24/10/2026

Novos Progressivos [Tendências 1992]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 DEZEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Tendências 1992

 

NOVOS PROGRESSIVOS

 

Sobretudo na música popular, nada se perde e tudo se transforma. A pop não evolui de forma linear. Olha para trás, tenta aprender, modificar ou contrariar as lições do passado, mas o ciclo é vicioso e a moda dos revivalismos uma constante. Os anos 70 e a música progressiva voltaram à ribalta e novos nomes recuperam uma tradição que muitos davam por perdida. A pop, na idade adulta.

 

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Julian Cope

 

É um problema de idade. Cultura juvenil por excelência, a indústria cuida em primeiro lugar de fornecer alimento ao gosto adolescente que, não ofende dizê-lo, nem sempre é o mais sofisticado. Nunca há tempo para uma evolução genuína. Os músicos, passados alguns anos, são geralmente considerados “velhos” pelos “media” obcecados com o estigma “é jovem, é bom” e acusados de traírem o ideal “rebelde” do primeiro álbum...

Resta-lhes passar à clandestinidade, repetir fórmulas gastas até à senilidade ou, o que é mais comum, abandonarem o circo. Claro, os que não abdicam da evolução marimbam-se para a pop. Passam a integrar o lote dos “esquisitos”. A crítica e as grandes companhias de discos condescendem ou não com o “desvio”, consoante as simpatias, as flutuações das modas e os índices de vendas.

Em suma, a música pop não pode crescer. Faz parte da sua natureza a eterna juventude. A renovação das camadas de público mais jovem garante o funcionamento da engrenagem. Tem sido assim até agora. Mas uma série de fatores recentes parecem querer alterar o rumo dos acontecimentos. À média etária da população mundial que não para de aumentar junta-se a implantação de novos formatos digitais, cuja principal consequência é o reajustamento da indústria, que passa a ter nos consumidores mais velhos os interlocutores privilegiados.

Vem toda esta teoria a propósito da explosão e renovado interesse pelos anos 70 e pela música “progressiva” em geral, liberta dos anátemas que sobre ela foram lançados num passado recente, só perdoáveis pela ignorância e a tenra idade de quem nunca ouvira falar e só agora começa a descobrir grupos como Faust, Henry Cow, Hatfield and the North, Magma, Van Der Graaf Generator, Gentle Giant, Univers Zero, Gong, Gilgamesh, Can, Soft Machine, Caravan, Matching Mole, Ashra, Richard Pinhas, Residents, National Health, Incredible String Band e tantos outros, dezenas de outros que a tal juventude e a falta de curiosidade (e de gosto. Havia jovens adolescentes que já então se preocupavam em investigar para além dos “tops”...) impediam de apreciar.

Hoje Julian Cope exibe “T-shirts” dos Faust e faz a apologia deste grupo germânico, pioneiro de quase tudo o que de mais inovador se faz na atualidade. Descobre-se o “cosmic rock”, o “kraut rock”, mistura-se tudo, o deslumbramento é total. Descobrem-se pérolas escondidas que a vaga de reedições em compacto de nomes importantes da década de 70 permite desfrutar sem os inconvenientes do ruído.

Discografias inteiras surgem recuperadas nos escaparates: Henry Cow, Magma, Faust, Residents. Editoras e distribuidoras saídas do ventre fértil da Recommended saem do anonimato e rivalizam no desenterramento de raridades – Cunneiform, Rec Rec, Auf Dem Nil, Review, No Man’s Land, Ayaa. Grupos da nova geração e diversas latitudes planetárias recuperam o legado da “progressiva” (pondo de lado a famigerada tendência do “rock sinfónico” que tantos equívocos provocou) e  permitem acreditar que a música popular pode crescer e evoluir para além do rock e da facilidade: No Secrets in the Family, Daniel Schell & Karo, Double-X-Project, Expander des Fortschritts, Legendary Pink Dots, J. Lachen, Lars Hollmer, Lars Pedersen, Luciano Margorani, Miriodor, Motor Totemist Guild, Nimal, Non Credo, Nurse With Wound, Thinking Plague, 5 Uu’s, Der Plan, Wondeur Brass, Die Vogel Europas, Zero Pop... A crise de crescimento parece superada.

 

Discografia

 

Birdsongs of the Mesozoic “Pyroclastics”

Julian Cope “Jeovahkill”

Legendary Pink Dots “Shadow Weaver”

No Secrets in the Family “Kleinzeit”

Die Vögel Europas “Best Before”

 

"Glamour horror" [Tendências 1992]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 DEZEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Tendências 1992

 

“GLAMOUR HORROR”

 

Passadas duas décadas sobre a eclosão do movimento, o “glam” chama de novo as atenções. A decadência e a androginia voltam a dar as mãos e a vestir o brilho dourado do mau gosto, de Morrissey aos Right Said Fred. Rebeldia em toque de finados ou pura diversão, o “kitsch” assexuado regressou em força. Mais uma acha para a grande confusão.

 

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Na década de 70 deu-lhes para aquilo. Marc Bolan, Brian Eno, David Bowie, Gary Glitter, Kim Fowley ou grupos como os Kiss, Sweet, Bay City Rollers, David Essex e New York Dolls, encheram os olhos de “make-up”, vestiram-se de dourados e prateados, encheram-se de plumas e lantejoulas e ensaiaram meneios femininos. Era o chamado “glam rock”, feito de imagens decadentes e confusões sexuais. Havia antepassados. Liberace e Little Richard já haviam antes carregado na pintura e na escandaleira. Descontando a vertente mais “camp” nascida nos anos 70 (que teve em Elton John, Slade, Suzy Quatro, alguns dos seus principais cultores) e, do início dos anos 80, as fantochadas pseudo-futuristas dos “novos românticos” (Visage, Spandau Ballet, Classix Nouveau), secundados pelo teatro “gender bender” (Culture Club, Erasure, Frankie Goes To Hollywood), o “glam” parecia ter deixado definitivamente de ser “in”, fora os escoceses que nunca deixaram de usar saias.

Estava toda a gente sossegada quando, no início de 1992, o alarme soou: a velha guarda “glam” reunia-se e celebrava, no mítico Rodney Club, o Second Hemsby ‘70s Glam Rock Weekend Party, com apresentações ao vivo de canastrões como Les McKeowan (Bay City Rollers), Brian Connolly (Sweet), Les Gray (Mud), The Rubettes, Showaddywaddy, Mungo Jerry (autores de “In the summertime”, uma das piores canções de todos os tempos), Alvin Stardust e a nova banda sueca (mais uma) Rossall and the Gang, que integra nas suas fileiras um antigo membro da Gary Glitter Band.

Não chegou para se poder falar num “glam revival”, mas acontecimentos posteriores fazem temer o pior. Há sempre um lugar garantido para o mau gosto e até o aparecimento de projetos conotados com o “glam” foi um passo. Morrissey, promovido a nova coqueluche norte-americana (graças a “Your Arsenal”, um álbum com a chancela de Ian Hunter, ex-guitarrista dos Spiders from Mars de David Bowie), cobre-se agora de lantejoulas e “kitsch”, em espetáculos tanto ou mais pirosos que os dos seus colegas de há duas décadas. Os Manic Street Preachers vestem-se de noivas e lançam a subversão travestida de “glamour” no “single” “You love us”. Os Silverfish incluem no seu novo álbum “Organ Fan” o tema “Rock on” de David Essex. Novas bandas, como os Cud (de “Asquarius”) e Denim (formada pelo ex-Felt Lawrence), fazem luxo na reciclagem mimética de valores e sonoridades do princípio dos anos 70. E outros mais mundanos, como os Right Said Fred ou os Suede – entretanto, promovidos a banda sensação do ano pelos semanários de música ingleses –, fazem manchete nas publicações de escândalos, seguindo a mesma estratégia que conduziu Bowie ao estrelato duas décadas atrás, isto é, confessando publicamente a sua bissexualidade.

O teatro volta a ocupar o centro das operações. Mais do que a música impera a atitude e a imagem. Na procura desmesurada da diferença que caracteriza a Babel deste final de século, valem todas as loucuras e provocações. Mas a acumulação e o excesso, destituídos de sentido, retiram-lhes credibilidade. Se, à entrada dos anos 80, Boy George confundia e perturbava as consciências mal ressacadas do “punk” e, passada uma década, Madonna ainda provocava algum choque com a sua mistura sacrílega de crucifixos e orgasmos simulados ao vivo, o certo é que a orgia descambou na apatia generalizada. Bem poderá a autora de “Sex” rapar as sobrancelhas, implantar-se dentes de ouro e fazer poses obscenas que já ninguém liga. Pouco se deverá também esperar dos pobres nostálgicos do brilho artificial que voltam a esticar-se do alto dos seus tacões de 20 centímetros para chamar a atenção. “Glamour” é Marilyn, e Marilyn houve uma e mais nenhuma. Vá lá, duas, contando com Elton John.

 

Discografia

 

Cud “Asquarius”

Denim “Back in Denim”

Manic Street Preachers “Generation Terrorists”

Morrissey “Your Arsenal”

Right Said Fred “Up”

 

Contra uma Europa de papel [Tendências 1992 - Folk]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 DEZEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Tendências 1992

 

CONTRA UMA EUROPA DE PAPEL

 

1992 assistiu à explosão definitiva da “world music” como força motora da música popular. Multiplicaram-se as fusões mais modernistas a par das ortodoxias mais renitentes. O termo “tradição” nunca, como no ano que passou, fez tanto sentido no léxico musical do planeta. Novos discos editados em catadupa, festivais realizados um pouco por todo o lado (a bíblia “Folk Roots” dedicou-lhes, na edição de abril, um suplemento de 32 páginas) e reedições em compacto de obras pioneiras transformaram este ano num maná para quem, na música, procura, mais do que o brilho das superfícies, as essências que fazem únicas as coisas e lhes dão sentido. “World” é mundo, e o mundo é imenso. Cinjamo-nos então a parte dele – à Europa, que os políticos medem pela bitola da burocracia e julgam poder unir no papel pela via dos tratados.

 

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O mundo celta continua a ser um dos centros. Dos mais fecundos, pelo menos. E celtas são irlandeses, escoceses, ingleses, galegos, bretões, alguns italianos e portugueses. Os irlandeses davam cartas. Neste ano deram menos, ultrapassados pelos seus vizinhos da Escócia. Poucos discos marcantes, juntamente com uma certa vulgarização, fizeram desviar as atenções para as terras altas do Norte.

Ainda mais a norte, agitaram-se as vagas escandinavas, que já no ano passado, pela voz de Mari Boine Persen, tinham dado indicações de que este seria o ano de maré alta. Koinurit, com “Askon Kolmrivinen”, e Värttinä, cuja sedução feminina atingiu em cheio os sacerdotes da “Folk Roots” com “Angelin Tytöt”, comandaram a horda “viking”. Seguidos de um pelotão de nomes que convém aprender a pronunciar: Møller, Willemark & Gudmundson, Arne M. Sølvberg & Øyvind Lyslo, Seppo Sillanpää, Tallari...

Das regiões do Piemonte e Lombardia, na Itália, os celtas italianos ergueram-se a grande altitude. Os La Ciapa Rusa, que ao quinto álbum, “Retanavota”, assinaram a quinta obra-prima, encontraram rivais à altura nos lombardos Barabàn. Os primeiros já estiveram em Portugal por duas vezes, trazidos pela Etnia. Os segundos integram o programa do Intercéltico do próximo ano.

Bretões e galegos estiveram bem. Do Norte de França, confirmada a senilidade irreversível de Alan Stivell manifesta no novo álbum “The Mist of Avalon”, e o desvio fatal nos pântanos do rock, dos Gwendal, bandas como Bleizi Ruz, Ti Jaz ou Barzhaz encarregaram-se de defender a dignidade da velha-guarda. Mas o ceptro passou definitivamente para um trio de novas bandas cujas produções discográficas recentes roçaram o brilhantismo: Storvan, Strobinell e Skolvan, estes últimos autores de um dos melhores álbuns do ano, “Kerzh Ba‘n’ Dans”. No resto do hexágono, com Gabriel Yacoub a descansar de “Bel”, viveu-se à sombra da Gasconha e dos feitos discográficos dos Perlinpinpin Folc, em “Ténarèze”, e Verd e Blu, em “Musica de Gasconha”.

Dos Balcãs, ultrapassando a síndrome das vozes búlgaras, chegou o humor dos Vasmalom (“Vasmalom II”), a música cigana dos romenos Taraf de Haidouks (“Musique Tzigane de Roumanie”) e a experiência com computadores de Márta Sebestyén (“Apocrypha”), que deste modo ousou, numa escala mais radical, o que June Tabor apenas aflorara no seminal “Ashes and Diamonds”. June Tabor, que graças ao belíssimo “Angel Tiger” assegurou o título de melhor voz feminina do ano em Inglaterra, ofuscando o novo trabalho dos mestres Dave Swarbrick e Martin Carthy, “Skin and Bone”. Kathryn Tickell, o borrachinho das “Northumbrian pipes”, foi a coqueluche dos festivais do ano, um pouco por toda a Europa. Inglaterra que nos últimos 12 meses se preocupou, em primeiro lugar, com a conservação para a posteridade dos monumentos do passado.

Extensa, a lista de reedições importantes em compacto, entre as quais cabe destacar a edição aumentada de “Rise Up Like The Sun”, dos Albion Band, e “The Transports”, do malogrado Peter Bellamy, considerada a primeira ópera-folk, reunindo uma constelação de estrelas entre as quais despontava uma tal June Tabor, e parte da discografia dos Incredible String Band (que por sinal integravam um bardo escocês, Robin Williamson) – “The 5000 Spirits or the Layers of the Onion”, “Wee Tam”, “The Hangman’s Beautiful Daughter” e “Earthspan” – uma das bandas acústicas marcantes dos anos 70. Enquanto o novel duo de virtuosos constituído por Chris Woods e Andy Cutting (ex-Blowzabella) é nomeado “promessa do ano” pela “Folk Roots” e se aguarda com ansiedade a estreia discográfica dos Scarp, de outro ex-Blowzabella, Nigel Eaton, o sanfonineiro louco.

Finalmente, a norte do Minho, a Galiza continuou a debater-se com o dilema de ser ou não irlandesa, “rocker” ou “new-ager”. Num ano sabático, em termos de novos discos, para os Milladoiro e Luar na Lubre, passando ao lado de equívocos como Brath e Trisquel, coube aos “rústicos” Muxicas, com “Escoitando Medra-la Herba”, mostrarem que muito está ainda por explorar na Galicia de Maeloc. Das lendas, só Emilio Cao gravou, escrevendo “Cartas Maritimas” com a sua harpa. De Amancio Prada espera-se que repita o ouro de “Caravel de Caravels”. E de Pablo Quintana, que volte a pegar na sua sanfona.

Uma referência final para as pequenas geografias. Depois da Sardenha e da maravilha que é “Sonos”, de Elena Ledda, dada a conhecer no ano passado, as atenções desviaram-se para o País Basco, onde os seus lendários representantes, os Oskorri, assinaram o muito interessante e exótico “Hi Ere Dantzari”.

 

Discografia

 

Altan “Harvest Storm”

La Ciapa Rusa “Retanavota”

Skolvan “Kerzh Ba’n’ Dans”

June Tabor “Angel Tiger”

Vasmalom “Vasmalom II”

 

 

Destaque

TRANSFERÊNCIA DE PODERES

 

Donal agus Morag — Altan | Last.fm

Altan

 

Da “Ilha Esmeralda”, como chamam à Irlanda, poucos continuadores apareceram neste ano com a grandeza dos mitos dos anos setenta – Bothy Band, De Dannan e Planxty. Dos três, permanecem vivos e de boa saúde os De Dannan. Infelizmente, o novo “1/2 Set in Harlem” não está à altura do resto da sua discografia. Os Chieftains, claro, continuam em força e em forma, mas neste caso a música da Irlanda serve cada vez mais de pretexto para exibirem listas de convidados provenientes de outras áreas musicais, exibição que vai bem com o seu estatuto de “banda institucional”.

Em 1992, foi a vez de apontarem para a “country music”, em “Another Country”. Foi pena não ter chegado a tempo ao nosso país o ainda fresco “The Fair Hills of Ireland”, dos Boys of the Lough”. Assim, com Andy Irvine na má companhia de Davy Spillane, a dar uma ideia do que não é a música da Bulgária em “East Wind”, não foi difícil aos Altan ocuparem o trono e puxarem lustro à tradição no excelente “Harvest Storm”.

A Escócia, por seu lado foi campo de múltiplas experiências que mantiveram acesa a flâmula celta. Battlefield Band, Tannahill Weavers, Silly Wizard, Sileas, Catherine-Ann MacPhee, Hamish Moore, Gordon Mooney, Savourna Stevenson e os Ceolbeg são projetos, uns mais antigos do que outros, em contínuo desenvolvimento.

Os House Band destacaram-se, voltando a viajar, em “Stonetown”, da Escócia até à Bretanha e à Bulgária, com alguns requebros de “cajun” pelo meio. Da superbanda de sonho, os Clan Alba – Brian McNeill (Battlefield Band), Davey Steele e Gary West (Ceolbeg), Dick Gaughan (uma das grandes e mais politizadas vozes da Escócia), Patsy Seddon e Mary McMaster (Sileas) e Dave Tulloch – espera-se tudo.


A invasão dos imitadores [Tendências 1992]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 DEZEMBRO 1992 >> Pop Rock >> Tendências 1992

 

A INVASÃO DOS IMITADORES

 

O fenómeno teve início na Austrália, mas ameaça espalhar-se pelo resto do mundo. São as “tribute bands”, réplicas tão fiéis quanto possível de nomes célebres do “show-bizz” que mostram bem até que ponto o vazio se instalou na música pop. Há até quem sonhe reeditar o Woodstock e transformá-lo num baile de máscaras.

 

Bjorn Again | Discografia | Discogs

Bjorn Again

 

Compreende-se que o movimento tenha eclodido na Austrália, já que os grandes grupos internacionais raramente se deslocam a este continente, sendo aí que se sente com mais força a necessidade de substitutos. Alguém ouviu falar nos Beatniks, Rolling Clones, The Zep Boys e ABCD? São grupos australianos que mimam respetivamente, como as designações deixam entender, os Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin e AC/DC. Até já existem os Lovecats que, diz-se, são um sucedâneo eficaz dos Cure.

A moda pegou com os Bjorn Again, um simulacro bem disposto dos Abba. Agora é a loucura. Os concertos e as “tournées” sucedem-se a um ritmo alucinante e toda a gente parece estar disposta a alinhar na ilusão. Há mesmo quem diga que se os Abba regressassem não teriam tanta piada como os Bjorn Again. Em tempo de recessão, vale tudo, “as pessoas apenas querem alguns momentos de diversão”, diz Robert Reed, o agente que trouxe aquela banda australiana à Europa. Em Londres, no Subteranea Club, os Bjorn Again esgotaram 13 vezes a lotação. Outra banda australiana, os Australian Doors (nem vale a pena referir o nome do grupo lendário que imitam...) tocou para assistências de quatro mil pessoas em Glasgow e cinco mil em Dublin.

Recorde-se que, desde que o Rock existe, sempre proliferaram, por exemplo, réplicas de Elvis Presley, numa tentativa patológica de ressurreição dos mortos. Sem esquecer as tenebrosas séries de álbuns designados “Top of the Pops”, nos quais músicos de estúdio se esforçavam por reproduzir, à maneira dos intérpretes originais, os êxitos do momento. Ainda há pouco tempo, os Dread Zeppelin parodiavam pelo nome a célebre banda pioneira do “heavy metal” e, num vídeo, a figura do “rei” Elvis. Mas nunca, como hoje, se tinha assistido a uma histeria de imitação a esta escala. Consta que existem já cerca de 150 “tribute bands” em atividade, o que é bastante significativo de uma situação de total saturação e da falta de poder de impacto das novas bandas originais.

Lance Strauss, aliás, Elton Jack, um simulacro perfeito de Elton John, apresenta atualmente um espetáculo que inclui “clones” de Ray Cooper, Eric Clapton, George Michael e Kiki Dee! Mas há mais, muito mais. Por exemplo, o falso “show” de Meatloaf, de genérico “Fat Out of Hell”. A confusão é total: os Rock Lobsters imitam os B-52’s, Randy Hansen toma-se por Jimi Hendrix, os suecos Jailbreak fazem as vezes dos Thin Lizzy, The Royal Family substitui os Queen, The Counterfeit Stones são, claro, os Rolling Stones e os Bootleg Beatles, obviamente, os “fabulous four” de Liverpool.

Há poucos meses, foi o próprio Bono que encorajou a continuidade como grupo dos Doppelganger que serviram de duplos aos U2 durante as filmagens do vídeo “Even better than the real thing” e que se orgulham de tocar da mesma maneira e compor canções iguais às dos irlandeses. Steve Biggles, que na versão australiana dos Doors representa o papel de Jim Morrison, nem sequer se espanta quando os fãs, depois dos espetáculos, vão ter consigo para lhe exigir que leve uma vida idêntica à do cantor de “The end”...

A coisa está a tomar proporções incontroláveis e já ninguém parece distinguir a ficção da realidade. Randy Hansen convidou para um dos seus concertos Noel Redding, membro original da Jimi Hendrix Experience, e Al Hendrix, pai do genial guitarrista negro. Robert Reed sonha com uma reedição de Woodstock que reuniria no programa as réplicas dos Doors, Jimi Hendrix, Rolling Stones, Thin Lizzy e Led Zeppelin. Na Escócia surgiram já os novos Sex Pistols, que afirmam odiar todas as restantes “tribute bands” do planeta. Já não há respeito!

23/10/2026

Balanço 1992 - Discos Portugueses

 

Pop Rock
23 de Dezembro 1992
Balanço 1992 - Portugueses


ALTERNATIVA

TELECTU
Evil Metal
Edições Área Total

            Os Telectu progridem por avanços e recuos. Mudam de géneros e conceitos como quem muda de camisa – inconstância que tem, porventura, obstado à exploração de uma linha musical definida. Seja como for, “Evil Metal” é um tiro em cheio no panorama das músicas alternativas feitas em Portugal, podendo ombrear com obras da escola nova-iorquina representada por David Linton, David Fulton, J.A. Deane e Elliott Sharp, entre outros nomes. Jorge Lima Barreto tira o melhor partido dos timbres e estruturas repetitivas eletrónicos, Vítor Rua navega entre as ondas frippianas e as fragmentações de Robert Musso. Elliott aparece num par de temas, mas a sua presença era escusada.

            “Evil Metal” divaga e transtorna. Brinca, destrói e refaz géneros como o rock sinfónico, o art rock, o jazz mutante e a “systems music”, com uma mão cheia de acentos numa espécie de etno-traficada. A propósito, haja a esperança de que, desta vez, nenhum “p” atrevido transforme “raga” em “praga”. Mesmo que o tema em questão de indiano pouco tenha. Monstro devorador de músicas e ideias feitas, “Evil Metal” passa a liderar o pequeno pelotão dos discos nacionais que se posicionam orgulhosamente à margem. Das negociatas e do vil metal.

 

FUSÃO

KINTETO DE ANTÓNIO FERRO
Crepúsculo do Vinho
Edição Numérica

            Enquanto o vinho proíbe qualquer espécie de fusão, a música do quinteto, perdão, do Kinteto de António Ferro não se importa nada de fazer misturadas, desde que o “cocktail” seja agradável ao paladar. É o caso deste – presume-se pelos tons da capa – tinto crepuscular com que a banda portuense se propõe empielar os seus companheiros fusionistas, sempre sérios e afetados na tentativa de se parecerem o mais possível com as Mahavishnus Orchestras e Weather Reports que o temo deixou irremediavelmente para trás.

            Os KAF, para além do tinto, estão-se nas tintas para a seriedade e apenas têm como objetivo fazer boa música, sem preocupações de parentesco ou exibicionismo barato. Do que é que eles se haviam de lembrar? De ir buscar fadunchos, tradicionais, vulgares e aquelas melodias populares tipo “Cochicho” só pelo prazer de as transformar em peças dignas da maior credibilidade. Tudo à custa de arranjos irrepreensíveis, em que os metais desempenham o principal papel (João Courinha, sax, Claus Nymark, trombone, Eduardo Santos, trompete) na feitura deste “jazz bufo”, que por mais de uma vez recorda as fanfarras de Carla Bley.

            António Ferro no baixo e João Paulo na bateria (com ocasionais contribuições percussivas de João Nuno Represas) mantêm a banda a andar razoavelmente a direito. Quando não o conseguem, vai toda a gente na gargalhada. A música acaba por sair enriquecida e as surpresas justificam as trocas de passo de certas composições onde se parece caminhar num sentido e afinal se vai parar a outro. Um vinho do Douro da melhor colheita.

 

NOSTALGIA

VÁRIOS
Passa por Mim no Rossio
Edições EMI-VC

            Já não é preciso ir para a bicha do Teatro Nacional às cinco da manhã para assistir ao maior êxito teatral da temporada, “Passa por Mim no Rossio”. Em primeiro lugar, porque a peça já saiu de cena. Em segundo, porque já saiu o disco da peça.

            “Passa por Mim no Rossio” é um “recuerdo” e uma recordação, um produto de consumo e um objeto nostálgico que conserva um momento único do teatro português de revista. Gravado em estúdio como todos os elementos do elenco, são passados em revista (é o termo) as canções, os diálogos e algumas das rábulas que, durante quase dois anos, fizeram as delícias de um público ávido da magia que caracterizou as produções revisteiras das décadas de 30 a 70.

            João Paulo Soares compôs a música. Filipe La Féria escreveu os textos. Um e outro recriaram, com sucesso, o espírito da época e das personagens. Não houve qualquer intenção de modernização, o que poderia ter desfeito a ilusão. É que “Passa por Mim no Rossio”, peça e banda sonora, vivem dessa ilusão, de um jogo de identidades e sobreposições. Escutam-se as vozes dos atores atuais e reconhece-se nelas as outras, do passado, de Vasco Santana, Beatriz Costa, dos mitos todos.

            Haverá, é claro, quem adquira o disco para ouvir Simone ou Luís Madureira. Mas suspeita-se de que a maioria o fará por razões de outra ordem. Os mais idosos para se lembrarem como era e como, por magia, continua a ser. Outros porque gostaram da peça independentemente da viagem ao passado. Alguns pelo “kitsch”. Em qualquer dos casos, funciona a sedução de um truque perfeito de ilusionismo.

 

DESILUSÃO

SÉTIMA LEGIÃO
O Fogo
Edição EMI-VC

            Faz pena ver uma boa ideia reduzida a cinzas. Os Sétima Legião trouxeram para a música portuguesa, na altura em que editaram o primeiro álbum, “A Um Deus Desconhecido”, um conceito. Da mesma forma que os Heróis do Mar o fizeram e o fazem hoje grupos como Madredeus e Resistência. Conceito que tanto pode ser assumido de dentro, como uma intenção prévia, ou formar-se “a posterior”, à semelhança das peças de um “puzzle” que encaixam de forma espontânea. Os Sétima incluem-se neste último caso. Melhor dizendo, incluíram-se.

            Considerados de início um cruzamento inovador do eixo urbano-depressivo de Manchester, representado pelos Joy Division/New Order, com um Portugal de reminiscências celtas (não tivessem arranjado uma gaita-de-foles!), a banda encravou ao quarto disco no ponto morto. “O Fogo” não anda nem desanda. Quer ser “etno” mas não tem coragem de o admitir. Não é triste nem alegre, nem quente nem frio. É morno. Sem extremos nem dinâmica. É esse o mal maior, a ausência de força interior que a produção sofisticada não disfarça.

            São retomadas as temáticas de outrora, os épicos, os assombros e a melancolia que então faziam sentido. Hoje, da forma que são ditas em “O Fogo”, deixam de fazer. São cascas vazias, invólucros sem conteúdo. Fogueira apagada. Muito pouco para quem muito prometeu. As ideias onde estão? As canções que ardem? A “glória de lutar”. “O Fogo” é um disco preguiçoso. Cinzas ao mar.

 

O PIOR

ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO
Pálidos Olhos Azuis – P. O. A.
Edição BMG / Ariola

            Havia outros candidatos: uns Moby Dick balofos armados em superbanda, um José Cid no auge da fúria dos Descobrimentos, um Fernando Girão que agora é índio, ecológico e decerto veste túnica branca enquanto aguarda os OVNI redentores. Comparados com este “P. O. A.”, “Camões, as Descobertas e… Nós” e “Índio” são sem dúvida piores. Mas então teríamos de descer ainda mais baixo e cair no andar de Marco Paulo e Roberto Leal e entrar no domínio do execrável.

            A escolha do pior acabou por recair no disco de António Manuel Ribeiro em virtude de este ter responsabilidades acrescidas. De certo modo, “P. O. A.” recupera o pior dos UHF correspondente à faceta “rock português” da primeira leva, da ideia musical reduzida à expressão mais simples. Neste sentido a estreia discográfica de A. M. R. (já que estamos em maré de siglas…) pode considerar-se um gigantesco passo à retaguarda, uma investida inconsciente nos abismos do mau gosto, um desfilar de lugares-comuns que procuram fazer as vezes do retrato do “rocker” resistente mas sensível, em luta titânica contra o sistema. Dito isto, uma faixa como “A noite inteira” não destoaria num programa como Feira da Música.

            Há uma explicação possível que ainda assim não serve de atenuante: António Manuel Ribeiro, ao corrente do gosto de uma certa margem do seu público, estaria no fundo a dar-lhe uma música e imagem feitas de encomenda. A música das cassetes vendidas ao quilo pelas feiras, Praças de Espanha e Martim Monizes do país. António Manuel Ribeiro, o Marco Paulo do rock português?

Os melhores do ano 1992 - Discos obscuros

 

Pop Rock
16 de Dezembro 1992
OS MELHORES DO ANO - OBSCUROS

 

BIRDSONGS OF THE MESOZOIC
Pyroclastics
Cuneiform, import. Contraverso

Os Birdsongs of the Mesozoic não habitam na Dixieland mas o jazz corre-lhes nas veias, só que misturado com outros líquidos orgânicos. Dominam a arte do “riff”, isto é, dos módulos repetitivos, das insistências melódicas que evoluem por acumulação. Na sua música começa-se por sentir poder, uma força que impele cada canção como um motor turbo e que raras vezes lhes concede espaço para se deleitarem com tempos mais descontraídos. Nos Birdsongs habita um génio que se manifesta nos sopros vulcânicos de Ken Field e nas teclas em constante combustão de Erik Lindberg. “Pyroclastics” é fogo. Que ninguém se escandalize se se disser que nestes pedaços de melodia que não cessam de se enovelar e procurar novos acentos é possível vislumbrar o espectro dos Van Der Graaf Generator, de Hugh Branton e David Jackson. Nem sequer falta uma versão delirante do tema musical dos Simpsons.

 

 

JORGE REYES
Bajo El Sol Jaguar
No-CD Rekords, import. Ananana

Jorge Reyes é o pesquisador das civilizações antigas mexicanas, dos maias e astecas, assumindo-se como um mago da eletrónica preocupado em fazer os “samples” e sintetizadores soarem como instrumentos primitivos. Na mesma linha dos anteriores “Niérika”, “Musica Mexicana Pré-Hispanica” e “Cronica de Castas” o novo álbum de Reyes torna ainda mais intensas as sombras e os jogos de luz de uma música telúrica, que se desenrola em batimentos tribais, materiais da natureza ou o próprio corpo humano percutidos, “didgeridoos” noturnos e sequenciadores conectados aos ritmos da terra. O Yuki Conjugate, Lights In A Fat City, Jon Hassell, Brian Eno (de “On Land”), Steve Roach e Jeff Greinke, todos eles inventam à sua maneira as músicas do chamado “Quarto-Mundo”. Jorge Reyes acrescenta-lhes a respiração e a pulsação cardíaca de um organismo vivo. As alucinações de Carlos Castañeda materializadas.

 

 

STEVE ROACH & ROBERT RICH
Soma
Hearts of Space, import. Ananana

Segunda colaboração da dupla, na sequência de “Strata”, do ano passado. “Soma” é daqueles álbuns capazes de conferir à “new age” um rosto respeitável e a sedimentação de um estilo que disco a disco não cessa de se depurar e que encontra raízes no passado recente os dois compositores.

            “Soma” era a bebida que os vedas consumiam para entrar em comunicação com as divindades. Os gregos antigos usavam a mesma palavra para designar o corpo. Passado para a música, “Soma” é uma sinfonia de texturas eletrónicas combinadas com flautas étnicas, dumbeks, didgeridoos, sons naturais e vozes sintetizadas à deriva no cosmos. Música que induz ao transe ou à paranóia consoante o estado de espírito do auditor e que, surpreendentemente, aponta Klaus Schulze (sobretudo de “Moondawn” e “Mirage”) como dos mais importantes precursores da nova escola etno-eletrónica.

 

 

DAVID CUNNINGHAM
Voiceworks
Eva, import. Contraverso

O tema é a manipulação da voz através da panóplia eletrónica colocada ao dispor de quem utiliza o estúdio como instrumento preferencial de composição. David Cunningham (dadaísta nos Flying Lizards, insondável em “Grey Scales”, monótono em “Water”) aponta as máquinas ao canto humano e faz sair do outro lado conversas de humanóide. Os maquinismos trituram as frequências naturais, segundo um processo inverso ao dos Balanescu Quartet, que em “Possessed” processam o som sintético dos Kraftwerk em sinais analógicos para quarteto de cordas. O compositor diz que “a voz é o elemento que unifica os diversos tratamentos sonoros” e recusa-se a definir “Voiceworks” como “systemas music” convencional. É um mutante com discurso próprio (que remete para uma obra composta por David Behrman nos mesmos parâmetros – “Leapday Night”), com a grandeza da “Carmina Burana” de Carl Orff e a voz tão resistente à tortura como as transfigurações vocais de Paul de Marinis.

 

 

TAMIA & PIERRE FAVRE
Solitudes
ECM, distri. Dargil

Música da voz, música de percussões, música religiosa. Tamia evolui entre a tradição e a experimentação, sem nunca perder de vista a harmonia e o equilíbrio tímbrico na conversa a dois com as percussões. Pierre Favre, reduzida a cinzas a fogueira do “free” e o frenesim da companhia de Michel Portal, vinga-se da violência e penetra no mundo dos toques subtis, dos elementos que roçam sem fragor, dos metais e da água em sobreposição. Gongos, chuvas de sinos, madeiras do deserto multiplicam-se em confrontos ou de mão dada com a voz que Tamia coloca entre Joan La Barbara e Meredith Monk (atrevida sem contudo atingir o paroxismo da primeira) ou de Lauren Newton e Shelley Hirsch. “World music” virtual, em solidões partilhadas na vibração do espaço sideral ou na escuridão de uma caverna pré-histórica, “Solitudes” limpa-nos da poluição sonora que se faz passar por música. E deixa-nos escutar o silêncio.

Longe do coração, próximo do pé [Jig]

 

PÚBLICO DOMINGO, 13 DEZEMBRO 1992 >> Cultura

 

Jig apresentam disco de estreia em Lisboa

 

Longe do coração, próximo do pé

 

Vamos pôr de parte os irlandeses. Os Jig são portugueses, portuenses e tocam música cujo principal objetivo é fazer dançar. Na noite de sexta-feira, no Teatro Municipal de S. Luiz, em Lisboa, num concerto de apresentação do seu álbum de estreia, “Jig”, editado na Numérica, a banda revelação do Festival Intercéltico 1991 conseguiu totalmente os seus intentos. No final, foram muitos os jovens que saltaram para o palco de maneira a darem livre curso ao bicho carpinteiro. Um deles, embrulhado numa bandeira da Irlanda, era dos mais entusiasmados, pulando e bailando como um danado. E eis-nos de regresso à Irlanda e a o busílis da questão. A maior parte do reportório dos Jig é composto por temas tradicionais irlandeses. O problema, ou visto por outro prisma, a virtude, está em que os músicos do grupo portuense tocam esses tradicionais como nenhum irlandês o faz ou faria, ou seja, à portuguesa. Significa isto que “arredondam” o compasso acrescentando-lhe tempos e marcações que têm, para eles, a vantagem de facilitar as interpretações, e para o público de tornar mais cómoda a bailação.

Pormenorizando: a quase totalidade dos temas aproxima-se, em termos rítmicos, da polka ou, o que é curioso e poderia constituir pista interessante de seguir, da dança “morris” inglesa. Por outro lado, os Jig estão bastante mais próximos, em questões de sensibilidade e “approach” instrumental, da música “country” americana do que das típicas “jigs” (paradoxo) e “reels” irlandesas.

Dito isto, o concerto pode considerar-se um êxito. O público aderiu e os músicos revelaram todos eles progressos técnicos de assinalar. O violinista Arlindo Silva mostra-se cada vez mais à vontade no papel de principal solista – competente e com “feeling” foi a sua prestação no “exame” que é “The Orange Blossom Special”. Alfredo Teixeira e Manuel Apolinário foram eficazes, respetivamente, no bandolim e flautas. Manuel Salselas teve rédea firme nas marcações. Paulo Pires, na bateria, e Serafim Lopes na guitarra, os dois delfins da banda, não destoaram. Quanto a Isabel Leal, a sua voz quase em surdina esteve segura embora a música do grupo ganhasse se ela, por vezes, não tivesse tanta pressa e a preocupação de entrar “dentro” dos outros instrumentos, invariavelmente nos tempos fortes. Cantar certinho pode ser inimigo da expressividade e do dramatismo. Os Jig poderiam e deveriam explorar em profundidade as possibilidades do contraponto.

De resto, foi agradável de ouvir e recordar os tradicionais da Irlanda, da Escócia e um da Galiza, longe dos corações originais mas tocados com garra que chegou para provocar a folia do pé. Puristas é que os Jig não são. Fica-se à espera dos temas originais e da música portuguesa prometidos.