22/10/2026

Jorge Reyes - Bajo El Sol Jaguar + Niérika

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 2 DEZEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Álbuns

 

Jorge Reyes
Bajo El Sol Jaguar (9)
CD, Exilio, import. Ananana
Niérika (9)
CD, No Rekords, import. Ananana

Reyes, Jorge - Bajo El Sol Jaguar - Amazon.com Music

Em Jorge Reyes, músico mexicano pouco conhecido na Europa, o passado do México pré-hispânico encontra-se com os sinais extremos da modernidade. É possível situar a sua obra em territórios próximos dos delimitados por Jon Hassell, O Yuki Conjugate ou Lights In A Fat City – músicas do “quarto mundo”, como se costuma dizer, na qual a eletrónica e os elementos étnicos se cruzam em infinitas sínteses. “Bajo El Sol Jaguar”, o álbum mais recente, e “Niérika” (reedição do original de 1989, acrescentado de dois temas de “Ek-Tunkul”), como “Musica Prehispánica” ou “Crónica da Castas” (de parceria com o guitarrista espanhol Suso Sáiz), recuperam o ambiente e os mistérios das civilizações maia e asteca, em incursões sombrias por cavernas, pirâmides e vulcões, onde as energias telúricas e celestes se unem e dançam através do eixo humano. É uma música lenta, ondulatória, ritual, no sentido em que convoca e desencadeia movimentos interiores e deslocações da consciência. Ritmos primevos brotam de fontes sonoras como cântaros, troncos de árvore, pedras, fósseis ou do próprio corpo que Jorge Reyes percute e amplifica. Sons de chuva e vento ajudam a delinear paisagens recortadas contra o manto negro da noite. Ocarinas e flautas pré-hispânicas, “didjeridoo”, sintetizadores e sequenciadores ao serviço das energias naturais tecem quadrículas de tempo, relações bizarras entre culturas, transmutações da memória. A luz, quando o dia nasce, cobre de ouro velho as ruínas de templos esquecidos. Nas manchas de um jaguar, oculta-se o último segredo, terrível revelação que assombra um conto de Jorge Luís Borges. Na obra de Jorge Reyes, o sonho (tema sempre recorrente nos seus álbuns) é caminho e porta, meio sinuoso e alucinatório de acesso ao centro de um mundo povoado de fantasmas. “Bajo el Sol Jaguar” e “Niérika” são neste aspeto equivalentes à obra literária de Carlos Castañeda e às suas viagens de peyote – “Viaje al sitio de los violines de flores”, como diz o título de uma canção. As flores do mal, de Baudelaire?

 

Uma imagem com texto, eletrónica, ecrã

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Ferdinand Richard Et Les Philosophes - ... Enclume

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 2 DEZEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Álbuns

 

Ferdinand Richard Et Les Philosophes
... Enclume
CD Rec Rec, import. Audeo

Uma imagem com texto, relva, ar livre, sinalizar

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Filosofia à parte, Ferdinand Richard é, de facto, um amante da palavra, do texto. Ganhou notoriedade como baixista dos Etron Fou Leloublan, grupo francês que aliava o “vaudeville” e Captain Beefheart às divagações literárias de pendor surrealista. Tudo bem se Ferdinand não insistisse em ser ele próprio a cantá-las. Pela simples razão de ser tão bom baixista como mau vocalista, mas parece que ninguém tem coragem para lhe dizer isso. Nem sequer Fred Frith, com quem gravou um bom disco intitulado “Dropera”. “... Enclume” é um festival de baixo, guitarra (Alain Rocher) e bateria (Dominique Lentin) ao desafio, em intricadas texturas ao modo Etron Fou com o toque frithiano que caracteriza grande parte das produções guitarrísticas com o selo Recommended. O pior são as tais palavras, excessivas, que brotam em catadupa em cada canção, no estilo discursivo de Richard – “50 sílabas por cada verso; se não couber, aperta-se” – que impede a respiração e uma maior eficácia na explanação instrumental. Não fora a oratória (e alguns textos até são interessantes, corrosivos e sarcásticos na análise a estereótipos sociais) e o tom redundante das vocalizações e a filosofia de “... Enclume” poderia ser bastante mais que um mero exercício de retórica. (6)

 

António Manuel Ribeiro - Pálidos Olhos Azuis - P.O.A.

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 2 DEZEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Álbuns

 

OS OLHOS DO TÉDIO

 

ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO
Pálidos Olhos Azuis – P.O.A.
LP/MC/CD, Edição BMG

Uma imagem com música, guitarra, pousar, baixo

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“Há uma parede mágica que rodeia a canção (...) não sabemos se alguém a vai descortinar à primeira escuta/essa magia que vive do outro lado da escuridade.” Escreve-se isto a propósito de “Velhos tamborins”, primeira canção a ser editada no formato de “single”, retirada do álbum estreia “P.O.A” de A.M.R., vocalista dos UHF. Deve haver, de facto, uma parede a rodear cada canção de “P.O.A.”. Nem à primeira, nem à segunda, nem à vigésima sétima audição se consegue descortinar nelas qualquer tipo de magia, muito menos um bocadinho de música original – um mínimo de interesse que seja. Só escuridade. Só banalidade em cada melodia estafada, disco após disco, dos UHF.

António Manuel Ribeiro tinha que fazer um disco a solo, para dar a conhecer às multidões o enorme artista que é. Era preciso mostrar uma visão autónoma, um talento liberto das imposições do coletivo, a grande arte do génio solitário, abandonado à magna angústia da criação. Então A. M. R. pegou na guitarra, abriu a boca e a obra fez-se. Não devia. “P.O.A.” aproveita o pior dos UHF. Vai buscar o típico ambiente das noites de Benfica e passa-o a ferro em linhas melódicas sem ponta de inspiração, e textos que repisam velhos chavões e paranóias: a estrada, sempre madrasta, mas a que não se pode fugir; a marginalidade dos subúrbios; a violência juvenil como forma de fuga ao tédio; e agora, em estreia mundial, os “olhos das miúdas”, das “groupies”, aquelas mosquinhas que cirandam à volta do artista a pedir migalhas. Um espetáculo que visivelmente comove António Manuel Ribeiro. São pálidos olhos azuis, faróis na escuridão, essas tretas.

Tudo estaria bem e tudo seria perdoado, se não fosse a música. Com “P.O.A.” A.M.R. esqueceu uma década de evolução, regressando à pré-história do “rock português”, dos primeiros UHF, GNR e CTT. Não falta sequer um “puro sangue”, na melhor tradição dos “cavalos de corrida” e um coro de impensável parolice, no “épico” “A noite inteira”. Escapa à mediocridade total um “Aqui na arena” cantado de raiva, entre o ódio e a introspeção, contra o “portuga”, o “show business” e, por tabela, a humanidade em geral – o melhor A.M.R. na pele de D. Quixote em luta com os moinhos e consigo próprio. O CD inclui o tema-extra “Hi John”, dedicado a John Lennon, e a versão longa de “Velhos tamborins”. A António Manuel Ribeiro deseja-se rápidas melhoras e votos de um bom descanso. (3)

 

A rumba não se serve a frio [El Rumbero]

 

PÚBLICO DOMINGO, 29 NOVEMBRO 1992 >> Cultura

 

El Rumbero no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa

 

A rumba não se serve a frio

 

Não façam mais concertos no Pavilhão Carlos Lopes. É frio e não tem condições acústicas. E às vezes, como aconteceu sexta-feira à noite na atuação de El Rumbero, muito grande para a escassez de público e a pequenez do talento. No final houve quem pedisse a devolução do dinheiro.

 

Uma imagem com texto, pessoa, pousar

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Estariam cerca de mil pessoas no Pavilhão Carlos Lopes dispostas a dançar a rumba e a soltar “olés”, entre palmas, calores e guitarradas. Nada disto aconteceu. Por culpa das condições do recinto, mas também dos músicos, que, rotulados com a auréola de “reyes”, acabaram por revelar-se uma enorme desilusão. Ou talvez fosse do cansaço. Logo no início, El Rumbero apressou-se a dizer que estava fatigado da viagem. E que, explicou, “todos os ciganos têm medo de viajar de avião”. Disse outras coisas mas não se conseguia perceber dado que a acústica do pavilhão transformava cada palavra numa pasta de reverberação que ecoava pelas paredes desoladas como um bombo descontrolado.

Em palco quatro guitarras, um baixo e percussão, mais os respetivos humanos a segurá-los. O “manager” do grupo, um italiano, fez as apresentações. Dois instrumentais mornos fizeram o que seria suposto ser o aquecimento para a entrada do herói da noite, El Rumbero, o rei da rumba, catalão há vários anos a viver em Camarga, França.

Este lá apareceu de voz rouca a dar desculpas, cantou as esperadas rumbas, muitos temas dos primos Gipsy Kings – sem esquecer o hino das feiras, “Bamboleo” – e a coisa nunca passou da mediocridade até ao final. “Vamos a bailar”, dizia a letra de uma canção. Ninguém se mexeu. Mais um esforço para mobilizar as hostes, com El Rumbero dando instruções de canto à assistência que, devido ao som empastelado, soaram ininteligíveis para o público. Percebia-se “oh oh” e “ay ay ay mi madre” seguido por uma série indecifrável de gemidos e interjeições.

Mas o momento mais caricato do espetáculo estava reservado para o final. El Rumbero e os rapazes, enfadados, terminaram abruptamente a atuação e abandonaram o palco, pouco mais de uma hora depois do seu início. Toda a gente pensou que era o intervalo e ficou à espera, muda e queda, da segunda parte. Entrou então o empresário italiano que desatou a berrar “rumbero, rumbero, rumbero!” perante o pasmo coletivo. Como por esta altura o pavilhão já se encontrava completamente enregelado, claro que nenhuma alma foi sensível a este entusiasmo empresarial. Mesmo assim a banda regressou ao palco, simulando o empolgamento, para dois “encores” despropositados que ninguém pediu a não ser o patrão.

Algumas ciganitas adolescentes pediam à saída a devolução do dinheiro gasto no bilhete, descontentes com o pobre espetáculo a que tinham assistido. Faltaram às rumbas de El Rumbero a “raça” e o nervo que caracterizam a música cigana. E, isso, nem sequer os seus irmãos de sangue perdoaram.

 

O rei da rumba [El Rumbero]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 25 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock

 

O REI DA RUMBA

 

Uma imagem com texto, homem, guitarra

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El Rumbero vem tocar a Portugal. Sim, mas quem é El Rumbero? É o rei da rumba cigana, ídolo dos Gipsy Kings, cantor e guitarrista de reconhecidos méritos. Nasceu no seio da família “Los Reyes”, da comunidade cigana de Camarga, França, a mesma região natal de Manitas de Plata e dos Los Baliardos, por exemplo, e ao longo dos últimos anos tem levado a música “gitana” aos confins do planeta, incluindo o Extremo Oriente e o Japão.

Mas não se pense que El Rumbero é daqueles tradicionalistas empedernidos avessos à inovação. Nada disso! Ele serve-se das rumbas, dos seus requebros lânguidos, e acrescenta-lhes um toque de modernidade. Um pouco à maneira dos Gipsy Kings, diga-se de passagem. Embora não vá tão longe nas cedências comerciais. Ainda bem. Os “gadjos”, que é como quem diz, os não-ciganos, hão-de gostar de ouvi-lo.

Há um disco dele publicado recentemente (o que já não acontecia há quatro anos) no nosso país pela MVM, com o título “El Rumbero”, no selo Food for Thought. Produção de Stephan Galfas, com quem El Rumbero discutiu ideias e a forma final do projeto. Um álbum de rumbas, como não podia deixar de ser, entre as quais as conhecidas “Chica ven”, “Sei bellissima”, “Pasa” e “Angelina”. Com acompanhamento à guitarra acústica e percussão. Escusado será dizer que vai ser impossível resistir ao apelo da dança.

Como curiosidade, refira-se que El Rumbero e os restantes seis músicos (quatro guitarristas, dois percussionistas) que o vão acompanhar nos espetáculos de Lisboa e do Porto – C. Julli, A. Lacroix, M. Fernandez, M. Canterel, W. Pumpo e M. Sequera – tocarão um “set” exclusivamente acústico.

 

LISBOA, 27 DE NOVEMBRO,
PAVILHÃO CARLOS LOPES, 22H
PORTO, 28 DE NOVEMBRO,
COLISEU, 22H


21/10/2026

O Escudeiro da Távola Redonda [John Renbourn]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 25 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock >> World

 

O ESCUDEIRO DA TÁVOLA REDONDA

 

JOHN RENBOURN
Sir John Alot (5)
The Lady and the Unicorn (6)

THE JOHN RENBOURN GROUP
A Maid in Bedlam (7)

CD’s Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção

Uma imagem com texto, moldura de fotografia

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No início dos anos 70, os Pentangle eram um dos grupos de ponta do movimento de revivalismo folk britânico. John Renbourn, guitarrista do grupo (que também incluía a vocalista Jacqui McShee, o contrabaixista Danny Thompson, outro guitarrista, Bert Jansch, e o percussionista Terry Cox), cedo deu mostras de se interessar pela música antiga. “Sir John Alot” foi o primeiro disco em que concretizou esse interesse, posteriormente disseminado por obras, além das outras aqui criticadas, como “The Hermit”, “The Black Baloon” e “Enchanted Garden”. O interesse maior deste exercício prévio reside no contraste e na passagem do estilo “bluesy” e das técnicas de “fingerpicking” a uma abordagem medieval da guitarra, utilizada como se fosse um alaúde. O disco soa hoje bastante datado, revelando uma visão superficial da música antiga, por parte de Renbourn, então pouco mais que um aprendiz compenetrado.

“The Lady and the Unicorn” aprofunda as ideias do álbum anterior, abandonando em definitivo a linguagem dos “blues”. Com um acompanhamento instrumental mais “encorpado”, o álbum tem como principais focos de interesse os solos de Terry Cox, no “glockenspiel” (um carrilhão em miniatura) e a verificação de quão pouco à vontade um violinista como Dave Swarbrick se movimenta no reportório antigo. Apesar de títulos como “Lamento de Tristan”, “Veri Floris” e “Melancholy Galliard”, não seria por aqui que John Renbourn se aproximaria dos calcanhares de um Hopkinson-Smith.

Com a entrada em cena de Sue Draheim (ex-Albion Band), no violino, Keshav Sathe, nas percussões indianas, Tony Roberts, flautas e oboé, e sobretudo da vocalista Jacqui McShee, recrutada dos Pentangle (grupo, aliás, do qual ainda faz parte), a música deu um salto qualitativo, natural, já que em “A Maid in Bedlam” Renbourn infletiu na música tradicional, preocupando-se menos com a Idade Média e mais com uma caracterização exótica de “clássicos” como “Black waterside”, “John Barleycorn”, “Reynardine”, “My Johnny was a shoemaker” e “Death and the lady”. Excelentes, ao longo de todo o disco, as vocalizações de Jacqui McShee e o “quator” vocal do tema final “Talk about suffering”. Bem complementados por instrumentais onde a Idade Média se estende da Távola Redonda a Katmandu.

Jan Garbarek & Ustad Fateh Ali Khan

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 25 NOVEMBRO 1992 >> Pop Rock >> World

 

EM BUSCA DA PALAVRA PERDIDA

 

JAN GARBAREK & USTAD FATEH ALI KAHN
Ragas & Sagas
CD ECM, distri. Dargil

Uma imagem com montanha, natureza, cratera

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Capítulo mais recente na demanda de Jan Garbarek de uma linguagem universal, “Ragas & Sagas” desvenda algumas pistas da viagem. Neste compositor e saxofonista norueguês, o rótulo “world music” reveste-se de um significado muito particular. Garbarek procura, sem dúvida, sínteses e pontes entre Ocidente e Oriente. Mas mais importante do que a junção e a proximidade são o diálogo, a relação, a descoberta de jogos possíveis. Em “Rosensfole” (abordagem à música antiga da Noruega centrada na voz de Agnes Buen Garnas, retomada em menor escala no álbum seguinte, “I Took Up the Runes”, desta feita com a colaboração vocal de Marie Boine Persen numa versão de “Gula Gula”) como nestas ragas e sagas assinadas de parceria com o cantor paquistanês Ustad Fateh Ali Khan (não confundir com Nusrat Fateh Ali Khan, também cantor, membro da seita “sufi”, de origem árabe, que participou no mostruário “Passion”), o discurso do saxofone permanece singular, resistindo ao apelo da fusão com os universos estéticos sucessivamente convocados para estúdio.

Seja nos dois discos mencionados (a que poderemos acrescentar ainda “Legend of the Seven Stones”) ou em anteriores colaborações do músico com o compositor grego Eleni Karaindrou, o tunisiano Anouar Brahem ou o indiano Shankar, é imediatamente reconhecível o timbre, uma lógica e um tempo melódicos específicos do seu sopro. Procure-se então nestes exercícios de panculturalismo musical uma outra direção, detetável a partir da óbvia estimulação mútua entre os participantes em causa. A partir daqui assume especial relevo a questão da referida linguagem universal que Garbarek parece tatear sem contudo ousar por ora a dissolução no todo.

Não por acaso, Garbarek estudou latim e grego antigo, passando depois para o árabe e, por fim, o sânscrito, o mais antigo código linguístico, com vestígios escritos, conhecido. Eis-nos chegados ao domínio da palavra – vibração primordial, o Verbo criador de todas as músicas. O ponto de partida foi, em “Rosensfole”, a Noruega, em cuja música Garbarek reconheceu elementos extra-europeus, mais concretamente conexões com a Índia, Balcãs e Ásia Menor. Ele próprio define as ornamentações vocais de Buen Garnas como próximas do estilo turco/árabe.

“Ragas and Sagas” surge assim como o passo seguinte e coerente desta deslocação para Oriente. Nele são exploradas técnicas vocais indianas, como o “dhrupad” e o “khyal”, este último oferecendo vastas possibilidades de improvisação, as quais facultam a Garbarek terreno propício à explanação da sua especificidade estilística nos saxofones soprano e tenor. O diálogo destas semi-improvisações decorre sobre um contexto harmónico inconfundivelmente indiano, criado pela tabla e sarangi. Quatro ragas compostas por Ali Khan e uma “saga” escrita pelo norueguês abrem a porta ao imprevisto, jogando alternadamente na semelhança e na diferença. Pelo caminho, Jan Garbarek vai traçando as linhas e edificando os alicerces de um novo mapa e de uma obra ímpar na arte musical deste século. (8)