02/10/2026

Mari Boine Persen toca no molhado

 

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 16 JUNHO 1992 >> Cultura

 

“Pela Terra e Pela Gente” em Belém

 

Mari Boine Persen toca no molhado

 

Podia ter sido uma noite em cheio. Foi quase um desastre. A chuva que caiu durante a tarde estragou tudo. S. Pedro não gosta de música tradicional

 

Não há música que resista ao que aconteceu domingo à noite no relvado em Belém, Lisboa. Nem música, nem paciência. Foi antes do concerto “Pela Terra e Pela Gente”, uma organização conjunta da Etnia e da Oikos, que a calamidade aconteceu. Estava previsto começar às 21h00 mas a chuva que caiu durante a tarde encarregou-se de destruir as ilusões. No Porto, na véspera, pela mesma razão, nem chegou a haver concerto. Mário Alves, da Etnia, visivelmente nervoso, levava as mãos à cabeça e queixava-se das condições atmosféricas: “Parece que nos rogaram uma praga”. Cabos encharcados, microfones avariados, não havia aparelhómetro elétrico que não desse de si.

Era a vingança da natureza contra a técnica, num concerto marcado desde o início pelas contrariedades. Cerca das 22h30, hora e meia depois da hora prevista, a apresentadora de serviço anunciava, numa voz estridente de trompete, suficiente para romper mais um bocadinho da camada de ozono, o primeiro grupo da noite, os portuenses Toque de Caixa, aproveitando para proferir inanidades do tipo “a música pode ter o sabor e o paladar da festa”. Antes acontecera uma largada de balões e, de tarde, uma marcha e uma caravana ecológica. É bom fazerem-se estas marchas e caravanas. Fizessem-se outras por esse mundo fora a ver se o problema ambiental não se resolvia num instante.

 

Não há Terra que resista

 

A música começou mal, sem “sabor nem paladar a festa”. Com os Toque de Caixa, versão “Vai de Roda” dos pequeninos (alguns músicos dividem-se pelas duas bandas) que, mal servidos por condições sonoras deploráveis conseguiram mesmo assim ser ainda piores que o som. Tocaram tradicionais portugueses e assassinaram outro, irlandês – com muito cuidado para não se enganarem – e explicaram alguns temas. De forma sucinta mas bastante clara: “um bolero é um bolero”; “’Lama grande’ é inspirado num lugar ali prós lados...”. A organização, numa atitude de louvar, fez-lhes sinal para se apressarem, até porque a hora já ia adiantada e a paciência ameaçava esgotar-se. Eles, embora contrafeitos – “ficávamos a tocar aqui toda a noite” – lá se retiraram, a toque de caixa. Com música desta não há Terra nem gente que resista. A partir daqui foi sempre a despachar. 20 minutos para cada grupo, numa tentativa contra-relógio de conseguir que a estrela da noite e da Lapónia, Mari Boine Persen, tocasse antes das cinco da manhã.

Vieram a seguir os Caliche, do Chile. Não adiantaram (até atrasaram) nada aos “clichés” conhecidos da música dos Andes. Flautas de Pã, aquele tema de que ninguém recorda o nome (assim: “turiruriru tu turiruru”) mas que não sai da cabeça, tudo junto, mais o adiantado da hora, irritaram enormemente quem era suposto ter de levantar-se na manhã seguinte para trabalhar e não desistia de ver a lapona (é assim que se diz?). Rápido, os seguintes!

 

Estóicos

 

Os seguintes fizeram esquecer todas as infelicidades da noite. Diely Seckou e a mulher, Ramata Kouyaté, acompanhados de dois fabulosos percussionistas, Lansine Kouyaté (tocou com Salif Keita) e Djeli Moussa Cissoko (faz parte do grupo de Mory Kanté, integrou os Toure Kunda) trouxeram a África a Belém. Música hipnótica, calorosa, elemental. As vozes de vento entrelaçando-se nas madeiras em vibração do balafão (xilofone africano), no ritmo riquíssimo de pormenores contrapontísticos, de fazer corar o conceptualismo dos minimais repetitivos. Seckou e Ramata fizeram mais pela terra do que quaisquer palavras. Não é a gramática, é a sintonia, a simpatia, a consonância.

Faltavam quinze minutos para a uma da manhã, quando Mari Boine Persen arribou ao palco e era já muito o cansaço das escassas dezenas de resistentes que, a pé firme ou sentados na relva, aguentaram, estóicos, a mensagem vinda da Lapónia. Acompanhada por um baixo elétrico, um guitarrista que a dada altura resolveu ser Jimi Hendrix, uma flauta e percussões variadas, Mari Boine procurou, com relativo sucesso, recriar os ambientes carregados de mistério do álbum “Gula Gula”. Mas também nela o cansaço era notório. E a desmotivação de atuar para uma plateia tão reduzida. A voz esteve mais apagada que no disco, as tonalidades sombrias da maior parte dos temas também não ajudaram a levantar os ânimos. Todos queriam voltar para casa o mais depressa possível. Mari Boine despediu-se, agradeceu a quantos permaneceram até ao fim e deste modo se esfumou o que poderia ter sido uma noite em cheio. Não o quis S. Pedro, sabe-se lá por que carga de água.

 

Ay Amigo! [Vicente Amigo]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 15 JUNHO 1992 >> Cultura

 

Guitarrista de flamenco atuou em Lisboa

 

Ay Amigo!

 

No sábado à noite, o S. Luiz encheu-se de um público ávido de se impregnar dos calores do flamenco. Vicente Amigo trouxe consigo o virtuosismo e o “feeling” que são condimentos necessários neste género musical. Ninguém ficou desiludido. Vicente foi deveras amigo e suou as estopinhas, arrancando da guitarra chispas do genuíno fogo cigano, que é onde lhe corre o sangue e a inspiração, ao estilo jazzístico que lhe é habitual. Tocou alguns temas sozinho. Outros em duo com o percussionista Patricio Camara (bateu as típicas palmas do flamenco, em contratempo e batucou num caixote de madeira, estilo gaveta, sobre o qual estava sentado). Outros ainda com um segundo guitarrista-flautista e batedor de palmas, José Manoel Hierro, e um cantor, José “qualquer coisa”, não se percebeu o apelido – Vicente fez as apresentações num castelhano falado para dentro e pouco compreensível.

O canto é, de resto, um dos principais atrativos do flamenco, dada a sua grande variedade e riqueza literárias: “ay ay ay ay”, por vezes “ay ayay ayayay”, outras ainda “ayay ayaya ay” e por aí fora, num arrebatamento poético sem limites. Falando a sério: trata-se de um canto que vive da expressão, do grito, do sopro interior, da raiva e da dor. Canto do sangue, da terra, do pranto. Tatuado a fogo na alma cigana.

Numa série de temas, juntou-se ao quarteto um quinto elemento, um dançarino que sacudiu com virtuosismo o pó do palco. Sapateou, pontapeou o ar, meneou-se como só os dançarinos de flamenco sabem. Ergueu os braços ao céu e lidou a fera imaginária, qual toureiro a desafiar o destino. Deu show e recebeu em troca “olés” e “bravos”. Não cortou orelhas nem rabos mas acabou em glória a faena. Houve quem suspirasse pela falta de um elemento feminino, de cabelo negro, lábios e vestidos vermelhos de cortar o fôlego. Faltou “salero”.

Houve flamenco-jazz em grande estilo. Casamento inevitável, tendo em conta o fator improvisação que habita na música cigana. Poder-se-á até dizer que é o jazz e alguns dos seus guitarristas que vão beber a esta fonte. Lembremo-nos de John McLaughlin ou Al Di Meola, já para não falar de Django Reinhardt. Vicente Amigo segue na senda dos mestres. Nas cordas da sua guitarra o flamenco projeta-se no futuro. Ay.

 

A Lapónia não é uma parvónia [Mari Boine Persen]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 10 JUNHO 1992 >> Cultura

 

Concerto de Mari Boine Persen, domingo, em Lisboa

 

A Lapónia não é uma parvónia

 

Os apreciadores de folk deveriam ficar de vigília e em jejum até ao próximo domingo, dia em que Mari Boine Persen atua em Lisboa. Em Belém, às 21h00, no relvado em frente dos Jerónimos e dos pastéis. Num concerto “Pela Terra e Pela Gente” com mais nomes mas em que ela é a estrela principal – a estrela de Belém. Como preparação espiritual, é o mínimo que se pode exigir.

 


 

Mari Boine Persen é a representante de uma cultura estranha que traz como credenciais uma voz fabulosa (o jornal londrino “The Guardian” chamou à cantora a “Piaf do Norte”) e uma música diferente de todas as outras. Vem cantar a Portugal no concerto “Pela Terra e Pela Gente”, a convite da Etnia, em colaboração com a Oikos, uma organização não governamental com um projeto de educação para o desenvolvimento em várias regiões europeias.

Quem já ouviu o seu álbum “Gula Gula”, gravado para a Real World, sabe o que o espera e nesta altura o mais provável é já estar a caminho de Belém, gemendo de ansiedade e expectativa. Ainda por cima o espetáculo é gratuito. De referir que Mari Boine Persen, para além do concerto lisboeta, atuará noutras quatro cidades, em mais uma ronda dos Circuitos da Tradição Europeia. No Porto, dia 13, no Cais da Estiva (à Ribeira), em Guimarães, dia 15, no Paço dos Duques, na Guarda, dia 16, na Alameda de S. André e em Viana do Castelo, dia 17, no Teatro Sá de Miranda. Todos os espetáculos com início às 21h30.

Além dos aspetos musicais propriamente ditos, que por si só justificam todos os louvores, a obra da cantora reveste-se de um significado político. Mari Boine Persen vem registada no bilhete de identidade como cidadã norueguesa o que, para ela, deve querer dizer pouco. A Lapónia existe, não é uma parvónia, foi lá que Mari nasceu e por esse motivo tem de lutar contra a segregação a que geralmente são votadas as minorias. Mari é norueguesa da mesma maneira que um galego é espanhol, o que desde logo dá origem a confusões. O povo lapão suportou, na sua história recente, a opressão dos mais fortes. Os fortes – neste caso noruegueses de cabelos louros, olhos azuis e corações de gelo – procederam como procedem sempre que se lhes deparam casos de rebeldia e a vontade de afirmação de uma identidade cultural autónoma: oprimiram primeiro, como forma de desgaste, e assimilaram depois, como se a diferença não passasse de uma ilusão ou de um capricho de indígenas pouco civilizados. A única canção que Mari Boine canta em norueguês tem por título “Receita para criar uma raça superior”...

Na música de Mari Boine Persen afirma-se a identidade de um povo e a vitalidade da tradição “Sami”. A língua utilizada é o lapão. Os ritmos assentam nas pulsações ancestrais. Quando Mari canta, sentimo-nos todos lapões e apetece cortar relações com os noruegueses (com as norueguesas, não). Mas esta firmeza e este enraizamento na tradição não implicam a recusa dos tempos atuais. Provam-no a presença da eletrónica, em “Gula Gula”, ou o anunciado projeto de um novo disco, com edição prevista para o Outono, de parceria com o seu compatriota Jan Garbarek, sucedendo deste modo a Agnes Buen Garnas, na lista das cantoras “norueguesas” a quem o saxofonista emprestou o seu talento de arranjador.

Acompanham Mari Boine Persen, no concerto de Belém, Roger Ludvigsen (guitarras e percussão), Gjermund Silset (baixo), Carlos Zamata Quispe (flautas e charango) e Helge Nordbakken (percussões).

Dos Andes, das grandes altitudes onde voa o condor, sopram as flautas de Pã e os chapéus são arrancados das cabeças pelo vento, chegam os Caliche, com a sua música de inspiração pré-colombiana e as suas típicas mantas de lã às riscas. Não será bem assim mas não deixa de ser poético. Por acaso o nome da banda até é inspirado nas minas de nitrato das montanhas do Norte do Chile. Música do interior da montanha e não tanto dos seus cumes – o primeiro álbum dos Caliche tem por título “Deep from the Earth” e faz lembrar os sete anões da Branca de Neve. Gravaram outros: “Winds from the South” e “Dance of the Llamas”. Na sua terra natal, alinham na “Alerce”, editora chilena em cujo catálogo figuram os nomes míticos de Victor Jara, Quilapayun, Inti-Illimani e Violeta Parra.

 

Uma fruição não PREC

 

Em 1974, a rádio portuguesa não passava outra coisa. Um enjoo. Passados todos estes anos de merecido descanso, a distanciação já permite fruir sem preconceitos – uma fruição não PREC – estas sonoridades com sabor a vento e terra.

Seckou e Ramata representam o continente africano. O primeiro é oriundo da Gâmbia, descendente de um clã de feiticeiros (“griots”). A Gâmbia fica situada entre o Oceano Atlântico e o Senegal, entre as regiões desérticas do Norte e a selva tropical, a Sul. Terra de uma cultura que permaneceu inviolável, das tribos dos mandingos e do “kora”, instrumento musical popularizado no Ocidente por Mory Kanté ou Foday Musa Suso. Mistério e melopeias encantatórias, cerne da tradição oral deste país, são transportados na voz de Diely Seckou, cantor de casamentos, batismos e outras cerimónias de iniciação. Seckou traz consigo a sua mulher Ramata Kouyaté, maliniana, cantora, também ela herdeira da tradição dos feiticeiros e portadora do segredo negro, cuja decifração passa pela atenção constante aos “menores estremecimentos do coração” africano. O duo será acompanhado por Lansine Kouyate (balafone), Ali Wage (flauta vocal) e Djeli Moussa Cissoko (percussões).

Portugal faz-se representar pelos Toque de Caixa que até agora têm andado um pouco na sombra dos Vai de Roda, em parte por António Tentúgal ter sido, há anos, o seu diretor musical. São sete, tocam uma quantidade de instrumentos – das guitarras, percussões e teclados ao violino, concertina e gaita-de-foles – e defendem que “para se saber o caminho em frente é bom não esquecer o caminho que está para trás, o caminho de regresso”.

 

Caixa

Ad Vielle Que Pourra e Ex-Planxty

 

Os Terceiros Encontros da Tradição Europeia já têm o programa deste ano. À semelhança das duas primeiras edições, a Etnia não brinca e traz a Portugal os melhores. Este ano, então, é caso para dizer que por nada deste mundo se poderá perder a música que aí vem. Atente-se nos nomes: Liam O’Flynn em duo com Dónal Lunny. O primeiro, um dos maiores tocadores de gaita-de-foles da Irlanda, o segundo, mestre dos instrumentos de corda dedilhada. Ex-membros dos Planxty (Lunny também passou pelos Bothy Band), trazem consigo a Portugal “amigos” por enquanto incógnitos, mas que devem ser do mesmo quilate. Da Escócia, os Capercaillie, cujo álbum recente, “Delirium”, foi incensado nas páginas da “Folk Roots”. Elena Ledda & Suonoficina e o grupo Vasmalom representam respetivamente a Sardenha e a Hungria.

Regressam a Portugal os espanhóis La Musgaña, que há dois anos rubricaram uma atuação memorável, no castelo de Palmela. O seu álbum “El Paso de La Estantigua” deve andar esquecido por uma ou outra discoteca. Finalmente (prenda-se a respiração), do Canadá, os Ad Vielle Que Pourra, uma das maiores formações Folk da atualidade que, nos “Encontros”, decerto confirmará a expectativa criada pelos álbuns “New French Folk Music” e “Come What May”, ambos disponíveis no mercado nacional, via importação. Está ainda prevista a inclusão no programa de dois grupos portugueses, a definir, ou, em alternativa, um grupo estrangeiro, da Bretanha ou da Grécia.

 

Vários - Noches Gitanas En Lebrija

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 10 JUNHO 1992 >> Pop Rock >> World

 

AO REDOR DAS CHAMAS

 

VÁRIOS
Noches Gitanas en Lebrija
4xCD, EPM, distri. Dargil



 







Os vários em questão são na realidade um agregado familiar à volta do guitarrista Pedro Bacan, que convocou para estas noites de flamenco o pai, Bastian Bacan, a tia-avó, Luisa Peña, a irmã Ines Bacan e um punhado de primos, Pepa de Benito, Manuel de la Costa, Diego El Daito, Concha del Lagaña, La Morena, La Perrenga e Diego Vargas. Os nomes não serão conhecidos da maioria. É a família dos Bacans como poderia ser a dos Silvas. Mas que ninguém se iluda: a verdade da música flamenca está toda aqui. Na guitarra e, sobretudo, no canto que vibra, vive e sangra naquilo que o flamenco tem de mais profundo e genuíno. Noites ciganas, entre o fogo e as estrelas, registadas ao vivo em quatro volumes correspondentes a outros tantos títulos temáticos: “Fiesta”, “Luna”, “Solera e “Al Alba”. Quanto ao aglutinador do projeto, Pedro Bacan, foi-lhe atribuída pela Fundação Machado o prémio para o melhor espetáculo apresentado na Bienal de Flamenco de Sevilha, em 1990: “Nuestra Historia al Sul”.

Da “Fiesta” à volta da fogueira até à primeira luz da madrugada, é toda a história de um povo que se desenrola no espaço de uma noite mítica e por todos os cambiantes que pode assumir a alma cigana enquanto caminha. Nesse caminhar que é a sua própria essência. A noite é então o espaço, físico e poético, onde cabem, paredes meias, a celebração e o sofrimento, ao mesmo tempo que uma metáfora sobre a condição existencial de uma raça em busca de um centro.

Nos quatro álbuns é a voz que conta a história. Vozes masculinas, de luta, sol, vinho e suor, e vozes femininas, de lua, sangue, terra e pranto. Há um mistério neste canto e nestas vozes que se soltam para o negrume do céu, envoltas pelas chamas. Há quem diga que esta música se situa para além de toda a estética e que se confunde com a própria vida. Silverio Franconetti, estudioso da cultura do “povo descendente do faraó” e considerado o primeiro divulgador da sua música no exterior, julgou encontrar o segredo dos ciganos cantores, ou “flamencos”, numa sílaba que em si condensa e concentra a existência e o mundo “ay” – a chave de dentro e de fora, do sentimento e das formas de que se revestem as típicas vocalizações ciganas, feitas de espasmos, suspiros, gritos, cortes, modulações e ornamentações, que se diriam arrancadas à própria carne, movimento perpétuo, a um tempo infinito e fugaz, como uma chama – fogo e chamada.

No ciclo destas noites de Lebrija, encontram-se ainda outras chaves que dão acesso ao interior do continente (ou será ilha?) cigano. A principal abre o portão da comunicabilidade, do contacto direto entre os entes, sejam eles divinos ou humanos, e aqui reside mais um ponto essencial. O canto “flamenco” exprime uma ligação real e por isso se pode considerar sagrado. Ligação entre os vários membros da família, entre os apaixonados, entre o homem e a terra, o homem e o céu, o homem, a sua alegria e a sua dor. Enquanto canta, o cigano transforma-se, concentra-se, encontra o seu lugar no universo. E perde-se, porque se abre, se deixa percorrer pelas correntes que através de si fluem, telúricas e celestes. Um cigano é como uma árvore a que só o canto permite criar raízes. Um cigano é a personificação do destino. Inevitável e incerto. Uma dança sem fim. Bulerias, fandangos, siguiryas, soleás... Mas atenção: para fruirmos a noite e a luz ciganas é preciso que também nós saibamos acender a fogueira. Porque a luz da Lua enlouquece. (9)

 

O sopro vital [Jazz, ECM]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 10 JUNHO 1992 >> Pop Rock >> World

 

O SOPRO VITAL

 

JON BALKE & OSLO 13
Nonsentration (7)
EDWARD VESALA SOUND & FURY
Invisible Storm (9)
TAMIA & PIERRE FAVRE
Solitudes (9)
CD, ECM, distri. Dargil

 

Uma imagem com Website

Descrição gerada automaticamente

 

Os três discos em análise são outros tantos exemplos de alguns dos caminhos percorridos pela música contemporânea ao mesmo tempo que constituem motivos de meditação para todos quantos se preocupam com “a questão do jazz”, essa “música difícil” que afinal encontra nos preconceitos o seu maior obstáculo. Dos três, o de Jon Balke é o que se insere, de forma inequívoca, na estrutura e na tradição do que se convencionou chamar “jazz”, aqui na sua vertente europeia e, em particular, na escola nórdica, tão do agrado do produtor Manfred Eischer.

Membro fundador dos Masqualero, Jon Balke, compositor e teclista norueguês, tocou entre outros com Archie Shepp, John Surman e Zbigniew Namyslowski (há quem o recorde de um dos primeiros festivais de jazz de Cascais). A banda Oslo 13 exercitou-se nas sendas da improvisação coletiva antes de se entregar à prática da concentração e contenção exigidas por Balke no contexto deste álbum, pese embora o prefixo do título. “Nonsentration” resolve-se nos jogos e na dialética tonal entre três secções – trompetes e trombone, saxofones e percussão – apoiadas, seccionadas (raramente em confronto direto) pelos teclados, que por vezes se libertam da carga rítmica para se entregar ao típico “yoga” de contemplação pianística que é, ou foi, imagem de marca da editora. A ideia é fazer a síntese entre as orquestras árabes, a música de câmara e as “big bands” de jazz, sendo as primeiras, à partida, as mais capazes de injetar no projeto o elemento desestabilizador.

Tal não acontece. A bateria e as percussões estão bastante mais próximas da África central (Balke já trabalhou com músicos da Gâmbia) ou do Brasil, e o resultado está longe de ser das arábias. Entre o afro-jazz e o icebergue de arranjos demasiado rígidos e tipificados, “Nonsentration” fica-se pela beleza apaziguadora e pelo apuro formal, sem arriscar demasiado nos territórios da música étnica ou nas liberdades concedidas por um formato instrumental que Carla Bley, por exemplo, tão bem soube explorar ou Keith Jarrett, nessa bizarria que é “In The Light”.

Problemas que Edward Vesala, finlandês, percussionista, autor de uma “Ode to the Death of Jazz” editada sob esta mesma etiqueta, resolveu de forma brilhante. Em “Invisible Storm”, o jazz é deixado para trás para ser apanhado mais à frente, revigorado e apto a avançar em novas direções, aqui simbolizadas pela utilização de percussões de metal que, no entender de Vesala, substituem com vantagem as peles e madeira convencionais, em poder e ressonância.

Energia e tensão são o fogo e a massa aglutinadora desta “trovoada invisível” que, ao contrário de “Nonsentration”, explora todos os cantos, na combinação dos sopros, nas interpolações rítmicas de uma harpa, nas modulações eletrónicas ou até no disparo ao rock do tema “Gordion’s flashes”, algures entre as pulsações da Jazz Composers Orchestra e o experimentalismo de um David Linton.

“Solitudes” é todo um universo diferente que se abre muito para além do jazz. É música religiosa no sentido em que é religiosa uma voz e um canto que ligam o humano a esferas mais elevadas. Depois de “De la Nuit... Le Jour”, Tamia e o percussionista suíço Pierre Favre, oriundo das hostes do “free jazz” europeu e membro desse coletivo de génios que foi a Michel Portal Unit, aprofundam ainda mais o sentido do seu diálogo. Tamia é a voz do fundo e do final dos tempos, tão radical como Joan La Barbara, tão teatral como Meredith Monk e com a carga de misticismo de uma Enya a multiplicar por mil. Favre é o poeta das percussões. O criador de mundos elementais, de chuvas e areias, e de céus constelados de sinos, guizos, gongos e metais em vibração. Uma floresta de sons entre os quais a voz de Tamia ora dança ora se eleva. Música étnica de outra dimensão. Vozes que, no espaço central das grandes solidões falam a quem souber erguer-se acima da pequenez do mundo.

Júlio Pereira - O Meu Bandolim

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 10 JUNHO 1992 >> Pop Rock >> Portugueses

 

JÚLIO PEREIRA
O Meu Bandolim
LP/MC/CD, Columbia, ed. Sony Music


É triste dizer isto, ainda por cima em público, mas é verdade: Júlio Pereira, a cada novo disco que edita, vai-se afundando na repetição de esquemas batidos e no acomodamento a um som que aos poucos se tornou numa caricatura de glórias passadas, dos tempos de “Cavaquinho” e “Braguesa”.

“O Meu Bandolim” descreve-se em poucas palavras: música para turistas. É uma opção como qualquer outra, com as respetivas vantagens (materiais) e riscos (descaracterização, comodismo, urticária). Irrita sobretudo o som, o terrível “som Júlio Pereira” que consiste em fazer passar todos os instrumentos pelo crivo implacável de filtros que não deixam passar um grãozinho de poeira. A questão, posta em termos de metáfora, está em que o que é verdadeiramente profundo e genuíno, o objeto precioso, perde todo o seu encanto quando destituído da “patine” que é uma marca da dignidade do seu estatuto – a tal poeira de que Júlio Pereira se quer ver livre a todo o custo. “O Meu Bandolim” soa a produto de laboratório, cheira a desinfetante, é todo “Omo lava mais branco”.

Depois falta a inspiração. A música é quase toda folclore no pior sentido que a palavra pode ter, precisamente aquele que o próprio autor é suposto criticar, da época áurea dos ranchos televisivos de Pedro Homem de Mello. “O Meu Bandolim” tem neste aspeto a profundidade e a espessura dramática do cochicho. Na capa interior, vem lavrada a história e as técnicas de interpretação do instrumento, numa atitude pedagógica que é de louvar.

O pior é que, depois de se ouvir o disco, o efeito provocado no auditor choca manifestamente com as intenções. O bandolim torna-se objeto de tortura psicológica e fica-se com vontade de ser mau e fazer o que não se deve: entregar o instrumento “à atividade exploratória infantil”, como diz o texto interior ou, pior ainda, aos “acessos cíclicos de mudança nos adultos”, de maneira a “terminar ingloriamente numa fogueira ou num folguedo carnavalesco”. Da fogueira, apesar de tudo, ainda há a salvar a técnica irrepreensível dos executantes e os três temas que escapam à vulgaridade dominante: “Palaciana”, evocativa de alguma beleza passada, “Poção mágica” e “Conversa adiada”, respetivamente diálogo do bandolim de Júlio Pereira com o oboé de Serafim Vieira e a guitarra de José Peixoto. O resto é conversa fiada ou, como diz o título de uma das canções, “fogo-de-artifício”. (3)

01/10/2026

O último Metro [Folk Tejo]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 8 JUNHO 1992 >> Cultura

 

Folk Tejo, sexta e sábado, no Teatro São Luiz, em Lisboa

 

O último Metro

 

Duas noites de Folk integradas nas Festas da Cidade de Lisboa não foram suficientes para levantar o ânimo de quantos não puderam ou não quiseram ir às Antas ver o Sinatra. Em Lisboa, ao contrário do Porto, vai-se “à Folk” trajado a rigor, sem entusiasmos excessivos nem paixões exacerbadas. Como à ópera, ao Aquário Vasco da Gama ou à exposição de mobiliário de casa de banho da F.I.L.

Este ano não houve as falhas de organização do ano passado. O São Luiz foi opção acertada, o som esteve bom. A música, sem ter sido brilhante, entreteve. Abriu o primeiro dia do Folk Tejo um grupo de cantores alentejanos do Barreiro. Parece que não é no Alentejo mas sim na cintura industrial da margem Sul do Tejo que se encontram os melhores representantes desta modalidade vocal. Homens que vieram do Sul trabalhar para as fábricas e que, deste modo, até cantam melhor, empurrados pela saudade e pela mágoa. Assim foi no S. Luiz e ninguém adormeceu.

Abed Azrié, um sírio com aspeto de Leo Ferré, veio a seguir cantar os poetas místicos do mundo árabe, com arranjos musicais modernizados mas que não eliminaram de todo a vertente ascética original. Abed cantou o amor divino do “homem que se deve tornar um deus e de Deus que se deve tornar humano”, segundo a ótica dos soufis da Idade Média, que corresponde, no Ocidente, às conceções gnósticas dos trovadores provençais. Vestido de negro, Abed mostrou, pelo canto serpentiforme, a matriz feminina do Oriente. Houve mesmo uma canção dedicada à Mulher. Quando Abed Azrié perguntou à assistência como se diz “femme” em português, alguém na sala respondeu: “Chata!” Excelentes os músicos acompanhantes, com destaque para Abdulkader Ghourani, tocador de “kanoun”, uma variante do saltério.

Barbudo e extrovertido, Ben Zimet abriu as portas do cabaré e misturou tudo: o canto “yiddish” dos judeus do Leste com Piaf, os ritmos ciganos com o jazz, Freud com Schoenberg, Treblinka com a Bielorrússia, as histórias divertidas com a dor. Ficou a recordação obsessiva dos anos do martírio, do “ghetto” de Varsóvia e daquela criança que “vendia fósforos a dois cêntimos numa época em que a vida humana valia menos que isso”. A embriaguez de querer, sem que se consiga esquecer o horror e a nostalgia de uma Polónia de hoje, “com as mesmas casas, as mesmas árvores, mas sem judeus”.

Cabaré de danças macabras mas também da ternura e do humor, e do encontro com a América do jazz e de Gershwin. Endiabrado esteve Teddy Lasry, no clarinete, curiosamente um músico que em início de carreira alinhou ao lado das tendências wagnerianas de Christian Vander, nos Magma... Zimet e os seus pares tocaram e tocaram, espevitados pela presença, nas primeiras filas da plateia, de elementos da comunidade judaica radicada no nosso país. Zimet só parou de tocar, como o próprio disse, para não perder o último Metro. Faltavam dez minutos para a uma da manhã.

Na noite de sábado os Romanças quiseram mostrar mais do que na realidade são. Em vez de se ficarem pela melhor música do álbum “Monte da Lua” optaram pelo exibicionismo de solos, apenas competentes e por canções novas com falta de rodagem. O melhor esteve nas vozes de Pedro d’Orey e Fernando Pereira, na balada interpretada pela vocalista convidada Filomena Pereira, acompanhada por Pedro d’Orey na harpa céltica (a primeira vez que este instrumento foi tocado ao vivo em Portugal) e José Pedro Gil nos teclados.

Chris Wood (violino) e Andy Cutting (concertina) foram o oposto dos Romanças. Autênticos tecnicistas, não se preocuparam com exibicionismos gratuitos, antes teceram um manto musical envolvente, de forma discreta, que pouco a pouco, sem alardes, conquistou de forma subtil a assistência, através de instrumentais de ressonâncias renascentistas, valsas do Quebec e outras cadências da tradição rural da Inglaterra. Para quem não os conhecia, a revelação do festival.

Happy e Artie Traum fecharam o Folk Tejo com uma nota de boa disposição e “good time music”. Com canções de The Band, Woody Guthrie, Dylan (tentaram, sem sucesso, que o público cantasse em coro “I shall be released”) e referências constantes à “Woodstock nation” que parece encher-lhes o coração. Convidaram Chris Wood para tocar em dois temas, brincaram com Sinatra, disseram “obrigado” em português (fruto de seis meses de aprendizagem intensiva, como disse Robbie Dupree) e mostraram dois grandes músicos em palco: Dupree, na harmónica, e Cindy Cashdollar, na “lap steel guitar” e no “dobro”, por vezes triplo. Também pararam para apanhar o metro.