06/10/2026

E tudo o vento levou [III Encontros Musicais da Tradição Europeia]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 13 JULHO 1992 >> Cultura

 

III Encontros Musicais da Tradição Europeia abrem a frio

 

E tudo o vento levou

 

Com o som mais alto e menos vento do que esteve na sexta-feira à noite, o Parque dos Anjos, em Algés, é um bom local para se ouvir música folk. De outro modo custa um bocado. A atuação do irlandês Liam O’Flynn, exímio tocador de “uillean pipes”, e dos seus companheiros Dónal Lunny, Nollaigh Casey e Neal Martin, que abriram os III Encontros Musicais da Tradição Europeia, ressentiu-se da forte ventania que se fez sentir. Quando seria de esperar uma noite esfuziante de “reels”, “jigs” e outras cadências populares irlandesas de puxar ao pé, aconteceu, em vez disso, uma prestação morna que nunca chegou a aquecer as muitas pessoas que se deslocaram ao local desejosas talvez de reviver ao vivo o fantasma dos Planxty.

Além dos elementos, também a amplificação, pouco potente, não ajudou. A cinco metros dos músicos, dispostos sob uma árvore iluminada, ao fundo do pequeno anfiteatro do parque, ainda se ouvia qualquer coisa, por entre as rajadas de vento. Cá mais para trás, só a intempérie e uns sons fracos vindos de longe, a uns 20 metros de distância. A dez centímetros, deve ter sido fabuloso.

Liam O’Flynn, o lendário gaiteiro dos Planxty, lá foi apresentando os temas, entre o “show” das “pipes” que ele maneja tão à vontade como se de um copo do bom velho (12 anos já não está mal) “Jameson” “whisky” se tratasse, mas via-se que também ele tremia de frio. Sobressaíram as cadências mais lentas, aquelas em que era possível distinguir com maior nitidez o som dos instrumentos, um “air” interpretado a solo no violoncelo por Neal Martin e as intervenções de Liam O’Flynn no “tin whistle”, no meio de uma versão, que não fez esquecer a dos Chieftains, de “Tabhair dom do lámh” e “Music for a found harmonium”, dos Penguin Cafe Orchestra, que decididamente está muito “in” entre os grupos de música tradicional.

Dónal Lunny (militou nos Planxty, passou pelos Bothy Band e acabou na produção, com destaque para a coletânea “Bringing It All Back Home”), na guitarra, “bouzouki” e teclados, Neal Martin, no violoncelo e Nolaigh Casey (a rapariga que debutou nos Oisin), no violino, mostraram o que valem nos respetivos instrumentos. Mostraram, é como quem diz, sugeriram, nos momentos em que a audição se tornava em puro exercício de adivinhação. Mas valeu a pena, até porque a sua reputação não é pequena.

Os concertos prosseguem no mesmo local, amanhã, com Elena Ledda & Suonofficina, da Sardenha, e Muxicas, da Galiza e quarta-feira, com os escoceses Capercaillie. Na sexta, atuam Amélia Muge e o trovador da Occitânia Jean-Marie Carlotti. Depois, pelo mês fora até à primeira semana de agosto, os Encontros repartem-se por Évora, Guarda e Guimarães. Que S. Pedro esteja com eles é o que se deseja – um Verão tradicional.


"Tem um guardanapo que me empreste?" [Simone]

 

PÚBLICO DOMINGO, 12 JULHO 1992 >> Cultura

 

Simone atuou no Casino do Estoril

 

“Tem um guardanapo que me empreste?”

 


Sim, é verdade: “Ter saudades é bom. A alma renasce, o corpo inquieta-se. O amanhã parece nunca mais chegar. É afinal o desejo feito de mil sentidos, apurados até à vertigem”, anunciava o anúncio do Casino, a propósito de mais uma vinda de Simone a Portugal. Estávamos cheios de saudades e sentimos nitidamente a alma renascer e o corpo todo numa inquietação, à beira da vertigem. E o amanhã que nunca mais chegava!... Simone, essa, chegou e triunfou.

No cardápio da noite de sexta-feira, por 12 mil escudos e traje recomendado – fato escuro –, a lista era a seguinte, por ordem de entrada: música ambiente, misto de fumados com molho de rábano, medalhões de vaca Pompadour, torta de laranja com molho de baunilha, café, Simone, aplausos. Vinhos: garrafeira Estoril-Sol. Os doze contos da entrada não incluíam o “show” de maminhas de Mozart. Em termos de qualidade, Simone apenas terá sido ultrapassada pelos vinhos da garrafeira Estoril-Sol, vencendo facilmente a torta, os fumados e os medalhões.

Um sax muito “downtown”, estilo “Nova Iorque fora de horas” serviu de cenário à entrada triunfal da cantora. Vestida, como sempre, de branco, com um longo vestido decotado que lhe dava um ar de sereia, Simone lançou-se de imediato na interpretação dramática de “Sou eu”, não fosse alguém confundi-la com a Gal ou a Bethânia. Depois, até ao fim, foi só amor. Quarentona bem conservada, a cantora mostrou que continua em forma. Mantém uma aparência ótima e um razoável jogo de braços, exemplificado na largueza dos gestos e numa imitação de maestro em que fingiu dirigir os músicos da banda. O “potencial erótico” em que é exímia é que nem por isso esteve em grande evidência, limitando-se, neste campo, a limpar o suor do pescoço, voltada de costas para a assistência, e a sacudir várias vezes a farta cabeleira (as artistas brasileiras gostam todas de sacudir a farta cabeleira). Sensual, continua a voz. Com o “coração na garganta”, como dizem que tem, não admira.

Numa sequência de 17 canções, qual delas a mais romântica, distinguiram-se os diálogos da voz com a guitarra acústica de Luís Xapim, nas interpretações intimistas de “Ela e eu” e numa fabulosa “Jura secreta”. Ao nível poético, as letras recorreram aos jogos estruturalistas que a língua portuguesa autoriza, sobretudo se tiver sotaque brasileiro: “eu te amo”, “eu vou te amar”, “eu te amei”, na conjugação amorosa de todos os tempos possíveis do verbo.

A “overdose” de amor tinha entretanto instalado no salão “Preto e Prata” do Casino uma atmosfera de calor humano que, juntamente com a excitação, o fumo e a digestão dos fumados e medalhões, tornava o ar quase irrespirável. A certa altura acendeu-se numa das mesas uma estrelinha (antes só dois tímidos isqueiros tinham dado um ar da sua graça), simbolizando o brilho dos corações e a ternura imensa que nessa altura fluía já num imenso mar de amor por toda a sala. Foi belo, muito belo.

Depois, já no “encore”, com “Será” em miscelânea, tudo acabou em samba e carnaval – os corpos ergueram-se e dançaram em apoteose que culminou no êxtase coletivo e no ritual de agitar os guardanapos. Alguém que durante o jantar deve ter limpado a boca às mãos, implorava à mesa do lado, numa excitação: “Tem um guardanapo que me empreste?”

 

Os quatro cantos da Europa [III Encontros Musicais da Tradição Europeia]

 

Pop Rock

8 JULHO 1992

 

OS QUATROS CANTOS DA EUROPA

 

Este ano em versão alargada, os III Encontros Musicais da Tradição Europeia decorrem entre 10 de junho e 3 de agosto. Oeiras, Guarda, Évora e Guimarães recebem a nata da música tradicional proveniente das mais variadas regiões do Velho Continente. Na cidade minhota concentra-se a maioria dos grupos participantes. É aí que o entusiasmo e a adesão costumam ser maiores. Mas pode optar-se por um verão diferente e por uma volta a Portugal em música folk.

 

            Onze grupos e solistas participam este ano os Encontros, pulverizando em número as duas edições anteriores. Quantidade a que, neste caso, se junta a qualidade. Mais uma vez, a Etnia e o seu principal responsável, Mário Alves, dão mostras de uma atitude que – evitando qualquer tipo de concessões ao gosto massificante ou equívocos que amiúde, neste campo musical, apenas servem para criar confusão e divisão – pretendem acima de tudo criar nas pessoas o gosto, se não o amor, pelas músicas tradicionais do mundo, nas suas diversas tendências e origens geográficas.

            A lista de nomes é impressiva. Por ordem alfabética: Ad Vielle Que Pourra (Quebeque, Canadá), Amélia Muge (Portugal), Capercaillie (Escócia), Elena Ledda & Suonofficina (Sardenha, Itália), Jean-Marie Carlotti (Occitânia, França), Liam O’Flynn (Irlanda), Musica Nostra (Ilhas Baleares, Espanha), La Musgaña (Castela-Mancha, Espanha), Muxicas (Galiza, Espanha, com boa vontade), Raízes (Portugal) e Vasmalom (Hungria).

 

Espetáculo e rigor

 

            Em termos de reconhecimento internacional, os Capercaillie e Liam O’Flynn apresentam-se como as referências mais sonantes. Os escoceses vêm aureolados com a crítica ultra-elogiosa que a “Folk Roots” teceu ao seu novo disco, “Delirium”. Do irlandês basta dizer que fez parte dos Planxty e é considerado um dos maiores tocadores de “uillean pipes” da atualidade. Foi solista principal na obra sinfónica “The Brendan Voyage”, do compositor Shaun Davey, e trabalhou, entre outros, com Kate Bush, Mark Knopfler, John Cage e a companhia de bailado de Merce Cunningham. Nos Encontros, o gaiteiro virá acompanhado por outro notável, Dónal Lunny (além dos Planxty, integrou também os Bothy Band e é o produtor musical do disco e da série que a RTP recentemente transmitiu, “Bringing it all back home”), por Noel Martin, no violoncelo, e Nollaig Casey (ex-Oisin, colaboração em “Lead the Knave”, com Arty McGlynn), no violino.

            Ad Vielle Que Pourra, Muxicas e La Musgaña são três grupos que, à partida, aliam a espetacularidade da apresentação ao rigor e ao tecnicismo dos executantes, juntamente com propostas coerentes de reformulação estilística das respetivas heranças tradicionais.

            Os Ad Vielle, formados no Canadá, são conhecidos entre nós através dos seus dois álbuns “New French Folk Music” e “Come What May”, registos fundamentais para a compreensão do “celtic revival” dos anos 90. Um som riquíssimo originado por sanfonas, gaitas-de-foles, bombardas, violinos e instrumentos de corda dedilhada, servido por executantes de técnica irrepreensível que transportam quem os ouve até regiões onde as lendas, o humor e a magia, mais do que fronteiras de um lugar geográfico, são um estado de espírito, um sonho vigilante, a idealização arquetípica do Futuro.

            De trás, de longe e do fundo, avançam as fanfarras de percussão, gaitas e sanfonas dos Muxicas, de Vigo, com a Galiza vibrante na alma e um som telúrico, ao mesmo tempo visceral e poético, que faz tremer os alicerces dos ministérios do Tempo. Com os Luar na Lubre, os Muxicas assumem hoje a condição de herdeiros legítimos dos Milladoiro, dos arquitetos do templo do Obradoiro e da visão solitária de Pablo Quintana. Integram a elite dos portadores mais nobres da flâmula celta que ondula na rota dos peregrinos da terra e das águas sacras do Atlântico. “Dasafinaturum”, álbum número quatro da sua discografia, disponível nalgumas lojas do país, já o revelava. Confirma-o o disco novo, “Escoitando Medra-la Herba”, que estará à venda nas bancas durante o festival.

           

Trovadores do Sul

 

            Presentes anteriormente em Portugal por duas vezes estiveram os La Musgaña, com o disco “El Paso de la Estantigua” no bornal. Têm já outro posterior, Lubican”, e o fogo que nunca os abandona. Tocam uma música picaresca – do centro de Espanha, mas também das Astúrias e da Andaluzia – de júbilo pagão, em que os anjos dão as mãos a diabretes. Vermelhos como o sangue e a terra da meseta. Soam diferentes, as gaitas-de-foles de Castela. E os “albogues” e “rabels”…

            Jean-Marie Carlotti, devem alguns recordá-lo dos Mont-Jóia, autores, nos anos 70, de um magnífico “Cant e Musica de Provenca, XIIème-XXème”, gravado para a Le Chant du Monde. Agora Carlotti viaja com a sua guitarra e a sua gaita-de-foles de cana pelos palcos da Europa, recuperando a tradição dos trovadores provençais, dos seus irmãos primeiros – Vidal, Ventadorn, Peirol –, contando histórias e destruindo a carapuça de racionalismo deste final de século. Em Oeiras, será acompanhado pelo trompetista Michel Marre, no reportório trovadoresco. Nos restantes espetáculos, far-se-á acompanhar de um quarteto. Novas tradições nascem na ancestral Occitânia.

            Menos conhecidos são Elena Ledda & Suonofficina e os Vasmalom. Elena interpreta o folclore da Sardenha e os calores do Sul (sendo considerada uma das maiores intérpretes da música do Mediterrâneo, ao lado de Maria del Mar Bonet, Rosa Zaragoza e Aurora Moreno) com voz sinuosa, de cristal, numa música que ora se aproxima das polifonias corsas ora se deixa deslumbrar por improvisações a que os arranjos, em disco (no mais recente, “Sonos”, por exemplo), conferem a transparência característica de algumas produções “new age”. No passado Elena trabalhou com Andreas Wollenweider, se bem que hoje a sua voz se tenha libertado de todo e qualquer artificialismo.

            Os Vasmalom, da Hungria, pertencem à mesma geração dos emblemáticos Kolinda e, como estes, levam os sons tradicionais dos Balcãs até paragens inusitadas. “World Music” (a banda esteve presente em vários festivais da WOMAD) da terra dos vampiros para dançar ao som das sanfonas, gaitas, flautas, darbukas e “tapans”, entre os encantamentos lançados pela voz de Eva Molnár, uma séria rival de Márta Sebestyén.

            Um grupo das Ilhas Baleares, os Musica Nostra, de que não temos elementos, e os portugueses Amélia Muge – “a voz” – e Raízes, de quem pouco se tem ouvido falar desde a edição do álbum “Caminho d’Água”, completam a (extensa) programação destes Terceiros Encontros, a prometerem um êxito sem precedentes.

Pãozinho sem sal [Loreena McKennitt]

 

PÚBLICO DOMINGO, 5 JULHO 1992 >> Cultura

 

Loreena McKennitt em Lisboa

 

Pãozinho sem sal

 

Sem sal mas com muito açúcar. É assim a música de Loreena McKennitt, a loira canadiana da harpa que em Lisboa deu “noções básicas de mitologia celta” às gentes a quem faz alguma confusão essa coisa da “música tradicional” Foi bonito. Foi pedagógico. Foi insonso.

 


Dividiu-se em duas partes a atuação de Loreena McKennitt com a sua banda, na sexta-feira à noite, no teatro S. Luiz, em Lisboa, perante uma audiência curiosa em conhecer os segredos de um povo lendário e misterioso que ainda por cima deixou marcas na matriz anímica dos lusitanos. A essa ânsia de saber desinteressada e despida de preconceitos (bastante despida até, em certos casos limite, na turma feminina) respondeu Loreena com a sapiência de quem começou a ler os primeiros livros e a profundidade de um postal ilustrado.

A primeira parte incidiu em temas do mais recente álbum “The Visit”, que Loreena associa à “vinda da inspiração”, enfim, a um afrontamento místico. De resto, toda ela é mística da cabeça aos pés. Uma farta cabeleira loura flamejante que na noite do concerto contrastava com um longo vestido negro dá-lhe o ar de uma princesa medieval, acentuado pela candura da pose e a suavidade das inflexões vocais. Loreena é Lady de Shalott e Guinevere, entre as brumas de Avalon. Loreena canta com uma voz sem mácula nem réstia de pecado e tece na harpa lindas e asséticas melodias que decerto embalariam o coração de todas as donas de casa onde se alberga uma alma de celta e o desejo inconfessado de viver as grandes sagas, depois da lida da casa. Loreena é a fada do lar.

“Lady of Shalott”, “All souls”, “Greensleeves”, “Bonnie Portmore” e “Between the shadows” foram alguns temas de “The Visit”, com que, na harpa ou ao piano, Loreena embeveceu os presentes que, desde as primeiras notas, ascenderam aos prazeres inefáveis do paraíso. Em todos os rostos um sorriso seráfico e a convicção que, afinal de contas, o mundo é belo. É isto a “new age”. Aqui reside a salvação. O apocalipse termina no cuidado de uma “toilette”.

 

Celtas somos todos

 

Nos intervalos das canções, Loreena McKennitt falou da impressão que lhe causa Portugal, sempre que aqui vem de visita (e vem muitas vezes, e confessou que não se importaria de viver neste cantinho seis meses por ano – ah, rapariga que não sabes o que dizes!), de Yeats e de carvalhos, entre outros temas de interesse histórico. E ensinou que os celtas não se encontravam só na Irlanda e na Escócia, não senhor, que os havia por todo o lado, na Índia, nos Balcãs, quiçá na CIA e no KGB. Exemplificou a teoria (que até é verdadeira, vem nos compêndios) auxiliada por músicos competentes: Hugh Marsh, um violinista que sabe disfarçar as debilidades técnicas com a eletricidade, Richard Lazar, percussionista com a subtileza dos bombos de Lavacolhos (sem desprimor para os de Lavacolhos), mas muito “world”, Brian Hughes guitarrista engraçado (muito engraçado mesmo, enfiado numas calças largueironas e enfunadas que lhe davam um ligeiro toque de palhaço) que trazia uma “sitar” indiana onde não chegou a tocar, Anne Bourne, uma loirinha (diferente de “louraça”) às voltas com o violoncelo, acordeão, teclados e “tampura” que não destoou e um contrabaixista discreto mas bastante eficaz no suporte rítmico da banda.

Depois, na segunda parte, Loreena enveredou a fundo – e nela mesmo no fundo há sempre pé – pelas músicas celtas, arruinando de passagem um tema bretão dos An Triskell e acabando numa estilização vocal coletiva de um cântico dos índios americanos dos Apalaches. Regressou solitária ao palco, trazendo consigo apenas a harpa, para um “encore” no qual interpretou, a pedido da assistência, o que não estava no programa, uma versão semi-improvisada de “Tango to Evora” – único momento mágico de um concerto pautado pelo tédio e por uma sequência ininterrupta de lugares-comuns. Loreena atua hoje em Dublin, na Irlanda, com as suas lições de “ser celta sem perder peso, no fim leva uma lembrança”. Lá, devem linchá-la.

 

Visita de cortesia [Loreena McKennitt]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 1 JULHO 1992 >> Pop Rock

 

VISITA DE CORTESIA

 

Loreena McKennitt nasceu no Canadá, esteve doente, comprou uma harpa e anda a estudar “o que é ser celta”. Vem a Portugal cantar com voz de anjo e tocar harpa e teclados com mãos de fada.

 


Ela é muito celta e esbelta, à maneira de Enya, Maire Brennan, Mae McKenna e outras descendentes das fadas que esvoaçavam à volta da lenda e que hoje gravam discos bons para a sobremesa. Loreena é a melhor delas todas. Tem o cabelo mais comprido e louro, escolhe melhores fotografias para as capas e a voz é de longe a menos suscetível de provocar tosses irritativas. Uma vez adoeceu e decidiu que havia de tocar harpa (costumava ouvir Stivell e ficava muito impressionada). Mal teve alta do hospital, correu a comprar uma que os amigos tinham visto na loja da esquina. A seguir, foi à exposição de Veneza tirar apontamentos e quando voltou já era celta.

A Portugal, Loreena vem acompanhada por uma banda de “celtic rock new age world fusion”, composta por Brian Hughes (balalaica e guitarra), Susan Blossom Bourne (violoncelo), Richard Lazar (bateria e percussão), Hugh Marsh (violino) e um baixista ainda por escolher.

A “celtic rock new age world fusion” é um estilo musical complexo, difícil de explicar por palavras a quem não está familiarizado com a interconexão cósmica existente entre os sons e os astros, a Finlândia e a Nova Guiné, uma gaita-de-foles e uma “cabasa”, um chinelo e uma torneira que pinga. Desta música a que os povos de todo o mundo aderem com facilidade, incluindo os portugueses e os esquimós, sabe-se que deve ser doce, ter eletrónica, alguns instrumentos étnicos e uma voz sedativa. E que o próximo álbum seja gravado na Real World. Uma referência na Folk Roots é sempre de bom tom.

 

Catálogo celta

 

Até neste particular Loreena McKennitt é diferente. Ela grava na sua editora própria, a Quinlan Road Productions, e se o seu último álbum, “The Visit”, leva o selo Warner tal não implica qualquer espécie de cedência ao grande capital, mas apenas uma melhoria nas condições de distribuição do produto, quer dizer, da música.

Nos primeiros álbuns, “Elemental”, “To Drive the Cold Winter Away” e “Parallel Dreams”, Loreena explora o catálogo celta e temas bizarros como “canções de Natal e Inverno” (gravadas num mosteiro irlandês) e “tradicionais”. “The Visit” é mais ambicioso, um trabalho que se debruça sobre o “impulso criativo”, que a autora define como uma “visita” que “chega de vez em quando, às vezes quando menos se espera”.

As coisas boas são sempre assim, só chegam de vez em quando e normalmente quando se está distraído. Loreena McKennitt aprofunda um pouco mais o conceito: “Para muita gente a vida em si é uma visita.” Mas outras considerações da autora há que se revelam mais obscuras e de difícil compreensão. O que quererá ela dizer, quando se refere às “ideias, rituais e crenças dos celtas, construídos em volta do nascimento e da morte [até aqui é fácil: ideias é a gente a pensar, rituais e crenças são essas coisas de ir à igreja e tal, nascimento é nascer, morte é morrer] que tratavam a terra, tanto da sagrada como a assombrada”? Fantasmas? Coisas de artistas...

A mitologia das lendas arturianas está sempre presente em “The Visit”. “Quem é quem vem lá?”, perguntavam os cavaleiros da Távola Redonda ao rei Artur. “É uma visita”, poderia responder o rei, “que vem para beber um Porto no cálice sagrado.”

“All souls” é uma canção que trata dos celtas, por assim dizer, de forma direta, sobre o tema das fogueiras rituais que ajudam ao trespasse das almas (e para as quais Loreena encontrou correspondência numa cerimónia japonesa com idênticos fins). Aliás, uma das preocupações de Loreena McKennitt é descobrir o elo de ligação entre o Oriente e o Ocidente, procurando a sua origem comum. Daí que a música junte frequentemente as sonoridades ditas celtas (das gaitas-de-foles ou das harpas) com as típicas “drones” indianas ou outras sugestões segredadas do Leste.

 

O Graal em Portugal

 

Depois é todo um jardim de delícias e de amor cortês, presentes na mensagem ecológica de “Bonnie Portmore”, apelando à preservação das florestas de carvalhos, de modo que os druidas possam continuar a colher o visco necessário às suas poções mágicas, na viagem em tapete voador de “Between the shadows”, no clássico “Greensleeves” ou nas alusões a Portugal de “Tango to Evora” e “Courtyard Lullaby” sugeridas pela estadia da autora no nosso país, numa quinta de Azeitão onde, de resto, foram tiradas as (belíssimas) fotografias da capa. O que talvez Loreena McKennitt não saiba é que há quem afirme que o “Graal” se encontra em Portugal. (“Portograal” – porto do Graal), mais precisamente numa serra nos arredores de Lisboa. Serra onde de resto arribavam os verdadeiros peregrinos, que, rumando de Compostela para sul, em direção ao monte onde o Sol se casa com a Lua, consumavam a derradeira iniciação.

 

Michael Brook - Cobalt Blue

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 1 JULHO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

MICHAEL BROOK
Cobalt Blue
CD 4AD, distri. MVM



 







Aluno da escola “Eno”, ao lado de nomes como Jon Hassell e Harold Budd, Michael Brook difere destes no descomprometimento que mantém em relação a “estilos” ou orientações estéticas particulares: a ligação ao “étnico” no caso de Hassell, a referência ao minimalismo expressionista de Erik Satie, no caso de Budd. Inserido de forma natural na imensa catedral das “músicas de fusão”, Michael Brook recolhe elementos de um e de outro, deles diferindo na maneira como privilegia a diversidade em detrimento da unidade. Na prática, “Cobalt Blue” prolonga por áreas mais diretamente conotáveis à “world music”, expressas de resto de forma direta em títulos como “Andean”, “Lakbossa” ou “Hawaii”, o universo eletrónico do anterior “Hybrid”. A “infinite guitar” de Brook paira sobre as percussões que ora insistem na hipnose de uma “raga” indiana ora levitam nas cintilações de um vibrafone. Música ambiental de mundos imaginários, “Cobalt Blue” conta com a colaboração dos irmãos Eno e de Daniel Lanois, companheiros do guitarrista nesta incursão sem fim pelas esferas do onírico. (8)

05/10/2026

"Folk" fora de horas [Festival de Música Popular]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 29 JUNHO 1992 >> Cultura

 

Festival de Música Popular, na Amadora

 

“Folk” fora de horas

 

No sábado, na Amadora, a música durou até às tantas. Só que quando os sons se estendem pela noite fora devido não aos calores da festa mas a atrasos de programação, não há paciência nem escoceses que resistam.

 

Aconteceu assim na sala D. João V, no V Festival de Música Popular realizado na Amadora, como já acontecera com Mari Boine Persen, na semana passada, em Belém. O adepto da música tradicional tem de esperar até depois da meia-noite. E é se quiser...

Quase 45 minutos depois da hora prevista teve início a função, com os Quinta do Bill que ainda por cima deram mostras de não querer abandonar o palco. Ou seja, o Bill fez da sala a sua quinta e quase foi preciso alguém ir lá atrás desligar o quadro para dar aos seguintes a oportunidade de tocarem uma musicazita. Os Quinta do Bill, para além do amor possessivo ao palco, mostraram um vocalista entusiasta e razoável tocador de flauta de bisel que tentou por todos os meios pôr o público a cantar, bons instrumentistas e uma pop cruzada de instrumentais de inspiração folk. Tivessem tocado menos tempo e toda a gente teria ficado satisfeita. Assim, só faltou serem empurrados...

Seguiu-se o grupo de emigrantes timorenses em Portugal, Kdadalak, em trajes tradicionais, que leram textos de luta e solidariedade aos seus irmãos “maubere”. Toda a gente apoiou, claro, é fácil apoiar, e apetece citar António Victorino de Almeida: “Mais importante para vocês não é que nós estejamos convosco – mas sim que os indonésios não estejam. Para já, porém, a nossa solidariedade, lamentavelmente teórica”. A música, insípida, acabou por ser um pormenor de somenos importância.

O tempo escasseava entretanto e a organização receava a debandada geral antes da atuação do grupo principal, os escoceses Ceolbeg. A partir desta altura optou-se pelo sistema em “roulement”: Amélia Muge interpretou a primeira canção, sobre Timor, com os Kdadalak ainda em palco. Recordou José Afonso, emocionou-se e cantou como só ela sabe, canções do álbum estreia “Múgica”. Na última, “Quem à janela”, juntou-se-lhe José Mário Branco e os dois, debruçados sobre o passado e o futuro, proporcionaram um dos poucos momentos verdadeiramente tocantes da noite. José Mário Branco prosseguiu a solo, com “Correspondências” em forma de canção e convidados de nomeada: Paulo Curado, na flauta, José Peixoto, na guitarra e Yuri Daniel no baixo, sob o olhar atento do “maestro” e teclista António José Martins. Antes foram as cerimónias da praxe e a entrega ao cantor do prémio José Afonso, pelo álbum “Correspondências”.

Quando finalmente os Ceolbeg começaram a tocar passavam vinte minutos da uma da manhã e metade da sala já desistira de se entregar aos possíveis entusiasmos folk suscitados pela música dos escoceses. A maior surpresa na apresentação desta banda aconteceu com a presença da harpista Patsy Seddon (do duo Sileas, com Mary McMaster, presente nos Encontros da Tradição Europeia do ano passado) que à última e em boa hora substituiu a prevista Katie Harrigan na formação dos Ceolbeg: de provocante mini-saia negra que lhe moldava o corpo já com alguma tendência para alargar dos lados, Patsy revelou-se a melhor intérprete em palco, mesmo se o som apenas nos temas mais calmos – como “Lord Galloways lamentation” (composto pelo lendário harpista cego Turlough O’Carolan) – permitisse ouvir com nitidez as subtilezas de cristal do instrumento. Quase à altura de Patsy estiveram o gaiteiro Gary West e o novo percussionista Jim Walker. O primeiro, poderoso de fôlego e ágil no ponteiro, magnífico na suite instrumental “The Coupit Yowe set” ou no “encore” final, em que as “Highland pipes” positivamente dispararam, arrancando para os prazeres da dança alguns jovens desejosos de dar ao pé; o segundo, subtil e imaginativo na bateria e percussões. Os Ceolbeg cumpriram sem deslumbrar. A muitos terão feito apetecer ouvir o seu muito bom disco “Seeds to the Wind”.

Às 2h30 estava tudo consumado. Qualquer dia o melhor é levantarmo-nos cedo, aí por volta das seis da manhã, de maneira a podermos assistir, fresquinhos ao final dos espetáculos da noite anterior. Já faltou mais.