realizar o seu sonho de tocar no interior de um vulcão...

 

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Rolling Stones: discos a solo e um abandono

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock

 

ROLLING STONES: DISCOS A SOLO E UM ABANDONO

 

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Mick Jagger e Keith Richards, a dupla terrível dos Rolling Stones, vão lançar novos álbuns a solo. Keith Richards, guitarrista de uma banda que, passados 30 anos, parece não querer terminar nunca, terá o seu disco, intitulado “Main Offender”, editado hoje. Quanto ao novo álbum de Mick Jagger, por enquanto sem título, tem o lançamento previsto para 16 de novembro.

Jagger descreve o seu novo trabalho como “Rock, blues e baladas ‘country’ com um toque áspero”. O álbum tem produção de Rick Rubin, inclui uma canção composta por Lenny Kravitz e conta com a colaboração do guitarrista Jeff Beck, co-autor de dois temas, e da banda de blues The Red Devils. Jeff Beck, em princípio, deverá alinhar ao lado do cantor, nas digressões de promoção ao álbum, previstas para novembro, na Inglaterra e no continente.

“Main Offender”, escrito na totalidade por Keith Richards, tem como produtores o próprio guitarrista, Steve Jordan e Waddy Watchel.

Dos outros Stones, sabe-se que o baterista, Charlie Watts, realizou há pouco tempo um dos seus sonhos de sempre, atuando recentemente com o seu quinteto do Soho Jazz Festival, realizado em Londres, num concerto de homenagem a Charlie Parker, em que musicou um livro de crianças, “Ode to a High-Flying Bird”, sobre a vida do saxofonista, idealizado por Watts há três décadas.

Ronnie Wood está calmo, depois de também ele ter gravado o seu álbum a solo, “Slide On This”. Bill Wyman é que não parece andar nada contente, e até à data tem-se recusado a assinar o novo contrato dos Rolling Stones com a Virgin, fazendo assim aumentar os rumores que dão como consumada a sua saída da banda.

Mathilde Santing Ensemble - Carried Away

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

E A BANDA TOCOU “WALTZING MATHILDA”

 

MATHILDE SANTING ENSEMBLE
Carried Away
CD, Solid, import. Contraverso

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Canções. Tão simples como isto. E tão complicado. A uma canção digna desse nome exige-se que conte uma história, seja ela qual for. E que essa história faça mossa, deixe marcas, não se deixe cair no esquecimento. Há canções que dizem tudo de uma vez. E canções que vão dizendo. A vários tempos, a várias vozes sobrepostas, consoante o génio ou os acasos da inspiração que visitaram o autor. Depois há quem pegue nas canções e lhes tire ou acrescente algo. Os ossos ou o sumo. São os intérpretes, porta-vozes dessas histórias paralelas que se escrevem em versos e se trauteiam num refrão.

Mathilde Santing é uma intérprete. Das maiores. Uma cantora de sensibilidade, com a capacidade de se adaptar a uma diversidade de registos, de maneira a vestir cada canção como uma segunda pele. Mathilde não compõe, como Suzanne Vega, Rickie Lee Jones, Joni Mitchell, as grandes cantoras americanas da música popular. Está à mercê das chamas de composições alheias. A ela compete-lhe dar vida, animar, retocar, chamar a atenção para uma emoção particular que não se suspeitava existir nas palavras, numa melodia. A ela compete ainda tornar novo o antigo, diferente o conhecido, pessoal o que é alheio. Mathilde Santing, de naturalidade holandesa, inclui-se no mesmo grupo de que fazem parte, entre outras, Mary Coughlan ou Marianne Faithfull, mas habita um nicho separado. Ao contrário destas duas intérpretes, Santing possui uma qualidade intrinsecamente continental, uma nostalgia específica que pesa menos, que solta fragrâncias, como se a tristeza pudesse fazer sorrir e esse riso fosse natural. Em Marianne Faithfull há drama, prisão, dor. Coughlan, por seu lado, refugia-se na distância de uma Irlanda segura pelos mitos. A holandesa ergue a sua obra na brisa, sem grandes alardes mas com a segurança e a convicção que lhe advém de pertencer a uma linha vinculada à tradição europeia de cantores de variedades, dos casinos e cabarés, ao crepúsculo das valsas espectrais de Marienbad.

A América, na voz de Mathilde Santing, soa com tonalidades europeias. Os arranjos, assinados por si e por Rolf Hermsen, sugerem uma frieza que acaba por ser aparente. Na Europa vive-se à distância, longe dos “néons” da rua. Sofre-se menos na carne e mais na imaginação. Sente-se uma nostalgia que vem de séculos. Foge-se-lhe por onde se pode e cobre-se a fuga com as roupagens da sofisticação.

Em “Carried Away” a cantora foi buscar canções de Todd Rundgren (“Real man” e Pretending to care”), como já o havia feito nos anteriores “Out of This Dream” e “Breast and Brow”, Roddy Frame, dos Aztec Camera (“Oblivious”), Robert Cray (“Bad Influence”) e Doors (“Yes the river knows”), bem como das duplas Gartside & Gamson (“Overnite”, “The word girl”), Van Hausen & Burke (“Polkadots and moonbeams”), Gordon Mills & Les Reed (“It’s not unusual”).

Sem atingir o sublime dos contos surrealistas de “Water Under the Bridge”, “Carried Away” consegue ultrapassar os outros dois álbuns citados, no bom gosto evidenciado na escolha de temas, na elegância que caracteriza o estilo da cantora e, em grande medida, nos arranjos luxuriantes. Próxima, no tema de abertura, “Real man”, de um registo “mainstream” que não permite grandes inovações estilísticas, Mathilde Santing corrige a mão e enceta uma viagem sem grandes colisões dramáticas por entre marimbas, naipes de cordas e poderosas respirações de baixo, alinhando um conjunto heteróclito de canções (quatro delas ostentam uma beleza que não é deste mundo: “Overnite”, “The word girl”, “Only a motion” e “Yes the river knows”) que de comum nada mais têm senão o elo oculto que a intérprete lhes descobriu. Um elo que passa pelas recordações dos tempos de infância e juventude, por aprendizagens de amor, por sonhos desfiados na bruma. Mathilde vai com as canções, ao ritmo de um calipso, de um blues europeizado, de sussurros “jazzy”, da sua sensibilidade própria, até encontrar portos de abrigo. Na foz do rio. Onde as águas deixam de correr e começa o mar. (8)

 

Escritor de canções no Porto [Sérgio Godinho]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock

 

ESCRITOR DE CANÇÕES NO PORTO

 

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“Sérgio Godinho – Escritor de Canções”, espetáculo apresentado pela primeira vez há dois anos, na capital, volta a ser encenado, desta feita no Porto, na sexta-feira, às 21h45, no Teatro Rivoli. À semelhança das anteriores apresentações, “Escritor de Canções” vai mostrar a cenografia de João Calvário, o desenho de luz de Paulo Graça e o grafismo de Luís Miguel Castro, com produção de Paulo Pulido Valente e direção de Ricardo Pais. Acompanham Sérgio Godinho, em palco, Manuel Faria, nos teclados, e Nani Teixeira no baixo. “Sérgio Godinho – Escritor de Canções” tem o patrocínio do Pelouro de Animação da Câmara Municipal do Porto e a colaboração de “MC – Mundo da Canção”.

Faz todo o sentido esta visita de Sérgio Godinho ao Porto, só pecando por tardia. Sérgio Godinho é natural desta cidade mas foi preciso esperar dois anos para se assistir ao regresso do filho pródigo, com um espetáculo que passou por algumas localidades portuguesas, entre as quais Coimbra e Chaves, e outras menos, como Macau e Goa.

Por uma razão ou por outra, “Escritor de Canções” não chegou ao Porto antes, em parte devido a uma impossibilidade física (um grupo de teatro que então utilizava o edifício), embora isso não justifique tudo. Passado o tempo, que nunca se sabe se será o certo, passou a oportunidade.

Sérgio Godinho empenhou-se, entretanto, no cinema e na realização de três curtas metragens, com o genérico “Ultimacto”, intituladas “Entre Mortos e Vivos”, “A Reconstrução” e “SOS Stress”, a apresentar na RTP1 em três quintas-feiras consecutivas, a partir do próximo dia 12 de novembro. Em dezembro, o compositor e um dos “sobreviventes” da época de ouro da música popular portuguesa entrará em estúdio para a gravação de um novo álbum, primeiro de originais desde “Aos Amores”, gravado em 1989.

Enquanto não chega esse novo volume de histórias do quotidiano, mistério e imaginação, fica este intervalo de conversa entre amigos, no despojamento e na encenação discreta de canções antigas mas sempre atuais. Uma conversa que, no Porto, já tardava.

 

Jethro Tull - A Little Light Music

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Jethro Tull
A Little Light Music
CD, 2xLP, Chrysalis, distri. EMI – Valentim de Carvalho

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Os dinossauros não morrem? Aparentemente não. Ou, se morrem, depois ressuscitam. O século XX aproxima-se do fim e eles continuam a proliferar. Os Jethro Tull vão andando, trôpegos é verdade, Ian Anderson já deve ter uma certa dificuldade em tocar flauta sobre uma perna só, mas enfim, vão andando. Com 24 anos de vida, 19 álbuns de originais gravados e um passado às costas que afinal não parece difícil de suportar.

“A Little Light Music”, gravado ao vivo na Europa, dá a ouvir palmas, os músicos (os fundadores Anderson e Martin Barre, mais Dave Pegg e Dave Mattacks, ambos ex-Fairport Convention) em forma razoável e as músicas do costume: rhythm ‘n’ blues sinfónico, baladas em tons medievais (“Minstrel in the Gallery”, “Songs from the Woods” e “Heavy Horses” não eram maus álbuns...), solos para todos os gostos e uma total falta de imaginação. O primeiro lado é mais elétrico, o segundo e o terceiro mais acústicos e o último acaba com o clássico “Locomotive breath”. Ian Anderson é que já não tem propriamente o fôlego de uma locomotiva...

“A Little Light Music” não ofende os órgãos auditivos (nem os Jethro Tull têm já força para ofender quem quer que seja), apresentando até a vantagem de poder proporcionar algumas horas de sono. (4)

Cantos do imprevisto [João Bosco]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 9 OUTUBRO 1992 >> Cultura

 

João Bosco tocou ontem em Lisboa

 

Cantos do imprevisto

 

Música brasileira não é só a que vem aos Coliseus dar-nos telenovelas e carnaval. Música brasileira pode ser sem fronteiras e viajar até ao imprevisto. João Bosco assim o disse e cantou. Num dos poucos espetáculos realizados este ano em Portugal em que fez sentido o termo “ao vivo”.

 

 

Devia haver mais brasileiros que portugueses, quarta-feira à noite, no Teatro Maria Matos, a assistir à estreia portuguesa de João Bosco. Foi um concerto notável, principalmente do lado direito da sala, mesmo junto à parede, que foi o local julgado ideal pela organização para situar o jornalista. Este, empolgado pela música, lá foi esticando e entortando o pescoço, como o homem dos colchões Pikolin, até ficar mais ou menos a meio. Valeu a pena.

João Bosco não é muito conhecido por cá. Escutando-se a sua música percebe-se porquê. Bosco não é um músico brasileiro parecido com os outros, que de cinco em cinco minutos vêm cá dar-nos beijinhos ao Coliseu dos Recreios, embora também já tenha composto temas para telenovelas, como “Tieta” e “Pantanal”. Ele próprio se define como um “artista inquieto, em constante delírio” que não deixa que as “barreiras impeçam a livre criação”. É óbvio que está a falar verdade. João Bosco não é tanto um compositor de canções, na aceção tradicional, mas um músico total, um “jongleur” de palavras e sons, um equilibrista no arame que rompe com os esquemas convencionais do canto. O seu último álbum tem por título “Zona de Fronteira”, com o selo Sony Music. Uma fronteira que existe para ser ultrapassada.

 

Voz de comando

 

Uma guitarra acústica, um banco, uma garrafa de água do Luso sem poiso certo, eram os únicos artefactos em cena. Chegaram para ajudar o artista em cena, na primeira parte do espetáculo, a mostrar tudo o que vale. A voz de João Bosco recusa amarras. As canções são-lhe ponto de partida para uma divagação constante. A voz é quem comanda, a canção vai atrás. O artista brasileiro arriscou tudo, libertando-se da segurança de arranjos fixos que não passariam de espartilhos. É em casos como este que faz sentido falar da voz como um instrumento de possibilidades infinitas. Logo no primeiro tema, em que imitou a gaguez de um homem apaixonado, o ritmo brotou como que por magia das palavras, das onomatopeias, das síncopes cheias de “swing”, da plasticidade de uma voz que a cada instante se reinventou. “Obrigado gente!”, repetiu invariavelmente após cada “canção”. Em jeito humilde de quem vai pesquisando as emoções alheias e as conquistas para o seu território.

Bosco é um louco, no bom sentido. A “grande confusão musical” – como define, com humor, a sua música – é a confusão de mundos coabitando em simultâneo, de sons libertos em dança perpétua. Samba, bossa nova, os “blues”, o flamenco, África, Milton, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, cruzam-se e encontram-se com os papéis trocados, no canto e no violão. O “louco” é afinal quem, como ele, se deixa tocar pela música, pelas músicas, e lhes dá voz própria.

 

Além-fronteira

 

Na segunda parte juntaram-se a João Bosco, Ricardo Silveira, na guitarra elétrica, e Armand Sabal Lecco, que já tocara anteriormente em Portugal, integrado na banda de Paul Simon, no baixo. Bosco, por sua vez, trocou a guitarra acústica por uma elétrica. Loucura completa. Os três entusiasmaram-se e entusiasmaram a assistência. Não havia instrumentos de percussão nem se deu por falta deles. Duas guitarras e um baixo criaram ritmos intricados, dialogaram de forma imprevisível e improvisaram a cada momento, desmultiplicaram-se em cadências que misturavam o rock, ritmos brasileiros e fusões de índole jazzística.

Os músicos levantaram-se, riram, brilharam. João Bosco dançou pelo palco e fez gestos de agarrar as vibrações que pairavam no ar. E agarrou-as mesmo. Música sem fronteiras que no final foi aplaudida em pé, por uma plateia em delírio. O trio regressou ao palco para uma “jam session” admirável, carburando como uma máquina no máximo da afinação. Na zona além-fronteira. Zona livre.

 

Jig - Jig

 

7 de Outubro 1992

 

LP’S

Jig
Jig
CD, Numérica, distri. MVM

 

Agora que já são irlandeses, os Jig, do Porto, poderiam começar a pensar em mudar a nacionalidade. Porque não portugueses? Não há muitos… Ao vivo, a banda portuense não tem grandes problemas. Uma cadência mais rápida, um “whiskey in the jar” vertido na altura certa, chegam para fazer o pessoal perder o tino e dançar. Depois de uma estreia auspiciosa no Intercéltico do ano passado, os Jig têm vivido um pouco à sombra desse êxito.

A audição do disco é como que um testemunho dessa primeira fase de trabalho dedicado à reconversão do estilo “bluegrass” que caracterizava a banda nos tempos em que se chamava King Fisher’s Band, no bê-á-bá do cancioneiro irlandês. O problema está em que se ao vivo a coisa resulta, no CD fica a sensação de se estar perante aprendizes orgulhosos de terem feito bem o trabalho de casa. Há a preocupação de tocar certinha mas falta a chama, a cadência natural que só se aprende sendo-se irlandês. Os Jig nasceram uns graus mais a sul de latitude. Um irlandês, por exemplo, sabe que a sua terra se escreve “Ireland” e não “Irland”, como aparece mencionado em todas as faixas, e “mandolin” em vez de “bandolin”. Em “inguelês” porquê? Para eles, irlandeses, ouvirem e aprenderem a tocar a sua música como deve ser? Ou a escrever como não deve ser?

Tem piada escutar o violino de Arlindo Silva e a flauta de Manuel Apolinário, razoáveis instrumentistas, em clássicos como “Geordie”, “Whiskey in the jar” ou “Wild Rover”. Mas… e se já se tiver escutado antes os outros, os lá da terra deles? Pois é, as comparações são um problema. Fazendo de conta que os mestres não existem, Isabel Leal confirma as suas capacidades vocais e é com renovado prazer que se ouve a sua prestação no tradicional do Canadá “The ten commandments”. Os Jig têm futuro. Mas em Portugal e com música portuguesa. Se eles assim o quiserem. (5)