21/10/2026

O Escudeiro da Távola Redonda [John Renbourn]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 25 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock >> World

 

O ESCUDEIRO DA TÁVOLA REDONDA

 

JOHN RENBOURN
Sir John Alot (5)
The Lady and the Unicorn (6)

THE JOHN RENBOURN GROUP
A Maid in Bedlam (7)

CD’s Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção

Uma imagem com texto, moldura de fotografia

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No início dos anos 70, os Pentangle eram um dos grupos de ponta do movimento de revivalismo folk britânico. John Renbourn, guitarrista do grupo (que também incluía a vocalista Jacqui McShee, o contrabaixista Danny Thompson, outro guitarrista, Bert Jansch, e o percussionista Terry Cox), cedo deu mostras de se interessar pela música antiga. “Sir John Alot” foi o primeiro disco em que concretizou esse interesse, posteriormente disseminado por obras, além das outras aqui criticadas, como “The Hermit”, “The Black Baloon” e “Enchanted Garden”. O interesse maior deste exercício prévio reside no contraste e na passagem do estilo “bluesy” e das técnicas de “fingerpicking” a uma abordagem medieval da guitarra, utilizada como se fosse um alaúde. O disco soa hoje bastante datado, revelando uma visão superficial da música antiga, por parte de Renbourn, então pouco mais que um aprendiz compenetrado.

“The Lady and the Unicorn” aprofunda as ideias do álbum anterior, abandonando em definitivo a linguagem dos “blues”. Com um acompanhamento instrumental mais “encorpado”, o álbum tem como principais focos de interesse os solos de Terry Cox, no “glockenspiel” (um carrilhão em miniatura) e a verificação de quão pouco à vontade um violinista como Dave Swarbrick se movimenta no reportório antigo. Apesar de títulos como “Lamento de Tristan”, “Veri Floris” e “Melancholy Galliard”, não seria por aqui que John Renbourn se aproximaria dos calcanhares de um Hopkinson-Smith.

Com a entrada em cena de Sue Draheim (ex-Albion Band), no violino, Keshav Sathe, nas percussões indianas, Tony Roberts, flautas e oboé, e sobretudo da vocalista Jacqui McShee, recrutada dos Pentangle (grupo, aliás, do qual ainda faz parte), a música deu um salto qualitativo, natural, já que em “A Maid in Bedlam” Renbourn infletiu na música tradicional, preocupando-se menos com a Idade Média e mais com uma caracterização exótica de “clássicos” como “Black waterside”, “John Barleycorn”, “Reynardine”, “My Johnny was a shoemaker” e “Death and the lady”. Excelentes, ao longo de todo o disco, as vocalizações de Jacqui McShee e o “quator” vocal do tema final “Talk about suffering”. Bem complementados por instrumentais onde a Idade Média se estende da Távola Redonda a Katmandu.

Jan Garbarek & Ustad Fateh Ali Khan

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 25 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock >> World

 

EM BUSCA DA PALAVRA PERDIDA

 

JAN GARBAREK & USTAD FATEH ALI KAHN
Ragas & Sagas
CD ECM, distri. Dargil

Uma imagem com montanha, natureza, cratera

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Capítulo mais recente na demanda de Jan Garbarek de uma linguagem universal, “Ragas & Sagas” desvenda algumas pistas da viagem. Neste compositor e saxofonista norueguês, o rótulo “world music” reveste-se de um significado muito particular. Garbarek procura, sem dúvida, sínteses e pontes entre Ocidente e Oriente. Mas mais importante do que a junção e a proximidade são o diálogo, a relação, a descoberta de jogos possíveis. Em “Rosensfole” (abordagem à música antiga da Noruega centrada na voz de Agnes Buen Garnas, retomada em menor escala no álbum seguinte, “I Took Up the Runes”, desta feita com a colaboração vocal de Marie Boine Persen numa versão de “Gula Gula”) como nestas ragas e sagas assinadas de parceria com o cantor paquistanês Ustad Fateh Ali Khan (não confundir com Nusrat Fateh Ali Khan, também cantor, membro da seita “sufi”, de origem árabe, que participou no mostruário “Passion”), o discurso do saxofone permanece singular, resistindo ao apelo da fusão com os universos estéticos sucessivamente convocados para estúdio.

Seja nos dois discos mencionados (a que poderemos acrescentar ainda “Legend of the Seven Stones”) ou em anteriores colaborações do músico com o compositor grego Eleni Karaindrou, o tunisiano Anouar Brahem ou o indiano Shankar, é imediatamente reconhecível o timbre, uma lógica e um tempo melódicos específicos do seu sopro. Procure-se então nestes exercícios de panculturalismo musical uma outra direção, detetável a partir da óbvia estimulação mútua entre os participantes em causa. A partir daqui assume especial relevo a questão da referida linguagem universal que Garbarek parece tatear sem contudo ousar por ora a dissolução no todo.

Não por acaso, Garbarek estudou latim e grego antigo, passando depois para o árabe e, por fim, o sânscrito, o mais antigo código linguístico, com vestígios escritos, conhecido. Eis-nos chegados ao domínio da palavra – vibração primordial, o Verbo criador de todas as músicas. O ponto de partida foi, em “Rosensfole”, a Noruega, em cuja música Garbarek reconheceu elementos extra-europeus, mais concretamente conexões com a Índia, Balcãs e Ásia Menor. Ele próprio define as ornamentações vocais de Buen Garnas como próximas do estilo turco/árabe.

“Ragas and Sagas” surge assim como o passo seguinte e coerente desta deslocação para Oriente. Nele são exploradas técnicas vocais indianas, como o “dhrupad” e o “khyal”, este último oferecendo vastas possibilidades de improvisação, as quais facultam a Garbarek terreno propício à explanação da sua especificidade estilística nos saxofones soprano e tenor. O diálogo destas semi-improvisações decorre sobre um contexto harmónico inconfundivelmente indiano, criado pela tabla e sarangi. Quatro ragas compostas por Ali Khan e uma “saga” escrita pelo norueguês abrem a porta ao imprevisto, jogando alternadamente na semelhança e na diferença. Pelo caminho, Jan Garbarek vai traçando as linhas e edificando os alicerces de um novo mapa e de uma obra ímpar na arte musical deste século. (8)

 

Brian Eno - The Shutov Assembly

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 25 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Álbuns

 

O PINTOR DA ETERNIDADE

 

BRIAN ENO
The Shutov Assembly
LP, CD Opal, distri. Warner Music

Uma imagem com texto

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Espaço e tempo são as duas grandes coordenadas da realidade manifestada. A pintura recria, a duas dimensões, a tridimensionalidade do espaço. A música, num sentido unidirecional, reinventa o tempo. A pintura é uma unidade, síntese de formas/instantes que se condensam numa imagem. Os sentidos podem abarcá-la na totalidade. Na música existe um drama. Sendo uma arte que vive do e sobre o tempo, torna-se impossível aos sentidos captar imediatamente a obra na sua completude. Ou seja, ao contrário da pintura, a música depende da duração. A imagem é esculpida. O som, uma escultura de silêncio.

Brian Eno tem consciência deste dilema. Toda a sua música dita ambiental procura inventar um método que, pelo menos parcialmente, consiga transcender esta situação. Não por acaso o autor procura pôr em paralelo a sua música com a pintura, através da criação de painéis sónicos de acontecimentos por onde o auditor possa “passear” sem se prender a nenhum em particular. A procura de uma simultaneidade (im)possível dos sons. A música igual a um quadro. “The Shutov Assembly”, passado o ataque de nervos de “Nerve Net”, é o capítulo mais recente nesta busca incessante de uma “música paisagística” – arquitetura de sons onde os sentidos, mais do que “aprenderem”, possam instalar-se, como num “lugar” – depois de “Discreet Music”, “Music for Films”, “Music for Airports”, “On Land”, “Apollo Atmospheres & Soundtracks” e “Thursday Afternoon”. É o próprio Eno que, no folheto promocional, diz o seguinte: “Penso nos sons em termos de qualidades como brilho, calor, aspereza, claridade, escuridão, iridescência, angularidade, rugosidade, nebulosidade, nivelamento [tudo qualidades aferíveis à pintura]. Pretendo fazer música como se pintasse um quadro – criar um lugar [e sublinha o substantivo] possível e credível, pleno de vida – com concordâncias e tensões, com uma teia de pontos focais sem nenhuma hierarquia entre si.” Palavras de um pintor que procura dar a ver e a habitar a eternidade.

Composto por dez peças com títulos de nove letras e ressonâncias bizarras e italianizantes – “Triennale”, “Lanzarote”, “Francisco”, “Innocenti”, “Cavallino” –, “The Shutov Assembly” reúne temas compostos desde 1985 para quadros do pintor russo Sergei Shutov, que Eno conheceu em Moscovo, retomando deste modo um convívio, nunca abandonado, com artistas plásticos, numa colaboração efetiva cujos resultados mais conhecidos se encontram na parceria com o malogrado Peter Schmidt, nas capas de “Another Green World” e “Evening Star” (com Robert Fripp) e na coleção de aguarelas que acompanhavam a edição original de “Before and After Science”.

Temas atemporais, sons de cristal, pulsares iluminando vagas de escuridão, fluem à deriva no silêncio, negro ou branco, consoante o fundo for visto como o espaço sideral (aquele onde o tempo conquista a sua dimensão de relatividade. Recorde-se, a propósito, o sentido e a importância capital de “Apollo Atmospheres” em que a imagem da imponderabilidade e do vazio funcionam como metáforas da vitória sobre a temporalidade) ou uma tela, virgem de formas e texturas. Em “The Shutov Assembly” reúne-se a assembleia de todos os possíveis, de sons/luzes/cores em interconexão sinestésica. Enquanto o fim dos tempos não vier revelar a simultaneidade e a cruz de passado, presente e futuro, num instante – o “aleph” vislumbrado por Jorge Luís Borges –, Brian Eno terá que se contentar com a solução intermédia, de compromisso, que é o vídeo, formato que tem sustentado os seus mais recentes trabalhos, simulacro da impossível e definitiva unidade em que num momento de instantânea contemplação se possa perceber o mundo e a obra de arte libertos do espartilho de Cronos. Quando formos capazes de olhar além do cérebro, esse artífice de ilusões. (8)

 

A fera amansada [Herman José]

 

PÚBLICO SÁBADO, 21 NOVEMBRO 1992 >> Rádio e Televisão >> Crítica

 

A Fera Amansada

 

 

Um humorista é diferente de um contador de piadas. Um humorista faz humor e faz pensar. Um piadista, com maior ou menor talento, conta anedotas e distrai. O humorista põe inteligência no humor que faz. Sabe que o cérebro também ri e dá gargalhadas. O piadista apela ao lado mais primário da natureza humana. O riso, quando vem, quase sempre é do baixo-ventre.

John Cleese, Woody Allen, Groucho Marx são, ou foram, grandes cómicos humoristas. José Viana e Benny Hill são, ou foram, contadores de piadas. Herman José era, e queremos acreditar que continua a ser, um humorista. Programas da sua responsabilidade, como O Tal Canal, Hermanias ou um inesquecível Especial Fim-de-Ano, tornaram-se clássicos do humor – não diremos português porque neste a piada brejeira, na qual Herman, diga-se de passagem, também é mestre, reina sem rival – que deixa marcas, que apetece revisitar e fruir até à parcela mais subliminar.

Entre o humor e a piada fácil com que despacha as noites televisivas de sábado, a dar parabéns e a ganhar forças para fazer andar a “Roda”, tem balançado o coração de Herman José. O que equivale a dizer, entre a integridade e o mercantilismo, entre dar-se de corpo e alma (e nem para tanto é preciso despir-se...) a nós e entregar-se à chuva imparável de divisas – “dez para mim, dez para ti” – caídas de um hipermercado nos arredores de Lisboa. Entre o estado de graça e o “tudo à venda” afixado à frente de cada piada.

Nem é o concurso em si que é criticável – há uma arte do vazio e artistas da sua apresentação, como Carlos Cruz –, mas o despudor com que Herman desbarata algo que também era nosso.

Com Parabéns, Herman José vendeu-se e saiu derrotado. A RTP pode cantar vitória, desforrando-se da graça incómoda de uma “Rainha Santa” que foi a sua perdição. O humorista transformou-se no protagonista de um filme cujo título bem poderia ser “A Fera Amansada”.

André Breton escreveu, um dia, que o humor ou era negro ou não era. O de Herman José tornou-se cor-de-rosa. Com laçarotes.

 

Canal 1, às 22h05

 

Paolo Conte - 900

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Álbuns

 

LA VERA MUSICA

 

PAOLO CONTE
900
CD, CGD, distri. Warner Music

 

 

Quem, sem perder um estilo pessoal, consegue cruzar referências que abarcam um leque tão vasto como Frank Sinatra, Carla Bley, a orquestra de swing de Benny Goodman, Nino Rota, os “novos” Bryan Ferry, Kevin Ayers e Tom Waits, os “blues”, o tango, a rumba e a xunga? Resposta: Paolo Conte, o único, inconfundível, decadente, magnífico Paolo Conte, “crooner” cuja alma vacila entre um pátio italiano, a Broadway, uma praia do Pacífico ao crepúsculo e todos os lugares “kitsch” da nossa imaginação.

“900” assinala o retorno em grande forma do velhote de voz profundamente etilizada que, em “Aguaplano”, se fora um pouco abaixo por culpa de excessivas cedências no capítulo dos arranjos, demasiado dependente dos sintetizadores, numa tentativa de “modernização” que acabou por não se revelar eficaz. Conte repensou a sua música, lembrou-se de feitos passados, em álbuns como “Appunti di Viaggio”, “Paris Milonga” ou “Un Gelato al Limon” (cujas peças dispersas se juntam no duplo-coletânea “Il Primi Tempi” – obra, a todos os títulos, genial), voltou a pegar nos cordelinhos (letras, música, orquestração e direção artística são da sua autoria) e a mergulhar de corpo e alma no seu universo de sonhos filtrados pelo álcool, de mulheres fugidias em ruelas suspeitas, de fumos e vícios, danças e guerras travadas entre lençóis. Paolo Conte canta em “900” melhor que nunca, do barítono esgotado à hora de fechar do cabaré, ao tom declamatório e às incursões desdramatizantes filtradas pelo “nariz” de um “kazoo”. Depois, as cordas, os naipes de metais (do sax ardente a uma tuba dolente) e o pianoforte imprevisível constroem o resto da cidade imaginária.

Por “900” passam a evocação das luzes de casino e da obscuridade dos bordéis. Paolo Conte viaja por uma Nova Iorque sublimada, por uma Itália voltada de costas para o neo-realismo, por nebulosas de contornos difusos, que os licores tornam infinitas. As composições de Paolo Conte mudam quando menos se espera, com a inconstância de mil visões que se entrechocam. Agora um choro do passado. Logo a seguir um riso distante, uma ironia. Uma anedota e uma tragédia, no curto instante de acender um cigarro. Uma garrafa sem fundo.

Orquestrações de “big band”, vagas de emoção soletradas a sangue e tinto no piano, sussurros, imprecações. Do burlesco ao mais dorido. Do fim do mundo ao fim de um quarto, onde outrora houve “toute la gloire e toute l’histoire.../ ça reste dehors.../ dans cette chambre/ il y a seulement un ours/ qui fait ron ron...”, assim mesmo, em francês, depois em inglês, em Paris, no Soho, sabe-se lá... Há aqui clássicos, temas que ficarão, quase todos, imortais. Ou voltando a ouvir uma e outra vez o álbum, todos mesmo. Mas um feitiço especial deixa marcas cá dentro, no lento, lentíssimo, majestoso e patético “I gardini pensili hanno fatto il loro tempo”. “900” só ouvido, só imaginado, só furiosamente guardado por quem sabe sentir e sente saber. Como dizer: é um segredo escuro e luminoso, posto à nossa disposição com a evidência de um espanto. Cantemos com Paolo Conte, à luz velada: “Jura que nunca renegarás o deus do tango/ da ‘habanera’ e do fandango (...) jura-me que nunca passarás para outras danças/ como se passa de um para outro quarto/ vai... as pessoas que te aplaudem estão à espera.../ vai...” (de “Schiava del Politeama”). Assim, “la vera musica”. (10)

 

As maiores vozes do teatro português ["Passa Por Mim No Rossio"]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock

 

AS MAIORES VOZES DO TEATRO PORTUGUÊS

 

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Filipe La Féria e João Paulo Soares não têm falsas modéstias. Para eles, “Passa Por Mim no Rossio” é mesmo um marco do teatro português. E o disco acabado de ser lançado no mercado, uma “peça rara” que ficará para a eternidade. O êxito desta “banda sonora” do teatro das nossas nostalgias está, à partida, assegurado.

 

“Passa Por Mim no Rossio” foi um dos grandes êxitos de sempre do teatro português. Quase dois anos em cena, filas de quilómetro, desde a madrugada, à porta do D. Maria, na esperança de arranjar bilhete, foram sinais de um fenómeno tornado raro em Portugal – o sucesso popular. A revista portuguesa revista e atualizada por Filipe La Féria jogou com as recordações de uma Lisboa mítica e ganhou. De “enfant terrible”, La Féria passou a “menino de ouro” do patriarcado de Santana Lopes. Agora segue-se o disco, um duplo-álbum composto, arranjado e organizado por João Paulo Soares e com textos escritos por La Féria. Simone de Oliveira e Luís Madureira são os principais cantores. A festa passa, assim, do palco para as colunas de uma aparelhagem. A magia não é a mesma, mas o efeito de Pavlov permanece, talvez até mais eficaz. Lá estão as vozes, bem simuladas, que aprendemos a venerar: Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Beatriz Costa, Ribeirinho, Vasco Santana, António Silva, Milu, Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Laura Alves, Raul Solnado, José Viana e tantos outros que fizeram da revista portuguesa o espelho das ânsias e alegrias do zé-povinho. Passemos por eles. Sempre e em qualquer lugar.

 

Uma imagem com texto, pessoa, interior, militar

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João Paulo Soares e Filipe La Féria são os autores, respetivamente da música e dos textos, de “Passa Por Mim no Rossio”, o álbum duplo que ficará como testemunho sonoro da revista do mesmo nome. O PÚBLICO conversou com ambos, nos bastidores do teatro Variedades, onde se ultimam os pormenores da “Grande Noite” encenada por La Féria, série sobre a revista portuguesa que a RTP apresentará a partir da noite de fim de ano. Antes ainda de “Maldita Cocaína”, ópera-rock que o autor vai levar à cena em 1993 no remodelado Politeama.

PÚBLICO – O ambiente do disco reproduz bastante bem o tom festivo da peça...

JOÃO PAULO SOARES – Foi gravado como se fosse um espetáculo ao vivo. Tem uma ambiência de “ao vivo”. Apesar de ser gravado em estúdio, não tem qualquer tipo de frieza. Houve a intenção de não perder o calor do espetáculo.

P. – Como se processou a composição das canções? Partiu de temas antigos como base?

J.P.S. – O espetáculo é uma viagem, uma história da revista que começa no final do século XIX. Houve uma recolha das canções já existentes e textos escritos propositadamente pelo Filipe La Féria. Eu compus à medida que as canções foram sendo englobadas numa determinada época. Digamos que compus ao estilo da época.

P. – Os textos foram trabalhados da mesma maneira?

FILIPE LA FÉRIA – Foram recolhidos e adaptados. Tivemos o cuidado de resumir e dar às pessoas que não viram o espetáculo uma visão global. Alguns textos foram encurtados e adaptados de maneira a formarem um todo.

P. – Até que ponto o álbum vale pela música e não como objeto-fetiche da peça?

F.L.F. – Acho que o disco vale por si só. É o registo de um espetáculo que se tornou histórico e numa referência, a partir de agora, de todo o teatro português. Houve milhares e milhares de pessoas que não viram o “Passa Por Mim no Rossio”. A peça esteve um ano e meio no Nacional, como podia ter estado dois, três ou quatro, tal como acontece em Londres. Neste caso, provocou uma enorme polémica por estar a ocupar um espaço do Teatro Nacional que deveria ser para o teatro de reportório. Isso foi a razão principal de, precipitadamente, se tirar de cena um espetáculo que esgotava e esgotaria ainda as lotações. Mas pronto, em Portugal as coisas são muito originais – o Teatro Nacional tem agora vinte ou trinta espetadores por noite, está tudo muito contente e feliz.

P. – O álbum não deveria ter saído há mais tempo, enquanto a peça estava ainda em cena?

F.L.F. – Acho que este disco já podia ser de prata, de ouro, de platina, de cobre... Espero que na nossa próxima produção, “Maldita Cocaína”, no dia da estreia estejam o CD, o disco e a cassete à venda.

P. – Assim é mais uma recordação...

J.P.S. – O disco é um objeto completo que funciona por si próprio. Acho que não estou a ser imodesto se disser isto.

P. – O disco reproduziu a totalidade da música do espetáculo?

J.P.S. – Só metade. Ainda faltam bastantes coisas.

F.L.F. – Isso não é muito comercial dizer... Este disco, antes de ser lançado, já é uma peça rara porque, pela primeira vez, vai haver um registo das vozes dos maiores atores do teatro português. Como sabe, devido ao incêndio da Valentim de Carvalho no Chiado, perderam-se muitos dos registos históricos da revista: Vasco Santana, discos da Beatriz... todos os grandes nomes. Neste disco ficaram registadas as vozes já imortais de Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho, Lurdes Norberto, Fernanda Borsatti, Varela Silva, São José Lapa, Maria Amélia Matta, Manuel Coelho, Henriqueta Maya, Simone de Oliveira, são tantos... Daqui a 20 ou 30 anos, as pessoas vão dizer deles o mesmo que eu dizia quando ouvia a minha avó falar da Satanela e do Amarante. O melhor é comprarem o disco já porque vale dinheiro e é uma peça rara que vai ficar em casa!

P. – Qual o papel de Alexandre Soares na produção?

J.P.S. – Foi a pessoa que conseguiu reunir esforços, que deu o pontapé de saída nas negociações e serviu de intermediário com o David Ferreira. O Luís Madureira tomou mais conta da parte artística e da qualidade vocal em particular.

P. – Em que ponto se encontra a ópera-rock “Maldita Cocaína”?

F.L.F. – Estamos só à espera das obras do teatro Politeama. Há uns papéis do Tribunal de Contas que ainda não vieram e as obras ainda não se iniciaram. Por mim, é o projeto que acalento com mais emoção. Com “Passa Por Mim no Rossio” e a próxima série para a televisão, A Grande Noite, espero fechar o ciclo da revista.

P. – Nota-se em si a preocupação de estar em cima de todos os aspetos ligados à produção de um espetáculo, desde a parte artística até à promoção...

F.L.F. – Acho que sim. Hoje em dia tudo tem que ter o seu “marketing”, não é? Ainda noutro dia fui escolhido por um grupo de alunas (isto é uma coisa anedótica) que estão a estudar “marketing” como a personalidade ideal para ilustrar a sua tese. Talvez seja um jeito natural em mim, porque nunca tirei nenhum curso de “marketing”.

P. – Afirmou uma vez que o apaixonavam as coisas efémeras...

F.L.F – Em Portugal temos uma visão muito viciada, muito “démodée”, da arte. A arte não tem nada que modificar totalmente as pessoas. Se criar uma pequenina mancha no seu cérebro já é muito bom. Ou se lhes der felicidade, ou alegria. É tão difícil, numa vida tão triste como nós temos, numa sociedade tão opressiva, numa cidade tão triste como Lisboa – que tem todos os vícios e defeitos das grandes cidades sem ter talvez as suas virtudes –, haver a festa, o lado festivo que temos obrigação de procurar na vida... Como se explica que o público esteja tão esfomeado que vá às quatro horas da manhã para uma bicha só para ver um espetáculo, como aconteceu com o “Passa Por Mim no Rossio”? Como é possível que nós os intelectuais, os artistas, nos tenhamos fechado tanto em nós próprios, até ao extremo egoísmo de não olharmos para o nosso semelhante?

P. – Não receia que o público mais jovem não seja sensível ao disco?

F.L.F. – Você e eu ainda tivemos a felicidade de ouvir o Vasco Santana dizer: “Ó Evaristo, tens cá disto?” Isso foi tudo cortado. Há tempos, estava aqui a ensaiar uns jovens que queriam entrar na “Grande Noite” e tive que lhes ensinar as marchas de Lisboa! Veja a vergonha: liga-se a televisão e vê-se tudo a desfilar em Copacabana! Houve pessoas que convidei que não sabiam onde era o Parque Mayer! Embora seja preciso dizer que os jovens acorreram a ver “Passa Por Mim no Rossio”.

P. – Não terão vindo atraídos pelo “kitsch”, agora muito na moda? Hoje os putos são capazes de achar piada ouvir a Simone...

J.P.S. – Eu não fui buscar o “kitsch” à Simone. De todo. Aproveitei antes o seu lado físico, visceral. A Simone é uma mulher com uma força brutal a cantar. Os números musicais dela são os mais difíceis e equilibrados de todo o disco.

P. – Simone de Oliveira será então uma presença aglutinadora no disco?

J.P.S. – A Simone de Oliveira funciona como Simone de Oliveira. O número principal do espetáculo, “Cabaré”, foi escrito de propósito para a Simone. Ele é a Simone.

P. – O álbum surge numa altura em que estão muito em voga os discos de versões de canções antigas. Por outro lado, não existe neste caso qualquer espécie de reconversão. Os arranjos são o mais clássico possível.

F.L.F. – O João Paulo Soares teve o bom-gosto de não modernizar, no mau sentido, os temas. Deu-lhes sim um carácter de época, mas que passou pelo interior dele.

J.P.S. – Não gosto nada das pessoas que aparecem por aí com grandes orquestras e tudo em ritmo de “disco” a cantar ”hits”. Acho uma coisa arrepiante. Por outro lado, acho que não seria útil, só por questões de fidelidade, trazer uma típica orquestra de revista do Parque Mayer que fosse má. É uma questão de bom-gosto.

 

O PESO DO EFÉMERO

 

VÁRIOS
Passa Por Mim no Rossio
2xLP, MC, CD EMI-VC

 

Como encarar um objeto deste tipo? Como um “budget”, uma lembrança, um complemento da peça teatral? Ou, pelo contrário, como uma obra autónoma com vida própria, independente dos alicerces do teatro? “Passa Por Mim no Rossio”, o disco, é um pouco as duas coisas. Agora que a peça saiu de cena, o disco, um duplo com a chancela de João Paulo Soares na composição, arranjos e orquestração, e do próprio Filipe La Féria, nos textos, funcionará para quem viu a revista como uma espécie de testemunho póstumo, um eco remanescente do acontecimento original.

Depois, para quem ao longo de meses e meses não esteve para se levantar às cinco da manhã para conseguir um hipotético ingresso no D. Maria II, o disco pode ser um substituto, um prémio de consolação de mais cómodo acesso. Faltam as imagens, a presença física dos atores e dos cenários, mas afinal as vozes e as canções continuam a exercer todo o seu fascínio. Curiosamente, um dos aspetos de que “Passa Por Mim no Rossio” se poderia ressentir – a falta de ambiente da representação ao vivo – acaba por não se notar, pese embora tratar-se de uma gravação de estúdio. Aplausos, aqui, para João Paulo Soares, cuja inspirada partitura conseguiu fazer esquecer o colorido e a excitação do espetáculo “in loco”. O compositor optou, e bem, por uma escrita ostensivamente “passadista”, fugindo à tentação de modernização que poderia comprometer todo o projeto. Os textos de La Féria acompanham a música no mesmo processo.

“Passa Por Mim no Rossio” alterna as canções com pequenos apontamentos de diálogos, temas popularuchos com momentos de forte carga dramática, estes últimos quase sempre invocados por Simone de Oliveira de quem João Paulo Soares soube aproveitar ao máximo as potencialidades. Onde outros poderiam ter cedido à facilidade de valorizar o “kitsch”, o compositor ignorou as modas, preferindo antes firmar-se na tradição. O reverso da medalha está em que o disco poderá passar ao lado das prioridades de escuta das gerações mais novas, a quem os nomes dos grandes atores da revista portuguesa das décadas douradas de 30, 40, 50 e 60 pouco ou nada dirão.

Trata-se então de um disco destinado a alimentar a nostalgia dos mais velhos? Em parte sim. Será essa, provavelmente, a faixa de consumidores mais alargada. Por outro lado tal facto poderá ser compensado por um certo efeito “perverso” decorrente da simples existência do disco, a cujos autores não poderão ser imputadas responsabilidades. É que, se como já se disse, a redução ao “kitsch” é cuidadosamente evitada, nem por isso certa fatia de público deixará de ver nele o artefacto por excelência do mau-gosto tornado objeto de luxo, ainda antes de qualquer audição. Poder-se-á inferir que os autores se estarão nas tintas para isso e que apenas lhe importará que o disco atinja índices de êxito, senão maiores, pelo menos semelhantes aos da peça teatral. Não é um problema do foro artístico propriamente dito mas dá que pensar.

Estamos afinal perante a ambiguidade total e há que reconhecer a João Paulo Soares e Filipe La Féria o terem sabido fazer, na altura certa e com o sentido de oportunidade, uma jogada de mestre. Mas não era, no fim de contas, já “Passa Por Mim no Rossio”, enquanto encenação e reconstrução da memória, esse jogo de remitências para ambiguidades de vária ordem? Entre o assumir-se como uma revista “à antiga portuguesa” e, na prática, como uma estilização e redução a esboços e caricaturas de todos os ingredientes que no passado eram a essência dessa mesma revista? Eis o cerne da arte de La Féria, esta capacidade de trocar as voltas e os olhos a quem anda e olha para onde os seus sonhos apontam. Mesmo que ele, com a insustentável leveza do artista, se autoproclame apóstolo do efémero. (7)

 

A caixa sem segredos [Pink Floyd]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Reedições

 

A CAIXA SEM SEGREDOS

 

É só brilho, do título à apresentação. Parte da música também atinge o brilhantismo do embrulho. “Shine On” é um objeto de luxo, uma extravagância, um deleite, tanto para os olhos como para os ouvidos. “Shine On” pretende ser o testamento audiovisual definitivo dos Pink Floyd: nove compactos, um livro encadernado, uma coleção de postais, iconografia a granel. O aspeto geral é sedutor e convida á posse de quem se deixa impressionar pelos enfeites.

Aos oito compactos correspondentes aos álbuns “A Saucerful of Secrets”, “Meddle”, “Dark Side of the Moon”, “Wish You Were Here”, “Animals”, as duas partes de “The Wall” e “A Momentary Lapse of Reason”, junta-se uma compilação original, à laia de bónus, de dez “singles”. Em cinco destes, pontifica a presença mítica de Syd Barrett: “Arnold Layne”, “See Emily play”, “Candy and a current bun”, “Scarecrow” e “Apples and oranges”.

Os compactos vêm arrumados em caixas negras opacas, com a reprodução das capas originais coladas por cima. O alinhamento das respetivas lombadas, por ordem cronológica, revela a imagem de “Dark Side of the Moon” – um raio de luz branca refratado por um prisma nas cores do arco-íris. “Shine On” equivale, deste modo, à edição brochada das obras completas de Eça de Queiroz pelo Círculo dos Leitores, ou a uma série de Enciclopédias Verbo sobre as catatuas da Amazónia. São obras de arte de peso, ideais para impressionar o olhar alheio, do alto das prateleiras, onde, altaneiras, nos contemplam.

A coletânea recupera, sob novas roupagens, peças (importantes umas, medíocres outras) da vida e obra de uma banda marcante dos anos 70, que se arrastou em demasia pela década seguinte. Começa por ter de se lamentar, logo à partida, a não inclusão de dois álbuns fundamentais: “The Piper at the Gates of Dawn”, único saído diretamente da visão e do génio torturado de Syd Barrett e “Atom Heart Mother” – um dos dois álbuns “experimentais”, que foram, por muitos, considerados como os melhores (do outros, a obra-prima “Ummagumma”, há que aceitar ter sido deixado de fora, por ser duplo – sendo preterido a favor de “The Wall” – e porque o primeiro disco é preenchido por versões ao vivo de canções do álbum anterior). Por outro lado, é discutível a inclusão de “Animals” – primeira tentativa gorada de Roger Waters de fazer dos Pink Floyd o divã de psiquiatra para as suas paranóias existenciais – e, por razões em parte opostas, de “A Momentary Lapse of Reason”, um disco anódino, totalmente falho de inspiração, que procura dar vida ao cadáver de uma banda que conseguiu sobreviver sem Barrett, mas que finalmente sucumbiu após o abandono de Waters. Indiscutíveis, pelo papel determinante que desempenharam na evolução da música dos anos 70 e na própria banda, todos os outros.

De “A Saucerful of Secrets” basta referir que foi um marco do psicadelismo, saído das entranhas do “U.F.O. club”, reunindo a poeira residual que Syd deixara a pairar no ar, com as incursões cósmicas-planantes que viriam a determinar a direção dos álbuns seguintes.

“Meddle”, e em particular a longa faixa do segundo lado, “Echoes”, constitui por seu lado a bíblia inspiradora da escola planante alemã, coincidente com a descoberta das virtudes do sequenciador e das potencialidades do espaço sideral. “Phaedra” e “Rubycon”, dos Tangerine Dream, mostraram como era possível levar, até às últimas consequências, a estética que, em primeira mão, os Floyd enunciaram.

Na altura em que “Dark Side of the Moon” foi editado, em 1972, a rádio encarregou-se da divulgação, até à náusea, de temas como “Money”. O disco ainda hoje se agita, no fundo dos “tops” mundiais. Reescutado à distância, tem que se reconhecer que, independentemente das vendas astronómicas, é um bom álbum. Há quem considere melhor o seu sucessor, “Wish You Were Here” – uma homenagem a Syd Barrett lavrada no céu, no tema “Shine on you crazy diamond”.

Roger Waters tem razões para se orgulhar de “The Wall”, derradeiro álbum conceptual, que encerrou com chave de ouro os anos 70, quando se acreditava que todas as histórias tinham música para as contar. Passa por ser a autobiografia oficial de Roger Waters. Musicalmente, é um disco brilhante. Contém o hino de todos os estudantes do mundo, “Another brick in the wall” e pavorosas encenações de pesadelo, de que “One of my turns” ficou para a posteridade, como uma das mais perturbantes. Não fossem os Pink Floyd, e o muro nunca teria caído.

Feitas as contas, música num dos pratos da balança, apresentação, livro e postais no outro, chegou-se a uma média de (7).

 

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O LIVRO COM SEGREDOS

 

“Shine On”, o livro, fornece material suficiente de reflexão e entretenimento aos apreciadores, e não só, dos Pink Floyd. Capa forrada a pano negro. Ao centro, uma espécie de mandala cabalística, desenhada a prateado. Também a prateado, ao alto, a inscrição, lapidar: “Pink Floyd Shine On”. São 114 páginas profusamente ilustradas a cor. Ótima impressão. O conteúdo divide-se em oito capítulos. No primeiro traça-se a cronologia, ano a ano, de 1967 a 1992, do quarto de século de carreira do grupo. Os sete restantes dizem respeito, cada um, ao compacto respetivo e incluem as letras, notas críticas aos discos e a alguns concertos, fotografias raras e extratos de uma entrevista com David Gilmour, entre outros “fait divers”. Dão-se a conhecer coisas curiosas. Por exemplo, a existência de uma banda desenhada, intitulada “The Pink Floyd Experience”, cujos personagens são os membros da banda. Ou de um “Super all-action official music programme for boys and girls!”, editado por altura de “Dark Side of the Moon”.

Ficam imagens e recordações de uma banda amada por muitos e odiada por outros. E, para sempre, o espectro de um génio franzino, “morto” ainda em vida: Syd Barrett. A propósito de “Wish You Were Here”, gravado pelos Pink Floyd em sua homenagem, a descrição de um momento irrepetível: “Durante a gravação do disco, nos estúdios Abbey Road, exatamente no dia escolhido para fazer os apoios vocais para “Shine on you, crazy diamond”, quem havia de aparecer senão o próprio Syd Barrett?! A música de “Shine on” flutuava pelos corredores do estúdio e lá estava ele, em pessoa. Não era visto havia sete anos. Apareceu, simplesmente, sem se fazer anunciar – gordo, careca e com ar assombrado. Alguns elementos da banda não o reconheceram imediatamente, outros ficaram comovidos. Roger Waters confessou mais tarde que chorou. A determinada altura, Syd perguntou se podia ajudar nalguma coisa; ele estava disponível, se fosse necessário. Ninguém o vira nos últimos sete anos! E desde esse dia não voltou a ser visto.”