19/10/2026

Fogo que arde sem se ver [Sétima Legião]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock

 

FOGO QUE ARDE SEM SE VER

 

Quem brinca com o fogo queima-se, costuma-se dizer. Os Sétima Legião tiveram o atrevimento. “O Fogo”, quarto álbum da sua discografia, acabado de editar, não faz contudo justiça ao título. Se o fogo é símbolo de mudança, não foi por causa disso que os Sétima Legião se afastaram da linha que sempre caracterizou a sua música: um misto do Portugal mítico e de sons urbanos. Música do mundo. É uma tristeza que não se sabe de onde vem.

 

Uma imagem com pessoa, ar livre, em pé, grupo

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Ricardo Camacho, co-produtor e teclista, e Pedro Oliveira, vocalista, puseram as mãos no fogo, nas chamas frias de um disco que sugere tons funéreos, marcando o ponto de encontro entre a festa e a morte. Mudança, “a herança de mudar” de que fala a letra de uma canção dos Sétima Legião, a existir neste álbum, não é muito percetível, a não ser talvez no título. “Depois dos três álbuns anteriores, ‘A Um Deus Desconhecido’, ‘Mar de Outubro’ e ‘De Um Tempo Ausente’, quando se encontra um título com apenas uma palavra, é óbvio que está implícita uma intenção de mudar” – diz Ricardo Camacho, para quem “essa intenção encontra correspondência no conteúdo do disco”.

Mas a que nível se localiza tal mudança? Ricardo Camacho brinca: “Estivemos para colocar um carimbo a dizer ‘este disco não contém a palavra mar’.” Percebe-se a intenção. Os Sétima Legião nunca foram nem pretendem ser heróis do mar português. Se algo mudou, foram “processos de trabalho e aproximações de composição”. Camacho dá exemplos: “No álbum anterior [‘De Um Tempo Ausente’] não se ouve uma única bateria, é tudo programado. Neste, seguimos uma aproximação totalmente diferente, embora tenhamos utilizado ‘samplers’ e composto sobre ‘loops’, deixámos ficar apenas o trabalho posterior efetuado sobre as primeiras gravações, que foram apagadas.”

 

Recusar o óbvio

 

Em “O Fogo”, são evidentes os elementos conotáveis com a “world music”, na linha do que já acontecera nos álbuns anteriores, só que, desta vez, projetados para a frente das misturas. Ricardo Camacho, numa alusão ao tema “A Voz do Deserto”, árabe sem disfarces, afirma não ter problemas em trabalhar, como é o caso, “em fórmulas fora da sonoridade habitual” dos Sétima Legião. Na altura em que o tema foi composto, há dois anos, o termo “world music” mal começara o seu assalto em força aos “media”. Agora a exceção tornou-se a regra: “Irritou-me ouvir o Jah Wobble ou a Anne Dudley com o Jaz Coleman a fazerem coisas semelhantes.”

O importante é, acima de tudo, para os Sétima Legião, “nunca fazer nada que seja completamente óbvio”. Segundo Ricardo Camacho, a banda “nunca teve uma letra que fosse totalmente explícita ou música que revelasse uma influência maioritária”. “Odeio o explícito!”, diz o produtor e teclista.

Há quem veja o som dos Sétima Legião subjugado à vontade omnipotente do produtor. O próprio reconhece que “existe um som Ricardo Camacho de tal forma vincado e viciado” que, ao fim de dez anos, houve, aqui sim, necessidade de mudança: “Chegámos à conclusão de que, se queríamos mudar métodos de trabalho, não poderia ser só eu o produtor [‘O Fogo’ é co-produzido por Amândio Bastos], teria de haver uma influência externa.”

Resultaram desta opção situações engraçadas. “Uma coisa que é notória no disco é o erro, erros técnicos. Há pormenores que, do ponto de vista técnico, estão errados, por exemplo, as guitarras estão nalguns casos obviamente desafinadas.”

“Em circunstâncias normais”, continua Ricardo Camacho, “a primeira tendência seria dizer ‘para, desgrava e vamos fazer outra vez’. Mas depois fui forçado a confrontar-me com a situação e a perguntar-me: ‘OK, isto não está inteiramente correto, mas soa mal?’ Fui obrigado a reconhecer que não.”

Brian Eno ficaria contente se ouvisse o músico português. “O Eno era mais radical, honra lhe seja feita. Ele compõe a partir do erro, coisa que nós, aliás, também já fizemos.” Quando? “Às vezes estamos a tentar uma coisa qualquer e acontece uma daquelas grandes broncas que afinal acabam por soar extraordinariamente bem e que obrigam a abandonar tudo e a seguir noutra direção.”

 

As piores vozes do mundo

 

À música portuguesa tradicional, que desde “A Um Deus Desconhecido” as pessoas se habituaram a associar aos Sétima Legião, não é dada grande importância, pelo menos “a priori”. “Tem que ver com a utilização da gaita-de-foles. Mas, se em vez de uma gaita-de-foles tivéssemos usado outro instrumento qualquer, sei lá, um clarinete, se calhar teríamos feito uma aproximação à música dos Balcãs...” Neste aspeto, como em quase tudo, a banda diz-se “intuitiva” e “instintiva”, recusando-se a ser considerada como uma banda cerebral, de estúdio.

Não tanto, pelo menos, como os Guns N’ Roses que, segundo Camacho, é um grupo “muito mais cerebral. O alvo era o número um do ‘top’ americano. Apontaram e acertaram em cheio”. No caso dos Sétima Legião, é mais uma questão de “rigor” e a “necessidade de racionalizar os poucos meios” disponíveis – “em 22 dias de estúdio [tantos quantos demoraram a gravar ‘O Fogo’], a disciplina tem de ser grande”.

As vocalizações são, para alguns, um dos pontos fracos dos Sétima Legião. Para Pedro Oliveira, o principal visado, “é uma história antiga”. Segundo ele, a banda sempre “aproveitou a voz como mais um instrumento, com a mesma importância da gaita-de-foles ou das teclas”. Assume que os Sétima Legião nunca tiveram “uma imagem forte de vocalista, mesmo ao vivo”.

Ricardo Camacho não vê nisso qualquer problema: “No nosso primeiro álbum, a voz era um dos elementos mais emblemáticos. O disco apareceu na ressaca do rock português, numa época de recessão, era uma voz que não gritava, uma voz contra a corrente.” Avança na teoria: “Já ouvi dizer que a Teresa Maiuko tem a melhor voz de Portugal. A Dulce também. Provavelmente têm... Tecnicamente irrepreensíveis... Mas será isso o mais importante?” Claro que não. “O Lou Reed tem a pior voz do mundo. O Bob Dylan ‘idem’. Suzanne Vega não tem voz, ela própria a define como um ‘useful instrument’.”

 

Privilégios

 

Os Sétima Legião, é forçoso reconhecê-lo, são um grupo difícil de catalogar. Eles não renegam as influências, que são várias, mas procuram seguir em frente sem qualquer tipo de pressões. De resto, acreditam que é difícil ser-se completamente original. Nem isso é para eles de primordial importância. Acreditam que “a cultura portuguesa leva com todas as influências e mais uma em cima”.

Apesar do embate, continuam a achar que a música portuguesa sobreviveu como “entidade própria”. O teclista é mesmo de opinião que “a música portuguesa nunca andou tanto nas ruas da amargura como durante os 40 e tal anos em que esteve confinada ao ‘ghetto’ do nacionalismo provinciano”.

Banda pouco dada aos prazeres das atuações ao vivo, os Sétima Legião preparam-se para levar “O Fogo” às diversas regiões do país numa digressão de promoção ao álbum. Mas evitam o excesso de concertos, numa atitude que contrasta com a de muitos grupos nacionais. Ricardo Camacho vai ao ponto de se recusar “terminantemente a fazer concertos” quando não há “nada de novo para apresentar”. Tocar por tocar é, segundo ele, “uma atitude desonesta – fazer o mesmo concerto durante anos e arrastar-se pelos palcos do país a requentar músicas que toda a gente conhece”.

Neste aspeto, os Sétima Legião podem considerar-se um grupo privilegiado. “Felizmente, temos condições que a maioria das bandas portuguesas não tem”, reconhece Pedro Oliveira, “e desde o princípio definimos que a nossa sobrevivência nunca iria depender do grupo.” Os Sétima Legião, grupo elitista? “Não. As elites socio-económicas, em Portugal, ouvem Júlio Iglésias...”


"De um lado, espadas, do outro, o mar" [Amália Rodrigues]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock

 

“DE UM LADO, ESPADAS, DO OUTRO, O MAR”

 

“Amália Rodrigues Live in New York City” é o primeiro vídeo longa duração de um concerto ao vivo por um artista português. Registado na noite de 2 de novembro de 1990, no Town Hall, uma das salas míticas da Broadway. Os norte-americanos vibraram com a voz da diva do fado. Presos num anelo de cumplicidade. Apesar do medo que sempre a invade nestas ocasiões. Fatal como o destino.

 

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Cantar o fado é, para Amália, cantar-se a si própria. Ela ouve-se enquanto canta. E sai de si para se colocar no lugar dos que a ouvem – “Sinto que quando gosto de me ouvir cantar, quando me emociono, as pessoas sentem do mesmo modo. Gosto de sentir que as pessoas gostaram daquilo de que eu gostei. É um prazer muito grande. Depois são aquelas palmas. Fico durante horas numa euforia.” Prazer que a impele a cantar, sempre, até à descoberta final. Esse, um dos segredos. O desdobramento, a capacidade de se emocionar dentro e fora do corpo.

Uma lucidez que Amália diz estar na essência do fado. Mas pode ser alegria. E pode ser tragédia. Não se foge ao destino. Amália não pode deixar de cantar – “Hoje em dia, cantar é a razão de ser da minha vida. Deixar de cantar é uma morte. Quando chegar a altura, vou morrer duas vezes. Ando a atrasar esse dia.”

 

“Gravaram outras coisas em cima”

 

Os Estados Unidos já por várias vezes fizeram parte do roteiro de Amália pelo mundo – “Nos primeiros anos de carreira atuei lá numa “boîte”, chamava-se La Vie En Rose. Depois fui ao Mokambo, em Hollywood, a convite pessoal do proprietário, com o Nat King Cole e a Eartha Kitt. Andei a cantar por pátios e pelo Lincoln Center, onde atuei com a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque. No Hollywood Bowl fui acompanhada pela Filarmónica de Los Angeles. No Carnegie Hall, metia portugueses, estava lá o Carlos Cruz.”

Por fim, ficaram as imagens gravadas, num testemunho, talvez tardio, da sua arte: “Lembraram-se agora de fazer isto. Devia ter sido um bocadinho antes. O meu caso passou cá despercebido de toda a gente.” Custa a entender, mas Amália garante que muito material seu gravado para a Televisão Portuguesa desapareceu, pura e simplesmente: “Deram cabo de quase tudo. Gravaram outras coisas em cima... Não sei se de propósito ou se era mesmo assim, por não haver mais fita... O que é certo é que fiz programas formidáveis, como uma entrevista que dei no Frente a Frente, com o Mensurado, que desapareceram... Nunca pedi nada à Televisão, pedi agora uma cópia deste vídeo, que não tinha. Outra vez, pedi umas imagens para mandar à televisão italiana, excertos para publicidade minha. Não mas deram.”

 

Mensagem em inglês

 

“Live in New York City” inclui fados antigos, clássicos como “Maria Lisboa”, “Vou dar de beber à dor”, “Coimbra”, “Lisboa antiga”, “Com que voz”, “Lisboa não sejas francesa”, “Uma casa portuguesa” e o eterno “Povo que lavas no rio” ao lado de “Half as much”, “Fallaste corazon” e “Canzone per te”. “Nova Iorque é uma terra cheia de gente de outros países. Quando entrei em palco cumprimentei, disse obrigado em várias línguas, até em hebreu...”

Hoje, Amália pode dar-se ao luxo de cantar o que quiser. Mas nem sempre foi assim. “No início não podia cantar ‘Povo que lavas no rio’ – era um fado muito pesado, que as pessoas não percebiam, quase não tem música –, não me deixavam, chateavam-me. Quando o cantava não acontecia nada, só umas palmas... Queriam a ‘Lisboa antiga’, a ‘Mariquinhas’, essas coisas. Cantava marchas, folclore, canções espanholas.” Compreende-se a inclusão de um tema cantado em inglês, “Half as much”, de Curly Williams: “Cantei esse tema pela primeira vez na América quando tinha 30 anos. Queriam que eu lá ficasse. Achavam que eu tinha uma mensagem quando cantava em inglês.” Mas Amália Rodrigues faz questão de frisar um ponto: “Eu não escolhi a minha condição de fadista. Ela aconteceu-me. Estava lá, ao pé da porta.”

 

Uma grande força

 

Cantadeira de fado, cantora ou, simplesmente, artista – “Lá fora sou uma artista, ninguém me chama fadista” –, de Amália espera-se sempre a transcendência. Canções ligeiras ou fados dos que tecem o destino, sobra sempre a entrega total. E a voz, que, não sendo a mesma, vai buscar energias cada vez mais fundo, cada vez mais longe. “Antigamente divertia-me a ouvir a minha voz, tinha uma maleabilidade extraordinária, era cristalina. Ficava toda contente, como uma miúda nova, era como água que corria e nunca mais parava. Aos 30 anos havia já uma força um bocado maior. Aos 50, 55, foi o auge e o aparecimento de uma grande força. Agora, a voz não está tão boa, mas há uma emoção que antes não existia.”

Ouvimos Amália e escutamos uma Voz para além da voz. Será o destino. Será a saudade. Será o sonho que alguém nos ensinou a sonhar. Será Deus. Amália entrega-se. A nós e a Deus. “A minha entrega a Deus é tão grande... Vou descobrindo coisas que só por Deus. No outro dia andava a dizer que o fado era triste porque era lúcido. A tristeza de termos ficado para aqui muito sozinhos, no fundo da Europa. E não podíamos sair. De um lado, eram as espadas. Do outro era o mar.” E ela? “Eu? Sou tão, tão fado que até me sinto feliz por ser triste.”

 

Bob Dylan - Good As I Been To You

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

BOB DYLAN
Good as I Been to You
LP/MC/CD Columbia, distri. Sony Music

Uma imagem com texto, homem

Descrição gerada automaticamente

Que se pode esperar do velho Fred [sic], hoje em dia? Palavras levadas pelo vento? Lições de harmónica? Suspiros de enfado? Publicidade ao Nasex? “Good As I Been to You” acaba por conseguir o inesperado: surpreender-nos. Uma voz, um nariz e uma guitarra afinal são mais do que suficientes para fazer um disco de boas canções. Há também as palavras, às quais já ninguém liga muito, mas pronto, é Bob Dylan, grande poeta, a “beat generation”, blá, blá, blá... Neste caso é diferente. As canções são todas tradicionais, arranjadas por Dylan da forma mais simples possível: em baladas intimistas, de uma serenidade típica de quem já disse há muito o que tinha a dizer, e também dos velhos. Mas nem é esse o caso. “Good As I Been to You” soa surpreendentemente fresco, limpo e despoluído, num regresso às raízes “country” e dos “blues” que pelo caminho dá a escutar algumas das mais sentidas interpretações do trovador: “Black Jack Davey”, “Canadee”, “Sittin’ on the top of the world”, “Arthur McBride”, “You’re gonna quit me”. Apetece dizer que Bob Dylan soa desta vez quase como um “absolute beginner”. (6)

 

Nils Lofgren - Crooked Line

 

Pop Rock
21 de Outubro 1992

 

LP’S

Nils Lofgren
Crooked Line
CD Essential, distri. Megamúsica

 

            Guitarrista de grandes recursos, Nils Lofgren tocou no lendário “After the Gold Rush” de Neil Young, integrando depois disso várias formações da banda deste músico, Crazy Horse, para finalmente alinhar na E. Street Band, ao lado de Bruce Springsteen. Gravou entretanto vários álbuns a solo, “Nils Lofgren”, “Cry Tough” e “Silver Lining”, onde mostrou ser um praticante seguro do velho rock ‘n’ roll com incidênciana linha dura. “Crooked Mile” confirma esta tendência de rocker de barba rija que faz estragos com a guitarra. A esta violência do discurso não é alheia a presença, nos apoios vocais em dois temas, do seu antigo companheiro Neil Young. A vida, recheada de perigos, passada na rua, os encontros indesejáveis, alguns desejáveis, mil situações do “american way of life” são aqui revisitados por Nils Lofgren com convicção, de modo a servirem de suporte e de alvo aos solos inflamados da guitarra. “Rock ‘n’ roll will never die”? Vai-se aguentando… (6)

 

Primeira nota autonomista [Primera Nota]

 

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 20 OUTUBRO 1992 >> Cultura

 

Grupo catalão atua no Norte do país

 

Primeira nota autonomista

 

Catalunha, região de bom vinho e de trovadores, vem a Portugal mostrar a sua música tradicional. Representada pelos Primera Nota, grupo de Barcelona que a Etnia traz ao Norte do país, em mais uma jornada do “Circuito das tradições musicais europeias”.

 

 

Outubro foi o mês reservado para o circuito do grupo catalão Primera Nota que apresentará o seu trabalho ao público português numa série de concertos agendados para hoje, no Porto, no Teatro Rivoli, quinta-feira na Guarda, no Estúdio Oppidiana, sexta em Guimarães, no Paço dos Duques, e em Viana do Castelo, em data e sala por designar.

Não são muito conhecidas, em Portugal, as notas que fazem a música da Catalunha. Muito menos a primeira, que serviu de inspiração ao nome da banda. Para dizer a verdade, nem sequer se sabe grande coisa da Catalunha e das suas gentes. São espanhóis. É suficiente para pôr uma pedra sobre o assunto. Por sinal, e por incrível que pareça, a Espanha tem muito para oferecer, mais que não seja em matéria de música tradicional. E não nos referimos sequer à Galiza – prenha de tradição e de quem, por reconhecer o significado profundo do termo, se coloca ao seu serviço – que, a falar verdade, não é bem Espanha.

O resto do país, por muito que nos custe admitir, é fértil em grupos de música tradicional de qualidade. De várias regiões, com maiores ou menores inclinações autonomistas, e de diferentes tendências. Do País Basco à Andaluzia não falta por onde escolher e ouvir, para quantos se dignarem deitar para trás das costas os preconceitos. Mesmo em Castela, essa palavra que nos dói no coração, há bons músicos e sons que nos servem de lição. Sons que, diga-se de passagem, têm chegado, via importação, a Portugal. Nomes? Alguns importantes: Aurora Moreno, La Bazanca, Fuxan os Ventos, Joaquin Diaz, La Musgaña, Llan de Cubel, Maria del Mar Bonet, Manuel Luna, Musica Nostra, Oskorri, Rosa Zaragoza, Ubiña.

 

Trabalho e paixão

 

Mas voltemos à Catalunha e aos Primera Nota. A primeira é uma região em forma de triângulo, situada longe, junto à França, limitada a Norte pelos Pirinéus, a Oeste por Aragão, a Sul por Valência e a Leste pelo Mediterrâneo. A vizinhança francesa determinou a sua história e a sua cultura. A língua é bastante diferente do castelhano (bravo!) e mantém afinidades com o provençal. Não admira então a insistência catalã em afirmar a sua autonomia. Por exemplo, eles fizeram questão de explicar que os recentes Jogos Olímpicos não se realizaram em Espanha mas sim em Barcelona, na Catalunha. Nem custa imaginar os Primera Nota, originários de Barcelona, precisamente, como pertencentes à estirpe dos novos trovadores.

De facto, a música do grupo catalão inflete por mais do que uma vez nas sonoridades provençais praticadas por um grupo como os Mont-Jòia. Os arranjos são variados e oscilam entre o tom festivo dos bailes de terreiro e a complexidade estrutural de outros temas em que a combinação de xilofones e sopros não deixa de recordar os Gryphon, uma das grandes bandas menosprezadas dos anos 70.

Compõe-se de seis elementos, a formação atual dos Primera Nota: Eduard Casals (sanfona, gralla e clarinete), Tito Pelaez (tenora, tarota e flautas), Sedo Garcia (violino e bandolim), Quim Soler Pujades (percussão), Jordi Fabregas (mentor do projeto, voz, gralla e bouzouki) e Pep Lopez (voz e contrabaixo). Gravaram até à data os álbuns “Primera Nota” e “Liet i vi” (“leite e vinho”. A propósito, nada mau, o vinho catalão...), ambos bem acolhidos pela crítica especializada.

“Riqueza musical e instrumental”, “rítmica saborosa e original”, “aliança de trabalho e paixão”, “força”, “intensidade”, “orgulho”, são alguns epítetos com que a banda tem sido apelidada. Aceitem-se os encómios, já que os discos ainda não se encontram disponíveis no nosso país. O Norte vai poder vê-los ao vivo e tirar a prova real.

 

"Cajun around the clock" [Zachary Richard]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Cultura

 

Zachary Richard lança novo álbum

 

“Cajun around the clock”

 

É americano mas cantou durante anos em francês. Não admira, pois Zachary Richard, embora se declare músico de rock, nunca renegou as suas raízes “cajun”, essa mistura de country com as músicas tradicionais europeias que os colonos franceses trouxeram para a América. O novo álbum, “Snake Bite Love”, conta como alguém se pode perder. De amores. Ou num pântano de Louisiana.

 

Uma imagem com texto, pessoa, acordeão

Descrição gerada automaticamente

 

Poucos conhecerão a música “cajun” – um híbrido com variantes como o “zydeco” (dos negros e crioulos, popularizado por Clifton Chenier) ou a “tex mex” (tocada no oeste do Texas) – típica do estado de Louisiana e da região do Quebeque, no Canadá. O “cajun”, cantado inicialmente em francês pelos colonos, foi incorporando, no Sul dos Estados Unidos, os “blues”, a “country”, a música africana e até certos sons das Caraíbas. Zachary Richard foi mais longe e misturou o mistério dos pântanos e do “voodoo” à maior acessibilidade do rock. “Snake Bite Love” é a mordidela da cobra. E de uma bela rapariga crioula.

PÚBLICO – Na primeira fase da sua carreira cantou sempre em francês. O que não acontece nos álbuns mais recentes, incluindo o novo “Snake Bite Love”. Qual a razão da mudança?

ZACHARY RICHARD – Para falar verdade comecei a cantar em inglês, no meu primeiro álbum, gravado em 1972, que nunca chegou a ser editado na América. Cresci na Louisiana do Sul, os meus pais eram bilingues. Os meus avós não falavam inglês. Sinto-me à vontade em ambas as línguas. Quando fui pela primeira vez a Montréal, em 1974, deparei com a força enorme que tinha aí a cultura francesa. Os franceses do Quebeque são muito nacionalistas. Tal facto serviu-me de inspiração, porque até então não tinha muita consciência das minhas origens “cajun”. Na Louisiana as pessoas tendem a ignorar esta cultura. Associam “cajun” a ignorância e pobreza. Tal deve-se à invasão da cultura americana, nos anos 40. Tudo isto inspirou-me a cantar em francês.

P. – O seu primeiro mercado foi, aliás, a França...

R. – Sim. Era muito excitante para mim. Era o início de uma aventura que durou 10 anos e durante a qual gravei oito álbuns, que tiveram sucesso. Mas a meio dos anos 80 cheguei a um ponto em que senti que tinha de regressar a casa, à Louisiana – o que fiz – e comecei a cantar e a tocar na costa do Golfo (do México), na área de Houston, em ambas as línguas. E a gravar em inglês. Foi uma coisa natural. É óbvio que quando se canta em inglês é possível chegar a uma audiência e a um mercado maiores, mas essa não foi a principal motivação. De facto, tenho uma maior tendência para escrever canções em inglês. Além de que esta é a língua do rock ‘n’ roll.

P. – Mas concorda que a música “cajun” cantada em francês tem outro sabor?...

R. – Absolutamente. O que acontece é que não sou verdadeiramente um músico “cajun” tradicional. O meu estilo está bastante mais próximo do rock ‘n’ roll.

P. – Quando se fala de “cajun” as pessoas esperam de imediato ouvir acordeões, banjos, rabecas, não é?

R. – Quando se vem da Louisiana e se toca acordeão as pessoas pensam logo em música tradicional. Mesmo quando comecei a tocar música “cajun”, já lá vão 20 anos, o que pretendia era dar-lhe um cunho contemporâneo, mantê-la viva. A ideia era trazer elementos do “cajun” para um formato rock. Para mim o mais importante é escrever canções e a criação de uma música nova. Neil Young, Bob Dylan ou os Byrds são algumas das minhas influências, juntamente com o “cajun”, o estilo “zydeco” e os “blues” da Louisiana.

 

Venenos

 

P. – Em “Snake Bite Love” sente-se deveras o ambiente da Louisiana, em parte devido às letras. Viveu mesmo todas as histórias que narra?

R. – Tento escrever canções que digam qualquer coisa. Conto histórias e neste aspeto tenho a sorte de vir de um lugar onde abundam não só as histórias, como os contadores de histórias. A Louisiana é fértil em culturas, em personagens, em toda a espécie de experiências.

P. – É fácil ou difícil viver na Louisiana, no meio dos jacarés, dos mosquitos e do “voodoo”?...

R. – É bastante fácil. Temos boa comida, mulheres maravilhosas e música excelente. É quase como viver em Portugal...

P. – Mas nas notas do disco escreve coisas como “o perigo é beleza” e “a beleza é perigosa”...

R. – Tem tudo a ver com o tema de “Snake Bite Love”. Quando alguém, na Louisiana, é mordido por uma cobra, isso quer dizer má sorte. Há uma contradição entre o amor e a má sorte. Mas, num certo sentido, o amor é como um veneno. Por outro lado, é como passear pelos pântanos. Ao mesmo tempo belo e perigoso. Pode-se ser morto lá, pelos jacarés, por cobras venenosas, por mosquitos... É assim que sinto o amor, a paixão. O amor de uma mulher crioula é algo muito excitante mas ao mesmo tempo perigoso... Há sempre o perigo de se enlouquecer. De ser possuído pelos encantamentos do “voodoo” ou do amor. De se perder tudo, até a própria identidade.

P. – Por falar em “voodoo”, como aconteceu a presença, na canção “Down in Congo Square”, de Dr. John, “o viajante da noite”?

R. – Essa alcunha vem dos tempos em que ele se pintava, a fase “glitter”. Conheci-o por volta de 1972 em Nova Iorque, onde ele tocava nessa altura. Eu era seu admirador. Tornámo-nos amigos desde então. Nessa canção quis dar-lhe o estilo de New Orleans e Dr. John era a pessoa ideal para o fazer. Ele vive num bairro francês da cidade. Telefonei-lhe e ele apareceu.

P. – Também viveu no Canadá. Quais são as principais diferenças entre as culturas “cajun” de uma e outra região?

R. – Uma das diferenças é que no Canadá faz mais frio. No Canadá existe uma comunidade pequena na Nova Escócia, de acadianos, de onde os acadianos da Louisiana são originários, depois de terem sido deportados em 1755, pelos ingleses. Há semelhanças entre os acadianos da Nova Escócia e os acadianos da Louisiana: a língua e o sotaque, ou a música de violino. Por outro lado na Louisiana há as influências africanas, do jazz, dos “blues”, do “zydeko”, que no Canadá não existem de todo.

P. – A influência irlandesa é comum...

R. – Sim, essa decerto que a partilhamos. Os tocadores de rabeca irlandeses tiveram uma grande influência tanto na Louisiana como no Canadá.

 

Não à pop

 

P. – Antes do seu primeiro álbum em inglês, “Zach Attack”, afirmou que não queria ser um “french pop singer”. O que quis dizer com isso?

R. – Sempre vendi bem em França, mas nunca me estabeleci aí. Nessa época conheci Claude Michel Schoenberg. Em 1980 resolvi voltar para a Louisiana e estive dois anos praticamente sem tocar. Construí uma casa e sentia-me feliz apenas por estar lá. Em 1984 o Claude Michel veio visitar-me e convenceu-me a gravarmos juntos um disco em França. O estilo de produção de Claude Michel é muito voltado para a pop. Escrevemos algumas canções para “Zach Attack”, boas canções mas que tinham, penso eu, um toque esquizofrénico. Umas totalmente pop e outras muito ao estilo de Louisiana. Havia duas direções num mesmo álbum. Quando acabei a gravação senti-me confuso. Cheguei por fim à conclusão que tinha de regressar de novo a Louisiana e gravar dentro do seu estilo. E queria voltar a tocar para audiências americanas.

P. - ... e ser uma estrela de rock ‘n’ roll...

R. – O rock sempre fez parte do meu estilo. Apenas passei a definir a minha música de uma forma mais clara.

P. – No entanto nunca renegou as suas origens. Pensa que o trabalho de fusão, digamos assim, a que se tem dedicado, é a melhor forma de divulgação da música “cajun”?

R. – Não sou nem missionário, nem político. Não faço música como forma de propaganda. Faço a música de que gosto. E de uma forma cada vez mais pessoal. Não considero haver uma contradição em ser absolutamente fiel à ideia de preservar a língua francesa e a cultura “cajun” na Louisiana e ser ao mesmo tempo um músico de rock.

 

Zachary Richard - Snake Bite Love

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Zachary Richard
Snake Bite Love
CD, A&M, distri. Polygram

Rock ‘n’ roll com as cores do “bayou”, dos jacarés e dos mosquitos, do “voodoo” e da mitologia cajun em geral é a proposta de Zachary Richard, um americano que passou anos a cantar e a gravar discos em francês (costuma ser deliciosa a música cajun quando cantada nesta língua, com a pronúncia híbrida que lhe é característica em Nova Orleães e no Quebeque) para finalmente regressar às origens do Louisiana. “Nunca pretendi ser um músico de cajun tradicional”, diz ele. O que Zachary pretende então é recriar este género, depois de o ter domesticado através do rock. Não por acaso, o autor cita, entre as suas influências, os Beatles e Neil Young.

“Snake Bite Love”, a picada do amor, tão venenosa como a da cobra, é interessante sobretudo ao nível dos textos que relatam histórias do Sul ou da comunidade “acadiana” dos imigrantes franceses no Canadá, um dos centros fulcrais da cultura cajun, já que a música é bastante convencional. Os típicos acordeões, banjos e “washboards” da tradição cajun são remetidos para as traseiras, pela mesa de misturas, assomando uma ou outra vez à superfície das canções. Não se pode pedir mais a quem, como Zachary Richard, nunca quis ser um purista. Só que músicos de cajun não os há assim tantos e “rockers” da sua categoria há-os aos milhares. São opções... (5)