06/11/2026

Daniel Lanois - For The Beauty Of Wynona


pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993

 

Daniel Lanois
For the Beauty of Wynona
CD Warner Bros., distri. Warner Portuguesa


 








Embora na capa apareça uma rapariga nua, armada de um punhal, Wynona é o nome de uma pequena localidade canadiana onde o jovem Daniel cresceu e se fez homem. A jovem será quando muito a Beatrice de uma das canções. Depois de “Acadie”, o guitarrista, produtor e co-produtor, com Brian Eno, de inúmeros projetos (U2, Bob Dylan, Robbie Robertson, Jon Hassell, Roger Eno, Michael Brook, Peter Gabriel...), volta a insistir na criação de atmosferas subjetivamente (objetivamente, no tema “The collection of Marie Claire”) associadas à cena “acadiana” e à cultura “cajun” do Canadá, embora menos que no álbum anterior, num trabalho que privilegia antes de mais os arranjos. Se no aspeto da feitura e combinação de sons, “For the Beauty” faz jus ao título, já as prestações vocais de Lanois deixam um pouco a desejar, não tanto pela técnica em si, mas pelo que revelam de indecisão e falta de uma orientação definida. Curiosamente, a voz mostra-se permeável à influência de alguns nomes com quem o músico trabalhou: Bob Dylan em “Brother L.A.” e “Rocky world”, Peter Gabriel em “The unbreakable chain” e “Indian red” e Bono, dos U2, em “Lotta love to give” e “For the beauty of Wynona”. Lou Reed (“Still learning how to crawl”), Joe Cocker (“The messenger”) e até John Lennon (“Death of a train”) parecem, também eles, ter encarnado vocalmente no canadiano. O que significa que, por enquanto, Daniel Lanois não se conseguiu libertar do estigma do produtor que procura uma voz e uma via pessoais. (6)

Carlos Paredes, José Afonso, Luiz Goes - Carlos Paredes, José Afonso, Luiz Goes


pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993

WORLD

 

O QUE FAZ FALTA É INFORMAR A MALTA

 

CARLOS PAREDES, JOSÉ AFONSO, LUIZ GOES
Carlos Paredes, José Afonso, Luiz Goes
CD Emi – Valentim de Carvalho



 










Reedição do álbum lançado pela primeira vez em 1956 e posteriormente reeditado em 1983, reunindo três ilustres representantes da tradição coimbrã e nomes míticos da música popular portuguesa. “Coro dos caídos”, na versão vocalizada (existe outra, instrumental, gravada por imposição da censura, durante o período salazarista), “Maria” e “Canção do mar” são as restantes canções do autor de “Cantigas de Maio”, “Venham Mais Cinco” e “Traz Outro Amigo Também” (a totalidade da sua discografia foi reeditada o ano passado) aqui incluídas, trazendo consigo a voz, a guitarra e a inspiração deste músico revolucionário, até agora apenas disponíveis em edições (esgotadas) em “single”. As restantes faixas ficaram reservadas para o fado de Coimbra (género que José Afonso também cultivou, antes de se dedicar à balada) de Luiz Goes e para a saudade que a guitarra de Carlos Paredes sempre transporta.

O primeiro faz-se representar por “Alegria”, “Homem, só meu irmão”, “Boneca de trapo” e “Canção do regresso”, acompanhado à guitarra por João Bagão e Aires de Aguillar e, à viola, por António Toscano, Fernando Neto e João Gomes. O segundo empresta a sua genialidade a “Variações em Ré Maior”, “Divertimento”, a mítica “Canção dos Verdes Anos”, “Melodia nº 2” e “Fantasia”. Sobra de boa música neste apanhado de talentos o que falta em informação e contexto. Nem uma nota explicativa, uma abebiazinha, nada. Somos (nós, no jornal) presenteados, na folha promocional, com meia dúzia de linhas que nada dizem sobre as intenções e os objetivos do disco em questão e, em adenda, um enigma, através da referência a “um trecho antológico do reportório coimbrão, pela primeira vez incluído em disco após a sua edição em ‘single’ talvez há vinte anos atrás”. Em que disco? Neste não, de certeza. E talvez há 20 anos, não há a certeza? Ainda por cima, o citado “trecho antológico” dá pelo nome de “Balda de Coimbra” (apenas conhecíamos a balada), numa hipotética alusão ao estilo de vida das célebres repúblicas coimbrãs. Ou à maneira como foi lançado este disco. O melhor é ficarmo-nos pela música e esquecer o resto. (8)


Camarón de la Isla - Una Leyenda Flamenca

 

pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993

WORLD

 

Camarón de la Isla
Una Leyenda Flamenca
2 x CD, Polygram Ibérica, distri. Polygram










            Camarón de la Isla, de seu verdadeiro nome José Monge Cruz, é uma lenda do canto flamenco. Já o era em vida, continua a sê-lo, de outro modo, depois da sua morte, ocorrida a 4 de julho do ano passado, como faz notar Joaquín Albaicín em nota, no texto que acompanha esta compilação de 23 anos de carreira do cantor, distribuída por 17 álbuns de originais.

            Camarón de la Isla representava e cantava o lado alternadamente trágico e extrovertido da alma cigana, em labaredas de emoção. Em “Una Leyenda Flamenca” faz-se acompanhar na maioria dos temas pelo grande guitarrista Paco de Lucía, com quem, aliás, partilhou a autoria dos cinco primeiros álbuns. Ramón de Algeciras e Tomatito são os outros guitarristas famosos que o acompanham na lenda.

            Entre fandangos, “bulerias”, rumbas, “tientos” e “soleás”, Camarón ora cumpre a tradição da forma mais ortodoxa, ora cede a arranjos de gosto duvidoso, antes da consagração com pompa, circunstância e a Royal Philharmonic Orchestra, presentes na obra de 1969, “Soy Gitano”. Seja qual for o contexto, porém, a voz distingue-se, afaga e magoa. Talvez porque, como refere ainda Joaquín Albaicín, Camarón tenha vivido mais entre o céu e o inferno do que na terra. (7)


Brian McNeill - Monksgate

 

pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993

REEDIÇÕES WORLD

 

Brian McNeill
Monksgate
Greentrax, distri. VGM



 







Onde se prova que Brian McNeill era o grande maestro dos Battlefield Band e é, hoje, protagonista principal na cena folk escocesa. Nesta reedição da sua estreia a solo, em 1978 (subintitulada “Tradicional Music from Scotland, Ireland, Wales & Northumbria”), para a extinta Free Reef, o ás do violino, violeta, bandolim, concertina e cistro passeia o seu talento pelos reportórios das Ilhas Britânicas, numa diversidade de registos que prenunciava o genial e menosprezado “The Busker & the Devil’s Only Daughter”. Um tema religioso, um solo de concertina, um piano elétrico a fingir de cravo, foles variados, o órgão de pedais de Alan Reid e uma guitarra portuguesa a gemer num tema galês são outras tantas pinceladas num quadro de múltiplas matizes. (8)

Brass Monkey - The Complete Brass Monkey

 

pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993

REEDIÇÕES WORLD

 

MORRIS DE METAL

 

BRASS MONKEY
The Complete Brass Monkey
Topic, distri. MC-Mundo da Canção







 






Uma reedição histórica que reúne os dois únicos álbuns gravados por uma das bandas que revolucionaram a folk inglesa: “Brass Monkey”, de 1983, e “See How It Runs”, de 1986. A liderá-la, dois dos pilares da “british folk”: Martin Carthy e John Kirkpatrick. O primeiro é sobretudo conhecido como um dos fundadores, com Ashley Hutchings, dos Steeleye Span. Os primórdios da sua carreira, iniciada em 1963, foram assumidos como influências por Bob Dylan e Paul Simon. Gravou e continua a gravar regularmente álbuns de parceria com o mago do violino, Dave Swarbrick. Passou, como quase toda a gente importante, pela superbanda Albion Band. Cantou e gravou com o mítico grupo vocal The Watersons. Guitarrista e vocalista de exceção, o seu estilo inconfundível pode ser apreciado nos magistrais álbuns a solo “Out of the Cut” e “Right of Passage” (circula perdido por algumas discotecas). Quanto a John Kirkpatrick, “virtuose” da concertina e do acordeão (escutem-no urgentemente, ao lado de Kepa Junkera e Riccardo Tesi, em “Trans Europe Diatonique”), apresenta um currículo não menos impressionante: três álbuns fundamentais com Sue Harris, “Shreds and Patches”, “Facing the Music” e “Stolen Ground”, este último, ao que parece, já editado em compacto. Presenças nos Albion Band, claro, e nos Umps & Dumps, ainda em ação. Tocou praticamente em todos os álbuns de Richard Thompson. É um dos grandes divulgadores da dança “morris” inglesa, que pode ser apreciada num dos seus trabalhos a solo, “Plain Capers”, já com distribuição portuguesa.

O que faz a originalidade do som dos Brass Monkey, cuja existência “oficial” decorreu entre 1983 e 1987, sempre com carácter esporádico, é a utilização e os intrincados arranjos de uma secção de metais – saxofone, trompete e trombone – numa fórmula instrumental que apenas encontrou paralelo noutra das múltiplas extensões dos Albion Band, os Home Servive, conhecidos entre nós pelo álbum “Alright Jack” (também já reeditado em CD).

Seria pois injusto não mencionar os nomes de Howard Evans, trompete, Martin Brisnford, sax, e Roger Williams, este substituído por Richard Cheetham, em “See How It Runs”, no trombone, cujo passado entronca nos Albion Band e, no caso do trompetista, nos Old Swan Band e Edward II. Prolongamento lógico da modernização e eletrização da “morris dancing” operada no seminal “Morris On” (para o qual contribuíram tanto Carthy como Kirkpatrick, ao lado do omnipresente Ashley “Tiger” Hutchings), “Brass Monkey” e “See How It Runs” reformulam por completo a rítmica característica da “morris” (o trombone fazendo a vez do baixo, por exemplo), constituindo um exercício salutar de reformulação de uma linguagem que, como diz Martin Carthy, é “intemporal”, continuando “a falar às pessoas de hoje, tão alto e claro como sempre”. Imprescindível. (9)

 

Barzaz - E'honder

 

pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993

REEDIÇÕES WORLD

 
Barzaz
Ec’honder
Escalibur, distri. Etnia


 








Onde se prova que Yann-Fañch Kemener vence aos pontos contra Erik Marchand no grande concurso dos melhores cantores de música tradicional da Bretanha atual. De textura mais frágil que a do cantor dos Gwerz, a voz de Kemener cativa pela maior subtileza e condutibilidade emocional. “Ec’honder”, anterior a “An Den Kozh Dall”, apresenta idêntica proposta, que visa a libertação da tradição bretã da tirania da bombarda e da “biniou-koz”. A estas vibrações abrasivas contrapõem os Barzaz uma sonoridade próxima da “new age”, à qual a flauta de Jean-Michel Veillon e as percussões de David Hopkins conferem a plasticidade e a fluência da água. (8)

Peter Hammill - The Noise

 

pop rock >> quarta-feira, 07.04.1993

NOVOS LANÇAMENTOS POPROCK

 
Peter Hammill
The Noise
CD Fie, distri. Megamúsica



 







O principal problema de Peter Hammill será talvez o de ter dito tudo cedo de mais. Compositor, vocalista e guitarrista carismático dos Van Der Graaf Generator, da estirpe dos resistentes dos anos 70, poeta da língua inglesa, que utilizou para rasgar os interiores da alma humana, Hammill experimentou os limites da pop em álbuns como “The Least We Can Do is Wave to Each Other”, “H to He, Who Am the Only One”, “Pawn Hearts” (um dos melhores álbuns de sempre da música popular), “Godbluff”, “Still Life”, todos ainda com a banda e, já a solo, “Chameleon in the Shadow of the Night”, “The Silent Corner and the Empty Stage”, “In Camera” (monumento solitário equiparável a “Pawn Hearts”), “The Future Now”, “PH7” e “A Black Box”.

Os anos 90, contudo, ultrapassaram-no. Remetido ao estatuto de autor de culto, Hammill tem vindo a assinar álbuns que procuram, sem grande sucesso, recuperar o fogo perdido. Posterior a “Fireships”, um bom álbum de canções onde a serenidade predomina, “The Noise” inflete na direção oposta, no rock de batida dura, o que, à partida, poderia indicar uma filiação na rebeldia de “Nadir’s Big Chance”, a bíblia dos adolescentes “punks” com algo mais na cabeça que gel e alfinetes. Nada mais falso. Peter Hammill não consegue sair do beco dos seus fantasmas pessoais, repetindo fórmulas mil vezes usadas, e com maior imaginação, em álbuns antigos. “Nadir’s Big Chance” pegava fogo ao instituto mental. “The Noise” é um estertor preso por guitarras elétricas, de um poeta perdido no labirinto da sua própria inspiração. Não é um mau álbum. Peter Hammill não é capaz de tal. Mas limita-se a marcar passo. “The noise is with me still”, canta ele em “The noise”, “I loved the noise/though now it’s gone/some glorious echoes of the noise still linger on.” No meio de ruído de estática, Peter Hammill procura a sintonia com o final do século. (6)