23/10/2026

Balanço 1992 - Discos Portugueses

 

Pop Rock
23 de Dezembro 1992
Balanço 1992 - Portugueses


ALTERNATIVA

TELECTU
Evil Metal
Edições Área Total

            Os Telectu progridem por avanços e recuos. Mudam de géneros e conceitos como quem muda de camisa – inconstância que tem, porventura, obstado à exploração de uma linha musical definida. Seja como for, “Evil Metal” é um tiro em cheio no panorama das músicas alternativas feitas em Portugal, podendo ombrear com obras da escola nova-iorquina representada por David Linton, David Fulton, J.A. Deane e Elliott Sharp, entre outros nomes. Jorge Lima Barreto tira o melhor partido dos timbres e estruturas repetitivas eletrónicos, Vítor Rua navega entre as ondas frippianas e as fragmentações de Robert Musso. Elliott aparece num par de temas, mas a sua presença era escusada.

            “Evil Metal” divaga e transtorna. Brinca, destrói e refaz géneros como o rock sinfónico, o art rock, o jazz mutante e a “systems music”, com uma mão cheia de acentos numa espécie de etno-traficada. A propósito, haja a esperança de que, desta vez, nenhum “p” atrevido transforme “raga” em “praga”. Mesmo que o tema em questão de indiano pouco tenha. Monstro devorador de músicas e ideias feitas, “Evil Metal” passa a liderar o pequeno pelotão dos discos nacionais que se posicionam orgulhosamente à margem. Das negociatas e do vil metal.

 

FUSÃO

KINTETO DE ANTÓNIO FERRO
Crepúsculo do Vinho
Edição Numérica

            Enquanto o vinho proíbe qualquer espécie de fusão, a música do quinteto, perdão, do Kinteto de António Ferro não se importa nada de fazer misturadas, desde que o “cocktail” seja agradável ao paladar. É o caso deste – presume-se pelos tons da capa – tinto crepuscular com que a banda portuense se propõe empielar os seus companheiros fusionistas, sempre sérios e afetados na tentativa de se parecerem o mais possível com as Mahavishnus Orchestras e Weather Reports que o temo deixou irremediavelmente para trás.

            Os KAF, para além do tinto, estão-se nas tintas para a seriedade e apenas têm como objetivo fazer boa música, sem preocupações de parentesco ou exibicionismo barato. Do que é que eles se haviam de lembrar? De ir buscar fadunchos, tradicionais, vulgares e aquelas melodias populares tipo “Cochicho” só pelo prazer de as transformar em peças dignas da maior credibilidade. Tudo à custa de arranjos irrepreensíveis, em que os metais desempenham o principal papel (João Courinha, sax, Claus Nymark, trombone, Eduardo Santos, trompete) na feitura deste “jazz bufo”, que por mais de uma vez recorda as fanfarras de Carla Bley.

            António Ferro no baixo e João Paulo na bateria (com ocasionais contribuições percussivas de João Nuno Represas) mantêm a banda a andar razoavelmente a direito. Quando não o conseguem, vai toda a gente na gargalhada. A música acaba por sair enriquecida e as surpresas justificam as trocas de passo de certas composições onde se parece caminhar num sentido e afinal se vai parar a outro. Um vinho do Douro da melhor colheita.

 

NOSTALGIA

VÁRIOS
Passa por Mim no Rossio
Edições EMI-VC

            Já não é preciso ir para a bicha do Teatro Nacional às cinco da manhã para assistir ao maior êxito teatral da temporada, “Passa por Mim no Rossio”. Em primeiro lugar, porque a peça já saiu de cena. Em segundo, porque já saiu o disco da peça.

            “Passa por Mim no Rossio” é um “recuerdo” e uma recordação, um produto de consumo e um objeto nostálgico que conserva um momento único do teatro português de revista. Gravado em estúdio como todos os elementos do elenco, são passados em revista (é o termo) as canções, os diálogos e algumas das rábulas que, durante quase dois anos, fizeram as delícias de um público ávido da magia que caracterizou as produções revisteiras das décadas de 30 a 70.

            João Paulo Soares compôs a música. Filipe La Féria escreveu os textos. Um e outro recriaram, com sucesso, o espírito da época e das personagens. Não houve qualquer intenção de modernização, o que poderia ter desfeito a ilusão. É que “Passa por Mim no Rossio”, peça e banda sonora, vivem dessa ilusão, de um jogo de identidades e sobreposições. Escutam-se as vozes dos atores atuais e reconhece-se nelas as outras, do passado, de Vasco Santana, Beatriz Costa, dos mitos todos.

            Haverá, é claro, quem adquira o disco para ouvir Simone ou Luís Madureira. Mas suspeita-se de que a maioria o fará por razões de outra ordem. Os mais idosos para se lembrarem como era e como, por magia, continua a ser. Outros porque gostaram da peça independentemente da viagem ao passado. Alguns pelo “kitsch”. Em qualquer dos casos, funciona a sedução de um truque perfeito de ilusionismo.

 

DESILUSÃO

SÉTIMA LEGIÃO
O Fogo
Edição EMI-VC

            Faz pena ver uma boa ideia reduzida a cinzas. Os Sétima Legião trouxeram para a música portuguesa, na altura em que editaram o primeiro álbum, “A Um Deus Desconhecido”, um conceito. Da mesma forma que os Heróis do Mar o fizeram e o fazem hoje grupos como Madredeus e Resistência. Conceito que tanto pode ser assumido de dentro, como uma intenção prévia, ou formar-se “a posterior”, à semelhança das peças de um “puzzle” que encaixam de forma espontânea. Os Sétima incluem-se neste último caso. Melhor dizendo, incluíram-se.

            Considerados de início um cruzamento inovador do eixo urbano-depressivo de Manchester, representado pelos Joy Division/New Order, com um Portugal de reminiscências celtas (não tivessem arranjado uma gaita-de-foles!), a banda encravou ao quarto disco no ponto morto. “O Fogo” não anda nem desanda. Quer ser “etno” mas não tem coragem de o admitir. Não é triste nem alegre, nem quente nem frio. É morno. Sem extremos nem dinâmica. É esse o mal maior, a ausência de força interior que a produção sofisticada não disfarça.

            São retomadas as temáticas de outrora, os épicos, os assombros e a melancolia que então faziam sentido. Hoje, da forma que são ditas em “O Fogo”, deixam de fazer. São cascas vazias, invólucros sem conteúdo. Fogueira apagada. Muito pouco para quem muito prometeu. As ideias onde estão? As canções que ardem? A “glória de lutar”. “O Fogo” é um disco preguiçoso. Cinzas ao mar.

 

O PIOR

ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO
Pálidos Olhos Azuis – P. O. A.
Edição BMG / Ariola

            Havia outros candidatos: uns Moby Dick balofos armados em superbanda, um José Cid no auge da fúria dos Descobrimentos, um Fernando Girão que agora é índio, ecológico e decerto veste túnica branca enquanto aguarda os OVNI redentores. Comparados com este “P. O. A.”, “Camões, as Descobertas e… Nós” e “Índio” são sem dúvida piores. Mas então teríamos de descer ainda mais baixo e cair no andar de Marco Paulo e Roberto Leal e entrar no domínio do execrável.

            A escolha do pior acabou por recair no disco de António Manuel Ribeiro em virtude de este ter responsabilidades acrescidas. De certo modo, “P. O. A.” recupera o pior dos UHF correspondente à faceta “rock português” da primeira leva, da ideia musical reduzida à expressão mais simples. Neste sentido a estreia discográfica de A. M. R. (já que estamos em maré de siglas…) pode considerar-se um gigantesco passo à retaguarda, uma investida inconsciente nos abismos do mau gosto, um desfilar de lugares-comuns que procuram fazer as vezes do retrato do “rocker” resistente mas sensível, em luta titânica contra o sistema. Dito isto, uma faixa como “A noite inteira” não destoaria num programa como Feira da Música.

            Há uma explicação possível que ainda assim não serve de atenuante: António Manuel Ribeiro, ao corrente do gosto de uma certa margem do seu público, estaria no fundo a dar-lhe uma música e imagem feitas de encomenda. A música das cassetes vendidas ao quilo pelas feiras, Praças de Espanha e Martim Monizes do país. António Manuel Ribeiro, o Marco Paulo do rock português?

Os melhores do ano 1992 - Discos obscuros

 

Pop Rock
16 de Dezembro 1992
OS MELHORES DO ANO - OBSCUROS

 

BIRDSONGS OF THE MESOZOIC
Pyroclastics
Cuneiform, import. Contraverso

Os Birdsongs of the Mesozoic não habitam na Dixieland mas o jazz corre-lhes nas veias, só que misturado com outros líquidos orgânicos. Dominam a arte do “riff”, isto é, dos módulos repetitivos, das insistências melódicas que evoluem por acumulação. Na sua música começa-se por sentir poder, uma força que impele cada canção como um motor turbo e que raras vezes lhes concede espaço para se deleitarem com tempos mais descontraídos. Nos Birdsongs habita um génio que se manifesta nos sopros vulcânicos de Ken Field e nas teclas em constante combustão de Erik Lindberg. “Pyroclastics” é fogo. Que ninguém se escandalize se se disser que nestes pedaços de melodia que não cessam de se enovelar e procurar novos acentos é possível vislumbrar o espectro dos Van Der Graaf Generator, de Hugh Branton e David Jackson. Nem sequer falta uma versão delirante do tema musical dos Simpsons.

 

 

JORGE REYES
Bajo El Sol Jaguar
No-CD Rekords, import. Ananana

Jorge Reyes é o pesquisador das civilizações antigas mexicanas, dos maias e astecas, assumindo-se como um mago da eletrónica preocupado em fazer os “samples” e sintetizadores soarem como instrumentos primitivos. Na mesma linha dos anteriores “Niérika”, “Musica Mexicana Pré-Hispanica” e “Cronica de Castas” o novo álbum de Reyes torna ainda mais intensas as sombras e os jogos de luz de uma música telúrica, que se desenrola em batimentos tribais, materiais da natureza ou o próprio corpo humano percutidos, “didgeridoos” noturnos e sequenciadores conectados aos ritmos da terra. O Yuki Conjugate, Lights In A Fat City, Jon Hassell, Brian Eno (de “On Land”), Steve Roach e Jeff Greinke, todos eles inventam à sua maneira as músicas do chamado “Quarto-Mundo”. Jorge Reyes acrescenta-lhes a respiração e a pulsação cardíaca de um organismo vivo. As alucinações de Carlos Castañeda materializadas.

 

 

STEVE ROACH & ROBERT RICH
Soma
Hearts of Space, import. Ananana

Segunda colaboração da dupla, na sequência de “Strata”, do ano passado. “Soma” é daqueles álbuns capazes de conferir à “new age” um rosto respeitável e a sedimentação de um estilo que disco a disco não cessa de se depurar e que encontra raízes no passado recente os dois compositores.

            “Soma” era a bebida que os vedas consumiam para entrar em comunicação com as divindades. Os gregos antigos usavam a mesma palavra para designar o corpo. Passado para a música, “Soma” é uma sinfonia de texturas eletrónicas combinadas com flautas étnicas, dumbeks, didgeridoos, sons naturais e vozes sintetizadas à deriva no cosmos. Música que induz ao transe ou à paranóia consoante o estado de espírito do auditor e que, surpreendentemente, aponta Klaus Schulze (sobretudo de “Moondawn” e “Mirage”) como dos mais importantes precursores da nova escola etno-eletrónica.

 

 

DAVID CUNNINGHAM
Voiceworks
Eva, import. Contraverso

O tema é a manipulação da voz através da panóplia eletrónica colocada ao dispor de quem utiliza o estúdio como instrumento preferencial de composição. David Cunningham (dadaísta nos Flying Lizards, insondável em “Grey Scales”, monótono em “Water”) aponta as máquinas ao canto humano e faz sair do outro lado conversas de humanóide. Os maquinismos trituram as frequências naturais, segundo um processo inverso ao dos Balanescu Quartet, que em “Possessed” processam o som sintético dos Kraftwerk em sinais analógicos para quarteto de cordas. O compositor diz que “a voz é o elemento que unifica os diversos tratamentos sonoros” e recusa-se a definir “Voiceworks” como “systemas music” convencional. É um mutante com discurso próprio (que remete para uma obra composta por David Behrman nos mesmos parâmetros – “Leapday Night”), com a grandeza da “Carmina Burana” de Carl Orff e a voz tão resistente à tortura como as transfigurações vocais de Paul de Marinis.

 

 

TAMIA & PIERRE FAVRE
Solitudes
ECM, distri. Dargil

Música da voz, música de percussões, música religiosa. Tamia evolui entre a tradição e a experimentação, sem nunca perder de vista a harmonia e o equilíbrio tímbrico na conversa a dois com as percussões. Pierre Favre, reduzida a cinzas a fogueira do “free” e o frenesim da companhia de Michel Portal, vinga-se da violência e penetra no mundo dos toques subtis, dos elementos que roçam sem fragor, dos metais e da água em sobreposição. Gongos, chuvas de sinos, madeiras do deserto multiplicam-se em confrontos ou de mão dada com a voz que Tamia coloca entre Joan La Barbara e Meredith Monk (atrevida sem contudo atingir o paroxismo da primeira) ou de Lauren Newton e Shelley Hirsch. “World music” virtual, em solidões partilhadas na vibração do espaço sideral ou na escuridão de uma caverna pré-histórica, “Solitudes” limpa-nos da poluição sonora que se faz passar por música. E deixa-nos escutar o silêncio.

Longe do coração, próximo do pé [Jig]

 

PÚBLICO DOMINGO, 13 DEZEMBRO 1992 >> Cultura

 

Jig apresentam disco de estreia em Lisboa

 

Longe do coração, próximo do pé

 

Vamos pôr de parte os irlandeses. Os Jig são portugueses, portuenses e tocam música cujo principal objetivo é fazer dançar. Na noite de sexta-feira, no Teatro Municipal de S. Luiz, em Lisboa, num concerto de apresentação do seu álbum de estreia, “Jig”, editado na Numérica, a banda revelação do Festival Intercéltico 1991 conseguiu totalmente os seus intentos. No final, foram muitos os jovens que saltaram para o palco de maneira a darem livre curso ao bicho carpinteiro. Um deles, embrulhado numa bandeira da Irlanda, era dos mais entusiasmados, pulando e bailando como um danado. E eis-nos de regresso à Irlanda e a o busílis da questão. A maior parte do reportório dos Jig é composto por temas tradicionais irlandeses. O problema, ou visto por outro prisma, a virtude, está em que os músicos do grupo portuense tocam esses tradicionais como nenhum irlandês o faz ou faria, ou seja, à portuguesa. Significa isto que “arredondam” o compasso acrescentando-lhe tempos e marcações que têm, para eles, a vantagem de facilitar as interpretações, e para o público de tornar mais cómoda a bailação.

Pormenorizando: a quase totalidade dos temas aproxima-se, em termos rítmicos, da polka ou, o que é curioso e poderia constituir pista interessante de seguir, da dança “morris” inglesa. Por outro lado, os Jig estão bastante mais próximos, em questões de sensibilidade e “approach” instrumental, da música “country” americana do que das típicas “jigs” (paradoxo) e “reels” irlandesas.

Dito isto, o concerto pode considerar-se um êxito. O público aderiu e os músicos revelaram todos eles progressos técnicos de assinalar. O violinista Arlindo Silva mostra-se cada vez mais à vontade no papel de principal solista – competente e com “feeling” foi a sua prestação no “exame” que é “The Orange Blossom Special”. Alfredo Teixeira e Manuel Apolinário foram eficazes, respetivamente, no bandolim e flautas. Manuel Salselas teve rédea firme nas marcações. Paulo Pires, na bateria, e Serafim Lopes na guitarra, os dois delfins da banda, não destoaram. Quanto a Isabel Leal, a sua voz quase em surdina esteve segura embora a música do grupo ganhasse se ela, por vezes, não tivesse tanta pressa e a preocupação de entrar “dentro” dos outros instrumentos, invariavelmente nos tempos fortes. Cantar certinho pode ser inimigo da expressividade e do dramatismo. Os Jig poderiam e deveriam explorar em profundidade as possibilidades do contraponto.

De resto, foi agradável de ouvir e recordar os tradicionais da Irlanda, da Escócia e um da Galiza, longe dos corações originais mas tocados com garra que chegou para provocar a folia do pé. Puristas é que os Jig não são. Fica-se à espera dos temas originais e da música portuguesa prometidos.

 

Madredeus - Lisboa

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 9 DEZEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Em Público

 

A CANÇÃO DE LISBOA

 

Madredeus
Lisboa
3xLP, MC, CD, ed. Emi – VC

Uma imagem com texto, livro

Descrição gerada automaticamente

As razões que levam à gravação de um triplo álbum são várias, nem sempre de ordem musical. Assim acontece com esta “Lisboa” dividida por três álbuns de curtíssima duração (27m43s, 33m07s e 28m20s), registados ao vivo no mítico concerto dos Madredeus, realizado a 30 de abril de 1991, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Está certo que, volvidos dois anos sobre o acontecimento, torna-se agora possível recordar e saborear a inspiração e a respiração dos quatro instrumentistas, a voz de Teresa Salgueiro e a guitarra possessa de Carlos Paredes (nos quatro temas que compõem o lado B do primeiro disco – “O ladrão”, “O pomar das laranjeiras”, “Mudar de vida” e “Canto de embalar”). Fora isso, há o barulho das palmas, arranjos diferentes dos discos de estúdio – “Os Dias da Madredeus” e “Existir” – e a reprodução possível do ambiente único que a banda criou nessa Primavera que deixou de ser distante.

Mas a questão deve colocar-se. Porquê só agora? A resposta parece ser evidente: porque os Madredeus, em período natalício de exportação da sua música para o estrangeiro, andam em digressão pelo mundo, primeiro pelos países de Benelux e, já nos próximos capítulos, por paragens mais longínquas, de olhos apontados ao Japão e a outros potenciais mercados. E, nestas viagens com fins comerciais, sabe-se a importância de ter um disco novo para apresentar como cartão de visita. Com Pedro Ayres ocupado nos Resistência e Rodrigo Leão e Gabriel Gomes às voltas com os Sétima Legião – e a consequência destas atividades paralelas é não haver tempo para compor temas novos –, restava a solução do “ao vivo”, que poderá ter até a vantagem de mostrar lá fora como os Madredeus se portam frente às plateias. Portam-se bem, já se sabe.

Para os incondicionais da banda, “Lisboa” poderá funcionar como um complemento dos discos de estúdio. Para os outros, é uma prenda de Natal a ter em consideração. As canções são as de sempre, eternas, bailando entre as radiações apolíneas de “Cuidado”, “O ladrão”, “A vontade de mudar”, “O pastor” ou “A vaca de fogo” e os luares de “A sombra”, “O menino” ou “Fado do Mindelo”, entre outros temas que se deixam habitar pela noite e o silêncio.

Cada concerto dos Madredeus é uma espécie de celebração religiosa em louvor das divindades, dos mitos e costumes que regem Portugal e os portugueses. Por vezes, mesmo do Deus maior. Ponto de convergência e conversão da música portuguesa aos valores tradicionais. “Lisboa” não é só Lisboa. É verde que já se vai esquecendo, igrejas e montes, ilhas e estradas, pastores e gentes crianças que ainda se deixam embalar. “Lisboa” junta a marcha popular, o cântico litúrgico, a música de câmara e o fado do futuro. Os Madredeus fazem a diferença do resto do rock português. Com a vantagem de não terem nada a ver com o rock e de fazerem música genuinamente nacional, da que não existiu nunca mas se deixou estar à espera, em pousio nos campos da matéria que é potência. Por isso, faz sentido que ao ato eles tenham dito “Existir”. Em Lisboa – das canções que vão anoitecendo. (7)

Do país dos mil lagos [Koinurit]

 

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 8 DEZEMBRO 1992 >> Cultura

 

Koinurit encerram circuito de música tradicional

 

Do país dos mil lagos

 

Com uma série de atuações dos finlandeses Koinurit e dos portugueses Brigada Victor Jara agendadas para o Norte do país, encerra o “Circuito das Tradições Musicais Europeias” que ao longo deste ano a Etnia levou a cabo nas cidades do Porto, Guarda, Guimarães e Viana do Castelo. As duas bandas atuam hoje no Porto, no Teatro Rivoli, e dia 13 em Viana do Castelo, no Teatro Sá da Bandeira, Guimarães e Guarda verão atuar apenas a banda finlandesa, respetivamente dia 9 no Paço dos Duques e dia 10 no Estúdio Piidana. Todos os concertos marcados para as 21h30.

Dos países nórdicos, mais concretamente da Lapónia, os portugueses tiveram já oportunidade de conhecer e escutar ao vivo a cantora Mari Boine Persen. Agora chegou a vez dos Koinurit permitirem aprofundar os laços culturais que ligam Portugal à Finlândia que, segundo alguns estudiosos, não são tão poucos como isso. Por exemplo, a língua. O finlandês até tem certas parecenças com o português, são ambas línguas pujantes, marcadas por acentuações vigorosas que gostam de pôr o maior número possível de músculos faciais em ação. Refira-se, a propósito, os títulos dos dois álbuns gravados até à data pela banda: “Yllatyspaartit” e “Askon Kolmrivinen”, que, agora de momento não consigo traduzir para português.

Considerados pela “Folk Roots” os “wild boys” da música finlandesa, os Koinurit são uma espécie de versão nórdica dos Fairport Convention na forma como juntam a extroversão da música de dança, composta na maioria por tangos, polkas e valsas, com o intimismo de canções de embalar ou outras baladas tão transparentes como a água (e em grande parte a cerveja) que banha e condiciona a maneira de viver e sentir das gentes do “país dos mil lagos”.

Os Koinurit integram na sua atual formação Arto Jarvela (violino, bandolim, baixo e voz), Perttu Paapanen (violino, acordeão e voz), Marko Rantanen (acordeão e voz), Olli Varis (bandolim, guitarras e voz) e Tapani Varis (saxofone, baixo e voz).

Banda de reconhecida qualidade, detentora de um currículo discográfico notável (“Eito Fora”, “Tamborileiro”, “Contraluz”, entre outros), a Brigada Victor Jara, encarregada de abrir os concertos do Porto e Viana do Castelo, acabou de editar o álbum de compilação “15 anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa” que reúne alguns dos seus melhores temas com incidência no cancioneiro nortenho.

Ao cair do pano dos “Circuitos”, recorde-se que estes trouxeram a Portugal nomes como Lá Lugh, Whippersnapper, Trisquel, Mari Boine Persen, Ad Vielle Que Pourra, Vasmalom, La Ciapa Rusa e Primera Nota, todos eles importantes na cena Folk internacional.

 

Resistência industrial no porto de Lisboa [Resistência]

 

PÚBLICO DOMINGO, 6 DEZEMBRO 1992 >> Cultura

 

Concerto

 

Resistência industrial no porto de Lisboa

 

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

 

Algo se perdeu pelo caminho dos Resistência, entre o conceito inicial de valorização das palavras e o concerto que a banda realizou na noite de sexta-feira no armazém 22 do porto de Lisboa. Se antes a mensagem era o principal, pelo menos na noite de anteontem deixou de sê-lo.

O armazém 22 é uma espécie de hangar monstruoso, todo em metal escuro iluminado a “néon”, luz de morgue – catedral da indústria, ou da angústia – e quase se encheu de milhares de pessoas reunidas para um qualquer ritual de subversão. O ambiente ideal para bandas como os Test Dept. ou os Einsturzende Neubauten fazerem ribombar os seus bidões e zunir as suas serras elétricas mas que aos Resistência serviu para tornar inaudíveis as subtilezas das guitarras e incompreensível o significado das palavras das canções dos álbuns “Resistência” e do recente “Mano a Mano”.

Depois, para quem preza essas mesmas palavras, não deixa de causar uma certa surpresa a crescente importância concedida pela banda aos instrumentais que vão desde espanholadas com um cheirinho a Júlio Pereira até incursões num jazz/rock despropositado como aconteceu no tema “Finisterra” composto por Dudas.

Os Resistência sentiram talvez que terá chegado o momento do “grande salto”, como aconteceu recentemente com os GNR. O “grande salto” consiste na passagem dos recintos pequenos e médios para a imensidão dos estádios. No armazém 22, a banda de Pedro Ayres e companhia limitada deve ter feito o último ensaio geral antes do banho de multidão. Até foram instalados dois ecrãs de imagem mal focada, um de cada lado, de modo a mostrar a fotogenia dos rostos, o suor, os risos e os pormenores de execução.

Como é costume nestas ocasiões, a música passou para segundo plano. Num concerto, a todos os níveis, de peso, os sons foram pesos-pesados – uma massa de guitarras ultra-amplificadas que abafou a mastigação de textos nos quais, de quando em quando, se adivinhava um verso conhecido, um refrão aprendido de cor no disco. Chegou para perceber a subtil e inteligente inflexão dos Resistência (ou será melhor dizer de Pedro Ayres?) num certo imaginário de esquerda traduzida para já na apropriação de “Que amor não me engana” (uma das melhores canções da noite) e “Traz outro amigo também” de José Afonso. “Timor”, da autoria de Pedro Ayres, foi dedicado ao “herói português Xanana Gusmão”. Pedro Ayres continua um mestre na captação dos movimentos e motivações das massas, sabendo agir como um verdadeiro manipulador, que flutua na crista da onda, das marés e ventos da História. Há que hastear a bandeira do instante, não importa a cor, no tempo e local exatos.

Excecional, tirando partido das condições acústicas do armazém, foi um diálogo bateria/percussão ao melhor estilo da música industrial. E, claro, uma interpretação entusiástica de “Não sou o único” que, diga-se o que se disser, é o hino do rock português. Talvez o derradeiro.

 

22/10/2026

Vozes na luta não chegam ao céu [Freire, Fanhais, Barroso]

 

PÚBLICO SÁBADO, 5 DEZEMBRO 1992 >> Cultura

 

Freire, Barroso e Fanhais no S. Luiz

 

Vozes na luta não chegam ao céu

 

Canções de luta fazem sentido quando a primeira força vem da música, do gesto criativo. Manuel Freire, Pedro Barroso e Francisco Fanhais, três amigos que na quinta e sexta-feira marcaram encontro em Lisboa, no Teatro S. Luiz, foram baladeiros da era “Zip-Zip”, armados de guitarras e de palavras de poetas, que lutaram contra o regime político anterior ao 25 de Abril de 74. Hoje são exatamente o que eram há vinte ou trinta anos, com a diferença de que agora as mesmas canções não passam de exercícios de nostalgia destinados a recordar aos mais velhos (que compunham maioritariamente a plateia do S. Luiz) os bons velhos tempos da resistência antifascista.

Comparemos, por exemplo, este encontro com outro semelhante realizado no mesmo local há uns meses, que reuniu António Victorino de Almeida, José Mário Branco e Carlos do Carmo, qualquer deles, por vias diferentes, também detentor legítimo do estatuto de “resistente”. Passados os anos, instituída a democracia, continuam a fazer música que vale por si, independentemente de qualquer carga intervencionista. Por isso, o seu concerto fez sentido, foi atual, mereceu a pena.

Freire, Barroso e Fanhais, pelo contrário, fizeram pena. As canções (eles não dizem “canções”, dizem “cantigas”, não têm “mulheres” têm “companheiras”), antigas, remetem quase todas para o passado. Manuel Freire e Pedro Barroso têm boas vozes, escolhem poetas (nalguns casos mais fabricantes de versos), viram o disco e tocam o mesmo. Freire é Paris e variações infinitas da “Pedra Filosofal”, Barroso toma-se por Brel quando eleva a voz e acelera à procura da “Valse a mille temps”. Quanto a Fanhais, não tem voz nem sabe cantar mas, curiosamente, é dos três o mais inventivo e original ao nível de composição. Pertenceu-lhe um dos momentos mais altos da noite numa péssima interpretação de uma “cantiga” pungente sobre “Velhas solteiras”. O outro foi “A vida” cantada em tom de tragédia por Manuel Freire.

O resto foram piadas forçadas e privadas (Pedro Barroso, a propósito de nada, sobre Fanhais: “Foi um truque que aprendeu no seminário”. Resposta do ex-padre: “Eh pá, essa é mais velha que a Sé de Braga”, seguida de um “Não renego um só segundo do meu passado” dito em tom de quem renega. O mesmo Fanhais, na apresentação de um tradicional beirão: “É como um regresso ao útero, eh pá esta é um bocado forte, o Pedro diria antes ‘à mãe-terra’”), o diálogo em tom coloquial a sugerir cumplicidades partilhadas, umas habilidades (“agora Pedro Barroso vai tocar gaita e piano ao mesmo tempo”) e algum cheiro a naftalina.

Salvaram-se os três acompanhantes – Jorge Gonçalves (acordeão, baixo e piano), Pedro Fragoso (cordas dedilhadas e teclados) e Luís Sá-Pessoa (violoncelo) – encarregados de pôr música nas recordações. Escusado será dizer que toda a gente cantou em coro a “Pedra Filosofal” naquela parte que diz “O lá lá lá rá lá lá rá”. Vozes na luta não chegam ao céu.