07/05/2026

"Ao vivo é a hora de ser" [Marisa Monte]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

Marisa Monte traz novo espetáculo a Portugal

 

“Ao vivo é a hora de ser”

 

Há qualquer coisa em Marisa Monte que apela aos sentidos. A cantora brasileira impressiona pela voz envolvente, mas também por uma presença física que, na pose distante, sabe atear o desejo. Arto Lindsay, John Zorn e Ryuichi Sakamoto sucumbiram ao fascínio, no novo disco da jovem diva. Lisboa e Porto vão vê-la, escutá-la e pedir “Mais”.

 

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“A minha música e a minha presença em palco, são extensões do que eu sou” – explica ela. Talvez resida aí o segredo desse algo indefinível que “encanta as pessoas” e que os portugueses terão oportunidade de verificar “in loco”, dias 25 e 26 em Lisboa, na Aula Magna, e a 28 no Coliseu do Porto.

PÚBLICO – Em relação aos concertos de Lisboa e do Porto, quais serão as diferenças quanto à atuação de há um ano, no Festival “Sons do Mar”?

MARISA MONTE – Isso foi antes do meu segundo disco [“Marisa Monte”]. A principal diferença é que, desta vez, vou apresentar um maior aparato cénico. Trazemos alguns panos de fundo do Brasil, algumas projeções em 16 mm. É um “show” reduzido, diferente do que faço no Brasil mas, mesmo assim, bem melhor que a minha apresentação do ano passado. Vai ter uma hora e meia de duração.

P. – Que reportório escolheu para os dois espetáculos?

R. – Basicamente o meu reportório dos dois discos e músicas inéditas. Ao todo, o “show” vai ter umas 18 músicas, incluindo canções de Tim Maia, “Não quero dinheiro, só quero amar”, Johnny Nash, “I can see clearly now”, Lennon/McCartney, “Dig a pony”, uma de Tom Waits, “Temptation”. E uma ópera, “La Sonnambula”, de Bellini...

P. – Trata-se de um regresso às origens de cantora lírica?

R. – Há muito que tinha vontade de o fazer. Mas agora cantarei a ária sobre uma base totalmente contemporânea, sem o menor compromisso com a orquestração original de Bellini. Canto a melodia sobre uma base de banda, mesmo. É uma coisa que vou estrear aqui em Portugal.

P. – Em termos de apresentação visual, como será a imagem que vai dar de si às plateias portuguesas?

R. – É isso aí, quem vier verá...

P. – Costuma afirmar que não pretende assumir-se como estrela. Mas o facto é que, aos 23 anos e com apenas dois discos gravados, o seu sucesso já é imenso...

R. – Tenho que ter muita lucidez, porque o sucesso é uma coisa que, por pouco que nós mudemos, leva toda a gente a mudar em relação a nós. Então, não posso perder a noção de compromisso que tenho com a música, e não com a minha imagem, nem com essa coisa de ser estrela. Acredito que o meu sucesso se deve sobretudo ao trabalho.

P. – É por isso que tem o hábito de controlar até ao mínimo pormenor todos os aspetos da sua carreira, desde a preparação dos espetáculos, aos discos e à imagem?

R. – É uma característica importantíssima. O meu trabalho tem cada vez mais um traço não de compositora mas de autora. Escolher o produtor, a encenação, o reportório, ensaiar a banda, tudo isso são coisas que eu faço, pedindo sempre a opinião das pessoas que estão perto. Mas cada vez mais tenho maior autoridade sobre o meu trabalho. Autoridade, não autoritarismo.

P. – Com a sua idade revela uma grande maturidade...

R. – Não é fácil, porque se está a lidar com interesses diversos: da editora, da banda... Certas coisas podem parecer ótimas para toda a gente, mas não para você. Podem gritar “está ótimo, vamos nessa” e isso não ser realmente o melhor. Tenho o cuidado de não me expor demais. Acredito que o consumo é uma coisa perigosa por isso não o fomento: não vou à televisão, não faço “playback”. Sou uma pessoa que preza os princípios e a própria integridade.

P. – Essa recusa tem relação direta com a imagem de distanciação que parece cultivar?

R. – Mantenho essa distância em relação a certas coisas, e proximidade em relação a outras. O que não fomento é a imagem de estrela, para mim pejorativa. Sou uma pessoa normal e faço questão de o ser. Só assim é possível ter liberdade de movimentos e um mínimo de vida privada.

 

“Playboy”, não

 

P. – Ao vivo, essa distância desaparece, anulada pela gestualização extrema e por uma entrega total ao espetáculo, que lhe são características...

R. – Ao vivo é a hora de ser. Se há um momento em que eu tenho de estar exposta, esse momento é no espetáculo. Agora não faço campanha política, nem apareço “pelada” na “Playboy”. Não faço fotografia de moda, nem cinema, nem “comerciais” na televisão. Existem muitas solicitações e oportunidades, mas nem todas são boas. Às vezes é preciso saber perder uma oportunidade...

P. – Até agora a escolha do seu reportório tem incidido em “standards” ou em temas de outros compositores. Considera-se uma intérprete de música brasileira ou apenas uma intérprete que, por acaso, nasceu no Brasil?

R. – Ah sim, o Brasil no mundo! Não o Brasil para dentro do Brasil. O Caetano fez isso no estrangeiro, entrou em contacto com a Pop internacional, com outros músicos. Lá porque sou brasileira tenho de cantar só músicas brasileiras?

P. – Mas o Caetano manteve-se de certa forma fiel às origens brasileiras. Não receia o perigo da descaracterização?

R. – Mas o meu segundo disco [“Mais”, produzido por Arto Lindsay e com a colaboração de nomes sonantes da “downtown” nova-iorquina, como John Zorn e Bernie Worrell ou o japonês Ryuichi Sakamoto] é muito mais brasileiro do que o primeiro. Acho fundamental manter essa ligação, se não teria sido uma cantora lírica. Há em mim toda uma formação ligada à música brasileira, ao Cartola, à Carmen Miranda, ao Assis Valente, compositores de todos os tempos. O Caetano, o Gilberto Gil, o João Gilberto gritam dentro de mim. Não tenho qualquer intenção de ir viver para fora do Brasil e de fazer uma carreira em inglês, tipo Cindy Lauper. Antes de ser cantora, sou brasileira.

P. – Agora que cada vez mais se fala em “world music”, apetece lembrar uma frase de um jornalista brasileiro: “estar na moda é saber renovar a tradição”. Esta frase aplica-se à sua música?

R. – Acho que sim. O mundo está cada vez mais ligado. É um só planeta. As distâncias tornaram-se menores e as músicas de cada país influenciam-se mutuamente. No Brasil isso aconteceu muito. “Mais” é um disco gravado em Nova Iorque e no Brasil mas, apesar disso, destina-se ao mercado brasileiro. Não seria louca ao ponto de fazer um disco para o mercado internacional sem ninguém me conhecer. Só que a qualidade técnica, de produção, permite o lançamento em qualquer parte do mundo.

P. – Com uma carreira ainda curta, pode dizer-se que chegou, viu e venceu. Como encaram os seus colegas da MPB, que demoraram anos a chegar ao topo, essa sua ascensão quase instantânea?

R. – É apenas uma questão de trabalho.

P. – Trabalha então mais que todos eles?

R. – Pelo menos mais do que a média... acho que sim.

Vladimir Estragon - Three Quarks For Muster Mark

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

VLADIMIR ESTRAGON
Three Quarks for Muster Mark
CD, Tip Toe, import. Dargil

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Os Vladimir Estragon contribuem, sem complexos, com a sua quota parte para a aniquilação, há muito anunciada e sempre adiada, do jazz. E não só por nas suas fileiras militar um dos demolidores de serviço nos Einstürzende Neubauten, F.M. Einheit. Exéquias celebradas nas contorções, sublimes e subliminares, do saxofonista e clarinetista Alfred 23 Harth (precisamente, antigo companheiro do homem dos Cassiber, Heiner Goebbels). Ulrike Haage fornece o suporte eletrónico, entre o martelo-pilão digital e o indizível de impossíveis manipulações sonoras. Einheit acaba com o resto, recorrendo às suas percussões metálicas e a eventuais curto-circuitagens elétricas: em “Seine Register” o CD ameaça explodir em estilhaços devido ao ruído parasita, ultra-amplificado, de um disco de grafonola riscado. Phil Minton, quando lhe dão espaço, amassa a própria voz como se fosse plasticina, moldando-a entre o gutural concreto de “Der verbleibende Haufen” e a microscopia a Schumann, “Die Nachtigall”. Na Alemanha os muros continuam a cair. (9)


Universos paralelos [Harold Budd, Bill Frisell, Paco de Lucía]


PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock

 

UNIVERSOS PARALELOS

 

Harold Budd, Bill Frisell e Paco de Lucía vão estar entre nós. Um piano e duas guitarras. O silêncio, a cidade e o fogo. Três sensibilidades diferentes que apenas se encontram no gosto pela perfeição. Frisell traça Nova Iorque em papel quadriculado. De Lucía é a emoção à flor dos dedos. Budd respira o infinito. Fruir a música é também essa viagem entre a realidade e o sonho.

 

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Não fora Brian Eno e poucos saberiam hoje quem é Harold Budd. Com efeito foi graças a um disco gravado e editado na série “Obscure”, de Eno, que o pianista fez chegar ao mundo as reverberações do silêncio. “The Pavillion of Dreams”, assim se chamava o disco. Título que diz tudo, ou quase. A imagem, esboçada pela fantasia, diz que há um pavilhão de vidro no meio do jardim. Dentro do pavilhão está um piano de cauda. Em cima do piano, talvez um ramo de violetas. Murchas. No exterior deve chover. E o sol, quando chegar, há-de trespassar as gotas de água e iluminar o piano abandonado.

 

Budd: superfícies polidas

 

Harold Budd começou por escrever poemas, “sem propósito algum”. Tal como a sua música. O piano de Harold Budd não conta história nenhuma, como faziam os românticos. A música está lá. Vale por si. Não aponta nem diz coisa alguma. Ela é essa coisa. O Zen ensina-nos que ser é o mesmo que estar. Está-se na música de Harold Budd, como num lugar. Seja qual for esse lugar: no cimo de um monte, no interior de um quarto ou num recanto da memória.

Uma vez o músico deu com uma monografia do pintor italiano Sandro Chia, com a seguinte legenda: “Uma luz desceu sobre a minha cabeça, como uma súbita madrugada.” A frase serviu de mote para o seu disco mais recente, “By the Dawn’s Early Light”, o único na sua discografia em que são utilizados textos, neste caso declamados.

Há quem fale de minimalismo, ao referir-se à obra deste pioneiro que fez parte da vanguarda californiana dos anos 60. De facto, é difícil chamar-lhe outra coisa se considerarmos obras como as que então compôs, como “Lirio”, um solo de gongo com a duração de 24 horas. Mais tarde, escreveu “Madrigals of the Rose Angels”, para harpa, percussão, violoncelo, luzes e um “coro feminino em ‘topless’” (devem ser vocalizações sem as oitavas superiores). Depois foi o encontro com Eno e a música que geralmente associamos ao seu nome: um “perpetuum mobile” harmónico, feito de cintilações de piano. Em paralelo, um universo extático, que ilumina as obsessões ficcionais de Erik Satie.

“The Plateaux of Mirror” e “The Pearl” (ambos com Brian Eno) orquestram o silêncio, depurando-o de todas as impurezas. São, como os títulos sugerem, espelho e pérola. Superfícies polidas que refletem interiores, o mar, o céu. Repare-se, entretanto, na beleza dos títulos, a que Budd dá a maior importância: “The Serpent in the quicksilver/Abandoned cities” (composto para várias instalações multimédia), “The Moon and the Melodies” (com Robin Guthrie e Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins), “Lovely Thunder”, “The White Arcades”. Escute-se a música das palavras. As sugestões que encerram. “By the Dawn’s Early Light” é mais sombrio, mas não menos belo. A beleza desta música está próxima do classicismo grego. No rigor e na exatidão das formas. Perfeição fria. Por isso, às vezes, assustadora. Harold Budd diz: “Desde muito novo que adoro música que entre diretamente pela veia jugular. E a arte que sabe ser extremista sem recorrer a truques.” No concerto português, tocará acompanhado do guitarrista Bill Nelson (dos Be Bop de Luxe à companhia de David Syvian, a distância percorrida) e do percussionista John Spence.

 

Frisell: o coração da paranóia

 

E, de súbito, o ruído do tráfego nova-iorquino, a vertigem da colmeia urbana, o movimento fracionado e luciferino. Bill Frisell habita no coração da paranóia mas sabe deitar água na fervura. Cresceu a ouvir B. B. King, Paul Butterfield e Buddy Guy. Cedo encontrou o jazz (e que os puristas perdoem a heresia...) na ECM, editora para a qual grava “In Line”, “Rambler” e “Lookout for Hope”, este último, mais que os anteriores, evidenciando um enorme ecletismo, através de incursões em áreas como o reggae ou o rock. Depois, troca a ECM pela Elektra Nonesuch, especializada na edição de “clássicos da vanguarda”. “Before We Were Born” e “Is That You?” são o resultado dessa mudança. Para muitos, este discos são geniais (a “Down Beat” considerou o segundo Álbum do Ano), para outros são simplesmente chatos. Talvez a designação mais apropriada seja “genialmente chato”. Bill Frisell foi “genialmente chato” nas duas vezes em que tocou em Portugal, integrado nos Naked City. Agora, à terceira, espera-se que não o seja de vez. Vem acompanhado de Joey Baron (outro Naked City, dos não chatos), na bateria, e de Kermit Driscoll (mais conhecido por “Cocas”, integra atualmente os President, de Wayne Horvitz).

Ao longe vibra uma guitarra flamejante. É Paco de Lucía, um dos expoentes da guitarra de flamenco, daqueles que parecem ter sete dedos em cada mão. O seu nome verdadeiro não é Paco, mas Francisco. Francisco Gomes, mais concretamente. Nasceu em Cádis, filho de família humilde. Pela folha de promoção fica-se a saber que “ser humilde em 1947, em Espanha e ainda por cima no Sul, significava que a vida não era fácil”. Hoje ser humilde implica uma vida mais fácil, talvez mesmo um certo “status”. Aprendeu a tocar guitarra com o pai. Parece que foi “duro”, “doloroso” e “difícil”. Mas valeu a pena. Paco de Lucía tornou-se um verdadeiro virtuoso. Hoje, faz o que quer da guitarra, arrancando-lhe sons que sabem a sangue, a rosas, a vinho, a vento, a bocas carnudas, a sapateado, a poeira levantada na estrada por “roulottes” ciganas, a castanholas, ao Sul, ao orgulho, à vida que pulsa nas veias, a morte, ao sangrar da alma à procura de altura, pelas cordas acima.

 

De Lucía: a alma à procura da altura

 

Paco de Lucía, também ele, cedeu ao jazz. Lado a lado com Chick Corea ou com John McLaughlin e Al Di Meola, em “Saturday Night in San Francisco” e “Passion, Grace and Fire”, este um “must” da guitarra acústica. A solo assina obras como “Fantasia Flamenca”, “El Duende Flamenco”, “Fuente e Caldal” e “Almoraine”. E uma homenagem ao mestre e ao flamenco em “Manuel de Falla”. Sem esquecer aquele que foi o seu maior êxito comercial, “Solo Quiero Caminar”. “Zyriab”, recentemente editado entre nós, é um exercício brilhante de flamenco-jazz, etéreo, fluindo com a intensidade de lava que escorre por dentro. Acompanham o guitarrista nesta sua deslocação ao nosso país Ramon Sanchez Gomez, seu irmão, também na guitarra, José Gomez, vocalista (irmão de Ramon e, por consequência, irmão de Francisco, aliás, Paco), Ruben Dantas, percussionista brasileiro, Carlos Benavente, no baixo, Jorge Pardo, saxes e flauta, e Manuel Soler, dançarino. Resta seguir a sua música, pela noite e pelo sol.

A lenda de Henry "Pé de Vaca" [Henry Cow, Fred Frith]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock >> Reedições

 

A LENDA DE HENRY “PÉ DE VACA”

 

HENRY COW
The Henry Cow Legend (10)
Unrest (8)
In Praise of Learning (10)
CD, East Side Digital, import. Contraverso
 
FRED FRITH
Gravity (10)
Speechless (10)
Cheap at Half the Price (8)
CD, Rec Rec, import. Contraverso

 

    “The Henry Cow Legend” começa por ser diferente logo na capa: uma meia tecida em fios elétricos de plástico. A bizarria prossegue estranhamente nos dois álbuns seguintes, com novas versões da enigmática peúga. A explicação só mais tarde viria a ser fornecida pelo grupo: trata-se de um trocadilho com o título, que ninguém descortinara. “Legend” é lenda mas também, na mente distorcida dos lunáticos da vaca, “leg end”, o fim da perna, ou seja, o pé. Daí a meia. A música dos Henry Cow funciona um pouco neste registo entre Dada e uma bonomia esquizofrénica, sobreposição de lógicas suscetíveis de múltiplas leituras, que revela a cada audição pormenores insuspeitados e uma frescura e irreverência que o tempo não logrou apagar.

“Legend” parte do trabalho e das perspetivas abertas pelos Soft Machine (“Third” permanece como obra-prima absoluta dos anos 70), junta-lhe a loucura de Zappa, o “free jazz”, uns pós de Bartok e o perfume e elegância remanescentes dos jardins de Canterbury, para chegar a territórios e formas originais. O vanguardismo mais radical de “Amygdala” ou “The tenth chaffinch” alia-se à excentricidade pop de “Nine funerals of the citizen king” com a naturalidade e a cumplicidade de um sorriso. Improvisações delirantes, melodias intrincadas mas sempre apelativas, arranjos que num instante passam de uma impossível complexidade à simplicidade mais desconcertante, contribuem para fazer de “Legend” um manancial de surpresas e descobertas. Fred Frith, Chris Cutler, John Greaves, Tim Hodgkinson e Geoff Leigh constituem a primeira formação da banda. No álbum seguinte, “Unrest”, Lindsay Cooper (oboé, fagote, flauta de bisel) substitui Geoff Leigh.

“Unrest” é um disco mais difícil, ganhando em densidade e numa maior incisão instrumental o que perde em humor. Onde “Legend” é intervencionista (característica imputável a Chris Cutler, ideólogo de uma espécie de anarquismo esotérico, omnipresente em toda a obra dos Henry Cow, em particular no derradeiro manifesto “Western Culture”, e prosseguida no seio dos Art Bears) de forma distanciada e cifrada, “Unrest” é obscuro, solene, denso, por vezes perturbante. Joga-se com metalinguagens estruturais e com a ambiguidade da gramática: “Half asleep; half awake”, “Ruins”, “Solemn music”, “Linguaphonie”, exploram os recônditos de uma música de câmara fantasmática que investe contra as normas pré-estabelecidas com a inexorabilidade de um “iceberg”.

Ousadias, estruturas e simetrias visionárias constroem o futuro num “trompe l’oeil” totalitário em “In Praise of Learning”, o álbum seguinte. Nesta altura junta-se à formação dos Henry Cow a “troupe” extravagante dos Slapp Happy: Peter Blegvad, Anthony Moore e Dagmar Krause. “Como sempre, a heterodoxia, o fascínio pelos jogos conceptuais, a recusa da “normalidade”. O disco constitui como que uma manifestação prévia da obsessão de Cutler (nomeadamente ao nível dos textos) pela temática do Apocalipse, presente, de uma maneira ou de outra, em “The World as It Is Today” dos Art Bears e posteriormente disseminada nas discografias dos News From Babel e Cassiber, bandas que o percussionista viria a integrar no período pós-Henry Cow.

“Living in the heart of the beast” (“magnum opus” de 15 minutos que instaura a ordem no coração do caos), o golpe de faca vocal de Dagmar Krause em “War” ou a serração elétrica da guitarra de Frith em “Beautiful as the moon, terrible as an army with banners” destacam-se como traves-mestras deste edifício monumental, inserido na vasta acrópole arquitetada pelos Henry Cow. Ao canto inferior da capa, uma frase (de John Grierson) esclarecedora de toda uma atitude: “A arte não é um espelho, é um martelo.”



    Fred Frith, compositor prolífico e guitarrista pertencente ao clube restrito dos inovadores, tem, por seu lado, dispersado o talento por estéticas, projetos e colaborações incontáveis (seria fastidioso enumerá-las) que atestam uma vitalidade ímpar na produção musical contemporânea. “Gravity” e “Speechless”, compostos numa veia semelhante, constituem talvez, a par de “The Technology of Tears”, os pontos culminantes da sua discografia a solo. Posteriores às lições de “Guitar solos”, “Gravity” e “Speechless” desenham a geografia de mundos novos interligados pelas músicas tradicionais e por confluências estilísticas de toda a ordem.

Faixa a faixa, sucedem-se os cruzamentos de linguagens e a mestiçagem de estilos: o ambiente terceiro-mundista de uma rua de Porto Rico confude-se com um carnaval em Wall Street, os Shadows encontram-se com o rock industrial, recortes de guitarra ambiental dão lugar ao disco sound androide, um tema folclórico norueguês é partido aos bocados, cada um dando origem a um novo folclore imaginário. Os dois discos completam-se, na construção e no sentido.

“Gravity” conta com a participação dos Aksak Maboul e dos suecos Samla Mammas Manna (ambos membros da associação Rock In Oposition, que, na altura, integrava ainda os Henry Cow, os franceses Etron Fou Leloublan e os italianos Stormy Six). “Speechless” inclui na ficha técnica os Etron Fou Leloublan e os Massacre (Frith mais Bill Laswell e Fred Maher). Os CD incluem respetivamente mais cinco e seis temas que as versões em vinil.

Por último, “Cheap at Half the Price” (gravado originalmente para a Ralph Records, a mesma editora dos Residents, com quem, de resto, Frith também tocou, em “Commercial Album”...), no qual o guitarrista demanda o Santo Graal da canção pop. O resultado assemelha-se bastante aos primeiros discos de Brian Eno: melodias em contra-mão, vocalizações surreais, arranjos instrumentais pouco ortodoxos. O disco vale como curiosidade e pela comprovação do génio de Fred Frith, seja qual for o contexto em que se insere. No conjunto, seis documentos fundamentais para a compreensão do “outro lado” da música popular.

 

Cassiber - A Face We All Know

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

CASSIBER
A Face We All Know
CD, ReR, import. Contraverso

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     Se ainda é lícito falar de terrorismo estético, os Cassiber constituem a frente avançada da guerrilha contra esse “império do mal”, cujos contornos e ideologia tendem a adquirir formas cada vez mais ambíguas.

Chris Cutler (a ficha completa ocuparia a totalidade da página...), Heiner Goebbels (“O Homem do Elevador”...) e Christopher Anders, depois de “Beauty and  the Beast” e “Perfect Worlds”, persistem em manobrar no centro do Apocalipse. Textos de Cutler e de Thomas Pynchon, extraídos de “Gravity’s Rainbow”: “Íamos por um túnel de onde jamais sairíamos. Eu já sabia. Era o fim.” Palavras gritadas, sussurradas, alteradas. Por torrentes de raiva. Por sombras húmidas. Pelo Medo. Lucidez gelada. O filme derradeiro: “Quando fecho os olhos vejo os pensamentos. E as palavras. Em cores terríveis.”

O som (lembrando por vezes as emanações venenosas dos This Heat) completa o horror. Obsessivo, massacrante, por momentos aberto à ironia (o jazz de variedades, em “I was old”, as intromissões de inseto de “Philosophy”...). Os samplers de Goebbels rangem os dentes sobre a percussão-folia de Cutler. Música-manifesto. Sirene de aviso. Que rosto é este, que não ousamos nomear? (8)


Guitarrossauros excelentíssimos ["Guitar Legends"]

 

PÚBLICO DOMINGO, 20 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

“Guitar Legends” terminou ontem, em Sevilha

 

Guitarrossauros excelentíssimos

 

“Rock” sem guitarra elétrica não é “roll”, é conversa mole. Em Sevilha, durante cinco noites, a guitarra consagrou os seus heróis. A “velha guarda” uniu esforços e trocou de posições: Bob Dylan, Keith Richards, Phil Manzanera e Richard Thompson formaram uma das várias superbandas de ocasião que entraram diretamente para a lenda. A CRGE – Companhia Reunida de Guitarras Eletrificadas – deu festival. A todo o gás.

 

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Sevilha está em festa. Não é caso para menos. A Expo 92 está à porta. O “Nuevo Sur” prepara-se para ser o centro do mundo. A música antecipou-se. Logo a seguir a estas “Guitar Legends” anunciam-se já os terceiros Encontros de “Nueva Musica” com nomes como Luis Paniagua, Cassandra Wilson, Markus Stockhausen, Klaus Schulze e Bill Frisell em cartaz. Mas por agora a rainha é a guitarra. No anfiteatro ultramoderno construído na ilha de La Cartuja, em pleno recinto da Expo 92.

Quinta-feira: tempo de chegar ao hotel e de ligar a TVE 2, para assistir em diferido ao concerto da noite. Vicente Amigo, o novo menino-prodígio do flamenco, mal aquece as cordas da guitarra. Toca só dois temas mas dá para perceber que Paco e Manitas têm continuador à altura.

Joe Cocker, o vocalista convidado, continua a gesticular e a berrar como só ele sabe. Insiste em recusar os rebuçados “Dr. Bayard” só para manter a rouquidão da voz. Jack Bruce, por seu lado, faz reviver o fantasma dos “Cream”, com “White Room”, de parceria com Phil Manzanera (ex-“Roxy Music” e principal dinamizador deste festival).

Bob Dylan junta-se aos dois. Depois é a vez de Richard Thompson (dos lendários “Fairport Convention”) integrar esta “troupe” de génios, para a prestação conjunta de “All along the watchtower”.

Dylan cada vez mais canta com o nariz. Felizmente não está constipado. Mas quem se importa com a voz? Basta o velho trovador levar a harmónica aos lábios para que todas as interrogações sejam levadas pelo vento... Em todo o caso talvez não fosse má ideia mudar outra vez o nome para Zimmerman. É salvo à justa pela chegada de Keith Richards. Não tocavam juntos há anos. Keith Richards está com bom aspeto, aparentando uns 80 anos ao contrário dos habituais 120. Interpretam “Shake, Rock & Roll”, de Bill Haley. Depois o Rolling Stone é deixado a sós com os “Rhythm and Blues” que tanto aprecia.

Em cada noite tem sempre sido assim: um carrossel de estrelas em “roulement”. Sai uma, entra outra, tocam juntas um par de temas. No final reúnem-se todas, fazem a festa e apanham os foguetes. Na ocasião são Dylan, Richards, Thompson e Manzanera irmanados no ritmo de Eddie Cochran, antes de se desligarem as guitarras.

 

O regresso dos heróis

 

Sexta-feira arranca com Roger McGuinn e o “hit” do seu novo álbum “King of the Hill”. “Turn Turn Turn” e “8 Miles High” não fazem esquecer os Byrds mas aquecem razoavelmente o ambiente. Em cima, na “Braza Gallery”, destinada aos jornalistas, as brasas femininas não param de passear, assegurando deste modo a manutenção de temperaturas elevadas no recinto.

Roger McGuinn e Richard Thompson ligam bem. Provam-no o dueto emocionante de “Keep your distance”. Richard Thompson, com o seu inseparável Bone, é um dos heróis do concerto. As cordas vocais e da guitarra vibram em consonância com a magia da noite. “This guitar is howling” – exclama, como se homem e guitarra se confundissem num corpo único.

Quando Les Paul, o homem que teve a ideia de ligar a guitarra à tomada, entra em palco, o público salta das cadeiras e aplaude de pé, como se apanhasse um choque elétrico. De facto, os efeitos da guitarra são ruídos provocados por problemas nos cabos elétricos. Resolvida esta questão Les dá “show” com a sua “Gibbs Les Paul”, a tal guitarra cujo som corta suavemente, sem ferir, tal qual uma lâmina de barbear de qualidade. Mais tarde a célebre “Gibson Les Paul” viria substituir o modelo “Gibbs”, de sonoridade um tanto ou quanto cremosa para a agressividade do rock atual.

Renascido das cinzas dos “The Band”, Robbie Robertson traz de volta ao auditório a energia dos decibéis, apoiado por uma secção de metais e um par de vocalistas disfarçados de índios. Profusão de penas e cores a sugerir talvez a ave ridícula escolhida como símbolo para a Expo 92: um misto de palmípede e galináceo, pata-choca “punk” de crista e bico multicolores. Refira-se, em abono da verdade, que os sevilhanos adoram as cores. Sobretudo se estiverem todas juntas.

 

Macacos a ver televisão

 

Robbie Robertson faz de anfitrião do músico mais ansiado da noite: Roger Waters, que chega acompanhado pela sua banda particular. Esperava-se espetáculo e é isso que acontece, embora numa escala, mais reduzaida que a habitual. Um mini “The Wall”, sem muro, mas mesmo assim com os adereços possíveis na ocasião: explosões de fumo, holofotes marciais, piras ardentes (propaganda velada aos próximos Jogos Olímpicos de Barcelona?), luzes às bolinhas, muito “exploding plastic inevitable”.

“Another Brick in the Wall, pt. 823” provoca o delírio, antes de “What God wants, God gets”, uma canção nova sobre “Macacos que vêem televisão”. Como neste caso não há adereços, o músico sugere que a assistência faça o papel de símios que ele, Waters, fará de televisão.

Entre as duas ofensas, é difícil distinguir a pior. De qualquer modo, dado que a assistência aceita a sugestão, é de crer que Roger Waters seja o “God” de que fala a canção. No final, uma fífia de uma das meninas do coro vem provar que afinal “God wants” mas nem sempre “gets”, já os “Stones” o diziam: “You can’t always get what you want”.

A seguir à macacada, um tema dos “Pink Floyd” mais antigos, “The dark side of the moon”, por entre efeitos luminosos psicadélicos. Um dia destes o clube “UFO” reabre as portas... Já com Bruce Hornsby em palco e Waters envergando uma bata branca a fingir de médico, a despedida com “Comfortably numb”. Despedida irónica que a assistência, uma vez mais, não compreende. Finalmente a “Jam session” da praxe: Roger McGuinn, Richard Thompson, Les Paul e Phil Manzanera juntos numa guitarrada sempre “a abrir”, fechando em beleza mais uma noite de lenda.

Agora o mais grave: com o sucesso destas “Guitar Legends”, uma das ações de preparação da Expo 92, e os Jogos Olímpicos de Barcelona e a Expo 92 já para o ano, Portugal vai ser irradiado do mapa. O melhor é metermos a viola no saco e, visto que há sempre um Portugal desconhecido que espera por nós, fugirmos todos para a Galiza. Valha-nos Rui Veloso e o fado.

 

04/05/2026

Trovas da saudade [Trovante]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock

 

TROVAS DA SAUDADE

 

“Saudades do Futuro”, assim se intitula, saudosista e tradicional, o novo álbum dos Trovante, coletânea de canções que encerra um ciclo de vida, na já longa carreira do grupo. O disco, lançado no mercado nos formatos de duplo-álbum e CD (este incluindo mais 12 canções que o vinil), festeja o 15º aniversário da banda, ao mesmo tempo que antecipa o fecho da “tournée” nacional, em concertos a realizar nos Coliseus de Lisboa, a 24, 25 e 26 deste mês, e do Porto, a 30 e 31. O PÚBLICO juntou-se aos festejos e falou com Manuel Faria e João Gil.

 

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PÚBLICO – Até que ponto esta coletânea assinala o fim de um ciclo e o início de outro, na vida dos Trovante?

MANUEL FARIA – Encerrámos um ciclo, quando entrámos para a EMI-Valentim de Carvalho. Outro, quando gravámos o álbum “84”. Então, como agora, sentimos que era preciso mudar, que tínhamos um pouco esgotado um determinado formulário estilístico.

P. – Isso implica uma mudança radical no estilo da banda?

JOÃO GIL – Em relação ao futuro, está tudo por acontecer. O trabalho de composição, apesar de coletivo, funciona ao mesmo tempo como um trabalho solitário, em termos de direção musical. O caminho que poderá vir a ser trilhado no futuro tem que ver com a capacidade individual de cada músico. Nos Trovante há duas ou três pessoas com essa capacidade.

P. – O disco festeja 15 anos de carreira. Referem-se já aos outros 15 que estão para vir. Qual o segredo dessa longevidade?

JG – Nunca fazemos planos a médio ou a longo prazo. Como diz a canção “Saudades do Futuro”, viramos sempre a nossa cabeça para o futuro, não para o passado. Manter, hoje em dia, um grupo com a estrutura, já de certo modo complicada e pesada, dos Trovante tem que se lhe diga. A nossa coesão passa por uma sensibilidade e por uma educação musical comuns. Crescemos juntos. Há poucos segredos entre nós. Sabemos até onde cada um pode ir.

P. – No início, os Trovante eram um grupo conotado com a esquerda, mesmo partidária. Hoje, assiste-se a uma recuperação, da vossa parte, de um imaginário e de um discurso nitidamente conservadores...

MF – Isso implica uma discussão muito profunda. O pensamento político em Portugal tem um defeito enorme. Permite-se que a bandeira do 25 de abril seja um exclusivo da esquerda e que a bandeira dos Descobrimentos e do mar seja um exclusivo da direita. São ambas coisas que marcaram a vida deste país e de que as pessoas se deviam orgulhar. Pessoalmente não me acho mais próximo da direita. O povo português sempre foi muito marítimo, muito contemplativo...

P. – A afirmação desses valores, ligados à tradição, está hoje na moda...

MF – Mas essa moda, esse tipo de sentimento tem uma razão de ser. De certeza que há nele razões que se prendem com o progressivo bem-estar de uma determinada classe, se calhar aquela a que pertenço. Penso que o nosso afastamento da estrutura partidária de esquerda não tem nada a ver com a nossa dita opção de esquerda, se é que ainda hoje é possível falar-se nesses termos. Há alturas em que se torna difícil distinguir qual é o lado conservador...

P. – Por falar em tradição, a música tradicional teve uma grande importância na fase inicial da vossa carreira. Não tencionam recuperar, de futuro, essa via?

JG – Acho que a aproximação às raízes tradicionais é evidente em toda a música dos Trovante. O lado interior da música tradicional, a sua essência, sempre nos interessou. Há uma nítida influência da postura que o Zeca Afonso, o Adriano, o Sérgio ou o Fausto, em tempos mais antigos, tomaram em relação às raízes tradicionais. Agora, o que nós abandonámos há muito, e convictamente, foi a forma da música tradicional, o folclorismo. Vivemos na cidade. Interessa-nos procurar novos sons.

MF – É mais importante transportar o sentimento do que fazer uma coisa estilo seleções “Reader’s Digest”, do que utilizar este instrumento ou aquele. Fica-se com ar de estudante da universidade, a imitar um rancho folclórico. Hoje em dia, é fácil ser-se exótico. O que está a dar é o “popular”. Engana-se meio mundo, com esse pretenso “fazer popular”...

P. – Por que razão escolheram “Saudades do Futuro” como título do novo disco?

JG – Para mim, “Saudades do Futuro” significa o relacionamento com a utopia, muito mais do que uma coisa saudosista. Ter saudades de um sonho que se acredita ser possível concretizar. Pode ser uma utopia musical. Ou uma utopia política. “Saudades do Futuro” é a nostalgia do que ainda está para acontecer. Podemos citar a propósito a filosofia chinesa, o Teixeira de Pascoaes, o José Gomes Ferreira. O título refere-se à eternidade, ao ser em vez do ter.

P. – Foram escolhidos para representar Portugal na Europália, a par dos Sétima Legião e dos Madredeus, justamente dois grupos conotados com a tal tradição conservadora...

JG – Acho que a fórmula Trovante, Sétima Legião, Madredeus, resulta excecionalmente bem ao vivo. Mas neste tipo de exposições, seria desejável que houvesse uma melhor divulgação, mais ambição e agressividade. É preciso ter em conta que fazer uma Europália é trabalhar para fora e não para a colónia de imigrantes. Não somos um laxante para revigorar a saudade dos portugueses. Temos que nos voltar também para o resto do mundo.

P. – Afinal, ainda e sempre, a velha incapacidade dos grupos portugueses penetrarem no mercado internacional. Será possível alterar essa situação?

MF – Não acredita no esforço que foi feito, para penetrar, por exemplo, no mercado francês. Foram vendidos 500 discos, por nós próprios no átrio do “Théâtre de La Ville”, durante os cinco dias em que aí atuámos. Decidimos levar os discos à Pathé Marconi. Não ligaram nenhuma.

P. – Regresemos a Portugal. Como vai ser o concerto do Coliseu?

MF – Até agora, costumávamos começar as “tournées” em Lisboa e no Porto, antes de partir para o resto do país. Este ano, decidimos fazer o contrário – concluir a digressão nessas cidades, o que tem uma grande vantagem: o espetáculo está super-ensaiado, permitindo-nos partir para os Coliseus com uma segurança maior. O repertório vai incidir sobretudo no “Um Destes Dias”, mas, mais do que uma panóplia de várias canções, interessa-nos o ritmo do próprio espetáculo como um todo.

P. – Que conselho dariam, na qualidade de “irmãos mais velhos”, às gerações de músicos mais novos?

JG – Acho que o grande recado possível de dar à malta mais jovem que está a começar, passa por encontrar na língua portuguesa, na divisão das palavras, o ritmo certo e a maneira mais correta de as dizer. A música portuguesa está carenciada de gente que compreenda o português na sua essência. A genialidade do Zeca Afonso consistia nisso, a maneira como cantava o português era fabulosa. Como o Alfredo Marceneiro, também. Não nos devemos iludir com o cavaquinho ou a chula. Devemos, isso sim, procurar mais fundo...

MF – ...Encontrar aquilo que nos identifica perante o mundo e nos permite ultrapassar as suas fronteiras.