30/09/2026

O campeão [Freddie Mercury]

 

PÚBLICO SÁBADO, 23 MAIO 1992 >> Televisão e Rádio >> Televisão

 

O campeão




Depois de mortos são todos bons. Em vida Freddy Mercury nunca passou de um músico sofrível, incarnando a rainha musculada de bigode que quis ser cantora de ópera. Os Queen, a sua banda de sempre, eram o suporte para essa necessidade de ostentação, entre o “heavy metal” de cetim, o rock sinfónico de latão e as encenações totalitárias inspiradas no “Metropolis” de Fritz Lang ou nos grandes rituais de massas futebolísticos.

Freddy Mercury, reconheça-se, além de uma boa voz, tinha outro ponto a seu favor: o humor. Humor que, aliado à mais completa falta de vergonha, o levou a criar personagens delirantes para os vídeos da banda, desde a dona de casa bigoduda de “I want to break free” ao louco frágil e “snob” – uma das suas melhores composições, definidoras talvez da sua verdadeira personalidade – que personificou num dos derradeiros “clips” dos Queen, “I’m going slightly mad”, canção incluída no álbum “Innuendo”.

A doença não chegou a transformá-lo em vítima, nisso soube ser discreto. A morte transformou-o em herói. Em Wembley, a 20 de abril deste ano, as “estrelas” homenagearam-no e aproveitaram para um pouco de auto-promoção. Freddy Mercury passou, por obra e graça da sida e da piedosa mão da indústria, à condição de mito. Dos metaleiros como os Def Leppard, aos mestres como David Bowie, passando pela fraude genial que são os Spinal Tap, por interesse, ou por verdadeira amizade, todos lhe elogiaram a música e figura. Freddy Mercury conseguiu ser campeão.

 

Canal 1, às 15h10

Imagens de um mito que sorri [Amália, Augusto Cabrita]

 

PÚBLICO SÁBADO, 23 MAIO 1992 >> Cultura

 

Apresentada fotobiografia de Amália Rodrigues

 

Imagens de um mito que sorri

 

Uma imagem com texto, pessoa, interior, janela

Descrição gerada automaticamente

 

“Amália – Uma Estranha Forma de Vida”, fotobiografia de Amália Rodrigues, foi apresentada quinta-feira à tarde na adega Machado, ao Bairro Alto, uma casa de fado das antigas, do tempo “em que as pessoas vinham para se encontrarem todas, para ouvir a música de que gostavam”, como a fadista lembrou. O álbum, editado na Verbo, foi compilado por Vítor Pavão dos Santos, diretor do Museu Nacional do Teatro, prefaciado por David Mourão-Ferreira e reúne fotografias de Augusto Cabrita e do arquivo daquele museu. Imagens de um mito que sorri, de histórias e viagens, registados em sessões onde o pitoresco esteve presente. Numa delas Amália “ia ficando afogada no cais de Alcântara” e noutra “esteve para ser presa”, recordou Fernando Guedes, editor da Verbo, para quem este foi um projeto há muito idealizado e só agora amadurecido.

David Mourão-Ferreira chamou à obra “um prazer para os olhos” e improvisou sobre o tema “o sorriso de Amália”: “Isto é o livro dos sorrisos de Amália”, afirmou. Foi-se entusiasmando: “Podia-se fazer um estudo sobre o sorriso de Amália, sobre o que o sorriso de Amália exprime, simultaneamente do que em nós há de sorridente e de triste”. David Mourão-Ferreira foi mais longe: “Mesmo por debaixo do não-sorriso de Amália, descobrimos sempre o sorriso que tem sido um dos grandes segredos do mito que é Amália, do milagre que é Amália”. Amália, a seu lado, sorriu.

Quando o escritor e atual diretor do serviço de bibliotecas itinerantes e fixas da Gulbenkian se referiu à fadista como “um heterónimo de Portugal, mais, O Heterónimo de Portugal, Portugal no feminino”, Amália não resistiu e respondeu: “Bem feito!”. Aliás, ao longo da tarde, Amália teve sempre o comentário certo e bem-humorado, corrosivo mesmo, com que a cada instante conseguiu romper o amplexo asfixiante da solenidade característico desta espécie de homenagens. Na altura em que Vítor Pavão dos Santos referiu que “em Portugal sabe-se muito pouco de Amália”, Amália, a desconhecida, limitou-se a comentar: “Só querem saber quando é que me retiro”.

Por fim, Amália falou de retalhos da sua vida e do livro, da “estranha forma de vida” que continua a ser a sua, da estranheza a “tudo” o que lhe tem “acontecido” e de uma incompreensível vontade de chorar: “Sou uma pessoa estranha. Choro muito”. Quanto à fotobiografia afirmou dar-lhe “sempre vontade de a folhear”. Nela encontrou imagens que a fazem encontrar-se a si própria “aqui e ali” e de “sítios esquecidos mas que ficaram no ar”.

Diz a letra do fado: “que estranha forma de vida tem este meu coração/vive de vida perdida/quem lhe daria o condão/que estranha forma de vida”. Quem lhe deu este condão? Não sabe bem. Para ela “foi Deus”. Amália vê-se nas fotos, “gosta de se ver”. Tem o contentamento de “saber que não era feia” e “gosto de olhar para trás”. É difícil, isso que Amália faz – olhar o passado e sorrir.


"Este disco fala imenso de pessoas" [Mafalda Veiga]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 20 MAIO 1992 >> Pop Rock

 

Mafalda Veiga edita terceiro álbum

 

“ESTE DISCO FALA IMENSO DE PESSOAS”

 

Quatro anos depois de “Cantar”, Mafalda Veiga regressa com um novo álbum, “Nada Se Repete”, um disco de histórias sobre pessoas reais, de atenção dada às gentes e às palavras, mesmo quando em espanhol. Nada se repete e tudo se transforma?

 


 

Mafalda Veiga fala com entusiasmo do novo disco, um disco que retoma a “verve” encontrada com “Pássaros do Sul” e perdida em “Cantar”. Um reencontro, então, consigo própria, com o gozo de tocar e com a “força das imagens”.

PÚBLICO – Embora menos que os anteriores “Pássaros do Sul” e “Cantar”, este “Nada Se Repete” não deixa de recordar, ao nível dos arranjos e de certas inflexões vocais, os Trovante...

MAFALDA VEIGA – Não concordo. Primeiro, porque sei que isso foi e é uma das preocupações do Manel [Manuel Faria, dos Trovante], conseguir distância do grupo. Uma das coisas que fizemos agora precisamente para evitar a comparação foi chamar outros músicos para fazer os arranjos: o Luís Fernando, o Richard Walton e o José Peixoto, que não têm nada a ver com os Trovante. Em relação aos primeiros álbuns, isso é verdade. Acontece que outra pessoa agarra no tema, dá-lhe determinado som, tira-lhe características e acrescenta outras. Às vezes, a balança pesa de mais para um só lado. Ao nível de estúdio, então, eu era perfeitamente inexperiente, de maneira que aquilo que fiz foi discutido e não sei quê porque eu não sabia exatamente o que queria.

P. – Por falar em nomes, o de Mário Resende, dos Duplex Longa, no violino, é inesperado...

R. – Eu queria imenso que houvesse um violino. Tinha-o imaginado a improvisar. Falei com o Carlos Zíngaro, só que ele não podia porque estava em viagem. Foi ele que me aconselhou o Mário Resende.

P. – O título do álbum sugere mudança, evolução. Essa mudança estende-se ao seu próprio estilo?

R. – Foi um título muito pensado. Um título que, por um lado, significa que há uma evolução, que as coisas não são iguais e nada se repete, e que, por outro, tudo se repete. O título fala precisamente do que vem, que não tem a ver com o passado, mas sim com o futuro. A capa mostra duas crianças de um lado e duas crianças do outro, a fazer a mesma coisa: empurrar-se dentro de água. Foi por isso que a fotografia foi escolhida. Porque aquele momento não se repete mas a imagem sim – é esse o paradoxo que acho interessante.

P. – Acabou por não responder à questão. Houve evolução em termos pessoais?

R. – Estou a cantar de uma maneira diferente, ligada a uma aproximação á linguagem, à maneira como comecei a perceber a força das palavras. Cantar, pelo menos na área em que me situo, tem muito a ver com dizer. As letras são super-importantes.

P. – Uma evolução solitária, já que não tem atuado muito ao vivo, nos últimos tempos...

R. – Estive três anos sem fazer nada, dois sem tocar. Não estava a gostar, não me dava gozo nenhum. Foi uma fase um bocado negativa, a seguir ao segundo disco. Primeiro, porque o disco não correu como eu estava à espera – foi muito precipitado – e depois porque me ressenti disso. O primeiro álbum foi um sucesso súbito e no segundo disco teria que haver uma continuidade. Senti que, neste aspeto, algo correra mal, que não tinha chegado às pessoas.

P. – O que é que correu mal?

R. – Foi um disco feito sem muita energia, por uma equipa cansada. Tinha sido um ano de estrada e entrámos em estúdio sem conseguir criar distância em relação ao que se havia de passar – um erro perfeitamente assumido, que aconteceu. Por isso, durante um ano decidi não tocar. Não me sentia bem comigo mesma.

P. – Um trauma?

R. – Não foi trauma nenhum. Simplesmente, quando não se está a gostar do que se faz, tem que se optar por outras coisas. Nessa altura estudei pintura e música, compus... Andei a preparar a composição do novo disco durante dois anos.

P. – “Nada se Repete” dá grande importância aos textos. A tal “aproximação à linguagem” de que falava há pouco?

R. – Para quem conhece os meus primeiros trabalhos, a diferença entre as letras dessa altura e as de agora é evidente. A princípio compunha de uma maneira intuitiva. Era mais o prazer de tocar, de dizer coisas. A dada altura, se calhar, eram só imagens correspondentes a sensações de gozo, o gozo de tocar, de criar melodias e juntá-las às palavras. Mas depois comecei a ganhar consciência da força dessas imagens, da força que essas imagens podem ter na descrição de sensações. Essa consciência permitiu-me uma linguagem mais direta.

P. – Mais direta em que aspeto?

R. – Este disco fala imenso de pessoas. Cada tema conta histórias reais de pessoas. Só que, em certos casos, como no “Saltimbanco louco”, a história acaba por ter pouco ou nada a ver com a pessoa, que se transforma numa imagem, numa personagem. Mas as bases são sempre reais. O disco está cheio de gente que fui conhecendo durante este período e que foi importante para mim.

P. – A história de “O bêbado pintor” é “sui generis”...

R. – A canção foi inspirada num fado do Alfredo Marceneiro com o mesmo título. Aqui a história tornou-se irreal, aquela visão do personagem quando diz que é o “rei do mundo” e de repente surgem por detrás um monte de coisinhas, de irrealidades, de frustrações.

P. – Considera-se então uma “escritora de canções”, à maneira de um Sérgio Godinho?

R. – Se o Sérgio Godinho não se importar que eu use o termo... sim, considero-me uma escritora de canções, mais até do que músico.

P. – Mais até do que cantora?

R. – Não, porque uma das coisas que acho importante na maneira como componho é a maneira como depois vou cantar.

P. – Conte como surgiu “Prisão”, um tema bastante pesado, com toda aquela eletrónica sombria no início...

R. – Fui tocar uma vez a uma prisão, numa festa de Natal, e conheci uma rapariga espanhola que estava presa e escrevia. Tinha consigo imensos textos. Era uma pessoa supersensível, a festa tinha sido feita por ela, os cartazes, tudo. Vi um texto seu numa parede e achei-o muito bonito, embora estivesse escrito em espanhol. Mas fiquei ligada às palavras. Acabei por pedir ao Luís [Luís Represas] para fazer uma letra inspirada no texto.

P. – “Por tu amor” é cantada em espanhol...

R. – Componho ocasionalmente em espanhol por causa da musicalidade das palavras. Falo espanhol tão bem como português. Por vezes sai assim. Se o tema fosse escrito em português diria decerto coisas diferentes.

P. – Alguma vez pensou gravar um álbum só de guitarra e voz, sem rede?

R. – Era giro. Tens que ir lá falar com a editora. Gostava de o fazer, de facto, só que normalmente quando imagino as composições, tecnicamente não as sei tocar depois na guitarra. Prefiro chamar outro músico. Num disco desse tipo teria de compor de uma maneira mais simplificada.

P. – Como se sentiu quando Herman José fez aquela paródia, na passagem do ano, sobre os “Pássaros do Sul”?

R. – Acho sempre piada ao Herman José. Também lhe achei piada nessa ocasião. Estive com ele dois dias depois. Ele perguntou-me se eu tinha ficado chateada e eu disse-lhe que não.

 

Scott Walker And The Walker Brothers - No Regrets, The Best Of

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 20 MAIO 1992 >> Pop Rock >> Reedições

 

A GRANDE ARTE DAS SOMBRAS

 

SCOTT WALKER AND THE WALKER BROTHERS
No Regrets, The Best Of
LP/CD, Fontana, distri. Polygram

 

Uma imagem com texto, pessoa, a olhar, esguro

Descrição gerada automaticamente

Mais um génio para a galeria dos imortais da música pop. Secção: incompreendidos na época, recuperados para a posteridade décadas mais tarde, salvadores da pop desenterrados do museu, enfim, um dos melhores. Scott Walker é hoje objeto de todas as homenagens (mais discretas, claro, que as de Freddy Mercury, até porque ainda é vivo e grava discos) e do aplauso unânime por parte da crítica.

“No Regrets” recupera o reportório do artista, a solo ou com o grupo onde ganhou notoriedade, sem especificar anos nem discos, um pouco a querer dizer que todas as canções são imortais.

O talento de Scott Walker tocou e influenciou cantores importantes como Julian Cope, Nick Cave, Marc Almond, Scott McKenzie e, menos diretamente, Jim Foetus e Peter Hammill. Logo por aqui se vê a sua importância. Vocalmente falando, o estilo de Walker é inconfundível: uma mistura de Elvis, Sinatra e Jacques Brel em registo barítono. As canções falam de amor, de amores que por vezes acabam mal, transformados em odisseias orquestrais tecidas com a minúcia e o luxo de um Phil Spector. Os Walker Brothers – Scott e John Maus, aos quais se juntou mais tarde Gary Leeds – formaram-se em 1964, tendo começado por atuar na zona da Califórnia. Não haja, porém, equívocos. O próprio Scott logo se encarregou de os desfazer ao declarar-se anti “flower-power”: “Quero que as pessoas enfrentem as realidades da vida, não que fujam delas.” Apesar disso, a palavra “amor” aparece logo no primeiro “hit”: “Love her”, produzido por Jack Nietzsche e integrado na presente coletânea – uma tentativa de recriar o som dos Righteous Brothers, numa dimensão épica e com maior profundidade e complexidade ao nível dos arranjos. Os irmãos Walker separaram-se em 1967, devido a “tensões” no seio do grupo – já então era assim. Foram três anos que chegaram para criar a lenda. No mesmo ano, Scott Walker grava o primeiro disco a solo, intitulado simplesmente “Scott”, sobre o qual teceu o seguinte comentário: “É uma obsessão minha. Pus tudo aquilo em que acredito neste disco.” É o álbum da solidão amorosa e do encontro com Brel, dos arranjos para cordas lacrimosas e dos golpes de orquestra sentimental. “Montague terrace (in blue)” é um bom exemplo, incluído em “No Regrets”. No ano seguinte, surge “Scott 2”, representado na coletânea por “Jackie”, um tema de Brel que levou palavras proibidas como “Whorehouses” e “Opium” ao Top 25. Do mesmo ano, o single “Joanna”, cartão de visita a atirar para o foleiro que atingiu o Top Ten. “Scott 3”, de 1969, explode em orquestrações luxuriantes, aqui exemplificadas por “It’s raining today” e “If you go away”, faltando o antepassado das canções gay que é “Big Louise”.

“Lights of Cincinnati”, outro êxito de Scott, foi retirado das séries para a televisão que gravou em 1969. “Scott 4”, do mesmo ano, mostra a crescente inclinação do autor para os estados depressivos que o levam a ter uma visão do mundo bastante escura para a época, em canções inspiradas no “Sétimo Selo” de Ingmar Bergman e corroboradas por declarações do estilo: “Está tudo perdido, fomos condenados mesmo antes de começarmos.” Deste disco, a coletânea apenas inclui o tema “Boy Child”.

O resto de “No Regrets” apenas recolhe temas da banda, deixando de lado a discografia posterior a solo de Walker, gravada no período compreendido entre 1970 e 1973, para alguns o menos inventivo do autor, representado pelos álbuns “‘Til the Band Comes In”, “The Moviegoer”, “Any Day Now”, “Stretch” e “We Had It All”. Mais grave é o esquecimento em relação a “Climate of Hunger”, de 1984, que apresenta uma versão de “Tiny children”, de Julian Cope (Cope, por seu lado, compilou um álbum de canções do mestre: “Fire Escape in the Sky”) e assinala o retorno em forma de Scott Walker. O álbum foi um fracasso em termos de vendas (cerca de 1500 exemplares), mas nem por isso deixa de ser um notável testemunho artístico da “grande arte das sombras” que o cantor tão bem soube reinventar. A presente coletânea, pelo contrário, já atingiu os tops, esperando-se para breve a reedição da estreia a solo – “Scott” –, bem como de toda a obra dos Walker Brothers gravada para a Philips, enquanto se espera pelo novo disco de originais com que o génio se prepara para, de novo, assombrar o mundo. Diz-se, entretanto, que Scott Walker trabalhou com David Sylvian, Brian Eno e Daniel Lanois. Para trás terá ficado o “clima de desejo”, substituído pela serenidade. (8)

 

Matching Mole - Matching Mole

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 20 MAIO 1992 >> Pop Rock >> Reedições

 

Matching Mole
Matching Mole
CD, Columbia Japan, import. Contraverso e Bizznizz

Matching Mole é a transcrição fonética aproximada de “machine mole”, tradução francesa de Soft Machine, e o primeiro projeto coletivo de Robert Wyatt após a saída desta banda e antes da queda do 4º andar que o confinaria à cadeira de rodas e à produção regular de obras-primas como “Rock Bottom”, “Old Rottenhat” e o recente “Dondestan”. Com os Matching Mole, viria ainda a gravar o fabuloso “Little Red Record”.

O antecessor direto da orientação musical encetada pelos Matching Mole encontra-se na composição de Wyatt incluída na obra máxima dos Soft Machine, o duplo “Third” (também há tempos reeditado em CD, agora de novo disponível): “The Moon In June”, longa melopeia vocal “dada”, entre o pueril e a complexidade de arranjos característica dos Soft Machine, aqui transposta para o formato de canção pop, como a entendiam, no final dos anos 60, os cruzados da comunidade de Canterbury (Egg, Caravan, Gong, Hatfield and the North): a linguagem “hippy”, com todo o seu cortejo de alucinações, alimentada por uma educação “arty” no seio do jazz e da música erudita.

Nos Matching Mole, encontrou Wyatt o terreno propício para as suas excentricidades e para exercícios melódicos, que aqui resultaram em duas canções pop à beira da perfeição: “Oh Caroline” e esse prodígio de encenação e expressividade – a letra, cantada com um máximo de emoção, refere-se à estrutura formal de uma canção, com “1st e 2nd verses”, “chorus” e uma mudança de tom final tão intensa como o súbito lampejo de um beijo – que é “Signed Curtain”. Depois, são as “composições improvisadas” dirigidas pela guitarra inconfundível de Phil Miller e o swing e as explorações tímbricas realizadas nos teclados por outro dos mestres de Canterbury, David Sinclair, bem secundado pelo baixo de Bill McCormick e o piano elétrico no limite da distorção do convidado David McRae (Nucleus), que tornam “Matching Mole” um álbum indispensável para a compreensão do que foi a margem mágica da cena pop vanguardista britânica, na transição entre duas décadas. (8)

David Behrman - Leapday Night

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 20 MAIO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 
David Behrman
Leapday Night
CD, Lovely Music, ltd., import. Contraverso

Uma imagem com texto, pessoa, interior

Descrição gerada automaticamente

A música de computadores pode ter coração. E, neste caso, ouvidos “Leapday Night” e “Interspecies Smalltalk” (encomenda de John Cage e Merce Cunningham para a peça de bailado “Pictures”), duas das três composições que preenchem o álbum, baseiam-se na interação, determinada por programação prévia, entre computador e músicos, contendo o primeiro sensores auditivos, “ouvidos”, que detetam, reproduzem e alteram a altura dos instrumentos tocados em tempo real, no primeiro caso os trompetes de Ben Neill (autor do fabuloso “Mainspring” para eletrónica e trompete traficado) e Rhys Chatham, no segundo o violino de Takehisa Kosugi. Num e noutro caso o produto sonoro evolui ao longo de “drones” eletrónicas, com impercetíveis flutuações na altura e no timbre, num jogo de espelhos de infinitas mutações que se inscreve ao lado de “Poppy Nogood and the Phantom Band”, do álbum “Rainbow in Curved Air”, de Terry Riley.

“A traveller’s dream journal” resulta das manipulações de estúdio de Behrman com Walter Bechauer, auxiliados por Clara Mondshine (“Memory Metropolis” e “Visions of Audio”, este disponível em Portugal), que cria uma miríade de efeitos eletrónicos percussivos, algures entre “The Return of the Comet” de Morton Subotnick e o calor de uma “world music” virtual. O que distingue Behrman de muitos dos seus amigos vanguardistas é a sensualidade dos timbres, a sua textura aquática (Redolfi também não anda longe), a arte de manipular e combinar diferentes fontes sonoras. E, acima de tudo, o prazer que resulta da audição. (9)

Barry Adamson - Soul Murder

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 20 MAIO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Barry Adamson
Soul Murder
LP/CD, Mute, distri. Edisom

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente


Crime. Assassínio, rapto e aeróbica. O “prefácio” – uma declaração de princípios e preferências mórbidas de um psicopata procurado pela polícia – dá o mote a este conglomerado de estilos e emoções “negras” que projeta Barry Adamson no mundo tortuoso que, de forma gloriosa, soube edificar em “Moss Side Story” (aqui ele próprio se intitula, em jeito de elucidativa paródia, “Mr. Moss Side Gory”), para depois descer às imposições da banda sonora de “Delusion”.

O estilo de Adamson é o do “carrasco sedutor”, feito de movimentos amplos e súbitas mudanças de registo (do jazz à pop eletrónica, do sinfónico ao declamatório, do concretismo ao lírico), em que a violência funciona como espetáculo de variedades, um pouco à maneira de Jim Foetus, ao nível das intenções. Adamson castiga o ouvinte com palavras (neste aspeto, “Soul Murder” é bem mais palavroso que “Moss Side Story”) carregadas de fúria, ao mesmo tempo que as envolve em orquestrações eletrónicas ou em arranjos “jazzy” sombreados de saxofones, álcool e nicotina, como se o mundo fosse um cabaré de espectros em “soirée” de apocalipse.

Há um paradoxo central nesta violação e sedução dos sentidos que permite a presença, lado a lado, do cinismo mais luciferino e das monstruosidades instrumentais de “Checkpoint Charlie” e “On the edge of atonement” com o bucolismo pseudo-satieano de “Reverie”, a leveza perturbante dos vibrafones de “Trance of hatred” e o humor negro de “007, a fantasy Bond theme” (aqui o próprio James Bond é negro). Entre o “voodoo” de casino e o surrealismo na sua vertente de pesadelo, “Soul Murder” encontra paralelo nas caveiras e colares de “The Art of Falling Apart”, dos Soft Cell, e no défice de realidade de Sade ou Lautréamont que faz coincidir o artista com o vampiro, o assassino de almas. (8)