16/09/2026

Elba "Brasa" Ramalho regressa a Portugal

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 24 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Elba “Brasa” Ramalho regressa a Portugal

 

            Elba Ramalho regressa a Portugal para uma digressão a realizar entre os dias 8 e 22 de fevereiro por várias localidades do país. Assim, o novo espetáculo da cantora brasileira nordestina – “Felicidade Urgente” – tem já marcadas as seguintes datas: dia 8, apresentação de gala no novo casino de Vilamoura; dia 14 – Guimarães, no Pavilhão Francisco de Holanda; dia 15 – Pavilhão de Sobral de Monte Agraço; dia 16 – Amadora, no Pavilhão da Académica; dia 20 – Aveiro, no Pavilhão da Feira; dia 21 – Coimbra, Pavilhão da OAF; dia 22 – Amiais de Baixo.

            Em espetáculos que se anunciam com “espetaculares coreografias”, “8000 watts de som” e “120000 de luz, apoiados por diversos efeitos”, Elba Ramalho faz-se acompanhar por uma banda de sete músicos formada por Elber Bedaque, bateria, Marcos Farias, piano e maestro, Manassés de Souza, guitarra, Fernando Moura, teclas, Jamil Joanes, baixo, Reppolho, percussão, e Jussara Silva, coros, e pelo bailarino Carlinhos Jesus, o “Duque”, na telenovela “Kananga do Japão”.

            A produção dos espetáculos está a cargo da PROPALCO para quem esta primeira iniciativa “é o primeiro passo de um projeto que visa levar, com o apoio das autarquias e de outras entidades culturais locais, nomes grandes da música e do teatro a cidades e vilas normalmente deixadas fora do circuito de espetáculos – que continuam a ser pensados para os Coliseus ou as grandes salas de Lisboa e Porto”.

            De facto, não é todos os dias que Amiais de Baixo tem a sorte de assistir à sedução, vocal e corporal, da “cantriz”, que é como os brasileiros chamam a uma das maiores “brasas” da MPB. A felicidade é sempre urgente. Com a voz e o resto de Elba Ramalho é meio caminho andado.

Música em estado de graça [New Age]

 

PÚBLICO SÁBADO, 18 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Renovação da “new age”

 

Música em estado de graça

 

Erik Wøllo, Green Isac e Robert Rich são novos músicos apostados em dotar a “new age” com um espírito voltado para o futuro. Aventuras discográficas à volta da Tradição, da floresta da Amazónia ou da arquitetura de Gaudí encontram-se a partir de agora disponíveis em Portugal.

 

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            Origo e Hearts of Space, duas editoras especializadas na área de música eletrónica “new age”, a primeira norueguesa, a segunda norte-americana, partilham uma conceção de “nova idade” diferente da visão cósmico-lamechas das congéneres Windham Hill, Coda ou Innovative Communications. Em vez de ter a sílaba sagrada “aum” na ponta da língua e à venda nos supermercados, na Origo e nos “corações do espaço”, privilegia-se a aventura, a síntese de culturas e diferentes linguagens musicais, a exploração de ideias e paisagens sonoras inusitadas, a criação de novos hábitos de escuta. Alquimia do Verbo manifestado no mundo novo que se pressente e anuncia.

            “Images of Light”, sexto álbum de originais de Erik Wøllo, culmina a fase de pacificação deste compositor norueguês de 31 anos de idade, iniciada com “Traces” e “Silver Beach”. Música expressionista, de tonalidades irreais, entre o minimalismo de cristal, a luz azul turquesa dos fiordes da Noruega e o silêncio, aprendido com John Cage e depois com Brian Eno. Gravado no estúdio próprio “Wintergarden”, com auxílio do oboé, saxofones e sampler de Jan Wiese, “Images of Light” ergue-se sobre o horizonte da música eletrónica com o brilho de uma lua cheia – música de espaços silenciosos, de reverberações noturnas, de ecos de culturas ancestrais à deriva no oceano do tempo. Imagens de luz, de enigmas, de figuras primitivas traçadas a dourado sobre o céu.

 

África astral

 

            Mais chegados à terra, os Green Isac reinventam no seu álbum de estreia, “Strings & Pottery”, os folclores do mundo, recriando no computador as sonoridades de instrumentos tradicionais transformados em títulos de canções: “Sarod”, “Musette”, pequenas peças de teatro sonoro coreografadas pela natureza e pela eletricidade. A África torna-se um continente astral, de fauna e flora fantasmagóricas, em temas como “Congalonga” e “Waterflute”. Índia e China revelam-se lugares outros delineados no mapa da subjetividade, transfigurados pelo sonho. Novas geografias interiores cujo acesso passa pelas vias do Inconsciente. Os Green Isac são fazedores dos mitos do futuro.

            Do futuro, observado sob outro ângulo, nos fala ainda o compositor norte-americano Robert Rich, em “Rainforest”, “Strata” (de parceria com Steve Roach, outro nome importante da música eletrónica atual) e “Gaudí”, o mais recente do lote. Sons que viajam entre a religiosidade presente na época áurea de Klaus Schulze (“Timewind”, “Moondawn”, “Mirage”) e as pulsações obscuras de Brian Eno em “On Land”. Inventor de um novo sistema de afinação que designa por “Just Intonation” baseado nos conceitos de “harmonia natural” e “microtonalidades”, promotor e intérprete de concertos “all night” destinados a pôr em transe as audiências da “Bay Area” em São Francisco, Robert Rich aborda em “Rainforest” questões como a deflorestação da Amazónia e a procura pessoal do paraíso primordial, num disco de respiração ampla e paisagens electro-tribais tão luxuriantes quanto as do coração da selva.

            “Strata” situa-se na mesma área de cruzamento da música eletrónica com sonoridades étnicas, dos computadores com flautas de bambu. Robert Rich e Steve Roach estão empenhados em mergulhar nos abismos do “subconsciente, do surreal e das sombras”. Acreditam no “rio do acaso” e deixam-se levar pela intuição. Dilúvio de símbolos, de encontros improváveis, verdadeiro compêndio de onirismo, “Strata” sintetiza de forma genial as premissas enunciadas pelos mestres Hassell e Musci/Vennosta.

            Por seu lado, “Gaudí”, inspirado nas conceções visionárias do arquiteto catalão Antoni Gaudí e em particular na catedral da Sagrada Família, em Barcelona, eleva-se em espiral, tão alto quanto formos capazes de nos libertar do lastro mental. Na arquitetura de Gaudí encontrou Robert Rich uma “aspiração da beleza sagrada”. Encontramos na música do compositor idêntica preocupação com “a vibração, o espaço e o tempo, na expressão do espírito humano”. Se a arquitetura lida com a matéria e com o espaço, ambos, arquitetura e música, podem “evocar emoções sem nome” e “atingir o sublime”. “Gaudí”, o disco, alcança o estado de graça.

Nota: discos encomendados por via postal à Ananana, Apartado 2167 – 1137 Lx códex

 

Assim falava Peste, com música de Strauss [Pop Dell'Arte]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 16 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Edição de máxi antecipa novo álbum dos Pop Dell’Arte

 

Assim falava Peste, com música de Strauss

 

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“2002” e “MC Holy” são os dois temas que integram o novo máxi dos Pop Dell’Arte antes do álbum “Ready-Made”, com edição prevista para a primeira semana de fevereiro na editora Variodisc. O disco é “mais dirigido às pistas de dança” que o álbum, nas palavras de João Peste, vocalista e anarco-ideólogo do grupo do qual fazem parte ainda Rafael Toral, Luís Sampayo, Pedro Alvim e João Paulo Feliciano.

“2002”, que o cantor considera um tema “carismático”, prolonga por alamedas sombrias o sonambulismo “house” vigente nas noites mais ácidas da Europa, em alucinações e parasitagens eletrónicas, descarrilamentos “scratch” e as vocalizações de Peste que, como não podia deixar de ser, também saltam da linha. Não falta sequer a alusão kitsch à odisseia espacial de Stanley Kubrick, em “2001”, através da utilização de “Thus Spake Zarathustra” – “Assim Falava Zaratustra”, de Richard Strauss – “a ideia partiu de uma colagem de uma versão ‘funky-jazz” do poema sinfónico deste autor, dedicada a Friedrich Nietzsche. Trabalhámos nela e o resultado acabou por soar um bocado irónico, uma brincadeira à volta dos slogans ‘power is life, power is love’, disse o cantor.

“MC Holy” carrega com mais força no acelerador e é mais fiel aos cânones tradicionais da música de dança. Há menos ousadia sem que isso implique ausência de provocação. A maneira como, logo no início do tema, se dirige via cinismo samplado, aos jovens – “remember kids, I’m your friend”, como um “amigo” que só dá bons conselhos – ilustra bem a atitude de Peste como diletante da decadência “chic” por excelência entre o conformismo bem comportado da maior parte das bandas pop nacionais.

            Confirmando o interesse crescente de João Peste pela música de dança, o cantor estará hoje à noite na discoteca “Zona Mais”, onde atuará desta feita na função de disc-jockey”: “É uma coisa que eu não costumo fazer regularmente mas que já aconteceu por várias vezes, sempre que para tal me convidam. Neste caso concreto, trata-se de pôr a tocar discos de ‘disco-sound’, ideia que juguei engraçada. De resto já tinha colaborado antes, também como ‘disc-jockey, no mesmo local, durante uma ‘noite psicadélica’”, informou João Peste.

Interrogado quanto aos discos que irá passar esta noite, o cantor refugiou-se num lacónico “ainda não pensei nisso”.

 

A política do amor [Étienne Daho]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 13 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

“Paris Ailleurs”, álbum de Étienne Daho, editado em fevereiro em Portugal

 

A política do amor

 

“Paris Ailleurs”, o novo álbum de Étienne Daho, foi gravado em Nova Iorque, fala de Alfama, da saudade e de deambulações amorosas em volta de um quarto. “Guloso” de música e de literatura, o cantor bretão admira Lou Reed, Gainsbourg e Boris Vian. Entre múltiplas viagens e solicitações, comove-se com o fado e com a cidade de Paris.

 

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Solicitado constantemente por outros artistas, em França e no estrangeiro, de Chris Isaak a Bill Pritchard, de Lio a Sylvie Vartan, Étienne Daho não tem mãos a medir. Aos 35 anos de idade, o cantor bretão está prestes a tornar-se uma estrela internacional. O facto da sua editora ser a Virgin ajuda muito. A virgindade tem as suas vantagens embora o cantor se assuma como rival de Cicciolina quando afirma praticar a “política do amor”.

            “Paris Ailleurs” faz parte de um pacote da Edisom para o ano em curso, de novos discos de John Cale, Ashley Maher, Public Image, Ryuichi Sakamoto e Nick Cave, entre outros ou, na Virgin francesa, dos Mano Negra, Jean-Louis Murat e Téléphone.

            PÚBLICO – “Paris Ailleurs” foi gravado em Nova Iorque, com Peter Scherer, um dos nomes mais prestigiados da cena “underground” norte-americana. Que critério presidiu à escolha?

ÉTIENNE DAHO – Trabalhei muito em Londres, em álbuns anteriores. Neste caso quando cheguei ali não tive nenhum “feeling” especial. Por outro lado havia músicos com quem queria trabalhar que se encontravam em Nova Iorque. Também estive quase para gravar em Lisboa...

P. – O disco acabou por ser misturado em França...

R. – Queria que participassem no disco alguns músicos franceses que aprecio, nomeadamente Edith Fambuena, a guitarrista e cantora do grupo “Les Valentins”, que acabou por tocar todas as partes de guitarra e me ajudou na co-produção. É verdade que no princípio havia só músicos americanos – Carlos Alomar, ou o baterista dos B-52’s, Tom Durack, com os quais comecei a gravar –, mas a combinação não resultou.

 

Viagem sexual

 

P. – “Paris Ailleurs” é um álbum de viagens?

R. – Sim, é verdade. O álbum fala de viagens, de um vaivém constante. Não gosto muito de gravar em França, fica-se demasiado próximo do quotidiano. O facto de se ser francês no estrangeiro atua como um revelador da nossa natureza profunda. Nunca me sinto tão francês como quando estou no estrangeiro.

P. – Que são as “viagens imóveis” mencionadas na canção do mesmo nome?

R. – São outro tipo de viagens, talvez mais sexuais. As “viagens imóveis” falam de amor. Todo o álbum fala de amor e, por consequência, de sexo. A canção é um pouco como uma viagem à volta do quarto. Há a paixão e a intensidade do que se sente por alguém que nos toca, que nos faz viajar e partir.

P. – Neste álbum, alude por diversas vezes de forma explícita à cidade de Paris, a começar pelo título. Que significado tem para si, enquanto artista, Paris?

R. – Descobri Paris há 10 anos. Antes, já lá tinha vivido nos tempos de criança. Nasci na Bretanha mas Paris é a minha casa, os meus amigos. Funciona como uma base. Sou muito instável e sinto uma necessidade constante de movimento. Paris representa a possibilidade de poder parar e de “pousar as malas” por momentos. É uma cidade sublime mas ao mesmo tempo não consigo permanecer nela durante muito tempo. Estou sempre a viajar, num estado de busca permanente.

P. – Uma das canções do álbum chama-se “Saudade”. A letra parece um retrato de Lisboa.

R. – “Saudade” fala realmente de Lisboa, de Alfama, das suas vielas fantasmagóricas e dos seus terraços onde o sol se despenha. Depois de conhecer a cidade fiquei a conhecer bem o significado de “saudade”. Sempre que ouço fado tenho vontade de chorar. “Saudade” foi a primeira canção que compus para o álbum, depois de ter estado em Lisboa. A partir daí deixei-me ir ao sabor da paixão, das palavras, da música...

P. – Desprende-se de “Paris Ailleurs” uma impressão de profunda melancolia, de nostalgia...

R. – Sim, mas ao mesmo tempo é um disco muito positivo, precisamente porque fala de amor, a única experiência humana capaz de mover montanhas.

P. – O disco pretende de algum modo recuperar a tradição dos grandes clássicos da canção francesa? Há influências assumidas?

R. – Sim, sobretudo de Gainsbourg, para mim o grande mestre da canção francesa. Também gosto bastante de Boris Vian, de Barbara, de Françoise Hardy, das canções de Jeanne Moreau. A tradição francesa vive muito do texto, do aspeto literário em detrimento do rítmico. É verdade que a França não inventou o “rock ‘n’ roll” e por isso teve de “roubá-lo” aos americanos e aos ingleses. A França correu sempre de forma desenfreada atrás do “rock ‘n’ roll”, o que considero um erro. Aos poucos foram pessoas como eu, da minha geração, educados no rock, que acabaram por assimilá-lo de uma forma mais natural.

P. – O rock está presente em temas como “Des attractions desastres” ou na versão de “Berlue”, de Françoise Hardy, sobretudo ao nível dos arranjos que recordam Lou Reed e os Velvet Underground...

R. – Embora se trate de artistas cuja música aprecio muito – considero Lou Reed um mestre – nunca me passou pela cabeça imitá-los. Não tenho o complexo do “rock ‘n’ roll”. Prefiro deixar falar a minha verdadeira personalidade e deixá-la desenvolver-se até ao infinito.

“Sou muito guloso de música”

 

P. – A sua música lembra, por vezes, a de Bill Pritchard. Ou será o contrário, já que um álbum deste cantor inglês foi produzido por si? Poder-se-á falar de uma identidade musical entre os dois?

R. – Essa identidade existe de facto e é a razão por que trabalhámos juntos. Interessamo-nos ambos em escrever canções com bons textos, que apelem ao lado emocional. Bill está mais ligado ao aspeto político. Por mim, prefiro praticar a política do amor.

P. – Alguém dos Working Week convidou-o para cantar com Julie Tippetts. Foi difícil para si, que está ligado à pop, cantar com uma das vozes mais exóticas do jazz atual?

R. – Não, de maneira nenhuma. Creio que, para além dos rótulos, é mais importante a mistura de pessoas, sejam elas semelhantes ou diferentes de nós. O que interessa é desenvolver uma atitude de espontaneidade. Não sou um artista rígido, sou curioso, gosto de me juntar e trabalhar com outras pessoas. É uma das razões que me leva a fazer co-produções de outros artistas, no intervalo da gravação dos meus próprios discos. Permite-me ter acesso a outros universos. Sou muito guloso de música.

P. – Também participa no álbum a solo do produtor Arthur Baker, ao lado de Al Green e Jimmy Sommerville...

R. – A ideia partiu do próprio Arthur Baker. Trata-se de um álbum internacionalista e ele deve ter achado que eu dava um bom representante de Paris...

P. – Outros músicos estrangeiros parecem ser da mesma opinião...

R. – É verdade. Tenho sido contactado por pessoas como Marianne Faithfull, Carly Simon e Boy George, para trabalhar com elas e há outras possibilidades de colaboração. Prova que a língua não constitui uma barreira e que a música é um gerador de emoções sem fronteiras.

 

 

Música no coração [Tom Waits]

 

TELE PÚBLICO

Domingo 12.01.1992

 

NA CAPA

 

MÚSICA NO CORAÇÃO

 


            Não é um grande disco mas tem que se lhe dar o devido desconto por causa da “partenaire”, chamemos-lhe assim, de Tom Waits, nesta banda sonora de sonhos cor-de-rosa em pano de cenário. A senhora, Crystal Gayle, espécie de Julie Andrews da música “country”, foi recrutada por Coppola à última hora para substituir Bette Midler, que já fizera dueto com Waits em “I never talk to strangers”, do álbum “Foreign Affairs” mas que na altura não se encontrava disponível, ocupada talvez numa cura de emagrecimento ou num curso de técnicas de contenção vocal. Não foi uma boa troca. Gayle deveria ter ficado em casa a coser meias ou a escutar os discos de Loretta Lynn, a sua irmã mais velha, esta sim, verdadeira lenda da “country music”.

            E por falar em manas, o casamento natural teria sido com Rickie Lee Jones, irmã espiritual de Tom Waits e sua acompanhante de copos e noitadas. Infelizmente, uma bebedeira mal curada levou ao corte de relações, gorando-se deste modo uma colaboração que poderia ter dado a “One From the Heart” colorações musicais bem mais estimulantes.

            Cinjamo-nos porém à realidade, o que, dada a natureza do objeto em questão, não deixa de soar a paradoxo. Como ficou gravado para a posteridade, “One From the Heart” é, na maior parte das composições que Tom Waits se viu obrigado a partilhar com Gayle, um disco amarrado a lugares-comuns – “Música no Coração”, estrelinhas e borbulhas de “champagne”. Certo que as imagens de Coppola parecem não falar de outra coisa, mas o romantismo do autor de “Small Change”, “Blue Valentine” e “Swordfishtrombones” não se compadece com “confetti” e vai mais fundo, carregado de negro e nuvens de “bourbon”. Crystal Gayle devia ter medo dele em vez de cantar com ele. Repare-se no contraste das expressões que ambos ostentam na capa. Waits, músculos faciais repuxados para baixo, mira-nos pelo canto do olho, como quem diz “olha-me esta garina armada em gata borralheira”. A seu lado, Gayle, qual Cinderela de “T-shirt” florida, sorri embevecida, no esplendor de uma dentadura imaculada e uma frescura “Bien Être”. A bela e o monstro sobre o fundo “Disneylândia” idealizado pelo cineasta para tapar os horrores de “Apocalypse Now”.  Neste, o fogo-de-artifício da loucura. Em “One from the Heart” o artifício do fogo da paixão.

            Orquestração de sons e formas de sentir. Uma canção como “The wages of love” é pura simulação de sentimentos, acumulação de referências “Waitianas” despojadas de carne e osso (em oposição radical ao mais recente trabalho do compositor, “Bone Machine”, retrato esventrado sobre o tema da morte), substituídos por plástico, “make-up” e arranjos de veludo. “Is there any way out of this dream?” pergunta Crystal Gayle na canção seguinte, com a angústia de Alice no País das Maravilhas que quer tudo menos sair do sonho. Dimensão onírica que o tema final, “Presents”, acentua, em sons de caixa-de-música que não destoariam numa partitura de Badalamenti para David Lynch (interessante, de resto, a comparação das estéticas de “One from the Heart” e “Blue Velvet”, nas quais o jogo das aparências funciona, no caso de Coppola, como ocultação e, no de Lynch, como corpo submetido ao escalpelo. Celebração do excesso, em ambos os casos, na gama completa que vai da “feérie” ao pesadelo).

            Liberto do espartilho da cantora com voz doce, a sequência dos cinco temas que ocupam mais de metade do segundo lado revela finalmente Tom Waits instalado no seu universo de bares e cidades assombrados: da balada sumptuosa “I beg your pardon” ao tango canalha (“The tango”), a mascarada de um circo surreal, em “Circus girl” e o batimento cardíaco de “You can’t unring a bell”. Porque o coração é vermelho por fora, cor de rebuçado, de Crystal Gayle, do vestido de Teri Garr, mas também músculo de carne que dói. Abandonarmo-nos a “One From the Heart” é como andar de baloiço. Quanto maior a ilusão e a subida, maior a queda.

Zíngaro grava e atua no estrangeiro [Carlos Zíngaro]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 9 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Violinista só fora de casa faz milagres

 

Zíngaro grava e atua no estrangeiro

 

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Carlos Zíngaro, violinista, “cartoonista”, improvisador e experimentador de sons e ideias, um dos mais interessantes e menosprezados músicos portugueses, conotado com as chamadas “novas músicas”, não tem mãos a medir. Da agenda para o ano em curso consta uma mão-cheia de projetos, entre espetáculos ao vivo, a edição de três novos CD e uma série de colaborações com alguns dos melhores executantes europeus da música improvisada. Violinista português só fora de casa faz milagres.

            Já em janeiro, Carlos Zíngaro atuará em Vandoeuvre-les-Nancy, no festival “Musique Action”, um dos mais prestigiados do género que se realizam todos os anos na Europa. Dois meses depois, em março e abril, será a digressão pela Alemanha, Áustria e Suíça, integrado nos “Canvas Trio”, ao lado da contrabaixista francesa Joelle Léandre, com a qual Zíngaro vem há anos mantendo colaboração regular, e o clarinetista alemão Rüdiger Carl, conhecido sobretudo pelos seus trabalhos em duo com a pianista Irene Schweizer. Em junho será a vez do festival de Nocci, na Itália, de parceria com Joelle Léandre.

            No capítulo das edições discográficas está prevista a saída de três novos CD do violinista, apesar de tudo, português. “Carlos Zíngaro Solo au Monastère des Jerónimos” foi gravado, como o nome indica, nesse mesmo local que durante séculos fez História e em breve passará à história, trocando com o Centro Cultural de Belém o papel de “ex-libris” da nossa vocação universalista. Na editora francesa “In Situ” e com algum atraso, motivado por problemas técnicos surgidos na fábrica. Uma boa oportunidade para as entidades culturais portuguesas descobrirem o músico, ex-Plexus, ex-Banda do Casaco e desde há anos aceite fora de portas como membro “oficial” da vanguarda europeia. Por tudo isto e pelo jeito que dá o local onde o disco foi gravado, a Comissão dos Descobrimentos devia aproveitar.

            Previsto está também um CD com os “Canvas Trio”, para o selo austríaco Hat-Hut em cujas fileiras militam músicos tão importantes como Anthony Braxton, Steve Lacy, Cecil Taylor e os Vienna Art Orchestra. Por último, e ainda no formato compacto, uma colaboração com o trio parisiense de eletro-acústica “Un Drame Musical Instantané”, constituído por Jean-Jacques Birgé, Bernard Vitet e Francis Gorgé. De notar a terminação em “ê” de todos os nomes – verdadeiramente dramática e eletro-acústica.

            Durante o próximo mês de fevereiro, Carlos Zíngaro colaborará com o teclista Richard Teitelbaum – já gravaram juntos uma atuação ao vivo captada no Festival de Victoriaville, Canadá – na apresentação em Berlim da ópera “Golem” inspirada na figura mítica judaica que serviu de tema à obra homónima do místico e romancista Gustav Meyrink.

 

João Peste impõe condições [Pop Dell'Arte]

PÚBLICO SÁBADO, 4 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Pop Dell’Arte inauguram catálogo de editora

 

João Peste impõe condições

 

“Ready-Made”, o novo álbum dos Pop Dell’Arte, sairá em fevereiro na editora Variodisc. É a grande aposta para o lançamento em força deste novo selo independente. Mas João Peste impõe condições.

 


“Ready-made” tem como data prevista de lançamento o dia 6 de fevereiro. Já em meados deste mês o maxi “MC Holy/2002” chegará aos escaparates nacionais. “Ready-made”, como os surrealistas chamavam a objetos que a deslocação mágica do olhar e o humor transformavam em obras-de-arte, reúne seis temas entre os quais “Ballad of Lilly-Io”, “808 loop”, “Jani’s pearl” e versões diferentes das incluídas no maxi, “MC Holy” e “2002”, recuperadas no de formato CD.

Gravado no Exit estúdio, em Lisboa, o novo álbum tem produção de João Peste, Rafael Toral e Luís Sampayo e a assistência técnica de Paula Margarida e, nalguns temas, de Jonathan Miller, que já havia trabalhado no disco de estreia dos Resistência. Para João Peste o novo disco não representa uma rutura com a orientação estética que a banda tem vindo a seguir nos últimos tempos – uma mistura de “house” e pop psicadélico embalada em doses industriais de teatro, eletricidade e “glamour”.

 

Quem controla quem?

 

Numa altura em que as bandas nacionais parecem apostar em contratos com multinacionais, não deixa de causar uma certa estranheza a opção dos Pop Dell’Arte por uma editora ainda sem provas dadas, como a Variodisc. “O disco beneficiou de um orçamento global equivalente ao de uma multinacional”, garante João Peste, para quem a proposta da Variodisc, para além de “boa”, surgiu “na melhor altura”. Mas mais importante que o aspeto financeiro é o “controlo em termos estéticos, de orientação e de promoção” que os Pop Dell’Arte não dispensam à partida. “Uma garantia que a maior parte das bandas portuguesas não tem”, mas que João Peste procura a todo o custo assegurar, “de poder centralizar nas próprias mãos todos os aspetos ligados à promoção do disco”. O ideal seria, ainda segundo Peste, o de “assegurar os serviços” – pagos pela editora – “de alguém da confiança da banda para tratar de todas estas questões”. De referir que o contrato agora assinado com a Variodisc prevê a edição de um único disco. “Não há qualquer outro vínculo da nossa parte em relação à nova editora”, como João Peste faz questão de acentuar.

É neste ponto, sobre quem assegurará o trabalho de promoção – alguém da editora ou a própria banda – que parecem surgir os primeiros sinais de clivagem entre os Pop Dell’Arte e a Variodisc, numa relação que, longe de se poder considerar conflituosa, poderá não ser de todo pacífica. Fala-se em descoordenação (na Variodisc afirma-se, por exemplo, que o maxi “MC Holy/2002” já fora distribuído antes pela Polygram; João Peste insiste que o dico nunca saiu dos armazéns) e na pouca sensibilização do “staff” da editora à música dos Pop Dell’Arte. O que nem será de estranhar se atendermos a que um dos homens ligados à Variodisc, Pedro Cardoso, esteve ligado a áreas musicais como o “heavy metal”, o “thrash metal” ou o “hard core”.

            Seja qual for a solução encontrada, João Peste não prescinde do que considera uma condição necessária: “Mesmo que a promoção seja entregue a alguém da editora, terá de ser em total coordenação connosco”.

 

À conquista da Europa


            Do lado da Variodisc, as estratégias editoriais encontram-se em fase de definição. Formada em outubro do ano passado, o novo selo dirigido por Pedro Cardoso, Carlos Alberto Pereira e Alfredo Graça pretende, segundo o primeiro, “abarcar os catálogos não distribuídos ou editados em Portugal”. Embora não haja “uma orientação estética específica” esta por certo não deixará de contemplar os géneros mais pesados atrás aludidos. O que não impediu a Variodisc de já ter lançado no mercado a caixa dos Cocteau Twins ou uma série de discos piratas, dos Aerosmith, U2, Rolling Stones e Led Zeppelin, entre outros, “tendo o cuidado de lançar ‘bootlegs’ de editoras, como a Pluto ou a Great Dane, que previamente e segundo a legislação em vigor, depositaram uma soma a ser entregue aos artistas, por cada exemplar vendido”, apressa-se Pedro Cardoso a explicar. Previsto está também o lançamento dos primeiros discos da editora holandesa Provogue, da qual a Variodisc é distribuidora oficial em Portugal.

            Embora sem “o apoio de nenhum grupo financeiro” o recém-nascido selo faz parte de uma “holding” nacional que inclui um despachante, um transitário e uma firma de “import-export” com o escritório na Holanda, a Vegatan, o que permitirá a distribuição neste país, no Benelux e no resto da CEE, do novo disco dos Pop Dell’Arte e das outras bandas que vierem a fazer parte do catálogo.

            Para Pedro Cardoso, até há pouco na Anónima (agora ligada à Valentim de Carvalho) é a oportunidade de poder trabalhar com “eficácia e rapidez” ao contrário do que acontecia na antiga editora. “Detestava estar dois e três meses à espera de uma encomenda de discos, retida no despachante ou na alfândega, porque a Valentim de Carvalho tinha outras coisas pendentes, como os lançamentos da EMI. E a Anónima ficava sempre para trás”. Estas razões ditaram o afastamento do homem da “música pesada”. Acabou por tornar-se numa questão pessoal: “Quando souberam que tinham ficado ligado a esta nova editora e que procurava tentar importar alguns discos do catálogo da Anónima, deixaram de me falar e impediram-me de entrar nas lojas da VC”. “Estou à espera da versão deles”, afirma, resignado.