04/05/2026

Trovas da saudade [Trovante]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock

 

TROVAS DA SAUDADE

 

“Saudades do Futuro”, assim se intitula, saudosista e tradicional, o novo álbum dos Trovante, coletânea de canções que encerra um ciclo de vida, na já longa carreira do grupo. O disco, lançado no mercado nos formatos de duplo-álbum e CD (este incluindo mais 12 canções que o vinil), festeja o 15º aniversário da banda, ao mesmo tempo que antecipa o fecho da “tournée” nacional, em concertos a realizar nos Coliseus de Lisboa, a 24, 25 e 26 deste mês, e do Porto, a 30 e 31. O PÚBLICO juntou-se aos festejos e falou com Manuel Faria e João Gil.

 

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PÚBLICO – Até que ponto esta coletânea assinala o fim de um ciclo e o início de outro, na vida dos Trovante?

MANUEL FARIA – Encerrámos um ciclo, quando entrámos para a EMI-Valentim de Carvalho. Outro, quando gravámos o álbum “84”. Então, como agora, sentimos que era preciso mudar, que tínhamos um pouco esgotado um determinado formulário estilístico.

P. – Isso implica uma mudança radical no estilo da banda?

JOÃO GIL – Em relação ao futuro, está tudo por acontecer. O trabalho de composição, apesar de coletivo, funciona ao mesmo tempo como um trabalho solitário, em termos de direção musical. O caminho que poderá vir a ser trilhado no futuro tem que ver com a capacidade individual de cada músico. Nos Trovante há duas ou três pessoas com essa capacidade.

P. – O disco festeja 15 anos de carreira. Referem-se já aos outros 15 que estão para vir. Qual o segredo dessa longevidade?

JG – Nunca fazemos planos a médio ou a longo prazo. Como diz a canção “Saudades do Futuro”, viramos sempre a nossa cabeça para o futuro, não para o passado. Manter, hoje em dia, um grupo com a estrutura, já de certo modo complicada e pesada, dos Trovante tem que se lhe diga. A nossa coesão passa por uma sensibilidade e por uma educação musical comuns. Crescemos juntos. Há poucos segredos entre nós. Sabemos até onde cada um pode ir.

P. – No início, os Trovante eram um grupo conotado com a esquerda, mesmo partidária. Hoje, assiste-se a uma recuperação, da vossa parte, de um imaginário e de um discurso nitidamente conservadores...

MF – Isso implica uma discussão muito profunda. O pensamento político em Portugal tem um defeito enorme. Permite-se que a bandeira do 25 de abril seja um exclusivo da esquerda e que a bandeira dos Descobrimentos e do mar seja um exclusivo da direita. São ambas coisas que marcaram a vida deste país e de que as pessoas se deviam orgulhar. Pessoalmente não me acho mais próximo da direita. O povo português sempre foi muito marítimo, muito contemplativo...

P. – A afirmação desses valores, ligados à tradição, está hoje na moda...

MF – Mas essa moda, esse tipo de sentimento tem uma razão de ser. De certeza que há nele razões que se prendem com o progressivo bem-estar de uma determinada classe, se calhar aquela a que pertenço. Penso que o nosso afastamento da estrutura partidária de esquerda não tem nada a ver com a nossa dita opção de esquerda, se é que ainda hoje é possível falar-se nesses termos. Há alturas em que se torna difícil distinguir qual é o lado conservador...

P. – Por falar em tradição, a música tradicional teve uma grande importância na fase inicial da vossa carreira. Não tencionam recuperar, de futuro, essa via?

JG – Acho que a aproximação às raízes tradicionais é evidente em toda a música dos Trovante. O lado interior da música tradicional, a sua essência, sempre nos interessou. Há uma nítida influência da postura que o Zeca Afonso, o Adriano, o Sérgio ou o Fausto, em tempos mais antigos, tomaram em relação às raízes tradicionais. Agora, o que nós abandonámos há muito, e convictamente, foi a forma da música tradicional, o folclorismo. Vivemos na cidade. Interessa-nos procurar novos sons.

MF – É mais importante transportar o sentimento do que fazer uma coisa estilo seleções “Reader’s Digest”, do que utilizar este instrumento ou aquele. Fica-se com ar de estudante da universidade, a imitar um rancho folclórico. Hoje em dia, é fácil ser-se exótico. O que está a dar é o “popular”. Engana-se meio mundo, com esse pretenso “fazer popular”...

P. – Por que razão escolheram “Saudades do Futuro” como título do novo disco?

JG – Para mim, “Saudades do Futuro” significa o relacionamento com a utopia, muito mais do que uma coisa saudosista. Ter saudades de um sonho que se acredita ser possível concretizar. Pode ser uma utopia musical. Ou uma utopia política. “Saudades do Futuro” é a nostalgia do que ainda está para acontecer. Podemos citar a propósito a filosofia chinesa, o Teixeira de Pascoaes, o José Gomes Ferreira. O título refere-se à eternidade, ao ser em vez do ter.

P. – Foram escolhidos para representar Portugal na Europália, a par dos Sétima Legião e dos Madredeus, justamente dois grupos conotados com a tal tradição conservadora...

JG – Acho que a fórmula Trovante, Sétima Legião, Madredeus, resulta excecionalmente bem ao vivo. Mas neste tipo de exposições, seria desejável que houvesse uma melhor divulgação, mais ambição e agressividade. É preciso ter em conta que fazer uma Europália é trabalhar para fora e não para a colónia de imigrantes. Não somos um laxante para revigorar a saudade dos portugueses. Temos que nos voltar também para o resto do mundo.

P. – Afinal, ainda e sempre, a velha incapacidade dos grupos portugueses penetrarem no mercado internacional. Será possível alterar essa situação?

MF – Não acredita no esforço que foi feito, para penetrar, por exemplo, no mercado francês. Foram vendidos 500 discos, por nós próprios no átrio do “Théâtre de La Ville”, durante os cinco dias em que aí atuámos. Decidimos levar os discos à Pathé Marconi. Não ligaram nenhuma.

P. – Regresemos a Portugal. Como vai ser o concerto do Coliseu?

MF – Até agora, costumávamos começar as “tournées” em Lisboa e no Porto, antes de partir para o resto do país. Este ano, decidimos fazer o contrário – concluir a digressão nessas cidades, o que tem uma grande vantagem: o espetáculo está super-ensaiado, permitindo-nos partir para os Coliseus com uma segurança maior. O repertório vai incidir sobretudo no “Um Destes Dias”, mas, mais do que uma panóplia de várias canções, interessa-nos o ritmo do próprio espetáculo como um todo.

P. – Que conselho dariam, na qualidade de “irmãos mais velhos”, às gerações de músicos mais novos?

JG – Acho que o grande recado possível de dar à malta mais jovem que está a começar, passa por encontrar na língua portuguesa, na divisão das palavras, o ritmo certo e a maneira mais correta de as dizer. A música portuguesa está carenciada de gente que compreenda o português na sua essência. A genialidade do Zeca Afonso consistia nisso, a maneira como cantava o português era fabulosa. Como o Alfredo Marceneiro, também. Não nos devemos iludir com o cavaquinho ou a chula. Devemos, isso sim, procurar mais fundo...

MF – ...Encontrar aquilo que nos identifica perante o mundo e nos permite ultrapassar as suas fronteiras.

 

Johnny Winter - Let Me In

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

JOHNNY WINTER
Let Me In
LP/MC/CD, Virgin, distri. Edisom

 

    Dir-se-ia que nunca cortou o cabelo. Não faz mal enquanto, por detrás da imagem do avozinho “freak” com o corpo tatuado, Johnny Winter permanecer fiel à beleza rude dos “blues” e souber responder às tareias do destino com o grito de uma guitarra. Moldado na forma que determina os verdadeiros duros, segundo a máxima do “antes quebrar que torcer”, o albino de coração negro continua a ensinar aos mariquinhas como é. “Life is hard”, diz ele – e é verdade. A guitarra certeira, com o saber e a acutilância acumulados por anos de experiência, dispara à queima-roupa, sem segundas intenções nem terceiros sentidos. São “blues” a valer, em baladas como “Hey you” ou com a crueza pantanosa do Bayou, na ferida final de “Let me in”. “If you got a good woman” mostra até que ponto o velho feiticeiro sabe pôr uma guitarra a chorar. O rock ‘n’ roll de “Sugarre” (com Dr. John ao piano) serve para aliviar a tensão. O homem está há tanto tempo lá fora. Devagar e com cuidado, deixem-no entrar. (6)

 

Ananana: sons estranhos numa terra estranha [Editora Ananana]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 9 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock

 

ANANANA: SONS ESTRANHOS NUMA TERRA ESTRANHA

 

A palavra, de ressonâncias esotéricas, é pouco esclarecedora: Ananana – designação de uma importadora de discos formada por Fred e Paulo Somsen, dois irmãos apreciadores das músicas mais esquisitas do universo, apostada em dar a conhecer, via postal, esses sons do outro mundo ao comum dos mortais. Nomes como Jorge Reyes, Erik Wøllo e Vasilisk são por ora conhecidos apenas por um número restrito de iniciados. Mas a situação tende a mudar. À disposição de quem se mostrar disposto a aventurar-se está um lote de novidades discográficas, tão estranhas quanto excitantes. O futuro da música alternativa passa por aqui.

 

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A ideia de formar a Ananana surgiu há cerca de um ano, na sequência de um programa de rádio realizado pelos irmãos Somsen, o DDD, na extinta Rádio Minuto. “Havia muita gente a telefonar para lá, a perguntar onde é que podia arranjar os discos que passávamos”, explica Fred Somsen. “Resolvemos experimentar e importar pequenas quantidades de discos, a ver o que é que dava. Começámos com álbuns de grupos mais radicais, como os Zoviet France. As pessoas responderam bem.”

“Radical” é de facto o adjetivo que melhor se aplica à maior parte dos discos importados pela Ananana. Os estilos abarcados são muitos, privilegiando a área das músicas eletrónicas, nas suas diversas vertentes: industrial, tecnoritual, eletroacústica, ambiental, minimal, new age, sound collage e outras de impossível catalogação.

De entre uma multiplicidade alucinante de nomes tão exóticos como Ordo Equitum Solis, Nouvelles Lectures Cosmopolites ou Sigillum S, é possível distinguir dois campos musicais extremados, de características opostas, ilustrativos de duas conceções estéticas, senão mesmo éticas, por natureza inconciliáveis, as quais, em termos muito genéricos e recorrendo a uma linguagem simbólica, poderíamos designar respetivamente por “música espiritual” e “música infernal”.

 

O ser humano cobaia

 

Nesta última categoria, do agrado de uma certa camada de jovens que, segundo Fred Somsen, “pretende fugir à música vulgar, ao rock e à pop”, incluem-se grande parte dos itens disponíveis na Ananana: Anti-Group, Autopsia (cujo título de um dos seus álbuns não deixa dúvidas quanto ao conteúdo: “Death Is The Mother of Beauty”), Coil, Cranioclast, Dreaming Together, Hafler Trio, Lustmord, Nocturnal Emissions, Organum, Sleep Chamber ou Zero Kama, entre outros.

Todos se servem dos ouvintes, e do ser humano em geral, como cobaias. Têm em comum o gosto pela manipulação – dos sons e das mentes. Recorrem para tal à ciência psicoacústica, aos rituais mágicos antigos (sobretudo negros) ou, na maior parte dos casos, à mera sugestão. Guardam do mundo uma visão negra, embora às vezes pretendam fazer crer o contrário. Apelam ao masoquismo e ao orgulho intelectual, sempre ávido de novas conceptualizações, venham elas de Deus ou do diabo. Neste caso, do diabo.

Se não, repare-se na linguagem e na iconografia: “Great Death” (dos BDN, um dos grupos editados por uma editora que dá pelo nome de “carne fria”), “Masturbatorium” (Hafler Trio, ultra-sons à mistura com pornografia), “Heresy” (Lustmord – experiência com gamas de frequência inaudíveis, gravadas em locais como criptas, grutas e outros lugares subterrâneos, onde a luz não abunda), “Aux Morts” (Memorandum, também para as “carnes frias”), “Invocation of the Beast Gods” (Nocturnal Emissions, bestiário samplado em torno do número da besta, “666”), “Music To Be Murdered By” (coletânea de várias bandas, cujo título não convém seguir à letra) ou o rebuscado “Hallucinated Moisture of Synaptic Slaughterhouse” (Sigillum S, peritos nas artes mágicas e nas canalhices de Aleister Crowley), são alguns exemplos, entre outros de conotações menos evidentes, da filosofia do “antes dar que apanhar”.

Fred Somsen reconhece ter também ele, “há seis ou sete anos atrás”, apreciado este tipo de músicas. Agora já não é tanto assim, mas mesmo aqui há que ter em conta os gostos de quem consome: “Grupos como os Coil ou Current 93 são hoje, de certa forma, populares entre nós. Nos catálogos da Ananana procuramos determinadas associações e alusões a estes nomes, de maneira a que os fãs dos grupos citados procurem conhecer e experimentar ouvir os nomes menos conhecidos. Acontece comprarem, por exemplo, um disco de uma determinada editora e, se gostarem, acabam por comprar também as outras referências dessa editora.”

 

Ala luminosa

 

Independentemente dos efeitos que o consumo de tais experiências possa provocar no ouvinte, importa em primeiro lugar dar a conhecer e, eventualmente, vender. “Somos apenas intermediários”, explica Fred Somsen, para quem esta questão não se coloca em termos éticos.

Mas há outras maneiras de ver e de sentir menos sombrias.

Erik Wøllo, Hans-Joachim Roedelius, Jorge Reyes, Lights in a Fat City, O Yuki Conjugate, Pascal Comelade, Robert Rich e Tim Story são alguns dos legítimos representantes da ala luminosa presente nas preocupações e no catálogo da Ananana. Longe das mezinhas e dos xaropes banha da cobra dos subprodutos new age, e recorrendo, em alguns casos, também eles às sonoridades rituais (Erik Wøllo, Lights In A Fat City, O Yuki Conjugate, Jorge Reyes), servem-se delas como ponto de partida para um trabalho de integração e não de dispersão. A diferença reside em ser-se apologista da harmonia (não se confunda o termo com estatismo, nem com conceções piegas, de todo ausentes nos casos apontados) ou, por oposição e danação, “construtor” do caos.

Dispersos entre o contingente satânico e a ala celestial, revolvem-se outros músicos e outros grupos, nas tintas para as preocupações morais ou para os furores separatistas, preocupados tão-só em criar mundos alternativos originais, sem descendência direta possível, nem hipótese de cópia credível.

Jakob Draminsky-Højmark, Jeff Greinke, Mecanica Popular, Nurse With Wound, Peter Frohmader, PGR, Stefan Tiedje, Vasilisk (cujo CD “Liberation & Ecstasy” é, até à data, o disco mais vendido pela Ananana), Zoviet France, inventam territórios, estilhaçam fronteiras, obrigam a escutar tudo de novo.

 

Rituais do “Quarto Mundo”

 

Impõe-se uma menção muito especial a dois dos nomes de maior impacto no leque de escolhas da Ananana: o mexicano Jorge Reyes e os britânicos O Yuki Conjugate. O primeiro dedica-se à tarefa fascinante de reinventar a tradição musical pré-hispânica, juntando, numa síntese magistral, a eletrónica mais sofisticada, o primitivismo de instrumentos rituais do México anterior às invasões espanholas, sons naturais e mesmo a amplificação de vibrações produzidas pelo corpo humano percutido.

Geniais e inovadores, álbuns como “Nierika”, “Musica Mexicana Pre-hispanica” ou o recente “Cronica de Castas” (este em colaboração com o guitarrista espanhol Suso Saiz, dos Orquestra de las Nubes) merecem pelo menos uma audição despreconceituada. Citem-se a propósito desta música estranha, e como meros vetores de orientação, as fusões tribalistas de Jon Hassell ou da dupla Roberto Musci – Giovanni Venosta.

Os O Yuki Conjugate inserem-se na mesma veia das músicas étnico-rituais do “quarto mundo”, embora enveredando por veredas bem mais obscuras. Depois de “Scenes from a Mirage” e “Into Dark Water”, a banda britânica prossegue, neste seu novo trabalho, de genérico “Peyote”, gravado no selo sueco Multimood, as incursões num mundo de sombras e geografias paralelas onde pulsam os elementos naturais e os computadores se insinuam – organismos estranhos numa terra estranha – para intensificar o mistério.

Outras bizarrias recentemente chegadas à Ananana incluem os álbuns “Greatest Hits 81-91”, coletânea de pop industrial dos Psyclones, um dos múltiplos projetos de Phil Ladd e Julie Frith, “Incandescent”, de Julien Ash (dos Nouvelles Lectures Cosmopolites), “Apropos Cluster” da lendária dupla germânica Moebius-Roedelius e “Vienna 1990”, assinada pelos mestres da colagem, Zoviet France. Tempo de partir à descoberta.


A esquerda no poder [Robert Wyatt, Billy Bragg]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 9 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock

 

A ESQUERDA NO PODER

 

Robert Wyatt e Billy Bragg assumem-se ambos de esquerda, anti-situacionistas e anti-imperialistas. A diferença principal entre os dois está em que, enquanto Billy Bragg não passa de um músico vulgar, para quem gravar discos se resume a um meio eficaz de fazer passar o discurso contestário, Robert Wyatt é um artista genial, preocupado com o universo em que vive, mas também com a criação de novas formas para a música. O primeiro põe-se em bicos de pés para se fazer ouvir. Ao segundo, basta abrir a boca e soltar a voz trémula, para que os corações caiam a seus pés. Billy Bragg é membro de todas as associações políticas, subscritor de todas as siglas e de todas as campanhas “contra”. Robert Wyatt dedica-se aos copos, à sua mulher polaca, pintora e ativista, à paixão pelo jazz e à gravação de obras-primas em disco. Nas barricadas da rua ou na quietude tensa de uma cadeira de rodas, a luta prossegue, impulsionada pelos sonhos de um mundo que julgam ser o melhor. “Dondestan” e “Don’t Try this at Home” aí estão para o provar.

 

ROBERT WYATT

a queda de um anjo

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É possível dividir a carreira de Robert Wyatt em dois períodos distintos: antes e depois da queda. O acidente, ocorrido em 1973, durante uma festa, quando, devido aos efeitos perniciosos do álcool, caiu para a rua da janela de um quarto andar, condenou-o para sempre à cadeira de rodas e à condição de paraplégico, e obrigou-o a um corte radical com o passado. Até à data fatídica, Wyatt era o baterista dos Soft Machine, banda que, ao lado dos Pink Floyd, constituía um dos pilares do movimento vanguardista ocorrido em Canterbury, na Inglaterra, nos finais da década de 70.

A formação original dos Soft Machine incluía, para além de Wyatt, Daevid Allen (mais tarde fundador dos Gong), Kevin Ayers (excêntrico, detentor de uma fase inicial de carreira imaculada) Mike Ratledge e Hugh Hopper. Com estes músicos, os Soft Machine gravaram um par de álbuns, em que procedem à fusão inusitada de uma pop tipicamente inglesa com desmultiplicações rítmicas características do jazz.

“Third”, o duplo álbum seguinte, representa o culminar de um estilo demasiado avançado para a época. Neste disco, Wyatt assina e canta a longa melopeia “The moon in June”, na qual estão já presentes os germes da sua música futura. Consumado o abandono dos Soft Machine, demasiado complexos e intelectuais para o seu gosto (ainda cumpriu as sessões de gravação correspondentes a um dos lados do álbum número quatro, enquanto trabalhava já no seu primeiro disco a solo, “The End of An Ear”), Wyatt reúne novos músicos e forma os Matching Mole (tradução fonética do francês “machine molle” – precisamente o mesmo que Soft Machine…). “Matching Mole” e “Little Red Record” são os dois testemunhos brilhantes deixados por esta formação, já com sinais evidentes da futura militância, aqui ainda limitados a uma paródia ao imaginário e iconografia maoístas.

Depois, o momento de viragem. A queda e um futuro obrigatoriamente diferente. Impossibilitado de tocar bateria, Wyatt afirma que o acidente acabou por lhe ser vantajoso: “A estadia no hospital deixou-me livre para sonhar.” O resultado deste corte abrupto com o passado, “Rock Bottom”, é, sem exagero, uma das obras musicais máximas deste século. Mergulho na loucura e no fundo do abismo. Vocalizações patéticas sobre uma eletrónica sombria e obsessiva. Exorcismo traumático da dor. Experiência do limite da solidão humana.

“Ruth Is Stranger than Richard”, o disco seguinte, funciona num registo mais “cool”, constituindo uma série de exercícios alógicos sobre sonoridades tão variadas como o jazz, a música afro-cubana ou o “muzak” ambiental. Fred Frith, Brian Eno e John Cale são alguns dos músicos presentes na sessão. Entre estes dois discos, um “hit” inesperado, com a versão do tema dos Monkees, “I’m a believer”.

Em 1980, cada vez mais preocupado com o agravamento da situação mundial e com os problemas do Terceiro Mundo, Robert Wyatt entra para o Partido Comunista. Em termos de produção musical, a opção salda-se pelo álbum “Nothing Can Stop Us”, paradoxalmente violento e delicado manifesto anticapitalista, onde temas como o tradicional cubano “Guantanamera”, “Strange fruit” de Billie Halliday, o hino estalinista “Stalin wasn’t stallin’” ou a Internacional adquirem uma intensidade a um tempo perversa e demolidora.

A seguir, um mini-álbum com a banda sonora de “The Animals”, documentário que denuncia as atrocidades cometidas sobre os animais, em nome da investigação científica, de mais um single nos tops (“Shipbuilding”, composto especialmente para si por Elvis Costello, a propósito das vítimas da guerra das Malvinas) e um EP, “Amber and the Amberines”, contendo versões de “Biko”, “Yolanda” e “Te recuerdo”, respetivamente de Peter Gabriel, Pablo Milanés e Victor Jara. Depois, Robert Wyatt regressa aos álbuns, com “Old Rottenhat”, preocupado com problemas como a ocupação de Timor-Leste ou a prepotência dos “united states of amnesia”, tornados senhores do mundo.

Para trás, ficavam colaborações com Michael Mantler, Ben Watt e os Working Week, ou a aliança com o ativista dos Specials/Special Aka, Jerry Dammers, e cantores da SWAPO, traduzida noutro single, “Winds of Change” (1985), em que se condena a ocupação da Namíbia pelo exército sul-africano, e uma canção, “The last nightingale”, destinada à angariação de fundos a favor da greve dos mineiros ingleses.

Wyatt acredita realmente que a música pode contribuir para as mudanças do mundo. Pensa, por exemplo, que o concerto de homenagem a Nelson Mandela contribuiu de alguma maneira para a sua libertação, “embora não fizesse desaparecer o ‘apartheid’”. Segue-se o exílio voluntário para o sol da Catalunha, na companhia de Alfie (diminutivo de Alfreda Benge, a quem dedica o tema final de “Old Rottenhat” – “Poor little Alfie”), o reatar de relações com o jazz, à sua maneira – “sou um turista do jazz, não um participante ativo” – e, finalmente, o regresso a Inglaterra e a assunção das origens pop, no novel e notável “Dondestan” (onde estão?” – pergunta, a propósito dos refugiados palestinianos e do Kurdistão). Sempre ao lado desses e doutros refugiados, do mundo e da vida, Robert Wyatt continua a lutar, em combustão lenta. Contra as prepotências do destino e a estagnação do espírito. Nos seus discos a dor é redimida, consubstanciada em liberdade. É o seu testemunho e a sua vingança.

 

BILLY BRAGG

cantor a martelo

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Billy Bragg canta mal, toda a gente que o ouviu o sabe. Mas não é isso que interessa: “Não sou um cantor, nunca serei um Pavarotti, nem sequer um Rick Astley” – reconhece, para logo adiantar: “O mais importante é o conteúdo”. Billy Bragg é militante empenhado do RAR (Rock Against Fascism). Cerra fileiras ao lado da CND (Campaign for Nuclear Disarmament). Faz horas extraordinárias na YTS (Youth Training Scheme). Almoça todos os dias na cantina do YTUR (Youth Trade Union Rights Campaign). Além disso, tem assinatura na GLC (Gas Light Chanticleer) e costuma frequentar o clube privado da SEX (Sociological Entertainment Xenogamy). É aquilo a que se costuma chamar um “camarada”.

De facto, para Billy Bragg, o mundo é uma m***a, resumindo-se a questão essencial à proverbial luta de classes e à exploração dos fracos pelos fortes. Billy, fanático do futebol, não admite contudo a existência de uma linha média. Suporta-a só enquanto esta lhe for comprando discos. A subida ao poder de Margaret Thatcher foi, para si, providencial. É preciso ter um inimigo contra quem lutar, que sirva de estímulo – “É impossível escrever uma boa canção política se não houver o ambiente apropriado.” Com a “dama de ferro” no poleiro, foi-lhe mais fácil fazer álbuns como “Life’s a Riot with Spy vs. Spy” ou “Brewing up” ou “Talking with the Taxman about Poetry”.

Embora não o encare como um poço de virtudes, aderiu ao Labour Party – “Tem no seu seio tantos reacionários que se fica a pensar se não se terão enganado na escolha do partido.” Mas, como em tudo, é preciso escolher, escolheu o que lhe pareceu melhor. “Madonna usa os ‘soutiens’ pontiagudos, eu uso o Partido Trabalhista. A diferença é que o partido é mais sexy.” O sexo é, de resto uma das suas principais preocupações. No álbum acabado de sair, “Don’t Try This at Home”, um dos temas intitula-se, sem ambiguidades, “Sexuality”. Diz assim: “Safe sex doesn’t mean no sex, it just means use your imagination” – para, de seguida, agitar a bandeira do Maio de 68 e do amor livre: “Sexuality – strong and warm and wild and free, sexuality – we can be what we want to be.” Não está mal visto.

O que faz correr Billy Bragg, fundador da Red Wedge, uma agremiação de músicos pop de que fazem parte músicos como Gary Kemp, dos Spandau Ballet – presença um pouco suspeita, a deste neo-romântico da treta; mas, como Billy faz questão de frisar, “quer queiramos quer não, temos que trazer as classes médias do mundo connosco” – e Paul Weller (The Jam, Style Council) destinada a apoiar o partido nas eleições? Quer dizer, para além de, como ele próprio diz, “ter relações com raparigas de muitas nações”, vibrar com o futebol e, como todo o bom inglês, beber litros e litros de chá?

“Quando da greve dos mineiros, não fui muito bem recebido” – resmunga, sentido. “Perguntaram-me o que é que estava a fazer ali, de guitarra em punho. Respondi-lhes que era eu quem atraía os jovens de 18 anos e lhes chamava a atenção para ouvir aquilo que eles, mineiros, tinham a dizer. Fiz-lhes ver que é esta a minha profissão.” Billy Bragg, porta-voz das minorias, devia ser eleito. Já.


Billy Bragg - Don't Try This At Home

Robert Wyatt - Dondestan

Amália, doutora do fado [Amália Rodrigues]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 7 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

Coimbra homenageia Lisboa, no Casino Estoril

 

Amália, doutora do fado

 

Coimbra homenageou Amália, nomeando-a doutora “honoris fadus”. A serenata de homenagem deu para tudo: espetada de lagosta, Mozart, “topless” e fado. O fado é que induca, a lagosta é que instrói, lá diz o povo. Amália soube, como sempre, ser rainha, na noite em que trocou o xaile pela capa estudantil.

 

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Noite de gala, anteontem à noite, no Casino Estoril. Noite do “doutoramento” de Amália Rodrigues, distinção que lhe foi concedida pelos estudantes de Coimbra, mais concretamente pela Associação Académica desta cidade. O fado de Coimbra prestava assim tributo ao seu congénere lisboeta, na voz e na pessoa da sua pitonisa. A festa incluía jantar, meninas em “topless” a dar vivas a Mozart, e fado, como não podia deixar de ser.

Animaram-se os espíritos, logo à entrada do auditório do casino, ao depararem com um grupo de gentis meninas de Coimbra que, de saia negra e curta, distribuía simpatia e os convidados pelos respetivos lugares. Coimbra dos amores, diz a canção. Caso para dizer: amores platónicos, os quais, como tónicos que são, servem para abrir o apetite.

Satisfeitos os olhos, foi com uma enorme dose de curiosidade que nos preparámos para enfrentar o segundo ponto do programa: “jantar” (o primeiro tinha sido uma “bebida de boas vindas”). O dito consistiu num prato de lagosta mais outro de carne de vaca. Durante a refrega com os comestíveis, um agrupamento de música de câmara, primeiro, e a orquestra privativa do casino, depois, fizeram-se ouvir suficientemente alto para disfarçar o ruído da mastigação. Faça-se-lhes justiça: tinham menos nervo que a carne. O contraponto líquido cumpriu o que geralmente se lhe pede nestas ocasiões: alegrar os espíritos e avermelhar as bochechas. A propósito, o Presidente da República era suposto estar presente. Se estava, não deu de si. Pelo contrário, foi notada a presença de outro presidente, da Federação Portuguesa de Futebol, o dr. João Rodrigues, aparentemente sem problemas de regressar a Lisboa a tempo de votar.

Seguiu-se o show “Viva Mozart”. Muita luz, excelente coreografia, o assassínio sistemático e bem-humorado da música daquele compositor e, sobretudo, muitas maminhas ao léu, ao nível das melhores exposições artístico-anatómicas que o “Moulin Rouge” ou as “Folies Bergères” têm para oferecer. A maminha nacional é, de resto, como o resto do país – abana, mas não cai. Destaque para dois quadros realmente fora-de-série: um em que um corpo de mulher se metamorfoseia em diversos instrumentos musicais, manuseados pelo seu parceiro masculino. Outro, composto por um ser monstruoso que se contorce sobre o palco, assumindo formas grotescas entre o fálico, o intestinal e o cano de esgoto.

 

“Quem me dera estar contente”

 

Terminada a paródia passou-se ao lado sério do espetáculo, justificativo da designação “Serenata a Amália”. Altura para se cantar o fado de Coimbra. Feito silêncio, gemeram as guitarras e as violas, a acompanhar as vozes de Almeida Santos, Luís Góis, Camacho Vieira e Costa Brás, entre outros, vestidas de negro, trespassadas de saudade. Abriu-se o espaço em outro espaço, num beijo furtivo, na serenata à silhueta recortada contra a janela da noite.

Dona Amália subiu por fim ao palco, no momento por todos ansiado. Cheia de medo, como é seu hábito – “dá-me vontade de chorar, não posso continuar”. Mas continuou, agradeceu, balbuciou e cantou o fado, o seu fado. Cantou primeiro um fado de Coimbra, receosa – “vocês têm todos melhor voz” – com a letra a ser-lhe segredada no próprio instante ao ouvido. Depois um fado lisboeta, da cidade que lhe é alma e destino.

Antes foram as cerimónias e a praxe académica. Amália, nomeada doutora “honoris fadus”, “punida” em seguida, na condição de “caloira estrangeira”, com as palmadas de uma colher de pau, por não ter vestido a capa segundo as regras e por ter sorrido ao venerável presidente da Associação. Por dentro dos sorrisos, invisíveis aos olhos ofuscados pela euforia e pelo ritual dos gestos, sentimentos mais profundos, que as palavras de Almeida Santos inscritas no programa sintetizam: “Nesta homenagem à grande Amália há, implícita, uma homenagem a tudo o que Amália simboliza: as almas sensíveis, os corações generosos, a Lisboa e o Portugal que nela se revêem”. Amália, em noite de serenata, acabou a cantar em conjunto com estudantes e doutores a “balada da despedida”: “Quem me dera estar contente, enganar a minha dor”.

Verdade e consequência [R.E.M.]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 2 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock

 

VERDADE E CONSEQUÊNCIA

 

Foram comparados aos Byrds, com os quais partilham o gosto por melodias imaculadas – presentes numa guitarra despojada de artifícios que sabe recortar o essencial e numa voz de cortar o coração. Para os REM, tudo se resume a um jogo em que são os únicos a impor as regras. Jogaram o trunfo “Our Of Time” e fizeram o pleno. Agora é tempo de historiar tempos passados, através da edição de um “Best of” que reúne algumas das suas melhores canções.

 

 

Parecem ter nascido já com o estatuto de clássicos. Desde o som de garagem do primeiro single, “Radio Free Europe”, gravado em julho de 1981, até à produção luxuriante do álbum mais recente, “Out of Time”, sempre a mesma coerência e firmeza de princípios, que lhes permitiu subir a pulso a escada do sucesso e a criação de um som próprio que, sem desprezar influências, soube religar passado e presente, isto é, pegar na tradição do folkrock psicadélico dos Byrds e acrescentar-lhe a energia e a carga emocional de uma voz em permanente estado de graça.

Desprende-se da música dos REM uma magia especial, resultado da combinação perfeita entre o canto, sempre emocionado, sempre frágil, sempre contagiante, de Michael Stipe e a guitarra, clara e incisiva, de Pater Buck. Canções como o já citado “Radio free Europe”, “The one I love”, “Talk about the passion”, “Finest worksong” ou os recentes e irresistíveis (embora já comecem a saturar, tal a insistência com que continuam a ser passados na rádio e na televisão) “Losing my religion” e “Shiny happy people” colam-se facilmente ao ouvido e recordam as grandes melodias e a simplicidade da era gloriosa dos singles, nos anos 60.

Para Michael Stipe, Peter Buck, Mike Mills e Bill Berry tem sido a ascensão permanente em direção à glória, com a constante de cada álbum que editam vender mais do que o anterior. “Document” foi o primeiro, nos Estados Unidos, a alcançar a barreira do milhão de exemplares vendidos. “Green” ultrapassou esse número, com vendas na ordem do milhão e meio. “Out of Time” continua a vender, sem que seja possível prever o número final, decerto exorbitante. Números que não deixam de surpreender, se levarmos em conta que toda a carreira do grupo se tem processado por sua conta e risco, sem uma relação intensa com os “media” nem disposição para seguir qualquer tipo de diretivas impostas pela editora. “Se déssemos ouvidos a essas sugestões, para utilizarmos nos vídeos raparigas em bikini ou, nos discos, uns ritmos ‘disco’, ironiza o guitarrista, “decerto que os REM já teriam acabado.”

 

Introspeção, não

 

Em vez disso, preferem a aliança inusitada entre a imediatez das melodias e o discurso críptico das letras de Stipe, para quem o “nonsense” “constitui um elemento crucial nas canções pop”. Não deixa, neste aspeto, de ser curioso que cada ouvinte julgue encontrar nos textos referências autobiográficas ou mensagens de profundo significado místico, que o próprio Stipe se encarrega de desmistificar quando, ao vivo, substitui uma palavra por outra, de valor fonético equivalente. A introspeção não parece, pois, ser a principal fonte de inspiração – “é aborrecida, essa necessidade de falar sobre si próprio, muito anos 70”. De resto, acaba por impressionar mais, não as palavras em si, mas a maneira como Stipe as canta, com a emoção sempre à flor da pele, como se se tratasse, em cada canção, de desafiar o destino e toda a sua vida dependesse dessa confrontação. “Losing my religion”, por exemplo, induz facilmente a tentação de referir o poema à experiência pessoal do cantor. Ele encolhe os ombros e afirma que muitas das suas letras são para rir.

Alguns textos partem, com efeito, de situações concretas: “Welcome to the occupation” diz respeito à intervenção militar americana na América Central. “Fall on me” não está longe de constituir uma denúncia ecológica sobre as chuvas ácidas. “Sitting still” tem que ver com o convívio da irmã de Stipe com crianças surdas. “Camera” poderia ser um “zoom” sobre um acidente de carro de um amigo. O resultado final, contudo, assume contornos de uma ilegibilidade enigmática, como se Stipe procurasse a todo o custo ocultar o lado mais aparente das coisas, preferindo sugerir em vez de mostrar, confundir em vez de explicar. “Não sou nenhum Billy Bragg”, diz, “não tenho nenhuma mensagem a transmitir.”

 

As aparências iludem

 

Deste modo, resta ao ouvinte reconstruir em particular esse universo imaginário, juntar as peças do “puzzle” segundo a intuição ou a disposição do momento. Os REM não escondem essa atração pelo enigma e pelos trocadilhos conceptuais. “Fables of the Reconstruction/Reconstruction of the Fables” (1985) passa por ser, por um lado, um manifesto surrealizante sobre a reconstrução do Sul pós-guerra civil e, por outro, uma tentativa de recuperação da tradição oral desse mesmo Sul. Michael Stipe diz que talvez, mas que a inspiração partiu essencialmente de uma conversa com o pai, sobre carpintaria. Em “Reckoning” (1984) indicam que o disco deve ser arquivado “under water”. Uma das canções do álbum “So. Central Rain (I’m Sorry)” conta uma situação de solidão passada numa tarde de chuva, em Athens, Georgia, pequena cidade de onde Stipe é natural. “Document” (1987), pelo contrário, deve ser arrumado “under fire”. A inclusão, neste disco, de “It’s the end of the world as we know it” sugere um apocalipse de chamas castigadoras. Um jogo contínuo de “verdade e consequência”, em que cada significado sugere sempre outro, até ao infinito.

Ao todo, os REM jogam num tabuleiro formado, até agora, por sete álbuns de originais: “Murmur”, “Reckoning”, “Fables of the Reconstruction/Reconstruction of the Fables”, “Life’s Rich Pageant”, “Document”, “Green” e “Out Of Time”. Neles há matéria mais do que suficiente para decifrar uma infinidade de mistérios. Com os REM nada é o que parece ser nem parece ser o que na verdade é. Cada canção é uma espécie de “trompe l’oeil” em que sons, palavras e imagens (os clips fornecem pistas ou baralham ainda mais?) confluem na criação de ambientes insondáveis, abertos à fruição pura. Talvez resida aí o segredo.

A coletânea “The Best of REM”, agora editada pela Emi-Valentim de Carvalho, faz o historial do grupo, por ordem cronológica, desde “Murmur” de 1983 (primeiro álbum oficial, se descontarmos o mini “Chronic Town”) até “Document”, de 1987, ou seja, todo o período de gravações para a IRS, anterior a “Green” e “Out of Time”, já com o selo Warner Bros. Na capa interior vêm incluídas notas explicativas sobre cada tema. Excelente oportunidade para se começar a jogar.


Coisas de Angola [André Mingas]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 2 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock

 

COISAS DE ANGOLA

 

André Mingas já tocou lado a lado com Mory Kanté e Salif Keita. O casal Mandela prestou-lhe homenagem. “Coisas da Vida”, agora editado pela Emi-Valentim de Carvalho, promete levar mais longe a música angolana. Peter Gabriel ouviu e gostou. É quase certo que vão gravar em conjunto.

 

 

Por toda a Europa, a música africana faz furor. Boni Bikaye, Mory Kanté, Manu Dibango, Fela Anikulapo Kuti, King Sunny Ade, Youssou N’Dour, Ray Lema, Salif Keita são alguns dos ilustres embaixadores das sonoridades negras no velho continente. Da Nigéria, do Senegal, do Mali ou dos Camarões, o contingente negro deita fogo aos palcos e aos estúdios, um pouco por todo o lado. A França, antiga potência colonial, foi a primeira a compreender o fenómeno e a dele retirar dividendos. Os estúdios lançaram-se numa correria louca atrás das koras, cabasas, balafons e outros instrumentos exóticos. Percebia-se que a música tinha começado ali, entre os trópicos. Que o coração batia ainda ao mesmo compasso da mãe, tal como acontecia durante o limbo intra-uterino. O apelo ao ritmo, do ritual, do transe dos corpos, subitamente descobertos, revelava-se ainda por cima rentável. Inventou-se à pressa o termo “world music” para etiquetar sons provenientes do princípio dos tempos, quando os costumes não se deixavam ultrapassar pelas modas. Claro que eram necessárias concessões. A penetração nos mercados ocidentais exigia uma abertura de atitudes, de maneira a evitar a confrontação direta, violenta. Houve cedências, é certo. Um realinhar de forças. O essencial, contudo, permaneceu.

Digamos que há interesse para ambas as partes. Para os países africanos é a possibilidade de se fazerem ouvir, de levar a sua cultura a outras latitudes, de ajudar o mundo a crescer, lembrando-lhe a era do fogo, da terra, da floresta, exterior e interior, quando ainda era criança.

Vem esta introdução a propósito da edição do novo álbum do músico angolano André Mingas, irmão de Ruy Mingas, músico bem mais conhecido entre nós. O disco chama-se “Coisas da Vida”, quinto na carreira do cantor. Gravado no Brasil, país com o qual o artista desde há anos vem mantendo contactos, “Coisas da Vida” inclui, para além de originais de André Mingas, tradicionais africanos, recolhidos com a ajuda preciosa de Filipe Mukenga.

Como se vê, André Mingas está longe de ser um novato nestas andanças. Tocou ao lado de nomes como Salif Keita, Mory Kanté e os Toure Kunda, no festival do “L’Humanité”. Nelson e Winnie Mandela quiseram conhecê-lo para lhe prestar uma homenagem simbólica. Uma cassete com a sua música chegou às mãos de Peter Gabriel. O resultado provável será o convite para tocar no próximo disco do antigo vocalista dos Genesis. Por tudo isto justificava-se a entrevista.

PÚBLICO – Há alguma razão especial para “Coisas da Vida” ter sido gravado no Brasil?

ANDRÉ MINGAS – A gravação no Brasil aconteceu, primeiro, por razões que se prendem com a ausência de infra-estruturas em Angola. Já tinha feito várias apresentações neste país, tendo recebido um convite para gravar lá o disco. Por outro lado, tem que ver com a tentativa de encontrar, através da troca de experiências, uma linguagem que, sendo angolana, tivesse além disso a possibilidade de universalização.

P. – É notória, em certos temas, a influência da música brasileira…

R. – Não se trata exatamente de uma influência do Brasil. Há um tema, “Coisas do amor”, que é um samba-canção, feito para criar um espaço de abertura também no mercado brasileiro. Angola e Brasil têm afinidades do ponto de vista cultural. Nós somos um bocado a fonte, temos uma grande responsabilidade na formação daquilo que é hoje a cultura brasileira. Naturalmente que o que é brasileiro tem sido mais divulgado, até como resultado de um maior desenvolvimento tecnológico.

Aquilo que fazemos hoje, e partindo do princípio de que o canto africano é de uma maneira geral rico, é a exploração harmónica desse canto. No caso de Angola, o resultado aproxima-se da música brasileira porque há, na base, uma afinidade cultural e a essência é a mesma. Por vezes é difícil situar exatamente onde acaba o samba e começa o “semba” ou vice-versa; a origem é comum. Mas, à exceção desse tema, que é de facto intencional, o resto são andamentos típicos de Angola.

P. – Por que motivo não foram traduzidos para português alguns dos temas?

R. – Havia, por um lado, razões editoriais. Era minha intenção cantar em português, naturalmente porque me estava a dirigir a um espaço onde se utiliza prioritariamente a língua portuguesa [o disco vai ser lançado nos países de expressão portuguesa]. Por outro lado, também é um disco para ser consumido no interior do meu país, onde se fala internamente as línguas nacionais. É muito difícil fazer uma tradução direta da língua nacional para o português, de estabelecer a correspondência.

P. – Quais os principais temas abordados em “Coisas da Vida”?

R. – Por exemplo, um tema como “N’zambi” é um alerta para algumas consequências da guerra, como o caso concreto da fome. “O que eu quero”, cantado em português, é outro alerta, este sobre a situação dos mutilados, na sua maioria jovens, aquelas pessoas que poderiam efetivamente dar uma contribuição excelente à revolução do meu país. O disco aborda temas como a guerra e o amor. Num país com 30 anos de guerra, o amor tem de ser cantado e muito.

P. – Tocou ao lado de músicos como Salif Keita ou Mory Kanté, que têm uma implantação forte no mercado europeu. Vê alguma hipótese de acontecer algo semelhante com a música angolana?

R. – É essa a intenção dos músicos, hoje – poderem fazer uma música que possa penetrar no mercado internacional. Não fechando-se na música tradicional, mas criando música que possa, por um lado, preservar uma certa identidade, que a afirme como característica de um espaço geográfico explícito, mas que possua, por outro lado, uma linguagem universal, capaz de lhe facultar a entrada nesse mercado, tornando-a audível a outros espaços geográficos. As diásporas resultantes da expansão cultural africana no mundo são uma extensão dessa cultura, e não a sua negação. Nelas estabeleço a ponte e reencontro o meu próprio continente.

P. – Como aconteceu a homenagem que lhe fizeram Nelson e Winnie Mandela?

R. – Quando da primeira viagem de ambos a Angola, houve uma receção oferecida pelo Presidente da República ao casal e para a qual fui convidado para atuar. No final do “show”, devido a algumas intervenções que fiz sobre a situação na África do Sul e, em particular, sobre Winnie Mandela, Nelson Mandela manifestou interesse em me conhecer e quis homenagear-me simbolicamente. Fui inclusivamente convidado para atuar na África do Sul, quando a situação mudar. É um motivo de orgulho para mim.

P. – Como surgiu o convite para tocar com Peter Gabriel?

R. – Essa informação foi-me dada pelo meu agente em Londres, que deu a conhecer o meu trabalho ao Peter Gabhriel. Ele gostou. Não conhecia a música angolana e manifestou interesse em realizar algo em conjunto. Ele está numa fase de experiências com músicos africanos, na procura de uma música diferente, aliás muito ao estilo de Paul Simon. É provável que essa procura de outras músicas e de outras geografias o tenha motivado.

P. – A concretizar-se esse convite, seria para si a grande oportunidade de promoção internacional…

R. – Exato. Aliás, estou a fazer tentativas no sentido de que isso seja efetivamente materializado, até porque iria criar não só um espaço onde eu pudesse projetar a minha música mas também um espaço de intervenção para outros músicos angolanos poderem levar a nossa música mais longe.

P. – Quais são os seus próximos objetivos?

R. – Estou a preparar já o próximo álbum, previsto para o próximo ano, no qual irei provavelmente tocar com dois músicos camaronenses, da banda de Salif Keita.