Pop Rock
8 JULHO
1992
OS QUATROS CANTOS DA EUROPA
Este ano em versão alargada, os III
Encontros Musicais da Tradição Europeia decorrem entre 10 de junho e 3 de
agosto. Oeiras, Guarda, Évora e Guimarães recebem a nata da música tradicional
proveniente das mais variadas regiões do Velho Continente. Na cidade minhota
concentra-se a maioria dos grupos participantes. É aí que o entusiasmo e a
adesão costumam ser maiores. Mas pode optar-se por um verão diferente e por uma
volta a Portugal em música folk.
Onze grupos e solistas participam
este ano os Encontros, pulverizando em número as duas edições anteriores.
Quantidade a que, neste caso, se junta a qualidade. Mais uma vez, a Etnia e o
seu principal responsável, Mário Alves, dão mostras de uma atitude que –
evitando qualquer tipo de concessões ao gosto massificante ou equívocos que
amiúde, neste campo musical, apenas servem para criar confusão e divisão –
pretendem acima de tudo criar nas pessoas o gosto, se não o amor, pelas músicas
tradicionais do mundo, nas suas diversas tendências e origens geográficas.
A lista de nomes é impressiva. Por
ordem alfabética: Ad Vielle Que Pourra (Quebeque, Canadá), Amélia Muge
(Portugal), Capercaillie (Escócia), Elena Ledda & Suonofficina (Sardenha,
Itália), Jean-Marie Carlotti (Occitânia, França), Liam O’Flynn (Irlanda),
Musica Nostra (Ilhas Baleares, Espanha), La Musgaña (Castela-Mancha, Espanha),
Muxicas (Galiza, Espanha, com boa vontade), Raízes (Portugal) e Vasmalom
(Hungria).
Espetáculo e rigor
Em termos de reconhecimento
internacional, os Capercaillie e Liam O’Flynn apresentam-se como as referências
mais sonantes. Os escoceses vêm aureolados com a crítica ultra-elogiosa que a
“Folk Roots” teceu ao seu novo disco, “Delirium”. Do irlandês basta dizer que
fez parte dos Planxty e é considerado um dos maiores tocadores de “uillean
pipes” da atualidade. Foi solista principal na obra sinfónica “The Brendan
Voyage”, do compositor Shaun Davey, e trabalhou, entre outros, com Kate Bush,
Mark Knopfler, John Cage e a companhia de bailado de Merce Cunningham. Nos
Encontros, o gaiteiro virá acompanhado por outro notável, Dónal Lunny (além dos
Planxty, integrou também os Bothy Band e é o produtor musical do disco e da
série que a RTP recentemente transmitiu, “Bringing it all back home”), por Noel
Martin, no violoncelo, e Nollaig Casey (ex-Oisin, colaboração em “Lead the
Knave”, com Arty McGlynn), no violino.
Ad Vielle Que Pourra, Muxicas e La
Musgaña são três grupos que, à partida, aliam a espetacularidade da
apresentação ao rigor e ao tecnicismo dos executantes, juntamente com propostas
coerentes de reformulação estilística das respetivas heranças tradicionais.
Os Ad Vielle, formados no Canadá,
são conhecidos entre nós através dos seus dois álbuns “New French Folk Music” e
“Come What May”, registos fundamentais para a compreensão do “celtic revival”
dos anos 90. Um som riquíssimo originado por sanfonas, gaitas-de-foles,
bombardas, violinos e instrumentos de corda dedilhada, servido por executantes
de técnica irrepreensível que transportam quem os ouve até regiões onde as
lendas, o humor e a magia, mais do que fronteiras de um lugar geográfico, são
um estado de espírito, um sonho vigilante, a idealização arquetípica do Futuro.
De trás, de longe e do fundo,
avançam as fanfarras de percussão, gaitas e sanfonas dos Muxicas, de Vigo, com
a Galiza vibrante na alma e um som telúrico, ao mesmo tempo visceral e poético,
que faz tremer os alicerces dos ministérios do Tempo. Com os Luar na Lubre, os
Muxicas assumem hoje a condição de herdeiros legítimos dos Milladoiro, dos
arquitetos do templo do Obradoiro e da visão solitária de Pablo Quintana.
Integram a elite dos portadores mais nobres da flâmula celta que ondula na rota
dos peregrinos da terra e das águas sacras do Atlântico. “Dasafinaturum”, álbum
número quatro da sua discografia, disponível nalgumas lojas do país, já o
revelava. Confirma-o o disco novo, “Escoitando Medra-la Herba”, que estará à
venda nas bancas durante o festival.
Trovadores do Sul
Presentes anteriormente em Portugal
por duas vezes estiveram os La Musgaña, com o disco “El Paso de la Estantigua”
no bornal. Têm já outro posterior, Lubican”, e o fogo que nunca os abandona.
Tocam uma música picaresca – do centro de Espanha, mas também das Astúrias e da
Andaluzia – de júbilo pagão, em que os anjos dão as mãos a diabretes. Vermelhos
como o sangue e a terra da meseta. Soam diferentes, as gaitas-de-foles de
Castela. E os “albogues” e “rabels”…
Jean-Marie Carlotti, devem alguns
recordá-lo dos Mont-Jóia, autores, nos anos 70, de um magnífico “Cant e Musica
de Provenca, XIIème-XXème”, gravado para a Le Chant du Monde. Agora Carlotti
viaja com a sua guitarra e a sua gaita-de-foles de cana pelos palcos da Europa,
recuperando a tradição dos trovadores provençais, dos seus irmãos primeiros –
Vidal, Ventadorn, Peirol –, contando histórias e destruindo a carapuça de
racionalismo deste final de século. Em Oeiras, será acompanhado pelo
trompetista Michel Marre, no reportório trovadoresco. Nos restantes
espetáculos, far-se-á acompanhar de um quarteto. Novas tradições nascem na
ancestral Occitânia.
Menos conhecidos são Elena Ledda
& Suonofficina e os Vasmalom. Elena interpreta o folclore da Sardenha e os
calores do Sul (sendo considerada uma das maiores intérpretes da música do
Mediterrâneo, ao lado de Maria del Mar Bonet, Rosa Zaragoza e Aurora Moreno)
com voz sinuosa, de cristal, numa música que ora se aproxima das polifonias
corsas ora se deixa deslumbrar por improvisações a que os arranjos, em disco
(no mais recente, “Sonos”, por exemplo), conferem a transparência característica
de algumas produções “new age”. No passado Elena trabalhou com Andreas
Wollenweider, se bem que hoje a sua voz se tenha libertado de todo e qualquer
artificialismo.
Os Vasmalom, da Hungria, pertencem à
mesma geração dos emblemáticos Kolinda e, como estes, levam os sons
tradicionais dos Balcãs até paragens inusitadas. “World Music” (a banda esteve
presente em vários festivais da WOMAD) da terra dos vampiros para dançar ao som
das sanfonas, gaitas, flautas, darbukas e “tapans”, entre os encantamentos
lançados pela voz de Eva Molnár, uma séria rival de Márta Sebestyén.
Um grupo das Ilhas Baleares, os
Musica Nostra, de que não temos elementos, e os portugueses Amélia Muge – “a
voz” – e Raízes, de quem pouco se tem ouvido falar desde a edição do álbum
“Caminho d’Água”, completam a (extensa) programação destes Terceiros Encontros,
a prometerem um êxito sem precedentes.