Pop Rock
29
de Abril 1992
ESTRATÉGIAS PLURALISTAS, PONTO POR PONTO
A
chamada “música alternativa”, “new music”, ou como lhe queiram chamar, vai ter
um novo selo, distribuído por uma multinacional. Chama-se Point Music e nasceu
da associação das produções Euphorbia com a Philips Classics. O projeto,
idealizado por Philip Glass, exige aos seus artistas a recusa dos formatos
comerciais tradicionais, a vontade de experimentação e um trabalho dirigido a
auditórios alargados.

“Progressive work é a designação geral inventada
por Philip Glass para qualquer música suscetível de integrar o catálogo da
Point Music que em Portugal terá distribuição Polygram. O objetivo é divulgar
“músicos sérios” e obras que escapem a qualquer categorização. Obras “clássicas”
mas não “institucionais” nem “académicas”. Da lista de edições, exclusivamente
em CD, da Point Music fazem já parte três discos com datas agendadas de saída:
“Mapa”, do grupo brasileiro Uakti, em abril, a ópera “The Manson Family”, da
autoria de John Moran, em junho, e “The Screens” de Philip Glass com o músico
africano Foday Musa Suso, em setembro. Em agenda estão trabalhos de Todd Levin,
John Gibson, Scott Johnson (autor desse manifesto da colagem sonora que é “John
Somebody” e da banda sonora de “Patty Hearst”) e Jaron Lanier.
Pelas amostras fica clara uma das
ideias-base do projeto: o encontro e interação entre a cultura ocidental e a do
chamado “Terceiro Mundo”. A Point Music afirma-se ainda vocacionada para a
divulgação de novos talentos. Com a condição de Philip Glass gostar.
Se do lado da Euphorbia,
representada por Glass, Kurt Munkacsi e Rory Johnston, há a preocupação de
levar estas “músicas difíceis” ao maior número possível de auditores; do lado
da Philips vai-se mais longe e não se esconde o objetivo de tornar, a curto ou
médio prazo, a Point Music numa editora de música contemporânea de primeira
linha.
Monstros
De formação clássica, os Uakti,
Marco Antônio Guimarães, Paulo Sérgio Santos, Artur Andres e Décio de Souza
Ramos, oriundos de Belo Horizonte, Brasil, tornaram-se notados pela sua
participação em “Rhythm of the Saints”, de Paul Simon. Os quatro tocam
instrumentos como o violoncelo e o clarinete, mas sobretudo uma panóplia
monstruosa (“Uakti” é o nome de um monstro mítico cujo corpo era um instrumento
musical) de percussões feitas de todos os materiais imagináveis: madeira,
vidro, pedra, metal, plástico, bambu, borracha… O resultado do seu
manuseamento, alguém o descreveu como “um cruzamento de Steve Reich, ragas
indianas e uma orquestra gamelão”.
“Manson” é apelido que evoca crime,
fanatismo e banhos de sangue. John Moran pegou na personagem de Charles Manson
e na sua comunidade “religiosa” para a partir delas compor uma ópera de
pesadelo. “The Manson Family”, encomendada por Jed Wheeler para o festival do
“Lincoln Center’s Serious Fun!”, mistura samples do álbum branco dos Beatles
com gravações de Charles Manson, responsável pelo assassínio, entre outros, da
atriz Sharon Tate, e de Lynette Fromme, membro da “família” acusada da
tentativa de assassínio do Presidente Gerald Ford. Na lista de cantores figura
o nome de Iggy Pop. “The Manson Family” é um disco sobre manipulação e o lado
negro do “Verão do amor” dos anos 60.
Para John Moran, as personagens de
horror retratadas na sua ópera “representam os mesmos arquétipos que podem ser
encontrados na tragédia grega”. A revista “Newsday” preferiu chamar-lhe “uma
recriação convincente de um pesadelo, perturbante e esquizofrénico, e uma
evocação do lado errado da psicadelia”. Quanto a Moran, foi acusado de fazer a
apologia do criminoso e aconselhado “a manter-se longe das ruas”. Como
precaução. Do currículo anterior do artista constam obras como “Hospital (Night
Nurse)”, que é parte do ciclo “Circus of Eternity”, inspirado na noção budista
de “samsara” (a ilusão, o “inferno sem fim”), “Haunted House” e “Solar System”.
Não é brinquedo…
Ecrãs
“The Screens”, composição baseada na
obra homónima de Jean Genet, assinala a colaboração entre o minimalista
americano Philip Glass e Foday Musa Suso, natural da Gâmbia e genuíno “mandingo
griot” – músico e contador de histórias da tribo, estatuto ganho por hereditariedade
que exige anos de treino e educação intensos. Data de 1989 o encontro de Glass
como Foday Suso, quando de uma viagem do primeiro a África, durante a
preparação da banda sonora para o filme “Powaqqatsi”, de Godfrey Reggio, na
qual o músico africano viria a participar.
Em “The Screens”, que relata
episódios da guerra travada entre França e Argélia (1950-1962), procura-se o
confronto entre dois tipos de cultura diferentes e o exame detalhado da
“opressão, a ausência de esperança e a perversidade”, em que os ecrãs aparecem
como uma metáfora sobre “as barreiras que escondem a realidade por detrás da
superfície”.