02/10/2023

Escritos de Fernando Magalhães, volume 2.2 (1993)

 Já nas Bancas - 623 páginas. 

Jorge Dias foi jornalista e crítico musical no jornal Público entre 1990 e 1997. Foi músico nos More República Masónica. Atualmente está à frente da loja de discos Louie Louie em Lisboa.


Disponível para encomenda online no site Bubok:

Escritos de Fernando Magalhães, volume 2.2 (1993)





30/03/2023

Acordar para a realidade [José Duarte]

Público

3 Junho 1992 


ACORDAR PARA A REALIDADE
 
Em Frank Sinatra, encontrou José Duarte um professor. De inglês e da arte de ser o lobo e o capuchinho vermelho. Até de jazz. Considera-o “o maior cantor deste século”, “um tipo cheio de ‘charme’” e “Strangers in the night” uma canção fraca. No Estádio da Antas, o autor de Outras Músicas vai estar à frente, na zona do “caviar e dos morangos”. Para Sinatra o ver bem.
 



“Há duas maneiras de ouvir a música de Frank Sinatra” – diz José Duarte –, uma “popular”, outra mais “requintada”, só ao alcance dos “gajos da música”. O autor de Cinco Minutos de Jazz e do atual e aclamado Outras Músicas falou ao PÚBLICO das duas e provou “cientificamente” que Sinatra é “um cantor fabuloso”.
PÚBLICO – Quando e em que condições conheceu a música de Frank Sinatra?
JOSÉ DUARTE – Tinha para aí 15 anos, através de discos.
P. – Que opinião tinha dele nessa altura?
R. – Tenho um padrão para me orientar nesta confusão toda que é o jazz.
P. – Aos 15 anos já tinha esse padrão?
R. – Não, mas estava quase a ter. Vejo tudo em função do jazz. O Sinatra (por acaso descobri-o primeiro que ao jazz, mas foi um trampolim para chegar lá) ensinou-me o inglês. Um inglês que não era o do liceu nem o americano. Ele tem uma dicção fabulosa. É dos raros cantores em que se percebe cada palavra e cada sílaba. Depois conta histórias. E a maneira de ele as recitar... Nunca canta uma canção da mesma maneira, modifica-a, aproximando-se de um conceito de jazz, seguindo as pisadas de dois dos seus influenciadores: Tommy Dorsey, de quem reteve o som “cool”, liso, e Bing Crosby, pai de todos. Sem esquecer a fraseologia de Billie Holiday.
Aos 15 anos conhecia-o sobretudo dos filmes. Depois fui avançando e verifiquei cientificamente que é um cantor fabuloso.
P. – Pelo que um jornalista do “New York Times” afirmou recentemente, parece que hoje em dia Sinatra mal consegue alinhar dois versos seguidos e não sair do tom.
R. – Esse jornalista é capaz de não ser da Mafia...
P. – Sinatra vai encher o Estádio das Antas?
R. – De certeza absoluta que não vai esgotar e ainda bem. Se esgotasse, eu começava a repensar Sinatra. É capaz de ir lá mais gente por causa das críticas, por ser uma figura polémica.
P. – As pessoas vão ver apenas o mito?
R. – Portugal levou uma vida inteira a juntar dinheiro para o ouvir cantar. Disso eu não tenho culpa. Fui ver Sinatra a Nova Iorque, em 1975. E mesmo assim já era tarde. Um concerto em que teve como parceiros a orquestra de Count Basie e Ella Fitzgerald. Em pleno PREC, comigo em grandes dúvidas ideológicas. O José Mário Branco berrava-me aos ouvidos: “O Sinatra não pode cantar bem. Um americano não pode cantar bem. “Eu próprio comecei a ter algumas dúvidas”.
P. – Como definiria a carreira do cantor?
R. – A carreira de Sinatra é sinusoidal, de “ups and downs”. Há quatro grandes fases que, por acaso, coincidem com as quatro grandes marcas para onde gravou. A RCA, onde grava com Tommy Dorsey, correspondente aos anos 40 – ele estreou-se com o Harry James no fim dos anos 30 –, em que atinge o primeiro pique quando é ainda um cantor jovem, com 20, 30 anos; depois há a fase Columbia, em que amadurece, se torna adolescente (a divisão pode ser feita em termos etários), um tipo cheio de “charme”. Depois passa para a Capital e torna-se adulto. É a fase dourada, com a ajuda dos arranjadores de que se rodeou, com destaque para Nelson Riddle. Finalmente, a fase da Reprise, da idade madura, a mais próxima do jazz. A partir daí é um gajo que se defende graças ao historial e a um grande magnetismo pessoal.
Durante todo o tempo safou-se sempre bem. Por razões diversas, nem todas relacionadas com o canto. No canto tem envelhecido, mas não no sentido ocidental da velhice. Digamos que agora canta de maneira diferente. Saiu de uma fase por política, de outra por causa do cinema (e ganhou um Óscar), de outra ainda porque se aliou aos mais fortes...
P. – Quem são os mais fortes?
R. – Nessa altura não interessava. Ele esteve ao lado dos republicanos e dos democratas. Depois houve os escândalos, dizia-se que era íntimo da Mafia.
P. – Que explicação encontra para a longevidade de Frank Sinatra?
R. – É o maior cantor deste século, na sua área. Um mestre. Qualquer canção, no sentido mais lato de “song”, que tenha sido cantada por Sinatra fica marcada. Fazia com as canções uma coisa fabulosa: metia palavras novas, repetia, truncava, tirava, subvertia-lhes o sentido. Uma riqueza que só “ouvisto”.
P. – A Mafia teve alguma influência no sucesso de Sinatra?
R. – Olhe, outra das coisas que o Sinatra me ensinou foi saber ser igualmente o capuchinho vermelho e o lobo. Depois há o conceito de clã, que para mim tem muito significado: o grupo de amigos, a união, a entreajuda. Partilhar as mesmas verdades e os mesmos conceitos.
P. – Diz constantemente que o Sinatra “o ensinou”. Alguma vez falou com ele?
R. – Nunca falei com ele. E mesmo que falasse não o ficaria a conhecer.
P. – Quer contar alguma história sobre Sinatra?
R. – Há uma muito bonita. O Sinatra tem por hábito fazer digressões com fins beneméritos. Pega no avião, põe o piano e os músicos a bordo e lá vai, normalmente a Itália. Os pais eram da Sicília e convém referir que costuma chamar “Giaccomo Danielli” à sua bebida preferida [“whisky” Jack Daniels]. Nos anos 70, meteu-se no avião e foi até Itália dar um espetáculo de ajuda às crianças cegas. E deu tudo. Noutro espetáculo – esta história impressiona-me – recebeu algumas crianças no camarim, falou com elas, uma grande bagunça à italiana, e houve uma que perguntou: “Sinatra, de que cor é o vento?”, que é uma pergunta do caraças.
Noutra ocasião, no primeiro concerto de Sammy Davis Jr. em Nova Iorque, que foi um êxito, estava uma data de gente a pedir autógrafos e Sammy não sabia escrever. Chegou ao pé de Sinatra e perguntou-lhe: “Agora o que é que eu faço?” A resposta foi: “Faz um rascunho.”
P. – Vai ao Porto assistir ao concerto?
R. – Claro. Vou para o hotel dele e tudo. E no estádio, para a zona do caviar e dos morangos, a que fica mais próxima do palco. É para ele me ver. (Risos). Fiz uma série de 30 programas sobre o Sinatra para a Rádio Comercial, na promoção do concerto, e não me pagaram nada. Então disse-lhes: “Quero ter um lugar onde ele me veja bem. Olha o José Duarte ali, e tal...”
P. – Não põe sequer a hipótese de não gostar?
R. – Pode desiludir, mas não sou suposto depois confessá-lo.
P. – Pode criticar-se, à partida, o facto de o concerto se realizar num estádio.
R. – É a mania das grandezas. Penso que a organização não está à espera de encher o estádio. Não vai ser nada parecido com os Dire Straits ou os Guns N’ Roses.
P. – Os mais novos são sensíveis à música de Sinatra?
R. – Dizem-me que há raparigas novas e bonitas a quem o Sinatra repugna, o que é positivo, porque repugnar é uma maneira de agradar.
P. – Será que a música de Sinatra lhes interessa de facto, ou irão ao estádio por outras razões?
R. – Isso é a filosofia recente dos anos 80. Num concerto do Sinatra não há fumo no palco, nem “lasers”. É um foco em cima dele e a banda a tocar.
P. – É o passado, o mito?
R. – Sim, mas também a música.
P. – Se calhar, para um número restrito de pessoas...
R. – Se calhar sim, só uns 20 ou 30 eleitos. Mas repare que em Londres, capital de um país com profundas raízes musicais, cinco salas encheram-se com sete mil espectadores para o ouvirem, pessoas que não brincam com a música.
P. – Em Portugal é diferente...
R. – Portugal é completamente diferente. A um concerto de estádio vai-se pela confraternização, pelo espetáculo. Hoje o conceito de música é extramusical. O que interessa é estar com os amigos, numa grande excitação, gozar à brava em conjunto, com a adrenalina toda a sair. O concerto de Madonna em Barcelona é neste aspeto memorável. Aquilo demonstra uma preparação física do caraças... Sinatra é o oposto. Os arranjos musicais são os mesmos dos anos 50 e ele canta exatamente com as mesmas acentuações. Considera-se o último dos “saloon singers”, em que o importante é a intimidade.
P. – Precisamente. Essa intimidade é impossível num estádio.
R. – Aí é o anti-“saloon singer”. Mas o que ele gosta é de segredar coisas às pessoas, confessar-se, meio grosso, às três da manhã. Estar com o “barman” a cantar um solilóquio, uma balada, e depois bater com a porta e ir-se embora como num daqueles “westerns”, mas sem mulher. Sozinho. Para sofrer.
 

26/01/2022

Verlaine tocou só e mal acompanhado [Tom Verlaine]

 

SEGUNDA-FEIRA, 7 MAIO 1990 cultura

 

Verlaine tocou só e mal acompanhado

 

TOM VERLAINE tocou guitarra e cantou sozinho, sábado à noite, na sala, à cunha, do Alvalade, em mais uma iniciativa integrada na Semana Académica de Lisboa. Interpretou canções do recente álbum “The Wonder”. Os fanáticos gostaram. Os outros exasperaram-se afirmando ter pago gato por lebre.

            Alguns dias antes do concerto corria o boato de que John Cale, que recentemente tocou em Portugal, acompanhado apenas ao piano, ter-se-á encontrado com Verlaine e dito qualquer coisa como: “Os gajos (os portugueses) gostam de tudo. Levas só a guitarra, como eu fiz com o piano, que eles gostam na mesma”. Dito e feito. Tom trouxe a guitarra. A segunda asserção de Cale é que se mostrou menos correta. O público, na sua maioria, sentiu-se defraudado e protestou. A quase dois contos o bilhete deveria ter dado direito a mais. Pelo menos três ou quatro instrumentos a, vá lá, 600 paus cada...

           

Viola do Saco

 

            Mas nem tudo foi mau nesta primeira prestação ao vivo no nosso país do antigo líder dos Television. O palco, sóbria e eficazmente iluminado, em tons de vermelho e roxo, decorado com algumas folhas de palmeira dando um toque de exotismo ao quadro, criava um ambiente misterioso e intimista. O som esteve perfeito, permitindo distinguir cada nota da guitarra e inflexão da voz. Quem quis acompanhar as aventuras narradas nas letras das canções do romântico Verlaine, não teve razões de queixa. Até o que não foi dito se conseguia ouvir. O pior foi que, à medida que o “espetáculo” ia decorrendo, a voz (excelente) de Verlaine e o som cristalino da guitarra acústica, não se revelaram suficientes para o interesse da assistência. As pessoas não estavam preparadas para ouvir histórias, contadas por um tímido trovador de guitarra em punho e pose distante. Depois do festival de som e carne de Kid Creole & The Coconuts e do rock australiano dos The Church, o choque foi demasiado brutal.

 

Chachada

 

            Começaram os assobios e apupos e a debandada para o bar quando não o abandono puro e simples do recinto. A partir de certa altura, as canções passaram enfadonhamente a soar todas de modo semelhante, demonstrando que o formato de apresentação escolhido não é o mais aconselhável para este tipo de sala. A própria voz de Verlaine, por muito boa que seja, tornou-se irritante, por força das mesmas inflexões e do tom “soft” mantido durante todo o concerto, sendo óbvia a necessidade de um mais consistente apoio instrumental, à semelhança aliás do que acontece no disco. À guitarra apeteceu metê-la no saco.

            “Chachada”, “seca” ou mesmo “o tipo merece levar uma lição” foram algumas expressões escutadas durante deambulações pelo recinto, exprimindo os sentimentos mais profundos dos presentes, reveladores do desespero e, nalguns casos, ódio surdo, que lhes corroía a alma. Intimamente dei-lhes razão, Não se faz uma maldade destas a quem esperava uma segunda versão dos Television ou uma reprodução tão fiel quanto possível da exuberância de “The Wonder”. Quem ficou a ganhar foi a organização que deve ter feito uns bons contitos à custa da simplicidade de meios. Para um próximo concerto sugere-se o “playback”, sempre fica mais barato...

25/01/2022

O canto da sobrevivência [Egberto Gismonti]

 

cultura SEXTA-FEIRA, 4 MAIO 1990

 

“Dança dos Escravos” é o mais recente álbum gravado por Egberto Gismonti

 

O canto da sobrevivência

 

Egberto Gismonti dança e avança pelos sons como os exploradores desbravando os medos do sertão. Danças de academia, do interior das cabeças ou dos escravos presos só por fora são outros tantos movimentos, do corpo e do espírito, fundidos no caldeirão caótico da música e cultura brasileiras. Egberto demanda a quintessência primordial.

O seu trabalho é o de alquimista.

 


“Dança dos Escravos” é o mais recente álbum gravado para a editora alemã ECM. “A música dos escravos brasileiros expressa-se através de formas variadas. Para além de canto de sobrevivência, constitui também um modo de libertação, uma fora de comunicação com o sagrado”. A escolha da guitarra, único instrumento utilizado no disco, prende-se a uma atitude muito especial de “ver” e ouvir os sons. “Já gravei discos com toda a espécie de combinações instrumentais. A guitarra é, por oposição ao aristrocático piano, mais romântica, ‘cantadora’ e, no caso do Brasil, mais africana, daí a escolha. Procuro ainda desenvolver uma linguagem guitarrística introduzida há trinta anos atrás por Baden Powell, vulgarmente designada por ‘Afro Samba’”. Para o efeito, Egberto utiliza guitarras que vão até às de 14 cordas. “O número de cordas é diretamente proporcional ao número de vindas à Europa. Para a próxima o número de cordas aumentará ainda mais!...”

 

Trocas

 

            A discografia de Gismondi estende-se a 45 álbuns, bem contados, desde a música para crianças, “delírio de alguns editores, que a etiquetaram como tal”, teatro, antigas colaborações com nomes da MPB ou, mais recentemente, com Charlie Haden ou Jan Garbarek, até inúmeros projetos a solo, dos quais só uma pequena parte chega à Europa, aquela que Manfred Eicher, patrão da ECM, tem vindo cuidadosamente a registar. “A ECM proporcionou-me um tipo de música que eu antes nunca tinha experimentado. Até 77/78, altura em que comecei a gravar para a editora, como solista. Até então trabalhara sobretudo como arranjador e orquestrador. Em “Dança das Cabeças”, primeiro da série alemã, descobri em mim próprio uma nova maneira de traduzir a música do Brasil. Em “Sanfona” utilizei um grupo de músicos brasileiros e uma aproximação, digamos que mais clássica, das origens. Ao mesmo tempo comecei a gravar discos no Brasil, como “Alma”, próximos do conceito estético ECM. Houve uma inversão, uma troca. Toda a minha música é uma constante troca, de técnicas musicais que mutuamente se influenciam, de culturas, de diferentes maneiras de sentir.”

            Egberto Gismonti assimilou processos e ensinamentos que vão desde Villa-Lobos, ou a cultura dos índios Xingu, entre os quais viveu durante alguns anos, à literatura e música ocidentais contemporâneas.

            Acerca de Heitor Villa-Lobos, Egberto desenvolve um curioso raciocínio: “Villa-Lobos significa quantidade e não qualidade. Nós brasileiros só atingiremos a qualidade através da quatidade. À partida não temos nenhuma forma estabelecida. No Brasil coexistem tribos desconhecidas como a dos Xingu a par de problemas com centrais nucleares. É o caos apocalíptico das origens e do fim. Vale tudo. A minha música reflete isto mesmo, aproveito tudo, retendo o essencial e deitando fora o que não presta. Sempre procurei dar um caráter sintético a tudo o que penso e faço. Creio que o consegui nalguns casos, sempre a partir da quantidade, do maior número possível de misturas”.

            O método utilizado se em parte é intuitivo (“O que eu sei é deixar impregnar-me pelos sons. Não tenho a menor capacidade de organicidade”), não dispensa, todavia, o rigor da escrita direta no computador ou uma perspetivação intelectual e cultural de todo o trabalho.

            Essa auto-consciência e faculdade de distanciação deve-a, segundo afirma, ao que aprendeu entre os Xingus, “saber falar, executar e saber escutar. O momento fundamental desta aprendizagem consistiu precisamente em saber dizer e escutar o silêncio”, mas também aos ensinamentos recebidos na infância. “O meu pai é libanês e desde cedo habituei-me a escutar os sons orientais. A minha mãe é italiana e fez-me ouvir as árias de ópera. Ouvia as típicas ‘seresteiras” brasileiras, música de bandas, tudo”. Para Egberto Gismonti qualquer som pode ser musical (“outro dos meus mestres, Edgar, chefe de banda, disse-me coisas como ‘bata numa mesa, sopre numa garrafa, isso é música também’”), perspetiva compartilhada com Hermeto Pascoal, seu companheiro de aventuras em muitas ocasiões.

 

Música absoluta

 

            Como Hermeto, também o autor de “Corações Futuristas” utiliza a arte como uma forma de contestação não panfletária, mas partindo do pressuposto estético de que a originalidade, por ambos naturalmente cultivada, é, pela sua diferença, pelo criar de uma realidade oposta à estabelecida, uma forma de contestação e afirmação de liberdade. Liberdade que, em última instância se confunde já com uma experiência religiosa, de ligação a um nível superior, transcendente, de existência. “Em ‘Dança dos Escravos’ existe uma ligação íntima com formas de religiosidade tradicionais como o espiritismo, o ‘Candomblé’... Tenho como grande objetivo na minha vida a ligação a algo superior, que consigo sentir mas não compreender”.

            Quem já teve oportunidade de ver Gismonti atuar ao vivo, agarrado à guitarra, um pouco à maneira do nosso Carlos Paredes, perdido e totalmente imerso nessa superior forma de comunicação que é a música, decerto compreenderá o sentido de tal liberdade. “Tocar é o momento em que o intérprete, o instrumento e a música passam a ser um todo tocado por alguma coisa que não consigo definir. Gravo os meus discos num estúdio em casa, pra conseguir atingir esse estado de total recetividade”.

            Recetividade que também não tem faltado por parte do público português, às aventuras e viagens musicais deste peregrino do Absoluto. “O meu grande projeto futuro é um trabalho global baseado nas sistemáticas recolhas e estudo do folclore brasileiro levados a cabo nos anos 20 pelo musicólogo Mário de Andrade, em que utilizarei o atual grupo mais uma orquestra sinfónica com perto de cem elementos”. A obra, com futuro discográfico ainda incerto, será apresentada em Novembro próximo e já tem título: “Melodias Registadas Por Meios Não-Mecânicos”. Apoteose grandiosa de um percurso exemplar.

 

Tom Petty & The Heartbreakers - Live!

 Programas
 
TOM PETTY & THE HEARTBREAKERS
Live!
Virgin Music Video, Edisom – Venda Direta
 
O estatuto de arte desde há muito que foi concedido, por decreto-lei, à música. Quanto ao vídeo, é bastante mais novinho, mas nem por isso deixou de dar passos importantes no sentido da sua emancipação artística. Música e vídeo nasceram para se entenderem. Por vezes, a combinação não funciona, ou porque os sons não estão à altura das imagens (o que frequentemente acontece no caso dos clips, em que a imaginação do realizador e/ou as técnicas de ponta, no campo visual, excedem de longe a pobreza musical), ou o fenómeno inverso, em que a “videoart” perde as três últimas letras para se reduzir a um amontoado de imagens desconexas, desligados do seu complemento sonoro.
Mais doloroso e dramático é quando ambas as partes constitutivas da videocassete musical se ficam pela completa nulidade. Infelizmente é este o caso do objeto em análise. A música de Tom Petty & The Heartbreakers inclui-se na miseranda categoria do “Rock FM”, sopa artificial e insípida cuja finalidade única é vender. Quanto às imagens, consistem numa sequência, sempre idêntica, de planos, focando os músicos em plena função, sem qualquer espécie de imaginação ou arrojo formal. O visionamento e audição desde subproduto – que ofende por igual as duas linguagens estéticas que, por princípio, deveria servir – tornam-se deste modo uma autêntica tortura. Os apreciadores da “música” de Tom Petty ou os sócios de videoclubes que acham “O Maneta de Ferro e a Guilhotina Voadora” o máximo, não devem ter tantos pruridos.
 
VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 2 MAIO 1990