PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 SETEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s
Adventures Beyond the Ultraworld
2xLP/CD, Big Life, distri. Polygram
Blog dedicado à crítica musical de Fernando Magalhães (05/02/1955 - 15/05/2005)
PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 SETEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s
PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 SETEMBRO 1991 >> Pop Rock
O
LADO OCULTO DA LUA
Lua
Extravagante é a designação bizarra do grupo formado pelos irmãos Vitorino,
Janita e Carlos Salomé que, juntamente com a cantora Filipa Pais – “A mulher
canta como os anjos”, diz Vitorino –, se propõe cantar o lado mais romântico e
melancólico da alma portuguesa, sem descurar, porém, as fundações da terra por
baixo da cidade. Histórias da “Nau Catrineta”, da Margarida do Monte “que foi
amante do rei D. João V”, ou de um “Adeus ó serra da Lapa”, em homenagem ao
mestre José Afonso. Histórias da noite e de boémia. Do lado oculto da Lua. O
disco sai a 22 de outubro. O PÚBLICO falou com Vitorino, à procura de luz.
PÚBLICO
– Há quanto tempo existe o projeto Lua Extravagante?
VITORINO – Há quase um ano. A Valentim
de Carvalho viu o nosso projeto e propôs-nos gravar um disco. Nem sequer estava
nos nossos horizontes gravar. O grupo tem um sentido associativo. O disco
dá-lhe consistência, mas suponho que será o único que vamos gravar.
P.
– Porquê, logo à partida, essa recusa em dar sequência discográfica ao
projecto?
R. – Temos todos os nossos projetos
pessoais, muito fortes. Gravar um disco e manter ao mesmo tempo o projeto do
grupo torna-se muito obsessivo.
P.
– Quais são então os seus futuros projetos a solo?
R. – Estou a preparar um álbum duplo,
com textos (isto é uma informação inédita) do António Lobo Antunes e música
minha. O disco vai ser lançado no final do próximo ano, na mesma altura que o
seu novo romance. É uma espécie de “joint-venture” literatura-música, baseada
numa coletânea de 19 textos escritos pelo António, alguns muito jocosos, sobre
a realidade portuguesa.
P.
– Que público pretende atingir a Lua Extravagante?
R. – Vamos procurar alargar o nosso
público. Há neste disco uma linguagem que considero moderna, na interpretação e
evocação do romantismo português. Temos uma tradição harmónica e melódica muito
forte em Portugal, que nos anos 80 foi desprezada em benefício daquilo a que se
chama o “rock português”, em que a prioridade foi dada ao ritmo. Geralmente, os
cantores dos grupos rock não são grandes cantores, são mais “performers”, com
um tipo de intervenção mais espetacular, encostado às formas anglo-americanas de
fazer espetáculo. Quanto a nós, vamos tentar chamar a atenção para uma tradição
mais recuada, expressa no “cante”. Quando falo de romantismo, refiro-me ao
romantismo literário e à música romântica, não ao sentido “kitsch” do termo.
Esse elogio do canto e da voz faz parte do romantismo português. Cantava-se
muito bem em Portugal.
P.
– Canto esse cujas raízes se encontram decerto no canto alentejano...
R. – A nossa aprendizagem fez-se a
partir dele. No disco há quase sempre uma voz solista, apoiada pelas outras. A
relação com o canto alentejano é sobretudo em termos técnicos e de imaginário.
De resto já estamos arredados da música rural. Metade da nossa vida já foi
passada nas cidades, afastando-nos culturalmente das nossas origens.
P.
– Como explica o interesse crescente do auditor pelas músicas ditas
tradicionais.
R. – A “world music”, não é? Acho
que estivemos muito afastados do nosso imaginário durante 10 anos. Talvez o
interesse que refere não passe de um fenómeno cíclico. Ou talvez haja um
cansaço com a música anglo-americana que se ouve em Portugal, que é muito
monótona. No meu caso, gosto muito da música negra das Américas, do Norte e do
Sul. A grande matriz da música americana está nas músicas de origem negra. Não
sei se não sofreremos por cá um massacre da chamada música de supermercado ou
de elevador... Esse massacre, perpetrado pelos “media”, é uma maneira de fazer
opinião pública.
P.
– Que influência teve o rock ou a pop na sua música?
R.
– Gosto muito de rock ‘n’ roll. Passei a minha adolescência com o Elvis
Presley, Bill Haley and the Comets... Formei-me com o sentido social que tinha
o rock ‘n’ roll e que agora está completamente distorcido e aviltado. O rock
‘n’ roll era contestatário, os americanos chamavam-lhe “música de pretos”. Era
um contrapoder. Aquilo a que se chama hoje rock não tem nada que ver com essa
atitude. Hoje, em termos gerais, o rock é betinho, do lado do poder. Suponho
que a vertente pop, sobretudo inglesa – sou um grande admirador dos Beatles, do
seu lado melódico –, aparece, por exemplo, num tema que dediquei especialmente
aos Beatles, “Flor de Jacarandá”. No nosso disco há uma canção que lembra um
bocado os Mamas and Papas.
P.
– Pela amostra musical, o projeto Lua Extravagante funciona como um negativo,
ou contraponto, de grupos como os Sétima Legião ou Madredeus. Há um lado negro,
de luto...
R. – Mas o interior português é um
interior de luto. Tudo o que tem um balanço do coração é triste. Claro que há
um ritmo que evoca um pouco esse balanço. É uma forma de cantar do Sul,
mediterrânica e peninsular.
P.
– No seu caso, prevalece a faceta revivalista, de romântico “fin de siècle”...
R. – Sim, há uma evocação desse
ambiente. Foi um tempo muito importante para a humanidade, com o nascer de
ideias novas, e depois eu tenho uma grande admiração pelos anarquistas, pela
carbonária portuguesa, que deixou muitas ideias. As bandas formadas no fim do
século passado, princípio deste, ou as recreativas culturais são um trabalho
cultural dos anarco-sindicalistas. Era um tempo de grande felicidade.
P.
– Fala em anarquismo, mas grava para uma multinacional. Parece que os ideais se
tornaram apenas uma evocação nostálgica...
R. – Os ideais culturais permanecem.
Estou a lembrar-me de uma recreativa cultural aqui na Madragoa, o Clube dos
Vendedores de Jornais, fundado em 1921. Ainda existe como recreativa, na Rua
das Trinas. São coisas que permanecem sempre.
P.
– Resta então, ao artista, o papel de observador que está de fora?
R. – Vivo de fora porque a minha
realidade passou a ser outra, uma realidade sinistra, a da guerra do Golfo.
Realidade essa transmitida nalguma boa música moderna. O pós-modernismo gerou
grandes confusões e equívocos. Em Tom Waits, por exemplo, há ainda a elegia de
uma certa boémia... Mesmo que, a partir dos 40 anos, seja preciso um pouco de
“desporto líquido”...
P.
– Que pensa da viabilidade ou não de projetos como a UPAV?
R. – Conheço muito bem o José Mário
Branco, já trabalhei com ele, mas tenho uma opinião contrária à dele em relação
à divulgação da música. Temos de ter os pés bem assentes no chão. O capitalismo
em Portugal é uma realidade, entrámos no Mercado Comum e as leis do mercado são
implacáveis. Eu vendo discos e continuarei a gravá-los só enquanto eles
venderem. Só assim é possível ter força em termos de opinião pública. É dentro
deste mercado selvagem que temos de lutar, resguardando embora sempre a nossa
“petite fierté”.
P.
– Não o procupa que a integridade do artista seja prejudicada por essa
necessidade de vender?
R. – Não é preciso abdicar dos nossos
princípios para fazer produtos de boa qualidade. Mas chegar em condições às
pessoas só se consegue através do “marketing” e este é implacável. No que nos
diz respeito, a nossa imagem nem sequer é muito vendável.
P.
– O negro faz parte da sua imagem, até na maneira como se veste...
R. – Vestido de negro, confundo-me
mais com a sombra, com o escuro. Isto tem que ver com o Sul, com o interior
português. Curiosamente, nas zonas onde há muito sol, há o culto do negro. No
Sul da Itália, na Grécia...
P.
– Negro somente iluminado pela luz da Lua. A Lua Extravagante cantará esse lado
lunar, oceânico, da alma lusitana?
R. – A alma lusa, sim. A Lua, no
imaginário popular, é mais importante que o Sol. Repare nos símbolos que punham
nos bébés, para dar sorte: uma estrela, um corno, uma Lua e uma mão fechada. Há
sempre a presença da Lua.
P.
– Que extravagância da Lua é essa que referem?
R. – Há uma moda alentejana,
“Chamaste-me extravagante”: “Chamaste-me extravagante/ por eu ter uma noitada/
eu sou um rapaz brilhante/ recolho de madrugada.” O termo “extravagante”, no
Alentejo, refere-se a uma pessoa estranha ao quotidiano, com um convívio
diferente do normal, ao homem que canta a noite.
PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 SETEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s
Live in America
2XLP/CD,
Geffen, distri. BMG
Adepto das sonoridades analógicas,
Kitaro parece neste disco ter-se rendido por fim ao império dos “samplers”.
Discípulo de Vangelis e do compatriota Isao Tomita (especialista na recriação
em sintetizadores de peças clássicas), Kitaro viaja aqui por paisagens povoadas
por harpas, flautas e regatos digitais, por vezes com resultados que fazem
esquecer a proverbial mediocridade e monotonia do género (como em toda a
sequência do primeiro lado).
Infelizmente, o resto não está à
altura das promessas iniciais, descambando no mais detestável “rock planante”,
evocativo de atrocidades como aquelas perpetradas, há anos atrás, pelos Space
de má memória. Sinfonismos caducos do piorio, sequenciadores deixados a
funcionar enquanto os músicos foram almoçar, pompa balofa sem circunstância,
fazem deste duplo uma xaropada irritante. “The Light of th spirit”? “Cosmic
love”? Se misticismo é isto, regressa camarada Marx, estás perdoado. *
PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 SETEMBRO 1991 >> Pop Rock >> Capa
NOVO
CATÁLOGO BMG
Há um novo canal
editorial para a música portuguesa – a multinacional BMG. Esta editora já
operava há mais de dois anos entre nós, mas tinha os Delfins como único nome
nacional no seu catálogo. Agora, com a entrada de Tozé Brito para a direção, no
capítulo pop/rock, já assinaram pela BMG, os LX-90, Peste & Sida, Piratas
do Silêncio, Sitiados e UHF. A festa de apresentação do catálogo foi na semana
passada. Ouvimos e fotografámos as seis bandas contratadas e o seu novo patrão,
para anteciparmos o que se arrisca a ser um dos mais importantes acontecimentos
no panorama da música portuguesa dos anos 90.
Introdução não
assinada. FM escreve sobre UFH e Peste & Sida
UHF
Novo guitarrista “heavy”, novo
baixista “thrash”, mas som mais pop em “A Comédia Humana”, o álbum já a sair
dos UHF.
Ainda e sempre António Manuel Ribeiro
Para António Manuel Ribeiro, líder
histórico dos UHF, a vida não tem sido fácil. Uma carreira e atitude ímpares no
meio rockeiro nacional nem sempre foram suficientes para proporcionar à banda
almadense o tipo de condições de trabalho que há muito justificariam. Ainda há
bem pouco tempo, A.M.R. se queixava da promoção e distribuição deficientes da
parte da antiga editora. Agora, a inclusão no catálogo nacional da BMG parece
abrir para os UHF perspetivas mais risonhas. Com um novo álbum, de genérico “A
Comédia Humana”, pronto a sair na última semana deste mês e uma canção,
“Brincar com o fogo”, já a passar na rádio, o futuro aponta para um
relançamento em força da banda mítica de Almada.
O problema da promoção e distribuição
dos discos tem sido, de resto, o principal cavalo de batalha. “Só tínhamos dois
caminhos”, assegura A.M.R., “ou abríamos um selo próprio e entregávamos a
distribuição, ou então tínhamos um bom contrato e um plano de trabalho.”
Questões que, para o vocalista dos UHF, passam sobretudo pela garantia de que
“os discos vão chegar ao seu destino”, isto é, aos locais onde as pessoas os
possam comprar. Como exemplo das deficiências a que alude aponta o caso recente
ocorrido numa digressão dos UHF aos Açores, onde “Noites Negras de Azul”
passava por ser o último disco da banda.
Não se deve, pois, pôr o problema em
termos de dinheiro – “mais ‘royalties’ menos ‘royalties’, não era isso que
estava em causa” –, mas antes em termos de segurança e garantias de um bom
trabalho. Há mesmo a promessa, da parte da editora, de procurar “furar” no
mercado internacional e impôr lá fora os produtos no catálogo. “Isto dá-me uma
largueza de trabalho, de vistas de futuro que nunca tive”, declara aliviado
António Manuel Ribeiro. “Penso que há cerca de nove anos que não tinha isto,
desde que deixei a Valentim de Carvalho.”
Se nos recordarmos dos tempos negros
recentes – “tive uma série de angústias porque as promessas que nos tinham sido
feitas não estavam a ser cumpridas” –, não deixa de ser curiosa a confiança
agora reencontrada, confiança que, segundo A.M.R., passa pelo conhecimento
pessoal das pessoas envolvidas na nova equipa e projeto da BMG, escolhidas a
dedo segundo um critério de “seleção de valores” e já “com provas dadas”.
Provisoriamente arredados para a
gaveta ficam anteriores projetos independentistas – “não foram para a gaveta”,
garante A.M.R., “abrir um selo em Portugal é sempre um desafio. E é um desafio
para mim que sou um teimoso, que acredito nisto”. Longe vão os tempos
derrotistas em que perguntava ironicamente a alguém da antiga editora se a
música portuguesa “ia acabar”. Pelos vistos, a dos UHF não acabará nunca.
A prova-lo, o novo álbum, nova
formação (com o Toninho, na guitarra, proveniente da banda de “heavy” Iberia, e
o Nuno Filipe, no baixo, com experiência em várias bandas de “thrash metal”) e
uma mudança de estilo tendente a fazer aumentar ainda mais o número de fiéis
dos UHF. “A produção é diferente”, sintetiza o vocalista, “é um disco de
extremos, com um som mais pop que talvez tivesse começado a aparecer com
“Hesitar”, juntamente com algumas canções bastante rudes, à maneira dos UHF.”
Para os novos recrutas, como o
Toninho, habituado ao ribombar metálico, a princípio “foi difícil entrar”, já
que “o estilo era completamente diferente”. Mas, como faz questão de frisar o
Renato Júnior, teclista e saxofonista, a mudança de som detetável no novo álbum
passou inevitavelmente pelo aval e pelos arranjos de António Manuel Ribeiro –
“é ele que filtra tudo e sintetiza aquela coerência que é a dos UHF”. A.M.R
representa, de facto, a firmeza de princípios e a rebeldia típicas do
verdadeiro rock. Que sonhos ou ambições fazem correr ainda este veterano para
quem o “rock ‘n’ roll” foi a forma que escolheu de estar na vida? “Somos
músicos. Não ‘mais ou menos’ músicos, mas músicos mesmo. Vivemos isto
intensamente o ano inteiro, a vida inteira.” Histórias que se vão contando, na
“Comédia Humana”.
PESTE
& SIDA
Peste & Sida procuram novo
baterista, antes de entrarem em estúdio para nova injeção de “veneno”
Tudo em aberto para os Peste &
Sida, uma das bandas da ala rebelde e provocatória, atualmente em manobras
subversivas que atingem o sistema nervoso do rock nacional. De momento, as
atuações ao vivo encontram-se, nas palavras de João San Payo, o baixista do
grupo, em “stand-by”, já que falta um baterista para preencher a vaga deixada
em aberto por Fernando Raposo. Da formação antiga, mantêm-se, além de San Payo,
o Luís Varatojo e o Nuno Rafael, ambos guitarristas.
Quanto ao baterista, ainda pouco há
de concreto: “Vamos lá ver como é, estão três ou quatro prontos para entrar em
audição e nós escolhermos um” – assegura João San Payo que, no entanto,
aproveita a nossa deixa para assumir o papel de anunciante: “Se o PÚBLICO
quiser, pode divulgar que os Peste & Sida têm uma vaga para baterista. Quem
quiser preencher o lugar e se sentir qualificado para tal, pode aparecer”.
Em relação ao novo álbum, o
terceiro, depois de “Veneno” e “Portem-se bem”, o início das gravações está
prevista para dezembro e a edição, em princípio, para março do próximo ano,
dependendo o som da banda de como se vier a estabilizar a nova formação, já com
a integração do novo baterista. João San Payo acha, contudo, que “a linha
estáetica vai ser a mesma”. Para ele, o que é mais importante é que os Peste
& Sida tentam “fazer sempre melhor”.
Peste & Sida que são, de resto,
uma banda nem sempre bem compreendida, provocando, com alguma frequência,
reações agressivas e um ou outro desacato nas audiências. A designação que
escolheram ajuda à festa. Herdeiros espirituais dos Xutos e Pontapés, os Peste
& Sida apreciam sobretudo sentir-se incómodos para as mentes mais
enfatuadas, assim como uma praga ou um vírus que vai corroendo lentamente por
dentro.
Até agora, injetavam o “Veneno”, via
Polygram. Depois, foram “as mudanças todas” ocorridas nessa editora e a saída
pela porta pequena, já com o contrato prestes a acabar. “Nem houve uma
cartinha, nem um telegrama, nem um telefonema, nada”, lamenta-se, sentido, João
San Payo. Agora, já bem instalados na BMG, sentem-se “porreiros” e dispostos a
arrancar com o novo álbum, dando deste modo cumprimento ao acordado com o novo
selo – três anos na casa, durante os quais terão que gravar dois álbuns. Para
os Peste & Sida não há descanso. Para quem os ouve, muito menos.
PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 9 SETEMBRO 1991 >> Cultura
Festa
do “Avante!” 91
A
música em comício
Na Festa do
“Avante!” é sempre assim todos os anos: bons nomes em cartaz, atuações
invariavelmente prejudicadas por deficiências e o desconforto inerentes ao
gigantismo do evento. Sabe-se que é assim, mas vai-se na mesma. Festa é festa,
como se costuma dizer. O contingente “folk” foi refrigério no banho de poeira.
Há duas maneiras de apreciar a Festa
do “Avante!”. Impressiona, por um lado, a reconhecida capacidade de organização
e mobilização dos comunistas portugueses. Montar uma cidade descartável não é
fácil e o milagre é alcançado todos os anos. De resto, o partido é especialista
em milagres. Por outro lado, essa mesma cidade, erguida com o objetivo de
proporcionar a fruição, seja ela estética, ideológica ou gastronómica, ao
apostar na massificação acaba por deixar em muitos um sabor a frustração.
Evidentemente, há quem tenha opinião
contrária e aprecie. Para os da casa está sempre tudo bem. Festejar é, como no
resto, nivelar por baixo. Quem também gosta muito, numa população de
circunstância, é aquela camada de “jovens” para quem o paraíso consiste em
emborcar kilolitros de seja o que for com álcool na composição, rebolar na
terra, sozinho ou às voltas com o(a) parceiro(a) e, com sorte, culminar a
aventura no hospital mais próximo. Na Quinta da Atalaia, foi um rodopio de
ambulâncias para cá e para lá a transportar os despojos humanos resultantes dos
êxtases instantâneos. Em qualquer dos casos, do militante fanático ao “freak”
andrajoso, a festa funciona ao nível da alucinação.
O
inferno são os outros
Para complicar, o programa das atividades
culturais (e em particular as muitas músicas que são o mel da festa) costuma
ser aliciante. São as circunstâncias que fazem o inferno. O anjinho incauto
atraído pela promessa de boa música sofre a bom sofrer, numa correria de poeira
e encontrões, para finalmente ver recompensado o esforço com mais poeira,
parasitagens extra-musicais de toda a espécie (deficiências técnicas, atropelos
à higiene mais elementar, interferências humanas provocadas por gritos e choros
de crianças ou militâncias mais inflamadas, vómitos à tangente, numa massa
envolta na bruma poeirenta que transforma o cenário numa variante proletária de
“Mad Max”…) ou o desespero terminal de não conseguir chegar a tempo ao espetáculo
ansiado, devido ao desfasamento e atrasos de horário.
Saíram-se bem os Pop Dell’Arte que na
sexta à noite se embrenharam num delírio psicadélico “kitsch” apoiado por um
eficaz show de luzes psicoalucinantes de tendência dadaísta. João Peste contorceu-se
vocalmente a contento, imitou a Piaf, fez inveja a Vítor “Goodbye Maria Ivone”
Peter e embasbacou meio povo presente em mil e uma provocações inteligentes.
Provocantes e inteligentes foram ainda
os Telectu que, depois de Elliott Sharp, voltaram a escolher o parceiro certo –
desta feita o percussionista Chris Cutler – para mostrar que por cá a vanguarda
também mexe. Espaço para a improvisação e para o diálogo entre músicos de
diferente formação e sensibilidade. Num instante o caos, no outro a
convergência. Jorge Lima Barreto, em tom de contenção, sugeriu ambientes e
avançou pistas. Vítor Rua provou até que ponto é bom guitarrista, sobretudo
quando se esquece dos botões e pedais de efeitos, como aconteceu no encore
final. Chris Cutler construiu, destruiu, brincou, ordenou e explodiu em compassos
ora binários ora impossivelmente complexos. Experiência radical.
Uma
fada entre a poeira
Quem sofreu mais foram os
representantes da “folk”. Prejudicados por investidas sistemáticas de
“feedback” e pela indiferença de um público na maioria já em avançado estado de
decrepitude física e moral, os Boys of the Lough mostraram no palco grande, com
a dignidade que se impunha, os mistérios da música irlandesa, a que poucos
terão sido sensíveis, distraídos da hora mágica do pôr-do-sol.
No auditório “1º de Maio” (uma tenda
de circo montada sobre a terra) a harpista Savourna Stevenson fez esquecer o
mundo exterior e material. Nem o ruído insistente de um baixo tonitruante e
monocórdico do grupo de arraial do lado conseguiu vencer a atmosfera intimista
criada pela fada. Fada sensual, diga-se de passagem, mini-saia negra recuada em
volta da madeira central do instrumento, acrescentando outras divagações ao
sonho do espírito. Acompanhada em dois temas pelo violinista dos Boys of the
Lough, Aly Bain, Savourna Stevenson alternou temas swingantes com tradicionais
do seu mais recente disco “Tweed Journey” ou a revisitação de um tema de Duke
Ellington. Brilhante, num barracão ou num palácio.
À noite, os Oyster Band enlouqueceram
por completo uma assistência (em parte já recuperada da ressaca vespertina) que
não se fartou de dançar e formar rodas ao som da “Punk Folk” da banda
britânica. Alheados da agitação geral, dois jovens jogavam às cartas no escuro
entre pernas, sentados no chão... Folia somente perturbada pela presença
emblemática da vocalista June Tabor que, sem voz, e desfasada do grupo,
arrefeceu os entusiasmos e conseguiu assassinar o clássico dos Velvet
Underground “All tomorrow’s parties”, fazendo Nico revolver-se no túmulo.
Rainha de outros reinos, June Tabor, ao contrário do que aconteceu no “Folk
Tejo”, não deslumbrou.
Do reino de poeira, terra e confusão
fica a recordação de umas febras com sabor a plástico rotuladas de “cozinha
típica”, as imagens apocalípticas do império das latas de cerveja amontoadas
rivalizando com os corpos empilhados e o comentário sabedor de alguém ao passar
no palco onde atuava um “ensemble” de contrabaixos: “olha um violino!”. É assim
na Festa do “Avante!”, os olhos só vêem aquilo que sabem ou querem ver...
PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 6 SETEMBRO 1991 >> Cultura
XV
Festa do “Avante!” começa hoje na Amora
Músicas
autónomas proclamam independência
Todos os anos, por
esta altura, os comunistas portugueses dão espetáculo. Sobre um fundo vermelho
cada vez mais esbatido, na Amora, Seixal, voltam a erguer-se os palcos onde se
fará a festa. Os camaradas estão resignados: a república da música há muito que
se tornou independente.
Ideologia à parte, não faltam motivos
de interesse em mais uma edição, a XV, da feta do “Avante!”, que durante três
dias vai animar o cinzento poluído da margem Sul do Tejo. Em termos
exclusivamente musicais, se ainda não é desta que vêm os Pink Floyd, resta a
consolação de poder apreciar ao vivo o rock de Gianna Nannini, uma “latin
lover” italiana que já trabalhou com Bertolucci, Antonioni e cantou o hino do
último campeonato do Mundo de Futebol, capaz de incendiar corações de todas as
cores com o som agressivo do seu mais recente álbum “Scandalo” – no domingo, às
22h, no palco 25 de Abril.
Mas o programa da Festa não engana:
1991 é o ano da consagração da música tradicional. Não deixa de ser engraçado
verificar como o vocábulo “Tradição” se sobrepôs ao de “Revolução” no léxico
das festividades comunistas. O que vem provar que os comunistas, quando querem,
sabem ser homens “às direitas”…
June Tabor com os Oyster Band, Boys of
the Lough e Savourna Stevenson constituem cartaz aliciante num campo musical
que, finalmente, parece ter-se implantado nos gostos (mais que não seja
consumistas) do auditor português.
June Tabor é apenas uma das vozes
superlativas do canto feminino de raiz celta. Recentemente, no Coliseu,
conseguiu fazer esquecer o equívoco chamado “Folk Tejo”. Pela sua voz, se com
ela formos capazes de vibrar em consonância, chega-se ao céu. Em termos de materialismo
dialético é difícil de compreender. Na Amora será talvez um pouco diferente, já
que cantará acompanhada por um grupo de rapazes irlandeses dados à bebida (há
algum irlandês que não o seja?) e que por isso mesmo fazem música de cair para
o lado – os Oyster Band.
Da Irlanda brumosa de alma acastelada
e pátria provisória do “senhor da ira”, os Boys of the Lough transportam
consigo as texturas e odores da madeira e do musgo, do vento e da pedra. Trazem
a alegria e a tristeza do exílio irlandês. Na flauta e no violino
virtuosísticos de Cathal McConnell e Aly Bain. E na gaita-de-foles, como não
podia deixar de ser. Sábado às 19h, no “25 de Abril”, para dançar até à
exaustão. O comité central do partido em princípio não se deve opor…
Duas horas depois, às 21h, no
Auditório 1º de Maio, é a vez da harpa de Savourna Stevenson serenar os ânimos,
em dueto com o violinista dos “Boys”, Aly Bain. Savourna é um dos expoentes da
nova linhagem de harpistas celtas, que como Máire Ní Chathasaigh, Alison
Kinnaird, Billy Jackson ou as Sileas, recupera os códigos estilísticos e a
mística do lendário Carolan, o bardo, para os devolver de forma intimista num
contexto contemporâneo. Outros estrangeiros merecem uma chamada de atenção: os
Bogus Brothers e o guitarrista de flamenco Rafael Riqueni (ambos com atuações
agendadas para sábado, respetivamente no “25 de Abril” às 23h30 e “1º de Maio”
às 22h). Havia o trio de Cedar Walton, mas foi cancelado.
Imensa, a legião portuguesa,
representativa de diversos quadrantes, promete momentos de boa música. Sexta-feira
convém não perder as atuações dos Plopoplot Pot de Nuno Rebelo, dos Pop
Dell’Arte de João Peste e de Jorge Peixinho.
Sábado, sempre no palco principal, uma
sequência interessante: Romanças, Issabary, Brigada Victor Jara, Júlio Pereira,
António Pinho Vargas. No 1º de Maio: Trio de Carlos Bica, Idéfix e Zé-di-Zastre
– o jazz em português. Finalmente, no domingo: Tina e os Top Ten, Delfins e
José Eduardo Unit. Para o fim uma referência muito especial para a atuação
(sexta, 22h30, no “1º de Maio”) dos Telectu de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua
que se farão acompanhar pelo percussionista, anarquista e referência mítica da
cena vanguardista mundial (Henry Cow, Art Bears, Skeleton Crew, David Thomas,
Fred Frith, a constelação da “Recommended”…), Chris Cutler.
Depois há os ranchos folclóricos ou os
grupos rock da última divisão, espalhados um pouco por todo o lado, a
acompanhar a merenda no chão, de frango, poeira e garrafão. Enquanto se espera
que o camarada Cunhal venha dizer que tudo está como era dantes…
PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 AGOSTO 1991 >> Pop Rock
A
MÁQUINA, PEÇA A PEÇA
Ao longo de quase
duas décadas, com intervalos de produção mais ou menos alargados, a discografia
dos Kraftwerk representa a expressão máxima da modernidade e a apologia irónica
do “homem-máquina”. Agora, na sequência do êxito de “The Mix”, os álbuns
originais “Radio-Activity”, “Trans Europe Express” e “The Man Machine” vão ser
repostos em breve no nosso mercado, mas o que se impõe é a retrospetiva
integral.
KRAFTWERK/ORGANIZATION,
1972
Duplo álbum raridade editado na
Vertigo, no qual os Kraftwerk antecipam a apoteose metálica que, anos mais
tarde, os seus compatriotas Einstürzende Neubauten ou os ingleses Test
Dept se encarregaram de celebrar. Numa Berlim então seduzida pelo misticismo
planante dos Tangerine Dream e de Klaus Schulze, os Kraftwerk moldavam com a
argamassa de Cage, Stockhausen e os resíduos estruturais do concretismo,
esculturas de água e de metal, em reverberações corrosivas que depois se haveriam
de chamar “música industrial”. Outros agrupamentos germânicos da época,
Harmonia, La Dusseldorf, Cluster (cujo álbum “Cluster II” consitui o primeiro
grande manifesto do “som industrial”) ou os Neu! viriam, cada um a seu modo,
explorar as vias abertas pelos Kraftwerk, formando um núcleo vanguardista
surgido precocemente nos anos em que quase todos se preocupavam mais com as
imensidões cósmicas do que com a beleza claustrofóbica das grandes fábricas do
Ruhr.
RALF AND FLORIAN,
1973
As grandes avalanchas sónicas do
primeiro álbum são recicladas num carrossel minimalista que pela primeira vez
provoca nos neurónios ânsias de dançar. “Elektrisches roulette” ou a rumba
ciberpaquidérmica “Tanzmusik” (“música de baile”) demonstram até que ponto
Terry Riley tinha razão quando defendia que o infinito era circular.
“Kristallo” e sobretudo a frescura de frutos e paisagens tropicais de “Ananas symphonie”
acariciam o corpo elétrico de Bradbury e abrem caminho para as sedimentações
ambientalistas que Brian Eno transformaria em género autónomo.
AUTOBAHN, 1974
A auto-estrada e o fascínio do
universo linear, ideal para se chegar ao novo mundo, dirigido por controlo
remoto. “O automóvel é um instrumento de música”, diziam então Ralf Hütter e
Florian Schneider, pela primeira vez auxiliados nas percussões robóticas por
Wolfgang Flür e Klaus Roeder. Conny Plank fornecia a garagem, mas, para os
Kraftwerk, o estúdio convencional começava a ser pequeno para a desmesura do
projeto. A consola auto-suficiente da “fábrica” portátil Kling Klang seria a
solução e o veículo privilegiado na construção do império eletrónico. “Wahn
wahn wahn, das ist autobahn” – transmite o auto-rádio à saída de uma curva,
consumando a ultrapassagem definitiva da “Fun fun fun” demasiado humana dos
Beach Boys. A “Folk” industrial nascia em 22m30 de viagem através dos
arquétipos do homem como eterno transeunte que foram “top” nos Estados Unidos e
deveriam servir de exemplo à nossa Junta Autónoma de Estradas. O segundo lado
despede-se do céu e das delícias da sonoridade analógica.
RADIO-ACTIVITY,
1975
Considerado à época uma desilusão,
“Radio-Activity” permite aos Kraftwerk a descoberta das melopeias infantis e o
abuso da melodia simplista. A rádio deixa de passar música e torna-se
ameaçadora. “Radio-activity, discovered by Madame Curie, is here to stay, for
you and me” – a mensagem, dita desta maneira, era difícil de levar a sério, mas
Chernobyl viria a endurecer o conceito, juntando-lhe a dimensão da tragédia (os
Kraftwerk acrescentariam mesmo, por causa da catástrofe, novos versos ao tema,
em “The Mix”). “Airwaves” flutua no ar com a insustentável leveza do vazio
pós-nuclear. Mas como numa novela de Philip K. Dick, a realidade é sempre outra
coisa e a consciência perde-se sem querer no labirinto das suas próprias
mutações. A Europa dançava a valsa dos eletrões.
TRANS EUROPE
EXPRESS, 1977
Interrompida pelo álbum anterior, a
viagem prossegue agora de comboio, que substitui o automóvel, como meio de
transporte para o futuro. Síntese magistral de uma tradição europeia
reinventada (Franz Schubert de martelo-pilão, a destruir os alicerces
românticos), na miragem de uma prosperidade pós-industrial ou na nostalgia
totalitária de um continente sem fronteiras. Os Kraftwerk atingem o domínio
pleno das técnicas manipulatórias do imaginário contemporâneo. O horror de uma
viagem sem fim com destino ao inferno (McLuhan chama-lhe a “aldeia global”) é
camuflado pelo polimento extremo do som e pela depuração da palavra, reduzida
ao essencial e por isso com um máximo de eficácia. Numa Europa “Endless”, até
ao infinito, esmagada no clamor de “metal on metal”, “Trans Europe Express” deu
uma alma à máquina e ensinou David Bowie (de “Station to Station”) a ser
moderno.
THE MAN MACHINE,
1978
Título óbvio para a continuação de
um projeto único na música ocidental do nosso século – a simbiose harmoniosa
entre o homem e a máquina, simbolizada na clonagem dos músicos e enfatizada
pelas referências estéticas a Lissitsky e ao construtivismo russo. “As máquinas
respondem-nos diretamente e nós às máquinas” – declarava Ralf Hütter a
propósito de “We are the robots”, levando ao absurdo o termo comunista
“robotnik” – o trabalhador perfeito, como peça da máquina omnipotente que é a
sociedade materialista.
Emoção geométrica. Paraíso matemático.
Futuro a escurecer em metrópoles banhadas na cor gelada de “neon lights”,
tornadas substitutas das estrelas na arquitetura do cosmos.
O mundo deixa-se ofuscar pelo novo
brilho – “Looking for a perfect beat” dos Afrika Bambaata deve a inspiração aos
homens-máquinas. “The model” é êxito nas Filipinas, cantado por uma intérprete
local. “Trans Europe Express” assume a paternidade da “Cold Wave” ou da pop eletrónica
dos Human League, Depeche Mode, Telex, Orchestral Manoeuvres in the Dark, John
Foxx, New Musik, Fad Gadget, entre muitos outros.
COMPUTER WORLD,
1981
Bem instalados no coração da
máquina, os Kraftwerk inventam novos “video games” para consumo do homem
automático. “Pocket calculator” é tocado em calculadoras de bolso Casio e
Texas, que, nos concertos ao vivo, são distribuídos à assistência, convidada a
com eles improvisar. Data desta época a remodulação do estúdio Kling Klang, de
maneira a permitir a sua utilização em palco, concedendo ao conceito duplo de
“hardware / software” a dimensão do espetáculo. Anulada a tensão dialética
entre racionalidade luciferina (“Numbers”) e a emoção, resta a derradeira
mutação interior e a capitulação do humano, demasiado humano, na pureza fria do
amor computorizado.
ELECTRIC CAFÉ, 1982
“Boing boom tschak”, cadência
onomatopaica com que os Kraftwerk se servem para parodiar o Hades teleológico,
imitando com a voz o som dos sintetizadores e introduzindo uma nota de
humanidade e humor à implacabilidade do projeto. “Electric Café” é o ponto de
diversão possível num pesadelo já consumado. Muito minimal para cérebros
normais – “Techno pop”, “Musique non stop” –, a vida, considerada abstração, só
através da repetição “ad infinitum” da melodia como hipnose terapêutica,
consegue o sucedâneo artificial capaz de manter a máquina em funcionamento.
“Sex object” e “The telephone call” falam da solidão. Gerado por um computador,
o homem será ainda o animal que ri?