30/10/2026

Non - In the Shadow of the Sword

 

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993

NOVOS LANÇAMENTOS POP-ROCK

 

Non
In the Shadow of the Sword
CD Mute, distri. Edisom



 








Boyd Rice tem cara de poucos amigos e humores ainda com pior aspeto. É um niilista capaz das maiores perversidades, enfim, alguém que não gostaríamos de ter como nosso barbeiro. Além do mais diz sempre que “non”, a fingir-se de grupo, e como símbolo da perpétua negação. Gravou um disco decadente-furioso com Frank Tovey, “Easy Listening for the Hard of Hearing”, com algum interesse, mais cinco a solo, de onde se destacam “Music, Martinis & Misanthropy” e “Blood and Flame”. Tem especial consideração pelos tubarões e muito pouca pela música, que encara como uma série de ruídos industriais, estilo limalha de ferro e botas da tropa, sobre os quais lança as suas imprecações. Um perigo.

O menu temático consta do habitual entre os seus colegas de ofício: dias negros que se avizinham, atrocidades, ameaças, degenerescências filosóficas de índole nietzschiana (além do bem e do mal, não é verdade? Deviam ler com mais atenção o livro), uma dose reforçada de paganismo e tempo ainda para a descoberta de uma divindade (de ódio, obviamente) chamada Abraxas. Em termos de som predominam as batidas militaristas, naipes de eletrónica dura e a voz de Boyd em tom declamatório a anunciar o descalabro. O som, talvez para ficar de acordo com o resto, é péssimo, ao nível de uma cassete analógica da pior qualidade. Será que o fim dos tempos também chegou ao digital? (3)

 

Miranda Sex Garden - Suspiria


pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993

NOVOS LANÇAMENTOS POP-ROCK

 
Miranda Sex Garden
Suspiria
CD Mute, distri. Edisom









 

“Suspiria” é o título de um clássico filme de terror dos anos 70 assinado pelo italiano Dario Argento, sobre medos adolescentes e respirações entrecortadas, passado num colégio feminino cuja diretora era uma bruxa. Curiosamente, o álbum inclui uma canção, “Inferno”, que é outro título de um filme de Argento. Poderia ser um material interessante nas mãos, por exemplo, de Diamanda Galas, também ela pronta a arder na fogueira do final do século, mas as cinco meninas Miranda atiram mais para o diáfano, embora tenham ousado escrever “sex” na designação. “Suspiria” soa deste modo um bocado deslocado no catálogo da editora, encontrando semelhanças mais para as bandas da 4AD, ou seja, vozes góticas, muita atmosfera, montes de produção, uns arrepios pela espinha e, na capa, veludos escarlates, dourados e pesados. As únicas novidades são a inclusão de “In heaven”, de David Lynch, e o “standard” “My funny Valentine” que fazem suspirar pelas interpretações de Julee Cruise e Nico, respetivamente na banda sonora de “Eraserhead” e em “Camera Obscura”, ambas pintadas em tons de total abandono. O resto é verniz. (Suspiro). (3)

Loudon Wainwright III - History

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993

NOVOS LANÇAMENTOS POP-ROCK

 
Loudon Wainwright III
History
CD Charisma, distri. Edisom




Considerado uma espécie de Bob Dylan recatado, o que não chega a ser grande recomendação, Loudon Wainright III anda nisto há 25 anos e o melhor que conseguiu até agora foi compor uma canção sobre o atropelamento de doninhas inocentes e gravar um disco, “More Love Songs”, ao lado de algumas sumidades da folk britânica, entre as quais o decano Ashley Hutchings, além de outros membros da Albion Band. Mas chamar-lhe cantor folk talvez seja abusivo. Loudon etc. é mais um trovador “hippie” perdido no tempo, cuja voz lembra por vezes a de Don McLean, de “American Pie”, em baladas acompanhadas à guitarra de flores, enquanto, num ou noutro tema, se faz acompanhar de convidados conhecidos, neste caso, Syd Straw (Golden Palominos), as Roches e as irmãs canadianas Kate e Anna McGarrigle. Loudon etc. canta os Estados Unidos do Sul, as famílias, a sua família, e respetivas histórias, à laia de cartas intimistas. “History” conta porém essas histórias, que poderiam ser interessantes, em tom morno e sem quaisquer rasgos de inspiração. O que faz dele um disco inócuo e inofensivo que voga ao sabor das palavras. Já passou à História. (4)

 

Hedningarna - Kaksi!

 

WORLD

 

GLACIAR DE OURO E SANGUE

 
HEDNINGARNA
Kaksi!
CD Silence, import. Etnia

Uma imagem com Cara humana, pessoa, esboço, mulher

Descrição gerada automaticamente

 

Aos primeiros acordes de “Kaksi!”, o mundo refaz-se. Da Escandinávia sopram novos ventos e com eles uma nova alma anima o corpo da música tradicional da velha Europa. É difícil traduzir o entusiasmo, o estado quase febril que a audição deste disco provoca. Como se fosse a primeira vez e tudo estivesse por inventar. Diga-se desde já, e sem grande dose de exagero, que “Kaksi!” entra diretamente para a lista dos melhores de sempre da música tradicional. Como consequência, parece estar encontrado o disco do ano, pese embora a ameaça de um trio de sérios contendores: “Vox de Nube”, já aqui criticado a semana passada, “The Fire Aflame”, de Matt Molloy, Seán Keane e Lyam O’Flynn, e o novo dos franceses Lo Jai, ambos objeto de textos a publicar em breve.

Dos Hedningarna, grupo sueco que recentemente integrou no seu seio duas vocalistas finlandesas, Sanna Kurki-Suonio e Tellu Paulasto, disse a “Folk Roots” na sua edição de janeiro/fevereiro que inauguraram “uma nova categoria da música europeia”. De facto, desprende-se de “Kaksi!” uma sensação de novidade, de frescura e de força, no modo como o quinteto traduz e interpreta o passado. Sabemos que a música, na origem, não era assim e, contudo, sentimos que assim é que deveria ser. Descobre-se-lhe novos sentidos. Resultado de um trabalho de depuração a fogo lento. Alquimia.

Atinge-nos logo, como um murro, a energia e a pujança instrumental, só possíveis graças a uma autoconfiança inquebrantável. Depois a atenção deleita-se na abundância de pormenores, no requinte de cada nota, esculpida como uma jóia pela mão de um ourives experimentado. A música de “Kaksi!” abrange uma geografia vasta de sons e emoções. De uma harpa de granizo às erupções de um “hardingfele” (rabeca de construção tosca, esculpida diretamente num tronco de árvore, utilizada com frequência no folclore nórdico, sobretudo na Noruega) ou da sanfona-baixo inventada por Anders Stake, o multinstrumentista do grupo. As vozes vão do registo gutural a cânticos de querubim. Sanna e Tellu banharam decerto as cordas vocais na água-régia do céu. A surpresa acontece a cada instante. Transportada em berimbaus hipnóticos que soam como didgeridoos, percussões de catedral, gaitas-de-foles retorcidas em contorções dignas dos Perlinpinpin Folc, flautas interestelares, teorbas medievais, samples arrancados à pré-história, mil sonoridades que se multiplicam e interligam num caleidoscópio multicor. Por vezes (“Kruspolska”) carregando consigo ecos de um continente perdido, à maneira de uns Light in a Fat City (Electroworld aborígene) transpostos para a Idade Média. Em “Aivoton” as vozes femininas tornam-se meninas e entretêm-se a descobrir novas harmonias. As “irmãs loucas” escandinavas trocam timbres e tocam-nos na corda mais sensível. Sensualidade?

“Kaksi!” revela a anatomia de um corpo perfeito, o fruto mais carnudo e apetecido. Espírito de carne que apetece morder. “Kaksi!” tem o sabor do hidromel, a bebida dos deuses. As danças ora apontam para o Leste, em compassos impossíveis, ora explodem em binários de apelo imediato. A sanfona desenha “dervishes” que tocam as entranhas. Neste aspeto temas como “Viktorin” mostram o que os Blowzabella poderiam ter sido se Nigel Eaton tivesse levado a aventura até às últimas consequências. “Ful-valsen” volta a inventar o folk-rock, numa valsa, de guitarra elétrica e gaita-de-foles todo o terreno para os novos tempos, além de todas as sínteses. Spillanes e Stivéis deste mundo, fora! “Kaksi!” vai tão fundo quanto é possível na exploração das tradições e dos mitos escandinavos, recuperados para a atualidade como algo de radicalmente inovador. Um disco com capacidade para provocar igualmente a admiração nos apreciadores de música antiga e nos puristas mais empedernidos.

Depois da voz das nuvens, chegou a vez da voz dos gelos ardentes se fazer ouvir. Da Escandinávia escorre o sangue dourado de uma nova glaciação. (10)

 

Brion Gysin - Self-Portrait Jumping

 
pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993
NOVOS LANÇAMENTOS POP-ROCK
 
Brion Gysin
Self-Portrait Jumping
CD Made to Measure, import. Megamúsica


 








Brion Gysin, teórico, pintor e poeta, falecido recentemente, é um nome bastante apreciado em certos meios vanguardistas, que nele veem um precursor de algumas técnicas e conceitos atualmente em voga, como o “cut up” e o estudo das relações emissor-recetor ao nível dos efeitos da obra de arte sobre os órgãos de perceção. Uma das suas descobertas mais populares foi a “dream machine”, um cilindro de luz estroboscópica cuja frequência rotativa específica parece ser capaz de provocar, num sujeito de olhos fechados, a “visão” de padrões alucinatórios. Genesis P. Orridge, dos Psychic TV, e os Hafler Trio já dedicaram um disco inteiro ao assunto. Agora chegou a vez de Ramuntcho Matta repescar os conceitos de Gysin segundo uma ótica substancialmente diferente. Não se pode dizer que o resultado seja brilhante, apesar da presença de convidados como Don Cherry, Steve Lacy, Elli Medeiros e Lizzy Mercier Descloux.

Matta (autor de um especioso “Domino One”, gravado nesta mesma editora) pegou em textos e registos antigos efetuados em conjunto com o autor e deu-lhes música. Mas quando seria de esperar que à estranheza do objeto em causa correspondessem sons no mínimo originais, acontece, pelo contrário, a falta de ousadia formal e uma repescagem de ideias alheias. Assim, as vocalizações, a cargo do próprio Brion Gysin, ora remetem de imediato para os Talking Heads, em cadência calipso (“Kick”, “Junk”) ou da fase “Remain in Light” (“Sham pain”), ora mimam com bastante aproximação as chiadeiras de David Thomas, dos Pere Ubu (“Baboon”). Mas o pior são os 30 e tal minutos de “Dreamachine” durante os quais Brion Gysin despeja a teoria completa a um ritmo igual do princípio ao fim. Uma oportunidade desperdiçada e um dos discos mais dececionantes de uma série, nos últimos tempos, com tendência para tropeçar. (4)

 

"Basso profindo" [June Tabor]

 Cultura >> terça-feira >> 02.03.1993

 

June Tabor, em Lisboa, Braga e Porto

 

“Basso profondo”

 

Na sua terceira apresentação em Portugal, as circunstâncias estiveram por fim à altura da cantora.  June Tabor, mais do que desenrolar um reportório, criou um ambiente. A sala do teatro S. Luiz encheu-se de silêncio para escutar a sua voz grave cantar canções de amor e desencanto.

 

Sexta-feira à noite, no velho recinto do Chiado, em Lisboa, aconteceu finalmente a consagração de uma grande cantora, após as más condições com que foi recebida nas duas anteriores visitas ao nosso país, no mesmo ano, 1991, no Folk Tejo e na Festa do “Avante!”. O som esteve perfeito e a assistência, que encheu pouco mais de metade da sala, soube sintonizar na frequência adequada. A voz e a música de June Tabor fizeram o resto. Decerto, também ontem em Braga. O Porto recebe a cantora esta noite, no Rivoli.

Música que exige silêncio e concentração absoluta, não admitindo transgressões nem falhas de atenção. Semelhante à superfície de um lago, pode ser espelho e pode ser lente. Mas é necessário que as águas estejam calmas e planas se quisermos ver, além da imagem refletida, o fundo.

A voz falou devagar, preocupada em tornar compreensível cada palavra, cada história encerrada no coração das canções. Uma voz grave, sem mácula nem rugosidades que, pela vibração, irradia diretamente do centro, com a profundidade de um oráculo. June Tabor foi sacerdotisa de um magistério iniciado há longos anos no templo das músicas tradicionais e finalmente depurado em escolas e linguagens contemporâneas.

Oficiou logo de início com a tradição, em “Month of January”, que deu o mote a todo o concerto: solenidade, contenção, centrados numa figura franzina, vestida de negro, de mãos caídas ao longo do corpo em pose hierática. Esfinge. June Tabor lembra essa figura ocultadora e reveladora de segredos. Por detrás da imobilidade, e através dela, arde uma chama, invisível aos olhos de quem não souber romper o véu das aparências.

June Tabor não cantou “All tomorrow’s parties”, o clássico de Lou Reed e dos Velvet Underground que a voz de Nico imortalizou – esse lado de tragédia que também habita em si, mas que na sua voz é redimido. June Tabor dobrou o Cabo das Tormentas e optou pela serenidade da maioria dos temas que integram o seu disco mais recente, “Angel Tiger”: “Hard love”, “All our trades are gone”, “Sudden Waves”, “The doctor calls” (de Ian Belfer, dos Oyster Band, cuja ambiência sinistra comparou ao “film noir”), “All this useless beauty” (Elvis Costello) e “10 000 miles”.

Cada tema foi antecedido de uma curta explicação, dita em voz baixa de maneira a reforçar o tom de intimismo que caracterizou o concerto. “Esta é uma história de amor que acaba mal”. O estilo de histórias de amor que disse gostar mais de cantar mas que ela própria, com quase impercetível ironia, desmistificou comentando várias vezes no final de cada canção: “Afinal esta tem um final feliz! Estranho, não me estou a reconhecer!...”. “Game keepers”, em interpretação “a capella”, dedicou-a ao “homem” que ama, o seu cão Flynn (em homenagem a Errol Flynn...), inveterado bebedor de cerveja Guiness. O standard “I’ve got you under my skin”, de Cole Porter, dedicou-o igualmente ao amigo canino. Distanciação. Um sorriso de mil rostos, a sugerir enigmas.

Momentos altíssimos, viveram-se sobretudo nos duetos mantidos com o piano de Huw Warren, de longe o melhor instrumentista da noite: “You don’t know” e “Sudden waves”. A Mark Emerson, violino e viola de arco, e Mark Lockheart, saxofones, foi deixado espaço para brilharem no compasso emaranhado de um tradicional da Bulgária, “Rucenitsa” (deu para perceber que não são búlgaros...) e em duas polkas tradicionais igualmente mal aproveitadas. O segundo solou, esforçado, no sax tenor, em “I’ve got you under my skin”, tema que serviu ao mesmo tempo para mostrar não ser este, em definitivo, o campo onde a voz da cantora se sente mais à vontade.

“Dogs of Money”, de Richard Thompson e os tradicionais “Mount and go” e “10 000 miles”, subiram alto numa atuação que nunca chegou verdadeiramente a tocar a terra. “Retreat”, outra composição de Richard Thompson, trouxe para o S. Luiz o espectro da diva desaparecida, Sandy Denny. Um único “encore”, “Light dragon”, encerrou o ciclo de luz. Com a chave do silêncio. No intervalo, alguém da assistência comentara: “Esta mulher tem qualquer coisa de comovente!”

 

"O silêncio é tão importante como as notas" [June Tabor]

 

pop rock >> quarta-feira, 24.02.1993

 

“O SILÊNCIO É TÃO IMPORTANTE COMO AS NOTAS”

 

June Tabor tem um ritmo próprio. De falar e de cantar. Misto de solenidade e alegria. Começou nas baladas da tradição inglesa “a capella”, passeou pelo jazz e divertiu-se a vestir blusões de cabedal e a cantar canções dos Velvet Underground, com os Oyster Band. Hoje canta as canções que lhe falam diretamente ao coração.

 

Uma imagem com mamífero, interior, gato

Descrição gerada automaticamente

 

June Tabor vem cantar a Portugal pela terceira vez. Nas suas anteriores passagens pelo nosso país, ambas em Lisboa, no mesmo ano de 1991 – primeiro em junho, no Coliseu dos Recreios, em espetáculo integrado na edição inaugural do Folk Tejo, depois em setembro, no relvado do Jamor, na Festa do Avante! –, a cantora não terá encontrado as melhores condições para fazer ouvir o registo intimista da sua música. O som e o ambiente não ajudaram. Desta vez, espera-se, tudo será diferente, para melhor.

Considerada uma das maiores “folk singers” britânicas de sempre, a sua voz, de timbre puro e austero, projeta-se como luz – umas vezes velada, outras radiante – numa catedral. Especialista no canto tradicional “a capella”, foi alargando, ao longo dos anos, o seu campo de ação. Hoje canta com o mesmo à vontade as baladas ancestrais da velha Albion, “standards” de Cole Porter, Gershwin, Ellington, Charles Mingus e Thelonious Monk, ou uma descarga elétrica dos Velvet Underground. Gosta sobretudo de canções que contem uma história. Em cerca de 20 anos de carreira não gravou muitos discos. Mas os que gravou (seis a solo, um de parceria com Martin Simpson, dois com Maddy Prior, outro com os Oyster Band, mais a participação no mítico “The Transports”, de Peter Bellamy) tornaram-se, quase todos, clássicos. “Angel Tiger”, o mais recente, revela June Tabor no auge da criatividade. Uma grande cantora, perto da perfeição.

 

PÚBLICO – Comecemos pelo estômago. Esteve até 1988 à frente de um restaurante. Considera o alimento para o corpo tão importante como o alimento para o espírito?

JUNE TABOR – O restaurante foi uma coisa boa, que me mantinha muito ocupada. Não me deixava tempo para cantar. Quando foi vendido, pensei que finalmente era chegada a altura de me dedicar à música em tempo inteiro.

P. – Por que demorou tanto até tomar essa decisão?

R. – Bem, quando comecei a minha carreira, há cerca de 20 anos, não queria ficar dependente da música. Não me queria sentir comprometida. Tinha medo que, se essa fosse a minha única ocupação, não pudesse ser aquilo que queria. Nessa altura tinha uma profissão – bibliotecária – e não queria abdicar dela. Podia ao mesmo tempo cantar a música de que gostava e, como bibliotecária, ganhar o dinheiro de que precisava para viver. Sentia-me bem assim.

 

Segredos do canto

 

P. – Que relação mantém hoje com a cultura tradicional inglesa?

R. – Ainda canto algumas canções dessa tradição. Aquelas em que sinto as palavras. Sempre escolhi as canções em função das palavras. As melhores canções tradicionais são intemporais. Pode haver uma balada com 200 anos mas que continua a ser atual. Recuso-me a cantar peças de museu. A música tradicional não pode continuar uma coisa viva se não sofrer mudanças. Porque as circunstâncias atuais são outras.

P. – Houve uma época em que foi considerada uma purista. Estou a lembrar-me do escândalo que causou quando decidiu utilizar um sintetizador no álbum “Ashes and Diamonds”...

R. – Ainda hoje muitas pessoas pensam que, se eu não cantar só sem acompanhamento, é uma heresia (risos). Então um sintetizador, “oh my God!”.

P. – O mais curioso é que o novo álbum, “Angel Tiger”, está bastante próximo, em termos de sonoridade, de arranjos e de ambiência, dessa obra de 1977, não concorda?

R. – Sim, de facto, o ambiente e os arranjos, que são bastante austeros. É uma aproximação [“approach”] às canções que procura deixar as palavras e a melodia falarem por si próprias. O acompanhamento deve suportar as palavras e não escondê-las. Se as palavras são boas, deve-se-lhes dar espaço.

P. – Por outro lado, nota-se que dá cada vez mais importância ao acompanhamento instrumental, em detrimento das vocalizações “a capella” que constituíam grande parte do seu reportório antigo...

R. – Quando comecei, sabia cantar mas não sabia tocar qualquer instrumento. Hoje, continuo a não saber (risos). Era a maneira mais fácil de começar, por temas tradicionais “a capella”, que têm um esquema melódico rigoroso. Deste modo era possível apresentar-me em público sozinha. Depois fui conhecendo outros músicos, instrumentalistas, e a compreender o que podia ser feito com instrumentos. E também a encontrar outro tipo de canções, que queria cantar mas que não se aguentavam “a capella”, por não terem sido escritas para esse fim. Além disso, a força das vocalizações “a capella” sai fortalecida se estas forem integradas no meio de canções com acompanhamento. Sobressaem muito mais. Atualmente, nos meus concertos, este estilo aparece como uma espécie de destaque. Já não dou concertos exclusivamente “a capella”.

 

Questões de estilo

 

P. – O que sente ao ouvir a sua voz registada nesse álbum já velhinho e lendário que é “The Transports”, do malogrado Peter Bellamy?

R. – Digo para mim mesma: “Sou realmente eu?” [Risos.] Neste intervalo de quase 20 anos a minha voz mudou. Tornou-se mais profunda, mais madura, pelo menos assim o espero (risos). Quando ouço discos meus antigos, às vezes é-me difícil aceitar que seja a minha voz. Admiro-lhe a técnica, mas prefiro a atual. Penso que canto muito melhor do que cantava, embora admita que em termos rigorosamente técnicos, não seja tão tecnicista como antes.

P. – Um dos seus projetos mais bem-sucedidos é o duo Silly Sisters, com Maddy Prior. Após dois álbuns brilhantes [“Silly Sisters” e “No More to the Dance”], nunca mais se ouviram cantar as duas juntas...

R. – Costumamos fazê-lo uma vez em cada dez anos (risos). Mas atualmente é mais difícil cantar em conjunto com Maddy, porque as nossas vozes mudaram. A de Maddy tornou-se mais aguda e a minha mais grave. E é mais difícil encontrar tonalidades que possam ser cantadas em conjunto pelas duas. Antes podíamos trocar, uma cantava a melodia, outra a melodia, e vice-versa. Hoje é mais problemático. Por outro lado, os estilos de canções que cada uma de nós deseja cantar tornaram-se cada vez mais afastados.

P. – “Some Other Time” [1989], um álbum de “standards” de jazz, não foi muito bem recebido pela crítica. Será porque a sua voz não se adapta a esse género de canções?

R. – O problema está em que a maior parte dessas críticas é de ordem subjetiva. As pessoas pensam que, à partida, eu não devo cantar esse tipo de canções. Elas não as querem ouvir da maneira como as canto. Têm um preconceito, que eu não devo, ou não consigo, cantar “jazz”. A questão essencial de “Some Other Time” é que eu não estava a tentar transformar-me numa cantora de jazz. Apenas quis pegar em canções do reportório de jazz que tivessem letras fortes, que contassem boas histórias, e cantá-las à minha maneira. Nos concertos em Portugal vou cantar quatro temas do reportório de jazz. Com Huw no piano, Mark Emerson, violino e viola de arco e Mark Lockheart e saxofone e clarinete.

 

A voz do silêncio

 

P. – A que se deveu a colaboração, ao vivo e em disco, com os Oyster Band? Um desejo de vestir blusões de cabedal ou algo mais?

R. – Gostei e continuo a gostar de cantar com os Oyster Band. E, já agora, de vestir blusões de cabedal (risos). Foi uma experiência que, penso, resultou bem. O “show” em Portugal [na Festa do Avante!” em 1991] não aconteceu talvez no melhor local...

 

Uma imagem com pessoa, Cara humana, vestuário, retrato

Descrição gerada automaticamente

 

P. – Da outra vez que atuou em Portugal, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa [na primeira edição do Folk Tejo, em 1991], a música esteve imaculada, mas o som voltou a falhar...

R. – Sim, a música foi ótima. Em salas grandes como essa é impossível conseguir um som perfeito, porque não foram projetadas para este tipo de música. Prefiro tocar em teatros pequenos.

P. – Não em clubes folk, disse-o uma vez...

R. – A minha música não é propriamente para se ouvir de pé. Um teatro é mais confortável, as pessoas podem concentrar-se melhor. E pode controlar-se o som. O que nós fazemos é muito subtil, delicado mesmo. O silêncio é tão importante como as notas, como a música. É necessário poder criar a atmosfera certa. Esta é uma luta constante. Não acontece só em Portugal, em Inglaterra também.

 

A importância das palavras

 

P. – Que critério seguiu, na escolha dos compositores, em “Angel Tiger”? Escolhe os autores ou são eles que vêm ter consigo?

R. – Na maioria dos casos há uma escolha prévia. Em “Angel Tiger” só constam, a meu pedido, duas canções escritas: “All this useless beauty”, de Elvis Costello, e “The doctor calls”, de Ian Telfer, dos Oyster Band. Conhecem ambos a minha música e os meus gostos. Mas é sempre um risco... Felizmente gostei das duas. Seria embaraçoso chegar ao pé de Elvis Costello e dizer-lhe: “Obrigado, Elvis, mas não gostei!” [Risos]. Mas a escolha é minha. Posso sempre dizer que não.

P. – Disse recentemente, numa entrevista, que podia ter feito um álbum inteiro apenas com canções de Les Barker. O que encontra de especial neste autor?

R. – É o exemplo de alguém que trabalha a partir da tradição. Ele usa melodias tradicionais, peças instrumentais ou canções com versos em várias línguas, em gaélico ou outra qualquer, e trabalha até ficar totalmente familiarizado com elas. Depois escreve palavras novas que se adequem. Quase tudo o que ele escreve me fala ao coração e está de acordo com as minhas opiniões.

P. – Já agora, há algo mais que fale ao seu coração? Sei que gosta de gatos...

R. – Gatos e cães. Tenho quatro gatos, seis cães e... um burro.

P. – Pode explicar-nos em que consiste o projeto Passendale, em que vai colaborar?

R. – Passendale foi uma batalha travada em 1917, durante a I Guerra Mundial, de julho a dezembro. 500 mil homens morreram nessa ocasião, de ambos os lados. Um desperdício absurdo de vidas humanas. Esse acontecimento, no ano em que se comemora o 75º aniversário do fim da I Grande Guerra, vai ser evocado numa série de espetáculos ao vivo, com músicos de várias nacionalidades e canções desse conflito, a par de outras que falam da futilidade da guerra em geral. Participo eu, com Huw e Mark, uma cantora flamenga, três músicos árabes, um cantor e tocador de “oud” do Líbano e uma cantora sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz. A intenção é dizer que a guerra não conduz a nada, uma coisa inútil que, apesar disso, está sempre a acontecer.

P. – O termo “world music” faz sentido para si?

R. – É um termo que se usa e de que se abusa. Deveria haver alguém mais sincero e chamar-lhe antes “música do Terceiro Mundo”, porque é disso que se trata. Por mim, gosto de ouvir música da Ásia, da Escandinávia... Não encontro muito com que me identifique na música africana, embora admire as suas técnicas, em particular dos cantores. Mas toda a música é subjetiva.

P. – Porque falou em técnica, já tentou cantar baladas irlandesas, em gaélico, por exemplo?

R. – Irlandesas sim, em gaélico não, porque não domino a língua. Nunca gravei nada nesse domínio. Há quem o faça muito melhor do que eu. Mas posso decorar o estilo, se quiser. Desde que as palavras sejam boas. Se quiser, nos concertos em Portugal posso cantar uma canção irlandesa para si (risos).

P. – Obrigado. Por falar em canções, em “Ashes and Diamonds” há uma belíssima, intitulada “Lisbon”. Pensa cantá-la em Portugal?

R. – É uma ótima ideia. Já não canto essa canção há imenso tempo. Obrigado pela sugestão. Vamos ensaiá-la nas próximas semanas [esta entrevista foi feita em meados de Janeiro]. Vou mesmo cantá-la!

 

LISBOA, TEATRO SÃO LUIZ
28 DE FEVEREIRO, 22H
BRAGA, TEATRO CIRCUS
1 DE MARÇO, 22H
PORTO, TEATRO RIVOLI
2 DE MARÇO, 22H

 

DISCOGRAFIA SELECCIONADA

 

ASHES AND DIAMONDS, TOPIC, 1977

Primeira obra-prima. O álbum do “escândalo”. Nele, June Tabor, purista das puristas, utilizou um sintetizador. Canções “a capella” como a prova de fogo “Clerk saunders”, “The Easter tree” e “No man’s land” rivalizam com os arranjos instrumentais, belíssimos, de “Now, I’m easy”, “The earl of Aboyne” e “Cold and raw”. Dois duetos de maravilha: com o piano, em “Streets of Forbes” e com o sintetizador, em “Lisbon”, balada que evoca o encontro amoroso de uma portuguesa com um marinheiro inglês, no porto de Lisboa, durante a Renascença. Jon Gillespie era então o teclista. Participações de dois Steeleye Span, Rick Kemp e Nigel Pegrum. E de Nic Jones, um grande guitarrista da “folk” inglesa.

 

A CUT ABOVE, TOPIC, 1980

Encontro com outro guitarrista célebre do circuito “folk” inglês, Martin Simpson (que ensinou June Tabor a olhar para sons mais contemporâneos), e mais uma viagem pela tradição da ilha, desta feita com uma aproximação às sonoridades medievais. Dave Bristow substitui Jon Gillespie nos teclados. Ric Saunders (Soft Machine, Albion Band, Fairport Convention) traz para a música o virtuosismo do seu violino. Um álbum de que pouco se fala (há quem prefira a maior contenção de “Abyssinians”), mas que é um dos mais conseguidos.

 

AQABA, TOPIC, 1988

Deslumbrante. Nesta altura já June Tabor passeava a voz e o talento por músicas de outras paragens. É o disco de apresentação de Huw Warren, em quem a cantora parece ter descoberto o parceiro ideal. Os tradicionais “a capella” ora pairam no éter, ora explodem nas vibrações vocais de June Tabor. A expressividade emocional levada ao ponto de equilíbrio perfeito. As irrupções bruscas do clarinete e do saxofone, a par do ambiente de religiosidade, formam como que uma extensão vocal das liturgias de John Surman para a ECM. O título-tema, composto por Bill Caddick, integrou-se de imediato no grupo das melhores canções e interpretações de sempre da música inglesa de raiz tradicional.

 

ANGEL TIGER, COOKING VINYL, 1992

Álbum da maturidade. A aliança de recursos vocais aqui distribuídos por uma gama infindável de registos, com uma serenidade e segurança inquebrantáveis. Nada há para provar, senão que cada canção ganha, através do canto de June Tabor, significados e uma energia próprias. Como se ela fosse a única que lhes consegue descobrir o coração. Elvis Costello e Ian Belfer, dos Oyster Band, escreveram especialmente para a cantora. A divindade felina estendeu sobre June Tabor um sortilégio. Uma cantora em estado de graça.

 

NO MORE TO THE DANCE (SILLY SISTERS, DUO COM MADDY PRIOR), TOPIC, 1988

Não podia ser de outro modo: as vozes de duas divas da “folk” britânica irmanadas numa causa comum – de amor a uma tradição que ambas sempre serviram e ajudaram a potencializar – combinam da melhor maneira e o resultado é um disco de música de inspiração tradicional, que marcou os anos 80. E uma reunião de estrelas que aqui participam: Dan Ar Braz, Andrew Cronshaw, Paul James e Nigel Eaton (dois ex-Blowzabella), Patsy Seddon e Mary MacMaster (duo Sileas). Para todos aqueles a quem o termo “música celta” quer dizer tudo, este é um dos seus tesouros mais valiosos.