23/09/2026

Enquanto houver uma estrada [Jorge Palma]

 

cultura >> sábado, 22.04.1995

 

Jorge Palma dá “Concerto Íntimo” no Casino Estoril

 

Enquanto houver uma estrada

 

Jorge Palma em atmosfera de intimismo no auditório do antigo cine-teatro do Casino Estoril. A proposta, incluída no ciclo de “Concertos Íntimos” que está a decorrer naquela sala – iniciado com Paulo de Carvalho e que prosseguirá, em maio, com Vitorino e Luís Represas –, resultou em pleno. O viajante abriu o livro.

 

Uma imagem com Instrumento musical, música, guitarra, Cara humana

Descrição gerada automaticamente

 

O autor de “Com Uma Viagem na Palma da Mão” está a cantar e a tocar como nunca. O ambiente de descontração – parecia que todos os elementos do público eram amigos do artista – contribuiu para que tudo saísse bem. Alternando entre a guitarra e o piano, Jorge Palma baseou o concerto nas linhas de despojamento que caracterizam a sua última edição discográfica, o álbum “Só”, com versões acústicas e solitárias de composições antigas. Na primeira sequência de canções, Palma dominou o piano e a voz, arrancando a ambos uma expressividade visceral. Antológicas foram as interpretações da “Canção de Lisboa” (antecedido por uma brincadeira com as notas iniciais de “Ne me quitte pas”, de Jacques Brel), para nós um dos clássicos de sempre da música portuguesa, e “Frágil”, um tema mordaz do álbum “O Bairro do Amor”, último de originais do cantor, acabado de reeditar em compacto, juntamente com “Só” e “O Lado Errado da Noite”. “Acorda, menina”, “Terra dos sonhos”, estes dois na guitarra, “Balada de um estranho”, “Estrela do mar”, “O meu amor existe” e, em jeito de descompressão, “Deixa-me rir” completaram este primeiro ciclo de canções.

Depois de “Ao meu encontro na estrada”, de novo na guitarra acústica, foi a vez de se apresentar o primeiro convidado, o guitarrista Flak que, recém-chegado de Macau e mesmo sem ensaios, encaixou como uma luva no tom geral do espetáculo. “Jeremias”, “Longe demais” (um tema dos Rádio Macau, já repescado pelos Resistência) e mais duas interpretações para a História, “Só” e “Minha senhora da solidão”, antecederam a entrada do terceiro e último convidado, o violinista José Ernesto, amigo de longa data de Palma. Os três foram até ao fim numa cadência mais “swingada”, ao longo de “Maçã de junho”, “Lobo malvado” – com Jorge Palma a uivar no princípio e no fim e o técnico de som a alinhar na brincadeira, enchendo o som de reverberação –, “Picado pelas abelhas” e – “isto não é para ser tomado no sentido literal”, brincou – “Quero o meu dinheiro de volta”. O público, não muito numeroso mas um bom público, aplaudiu de pé, rendido a uma música e a um homem que não desiste de desafiar o sistema e a desafiar-se a si próprio.

Três merecidos “encores” deixaram no ar a promessa de mais excelente música para o resto dos espetáculos que Jorge Palma dará nestes “Concertos Íntimos”, hoje e amanhã, pelas 22h: “Junto à ponte”, conversa triste sobre o fim, entre o piano, o violino e as palavras que empurram para a água do rio, “Long black veil”, um original irlandês que faz parte do álbum dos Chieftains com o mesmo nome, numa interpretação deste grupo com Nick Cave, e, a terminar, “A gente vai continuar”. “Enquanto houver uma estrada para andar”, acrescentamos, fazendo nossos os versos da canção.

 

Nas garras de Freddie ["Mercury Tribute"]

 

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 21 ABRIL 1992 >> Cultura

 

Homenagem a Mercury, ontem, no Estádio de Wembley

 

Nas garras de Freddie

 

Freddie Mercury foi um “homem-espetáculo” em toda a aceção da palavra. Enquanto viveu, entreteve e chocou como lhe competia. O mundo do espetáculo fez-lhe a homenagem póstuma e aproveitou para lembrar o perigo dos excessos. Não se sabe se a “rainha” teria gostado.

 

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

 

            Estádio de Wembley, 72 mil pessoas na relva mais 500 milhões em frente à televisão ou de ouvidos colados à rádio, para assistir ao “Mercury Tribute” – uma homenagem do universo rock ao ex-vocalista dos Queen, vitimado pela sida em novembro do ano passado, aos 45 anos de idade – a que aderiram nomes como David Bowie, Paul Young, Lisa Stansfield, Elton John, George Michael e Annie Lennox, entre outros. O PÚBLICO seguiu o acontecimento via satélite. A aldeia global voltou a sintonizar em onda única. Com os lucros a reverterem a favor dos doentes da sida.

            Antes do início do espetáculo, já uma locutora da Correio da Manhã Rádio, visivelmente nervosa, se esmerava num chorrilho de disparates em direto, chamando Estádio Nacional a Wembley e Luís a Nuno Bettencourt. Um simples teledisco dos Queen, projetado no ecrã gigante, foi suficiente para lhe provocar “uma das maiores emoções” da sua “vida”. Mais tarde, outro locutor chamaria Def Deppard aos Def Leppard só faltando chamar Merdy Fercury a Freddie Mercury. À mesma hora a RTP, de outro modo, também provocava. Com a passagem de uma seleção de “clips” da banda, mostrando como sabe estar em cima do acontecimento. A transmissão em diferido ficava marcada para quinta-feira próxima.

No exterior do estádio, as já habituais manifestações de protesto. Desta vez com os rapazes “gay” da “Outrage”, especialistas na denúncia pública dos seus companheiros de armas não assumidos a insurgirem-se contra a presença no programa dos Guns N’ Roses. Um dos membros da organização chamou “hipócrita” ao vocalista Axl Rose e acusou a banda de “racista”, citando a propósito um verso de uma das canções: “niggers get out of my way”. Nada preocupados com questões ideológicas, os jovens formavam bicha (em singela homenagem a Freddie Mercury) para entrar no recinto.

 

Música preservativa

 

Os Metallica, banda de “heavy metal”, homenagearam da única maneira que conhecem, ou seja, a ferro e fogo, com uma salva de artilharia pesada que deve ter feito Freddie Mercury dar cambalhotas no túmulo. Os Extreme vieram a seguir. Tocaram um “medley” de canções dos Queen que atingiu o auge em “Radio ga-ga”, com a multidão a cantar o refrão em uníssono e Nuno Bettencourt a dar “show” na guitarra elétrica. Depois foi a vez dos Lef Deppard – quer dizer, dos Def Leppard, a tal banda do baterista que só tem o braço esquerdo e toca melhor com o direito – fazerem mais uns minutos de barulho com “Animal” e “Let’s get rocked” e aquecerem os ânimos com “Now I’m Here”, ajudados por Brian May, um dos sobreviventes dos Queen.

Roger Taylor, outro dos Queen vivos, apresentou Bob Geldof, símbolo vivo de todos os “aids”. Geldof chegou vestido de flores, acompanhado por um acordeonista e dois guitarristas. Despachou-se cedo, com um “Too late God” composto especialmente para a ocasião. Foi interrompido pelos Spinal Tap, supostos parodiantes do “heavy metal”. O único tema que tocaram não pareceu uma paródia.

Um dos momentos mais belos do espetáculo foi proporcionado pela Top-model Cindy Crawford que não precisaria sequer de apresentar os U2 para deslumbrar. Os irlandeses limitaram-se a enviar de Sacramento uma gravação de “Until the end of the world”.

Alheios à polémica provocada, os Guns N’ Roses, com Axl Rose, o vocalista “hipócrita” e “racista”, de lenço na cabeça e outro à volta da cintura a fazer de saia, deram uma lição de profissionalismo que incluiu o capítulo de Dylan “Knocking on heaven’s door”. Os sons, os gestos e a presença de duas vocalistas de apoio agitaram a assistência de ponta a ponta – se assim se pode dizer –, fazendo de novo assomar o espectro da sida. Após alguns minutos de “afrojazz” pelos Mango Groove, em direto de Joanesburgo, na África do Sul, Elizabeth Taylor veio dar o conveniente tom sério ao “Tributo a Freddie Mercury”. Dirigiu-se, emocionada, à multidão, forneceu números alarmantes e lançou o alerta da praxe: “hetero sex”, “gay sex” ou “bissexual sex”, mas sempre “safe sex”. “Use a condom.”

 

A verdadeira cantora é a cantora que se esforça [Eugénia Melo e Castro]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 ABRIL 1992 >> Cultura

 

Eugénia Melo e Castro e Wagner Tiso no D. Maria

 

A verdadeira cantora é a cantora que se esforça

 

Segunda-feira, no Teatro Nacional, Geninha esforçou-se, deu tudo por tudo para se parecer com uma grande cantora. Na prova dos nove de “Terra de Mel – 10 Anos Depois” mostrou que ainda está longe de o ser. Mas que está melhor, está. Dispensado de exame, Wagner Tiso, um pianista e músico fabuloso, rubricou os melhores momentos da noite.

 Uma imagem com texto, pessoa

Descrição gerada automaticamente

            Sala esgotada, anunciava a bilheteira. É relativo. Lá dentro sobravam cadeiras vazias, não muitas, portanto houve quem decidisse não passar por Geninha no Rossio, em Lisboa. Hoje às 22h00 no Porto, na Casa das Artes, haverá mais “Terra de Mel”.

Sobre o palco do Teatro D. Maria II, um piano e um castiçal de velas, eram os únicos adereços de um recital que primou pela discrição. Exceto quando Geninha se entusiasmou e a voz não conseguiu acompanhar o entusiasmo. Mas já lá iremos.

Wagner Tiso deu início ao espetáculo, a solo, em dois temas interpretados de forma sublime ao piano: “Chorava”, da sua autoria, e um Villa-Lobos. Brasil interiorizado, de dramas e tragédias que não cabem no samba nem nas telenovelas. Brasil sublimado no trópico da solidão. Estava preparado o ambiente para a eclosão triunfante da pretendente a diva. Primeiro surgiu só a voz, pelas colunas, em “Hei-de amar-te até morrer”. Depois o corpo, franzino, envolto num vestido decotado de cetim vermelho, apropriado para os jogos entre a inocência e a sedução que Eugénia Melo e Castro tão bem sabe jogar.

 

Trilogia de Wagner

 

Sucederam-se as canções, recentes e antigas, entre as quais “Noite sem Luar”, composta em 1907 por Godofredo Guedes, mas que tudo indica estar ainda dentro do prazo de validade. Como a voz aliás. Chegada à casa dos 30, Eugénia Melo e Castro está a cantar melhor do que nunca e vê-se que faz gala nisso. Nos médios graves, nas surdinas, nos arroubos quase declamatórios, a emoção passa, sente-se que há naturalidade. Infelizmente Geninha entusiasma-se e quer ir onde a sua voz não alcança, perdendo-se em estridências metálicas, gritadas, que por vezes, como aconteceu sempre que a cantora “esticava” a garganta, atingem o perigoso registo “Castafiore”, notório sobretudo nos “‘scats’ perfuradores de tímpanos” que se permitiu numa ou noutra canção. Mas tudo bem, Geninha esforçou-se e o público, que gosta sempre de ver um artista a esforçar-se, aplaudiu.

Consumado o esforço, Geninha retirou-se do palco para descansar. Wagner Tiso aproveitou e voltou a deslumbrar, em mais três peças instrumentais: um “Chorinho” de Waldir Azevedo, um “baião” com a sua assinatura e um tema de Tom Jobim. Grande, enorme pianista, Wagner Tiso fez uso magistral do pedal de “decay”, pondo o piano a arquejar, cortando reverberações para lhe soltar de novo a respiração e o “choro”. No “baião” passou de “clusters” oceânicos para rendilhados milimétricos tecidos com a perícia de um cirurgião e apoiados por uma mão esquerda ultra swingante. Da maneira como interpretou a música de Tom Jobim basta dizer que o fez com a profundidade e o sabor a derradeiro de um Carlos D’Alessio. Não foi “India song” foi uma “Brasil song”, “Eu sei que eu vou te amar”.

 

Arrojos de uma “louca de amor”

 

Ainda mal refeita da emoção, a plateia voltou a acomodar-se às investidas da artista principal, pelo menos no cartaz. Durante uma canção, Geninha afaga com volúpia uma coxa, depois a cauda do piano. É o momento mais erótico do espetáculo a anteceder outros movimentos não menos arrojados da cantora que a seguir cruza os braços sobre o decote, na denominada “posição sarcófago” antes de se atirar a um “no puedo ser feliz”, cantado em espanhol e em que Geninha positivamente se espremeu para simular os transportes da paixão.

“Louca de amor”, de Cruz e Sousa e Carlos Galhardo (o mesmo de “Maldita Cocaína”), que será o título do próximo álbum de Eugénia Melo e Castro, prosseguiu em idêntica veia de loucura cujo auge foi atingido numa canção em inglês, toda gemidos, toda “jazz singer”, com versos assim, sobre a preguiça em fazer certas coisas: “It’s not that I shouldn’t/ it’s not that I wouldn’t/ it’s not that I couldn’t/ it’s simply because I’m the laziest girl in town”. A verdadeira cantora é a cantora que canta em estrangeiro.

Tempo a chegar ao fim, quase duas horas de espetáculo que vão dar a “O Amor É Cego e Vê” e a uma rapsódia que incluiu “Lua Feiticeira”, como não podia deixar de ser. Flores para Geninha, simpatia, beijinhos e um “encore” final: “Terra de mel” e uma confissão em verso de canção: “A voz é um instrumento que às vezes não posso controlar.” Não foi tanto assim.

 


 

 

Uxía nas cidades da lua

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 ABRIL 1992 >> Pop Rock

 

UXÍA NAS CIDADES DA LUA

 

No recente Festival Intercéltico, a cantora galega Uxía, em apenas duas canções, redimiu “Bailia das Frores” de todos os pecados. Com um álbum de viagens solitárias, “Entre Cidades”, agora editado, a antiga vocalista dos Na Lúa dá testemunho da Galiza ao resto do mundo.

 

Uma imagem com interior, pessoa, cabelo, pousar

Descrição gerada automaticamente

 

Uxía abandonou os Na Lúa. No contexto instrumental da banda, a voz soava a mais. Sem ela, a Lua escureceu e deixou de brilhar. Em Portugal, integrada na “Bailia das Frores”, do português Tentúgal, mostrou que ela é quem tem razão. Acabou de lançar no mercado o álbum a solo “Entre Cidades”, que terá provável distribuição entre nós pela Mundo da Canção. Novos músicos e novas ideias empurram-na para uma via intermédia entre a tradição galega e a modernidade. O PÚBLICO esteve com ela no Porto, para saber da lua, das cidades sem “textos anacrónicos” e da vida musical a norte do Minho.

PÚBLICO – Que motivos a levaram a abandonar os Na Lúa?

UXIA – Sobretudo na fase recente do grupo, comecei a ter dúvidas quanto à minha função dentro dele. Os Na Lúa sempre foram em primeiro lugar um grupo instrumental, que ocasionalmente trabalhou com a voz. A inclusão da minha voz acabava por não resultar e por tornar-se secundária. Havia pouca coerência. Isso notava-se, na diferença grande que existia entre os temas onde eu cantava e os instrumentais – era quase uma mudança de estilo.

P. – Depois do abandono, tem já algum novo projeto?

R. – Sim, estou a trabalhar com um grupo de músicos com quem posso fazer aquilo que quero: Cándido Lorenzo, que toca clarinete, flauta e “gaita” [gaita-de-foles]; Antón Rodriguez, dos Na Lúa, “gaita”, flauta e saxofone; Xosé Paz Antón, também dos Na Lúa, bateria e guitarra elétrica e Natcho Muñoz, teclados.

P. – Os mesmos que participam na sua estreia discográfica a solo, “Entre Cidades”?

R. – Não, este disco foi feito praticamente só com o Quico [Francisco Alvarez] e o Xosé Paz Antón, dos Na Lúa, e o Júlio Pereira, que toca sintetizador num dos temas. É um disco de procura de uma linha musical própria, que pode soar um pouco frio por haver poucos músicos e instrumentação.

 

O despertar das vozes

 

P. – “Entre Cidades” tem pouco que ver com a música tradicional...

R. – Sim, é verdade, se bem que nalguns casos os timbres da voz derivem daí e noutros apareça uma ou outra melodia popular. No futuro, penso que nos iremos voltar mais para a música popular. Ou pelo menos procurar uma via intermédia. O problema diz respeito, sobretudo, aos textos populares, que acabam às vezes por ser um pouco anacrónicos. Por vezes não me sinto identificada com as palavras. Neste momento estou eu própria a escrever alguns poemas, algo que, por uma espécie de pudor, nunca fiz anteriormente.

P. – Qual a sua posição sobre a música tradicional que se faz hoje na Galiza, em que de uma primeira fase de forte componente nacionalista se passou para cedências sucessivas ao rock, como aconteceu por exemplo no recente “Intercéltico”, com os Matto Congrio, ou os próprios Na Lúa, há dois anos?

R. – São opções, todas elas respeitáveis. De certa forma, ninguém sabe muito bem para onde ir. Nalguns casos, experimentou-se sem se aprofundar. Tanto os Matto Congrio como os Na Lúa e outros grupos deveriam aprofundar mais a sua música até chegar a um estilo pessoal que não teria forçosamente de se incluir no lugar-comum do “folk rock”. Mas é de toda a justiça frisar que na Galiza estão a surgir grupos com novas ideias – os Armeguin, por exemplo [editaram o álbum “Viaxantes da Luz”, uma espécie de “new age” tradicional galega]. Por outro lado, ressurgem um pouco por toda a Galiza as “pandeiretadas” tradicionais que estavam esquecidas e os Milladoiro recuperaram em “Galicia no Pais das Maravilhas”. Também se assiste ao despertar das vozes, tão menosprezadas na Galiza.

P. – Como explica a predominância dos grupos instrumentais no panorama da música tradicional galega?

R. – O que se passa é que muitos grupos se inspiraram nos Milladoiro, que são exclusivamente instrumentais. Mas, para um país que pretenda fazer uma música que se possa considerar sua, é imprescindível cantar.

 

Coligação galaico-portuguesa

 

P. – Fala-se muito da aproximação e da identidade cultural entre o Norte de Portugal e a Galiza, mas na prática pouco tem sido feito no sentido de uma colaboração efetiva e regular entre as duas regiões.

R. – Sou uma grande defensora da ligação entre Galiza e Portugal, mas reconheço que pouco tem sido feito por ambas as partes. No meu caso e dos Na Lúa, desde o início que houve contactos e referências portuguesas: o maior êxito dos Na Lúa chama-se “Dublin/Coimbra”. Em “Estrela de Maio”, há o tema “As Flores de Viana” e uma versão do Zeca Afonso “Maio maduro maio”. Nas “Ondas do Mar de Vigo”, o produtor foi Júlio Pereira e o Fausto cantou uma canção de parceria comigo. No meu disco a solo, o Júlio Pereira volta a estar presente e há uma canção sobre Lisboa... Em termos de música popular, Portugal é dos países mais ricos que tenho conhecido. Vou propor ao Tentúgal fazer uma espécie de circuito entre a Galiza e Portugal, com espetáculos meus e dos Vai de Roda.

P. – Parece existir uma certa desunião entre os músicos galegos que impede uma maior projeção da música galega no mundo.

R. – Fundou-se em tempos, na Galiza, uma associação que procurava criar uma plataforma de entendimento entre os músicos. À terceira reunião, a associação fechou... Os músicos galegos são um pouco anárquicos, e tudo acabou por ficar muito confuso. De qualquer forma, foi a primeira vez que na Galiza se juntaram cerca de 15 grupos para discutir ao redor de uma mesa. Quanto à televisão e à rádio oficiais, marginalizam por completo esta música. Na Catalunha houve um protesto público da Maria del Mar Bonet. Aqui há urgência em fazer a mesma coisa.

P. – Um programa como Mar a Mar, que passou durante algumas noites na RTP, serve de algum modo os interesses da genuína música da Galiza?

R. – Era um programa mau. Muitos grupos galegos, a maior parte de segunda fila, passaram por aí, mas realmente não faz sentido pôr um “ballet” de “não sei quê” no mesmo cenário de um grupo folk, que normalmente saía sempre desvalorizado ali metido no meio. Era necessário que a televisão tivesse mais imaginação, um programa do tipo do vosso Outras Músicas. O Mar A Mar dava uma imagem equivocada da Galiza.

 

K.D. Lang - Ingénue

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 ABRIL 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

ÂNIMA OU (DES)ANIMUS, EIS A QUESTÃO

 

K.D. LANG
Ingénue
LP/CD, Sire, distri. Warner

Uma imagem com texto, peruca

Descrição gerada automaticamente

            Depois de se afirmar como um dos maiores nomes da country atual, K.D. Lang desfez todas as dúvidas e arrasou com todos os preconceitos. Para ela, Nashville e a country acabaram. “Ingénue” é um disco de emoções à flor da pele, de relações perdidas e reencontradas no deserto das grandes desolações interiores. E uma voz fabulosa embalada por arranjos capazes de provocar um pranto convulsivo nas almas mais sensíveis. “Anima” ou “animus” eis a questão.

            Para K.D. Lang, é irrelevante em que lado da barricada do amor se está. O problema é a barricada dos desânimos. O problema é K.D. Lang, quando canta: “Something in me puts love into fear”. Ancorando em influências como Peggy Lee, Julie London e Carmen McCrae, o ambiente de “Ingénue” só encontra paralelo recente em Mathilde Santing (de “Water Under the Bridge”) ou na operacidade dramática de Marc Almond, sem esquecer Marianne Faithfull, que por vezes também chora assim. Os violinos e as cordas são cascatas lacrimejantes. Há acordeões parisienses, Marlene Dietrich, ecos de Joni Mitchell e uma “pedal steel” tão vasta e profunda como um oceano.

            Orquestras de nevoeiro dão lugar a sombras “jazzy” nos bares onde a noite é mais fria. “My body’s frozen and my heart is cold” é um entre muitos versos que ajudam a compreender um álbum triste, sobre experiências amorosas ou a “ausência delas” – como refere a cantora –, o que é ainda mais triste. Um vale de lágrimas servido em cálice de cristal. (9)

A Câmara Assassina e outros desenhos animados [John Zorn, G.O.D., The Carl Stalling Project]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 ABRIL 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

A CÂMARA ASSASSINA e outros desenhos animados

 

JOHN ZORN
Film Works, 1986-1990 (8)
CD, Elektra Nonesuch, import. Contraverso
 
GOD
Possession (7)
CD, Venture, distri. Edisom
 
THE CARL STALLING PROJECT
Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958 (7)
CD, Warner Bros., import. Contraverso
 

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

 

            A música de John Zorn é por natureza cinematográfica. O saxofonista e compositor inglês disseca os sons, retalha-os e reconstrói-os segundo um processo de montagem em tudo semelhante ao do cinema. Sobretudo desde “Big Gundown”, Zorn tem vindo a entregar-se a um meticuloso reprocessamento sonoro de variadíssimos estilos e “inputs” musicais que, ao invés de tenderem para sínteses aglutinadoras, disparam em vertigem centrífuga, em direção a uma “micro-música”, chamemos-lhe assim, de ampliação e revalorização de pormenores. Como se a Zorn interessasse estudar o filme, fotograma a fotograma.

            Estética de fragmentação já presente em obras como o citado “The Big Gundown” (ainda sustentada pelas partituras de Ennio Morricone) e “Spillane” (outra referência explícita ao universo cinematográfico, neste caso ao “filme negro”), na longa dissertação sobre Godard incluída no álbum de homenagem a este cineasta, editado pela Nato, e finalmente levada ao extremo na autodevoração de “Naked City” e “Torture Garden”.

            “Film Works” reúne as bandas sonoras compostas por Zorn para os filmes “Hite and Lazy”, de Rob Schweber, “The Golden Boat”, de Raúl Ruiz, e “She Must be Seeing Things”, de Sheila McLaughlin, e uma versão “pastische” de “The Good, the Bad and the Ugly” para um anúncio da Camel. As imagens sonoras de Zorn são sinónimo de agressão. O desenho da capa – uma câmara de filmar que é ao mesmo tempo um revólver (símbolo/ícone já anteriormente presente em “Spillane”, “Deadly Weapons”, com Steve Beresford e David Toop, e “Naked City”) – ilustra bem o modo como o filme roda no cérebro do seu autor.

Mais próximo de “Big Gundown” e “Spillane” do que das torturas sónicas dos Naked City, “Film Works” apresenta-se ainda como uma série de exercícios exploratórios sobre linguagens musicais autónomas (blues, country, jazz, ambiental, no caso das composições para Raúl Ruiz, reproduzidas sob a forma de “géneros” anedóticos e arquivadas em títulos como “Jazz oboes”, “Horror organ”, “Slow” ou “Rockabilly”), com a diferença de que aqui cada um deles se compartimenta e arruma num tema específico, com tempo e espaço suficientes para respirar. Como se desta feita Zorn (acompanhado pela “troupe” do costume: Robert Quine, Arto Lindsay, Carol Emanuel, David Weinstein, Ned Rothenberg, Frisell, Previte, etc.) optasse por escrever o índice completo e detalhado da sua obra, de modo a facilitar ao ouvinte a decifração do labirinto.

John Zorn figura como músico convidado em “Possession”, embora em termos sonoros os God não se afastem em demasia do universo estético/terrorista dos Naked City, com quem partilham uma especial preferência pelas virtudes do sadomasoquismo. No folheto interior, entre corações de metal, máscaras e vísceras sortidas, os God deixam clara a imagem que fazem do amor: “Being person who is owned and fucked becoming someone who experiences sensuality in being possessed.” Aqui o filme é de horror e o som abrasivo, feito de massas sonoras em descargas contínuas de ódio e distorção. De “Fucked “ e “Return to hell” a “Soul fire” e “Hate meditation”, os God mostram que são feios, porcos e maus. Registe-se como curiosidade a inclusão no grupo de Tim Hodgkinson, que integrou a formação original dos Henry Cow e agora se vê metido no inferno.

Antecedente principal e referência paradigmática das estratégias Zornianas, a obra de Carl Stalling prefigura-se, entre os anos 30 e 50, como uma das mais revolucionárias da época na América. Vinte e poucos anos ao longo dos quais Stalling compôs as bandas sonoras para os desenhos animados de Tex Avery para a Warner. “The Carl Stalling Project” reúne gravações originais dessa era dourada da animação. Cinco anos antes da sua morte, referia-se nestes termos ao cinema de animação atual: “Têm tantos diálogos que a música deixa de ter significado.” Entre as tropelias de Bugs Bunny e Daffy Duck, a música destas pequenas sinfonias delirantes congrega em segundos toda a história da música americana que vai de Ellington a Copland, de Ives a Cage, intercalada pelo “Mickey mousing” – termo técnico que designa os ruídos onomatopaicos que acompanham a ação e os distúrbios das personagens animadas.

 

22/09/2026

Em Público [Jorge Palma]

 

pop rock >> quarta-feira, 15.09.1993

EM PÚBLICO

 

JORGE PALMA*

 

Uma imagem com Cara humana, pessoa, vestuário, mamífero

Descrição gerada automaticamente

 

Viajante das músicas, de lugares, de si próprio. Aceita a definição?

Viajante um bocado forçado, neste momento... Um gajo vai arrecadando coisas e às tantas dá por si com coisas a mais, uma tralha que nunca mais acaba!

 

No princípio não era assim...

No princípio era um saco e chegava... mas um gajo vai arrecadando coisas... responsabilidades... o espírito do viajante, porém, feliz ou infelizmente, não morre e um gajo vê-se perante uma imagem de si próprio que não é a ideal. Às tantas, com as responsabilidades, dá por si a dizer: “Mas eu não posso viajar assim!”

 

Quer dizer que era um nómada e que agora se viu forçado a ser sedentário?

É isso. E não posso ignorar factos concretos como por exemplo o meu puto. Neste momento seria um disparate, na minha maneira de ver... Não posso ir para África ou para outro sítio qualquer e levá-lo comigo. O gajo precisa de estar na escola e criar raízes e amigos...

 

Não quer que saia ao pai, é isso?

[Risos]. Não me importava que saísse a mim, mas eu sou um sobrevivente, fiz toda a espécie de asneiras e sobrevivi! Mas como é que eu posso fazer em relação ao meu puto? Tento protegê-lo, quero que ele seja feliz... Mas como é que um gajo como eu lhe diz para fazer isto ou aquilo? Ele já me responde: “Então e tu?”

 

Disse que sobreviveu. Sobre “o fio da navalha”, utilizando a expressão de Somerset Maugham?

Sim, confesso que tenho lá o livro mas ainda não o li, como muitos outros... É o “living on the edge”. Conheces o vídeo dos Metallica? O gajo está a tocar guitarra em cima de uma linha de comboio, no momento preciso em que o comboio vai passar, o gajo dá um único passo em frente e sai fora da linha. O comboio passa e continua tudo na mesma, ninguém deu por nada. Isso é “timing” que eu acho que tenho tido...

 

Nessa vida de viagens que levou, lembra-se de uma que o tenha marcado, pela positiva ou pela negativa?

Tenho saudades de uma viagem em que vim à boleia da Dinamarca. Comecei com um gajo sueco que tocava contrabaixo comigo. O gajo desistiu ao fim de uma hora, foi apanhar o comboio. Viajar com um contrabaixo é complicado... Fiz duas vezes essa viagem. Na primeira cheguei onde queria, uma aldeia onde vivia a namorada do meu bandolim. Cheguei de Alfa-Romeo, com o número de telefone da última senhora que me tinha dado boleia e por quem eu estava apaixonado. Devorámos o supermercado lá da terra, que era dos pais da namorada do meu amigo. Da outra vez demorei três dias para atravessar a Alemanha. Foi na altura dos Bader-Meinhoff, dormi na auto-estrada, sem saco-cama, sem nada, com a guitarra ao lado, à chuva e a ouvir tiros. Disse para comigo: “O melhor é não me mexer daqui!” Acordei, sozinho, ao fim de quatro ou cinco horas de sono, e pensei: “Estou vivo. Agora, o melhor é ir pela Bélgica [risos]. O que é que paga isto, pá?”

 

A propósito de viagens, de uma vez por todas, o seu álbum “Viagens na Palma da Mão” é ou não uma referência explícita ao ácido?

Coincide. Eu andava no segundo ano de Engenharia, na Faculdade de Ciências e a coisa foi perdendo o interesse, completamente. Cada vez mais e mais estava envolvido em esquemas de orquestrações e comecei a ganhar dinheiro com a música. Era puto, tinha 22 anos, e quando arranjava coragem para ir às aulas práticas (às teóricas não era preciso!), havia greves e confusões, o pessoal aos gritos a insultar os professores. Por isso, “ciao”, acabou.

Fui para a Dinamarca e, altamente influenciado pelo rock sinfónico dos Genesis, Van Der Graaf, Yes, Soft Machine, fui ter com um gajo com quem tinha tentado encenar “Godspell” em Portugal, que tinha uma casa enorme e um piano de cauda onde eu construí esse primeiro álbum. Fi-lo em inglês porque não sabia quando voltaria para Portugal e estava com uma “fitada” em Inglaterra. Depois, deu-se o 25 de Abril. Hesitei, voltei para Portugal. E quando volto gravo o primeiro álbum – “Viagem na Palma da Mão”. Antes do ácido. O ácido vem depois. Nessa altura era ópio e haxixe. Na Dinamarca tinha-se de tudo...

 

O ácido, o ópio e o haxixe influenciaram a sua música?

O que é que eu teria sido se não fosse isso tudo? Era de certeza diferente, se calhar era um gajo muito mais atinado. Mais pontual, por exemplo...

É uma questão de espírito – tu sabes que existe aquilo e queres experimentar e tem sido sempre esta a minha abordagem das coisas. Mas há coisas em que um gajo fica “agarrado”. Os copos, os cigarros... O xutos, a heroína...

 

Conseguiu livrar-se facilmente disso?

Foi relativamente fácil. Apesar de ter havido um ano em que “enfiei” de tudo, acho que não estava vocacionado para ali, não era o que me interessava. Mantive um distanciamento, apesar de saber que há aqui um problema... um gajo tem que se alienar um bocado, há uma força que falta às vezes – ou pelo menos um gajo pensa que falta –, precisa de ir buscar estímulos...

 

Essa alienação é inevitável?

Acho que ainda conseguia “limpar-me” fisiologicamente se as condições ideais existissem. Só que elas não existem... De que é que me serve fazer ioga ou comer macrobióticos, para depois levar com uma camioneta? Eu vivo aqui e por isso tenho que pactuar com o esquema vigente. Não posso ser um ET na minha terra. Idealizo coisas, tomo conhecimento de coisas desagradáveis, mas não me posso esquecer de que estou aqui, no Príncipe Real, num bar, e não vou beber água – vou beber “whisky” ou cerveja e vou fumar cigarros. Porque eu já experimentei beber água e não fumar e depois comecei a olhar para os gajos e pensei: “Isto está mal! [risos]? E “ouvi” silêncios gélidos e disse: “Porra, eu não quero esta merda!” Eu quero o pessoal a beber e a divertir-se...

 

Por vezes dá ideia de que existem dois Jorges Palmas: o do conservatório, perfeccionista, e outro com a voz completamente rebentada, da desbunda, sem controlo. Tem uma explicação para isso?

Há uns tempos que não era convidado para tocar piano como músico de estúdio e ontem fui tocar. Estive lá três horas a tentar perceber o que é que os gajos queriam que eu fizesse. Não tenho escrito canções nos últimos tempos, tenho escrito letras quando me pedem... Tenho estado a evitar um reencontro com uma realidade que é a minha... Hoje vou ver os Xutos e não sei o que vai acontecer. Se eu tiver uma sessão de estúdio amanhã ou qualquer coisa importante, é melhor ir ver os Xutos e dormir uma hora ou duas. Se eu for para a cama não consigo dormir a pensar naquela merda. Já lá vai o tempo em que eu tomava “drunfos”...

Tenho dificuldade em dormir porque estou a imaginar tudo, a viver tudo antecipadamente. Eu sei que sou muito desastrado e que muitas vezes estrago as coisas por tê-las antecipado, e depois quando lá chego já não tenho a energia que tinha umas horas antes. Não dormi, bebi demais e nem sequer é uma perspetiva egoísta, é a minha maneira possível de ser. Se acontecer alguma coisa comigo neste momento, esqueço-me do que é que vem a seguir. O importante é o que está a acontecer agora. Sou um hedonista.

 

Depois de “Só”, lançado em 1991, de canções antigas acompanhadas ao piano, tem algum novo trabalho em perspetiva?

Estou a trabalhar numa espécie de complemento desse disco. Terá quatro guitarras elétricas, bateria, gravado ao vivo, sem artifício nenhum. Eu sou o guitarrista, faço os acordes e canto, outro é o Zé Pedro com a sua Gibson, o Flak também com uma Gibson, o Alex no baixo e o Kalu na bateria. O título vai ser “Palma’s Gang ao Vivo no Johnny Guitar”.

 

Fechemos o ciclo. É um nómada, um viajante, mas dá impressão que Lisboa desempenha um papel muito importante na sua música. Se Lisboa fosse mulher, como a definiria?

Uma puta! [risos]. Uma puta morena...

 

* Cantor, compositor, guitarrista, pianista, viajante, hedonista. O próximo álbum, com o título “Palma’s Gang ao Vivo no Johnny Guitar”, será lançado em breve pela Polygram.