22/09/2026

Em Público [Jorge Palma]

 

pop rock >> quarta-feira, 15.09.1993

EM PÚBLICO

 

JORGE PALMA*

 

Uma imagem com Cara humana, pessoa, vestuário, mamífero

Descrição gerada automaticamente

 

Viajante das músicas, de lugares, de si próprio. Aceita a definição?

Viajante um bocado forçado, neste momento... Um gajo vai arrecadando coisas e às tantas dá por si com coisas a mais, uma tralha que nunca mais acaba!

 

No princípio não era assim...

No princípio era um saco e chegava... mas um gajo vai arrecadando coisas... responsabilidades... o espírito do viajante, porém, feliz ou infelizmente, não morre e um gajo vê-se perante uma imagem de si próprio que não é a ideal. Às tantas, com as responsabilidades, dá por si a dizer: “Mas eu não posso viajar assim!”

 

Quer dizer que era um nómada e que agora se viu forçado a ser sedentário?

É isso. E não posso ignorar factos concretos como por exemplo o meu puto. Neste momento seria um disparate, na minha maneira de ver... Não posso ir para África ou para outro sítio qualquer e levá-lo comigo. O gajo precisa de estar na escola e criar raízes e amigos...

 

Não quer que saia ao pai, é isso?

[Risos]. Não me importava que saísse a mim, mas eu sou um sobrevivente, fiz toda a espécie de asneiras e sobrevivi! Mas como é que eu posso fazer em relação ao meu puto? Tento protegê-lo, quero que ele seja feliz... Mas como é que um gajo como eu lhe diz para fazer isto ou aquilo? Ele já me responde: “Então e tu?”

 

Disse que sobreviveu. Sobre “o fio da navalha”, utilizando a expressão de Somerset Maugham?

Sim, confesso que tenho lá o livro mas ainda não o li, como muitos outros... É o “living on the edge”. Conheces o vídeo dos Metallica? O gajo está a tocar guitarra em cima de uma linha de comboio, no momento preciso em que o comboio vai passar, o gajo dá um único passo em frente e sai fora da linha. O comboio passa e continua tudo na mesma, ninguém deu por nada. Isso é “timing” que eu acho que tenho tido...

 

Nessa vida de viagens que levou, lembra-se de uma que o tenha marcado, pela positiva ou pela negativa?

Tenho saudades de uma viagem em que vim à boleia da Dinamarca. Comecei com um gajo sueco que tocava contrabaixo comigo. O gajo desistiu ao fim de uma hora, foi apanhar o comboio. Viajar com um contrabaixo é complicado... Fiz duas vezes essa viagem. Na primeira cheguei onde queria, uma aldeia onde vivia a namorada do meu bandolim. Cheguei de Alfa-Romeo, com o número de telefone da última senhora que me tinha dado boleia e por quem eu estava apaixonado. Devorámos o supermercado lá da terra, que era dos pais da namorada do meu amigo. Da outra vez demorei três dias para atravessar a Alemanha. Foi na altura dos Bader-Meinhoff, dormi na auto-estrada, sem saco-cama, sem nada, com a guitarra ao lado, à chuva e a ouvir tiros. Disse para comigo: “O melhor é não me mexer daqui!” Acordei, sozinho, ao fim de quatro ou cinco horas de sono, e pensei: “Estou vivo. Agora, o melhor é ir pela Bélgica [risos]. O que é que paga isto, pá?”

 

A propósito de viagens, de uma vez por todas, o seu álbum “Viagens na Palma da Mão” é ou não uma referência explícita ao ácido?

Coincide. Eu andava no segundo ano de Engenharia, na Faculdade de Ciências e a coisa foi perdendo o interesse, completamente. Cada vez mais e mais estava envolvido em esquemas de orquestrações e comecei a ganhar dinheiro com a música. Era puto, tinha 22 anos, e quando arranjava coragem para ir às aulas práticas (às teóricas não era preciso!), havia greves e confusões, o pessoal aos gritos a insultar os professores. Por isso, “ciao”, acabou.

Fui para a Dinamarca e, altamente influenciado pelo rock sinfónico dos Genesis, Van Der Graaf, Yes, Soft Machine, fui ter com um gajo com quem tinha tentado encenar “Godspell” em Portugal, que tinha uma casa enorme e um piano de cauda onde eu construí esse primeiro álbum. Fi-lo em inglês porque não sabia quando voltaria para Portugal e estava com uma “fitada” em Inglaterra. Depois, deu-se o 25 de Abril. Hesitei, voltei para Portugal. E quando volto gravo o primeiro álbum – “Viagem na Palma da Mão”. Antes do ácido. O ácido vem depois. Nessa altura era ópio e haxixe. Na Dinamarca tinha-se de tudo...

 

O ácido, o ópio e o haxixe influenciaram a sua música?

O que é que eu teria sido se não fosse isso tudo? Era de certeza diferente, se calhar era um gajo muito mais atinado. Mais pontual, por exemplo...

É uma questão de espírito – tu sabes que existe aquilo e queres experimentar e tem sido sempre esta a minha abordagem das coisas. Mas há coisas em que um gajo fica “agarrado”. Os copos, os cigarros... O xutos, a heroína...

 

Conseguiu livrar-se facilmente disso?

Foi relativamente fácil. Apesar de ter havido um ano em que “enfiei” de tudo, acho que não estava vocacionado para ali, não era o que me interessava. Mantive um distanciamento, apesar de saber que há aqui um problema... um gajo tem que se alienar um bocado, há uma força que falta às vezes – ou pelo menos um gajo pensa que falta –, precisa de ir buscar estímulos...

 

Essa alienação é inevitável?

Acho que ainda conseguia “limpar-me” fisiologicamente se as condições ideais existissem. Só que elas não existem... De que é que me serve fazer ioga ou comer macrobióticos, para depois levar com uma camioneta? Eu vivo aqui e por isso tenho que pactuar com o esquema vigente. Não posso ser um ET na minha terra. Idealizo coisas, tomo conhecimento de coisas desagradáveis, mas não me posso esquecer de que estou aqui, no Príncipe Real, num bar, e não vou beber água – vou beber “whisky” ou cerveja e vou fumar cigarros. Porque eu já experimentei beber água e não fumar e depois comecei a olhar para os gajos e pensei: “Isto está mal! [risos]? E “ouvi” silêncios gélidos e disse: “Porra, eu não quero esta merda!” Eu quero o pessoal a beber e a divertir-se...

 

Por vezes dá ideia de que existem dois Jorges Palmas: o do conservatório, perfeccionista, e outro com a voz completamente rebentada, da desbunda, sem controlo. Tem uma explicação para isso?

Há uns tempos que não era convidado para tocar piano como músico de estúdio e ontem fui tocar. Estive lá três horas a tentar perceber o que é que os gajos queriam que eu fizesse. Não tenho escrito canções nos últimos tempos, tenho escrito letras quando me pedem... Tenho estado a evitar um reencontro com uma realidade que é a minha... Hoje vou ver os Xutos e não sei o que vai acontecer. Se eu tiver uma sessão de estúdio amanhã ou qualquer coisa importante, é melhor ir ver os Xutos e dormir uma hora ou duas. Se eu for para a cama não consigo dormir a pensar naquela merda. Já lá vai o tempo em que eu tomava “drunfos”...

Tenho dificuldade em dormir porque estou a imaginar tudo, a viver tudo antecipadamente. Eu sei que sou muito desastrado e que muitas vezes estrago as coisas por tê-las antecipado, e depois quando lá chego já não tenho a energia que tinha umas horas antes. Não dormi, bebi demais e nem sequer é uma perspetiva egoísta, é a minha maneira possível de ser. Se acontecer alguma coisa comigo neste momento, esqueço-me do que é que vem a seguir. O importante é o que está a acontecer agora. Sou um hedonista.

 

Depois de “Só”, lançado em 1991, de canções antigas acompanhadas ao piano, tem algum novo trabalho em perspetiva?

Estou a trabalhar numa espécie de complemento desse disco. Terá quatro guitarras elétricas, bateria, gravado ao vivo, sem artifício nenhum. Eu sou o guitarrista, faço os acordes e canto, outro é o Zé Pedro com a sua Gibson, o Flak também com uma Gibson, o Alex no baixo e o Kalu na bateria. O título vai ser “Palma’s Gang ao Vivo no Johnny Guitar”.

 

Fechemos o ciclo. É um nómada, um viajante, mas dá impressão que Lisboa desempenha um papel muito importante na sua música. Se Lisboa fosse mulher, como a definiria?

Uma puta! [risos]. Uma puta morena...

 

* Cantor, compositor, guitarrista, pianista, viajante, hedonista. O próximo álbum, com o título “Palma’s Gang ao Vivo no Johnny Guitar”, será lançado em breve pela Polygram.

 

Narada: a era do vazio [Editora Narada]

 

Pop Rock

 

13 MAIO 1992

 

NARADA: A ERA DO VAZIO

 

Narada é o nome de uma editora de música “Nova Idade”, a partir de agora distribuída entre nós. A maior parte do catálogo dá sono, mas há um ou dois títulos que valem a pena.

 

“New age”, “nova idade”, o paraíso, enfim, que nos acena. O conceito surgiu na América, em meados dos anos 80, com editoras como a Coda e Windham Hill. NO início, os artistas intervenientes eram rapaziada e raparigada como Rick Wakeman (dos Yes), Tom Newman (produtor de Mike Oldfield) ou Claire Hammill, veteranos de outras batalhas, em fase de reciclagem, à procura de relançamento e de novas formas de sustento. Ficaram para trás. Vingança: a “nova idade”, aprendida nos manuais de astrologia, abria-lhes as portas.

         Houve quem aderisse. Era a promessa do “novo” que fazia luzir mil olhinhos cansados das violências e desacatos do rock, traduzida numa música bonitinha, inofensiva, ideal para “relaxar” e “fazer sonhar”, sobretudo os executivos para quem a coca acabou por não se revelar a panaceia universal.

         A indústria chamou “adult alternative music” à coisa. Muitos, por comodismo, deixaram-se cair no logro. É pena, porque de facto há uma nova idade que desponta. Assim, pela via da normalização e da facilidade, “slogans” como “não destruam a floresta amazónica” têm a força de um “não comam chocolate porque faz mal ao fígado”.

         A Narada – que passou a ter distribuição nacional através da discoteca Roma – é mais uma entre dezenas de editoras “new age” (como a Private Music, Higher Octave, Miramar, Silver Wave, Soundings of the Planet, Sonic Atmospheres, Golden Gate, Astromusic, e outras tantas manifestações de “kitsch” cósmico, onde não cabe a Hearts of Space, que mistura um bocado as coisas e inclui no seu catálogo obras de Robert Rich ou Steve Roach, que pouco ou nada têm a ver com a restante mediocridade), com a diferença de, sabe-se lá porque misteriosas conjunções astrais, ter vendido no ano passado mais que a concorrência.

 

Passagem indolor

 

No seio da Narada, os discos dividem-se em três categorias principais: Narada Equinox, para as “fusões de influências variadas, pop, rock, jazz, étnica e folk incluídas”; Narada Lótus para a “música acústica cuidadosamente embalada”; e Narada Mystique para a “nova música de raiz electrónica”.

Os artistas têm nomes estranhos e vagamente apropriados para o género: David Arkenstone, Richard Souther, Ralf Illenberger, Trapezoid e Kostia. Os CD apresentam capas que retratam paisagens idílicas, de aspecto gráfico cuidado, sem esquecer os “booklets” sofisticados repletos de gravuras, simbologia avulsa e longos tratados sobre o vazio.

Os títulos – “Natural States”, “Indian Summer”, “Desert Vision”, “Moon Run”, “White Light”, “New Land”, “Heartsounds”, “After the Rain”, “Valley in the Clouds” – são portentos de imaginação.

E a música? Ouviram-se vários discos: “Panorama” de Wayne Gratz, “Natural States” e “Return to the Heart” de David Lanz, “Dorian’s Legacy” de Spencer Brewer, o inenarrável dino-meirismo de “Michael’s Music”, de Michael Jones; e dois melhorzitos, talvez porque menos preocupados em soar “new age”: “In the Garden”, de Eric Tingstad e Nancy Rumbel, obra conceptual sobre “jardins”, reais e como metáfora, e “A Childhood Remembered”, em que vários artistas da editora dão uma mãozinha e efabulam sobre a infância perdida. O piano é rei, acolitado pela electrónica, instrumentos de orquestra e uma ou outra concessão ao “étnico”.

Para todos quantos gostam de Richard Clayderman e hesitam em dar o passo em frente, receosos de arriscar, não hesitem e ouçam os discos: a passagem é absolutamente indolor.

A alegria e a fúria vieram do mar [III Festival Intercéltico do Porto]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 6 ABRIL 1992 >> Cultura

 

Irlandeses De Dannan dão festival de virtuosismo no último dia do Intercéltico

 

A alegria e a fúria vieram do mar

 

Bleizi Ruz e De Dannan fecharam em força e com virtuosismo o Festival Intercéltico que durante três dias decorreu na cidade do Porto. Portugal, Galiza, Astúrias, Bretanha, Inglaterra e Portugal foram os polos de um mundo nascido do mar e de um tempo que teimam em permanecer vivos. Cumpriu-se o ritual.

 

 

            Sábado, derradeira noite do Intercéltico. Últimos folguedos. Festa em que estiveram presentes os sons do mar, as pulsações da Natureza que firma os corpos e os sonhos que rompem o futuro. Lotação esgotada. Que chamamento ou chama atrai o homem para estas músicas que o tempo poliu? Entusiasmo. Celebração. Ritual. Os Bleizi Ruz vieram da Bretanha e da chuva. Os Bleizi Ruz gostam e desejam a chuva – disseram-no em palco. Eric Liorzou, Loic Leborgne, Bernard Quillien e Philippe Janvier deram início à função com um “laridé” e nunca mais pararam. Mantiveram-se mais fiéis à Bretanha do que o seu álbum ao vivo, “En Concert”, deixava adivinhar. As passagens, esperadas, pelo “cajun” e pela música dos Balcãs enriqueceram um concerto do qual o mínimo que se poderá dizer é que foi vibrante.

            Philippe Janvier e Bernard Quillien dialogaram, lutaram e quase rebentaram as bochechas na estridência das bombardas. Luc Lierzou cruzou-se com elas em ritmos e síncopes impossíveis arrancadas da guitarra. Loic Leborgne deu “show” no acordeão diatónico com ligação MIDI, o que lhe permitiu, por exemplo, imitar o som de uma harpa. Quillien, sempre bem-humorado, contou histórias – sobre ciclistas ecológicos, casamentos regados com Ricard e cabeças cortadas para serem servidas em Jerusalém. Houve espaço para “mensonges” intimistas e para os delírios de um saxofone barítono soprado por Janvier. Respirou-se chuva e sol. Subiu-se às montanhas da Bulgária e da Roménia. No final, os quatro músicos improvisaram sobre as cadências bretãs. A gaita-de-foles irrompeu, um pouco fora de tom, em diálogo com a bombarda. O “kan-ha-diskan”, de canto e resposta, também fez a sua aparição, extrovertido, vibrante, afirmativo da individualidade linguística e cultural da Bretanha.

 

Irlanda em ritmo de loucura

 

Sobre os De Dannan é difícil transcrever o virtuosismo instrumental e a “fúria” criativa de todos os seus elementos. Frank Gavin faz do violino um brinquedo cujas cordas parecem não conhecer limites. O violino arde literalmente nas suas mãos, e salta, mergulha, esgueira-se e incendeia o resto da música. Frank disse piadas, riu-se e gozou com os guinchos de “yeahouyupiuoiu” da assistência. Nota de apreço ao público que, desta vez, esteve muito bem. Riu nas alturas certas e não bateu escusadas palmas (fora de) compasso. Apenas os guinchos “yeahouyupiuoiu” não terão tido a pronúncia correta, como, de resto, os músicos foram os primeiros a assinalar. Mas, na generalidade, não desiludiu.

Regresso aos De Dannan para mais um pouco de entusiasmo crítico: espantosa a “conversa” rendilhada mantida entre o bouzouki de Alec Finn e a guitarra desse grande senhor que é Arty McGlynn. E que dizer do solo de “bodhran” (instrumento de percussão) de Colin Murphy? O melhor é nem dizer nada, só visto e ouvido, para perceber como é possível criar melodias com um osso a bater numa pele. Frankie Gavin juntou-se-lhe num solo de “tin whistle” de cortar a respiração (principalmente a do próprio músico que, exagerando um pouco, não terá afastado os lábios do pequeno tubo metálico durante quase cinco minutos). Mais discreto mas não menos eficaz, Aidan Coffey manteve a máquina em andamento com o seu acordeão, embora neste caso, não fosse possível afastar o fantasma de mestre Máirtín O’Connor.

            Claro que houve uma cantora. Os De Dannan jamais dispensaram uma voz feminina, nos já longos anos que levam de carreira. Eleanor Shanley não terá feito esquecer a profundidade de uma Dolores Keane (ainda é novita, com os anos vai lá) mas saiu-se bem. Cantou sem fífias um difícil tema a solo, outro de Dylan e as tradicionais baladas de descanso entre a vertigem dos “reels”, “jigs” e “hornpipes”, (escolhidos na maioria do álbum recente “1/2 Set in Harlem”) que para qualquer cantora irlandesa que se preze são canja.

            Fechou com loucura o Intercéltico: no “encore”, ao som de “Hey Jude” dos Beatles que deu lugar a nova sequência endiabrada de danças. O público pediu mais mas já se fazia tarde. O ciclo céltico dava a volta completa e de novo se abria em espiral. Até ao próximo ano, com a promessa de uma semana irlandesa.


Bailia à desgarrada [III Festival Intercéltico do Porto]

 

PÚBLICO DOMINGO, 5 ABRIL 1992 >> Cultura

 

Novo projeto de António Tentúgal desilude no segundo dia do Intercéltico

 

Bailia à desgarrada

 

Nem sempre o gigantismo é a melhor solução. Prova-o o novo e ambicioso projeto de Tentúgal, “Bailia das Frores”, apresentado no Teatro Rivoli do Porto, que pecou por falta de rodagem. Os asturianos Llan de Cubel mostraram que o essencial pode ser dito em poucas palavras. Sem perder o coração.

 

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            “Bailia das Frores”, o projeto galaico-português montado por Tentúgal para a terceira edição do Intercéltico, a decorrer no Porto, falhou onde deveria ter acertado: no ritmo e na alegria. À desmesura da ideia – uma espécie de demanda das origens mítico-históricas comuns a Portugal e à Galiza – correspondeu uma sucessão de quadros soltos em que o aspeto “folclórico” e construção em excesso acabaram por vencer qualquer tipo de discurso. Valeram os momentos em que a música se sobrepôs ao peso das intenções. Assim aconteceu quando a voz de Uxía, uma cantora galega caída da lua, fez esquecer a Geografia e a História para nos devolver, em apenas duas canções, a beleza que dispensa máscaras e disfarces. Canções de luz.

            À partida, “Bailia das Frores” tudo prometia. Meia-hora antes do espetáculo começar na sala já o “hall” e o primeiro piso do teatro Rivoli vibravam ao choque dos paus e aos gemidos da gaita-de-foles dos pauliteiros do Orfeão Universitário do Porto, e às pantominices dos bugios e mouriscos de Sobrado. Instalados a confusão, a festa e o espanto, aguardava-se o resto da procissão. Do adro ao interior da Igreja, as cantadeiras do Neiva, de candeias acesas, romaram e cantaram por entre as frisas da plateia em direção ao palco. Depois o filme partiu-se.

            Ficaram imagens, sons e cores desgarrados. Fotogramas em vez de película em movimento. Fernando Meireles, Carlos Guerreiro, Amadeu Magalhães e Tentúgal giraram compenetrados as manivelas das sanfonas, em “Ai flores, ai flores do verde pino” que não floriram, muito por culpa do som que várias vezes falhou ao longo da noite. Ressalve-se a vocalização de Carlos Guerreiro, que teve a força e a emotividade adequados a um tema composto por D. João IV.

 

Uxía, mais alto

 

            Jorge Mota, o “pivot” da cerimónia, cumpriu o que se lhe pedia e arrancou algumas gargalhadas da plateia. Ensinou-nos, por exemplo, a distinguir um pauliteiro de uma mirandesa (é preciso saber que ambos vestem saias): “Mete-se a mão por baixo da saia. Se encontrarmos uma gaita-de-foles é um pauliteiro. Se descobrirmos uma gaita de beiços, é uma mirandesa”.

            As cantadeiras do Neiva (por acaso uma delas até tinha bigode) cantaram e ajoelharam num “Pai do ladrão” pitoresco e genuinamente popular. Já os gaiteiros Francisco Bouzo, Nuno Cristo e Paulo Marinho, este último dos Sétima Legião, não atinaram com o fole e a palheta, recordando a necessidade de se criar entre nós, à semelhança do que acontece na Galiza, uma escola do instrumento. Os pauliteiros rodaram as saias e bateram os paus, como lhes competia. Saltaram os bugios, sem que alguém na sala percebesse porque saltavam.

            Em palco os músicos iam-se amontoando até haver suficientes para uma “suite-expresso” pelo périplo celta da qual constaram um “an dro” bretão, a enésima versão do “B-A-Ba” irlandês de “Maggie in the woods” e uma “pasacorredoira” galega. Tentúgal e os outros Vai de Roda presentes bem poderiam ter dispensado o resto da companhia.

            A salvação chegou com Uxía, que interpretou duas belíssimas canções apoiada pelos teclados discretos de Pancho, seu antigo companheiro nos Na Lúa, que ao longo da “Bailia” tocou também violino. Na memória ficou ainda o tema final (repetido no “encore”), “A roupa do marinheiro”, entoado primeiro pelas cantadeiras do Neiva e em seguida servindo de pretexto para todos os participantes se reunirem em palco para o “tudo ao molho e fé em deus” final. Com a voz de Uxía de novo a elevar-se mais alto que a restante massa humana. A esta “bailia” faltou o ardor da paixão. Porque os celtas sempre preferiram o fogo da intuição à frieza dos conceitos.

 

Astúrias irlandesas

 

Na segunda parte do programa os asturianos Llan de Cubel dispensaram todo e qualquer artifício para se centrarem no essencial. José Manuel Cano e Elías García, respetivamente na guitarra e bouzouki, construíram o suporte rítmico eficaz sobre o qual discorreram o violino de Gusmán Marqués (um portento de concisão e subtileza, o tipo de violinista que se insinua ao invés de se impor), a flauta de Marcos Llope (também inexcedível de técnica) e a gaita asturiana e o acordeão de Fonsu Mielgo. Pese embora uma certa homogeneização e “irlandisação”, chamemos-lhe assim, dos arranjos, os Llan de Cubel provaram que a tradição do seu país permanece viva e atuante. Em “muiñeiras”, rumbas, valsas, villancicos e rabeladas vertiginosos ou em canções como “La deva”, “Arniciu”, “Xunan de Mieres” ou “Nel campu ñacem flores” extraídas dos álbuns “Deva” e “Na Llende”.

 

Uma rosa é uma rosa é Maddy Prior [III Festival Intercéltico do Porto]

 

PÚBLICO SÁBADO, 4 ABRIL 1992 >> Cultura

 

III Festival Intercéltico

 

Uma rosa é uma rosa é Maddy Prior

 

Foi vingado o fracasso da apresentação de Maddy Prior no Folk Tejo do ano passado. No Porto, a antiga vocalista dos Steeleye Span deslumbrou. Os Matto Congrio cantaram a Galiza em ritmo de “reggae”. Mas o primeiro dia do Intercéltico decorreu sob o signo da rosa.

 

            Uma voz portentosa, aliada a uma postura em palco de completa descontração e à ingestão regular de vários copos de aguardente ao longo do concerto, contribuíram para que Maddy Prior assinasse uma atuação inesquecível nesta terceira edição do Intercéltico, que decorre no Porto até dia 4.

Intercéltico que abriu com os galegos Matto Congrio, tradicionais q.b. mas, por ora, demasiado dispersos por entusiasmos que nada têm a ver com a Galiza. O público, que encheu por completo a plateia do Rivoli, não se importou muito e aderiu sem reservas ao volume sonoro e à prestação elétrica dos Matto Congrio (quer dizer “mato o congrio”. “Congrio”, ou congro, é um peixe e o nome foi escolhido num restaurante. Transcendente), sobretudo a facão mais jovem. Os puristas terão torcido o nariz aos frequentes desvios pelo “reggae” ou à batida nordestina de uma “polka carnavalesca” um pouco deslocada do contexto. Salvaram-se um entusiasmo contagiante e o virtuosismo de Carlos Nuñez, espantoso na flauta e na gaita-de-foles. Registe-se ainda o “encore” da praxe – uma versão de “Music for a fond harmonium”, dos Penguin Cafe Orchestra, seguindo o exemplo discográfico dos Patrick Street, em “Irish Times”.

Após o intervalo, Maddy Prior mostrou logo de entrada porque é considerada uma das poucas vocalistas inglesas a poder ocupar o lugar deixado vago por Sandy Denny, com um solo vocal do tradicional “The blacksmith”, desde logo a prometer uma prestação intimista capaz de fazer esquecer o pesadelo sonoro do “Folk Tejo”.

De entre um desfile de maravilhas, primeiro destaque para um momento mágico, quando Maddy (que envergava um casaco cor-de-rosa), iluminado por holofotes rosa, cantou “Rose”, num diálogo apaixonado com o piano de Nick Holland. “Mater Dolorosa” (à semelhança de “Rose”, um tema sobre crianças), fala de angústia e sofrimento, mas o público, inexplicavelmente, julgou por bem sublinhar com risos as explicações da cantora. Aliás o público riu sempre com gosto. Riu-se das piadas. Riu na mesma quando Maddy Prior dedicou “Somewhere along the road” ao marido (Rick Kemp) que se encontra doente.

Entre duas canções Maddy Prior leu alguns poemas da sua autoria, como “Poetry” (sobre o ato criativo) e “Effort” (sobre o casamento). Poesia à parte, a música nunca deixou de pairar nas esferas superiores. “Spirit”, por exemplo, condensou as duas aceções do termo, no movimento descendente entre a espiritualidade matinal que convida à contemplação e o apelo noturno de uma bebida espirituosa, o brandy. Por falar em “espíritos”, Maddy não se esqueceu de elogiar o bom vinho e a boa aguardente portugueses, elogio sincero e sentido que uma ou outra oscilação pendular sobre o palco não deixaram desmentir.

Excelentes como o vinho foram um hino a quatro vozes sobre os “falhanços da vida”, mas em que a boa disposição da vocalista a levou a ensaiar uns passos de dança, e uma longa suite sobre o ciclo das estações intitulada “Year”, a recordar os melhores Steeleye Span e que pôs em relevo as capacidades técnicas dos quatro músicos da banda: Nick Holland, piano, Mick Dyche, guitarra, Richard Lee, contrabaixo e Steve Anftee, violoncelo. Maddy esteve sublime, alternando, na voz e na pose, o ascetismo com a extroversão dionisíaca.

Dois “encores”: um sombrio “After the death” e “The dawn of the day” em que de novo aflorou uma criança. A rosa simboliza o amor. Maddy Prior esquiva-se: “Não escrevo nunca sobre o amor, escrevo sobre relações”. Maddy foi prior de uma freguesia extasiada.


O guitarrista que é conforme [Pat Metheny]

 

PÚBLICO SÁBADO, 4 ABRIL 1992 >> Televisão e Rádio >>Televisão

 

O guitarrista que é conforme

 

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            É bom? É mau? Pat Metheny é conforme. Tecnicamente é um músico perfeito. O discurso da sua guitarra, acústica ou sintetizada, possui a força e a limpidez de um caudal de água. A nitidez do fraseado aprendeu-o com os mestres: Jim Hall, Django Reinhardt, Wes Montgomery. O buril de Manfred Eicher, durante toda a fase ECM, fez o resto, eliminando qualquer aresta mais áspera que pudesse subsistir. Os discos com o vibrafonista Gary Burton aí estão para o demonstrar. Mas é conforme. Quando a coisa descamba para o mau gosto, Pat Metheny cede ao pior dos vícios, o da facilidade, traduzida num jazz-rock de hipermercado que torna irrelevante um disco como “Still Life (Talking)” e quase repelente outro como “Letter From Home”.

            A alternativa é esquecer estes pecadilhos (melhor ainda é não chegar sequer a ouvi-los) e procurar noutras latitudes. Três momentos chegam para não levar o guitarrista muito a sério quando afirma que a sua “primeira pulsão sexual” foi provocada pela voz de Astrud Gilberto, em “Garota de Ipanema”, ainda por cima na televisão: “Question and Answer”, com Dave Holland e Roy Haynes, “Song X”, com Ornette Coleman (um dos seus mestres assumidos embora não seja provável que o saxofonista lhe tenha provocado uma pulsão do mesmo tipo que Astrud Gilberto) e “Electric Counterpoint”, uma peça minimal repetitiva composta por Steve Reich.

Outras pulsões, hoje em “Outras músicas”, para ouvir ou experimentar. É conforme.

 

Canal 2, às 19h45

21/09/2026

Pelo caminho das estrelas [III Festival Intercéltico do Porto]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 2 ABRIL 1992 >> Cultura

 

Terceira edição do Intercéltico começa hoje no Porto

 

Pelo caminho das estrelas

 

Durante três dias, a música folk vai trazer de volta a animação à cidade do Porto, com gaitas-de-foles, violinos e bombardas. É o Festival Intercéltico, na sua terceira edição, tornado “ex-libris” cultural da capital nortenha. “Estes celtas são loucos”, já dizia Obélix. Ao Porto vai-se pelas estrelas.

 

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            Ao contrário das duas anteriores edições, em que a programação incidiu em regiões específicas do mundo celta, casos da Galiza em 1990, e da Bretanha, em 1991, este ano o Intercéltico estende-se à Irlanda, Inglaterra, Bretanha, Astúrias, Galiza e Portugal, de maneira a, pela primeira vez, fazer jus à designação que ostenta. De Dannan, Maddy Prior Band, Bleizi Ruz, Llan de Cubel, Matto Congrio e uma “bailia das frores” encenada por António Tentúgal são os nomes agendados.

            Também o leque das chamadas atividades paralelas se alargou. A organização – da Mundo da Canção, numa iniciativa do pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto – voltou a apostar numa política de enquadramento cultural do certame, que visa fomentar, de facto, e não ao sabor de oportunismos a reboque da moda, o gosto do público pela música tradicional.

Assim, desde segunda-feira e até sexta, funciona no teatro Rivoli, no Porto, um Curso de Aproximação à gaita galega, em regime de seminário aberto ao público, com a participação do gaiteiro D. Jesus Olimpio Giraldez Rio. Tempo dos jovens portugueses ganharem pulmão e soprarem com força nas gaitas. Nas gaitas alheias porque infelizmente as nossas desafinam.

Mas há outras coisas para aprender e entreter neste Intercéltico que dispensam a utilização da caixa torácica. Por exemplo: uma exposição de instrumentos musicais (no CRAT – Centro Regional de Artes Tradicionais) e outra sobre o barco Rabelo (embarcação que figura no logotipo, criado pela primeira vez para o festival, por Tentúgal). Ou videoramas e diaporamas sobre as nações célticas, com música e paisagens a condizer. Para quem quiser comprar os discos e livros da praxe haverá uma banca bem recheada logo à entrada do Rivoli. E porque não adquirir um artefacto de inspiração céltica, construído por um artesão galego, digamos, o caldeirão de Panoramix, um saquinho com restos de Stonehenge ou uma miniatura da catedral de Santiago de Compostela.

Festa é festa e por isso não faltará a gastronomia. Fala-se à boca pequena numas queimadas galegas a realizar em local incerto. Os verdadeiros degustadores celtas poderão sempre seguir a pista pelo olfato. “O que está em cima é como o que está em baixo.” Os caminhos do céu correspondem aos da terra. E aos do estômago.

 

Destaque

GRUPOS INTERVENIENTES

 

Quinta-feira, 2 de abril

 

MATTO CONGRIO (Galiza)

A Galiza tradicional dá as mãos à pop, ao rock e á “salsa”. Os Matto Congrio não têm preconceitos. Carlos Nuñez, líder e gaiteiro da banda, tem uma folha de serviços de se lhe tirar o chapéu: trabalhou com o grupo de gaitas “Xarabal” com o qual gravou a caixa (4 LPs) “Instrumentos Populares Galegos”, participou no duplo CD “Cornemuses en Europe” (gravação ao vivo com os melhores gaiteiros solistas da Europa, no festival da Cornualha, disponível por altura do Intercéltico), e gravou com os Chieftains a banda sonora de “A Ilha do Tesouro”. Os restantes Matto Congrio são Anxo Lois Pintos (gaita-de-foles, violino), Santiago Cribeiro (acordeão, teclados), Diego Bouzón (guitarras), Pancho Alvarez (baixo, bandolim) e Isaac Palacin (bateria, percussões).

 

MADDY PRIOR BAND (Inglaterra)

Esteve no Folk Tejo do ano passado onde as condições acústicas não perdoaram. Para Maddy Prior, vocalista dos Steeleye Span, “irmã” de June Tabor nas Silly Sisters e intérprete de música antiga na Carnival Band, o regresso a Portugal constitui uma espécie de vingança. A sua voz justifica por si só toda a atenção, sejam quais forem os músicos acompanhantes, neste caso: Nick Holland (teclados), Richard Lee (contrabaixo), Mick Dyche (percussões) e Steve Anftee (guitarra). Discografia selecionada: “Please to See the King”, “Ten Man Mop or Mr. Reservoir Butler Rides Again”, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues” (todos com os Steeleye Span), “Summer Solstice”, “Folk Songs of The Olde England”, vols. 1&2 (com Tim Hart), “No More to the Dance” (Silly Sisters), “A Tapestry of Carols” (Carnival Band).

 

Sexta-feira, dia 3

 

BAILIA DAS FRORES (Portugal/Galiza)

Projeto de António Tentúgal, que utilizará todo o espaço do teatro Rivoli para recriar o ambiente e os mitos da Ibéria medieval. Cerimónia que girará à volta dos quatro elementos que ligam Portugal e a Galiza: a terra, o mar, a saudade e a língua. Com músicos dos Vai de Roda e alguns convidados especiais: a cantora Uxía (ex-Na Lúa), um gaiteiro galego, Paulo Marinho (Sétima Legião), três sanfonineiros portugueses (que equivalem a 100% do total nacional), cantadeiras, pauliteiros, palhaços, bugios e o mais que se verá. Discografia: “Vai de Roda”, “Terreiro das Bruxas”.

 

LLAN DE CUBEL (Astúrias)

Utilizando uma instrumentação exclusivamente acústica, o reportório dos Llan de Cubel inclui, para além do folclore asturiano, tradicionais da Irlanda, Escócia, Bretanha e País de Gales. Tocaram ao lado de Alan Stivell, Oskorri, Chieftains, Tannahill Weavers, Milladoiro e Capercaillie, entre outros. Formação composta por Jose Manuel Cano (guitarra), Guzmán Maqués (violino, bouzouki, voz), Elías García (bouzouki, voz), Marcos Llope (flauta, tin whistle, voz) e Fonsu Mielgo (acordeão, tambor e gaita-de-foles asturianos, tin whistle, voz). Discografia: “Deva”, “Na Llende”.

 

Sábado, dia 4

 

BLEIZI RUZ (Bretanha)

Os Bleizi Ruz (lobos vermelhos) há 18 anos que animam as tradicionais “Fest noz” (à letra: festas de noite) da Bretanha. Celebraram o aniversário com um disco ao vivo, “En Concert”. Aliás, para estes bretões (“ils sont fous ces bretons”, como diria Obélix) todas as ocasiões são boas para celebrar. Por isso a sua música assimilou ao longo dos anos as influências irlandesas, galegas, balcânicas ou a “cajun” do Louisiana. Para dançar sempre, seja qual for a origem do ritmo. A vertente séria pode ser encontrada nos “kan-ha-diskan” (cantos de resposta) em que são peritos. Cantados em bretão porque “essa é uma forma de se ser bretão”. Os lobos são Eric Liorzou (guitarra, bandolim, sintetizador, voz), Loic Leborgne (acordeão, sintetizador, voz), Ben Creach (baixo) e Bernard Quillien (bombardas, flauta, gaita-de-foles, voz). Discografia selecionada: “Coz Liorzou”, “Klask ar Plac’h”, “Pell Ha Kichen”.

 

DE DANNAN (Irlanda)

            Banda lendária, do “folk revival” irlandês dos anos 70, ao lado dos Planxty e dos Bothy Band. Sobreviveram da formação original o flautista/violinista Frankie Gavin e Alec Finn (guitarra, bouzouki). Pelos De Dannan passaram, ao longo de várias formações, grandes vocalistas femininas como Dolores Keane, Mary Black ou Maureen O’Connor, presentes as três no álbum “Song for Ireland”. No Porto a responsabilidade cabe a Eleanor Shanley. Completam a formação que atuará no Intercéltico: Arty McGlynn (outro grande guitarrista), Colin Murphy (bodhran) e Aidan Coffey (acordeão). Discografia selecionada: “De Dannan”, “Selected Jigs, Reels & Songs”, “A Song for Ireland”, “Ballroom”, “Anthem”.