07/10/2026

Chieftains na Quinta da Atalaia [Festa do Avante]

 

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 21 JULHO 1992 >> Cultura

 

Festa do Avante a 4, 5 e 6 de setembro

 

Chieftains na Quinta da Atalaia

 

A banda “folk” The Chieftains, uma das maiores bandas de sempre deste género musical, vai estar presente na XVI edição da Festa do Avante que se realiza na Quinta da Atalaia, na Amora, Seixal, a 4, 5 e 6 de setembro.

Os Chieftains são os representantes por excelência da música tradicional irlandesa no mundo. Nascido no início dos anos 60, o grupo liderado por Paddy Moloney tem mantido ao longo dos anos uma formação mais ou menos estável na qual pontificam executantes notáveis como próprio Moloney, nas “uillean pipes” e “tin whistle”, Matt Molloy, na flauta, Derek Bell, na harpa, Seán Keane e Martin Fay, no violino e Kevin Conneff no “bodhran”.

Detentores de uma vasta discografia de onde se destacam os essenciais “The Chieftains 5”, “Boil the Breakfast Early”, “The Chieftains 10”, “Celebration” (com Van Morrison e os Milladoiro) e “Celtic Wedding” (fabulosa incursão na música da Bretanha), os Chieftains editaram recentemente “The Bells of Dublin” que conta com a presença de convidados como Marianne Faithfull, Rickie Lee Jones, Nanci Griffith, Jackson Browne e Elvis Costello, entre outros.

O álbum será editado em breve no nosso país pela BMG.

No campo do jazz está também assegurada a presença na Festa do Avante de um núcleo de músicos ligados aos Jazz Messengers: o saxofonista Benny Golson, o trombonista Curtis Fuller, o trompetista Eddie Henderson e um baterista ainda por definir, aos quais se juntarão, na primeira noite da festa, a orquestra de jazz do Hot Clube de Portugal, e músicos portugueses convidados, numa “jam session” prevista para o dia seguinte.

Amélia sozinha em Algés [III Encontros Musicais da Tradição Europeia]

 

PÚBLICO DOMINGO, 19 JULHO 1992 >> Cultura

 

III Encontros Musicais da Tradição Europeia

 

Amélia sozinha em Algés

 

Amélia Muge foi o único artista participante no último concerto dos III Encontros Musicais da Tradição Europeia que na sexta-feira terminaram em Algés, no Parque dos Anjos. Jean-Marie Carlotti, programado para este dia, cancelou à última hora a sua atuação, por motivos relacionados com o atraso de aviões, à semelhança do que já acontecera antes com os Capercaillie. O concerto do músico occitano foi transferido para o dia 3 de agosto, à mesma hora e no mesmo local.

Acompanhada por José Martins, nos teclados e percussões, Catarina Anacleto no violoncelo e Paulo Jorge no acordeão, Amélia Muge apresentou canções do seu álbum “Múgica”, com particular incidência, como seria de esperar, nos temas tradicionais. Da Beira, do Alentejo ou uma canção de embalar moçambicana.

A novidade foi “Cantiga de Rosalia”, um original sobre texto da poetisa galega Rosalia de Castro, interpretado por Amélia Muge com a vibração e a sensibilidade que se lhe conhecem.

Os III Encontros Musicais da Tradição Musical Europeia recomeçam no dia 23, em Guimarães, a 28 na Guarda e a 1 de agosto em Évora. O programa completo pode ser consultado na edição de 8 de julho do suplemento Pop Rock deste jornal.

 

Bater a pala [Elton John]

 

PÚBLICO SÁBADO, 18 JULHO 1992 >> Cultura

 

Concerto de Elton John em Alvalade

 

Bater a pala

 

Elton John mostrou que, pelo menos em palco, é um senhor. Foi um bom espetáculo aquele que o cantor inglês, de 45 anos, deu em Alvalade. A imagem dos ecrãs gigantes esteve nítida e o teledisco, de quase duas horas e meia, resultou. O aborrecido, nestes concertos de estádio, é que há sempre uns tipos ao longe no palco a fazer barulho e a distrair.


Uma imagem com texto, preto, fato, branco

Descrição gerada automaticamente 


Em vez da esperada barracada musical, em Alvalade houve outro tipo de cenas bem menos divertidas. Por causa do “perigo de morte” representado pela pala que ameaça que cai mas não cai, alguns milhares de pessoas pagaram para assistir ao concerto num local e acabaram noutro, por falta de espaço.

“Está tudo cheio”, diziam elementos da organização, “tente na bancada do lado”.

Um cordão de polícias impedia o acesso à zona da bancada central e ajudava a convencer os mais céticos, que insistiam em reclamar o lugar a que tinham direito, a desistirem da ideia. Como a “bancada do lado” também não demorou muito a ficar cheia, restava a solução da relva. O valor dos bilhetes passou a ser meramente simbólico.

Outra coisa curiosa: os seguranças não deixavam entrar no recinto ninguém munido de garrafas ou latas de bebida. Nem sequer os inocentes recipientes de plástico com água. Lá dentro, os bares do estádio vendiam-nas ao desbarato. Questões de segurança que a razão não atinge... Quem não se importou nada com a pala foi Elton John que, durante cerca de duas horas e meia, trocou os óculos e a faceta “camp” por um espetáculo sóbrio no qual mostrou que afinal o circo não é tudo. Foi um Elton John cabeludo (os implantes substituem com vantagem as perucas) e vestido de forma discreta que se apresentou quinta à noite aos milhares de admiradores portugueses que durante toda a semana apenas tinham ouvido falar na pala.

“Don’t let the sun go down on me” abriu o “show” e foi suficiente para se perceber que o cantor, aos 45 anos de idade, está em grande forma. A voz permanece com a clareza e a força de sempre. Fisicamente parece mais novo, com o cabelo no sítio certo, os óculos “normais” e uma postura de “verdadeiro artista”, senhor da sua arte. Pelo menos era isto o que as imagens de vídeo mostravam. Mas com atenção e uma imensa acuidade visual era possível perceber que, lá no fundo, os bonecos do palco conseguiam reproduzir com bastante exatidão os movimentos percetíveis no ecrã. Chama-se verdadeiro profissionalismo a esta capacidade de conseguir estar à altura da própria imagem.

Sobre o cenário gigantesco do costume, Elton John e a sua banda deram cartas, entre as canções do novo álbum “I’m the One” e a massagem na memória proporcionada pelas antigas. Houve rock ‘n’ roll, baladas românticas, sequências instrumentais de genuíno “rock sinfónico”, solos para todos os gostos, uma cantora negra de voz portentosa cujas vibrações chegaram a assustar e a fazer temer pela segurança da pala, um piano “honky tonk” e, na única concessão aos excessos de outrora, o cantor a deixar escorregar o blusão em pose de diva provocante.

“Daniel”, “Blue Avenue”, “Sad Song”, grandes êxitos alternando com canções novas, criaram um espetáculo consistente que, neste caso, consistiu na oferta maciça da chamada “música para constituir família” ou, em termos mais prosaicos, “para a esfrega”. Já perto do final, “Rocket Man”, a apresentação dos músicos, “The show must go on”, em homenagem a Freddie Mercury, e “Saturday night is alright for fightin” deram lugar a dois “encores”. No primeiro, “Sacrifice”, o instrumental “Song for Guy” e “Your Song”. No segundo, com Elton sozinho ao piano, o “medley” “Blue Eyes”/“Nikita”/Crocodile Rock”. Ninguém disparou sobre o pianista. Nem ninguém bateu a bota por causa da pala. Elton é que bateu a pala.


Sardenha na brasa [III Encontros Musicais da Tradição Europeia]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 17 JULHO 1992 >> Cultura

 

III Encontros Musicais da Tradição Europeia prosseguem em Algés

 

Sardenha na brasa

 

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

 

Melhoraram as condições atmosféricas nos III Encontros Musicais da Tradição Europeia. Mesmo assim choveu, terça-feira à noite, no Parque dos Anjos, em Algés. O único cataclismo ocorreu com o som, que praticamente destruiu a atuação dos Muxicas. Só na quarta-feira os amantes de música folk tiveram direito a um clima favorável. Sem inundações, furacões, terramotos e “feedbacks”.

Elena Ledda veio da Sardenha e apresentou até agora a melhor música do festival. Senhora de uma voz e de uma presença em palco portentosas, Elena vibrou no ar liturgias de fogo, em espiral, a solo ou em polifonias vocais acompanhada pelos restantes músicos da banda Suonofficina. Ronda pelo lado de dentro do sol, das sombras e das transparências mediterrânicas. Da Sardenha, cuja música evoca a da Turquia e da Grécia. A África abrasiva. E o mar. Na dança e no êxtase que permitem conversar igualmente com os deuses e os demónios. Como um dervixe. Elena Ledda, os Suonofficina e a sua cerimónia mágica venceram os elementos. A Natureza vingar-se-ia a seguir, servindo-se das manápulas de um “técnico de som” com a sensibilidade de um tijolo.

As sete pessoas, três “gaitas”, uma sanfona, quatro pandeiretas, mais flautas, adufes, bombos e tambores variados dos galegos Muxicas foram suficientes para descontrolar o homem da técnica que ora subia, descia ou distorcia o som, de forma aleatória, segundo o esquema “vamos lá rodar este botão para ver o que é que dá”. Deu bota. Os Muxicas sentiram que estavam a tocar sobre o arame e até a energia (evidente em álbuns como “Desafinaturum” ou o novo “Escoitando Medrala Herba”) com que disfarçam certas limitações como executantes, se foi aos poucos dispersando. Do naufrágio, patente sobretudo na estridência da voz e nas fífias dadas na sanfona por Maria Xosé, salvaram-se as erupções das percussões, a toada irresistível das “gaitas” em uníssono e as intervenções do castiço Manolo Rin-Rin. Entre “passacorredoiras”, “pandeiretadas” e “muiñeiras” que nunca chegaram a entusiasmar.

Quarta-feira foi preenchida pela atuação dos Capercaillie, banda escocesa que hoje faz o que antes fizeram os Fairport Convention e Steeleye Span em Inglaterra, ou os Five Hand Reel na Irlanda: juntar os sons tradicionais a uma batida Rock. No seu campo, e passada a ortodoxia dos primeiros álbuns, os Capercaillie são imbatíveis. A eletricidade do baixo e da guitarra casam bem com a voz de Karen Matheson, entre as baladas em gaélico que muito em breve levarão a banda até à companhia dos Clannad, e instrumentais endiabrados que revelaram três fora-de-série: Donald Shaw, no acordeão, Marc Duff, no “tin whistle” e Charlie McKerron, no violino. Os Capercaillie bem tentaram pôr toda a gente a dançar, com apelos de “go crazy!” enquanto espicaçavam: “The portuguese are a very lively people”. É verdade, somos livelinos e vivaços. Não gostamos é de ser mandados. Claro está que ninguém moveu um pé. Na véspera um velhote dançou com um cão. No dia seguinte o canino deu-lhe tampa.

Fica a sugestão final para que os Encontros do próximo ano sejam com entradas pagas. Para evitar a presença de alguns indesejáveis como aquele grupo de jovens que deu gritos, “acompanhou” à guitarra os músicos e incomodou toda agente. Nada contra os jovens, antes pelo contrário. Bastava amordaçá-los e arrancar-lhes as guitarras. Amanhã os Encontros fecham as portas em Algés. Com Amélia Muge e Jean-Marie Carlotti, da Occitânia. Depois é ir até Évora, Guarda ou Guimarães, para ouvir Ad Vielle Que Pourra, Musica Nostra, La Musgaña, Raízes e Vasmalom.

O artista ótico [Elton John

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 JULHO 1992 >> Pop Rock

 

O ARTISTA ÓTICO



 

Na quinta-feira à noite, no Estádio de Alvalade, vai haver barraca de certeza. E não se trata sequer da cobertura da bancada. Elton John tem uma especial vocação para se tornar notado. Não há muitos como ele, cuja simples presença em palco chega para provocar uma boa gargalhada.

 

“Vais ao Elton John?” será decerto a pergunta mais ouvida durante estes dias que antecedem a vinda do cantor a Portugal, pelos frequentadores dos concertos de estádio. Ir ou não ir, eis a questão. Há quem não goste de se meter em bichas, da confusão, de se sentar na relva, e prefira ficar em casa. Quanto a Elton John, não tem dúvidas: guerra é guerra.

De entre as várias categorias de artistas pop existentes no mercado – génios, talentosos, funcionários, foleiros, estrelas, intelectuais, populistas, betos, drogados, “outsiders”, conceptualistas, de cabelos compridos, de cabelos curtos, carecas, “artistas”, etc. – Elton John inclui-se na faixa estreita dos “barraqueiros”, dos que gostam de dar nas vistas e para quem o “show business” é, na essência, uma “passerelle”. Até o nome artístico é uma piada: Elton, de Elton Dean, saxofonista da banda de “free-rock” Soft Machine, mais John, de Long John Baldry, um “crooner” da época. Uma escolha acertada para alguém cujo verdadeiro nome é Reginald.

 

Gorila

 

Desde cedo o cantor começou a evidenciar sinais de uma incontrolável tendência para se fazer notado. Uma vez, há muitos anos, num concerto dos Stooges – uma das suas bandas favoritas –, Elton não resistiu a entrar no espetáculo e saltou para o palco mascarado de gorila, decidido a participar numa “jam session” original. Infelizmente o fecho da máscara encravou e não havia maneira de provar a sua identidade, acabando o primata por ser corrido do palco pelos seguranças. Foi salvo pelo próprio Iggy Pop que, reconhecendo de imediato o artista por detrás do gorila, apresentou: “Senhoras e senhores, Elton John!”

Noutra ocasião o cantor ficou fascinado pela figura de Esther Williams, como aparece na montagem de velhos musicais da MGM, “That’s Entertainment”, emergindo resplandecente da piscina com fogo-de-artifício em volta da cabeça. Imagem, para si, da “grande arte”, que jamais o abandonaria, ao ponto de ele próprio, na “tournée” seguinte, iniciar o seu show da mesma maneira: saindo de uma piscina com estrelinhas a tremelicar na cabeça. Noutra ainda, surgiu vestido de freira. Era o exemplo consumado do chamado “camp rock”, terreno onde se movimentaram, entre outros, Gary Glitter, Marc Bolan, New York Dolls, Brian Eno e David Bowie. Já antes desbravado por personagens como Little Richard e Liberace, do qual Elton John foi e continua a ser um dos principais cultores.


A grande arte ocular

 

Assim, não espanta que os principais atributos artísticos de Elton John sejam óculos (a obsessão binocular vem de longe, da admiração por Buddy Holly, por Nana Mouskouri, Bonnie Bramlett e Dory Previn – das poucas cantoras “caixa-de-óculos”), chapéus, cabeleiras “pompadour” e, como adereço, eventualmente um piano. E, já agora, canções. Quase todas escritas de parceria com Bernie Taupin, com quem trabalha desde há 25 anos.

Sobretudo o vestuário é muito importante, como de resto se pode depreender das fotografias. Elton John privilegia o “look” acima de tudo. Ele tem essa sorte, de saber escolher para cada ocasião, o fato mais espampanante, os óculos mais “rococó”, as perucas mais “glamourosas”. Ele é o que podemos chamar um verdadeiro “lucky look”.

Para além de cantar mais rápido do que a própria sombra, Elton John gosta de futebol, e em particular do “seu” Watford, clube que adquiriu e que, nos anos 80, sob a presidência do cantor, ascendeu da III à I Divisão. Ficaram célebres na época as palavras que então proferiu, de incitamento aos jogadores: “Os jogadores não são bem aconselhados e as exigências que lhes são feitas são parecidas com as das estrelas pop, pelo que posso trazer alguma da minha experiência em benefício destes jogadores.“ Sem dúvida que trouxe.

 

“One man show”

 

Correram histórias estranhas sobre o cantor, como as suas hipotéticas más relações com os “roadies”, a quem supostamente Elton causaria maus tratos e outras coisas do género. Ele desfez de imediato as dúvidas: “Adoro os meus ‘roadies’, sempre fui simpático com eles e nunca lhes fiz mal, nunca lhes bati nem nada do género. Pelo contrário, eles é que costumavam amarrar-me e bater-me. É por isso que os adoro.” É isto o rock ‘n’ roll, com toda a sua carga de prazer e violência que Elton John assume de forma muito pessoal.

Depois foram as perfídias do costume: a sida, com alguns jornais a proclamarem a morte próxima do cantor e triunfo dos bons costumes sobre a devassidão. Evidentemente que com a vida que leva Elton John arrisca-se. Mas, por enquanto, ele aí está com o bom mau aspeto de sempre e pronto para mais uma barracada. Ninguém lhe leva a mal e até lhe devemos agradecer alguns momentos de boa disposição. Há muito que Elton assumiu o rock como uma atividade circense e em Alvalade será de esperar do velho Reginaldo um verdadeiro “one man show”. Ou qualquer coisa parecida.

Jennifer Warnes - The Hunter

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 JULHO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Jennifer Warnes
The Hunter
LP/CD Private Music, distri. BMG

Uma imagem com ar livre, pessoa

Descrição gerada automaticamente

Disco simpático. De caça, sem que se saiba bem quem é o caçador e o caçado. Jennifer Warnes, admiradora de longa data de Leonard Cohen, faceta expressa de forma exemplar na coletânea de canções deste compositor canadiano, “Famous Blue Raincoat”, rubrica aqui nova coleção de temas – da sua autoria ou de autores variados como Todd Rundgren, Max Carl, Donal Fagen e Mike Scott (Waterboys). Desde o registo vocal à seleção de ambientes, esta série de canções recorda alguns momentos mais descontraídos de Joni Mitchell.

Álbum equilibrado entre o “som de Memphis”, as toadas “cool” ou o exotismo de percussões polinésias ou de um violino dos Apalaches, “The Hunter” fala de amor, morte, luxúria e abandono. Ou das luzes cruas de Louisiana, num tema iluminado pelo mítico Van Dyke Parks. Profundamente feminina, feito de intuição e outras fulgurâncias, esta caçada de Jennifer Warnes, sem atingir o brilho supremo das grandes obras, deixa contudo espaço suficiente para o fascínio. (7)

 

Mary Coughlan - Sentimental Killer

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 JULHO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

O BAR DA ÚLTIMA ESPERANÇA

 

MARY COUGHLAN
Sentimental Killer
LP/CD East West, distri. Warner Music


Sete anos e quatro álbuns bastaram a Mary Coughlan para se afirmar como uma das maiores intérpretes atuais da música popular. E é sobretudo isso que esta irlandesa, herdeira da tradição de Billie Holiday, é: uma intérprete, aquela que dá voz aos sentimentos e desvenda os mistérios que uma canção pode encerrar. Depois de “Tired and Emotional”, “Under the Influence” e o magistral “Uncertain Pleasures”, “Sentimental Killer” volta a dar todo o sentido à máxima perfilhada pela cantora: “A qualidade intrínseca das canções tem mais importância do que qualquer estilo particular.”

Cantar é, neste caso, ser atriz de uma peça multifacetada e de múltiplos enredos, moldar-se e enlear-se em cada canção. Interiorizá-la. Dar-lhe uma forma diferente, específica, sem trair a intenção do compositor (não é regra), mas que se adeque à sensibilidade do intérprete. Potenciá-la ao máximo. Eis onde reside a diferença entre o artista e o mero tradutor.

Mary Coughlan sente uma particular atração pelos temas melancólicos. Pelo lado sombreado de uma melodia. Pela noite, em todos os seus matizes, dos calores tórridos aos grandes terrores. É sempre, ou quase sempre, essa atração que determina a escolha das canções. E em todas elas, o jogo resulta luminoso. E também nós nos acolhemos ao conforto das sombras, embalados pela voz, transportados não se sabe por nem para onde, até ao limite da noite. Ou da manhã. Como acontece quando escutamos Marianne Faithfull, Mathilde Santing, Billie Holiday. Do cabaré brechtiano à “country” crepuscular, do “gospel” de um Francisco de Assis sublimado ao regresso às origens irlandesas de “Love in the shadows” e “Sentimental Killer”; dos amores perdidos de Leonard Cohen (“Ain’t no cure for love”) aos amores proibidos de Marc Almond (“There’s a bed”); das brumas interiores de Jacques Brel (“Hearts”) até ao bar da última esperança de “Just a friend of mine”, entre um piano, uma garrafa e uma cortina de fumo, em todas as vezes Mary Coughlan se transfigura e transfigura, no modo como coloca a voz ao serviço das dores e da inspiração alheias que, no fim, acabam por ser as suas. Em síntese derradeira que a cantora define como a sua “biografia musical”. Diferentemente de “Under the Influence” e “Uncertain Pleasures”, que permanecem como as suas duas obras maiores, “Sentimental Killer” desenrola-se num conjunto de interpretações em que prevalece, se não a uniformidade de registos, pelo menos a unidade de ambiente. Como se a cantora quisesse condensar o delírio amoroso, no fim sempre traduzido em ganhos e perdas, num imenso golpe de asa, numa vastidão que só a melancolia permite habitar. Essa habitação onde cada um de nós foi ou será alguma vez morador único. A curar-se das feridas para mais adiante se voltar a ferir nos espinhos da mesma rosa. (8)