28/10/2026

Os caminhos da cruz [Ronda dos Quatro Caminhos]

 

cultura >> sexta-feira, 05.02.1993

 

Ronda dos Quatro Caminhos em Lisboa

 

Os caminhos da cruz

 

Quatro caminhos, quando se encontram, formam uma cruz. Símbolo sagrado mas também, segundo a tradição, local preferido pelo demo para tentar e perder o viajante incauto. A Ronda dos Quatro Caminhos é um dos grupos emblemáticos da música tradicional portuguesa. Leva 10 anos de caminho e, ao contrário de outros companheiros de jornada, nunca se perdeu. Atua hoje em Lisboa, no Teatro S. Luiz, pelas 22h, num espetáculo de genérico “Uma noite de música tradicional”, que a RTP vai gravar. Material que poderá ser utilizado para eventual edição de um disco ao vivo.

Pela Ronda passaram vários e bons músicos, entre os quais Vítor Reino, que deu o seu contributo aos dois primeiros trabalhos do grupo, “Ronda dos Quatro Caminhos” e “Cantigas do Sete-Estrelo”, que permanecem como exemplos do que de melhor se fez até à data neste campo. Reino sairia da Ronda para formar os Maio-Moço, que começaram bem mas finalmente se renderam ao nacional-folclorismo de uma “História de Portugal” mal contada.

A Ronda sobreviveu. Findo o reinado, abriu, com a mesma nobreza, outros caminhos: “Amores de Maio” e “Romarias”. Com nova formação e o amor de sempre às forças que regem e anima as gentes, os costumes, os ciclos naturais e a música do Portugal que a tradição ordena.

Hoje percorrem esses caminhos António Prata, em violino e percussão, António Lopes, percussões, Daniel Completo, guitarra, José Barros (ex-Romanças), cavaquinho e bandolim, e João Cavadinhas, braguesa e voz. No concerto desta noite vão ter a companhia de convidados: Rui Vaz, ex-GAC e O Ó Que Som Tem, sessões com Fausto e José Mário Branco, participante habitual nas gravações e atuações ao vivo do grupo, em gaita-de-foles, flautas, percussões e voz, Fátima Valido, na banda em regime atual de “part-time”, guitarra clássica, cavaquinho, flautas, braguesa, gaita-de-foles, bandolim e vox, Helena Mendes, dos Piratas do Silêncio, no acordeão, e José Martins, ex-Trovante e O Ó Que Som Tem, produtor e arranjador das “Múgicas” de Amélia Muge, em percussões e braguesa.

Compõem esta “Noite de Música Tradicional”, temas populares de Trás-os-Montes, Minho, Douro Litoral, Beira Alta, Beira Baixa, Alto e Baixo Alentejo, Ribatejo e Açores. Quatro caminhos, quando se encontram, formam uma cruz. Símbolo do centro. Da permanência que permite todas as viagens.

 

Sons da cidade néon [Marc Ribot]


cultura >> quarta-feira, 03.02.1993

 

Guitarrista da cena “downtown” atua hoje em Lisboa

 

Sons da cidade de néon

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Da “soul” e do “rock ‘n’ roll” até à “downtown” nova-iorquina, passando pela poesia de Ginsberg, o percurso musical de Marc Ribot tem sido um elo de ligação entre estilos e gerações diversificados. Wilson Pickett, Chuck Berry, Tom Waits, John Lurie e John Zorn contam-se entre os seus companheiros de viagem. Toda uma tradição que a sua guitarra reduz a estilhaços.

 

É este guitarrista e compositor conotado com a corrente “downtown” nova-iorquina, que hoje atua acompanhado pelo grupo Shrek, em Lisboa, no teatro S. Luiz, pelas 22h, num espetáculo organizado pela Simbiosis.

Marc Ribot nasceu em New Jersey, em 1954. Começou por estudar música com o compositor e guitarrista clássico Frantz Casseus. Os ensinamentos e a leitura da pauta foram-lhe de extrema utilidade para a fase seguinte da carreira, vivida entre o excesso de decibéis das várias “garage bands” onde tocou. Dicotomia entre classicismo e transgressão que constitui, em última análise, o núcleo central do trabalho que Marc Ribot viria a encetar no futuro com os Lounge Lizards e os Jazz Passengers, e que em “Rootless Cosmopolitans”, o seu álbum mais recente, atinge o ponto máximo de depuração.

Mas antes disso o guitarrista teve de fazer pela vida. Já em Nova Iorque e no final da década de 70, foi acompanhante do organista de jazz Jack McDiff e dos cantores “soul” Wilson Pickett, Rufus Thomas e Carla Thomas. Depois seria a vez do rock ‘n’ roll e de sessões com um Chuck Berry em período de decadência.

 

Entrada na “catedral”

 

John Lurie, saxofonista, ator e personagem carismática da “downtown” (inesquecível o papel de saxofonista assassino que desempenhou nesse filme paradigma da paranóia urbana que é “Os Viajantes da Noite”, de Amos Poe) recrutou-o para os Lounge Lizards. É o ponto de viragem na carreira do guitarrista que a partir desse momento não parou de ser visto na “Knitting Factory”, catedral de todas as vanguardas “downtown”, e solicitado para projetos de autores ligados a outras áreas musicais. Tom Waits convidou-o para participar nos álbuns “Rain Dogs”, “Frank’s Wild Years” e “Big Time”. Elvis Costello fez questão de o ter presente em “Spike”.

Empenhado na exploração de novas linguagens para a guitarra elétrica ou eletrificada – em paralelo com Fred Frith, Derek Bailey, Christy Doran, Elliott Sharp, Rhys Chatham, Robert Musso, Arto Lindsay, Robert Quine, Caspar Brotzmann ou Bill Frisell – de modo a levar tão longe quanto possível as possibilidades deste instrumento, Marc Ribot integra desde 1987 os Jazz Passengers, de Roy Nathanson e Curtis Fowlkes, extensão bem-humorada dos Lounge Lizards.

Entre as atividades do guitarrista contam-se igualmente a composição da banda sonora para “No Sense of Crime”, documentário com realização de Julie Jacobs, e três canções de parceria com Roy Nathanson sobre poemas de Allen Ginsberg – “To aunt Rosie”, “The shrouded stranger” e “The end”, incluídas na produção de Hal Wilner, “The Lion for Real”, dedicada àquele que foi um dos profetas da geração “hippie” norte americana.

Marc Ribot participa ainda numa lista extensa de álbuns, com destaque para “Pieces for Bandoneon” e “Il Piccolo Diavolo”, ambos de Evan Lurie, irmão de John Lurie, o segundo banda-sonora do filme com o mesmo título realizado por Roberto Benigni, “Cynical Hysterical Hour”, de John Zorn, “Surprise”, de Syd Straw (Golden Palominos), “Mystery Train” de John Lurie e “Lust”, dos Ambitious Lovers, além do próximo disco de Marianne Faithfull, ainda sem data de edição.

Acompanham Marc Ribot, na sua vinda a Portugal, os três músicos que formam o grupo Shrek: Jim Pugliese (composição nas áreas da música microtonal e do jazz; colaborações com John Zorn, Anthony Coleman e Bobby Previte; solista da London Sinfonietta), em percussão, Roger Kleier (gravações e concertos com Zeena Parkins, David Moss e Stan Ridgway), segundo guitarrista, e Sebastian Steinberg (tocou com Syd Straw, Zeena Parkins, John Zorn e Elliott Sharp), no baixo. Sons da cidade de néon. Esta noite, em Lisboa. A não perder.

 

Shawn Colvin - Fat City

pop rock >> quarta-feira, 03.02.1993

NOVOS LANÇAMENTOS

 
Shawn Colvin
Fat City
CD Columbia, distri. Sony Music








 


“Steady On”, disco estreia de Shawn Colvin, era engraçado, na recriação que fazia da fase “country folk” de Joni Mitchell. Já a sequência é menos feliz. Shawn leva mais longe o mimetismo e a devoção, ao ponto de convidar a própria Joni Mitchell para tocar percussão e bater palmas num dos temas, sendo a produção entregue a Larry Klein, marido e produtor da canadiana dos dentinhos, o que contribui para acentuar ainda mais a semelhança. As canções é que não ajudam, raramente escapando à vulgaridade. Salvam-se dois momentos preciosos, em “Monopoly” e “Set the prairie on fire”, este último uma tradução convincente, em termos de ambiente  e sonoridade, de cores e emoções crepusculares criados com a ajuda da “Pedal steel guitar” de Chris Whitley e o órgão Hammond de um velho senhor chamado Booker T. Jones. De resto, nem a presença de Bruce Hornsby, Mary-Chapin Carpenter, Richard Thompson, Alex Acuna e Richie Hayward (Little Feat) entre os convidados consegue evitar o tom morno de um disco sem grandes rasgos mas que se deixa ouvir sem esforço. (6)


Cantos da alma sentida [Debate Música no Feminino]

 

pop rock >> quarta-feira, 03.02.1993

 

Três cantoras debatem música portuguesa no feminino

 

CANTOS DA ALMA SENTIDA

 

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Reunimos o trio de ouro das vozes portuguesas. Para Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais, o prazer de se saberem cúmplices juntou-as quase imediatamente nos cantos que encheram os corredores do PÚBLICO. Em jeito de antecipação de um projeto antigo de Filipa Pais e Teresa Salgueiro, baseado nos temas populares recolhidos por Michel Giacometti. Maria João, por seu lado, vai continuar a cantar pelo mundo fora com músicos de exceção: Aki Takase, Lauren Newton, Marilyn Mazur e Bobo Stensson. Alheias ao tempo e ao lugar, quando, finalmente, se sentaram para falar das coisas que bordam a sua música, as horas anteriores já tinham acendido a chama. Entre a descoberta de dificuldades e entregas comuns, afirmaram-se intérpretes rodeadas de excelentes profissionais e defenderam a dignidade da música que lhes sai da alma e das vísceras. Entre a diversidade das suas imagens e personalidades, a felicidade de estar em palco arrebata-as para lá da indústria e dos seus contos imorais. Vozes de corpo inteiro partilhadas com quem as ouve, esquecidas da pequenez de um país provinciano.

No final deste encontro de raparigas, entre a promessa de um jantar e a troca de gravações de temas queridos, Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais tinham afirmado com emoção a intenção de abrir caminhos. É isso que anima os seus cantos. Soltos, instintivos, cristalinos e interiores. Porque de cantoras e mulheres de alma à superfície.

 

Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais contaram ao PÚBLICO segredos, riscos e estratagemas. E algumas fraquezas. Falaram de si e dos homens. Do que é ser mulher e cantora em Portugal, um país provinciano, reconheceram, onde “fica tudo uma coisa caseira”. E onde nem tudo é o que parece.

PÚBLICO – Em Portugal, na música popular, há poucas compositoras. O homem compõe e a mulher interpreta?

FILIPA PAIS – A mim, neste momento, apetece-me mais interpretar que mostrar as minhas coisas. Não me sinto ainda pronta para mostrá-las... Os homens se calhar são mais libertos...

MARIA JOÃO – É mais uma questão de pessoas, de sensibilidades. Há mulheres muito brutas e homens muito sensíveis. Eu componho enquanto estou a cantar. Quando improviso estou no fundo a compor. Agora, pegar num tema desde o princípio da composição, acho um disparate. Como estou rodeada de músicos excecionais, tudo o que eu possa compor será sempre inferior ao que eles podem fazer e fazem excelentemente. Muitas vezes os temas nem sequer são para mim mas eu agarro neles e “roubo-os”...

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TERESA SALGUEIRO – É isso. E talvez venhamos todas a compor nos tempos mais próximos. Era uma coisa que eu gostava de fazer. Não sei é quando...

M. J. – Os meus ídolos são três mulheres que nunca foram compositoras – a Maria Callas, a Maria Teresa de Noronha e a Elis Regina, que são apenas intérpretes.

P. – As instrumentistas também se contam pelos dedos... Uma questão de educação? De comodismo?

F. P. – Penso que é uma questão de educação. Eu vejo agora, que estou no Conservatório, que há imensas raparigas com boas vozes, com vontade, mas que não arriscam, estão sempre à espera de qualquer coisa...

M. J. – A voz é um instrumento como outro qualquer. Eu não toco piano, pois não, mas toco cordas vocais.

F. P. – Leva-se para todo o lado...

T. S. – O pior é que enquanto num piano afinado se toca um “mi” e sai um “mi”, nós, se estivermos cansadas, queremos cantar o “mi” e às vezes sai um “ré” sustenido...

P. – Em Portugal as grandes vozes pertencem a mulheres?

T. S. – Existe uma tradição de música portuguesa cantada por mulheres. Muitos mais do que por homens. Embora haja o caso do Alentejo, dos fadistas de Coimbra...

M. J. – Acho que sim, vozes femininas é que é! [Risos.] Em Portugal há mais boas vozes femininas do que masculinas. Não no conceito que normalmente ouço dizer – “o fulano tem um vozeirão, uma extensão enorme e não sei quê”. Por exemplo, o Carlos do Carmo, que é um excelente cantor, tem uma extensão pequenina, mas diz tudo, está lá tudo...

P. – Haverá da parte da mulher uma identificação mais fácil entre a voz e o corpo? Será a voz o instrumento ideal feminino?

T. S. – Isso acontece em qualquer cantor, penso eu. O que conta é a interpretação que se consegue dar às palavras, aos sons, seja ao que for. A alma com que se entrega ao que está a fazer.

M. J. – Olha, o Marco Paulo tem uma excelente voz...

F. P. – Dentro do estilo é o maior!

M. J. – Um cantor tem que ser como um atleta, tem que estar preparado. É o corpo todo que nós usamos como se fosse um instrumento.

 

Aquecimentos

 

P. – Vocês desde que chegaram ao jornal não pararam de cantar, como se fosse a coisa mais natural do mundo. É difícil imaginar cantores homens a fazerem o mesmo...

F. P. – Talvez nos envolvamos mais...

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M. J. – Uma vez perguntei a Lauren Newton (com quem ando a trabalhar) como é que ela aquecia a voz. Ela procede de maneira diferente da habitual. Já a Jay Clayton faz o aquecimento de uma forma tradicional. Depois quis saber como é que faz o Bobby McFerrin. A Lauren respondeu-me: “Ele não aquece, está sempre a cantar, o dia todo!” E é o gajo que faz aquelas acrobacias todas... Está sempre quente!

T. S. – Embora o masculino e o feminino tenham diferentes sensibilidades.

P. – As mulheres entregam-se mais? Há maior interiorização no canto?

M. J. – Se calhar nós temos mais cuidado com o instrumento... Ou será porque somos umas tagarelas? [Risos]. Porque gostamos de abrir a boca e dizer coisas?

 

Pernas ao léu e os Manéis de bigode

 

P. – Em palco vocês são cantoras mas também mulheres. Será possível existir uma Madonna à portuguesa?

M. J. – Eu acho a Madonna altamente, uma excelente profissional, curto imenso o que ela anda a fazer.

F. P. – Ninguém a critica, ela dá a volta...

P. – Não responderam à questão...

T. S. – A Madonna é mesmo Estados Unidos.

M. J. – É, os Estados Unidos funcionam muito nessa base, do produto, da encenação, do que se vê e do que se diz.

P. – Mas ela liga de forma explícita a sexualidade e a voz. É possível fazer o mesmo em Portugal?

M. J. – Mas cá há cantoras que também fazem isso. Normalmente cantoras mais ligadas à área do nacional-cançonetismo que andam sempre impecavelmente de perna ao léu, maminhas bem feitinhas, todas a mostrarem-se... É a tal componente sexual. A Cândida Branca-Flor, a Alexandra... Se repararmos bem, elas têm um cuidado extremo com o que vestem, como se apresentam, mini-saias não sei quê. Muito mais do que nós.

T. S. – Eu nunca seria capaz de cantar de mini-saia.

P. – De vocês as três, a Maria João parece ser quem mais assume essa componente...

F. P. – Perfeitamente! Tu és mais liberta.

M. J. – Eu? Eu? [Risos]. Às vezes não é nada bonito de se ver – faço caretas...

F. P. – Mas isso é que é bonito.

M. J. – Muitas vezes a gente vê na televisão o malfadado “playback”, e as pessoas depois notam. O leigo, que está em casa, diz: “Ah, aquela está tão bonita, tão agradável de se ver!” Depois vem um concerto ao vivo e é terrível, a pessoa torce-se, tem as veias salientes...

T. S. – Quando canto determinadas coisas sinto-me diferente, mais “sexy”, mais triste, mais contida, mais atrevida, conforme a música.

P. - ... A Teresa tem uma imagem discreta, mais sóbria...

T. S. – Mais quietinha!... Mas tem a ver com o tipo de música e com a personalidade.

M. J. – Mas aquilo que eu faço não é de propósito. Estou lá e é assim que sai. Sinto uma felicidade tão grande por estar em palco...

P. – Quando estão em palco, têm consciência dos olhares que recaem sobre vocês? Dos olhares masculinos, por exemplo?

M. J. – Masculinos e femininos, atenção! Mas eu nunca olho para o público. Imagina que estás a cantar uma coisa incrível e olhas para um Manuel à tua frente que se está a assoar... [Risos.]

F. P. – Eu prefiro nem olhar para um Manuel de bigode! [Risos.]

T. S. – Não estou ali a pensar se aquele está a olhar para mim, a reparar na minha cintura... Não penso se são homens ou mulheres que me estão a ver.

F. P. – É uma massa enorme e assustadora...

M. J. - ... Que nos dá uma pressão e uma felicidade imensas!

F. P. – Eu estou ali no meio daqueles quatro irmãos Salomé, dos Lua [Extravagante], de bigode (risos). São uns companheiros fantásticos e meus amigos. Mas é evidente que sinto qualquer coisa quando entro em palco.

M. J. – No vosso espetáculo da Aula Magna levaram bastantes assobios (risos).

F. P. – Eu ouvi.

 

Contos imorais

 

P. – Quem as ouvir falar, assim amigas diria que não existe qualquer rivalidade entre quem trabalha neste ramo. É mesmo assim, não há competição?

T. S. – Cada vez mais as pessoas se querem juntar para aprender umas com as outras.

M. J. – É saudável. Não há competição, é na boa. Fulana está a cantar e pensa “Não sou ninguém se não cantar como ela canta.” Mas rivalidade, rivalidade, acho que não existe.

P. – Dentro da indústria, quais são os vícios e virtudes?

F. P. – Virtudes, a existência de bons compositores e grandes ideias. E estão a criar-se condições para que as pessoas possam trabalhar cada vez melhor.

M. J. – Vícios, de venda e de mercado. Acho que a indústria está viciada em certos padrões de comprar, vender e promover, o que acaba por condicionar os músicos e os cantores. Embora no meu caso as coisas sempre tenham sido mais fáceis, justamente por ser mulher.

F. P. – Às vezes é complicado, porque... não sei se quero dizer isto...

M. J, T. S. e PÚBLICO – Diz lá!

F. P. – Às vezes há coisas que acontecem mais facilmente se...

P. – Como? Propostas, digamos, de índole não propriamente artística?

F. P. – Por exemplo. Há coisas que parecem tomar um caminho porreiro até certa altura, a amizade e não sei que mais, até que chega um momento em que afinal é mais qualquer coisa. Se tu dizes que não, deixam-te cair.

M. J. – Nesses casos também não interessa. Se alguém te quer usar para fazer não sei quê, esse alguém também não te vai servir para mais nada.

P. – Não chegando a casos tão extremos, poderá dar-se o caso de a indústria pensar em primeiro lugar numa – uma imagem apelativa que possa vender – e menos na música?

F. P. – Evidentemente que pensam logo nisso.

T. S. – A mim não me passa pela cabeça.

M. J. – Ai é, pensam não sei quê? Fixe! Vou aproveitar-me disso. Se alguém acha que me pode vender porque sou mulher, por uma imagem, não me vai pôr as mãos em cima de certeza absoluta, se eu não quiser. Então vou aproveitar-me dessa ingenuidade dele para poder fazer as minhas coisas. Se uma pessoa olha para nós e diz: “Vou comer esta querida” (risos), eu só tenho é que lhe dar a volta. Se, por exemplo, um produtor me disser: “Vou promover esta mas quero algo em troca”, eu, na troca, não lhe vou dar coisa nenhuma. Se calhar não devia estar a dizer isto.

F. P. – Acho que é uma questão de tato. Se apostarem em mim, não vou dar nada em troca que não seja o meu trabalho. As coisas depois avançam ou não.

 

Primeiro passa-se a roupa a ferro

 

P. – Em Portugal assiste-se presentemente ao fenómeno da reciclagem musical – pessoas que já andam nisto há muito e se juntam para formar novos agrupamentos. É possível acontecer um equivalente feminino?

M. J. – Era bom as pessoas juntarem-se. Lá vou eu ter que falar nos Resistência, dos quais não gosto nada. Penso que é uma forma inteligente de sobrevivência, de sobrevivência a um alto nível, pois aquilo vende imenso. Mas há outras hipóteses das pessoas se juntarem. Por exemplo, aquilo que nós fizemos [espetáculo de Maria João com Lena d’Água, Xana, Teresa Salgueiro e Anabela Duarte realizado em novembro de 1991, no Teatro São Luiz, integrado nos Festivais de Lisboa]. Foi diferente – um encontro por prazer.

F. P. – Há um projeto meu com a Teresa, mas não quero falar antes de as coisas acontecerem.

P. – Conseguem conciliar a vossa carreira, cheia de “timings” e digressões, com a vida familiar?

M. J. – Tenho uma criancinha, um rapaz quase com três anos, e é muito difícil para mim estar longe dele. E ele começa também a sentir a minha falta. Passada uma semana fora fico doente de tristeza, começo a embirrar com toda a gente, sou mal educada, chego mais atrasada que o costume...

T. S. – Atrasada? Tu também?...

M. J. – Uuii!...

T. S. – Ah, que alívio...

F. P. – Eu estou a melhorar.

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M. J. – Mas a gente não chega atrasada por falta de respeito. Eles [os músicos] quando chegam tarde é porque ficaram sentados na cama a ver televisão (risos). Sei que é assim porque tive essa experiência na minha última “tournée”. Eles, coitados, já estão mais que escaldados com os meus atrasos, de maneira que eu chegava a horas, num esforço sobrehumano, e acabava por ficar à espera que eles viessem. E eles, naquela: “Ela deve estar atrasada.”

P. – O atraso sistemático é o arquétipo feminino desconhecido?...

M. J. – Nós temos mais coisas para fazer do que os homens. Os homens fazem a barba, tomam banho e já está. Nós tomamos o banhinho, secamos o cabelo, que é comprido, pintamos os olhos, estamos quase a sair e pensamos: “Será que estamos bem, será que vou vestir isto ou não vou”...

F. P. – A mim o que me acontece é que arranjo sempre qualquer coisa – não gosto de sair de casa e deixar a cama por fazer. O homem está-se nas tintas.

M. J. – Eles chegam aos concertos, fazem o ensaio de som, depois vão para o quarto, vestem-se em cinco minutos e estão prontos. Enquanto nós, eu pelo menos, deixamos a roupa na cama, dobrada e passada a ferro com um ferrinho minúsculo, o que dá umas dores nas costas atrozes, numa posição não de todo ideal para quem vai cantar a seguir. Depois, lavar a cabeça, as pinturas... É um “stress” enorme (risos).

F. P. – Eu começo sempre a preparar-me umas duas horas antes...

T. S. – Também eu.

M. J. – Nem tenho tempo para comer.

F. P. – Normalmente eles vão jantar enquanto eu me vou pintar. Até porque cantar com a barriga cheia... Eles também não gostam.

M. J. – As pessoas pensam que os cantores, os músicos, levam uma vida altamente, vão curtir, vão ver o país – “rica vida, rica vida!”

F. P. – Mas é deitar cedo e cedo erguer!

 

As luzes

 

P. – Afinal sempre dão uma importância decisiva à imagem...

T. S. – Evidentemente. Arranjo-me e pinto-me para me sentir bem.

F. P. – Nos tempos que correm, a imagem é cada vez mais importante. Por altura do 25 de Abril, em 74, lembro-me que as pessoas cantavam como se fosse uma luta. Hoje isso está um bocado morto. As pessoas agora querem é luzes, grande espetáculo.

M. J. – Num concerto estamos em frente das pessoas e temos que nos sentir bem connosco próprios.

T. S. – É uma espécie de máscara que resulta para eu estar à vontade em frente a uma multidão que está a olhar para mim, e que não possa dizer mal dos sapatos ou achar o penteado esquisito...

P. – Nesse aspeto, as cantoras portuguesas também não primam pela ousadia...

F. P. – Não concordo. A Xana, por exemplo, não tem uma imagem clássica.

M. J. – A Anabela Duarte é bastante extravagante.

P. – O negócio, e não só, da música em Portugal poderia comportar excessos do tipo dos cometidos por Sinead O’Connor?

F. P. – Se for uma coisa que faça sentido...

M. J. – O que é isso de excesso?

P. – No sentido de provocação. Lá fora há uma mediatização e assimilação por parte da indústria. Mas num país de brandos costumes como é o nosso?...

M. J. – Se aparecesse cá uma mulher assim, na província chacinavam-na! Quanto à indústria, é Lisboa e Porto e pouco mais.

P. – Somos um país de provincianos?

F. P., M. J. e T. S. – (em coro) – Acho que sim!

M. J. – Somos um país pequeno, conhecemo-nos todos uns aos outros. Conhecemos os críticos, eles conhecem mais não sei quem, fica tudo uma coisa caseira.

 

"Blues" cósmicos [Janis Joplin]

  

rádio e televisão >> quinta-feira, 28.01.1993

DESTAQUE

 

“Blues” cósmicos

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Janis Joplin nasceu a 19 de janeiro de 1943 e morreu a 4 de outubro de 1970. Tinha 27 anos bem vividos. Vividos de mais. O programa desta tarde celebra o aniversário de nascimento da cantora que ao lado de Jimi Hendrix e Jim Morrison formou a tríade maldita do rock nos anos 60. Não chega a meia hora de programa. Pouco, para quem, como ela, ensinou às mulheres o desempenho, em música, de outros papéis além das doçuras hippies personificadas por gente como Joan Baez, Judy Collins e Melanie.

Era branca mas tinha a voz e a força interior de uma negra (embora os negros não se deixassem impressionar. Alguém da editora Stax criticou mesmo com alguma dureza uma atuação de Janis Joplin em Memphis, 1968). Como tal, Janis amava os “blues”, que interpretava de forma pessoal. Dos “blues”, dos seus “blues”, fez literalmente um modo de vida. Os “blues” que haveriam de consumi-la depois de lhe concederem a glória, num álbum que marcou a sua época: “I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again, Mama”.

Enquanto cantava, Janis Joplin gozava e sofria em doses iguais. Foi assim durante o relâmpago que iluminou a sua vida e a sua carreira. Até outra dose. Esta mortal, a levar para onde a inspiração dispensa o sacrifício da carne. Em palco, Janis libertava-se. Melhor dizendo, excedia-se. Entregava-se. Essa entrega, como quase sempre acontece a quem não pode ou não quer parar, foi-lhe fatal. Garrafa de “whisky” na mão, cabelos em desalinho, rosto de criança sulcado por rugas precoces, compunham a imagem da cantora rebelde que, afinal, se expunha para melhor se esconder.

Mas era a voz, rouca, gutural, moldada pelo álcool e sustentada pela heroína, que causava assombro. Uma voz que chorava. Uma voz que gritava. Uma voz que se deixou aprisionar em disco em três álbuns apenas: “Cheap Thrills”, gravação ao vivo de 1968, com os Big Brother and the Holding Company, “I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again, Mama”, a obra-prima de 1969, e “The Pearl”, último de originais, de 1971, deixado incompleto por causa da “overdose” de heroína que um ano antes pusera fim à sua vida.

Fizeram-se posteriormente algumas compilações: “Janis” (banda sonora de um documentário realizado em 1974), “Anthology” (1980), “Farewell Song” (1982 e uma biografia, “Buried Alive”, 1973, por Myra Friedman. Bette Midler não conseguiu destruir o mito, na reencarnação em registo de histeria que fez da cantora, em “The Rose”. Hoje já ninguém fala muito de Janis Joplin – “The Pearl”, como ficou conhecida para a posteridade. O programa desta tarde não chega a meia hora.

 
Euroritmias
TV 2, às 15h30

 

Um rosto por detrás da máscara [Annie Lennox]

 

rádio e televisão >> segunda-feira, 25.01.1993

DESTAQUE

 

Um rosto por detrás da máscara

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Ela é dona de uma voz espantosa e de uma presença em palco avassaladora. É, além disso, a imagem plástica vídeo por excelência. Ela é Annie Lennox, diva – num disco, o primeiro que gravou a solo, e num teledisco do mesmo nome. “Diva” é também o título do espetáculo que a RTP apresenta hoje à noite em Últimas Notas, filmado em Veneza, com a realização de Sophie Muller.

Nele são exploradas as mil e uma mutações visuais da cantora que, ao longo de dezenas de telediscos, mudou outras tantas vezes de pele e de personalidade, desempenhando um sem-número de personagens, de anjo a dona-de-casa em fúria, de andrógino a mulher fatal.

O local das filmagens não poderia ser mais apropriado. Cidade também ela de mil rostos e matizes. Veneza, feminina e aquática, cobre-se todos os anos pelo Carnaval, de disfarces e maquilhagem, transformando-se no baile de máscaras mais faustoso do mundo.

Em “Diva”, o filme, Annie Lennox – divorciada em termos conjugais e artísticos do seu ex-companheiro nos Eurythmics, Dave Stewart – encena a transfiguração de si própria e a composição da máscara. Parte-se de um rosto e de um corpo em carne e osso de uma mulher que nos últimos tempos tem sido fustigada pela adversidade, para se assistir à mudança progressiva dos traços, na construção da “outra”. Imagem de alta definição, plasticina de sonhos, veículo de transmissão de uma realidade simulada – “Sweet dreams are made of this”.

Neste aspeto, Annie Lennox é verdadeiramente, a par de Madonna, a diva da pop, enquanto assume e incarna o carácter fugaz e a sucessão de imagens e artifícios que se autodevoram e constituem a própria essência daquele tipo de linguagem. Madonna expõe-se, comercializa-se, em fotos e teatralizações do escândalo, e gere o tempo por fases, que planeia com antecedência, avançando cada nova ousadia apenas na altura exata em que esta se revelar rentável. Lennox disfarça-se, joga na ambiguidade e usa um tempo mais rápido, subliminar. A autora de “Sex” agita o próprio e os fantasmas e fantasias seus derivados, em palco. A cantora de “Sexcrime” brinca com lugares-comuns e subverte arquétipos. De forma talvez mais inteligente, sem dúvida menos perversa. Ambas gozam e perturbam. Annie Lennox leva vantagem pelo menos numa coisa: é mais bonita.

É esta mulher-manequim, de pose gelada e voz tórrida, a mesma que um dia se deixou emocionar e filmar sem máscara na companhia de Aretha Franklin, para, sem subterfúgios, cantarem juntas “Sisters (are doin’ it for themselves)” e que, noutra ocasião, gravou um álbum intitulado “Be Yourself Tonight”. Veremos de falava ou não verdade.

 

Canal 2, às 01h00

 

27/10/2026

Steve Roach + Kevin Braheny + Michael Stearns


pop rock >> quarta-feira, 20.01.1993

FORA DE SÉRIE

 

Steve Roach & Kevin Braheny
Western Spaces (8)
CD, Fortuna

Steve Roach, Kevin Braheny & Michael Stearns
Desert Solitaire (7)
CD, Fortuna

Steve Roach
World’s Edge (8)
2xCD, Fortuna

Todos import. Ananana


Em “Western Spaces” e “Desert Solitaire”, primeira e segunda partes de uma obra conceptual, os compositores procuraram “captar a essência” do deserto. Em concreto, das regiões áridas do Sudoeste da América do Norte, da Califórnia e das vastidões do Mojave, cujas areias serviram de inspiração a estas paisagens impressionistas.

Steve Roach e Kevin Braheny fazem parte da cena eletrónica da “West Coast” americana, de tendência sintetista. Nesta aventura a dois, cujo segundo tomo conta ainda com a colaboração de Michael Stearns, proveniente da mesma área musical, procederam de forma idêntica ao projeto paralelo de Steve Roach com Robert Rich, que tão bons resultados proporcionou até agora, em “Strata” e “Soma”: eletrónica mais sonoridades étnicas, reais e sampladas. No fundo, um entre vários ramos da árvore, cada vez frondosa, que Jon Hassell plantou em “Possible Musics”. Música de movimentos e reverberações tão amplas como as do deserto, de flutuações e alterações subtis, repetindo a sucessão impercetível de contornos das dunas do deserto.

“Desert Solitaire” tem como defeito pouco adiantar em relação ao disco anterior. Diz as mesmas coisas da mesma maneira, sem apresentar inovações. Temas há que parecem repetições de “Western Spaces”. Cai por momentos na monotonia e na “new age” bem comportada. Mas será talvez a monotonia aparente do próprio deserto que exige a disponibilidade e a atenção dos máxima dos sentidos.

O disco a solo de Steve Roach não se afasta muito, em termos formais, dos outros dois álbuns. Nele o compositor parte da metáfora da “chegada à beira do abismo” e do impulso de “saltar no vazio, ganhando asas antes da queda”. Voo e gravidade, expressos num maior contraste dos timbres (não falta o inevitável “didgeridoo”) e na utilização sistemática das percussões – das profundezas das “frame drums” ao retinir de sino rituais tibetanos e aos ecos de cerâmica do “dumbek”. A exceção é o tema com cerca de uma hora que ocupa a totalidade do segundo disco, “To the threshold of silence”, longa progressão ondulatória, tão silenciosa como “Thursday afternoon”, de Brian Eno, ou “Waiting for Cousteau” (que ninguém se espante, é diferente de tudo o que este autor fez até à data), de Jean-Michel Jarre, aquele que mais se aproxima do sentido xamânico que Roach procura imprimir à sua música.