03/10/2026

Ritual de êxtase e possessão [Peter Hammill]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 19 JUNHO 1992 >> Cultura

 

Peter Hammill, no São Luiz

 

Ritual de êxtase e possessão

 

Durante dois dias, na quarta-feira e ontem, o Teatro de São Luiz, em Lisboa, transformou-se na catedral onde se celebrou o ritual da entrega de um homem à sua música. Peter Hammill arde literalmente no canto. Cada espetáculo seu é ao mesmo tempo um ato de catarse e uma dádiva de amor. De alegria e de crucificação. Único e, como tal, irrepetível.

Em palco, um piano e uma guitarra. Palavras e canções. Peter Hammill vive cada uma delas como se dessa assunção dependesse a existência de si próprio e do universo. Foram ao todo quinze canções, escolhidas de entre uma lista imensa, de uma vida imensa. “Não interessam os títulos, mas a canção em si e a ‘performance’” – disse o cantor – “poderia cantá-las de forma totalmente diferente”.

Cada atuação ao vivo de Peter Hammill é uma parcela de eternidade. Qualquer coisa de muito íntimo, entre o silêncio e o grito, ofertada à partilha dos “outros”, à massa anónima constituída por cada um de nós que, num momento ou outro da vida, interiorizou ou exorcizou as palavras do poeta. “All things are universal”.

Ficou a certeza, se dúvidas ainda havia, de que, pelo menos ao vivo, a grande arte de Peter Hammill permanece intacta e assim permanecerá para sempre. E o momento alucinante, na parte final de “Stranger still”, do artista possuído pelo génio e pelos deuses, na exaltação dramática do canto e da voz, na repetição demencial do verso final – “a stranger, a wordly man” – que o impeliu a saltar do banco do piano e a correr de braços abertos, triunfante, na direção da assistência, perdido e encontrado, fora de si – em êxtase.

Para a posteridade, aqui fica o registo das canções onde, na quarta-feira, se cumpriu o ritual, por ordem de interpretação. Com Hammill ao piano: “Childlike faith in chilhood’s end” (única do período Van Der Graaf, do álbum “Still Life”), “Just good friends” (“Patience”), “Curtains”, “His best girl” (ambas de “Fireships”), “Mirror images” (PH7”). Na guitarra: “The comet, the course, the tail” (“In Camera”), “I will find you” (“Fireships”), “Something about Ysabel’s dance” (“Out of the Water”), “Ophelia” (“Sitting Targets”), “If I could” (“The Future Now”), “Patient” (“Patience”). De novo ao piano: “A way out” (“Out of Water”), “Stranger still” (“Sitting Targets”), “Traintime” (“Patience”). No “encore”: “Modern (“The Silent Corner and the Empty Stage”. A perfeição.


Os Viajantes da Noite [Knitting Factory]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 18 JUNHO 1992 >> Cultura

 

Concertos da Knitting Factory no Teatro São Luiz, em Lisboa

 

Os Viajantes da Noite

 

Quatro propostas díspares na sua essência mostraram que os “States” continuam a ser o cadinho de novas formas musicais. No São Luiz, algumas foram não tão novas como isso. As mulheres deram o exemplo e mostraram o rosto multifacetado do futuro. Os Knitting Factory não chegaram a atuar.

 

Uma imagem com texto, pessoa, saxofone

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O jazz. Essa música fascinante que... Não foi jazz? Certo. A “new thing”, a “nova coisa”, essa música fascinante que derruba as fronteiras estilísticas e empurra a arte para horizontes cada vez mais vastos até à libertação final. Era bom, era, que tivesse sido assim, na segunda e terça-feira, no Teatro São Luiz em Lisboa... O programa apresentava uma seleção sortida de nomes ligados à Knitting Factory, mítica sala de espetáculos em Nova-Iorque, agora tornada editora dos seus meninos. Diga-se a propósito que não poucas das poucas pessoas presentes nas duas noites de concerto tomaram a Knitting Factory por um grupo musical. “Então quando é que tocam os Knitting Factory?”, perguntavam, desorientadas.

A todos quantos não puderam assistir à prestação dessa banda magnífica, o nosso lamento e, à laia de compensação, a sugestão para que compareçam em força no anunciado festival que reunirá em Portugal nomes importantes da música de dança como os Studio 54, CBGB e Hacienda.  Bem...

Sexta, foi noite de Pop/jazz ou coisa que o valha. Com Amy Denio, a solo, uma personagem bizarra que canta, toca saxofone alto e guitarra baixo, acompanhada por uma caixa de ritmos chamada “Ernie”. Apareceu em palco com ar de dona de casa alucinada, lançando-se de imediato num solo demente de saxofone. A loucura avançou rapidamente até níveis próximos da apoplexia quando a voz entrou em cena, num desempenho histriónico que deixou o velho “free” a léguas de distância.

Amy aplicou um local de trombone ao sax e chamou-lhe trombonofone. Fez teatro e humor. Imitou, num registo algures entre Meredith Monk e Shelley Hirsch, as vozes de psicopatas, em “Traffic Island psychos”. Mostrou ser capaz do lirismo, num jogo de pergunta-resposta com a reverberação do seu próprio saxofone. E teve piada: “Julio Iglesias é bom. Deve ter sido algo que lhe aconteceu na infância”, em “Julio Iglesias childhood”. “The man who can’t find his wife, outra canção delirante, sobre o marido que perde a mulher, definiu-a Amy como uma “experiência humana universal”.

Amy Denio cantou em espanhol, em italiano e noutras línguas menos identificáveis, no que chamou a “secção internacional” do seu reportório, recorrendo com frequência ao estilo “yodel”, popularizado pelos cantores suíços das montanhas, de pena e calções. Amy foi Pop, à maneira desequilibrada dos Tone Dogs, grupo de que faz parte e a quem Fred Frith deu uma mãozinha. E mandou a sisudez da “vanguarda” às urtigas.

Wayne Horvitz e os President vieram sem o trombonista J.A. Deane, músico que à partida se previa ser um dos maiores atrativos da sua apresentação, substituído por um percussionista que se limitou a fazer figura de corpo presente. Tocaram vários temas de “This New Generation” e “The President”, com virtuosismo q.b. Horvitz solou de forma previsível no sintetizador, ao estilo “demonstrador de stand”. Stew Cutler, muito aplaudido, solou na guitarra, voltado para o Rock. Solaram todos (menos o percussionista). Grande música aconteceu apenas nas prestações, em sax tenor e clarinete, de Doug Wieselman, de longe o melhor músico da noite. Excelente o diálogo de “câmara” que manteve com um Horvitz bastante mais subtil e criativo no piano acústico.

Fulgurante e arrebatadora, Marilyn Crispell, pianista e “compositora” da Creative Music Orchestra, mostrou caminhos por onde o jazz pode avançar sem correr o perigo de se perder. Dos “clusters” vertiginosos e da abordagem gestual do piano com que iniciou as longas improvisações com o percussionista Gerry Hemingway, deslizou por linguagens mais convencionais para voltar à fúria do martelo e à fragmentação rítmica e à destruição sistemática do tempo, sob a égide de Anthony Braxton e Cecil Taylor. A melhor música do festival.

Fecharam os Zahar, sem deixarem saudades. Ritmo e só ritmo. Hassan Hakmoun cantou e dançou com frenesim e incitou o público à festa, sem obter resultados palpáveis. Nos melhores momentos, os Zahar aproximaram-se da banda de Ronald Shannon Jackson. Nos piores, pouco mais foram que um grupo de baile. Salvou-se o percussionista Kewyao Ajyapon, que numa pequena intervenção na “mbira” (ou “kalimba”, o chamado “piano de polegar”) revelou o cristal incandescente que pulsa no coração de África. Vindos da América e da Knitting Factory passaram por Lisboa os viajantes da noite. De muitas noites.

Unmen - Love Under Water

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 17 JUNHO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

UNMEN
Love Under Water
CD Some Bizarre, distri. Contraverso

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

Não se conhece a identidade dos músicos. Pelo nome do grupo, não devem ser humanos, mas coisas viscosas e verdes, oriundas de uma dimensão de criaturas odiosas. Talvez, a julgar pelos bonecos mutilados da capa, restos de “Chuckies” ou “Barbies” assassinos, atirados para o caixote de lixo, mas mesmo assim nunca fiando... O Calvin haveria de dar cabo deles. Um dos produtores é Nick Cash, nome ligado aos extintos Fad Gadget, e suspeita-se de que faça parte do grupo.

O “amor debaixo de água” encontra variantes nas “outras músicas de filme” que o subtítulo refere. Música eletrónica que avança a golpes de sequenciadores, de empurrão por sonoridades techno-étnicas, ou então se deixa levar pelo apelo ambiental, criando paisagens inóspitas na linha das produzidas pelos Delerium. Quando se deixam levar pelo ritmo, os Unmen não andam longe dos primeiros discos dos Recoil ou do álbum a solo de F.M. Einheit (Einstuerzende Neubauten), nos momentos em que as percussões se tornam mais metálicas e os “samples” de vozes inidentificadas fazem a sua aparição. A música é na generalidade bastante sombria, sem contudo se confundir com os habituais vómitos negros com que os “industriais” e satanistas vão poluindo o éter, enquanto não chega o dilúvio de fogo purificador. Por vezes, os computadores soam a cristal, apaziguadores. “Love Under Water” é intrigante e justifica a investigação. Mesmo levando em conta a hipotética proveniência “não humana” dos seus autores... (8)

O dom da palavra [Peter Hammill - Fireships]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 17 JUNHO 1992 >> Pop Rock

 

O DOM DA PALAVRA

 

Peter Hammill é um mago das palavras. Com elas – e com uma música que desde os Van Der Graaf Generator até ao recente álbum a solo, “Fireships”, se afirmou sempre como orgulhosamente diferente –, criou uma obra ímpar na música popular das duas últimas décadas. Sem fazer ondas. Mas ainda aqui, como ele diz, as palavras ocultam o paradoxo.

 


 

É o poeta por excelência. Muitos viveram a sua odisseia como se a obra poético-musical deste autor, mais do que uma visão pessoal, pertencesse ao domínio público, partilhado embora por um número restrito de iniciados. Para Peter Hammill, que hoje e amanhã atua em Portugal, no Teatro S. Luiz, integrado nas Festas da Cidade de Lisboa, “Fireships” é o repouso do guerreiro. Canções que acabam por ser sempre de amor. “Neobaladas calmas”, como ele as define. Ultrapassada a violência sonora de revoltas passadas, sobra a voz inconfundível, os poemas que retratam o casamento entre o mundo e o “eu”. O futuro, eternamente por cumprir. E o imperativo, implacável, da consciência e da lucidez extremas.

PÚBLICO – A consciência pode ser dolorosa?

PETER HAMMILL – Decerto que sim. Tanto em termos de culpa como de reconciliação. Em relação a nós próprios e ao mundo. A consciência tem, evidentemente, outras qualidades... Neste aspeto, sou de certa forma um estóico... O sofrimento, seja ele qual for, faz parte da experiência humana.

P. – O casamento entre masculino e feminino. O Sol e a Lua. A razão e a intuição. Pode considerar-se a sua obra como um trabalho de alquimia?

R. – Talvez esteja envolvido numa luta, num trabalho de transformar a minha própria matéria-prima (em termos de experiência, consciência e intuição) num relâmpago de ouro, embora temporário, numa resolução sempre em aberto. Por outro lado, é possível que eu afinal apenas consiga “inventar algumas histórias em dias de sorte”.

P. – Pode dizer-se que desde “A Black Box” abandonou a experimentação. Por um desejo de segurança? Cansaço? Ou por outra razão?

R. – Não acredito na experimentação por si só, como um objetivo ou um fim, mas simplesmente em diferentes fases de interesse. Concordo com a sua avaliação apenas de uma perspetiva exterior. Cada canção é, à sua maneira, uma experiência. A um nível técnico é, hoje em dia, muito mais difícil conseguir essa experimentação, precisamente devido aos meios cada vez mais sofisticados e poderosos postos à nossa disposição. Dito isto, no meu caso a “experimentação” tem incidido, ao longo dos anos, muito mais em aspetos pessoais, interiores, e nunca de uma forma aberta e premeditada. Um bom exemplo do que considero um álbum “experimental” é “And Close As This”, embora na aparência soe bastante normal. Mas não faço ideia do tipo de experiências, ou da ausência delas, que ele possa encerrar...

P. – A famigerada ópera [“The Fall of the House of Usher”, inspirada no conto homónimo de Edgar Allen Poe] demorou cerca de 20 anos a fazer, mas acaba por soar a Meat Loaf...

R. – Meat Loaf? Quer com essa comparação dizer que se parece com uma “ópera rock”? “Pshaw!” [Exclamação de repúdio tipicamente inglesa. Intraduzível.] Desses 20 anos, 12 foram gastos a escrevê-la; seis, nos arranjos e na gravação final; dois, a escolher as vozes finais, nas misturas e na substituição de alguns arranjos.

P. – “Fireships” soa um pouco como uma recapitulação de álbuns anteriores. Quase uma solução de compromisso...

R. – Penso que “Fireships” traz algo de novo, em termos de “arranjos”, orquestrações, som e, acima de tudo, coerência de ambiente. É natural que existam semelhanças no estilo de escrita, embora até aqui nunca tivesse alinhado uma sequência de neobaladas tão calmas, como é o caso.

P. – A sua música passou sempre ao lado da aceitação das massas. Tal deve-se a uma atitude voluntária da sua parte? Há ainda uma obra a completar? Uma vida?

R. – A atitude voluntária que refere tem sido sempre a de realizar um trabalho que em primeiro lugar faça sentido para mim, em vez de apelar às massas. Dito isto, gostaria que ele fizesse sentido também para um número cada vez maior de pessoas que acedem à minha música. Mas não quero ser apanhado na armadilha da personalidade auto-fabricada. Não gosto de rebuscar nem de ser avaliado pelos meus trabalhos passados. Prefiro seguir sempre em frente, guiado pelas minhas próprias luzes.

Pela mesma razão, existe, de facto, um trabalho desconhecido e em curso, como sugere. Permanece, além disso, em mim, como escritor, algo que rejeita de forma ativa a celebridade. Sei que parece estranho e paradoxal, dito por alguém com uma tal parcela de ego envolvida na vida de “performer”...

P. – Afinal, em última análise, o que é que procura?

R. – Se pudesse traduzir essa procura em palavras, tenho a certeza de que a resposta se perderia algures nos espaços e nos paradoxos que existem entre elas, nas canções.

P. – Vivemos em pleno Apocalipse. “Gaia” [designação do planeta Terra, como entidade viva; título de uma canção de “Fireships”] aproxima-se do fim. Vê alguma solução?

R. – É sempre, tem sido sempre, será sempre o Apocalipse. A diferença é que agora, de forma incómoda, sabemos mais acerca dele. Acredito que a única resposta possível seja afirmar a vida, enquanto ela ainda existe.

P. – Continua a acreditar que “The Least We Can Do Is Wave to Each Other” [título de um álbum dos Van Der Graaf Generator]?

R. – Continua a parecer-me uma ideia aceitável!...

 

PETER HAMMILL
Fireships
CD Fie!, import. Megamúsica e Contraverso

Uma imagem com texto

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Palavras que o vento não leva. Palavras que, mais do que nunca, parecem constituir o cerne do “opus” artístico/vivencial de Peter Hammill. Neste particular, a cada novo álbum, o autor descentraliza a sua visão pessoal, fazendo-a incidir sobre o mundo circundante, na globalidade, como em “Gaia”, em pessoas com nome próprio, como em “Curtains” (Tommy e Sylvia, em vez de Mike e Susie), ou em situações “reais” transpostas num “GT Cabriolet” para uma dimensão metafísica, como em “His best girl” (Pessoa viajava pelo interior, de Chevrolet, a caminho de Sintra). Há versos evocativos de outros antigos, como um “puzzle” que continuamente se faz e desfaz. O choque dos planetas e das estrelas, em “Incomplete surrender”, por exemplo, remete para a explosão cósmica que já antes deflagrara em “Tapeworm”, de “In Camera”. Se, em termos formais, o álbum não apresenta grandes inovações, navegando por águas bem mais calmas do que as da ópera “The Fall of the House of Usher”, nem por isso é menor o deleite com que se escuta, pela enésima vez, a espantosa expressividade da voz, as contorções líricas do saxofone de David Jackson ou os arranjos orquestrais de David Lord. A viagem continua. (7)

 

Mantra progressiva [Editora Mantra]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 17 JUNHO 1992 >> Pop Rock

 

MANTRA PROGRESSIVA

 

Dos compactos da editora francesa Mantra chegados a Portugal, com distribuição Megamúsica, obras superlativas alternam com objetos apenas representativos de uma época fervilhante de ideais – os anos 70 – ou ainda com músicas que o tempo veio a confirmar como definitivas. A música progressiva, cada vez mais atual.


            Compositor francês ligado à música contemporânea erudita, discípulo e amigo de Pierre Schaeffer, Pierre Henry vê reeditada no formato compacto uma pequena parte da sua vasta discografia, em três discos correspondentes a fases bastante afastadas no tempo: “Messe de Liverpool/Pierre Réfléchies” (1967), “Le Livre des Morts Egyptien” (1987) e “Ceremony – An Electronic Mass” (1968), este de parceria com o grupo Rock Spooky Tooth.

Pierre Henry, autor da obra-prima “L’Apocalypse de Jean” e de uma “sinfonia para uma porta e um suspiro”, bem como de música produzida em direto a partir dos centros nervosos do cérebro (“Corticalart”, 1971, graças a uma maquineta da qual nunca mais se ouviu falar), junta na sua música a eletrónica dos sintetizadores, muito em voga nos anos 70, com a música concreta. A estrutura narrativa e teatral de algumas peças com uma conceção espacial e tímbrica que, anos mais tarde, viria a ser recuperada pela fação “industrial”. “Ceremony” é uma curiosidade histórica e o encontro possível entre o futuro discurso pop psicadélico, com todo o seu cortejo de lugares-comuns, de Gary Wright, organista dos Spooky Tooth.

Eletrónico mas bem integrado no espírito da época, Tim Blake abandonou os Gong, onde foi um dos grandes responsáveis pela voluptuosidade sonora da trilogia “Radio Gnome Invisible”, para provar que era capaz de fazer tão bem como Klaus Schulze e com menos sintetizadores. O que, diga-se em abono da verdade, não é muito difícil. “Magick”, gravado em direto no seu moinho da Bretanha, é um bocado aborrecido, sobretudo quando Tim se põe a cantar. “Crystal Machine” é bem mais interessante, apresentando o som típico dos sintetizadores dos Gong, despojados do delírio surrealista de Daevid Allen e da loucura dos restantes. Recorda o minimalismo de seda de Manuel Göttsching e, nas piores alturas, as piruetas de Jean-Michel Jarre.

Muito bom é “Wolf City” (1972), de longe o melhor trabalho dos alemães Amon Düül II, que aqui encontraram o equilíbrio exato entre as investidas das guitarras psico-alucinogénicas dos primeiros discos (“Yeti”, “Dance of the Lemmings”, ambos disponíveis em Portugal), a estranheza vocal de Renate Knaup-Krötenschwanz e um experimentalismo à época inovador.

Ainda melhor é “1984”, primeiro álbum a solo do baixista dos Soft Machine, Hugh Hopper, gravado em 1972, na companhia de ilustres como Pye Hastings, Lol Coxhill e Gary Windo, pouco tempo depois da sua saída da banda. Muita água correu sob os moinhos, o ano de Orwell passou entretanto, mas o tempo mostrou estar do lado de Hopper, já que “1984” continua tão atual como nunca e não menos perturbante. Obra angustiante, sombria, entre o aproveitamento dos efeitos de estúdio, o “jazz” à beira do colapso e a extraordinária capacidade de Hugh Hopper em arrancar sonoridades de pesadelo ao seu baixo elétrico. Indispensável.

Lounge Lizards - Berlin 1991, Part I

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 17 JUNHO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

LOUNGE LIZARDS
Berlin, 1991, Part I
CD VeraBra, distri. Contraverso


Berlim é verdadeiramente uma cidade mágica. É raro o disco em que a cidade esteja presente, como local de gravação ou fonte de inspiração, que não seja uma obra superlativa, numa linha histórica iniciada com “Berlin”, de Lou Reed, prosseguida com a trilogia de Bowie, “Low”/“Heroes”/“Lodger”, “The Idiot” e “Lust For Life”, de Iggy Pop, um punhado de Nick Caves e a banda sonora de “Les Ailles du Désir”, e que atingiu o zénite de novo em “Berlim”, desta feita pelos Art Zoyd. Os Lounge Lizards, de John Lurie, não fogem à regra e assinam, neste registo ao vivo das atuações do grupo na sala “Quartier Latin” daquela cidade alemã, um dos seus melhores álbuns, ao nível dos anteriores “No Pain for Cakes” e “Voice of Chunk”.

Considerados praticantes de um jazz híbrido conotado com a “downtown” de Nova Iorque, os Lounge Lizards passeiam-se com inusitada frequência por alamedas laterais como o cabaré, os ritmos latinos e o rock de feição libertária. Em “Berlin 1991”, o swing está sempre presente, arredado que foi o discurso fragmentário do guitarrista Marc Ribot, que por sua vez substituíra Arto Lindsay nas formações prévias dos Lizards. Michael Blake ajuda Lurie nos saxofones, um Lurie que, logo na abertura, pega no sax alto eletrificado e toca um solo de forma estranha, num jogo surreal com a bateria, a querer mostrar que não é tão mau executante como alguns pretendem fazer acreditar. Brilhante de lirismo é Bryan Carrott, no longo solo de marimba de “Not a rondo”, um entre outros exemplos que deixam patentes as virtualidades técnicas de todos os instrumentistas. Imparáveis de energia, imaginação contrapontística e uma boa dose de humor, os Lounge Lizards não param de surpreender pela positiva. Aqui, com Berlim a ajudar. (8)

 

02/10/2026

Mari Boine Persen toca no molhado

 

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 16 JUNHO 1992 >> Cultura

 

“Pela Terra e Pela Gente” em Belém

 

Mari Boine Persen toca no molhado

 

Podia ter sido uma noite em cheio. Foi quase um desastre. A chuva que caiu durante a tarde estragou tudo. S. Pedro não gosta de música tradicional

 

Não há música que resista ao que aconteceu domingo à noite no relvado em Belém, Lisboa. Nem música, nem paciência. Foi antes do concerto “Pela Terra e Pela Gente”, uma organização conjunta da Etnia e da Oikos, que a calamidade aconteceu. Estava previsto começar às 21h00 mas a chuva que caiu durante a tarde encarregou-se de destruir as ilusões. No Porto, na véspera, pela mesma razão, nem chegou a haver concerto. Mário Alves, da Etnia, visivelmente nervoso, levava as mãos à cabeça e queixava-se das condições atmosféricas: “Parece que nos rogaram uma praga”. Cabos encharcados, microfones avariados, não havia aparelhómetro elétrico que não desse de si.

Era a vingança da natureza contra a técnica, num concerto marcado desde o início pelas contrariedades. Cerca das 22h30, hora e meia depois da hora prevista, a apresentadora de serviço anunciava, numa voz estridente de trompete, suficiente para romper mais um bocadinho da camada de ozono, o primeiro grupo da noite, os portuenses Toque de Caixa, aproveitando para proferir inanidades do tipo “a música pode ter o sabor e o paladar da festa”. Antes acontecera uma largada de balões e, de tarde, uma marcha e uma caravana ecológica. É bom fazerem-se estas marchas e caravanas. Fizessem-se outras por esse mundo fora a ver se o problema ambiental não se resolvia num instante.

 

Não há Terra que resista

 

A música começou mal, sem “sabor nem paladar a festa”. Com os Toque de Caixa, versão “Vai de Roda” dos pequeninos (alguns músicos dividem-se pelas duas bandas) que, mal servidos por condições sonoras deploráveis conseguiram mesmo assim ser ainda piores que o som. Tocaram tradicionais portugueses e assassinaram outro, irlandês – com muito cuidado para não se enganarem – e explicaram alguns temas. De forma sucinta mas bastante clara: “um bolero é um bolero”; “’Lama grande’ é inspirado num lugar ali prós lados...”. A organização, numa atitude de louvar, fez-lhes sinal para se apressarem, até porque a hora já ia adiantada e a paciência ameaçava esgotar-se. Eles, embora contrafeitos – “ficávamos a tocar aqui toda a noite” – lá se retiraram, a toque de caixa. Com música desta não há Terra nem gente que resista. A partir daqui foi sempre a despachar. 20 minutos para cada grupo, numa tentativa contra-relógio de conseguir que a estrela da noite e da Lapónia, Mari Boine Persen, tocasse antes das cinco da manhã.

Vieram a seguir os Caliche, do Chile. Não adiantaram (até atrasaram) nada aos “clichés” conhecidos da música dos Andes. Flautas de Pã, aquele tema de que ninguém recorda o nome (assim: “turiruriru tu turiruru”) mas que não sai da cabeça, tudo junto, mais o adiantado da hora, irritaram enormemente quem era suposto ter de levantar-se na manhã seguinte para trabalhar e não desistia de ver a lapona (é assim que se diz?). Rápido, os seguintes!

 

Estóicos

 

Os seguintes fizeram esquecer todas as infelicidades da noite. Diely Seckou e a mulher, Ramata Kouyaté, acompanhados de dois fabulosos percussionistas, Lansine Kouyaté (tocou com Salif Keita) e Djeli Moussa Cissoko (faz parte do grupo de Mory Kanté, integrou os Toure Kunda) trouxeram a África a Belém. Música hipnótica, calorosa, elemental. As vozes de vento entrelaçando-se nas madeiras em vibração do balafão (xilofone africano), no ritmo riquíssimo de pormenores contrapontísticos, de fazer corar o conceptualismo dos minimais repetitivos. Seckou e Ramata fizeram mais pela terra do que quaisquer palavras. Não é a gramática, é a sintonia, a simpatia, a consonância.

Faltavam quinze minutos para a uma da manhã, quando Mari Boine Persen arribou ao palco e era já muito o cansaço das escassas dezenas de resistentes que, a pé firme ou sentados na relva, aguentaram, estóicos, a mensagem vinda da Lapónia. Acompanhada por um baixo elétrico, um guitarrista que a dada altura resolveu ser Jimi Hendrix, uma flauta e percussões variadas, Mari Boine procurou, com relativo sucesso, recriar os ambientes carregados de mistério do álbum “Gula Gula”. Mas também nela o cansaço era notório. E a desmotivação de atuar para uma plateia tão reduzida. A voz esteve mais apagada que no disco, as tonalidades sombrias da maior parte dos temas também não ajudaram a levantar os ânimos. Todos queriam voltar para casa o mais depressa possível. Mari Boine despediu-se, agradeceu a quantos permaneceram até ao fim e deste modo se esfumou o que poderia ter sido uma noite em cheio. Não o quis S. Pedro, sabe-se lá por que carga de água.