25/09/2026

"Que havemos de fazer com a verdade?" [Buffy Sainte-Marie]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 MAIO 1992 >> Cultura

 

Buffy Sainte-Marie, que esteve em Portugal a promover o seu álbum mais recente, ao PÚBLICO

 

“Que havemos de fazer com a verdade?”

 

Nos anos 60 lutava-se por ideais e defendiam-se as minorias.

Buffy Sainte-Marie, 51 anos de idade, índia de nascimento, da tribo dos Cree, esteve sempre nas fileiras da frente. Hoje, como nos tempos de “Soldier Blue” e “Universal Soldier” continua a lutar por soluções concretas para problemas atuais. Os índios, diz, são a consciência viva do planeta. E os “hippies” uma geração nutrida a café. Durante 15 anos não gravou qualquer disco, para se dedicar à educação de um filho. “Coincidence and Other Likely Stories” assinala o seu regresso.

 

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Sente-se no discurso e na obra de Buffy Sainte-Marie o orgulho das origens índias e a vontade de pôr o dedo nas feridas da sociedade. De forma subtil, não-violenta, no álbum recente “Coincidence and Other Likely Stories”, ou não tivesse ela feito parte do movimento “flower-power” dos anos 60. É coerente no que diz e no que faz. Sofreu os efeitos da censura, por se ter recusado a alinhar nos esquemas da indústria musical. Hoje vive como quer, no Hawaii, viaja pelo mundo e continua a defender a causa índia. De mini-saia justa e flor amarela no cabelo, parece ter vencido a derradeira batalha – contra o tempo.

PÚBLICO – “Soldier Blue” foi a canção que há 21 anos lançou a sua carreira em Portugal...

BUFFY SAINTE-MARIE – A sério? É a primeira pessoa em Portugal que menciona essa canção. Voltei a regravá-la há duas semanas.

P. – Para inclusão num novo álbum?

R. – Não sei. É provável que apareça no lado B de um single.

P. – À distância de todos estes anos “Soldier Blue” continua a ser pertinente?

R. – É uma boa canção para os dias de hoje. Quando a escrevi, as pessoas não faziam ideia do que se tratava. Não estavam conscientes dos problemas do meio ambiente. “Soldier Blue” dizia qualquer coisa como “este é o meu país”, não no sentido de “este é o meu estado público" mas de “esta é a minha terra-mãe”. Hoje, volvidos 25 anos, as pessoas compreendem o conceito e a maneira de ver índia.

P. – Em que altura tomou consciência da situação concreta dos índios na América do Norte?

R. – Nasci no Canadá, no seio do povo Cree. Depois fui adotada e cresci nos Estados Unidos. Na escola disseram-me que já não havia índios, que tinham morrido todos e estavam em museus, ao lado dos dinossauros. A minha mãe, que era meia-índia explicou-me que não era assim e que o que se via nos filmes e lia nos livros não era verdadeiro. Nos últimos anos da minha adolescência voltei a juntar-me à minha família Cree no Canadá.

P. – Quais são os resultados palpáveis, concretos da sua luta. Encontraram-se algumas soluções?

R. – Houve coisas que melhoraram e outras que pioraram. Foi mau o facto de o movimento dos índios americanos ter sido “assassinado”. Mas houve coisas muito positivas. Por exemplo: o dinheiro ganho no início de carreira serviu para a criação de fundações escolares que permitiram ao povo índio a frequência de estudos superiores. Hoje há na América advogados, médicos, professores índios que atingiram o topo das respetivas profissões e que são muito bons no que fazem. Antes era difícil encontrar um índio com um curso superior, saído da reserva para a Universidade. Há quem trabalhe em planos de ordenamento do território ou na Cadillac sem que isso implique perder o contacto com a reserva. São pessoas verdadeiramente biculturais.

P. – Hoje fala-se dos curdos, dos palestinianos e dos croatas. Ninguém fala dos índios...

R. – No Canadá fala-se. Para mim é mais importante resolver um problema do que dar-lhe apenas publicidade. O povo branco, que tem nas mãos o poder industrial, está a tomar consciência da questão ambiental. Se os brancos não se consciencializarem deste problema o meio-ambiente morrerá. Aos índios não basta saber que o planeta está a morrer. Na América do Sul, se os brancos estiverem do nosso lado ainda há “chances”.

 

Protetores da terra

 

P. – Em duas canções do seu último álbum refere-se à mineração de urânio em território índio e aos seus efeitos nocivos. Pode pormenorizar?

R. – É o mesmo problema que o de há cem anos, com a “corrida ao ouro”. Só que desta vez é o urânio. O problema está em que o urânio se encontra em terra índia – como então o ouro – e as companhias de Energia instalam-se perto destas terras, transformam o minério e atiram as sobras para o solo e para os rios. Os próprios brancos que vivem junto à foz desconhecem que as águas estão contaminadas. Mas nós índios somos testemunhas e sentimos a responsabilidade de avisar. As companhias procuram manter as pessoas desinformadas mas nós, nós sabemos. Nos últimos dois, três anos, tem sido importante o trabalho de gente como Sting a alertar sobre as florestas da chuva na Amazónia, ou Peter Gabriel, capaz de alertar a opinião pública. É necessário que se compreenda que os índios não são apenas personagens poéticas, engraçadas. Nós estamos de facto a proteger a Terra. Nos anos 60 os turistas tiravam-nos fotografias, diziam “não têm tanta graça?” e faziam “wuhwuhwuhwuh” com a boca. Éramos uma atracão turística.

P. – “The Priests of the Golden Bull” é quase um manifesto, composto de forma subtil, quase hipnótica...

R. – Há nele inocência. A canção poderia ter sido escrita de outra maneira, com raiva. Mas não era esse o meu estado de espírito quando sussurrei as palavras ao microfone do computador, em casa – o disco foi todo gravado em minha casa. Nesse momento sentia-me quase como uma secretária que nunca tivesse ouvido falar antes de todos estes problemas. Uma pessoa totalmente “naif”.

P. – Considera-se uma cantora de protesto, como Dylan ou Joan Baez, nos anos 60?

R. – Considero-me uma escritora de canções. Joan Baez – que era uma cantora folk – e Dylan cantavam sobre condições desumanas. Foram um bom exemplo para mim. Ensinaram-me a ter a coragem de cantar e dizer as coisas exatamente como eu as via. As canções folk são canções de amor sobre pessoas que se apartam ou que se encontram. Permanecem durante centenas de anos. Mas continuam a ser relevantes as canções de protesto político, do estilo “os senhores da guerra estão a destruir as nossas vidas”.

 

“Hippies” de cafeína

 

P. – Toda a sua postura – vejo-a à minha frente com uma flor no cabelo –, todo o seu discurso, recordam a geração “hippy”. Sente-se ainda parte dela?

R. – A flor é do Hawaii [risos]. Penso que foi uma geração mal retratada...

P. - ...o sonho acabou em pesadelo, com o concerto dos Stones em Altamont, com violência...

R. – Acabou antes. Isso é a história popular. Eu vi o que aconteceu.

P. – Conte-nos então o que se passou...

R. – Penso que não houve sequer uma geração “hippy” mas uma “geração dos cafés”. Tudo evoluiu a partir da diferença entre a cafeína, o álcool e as drogas duras. Uma diferença de drogas determinou todo o processo. O início dos anos 60, quando a música era realmente criativa, foi um verdadeiro movimento estudantil centrado em volta dos cafés. Com cafeína. De pessoas que falavam e sabiam ouvir as outras. Entretanto John e Robert Kennedy foram mortos, Malcolm X e Luther King foram mortos. Os cafés passaram de súbito a ser sobrecarregados com taxas e a terem de fechar. Quando reabriram tiveram de obter licença de venda de álcool se queriam sobreviver. A partir desse momento a cafeína foi substituída pelo álcool. O álcool anestesiou o movimento estudantil.

P. – De quem é a culpa, além do álcool?

R. – Da administração de Lyndon Johnson, que tinha terror de não conseguir controlar a mente dos estudantes.

P. – Durante o mandato do presidente Johnson chegou a ter problemas com a censura.

R. – Os homens da rádio disseram-me que sim. Receberam cartas da Casa Branca a encorajá-los a suprimir a minha música nas suas estações. Nessa época não cheguei a ter conhecimento do facto. Houve quem, na rádio, me tivesse contado o episódio somente 10 anos depois...

P. – Entretanto as coisas mudaram para si? Ou continua a considerar-se uma “outsider” do sistema?

R. – Sim... mas não posso culpar Lyndon Johnson por isso [risos]. Fui ou era considerada uma “outsider” em primeiro lugar porque era mulher, em segundo porque não tinha um empresário influente e em terceiro porque não bebia. A maior parte dos contratos, nessa época, eram assinados nos bares, com um copo na mão. Sempre levei um estilo de vida diferente. Nunca pensei que conseguiria integrar-me no “show business”. Limitava-me a atuar em Nova Iorque e não passava semanas a vaguear pelas “parties” na casa de um e de outro. Preferi sempre gozar a vida à minha maneira. Se estava na Austrália, atuava em Sidney e depois ia tocar para os aborígenes. Na Escandinávia, a mesma coisa. Ia a Oslo ou Estocolmo e depois desaparecia para Norte, entre os “sammi”.

P. – Mas vive da indústria. É ela que lhe dá dinheiro...

R. – Sim, mas não tenho propriamente o mesmo estilo de vida de Madonna ou de Debbie Harry... Não quero com isto dizer que elas não são boas no que fazem, mas sim que não levam a mesma vida dupla que eu, que vivo no Hawaii e no mundo do espetáculo ao mesmo tempo. Sou índia e nunca deixei de atuar nas reservas, mesmo durante os quinze anos que estive sem gravar, para me dedicar à educação do meu filho Paul, nascido em 76. Também nunca deixei de dar concertos em todo o mundo para a UNICEF, em Tóquio, Amesterdão, Paris, Roma, etc. Ao lado de pessoas como o Marlon Brando, o Peter Ustinov ou o Danny Kaye, e de “troupes” de dançarinos africanos, do Bali, de Burma... Estou entre o étnico e a pop. É assim que eu gosto.

 

Os verdadeiros culpados

 

P. – Por que motivo ofereceu uma canção “Up where we belong”, de enormes potencialidades comerciais, a Joe Cocker e Jennifer Warnes em vez de a cantar?

R. – Estou no “show business” apenas porque sou uma escritora de canções. Quando comecei a cantar não o fazia muito bem. Então só tinha as canções que achava que diziam alguma coisa e contentava-me que outros as cantassem. Não vim de LA ou de Nova Iorque, não era como a Judy Collins cujo pai era músico, ou a Joan Baez que era professora de liceu. O meu pai era mecânico. Eu vim de lado nenhum, não conhecia ninguém, nenhum músico. Não tinha quaisquer ligações com os colégios ou com o mundo da música. Era uma virgem especada num salão de baile, a tocar guitarra, à espera que alguém quisesse cantar as minhas canções. Acabei por ter sucesso. Foi só por alturas do meu quinto ou sexto álbum que comecei a cantar melhor e a ouvir-me a mim própria.

P. – O que a mantém acordada?

R. – O café [risos]. E as canções. Às vezes, quando alguma coisa me intriga, acordo a meio da noite, acendo a luz, ligo o gravador e desato a cantar. Isso acorda-me. Encontrar soluções mantém-me acordada.

P. – Como definiria na generalidade “Coincidence and Other Likely Stories”?

R. – É um disco com três tipos de canções: um primeiro grupo sobre estar-se apaixonado, como “Emma Lee”, um segundo grupo, de canções nativas, como “Starwalker”, triunfantes e jubilosas à maneira da cultura que retratam, e um terceiro, de canções que trazem informação nova, como “The big ones get away”, “Fallen angels” ou “Desinformation” em que no fundo tento fazer o mesmo que nos anos 60 com “Soldier Blue” ou “The Universal Soldier” – sintetizar aquilo que toda a gente sente quando caminha pelas ruas, seja em que lugar for, mas ninguém se atreve a dizer. Em “The Universal Soldier” perguntava: “Quem é o responsável pela guerra?”. Vi no aeroporto soldados de uniforme regressarem feridos e as autoridades dizerem que não havia guerra nenhuma no Vietname. Dirigi-me aos soldados e fiz-lhes a mesma pergunta: “Quem é o responsável pela guerra”? Os soldados são os culpados? De certo modo, sim. Os generais que os comandam? Até certo ponto, sim. Mas quem é o verdadeiro culpado que põe alguém atrás ou à frente de uma espingarda? São os políticos. E quem é que vota nos políticos? Percebe o que quero dizer?... Tudo começa com a responsabilidade individual de cada um. Vivemos de novo um tempo em que se discute e se fala dos problemas. E a pergunta principal é: “Que havemos de fazer com a verdade, quando o sistema está corrupto”?

Um "entertainer" de emoções [James Taylor]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 MAIO 1992 >> Pop Rock

 

UM “ENTERTAINER” DE EMOÇÕES

 

“Sweet Baby James” é a canção por que todos o recordam. É pouco, para quem, como James Taylor, anda pelo mundo há mais de uma década às voltas com as canções. Arriba a Portugal na sexta-feira, ao Casino Estoril, e repete no dia seguinte, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Com as baladas que o tornaram célebre e das quais diz que “o mais fácil é começá-las, o pior é o resto”.

 

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Para este cantor, nascido em Boston e hoje com 44 anos de idade, pouco mudou entre o álbum de estreia “James Taylor” (de 1968, inclui duas canções conhecidas, “Carolina in my mind” e “Something in the way she moves”) e “New Moon Shine”, do ano passado: as mesmas baladas doces e um modo suave de introspeção adequado à época dourada dos anos 60 e 70, que lhe permitiu ombrear com outros “singers/songwriters” da época, como Carole King, Melanie e Joni Mitchell. Pelo caminho foram ficando melodias agradáveis como “Fire and rain”, “You’ve got a friend” (esta tornada mais popular na voz de Carole King) e “How sweet it is”.

Também é costume as pessoas referirem-se a James Taylor por ter sido casado com Carly Simon, a mulher dos lábios mais carnudos à face da Terra, mas isso é outra história, se calhar mais interessante que a da sua biografia.

Coisa curiosa: os seus discos venderam-se sempre bem, tendo atingido o “top” de vendas nos Estados Unidos uma quantidade de vezes e sido “discos de ouro” outras tantas. “Sweet Baby James” (o tal disco, a tal canção), de 1970, e “Mud Slide Slim and the Blue Horizon”, do ano seguinte, alcançaram ambos o terceiro lugar. “One Man Dog”, de 1972, atingiu o 4º posto, “Walking Man” (1974) foi 13º, “Gorilla”, de 1975, o 6º, “JT”, de 1977, conseguiu o 4º, “Flag” (1979) e “Dad Loves His Work” chegaram a 10º. O mais recente, “New Moon Shine”, vendeu a velocidades supersónicas.

James Taylor, por este lado, não tem razões de queixa, até porque para ele, embora seja importante “estar nos tops”, esse não passa de “um objetivo muito pobre quando se é músico”. Da mulher, Carly Simon, a tal dos lábios, com quem se casou em 1972, deve ter tido algumas, já que se divorciou dela dez anos depois.

E foi assim que tudo se conjugou para que James Taylor viesse aportar a este cantinho mimoso à beira mar plantado que é a nossa terra, o nosso Portugal. E logo ao Casino Estoril, ponto de encontro da nossa melhor sociedade. Por aqui se vê que Taylor é um artista de classe. A sério. E ecológico, ainda por cima: é amigo de Sting (de quem diz ser “uma pessoa completamente natural e imunizada à moda”), outro ecológico, e participou no megaconcerto “No Nukes”, contra o nuclear e as bombas antónias.

Nas fotos promocionais, James Taylor tem aparecido frequentemente com um aspeto bronzeado. Não por acaso, pois o cantor é um frequentador assíduo do festival “Rock in Rio”. Ou então é da qualidade das fotografias.

No Casino vai emocionar os corações da, repete-se, não vá aparecer alguém sem gravata, melhor sociedade lisboeta e proporcionar decerto mais um ritual de “aceno de lenços” tão do seu agrado. Nem poderia ser de outro modo, já que o próprio James Taylor se afirma um “’entertainer’ a quem dá muito gozo e emoção tocar ao vivo”.

Do lote de canções que James Taylor interpretará em Portugal, na maioria extraídas de “New Moon Shine”, fazem parte “Copper line”, “You can’t go home again”, “Down in the hole”, “I’ve got to stop thinking about that”, “Shed a little light” e “Frozen man”, que fala de “um marinheiro britânico do séc. XIX que se perde no mar, junto ao Ártico, e que, uma vez descongelado, descobre que o seu mundo acabara há cem anos atrás”, uma das preferidas do autor, inspirada num seu antepassado, também ele “perdido para sempre no mar”. James Taylor – um homem do mar que em Portugal procurará não meter água.

Recoil - Bloodlines

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 MAIO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Recoil
Bloodlines
LP/CD, Mute, distri. Edisom

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Eletrónicos da treta há muitos. Discípulos diplomados dos Kraftwerk contam-se pelos dedos. Os Recoil, “alter ego” de Alan Wilder, incluíam-se até há bem pouco tempo na categoria dos que entenderam o essencial da mensagem veiculada pelos magos de Düsseldorf: o manifesto da arte matemática e da pop gelada gerada nos laboratórios Kling Klang e endereçada à nova sensibilidade cibernética do pós-“menos que zero”. “1+2” e “Hydrology” eram exercícios brilhantes de contenção, de poesia digital, de programação de sinais elétricos segundo o rigor minimal e a sedução tonal e tímbrica permitida pelo uso imaginativo do computador e do “sampler”. “Bloodlines” é o oposto de tudo isto e um enorme passo à retaguarda. A totalidade dos temas é cantada, o que desde logo distingue o disco dos seus antecessores. Vozes escolhidas de acordo com as necessidades (poucas) de cada tema, com destaque para as de Douglas McCarthy, dos Nitzer Ebb, e Toni Halliday, dos Curve, que se encarregam de os transformar em pouco mais que banalidades. Os Recoil apontam agora às pistas de dança (“Curse” inflete nos domínios do “rap” e do “hip-hop”, como se só agora Wilder tivesse começado a ler o catálogo) e ao som pop “made in ‘Fatory’” em que a eletrónica passou de protagonista principal a mero adereço manufaturado a metro. (4)

Michelle Shocked - Arkansas Traveller

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 MAIO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Michelle Shocked
Arkansas Traveler
LP/CD, Polygram, distri. Polygram

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 Como o título do álbum dá a entender, trata-se de um álbum de viagens. Pelo Texas, pelas recordações e pela memória de alguns heróis. Para Michelle Shocked, “Arkansas Traveler” representa a assunção das origens, aqui sagradas na música “country”, no “ragtime”, nos “blues” rurais e na homenagem a nomes como Doc Watson, Taj Mahal, The Hothouse Flowers, Norman and Nancy Blake, Levon Helm e Garth Wilson. “Arkansas Traveler” é, em simultâneo, a conclusão de uma trilogia iniciada com “Short Sharp Shocked” e prosseguida com “Captain Swing”. Predominantemente acústico, o álbum peca por não arriscar um milímetro, refugiando-se nas regras aceites da “country” ou dos géneros atrás apontados, com ocasionais escapadelas até à música irlandesa (um dos locais de gravação foi Dublin, os outros foram Chicago, Memphis, Sidney e LA), presente na euforia de um tin whistle, em “Over the waterfall” ou na introdução de “Weaving way”. O resto, que são as restantes 13 canções, decorre ao ritmo morno das baladas, das acelerações momentâneas do violino, de uma ou outra aproximação – decerto involuntária e devida à particular utilização do bandolim – aos Fairport Convention, e das constantes piscadelas ao Sul e às suas mitologias. (6)

 

Manu Katché - It's About Time

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 MAIO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Manu Katche
It’s About Time
LP/CD, Sacre, distri. BMG

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 Assim como há brancos com alma negra, assim também há negros com alma branca. Johnny Winter, Joe Cocker ou Dr. John estão no primeiro caso. Manu Katché está no segundo. Ainda bem que assim acontece, para baralhar as pistas e dar mais interesse a este negócio da música, ávido de catalogações. “It’s About Time” é um disco de pop europeu, servido por uma voz (a de Katché) de veludo, que amiúde remete para Green, dos Scritti Politti, e por melodias do tipo “serpente”, que a cada audição se vão insinuando e apertando o laço. Melodias que do caldeirão étnico recolhem apenas um pouco de cor, uma sugestão picante ou um leve perfume de exotismo. Daniel Lanois, Tom Robinson (co-autor de grande parte dos textos), Branford Marsalis, Peter Gabriel, Sting, Richard Galliano e John Paul Jones são alguns dos ilustres convidados que ajudam a tornar este desfile de suavidades uma boa sugestão para os dias de Verão que se aproximam. Já não era sem tempo. (7)

Jocelyn Robert - Folie/Culture + Strafe Fur Rebellion - Lufthunger

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 MAIO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

LOUCURA, CULTURA E PRÉ-HISTÓRIA

 

JOCELYN ROBERT Folie/Culture (6)

CD, ReR, import. Contraverso

 

STRAFE FUR REBELLION Lufthunger (7)

CD, Touch, import. Contraverso

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“Folie” e “Lufthunger” têm de comum entre si serem discos conceptuais, no sentido de que ambos procuram ilustrar conceitos extramusicais. Além disso, ambos utilizam o ruído – e as diferentes metamorfoses que a sua manipulação permite –, como matéria principal dos respetivos discursos musicais.

No primeiro, do canadiano Jocelyn Robert, os resultados desiludem, sobretudo se compararmos Folie/Culture ao seu anterior trabalho “Live-Stat-Moniteur” – um trabalho notável de colagem e efabulação sónica, que colocava o compositor ao lado de Steve Moore, Philip Perkins ou dos Biota, mestres construtores das novas catedrais de ruído, opostos na estética e nos métodos ao grupo dos “industriais” e quejandos.

“Folie/Culture” (nome de uma organização que “pela sua atividade, procura impor uma nova imagem de ‘loucura’ diferente da comummente aceite” e que “explora as relações entre a dinâmica emocional e a criação, ao mesmo tempo que questiona o lugar desempenhado pelas diferentes marginalidades”, etc., etc., etc.) pretende ser uma “banda sonora imaginária”, composta para ser escutada a “baixos níveis de volume sonoro”, de maneira a permitir a “combinação entre a música e os sons ambiente”. Ou seja, um decalque da “Discreet Music” de Brian Eno. O que se ouve – ou melhor, em grande parte do disco, o que não se ouve – são irrupções ocasionais, e na aparência aleatórias, de gotas de água, vozes, zumbidos, caixas-de-música, enfim, o que estiver à mão, que vêm interromper o silêncio prevalecente e dar um simulacro de vida a algo que poderíamos alinhar ao lado de “A Quiet Gathering”, de Steve Moore, e da sua “música de câmara de sons ambientais”.

“Lufthunger”, ao invés das preocupações sociológicas, debruça-se mais sobre as questões históricas. Melhor dizendo, pré-históricas. Trata-se de novo de uma “banda sonora imaginária” que, desta feita, procura sonorizar os diferentes períodos de formação da Terra, desde o Câmbrico ao Pleistoceno. Nem poderia ser de outro modo, pois na altura o cinema encontrava-se ainda pouco desenvolvido. A música é primitiva, ritualística (característica comum à maioria dos projetos da Touch) e, sobretudo, ruidosa. Os Strafe Fur Rebellion utilizam como instrumentos musicais “tubos de plástico girados por engenhos mecânicos”, “microfones a raspar em metal”, bisnagas de plástico, comboios de brinquedo, aviões a jato ou “uma televisão atirada contra uma parede de cimento”, ao lado de outros mais prosaicos como o órgão de igreja, o piano, o violino, o xilofone ou a guitarra havaiana. Os sons ambientais – chuva, lobos a uivar, sinos, etc. – completam esta banda sonora dos primórdios do nosso planeta, que começa com o ladrar de um cão e termina com uma declaração de princípios do homem e da mulher do Neanderthal, uma declaração muito simples, apenas um “eu sou” gritado com toda a força e convicção dos verdadeiros originais. Simplicidade que se compreende, dada a fraca escolaridade dos ditos.

Onde “Folie/Culture” desvela o silêncio que deve ser ouvido “de janelas abertas”, “Lufthunger” prefere o escuro das cavernas e o grito gutural. São tão parecidos e complementares como a noite e o dia. E têm, pelo menos, a virtude de chamar a atenção para os sons que nos rodeiam e que não temos o hábito de escutar.

24/09/2026

Diamanda Galás - The Singer

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 MAIO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Diamanda Galas
The Singer
LP/CD, Mute, distri. Edisom

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Depois dos espirituais e do gospel, Diamanda Galas volta a atacar, com os blues e a mesma maneira de cantar o lado negro da humanidade. De novo ao vivo, depois da missa celebrada numa catedral no duplo “Plague Mass”. Desta feita surge acompanhada apenas por um piano e um órgão, que lhe chegam perfeitamente para lançar os seus feitiços e imprecações. Na capa de “The Singer”, toda em azul, o azul dos blues, a cantora aparece com a seguinte inscrição gravada nos dedos: “Somos todos HIV positivos”, o que quer dizer que “temos todos sida” ou ainda que “estamos todos lixados”. A paranóia do costume. E são os gritos lancinantes, os urros animalescos, a voz de diva demoníaca que envenena tudo o que toca, tal qual uma praga. Muito em sintonia com o fim dos tempos (já em curso), Galas dedica-se à prática da inversão, em particular da música religiosa, de modo a carregá-la com uma polaridade oposta à original. Quando Diamanda canta “My love will never die” (de Willie Dixon) ou “Were you there when they crucified my Lord” (de Roy Acuff), onde se lê “love” e “lord” leia-se “ódio” e “diabo”. Diamanda Galas é muito mais sincera quando pede que se verifique o estado de limpeza da sua sepultura (“See that my grave is kept clean”), em “I put a spell on you”, de Screamin’ Jay Hawkins, ou no apocalipse final de “Judgement day”, único tema da sua autoria. “The Singer”, ainda aqui funcionando como o inverso do “álbum de clássicos” com que em regra os cantores pretendem afirmar as suas capacidades de intérpretes. O problema de Diamanda Galas é que já começa a fartar tanta gritaria, tanta maldição e, agora, também estes blues do inferno. Lá devem gostar todos imenso da sua música. (5)