05/11/2026

Pomba branca, pomba branca [4º Festival Intercéltico do Porto]


cultura >> domingo, 04.04.1993

 

Festival Intercéltico do Porto

 

Pomba branca, pomba branca

 

Intercéltico, noite ibérica. Uxía e Sétima Legião, os celtas de serviço. A cantora galega voltou a mostrar que tem uma voz maravilhosa, mas faltam-lhe canções. Com os portugueses da Sétima Legião passa-se o contrário – boas canções mal servidas por um vocalista a necessitar de revisão. Dá Deus nozes a quem não tem dentes e dentes a quem não tem nozes...

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Vestida de branco, figura franzina, voz enorme, Uxía encantou o auditório que no sábado à noite esgotou a lotação do Teatro Rivoli, no Porto, na segunda etapa do Festival Intercéltico. A ex-vocalista dos Na Lua esvoaçou como uma pomba pelas canções do seu trabalho a solo de 1991, “Entre Cidades”. O problema, o único problema que até agora tem impedido que o seu nome se projete além-fronteiras está precisamente nas canções. Faltam canções do tamanho – é uma metáfora – de Uxía. Os músicos que a acompanharam no Rivoli também não ajudaram, sobretudo Xosé Paz Antón, sempre na lua, martelando quadrados após quadrados na bateria. E parece tão simples o melhor caminho a seguir... O fundo de teclados aquáticos de Nacho Muñoz e uma “gaita”, cheia de sentimento, de Cândido Lorenzo chegaram para a voz levantar voo e se recortar com limpidez, como ela merece e deve ser, em três temas de pura magia: “Cantar Galego”, o tradicional “Cancíon de Florencio” e já em “encore”, a revisão sentida nas alturas de “Verdes são os campos”, de José Afonso.

O resto foram cantigas e a voz de Uxía a arrancar-lhes o pouco que algumas delas lhe podiam dar. Ficaram apesar de tudo ainda na memória “Em Lisboa” (“Sei que estou no Porto, mas sou galega e estou longe das vossas ‘disputaciones’...”), com letra de Eugénio de Andrade e “Aquela nuvem”, de Júlio Pereira. Esqueçam-se depressa um “reel” (um “reel” naquele compasso, Antón?) irlandês e a Galiza em ritmo de “reggae” de “Túa nai é meiga”. Com esta disparidade entre intérprete e reportório é caso para dizer, não exatamente como Max: Pomba branca, pomba branca, onde vai o teu voar...

 

Sétima aumentada

 

Os Sétima Legião atacaram em força mas perderam-se pelo caminho. Vinte e uma canções selecionadas dos seus quatro álbuns, mais cinco “encores”, foi dose excessiva para alguma (pouca) gente. Uma “Abertura” seguida de “Baile” em tons tradicionais prometeram logo de início uma atuação memorável, dando a ouvir um Paulo Marinho confiante e cada vez melhor na gaita-de-foles. Mas depois a Sétima entrou “Noutro Lugar”, na voragem dos decibéis, do rock e do “feedback” – que conseguiu estragar mais do que um tema – e algo se perdeu. Sobretudo a energia, nas vocalizações fúnebres e desmaiadas de Pedro Oliveira. Instrumentalmente a banda é competente, conseguindo ser demolidora em temas que a assistência do Rivoli recebeu em apoteose, dançando e gritando. Tal aconteceu em “Sete mares” (tocado duas vezes), “Por quem não esqueci” e na bombástica – não, neste caso não é metáfora, Paulo Abelho, o percussionista, batucou e levantou no ar um bombo monstruoso – “Reconquista” final, em que os Sétima Legião mostraram ser uma das grandes bandas portuguesas da atualidade. Curiosamente, o vocalista impressionou, já em tempo de “encores”, numa pungente e solitária interpretação, à beira da tragédia, de “Guerras de Ninguém”. Uxía (“uma fada que passou...”) subiu ao palco para acompanhar na pandeireta duas boas prestações de Paulo Marinho na gaita-de-foles, “Caminhos de Santiago” e o tradicional galego “Aires de Pontevedra”.

Longe, às vezes bastante longe, da perfeição, a atuação dos Sétima Legião conseguiu mesmo assim ser aquela que em dois dias de festival conquistou maior adesão do público. Um público talvez diferente do dos outros dias, mais sensibilizado para sonoridades que numa ou noutra vez fizeram o favor de ser tradicionais.

Em jeito de “post-scriptum”: fala-se, à boca pequena, de um projeto vocal feminino que, a ir avante, dará muito que falar. Nada mais nada menos que Uxía, Teresa Salgueiro (as duas, aqui no Porto, não confirmam nem desmentem...), Filipa Pais e Minela, juntas e afinadas num coro de bradar aos céus.

 

Artífices do mar [4º Festival Intercéltico do Porto]

 

cultura >> sábado, 03.04.1993

 

Começou o Festival Intercéltico do Porto

 

Artífices do mar

 

Duas notas distintas marcaram o início da 4ª edição do Intercéltico. Ao registo mais interiorizado dos bretões Barzaz responderam os escoceses da Battlefield Band com a apresentação festiva de temas do seu último álbum, “Quiet Days”. O Intercéltico arrancou em beleza, em ano de consagração.

 

Coube ao grupo da Bretanha Barzaz esculpir em rochas, vento e sal a primeira curva da tríplice espiral céltica “an triskell”, na 4ª edição do Festival Intercéltico do Porto. Principais artífices, o flautista Jean-Michel Veillon e o percussionista de origem irlandesa David Hopkins, este o discreto tecelão das texturas ambientais que caracterizam a estética do grupo, ao vivo, e no álbum “An Den Kozh Dall”. Paisagens marítimas em constante mutação, espelho salgado que reflete a natureza profunda da brumosa e ancestral Bretanha. Músico ligado à “new age”, Hopkins rubricou, já no último “encore” um excelente solo de “bodhran”.

Paradoxalmente a música dos Barzaz “quebrou” pelo seu elo mais forte, nas vocalizações de Yann-Fañch Kemener, voz profundamente enraizada na tradição vocal bretã mas que em dois ou três temas cantou ligeiramente acima do tom. Por culpa do frio, queixava-se ele nos bastidores, depois de ter surgido em palco envolto num pesado sobretudo. Entre suites de danças “plinn” e “fisel”, entrou para o quadro de honra do Intercéltico uma fabulosa adaptação de um “en dro” profundo e diluviano que fez estremecer as fundações do Rivoli.

 

“Ainda temos uma canção!”

 

Seguiu-se a festa imparável dos Battlefield Band, grupo amado por uns e odiado por outros, mas ao qual não se pode recusar uma coerência absoluta, na proposta que adotaram desde o início de carreira. Alan Reid é hoje o maestro de uma formação renovada onde pontificam o virtuosismo e o poder das “highland pipes” de Iain McDonald e o violino desse prodígio de apenas 18 anos de idade que é John McCusker, bem secundados pelo sóbrio acompanhamento de Alistair Russell, na guitarra.

Se algumas reservas podem ser colocadas a uma certa “normalização” das vocalizações (faceta onde se faz sentir com maior acuidade a ausência de Brian McNeill), o mesmo não se pode dizer da mestria instrumental revelada pelo grupo, autêntica máquina de fazer música que pôs a assistência do Rivoli em delírio.

Num concerto que privilegiou os temas do álbum novo “Quiet Days”, “strathspeys”, marchas, “reels” e “jigs” alternaram com baladas de cariz politizado (“The hoodie craw” ou “Hold back the tide”, sobre a decadência da indústria naval na Escócia) e momentos de pura loucura, como o “celtic country bayou rock & roll” de “Six days on the road” ou o clássico “Afterhours”, exemplo da mais pura “celtic twilight poetry”, segundo a definição irónica da banda. O público exigiu dois “encores” – “pode ser, ainda temos uma canção!” – acabando o concerto em ambiente de loucura, com as “pipes” de Iain McDonald no comando das operações.

Já pela noite dentro, num bar da Ribeira, entre fumos, (mais) copos e música de dança, Robin Morton, o “papa” da Temple Records revelou ao PÚBLICO o lançamento próximo de um álbum conjunto de Eilidh MacKenzie, Christine Primrose, Arthur Cormack e Alison Kinnaird, resposta inteligente à atual superbanda escocesa Clan Alba, enquanto o líder dos Battlefield Band, Alan Reid, anunciava o seu primeiro projeto a solo. Debaixo dos holofotes e da batida frenética, escoceses e bretões perdiam-se no meio da confusão. Todos querem voltar.


Uma dor sem remédio [Painkiller]


pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993

 

UMA DOR SEM REMÉDIO

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Iconoclasta do jazz, instigador dos piores instintos do saxofone alto e agitador-mor das ondas sonoras do final do século, John Zorn regressa na sexta-feira a Portugal. Bem acompanhado.

Painkiller, o seu projeto mais recente, trará a Portugal o baixista Bill Laswell e o percussionista dos Napalm Death, Mike Harris. “Guts of a Virgin” é um álbum assinado por esta banda cujo título é significativo da temática escalpelizada pelo saxofonista ao longo dos últimos anos.

O ambiente e a simbologia do “thriller”, com todo o seu cortejo de crimes, detetives perdidos e personagens noturnas, é uma das obsessões de John Zorn. O cinema, projetado em tons de negro. Em “Spillane”, inspirado no escritor policial Mickey Spillane, é todo um género que o músico transforma em fonte inesgotável de nostalgia e paranóia. “The Big Gundown”, com arranjos de temas de filmes compostos por Ennio Morricone, “Filmworks 1986-90” e “Godard”, longa faixa incluída no álbum de homenagem a Jean-Luc Godard, “Godard, Ça Vous Chante?”, são exemplos significativos da relação que mantém com a sétima arte.

Adepto confesso da velocidade e sobreposição de registos musicais na aparência incompatíveis (daí a referência à música de desenhos animados, influência que de resto Zorn assumiu, via Carl Stalling, autor de bandas sonoras dos “cartoons” animados de Tex Avery para a Warner Bros, durante os anos 30, 40 e 50), John Zorn carregou a fundo no acelerador em álbuns como “Naked City” e “Torture Garden”. Submetida a um compressor monstruoso, a música de Zorn tende “para a morte”, como ele próprio admitia em entrevista ao PÚBLICO em 1991. Estética que leva ao paroxismo na faixa “Speed freaks”, de “Naked City”, sequência de 32 géneros de música em menos de um minuto.

Faz deste modo sentido que John Zorn tenha encontrado no seu émulo saxofonista Ornette Coleman, e no “free jazz” em geral, a carne sonora ideal para dissecação estilística, operação que empreendeu de forma admirável no álbum “Spy vs. Spy”, sobre obras daquele compositor. Há todavia outra faceta sua, mais calma, devedora do “bebop”, exemplificada na obra-prima “Deadly Weapons”, com Steve Beresford, David Toop e Tonnie Marshall. Num dos seus últimos trabalhos, “Elegy”, deparamos com um músico que soube ultrapassar a brutalidade dos Naked City, voltado para sonoridades menos frenéticas mas igualmente inovadoras.

Bill Laswell, na ocasião baixista dos Painkiller, por seu lado, é um músico que só por si mereceria um tratado. A sua obra como compositor, instrumentista e produtor é imensa, apontando, desde há anos novos caminhos ao rock, blues, punk, funk, música industrial, dança, heavy metal, hip hop e cruzamentos “ethno” de toda a ordem. A esta pluralidade de músicas Laswell emprestou o seu cunho visionário e o som vulcânico da sua viola baixo.

A lista de músicos e projetos em que se viu envolvido é incomensurável. Com a experiência pioneira dos Material (“Memory Serves”, “Temporary Music”, “One Down” e, já em segunda vida, “Seven Souls”) na dianteira, lugar de múltiplas experiências por onde passaram os sons e as vozes de Henry Threadgill, George Lewis, Fred Frith, Sonny Sharrock, Whitney Houston, Archie Shepp, Nile Rodgers, William Burroughs, Shankar, Sly Dunbar, Fela, Daniel Ponce, Zakir Hussain, entre outros. Campo de batalha, de “collision music”, aí se traçaram sínteses que tiveram continuidade no futuro. Fundamentais são também os álbuns a solo, “Baselines”, “Hear no Evil”, e os projetos que liderou: Deadline, Last Exit e SXL. Como produtor, Bill Laswell trabalhou com Iggy Pop, Public Image Ltd., Peter Gabriel, Motorhead, Ramones, Mick Jagger, Laurie Anderson, Ryuichi Sakamoto, Ginger Baker, Swans, Sly & Robbie, James Blood Ulmer, Shango, Maceo, Yellowman, Manu Dibango, Toure Kunda, Fela Kuti, Mandingo...

Depois, uma longa parada de notáveis com quem tocou ou de algum modo colaborou, na qualidade de simples convidado a orientador estético, fora ou no seio das editoras que ajudou a fundar, OAO e Axiom: Peter Brotzmann, Ronald Shannon Jackson, Toshinori Kondo, Sonny Sharrock, Brian Eno/David Byrne, Peter Gabriel, Golden Palominos, Massacre, Fred Frith, Curlew, Tom Verlaine, Kip Hanrahan, David Moss, Shankar, Afrika Bombaataa, Bootsy Collins, Herbie Hancock, Nona Hendryx, Last Poets...

Entre “field recordings” recolhidos um pouco por todo o globo, da Ásia à Gâmbia e a Marraquexe, com uma lendária gravação dos “Master Musicians of Jajouka” em colaboração com Bachir Attar, pelo meio, Bill Laswell divide atualmente as suas atividades entre os Painkiller e um trio com Ginger Baker e o tocador de kora Foday Musa Suso.

No Armazém 22 acontecerá uma explosão de criatividade e energia. Num cenário coincidente com as imagens e vibrações do sofrimento urbano.

Lisboa, 2 de Abril, Armazém 22

 

The Bothy Band - Old Hag You Have Killed Me


pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993

WORLD

 

O FULGOR DO RELÂMPAGO

 

THE BOTHY BAND
Old Hag You Have Killed Me
CD Green Linnet, distri. Megamúsica

 

Há discos agradáveis, discos coerentes, discos importantes, discos que se deixam ouvir. Discos de que se gosta e discos de que se aprende a gostar. Mas há também uma espécie rara de discos que impressiona de maneira diferente. Discos que, além das qualidades passíveis de análise, têm algo que os distingue e os torna exceção. “Old Hag You Have Killed Me” é um desses discos. É o segundo álbum dos Bothy Band e permanece até hoje como um marco da música tradicional irlandesa.

De entre o quadrado mítico formado pelos Planxty, Chieftains, De Danann e Bothy Band, este últimos são um caso à parte. Enquanto qualquer daquelas bandas teve uma obra em continuidade, de onde sobressaíram inevitáveis obras-primas, os Bothy Band surgiram mais como um relâmpago, uma conjugação cósmica de talentos que viveu em permanente estado de graça. Nos três álbuns de estúdio que gravaram, concentraram doses maciças de talento, chispas de génio que revolucionaram por completo o modo de sentir e dizer a música irlandesa. “Old Hag You Have Killed Me” é o cume desse génio. Era difícil encontrar reunida numa única formação os nomes que no ano de 1976 se congregavam nos Bothy Band: Matt Molloy, Paddy Keenan, Kevin Burke, Triona Ní Dhomhnaill, Micheál Ó Dhomhnaill e Donal Lunny. Os mesmos que incidiriam no posterior e igualmente magistral “Out of the Wind into the Sun”, já há bastante tempo editado em CD no nosso país. Impressionava então, como continua a impressionar hoje, a violência e virtuosismo desmedidos das “uillean pipes” de Paddy Keenan, deste lote de músicos aquele que apresenta uma carreira mais discreta mas não menos importante (façam o favor de escutar o seu álbum a solo “Poirt Na Phiobaitre” e tirem conclusões...

Os arranjos inovadores, onde assumiam primordial relevo as cordas de Donal Lunny e a originalidade da espineta eletrificada de Triona Ní Domhnaill (mais tarde viria a especializar-se no cravo), constituem outro polo de originalidade. As proezas vocais de Triona ombreavam na altura com as de uma tal Dolores Keane dos De Danann. “Sixteen come next sunday”, faixa que abria o segundo lado da velhinha rodela de vinil, brota com a frescura da água de uma fonte. Deleite absoluto. “Fionnghuala” é um exercício espantoso sobre a “mouth music” gaélica ao qual não falta o humor de palavras/fonemas totalmente inventadas.

Espantosas são igualmente todas as sequências instrumentais, com destaque para os vertiginosos “Farewell to Erin” e um “Michael Gorma’s” de antologia. A combinação da flauta de Matt Molloy com as “pipes de Paddy Keenan e o violino de Kevin Burke (álbum novo nos escaparates, “Open House”, objeto de crítica num dos próximos números deste suplemento) é perfeita. Fulgurante.

A conjunção de todos estes elementos num só disco acontece muito raramente. Como tal, a reedição, várias vezes adiada, deste álbum é um acontecimento. Um objeto de culto. (10)

 

"Sitar" do sétimo céu [Ravi Shankar]


pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993

 

“SITAR” DO SÉTIMO CÉU

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Uma “raga” é uma forma de aceder ao céu. De preferência ao sétimo. Música de transe, feita de contínuos sonoros que a maior divisão tonal da música indiana permite, é uma modalidade musical inseparável da “sitar”, instrumento criador de “drones” hipnóticas (provocadas pela exploração “simpática” de cordas específicas) e polirritmias complexas quando manuseadas por um mestre. Ravi Shankar é um mestre. Nas suas mãos, a “sitar” constrói autênticos templos de luz, propícios, consoante o modo de utilização, ao deleite dos sentidos e à contemplação interior.

Nos anos 60, os “hippies” fizeram as duas coisas. A música indiana, ou pelo menos as suas emanações alucinatórias, assentava como uma luva ao psicadelismo então emergente. Ravi Shankar, apresentado ao Ocidente por George Harrison, cedo se tornou guru espiritual de toda uma geração sequiosa de realidades mais profundas ou, no mínimo, mais coloridas. Não espanta por isso que este músico e compositor indiano, nascido em 1920 na mítica Benares, tenha participado, no espaço de seis anos e durante o auge da música e filosofia psicadélica, em três festivais que fizeram história: Monterey, em 1967, (álbum “Live at Monterey”), Woodstock, em 1969 (álbum “Live in Woodstock”) e o concerto para o Bangladesh, em 1971. Quanto aos Beatles, conseguiram dele que desse lições de “sitar” a George Harrison e uma boa dose de inspiração para a obra-prima “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.

Ravi Shankar limitava-se a tocar, aproveitando para divulgar a música do seu país. Passada a época do uso e abuso do LSD, pouco interessado em ver o seu nome associado a uma forma de escapismo paralela à das drogas alucinogéneas, Ravi Shankar retirou-se com discrição. A sua música permaneceu e criou raízes. A escola minimalista deve-lhe muito ao ponto de Philip Glass gravar com ele um álbum. Em disco ficaram ainda registadas mantras que, em ouvidos e corações exercitados, levam ao silêncio e à elevação espiritual, como “Four Raga Moods” (duplo, Fantasy, com Ali Akbar Khan) e “Ragas Hameer & Gara” (no selo Deutsche Grammophon, 1979). A solo ou com uma tampura e umas tablas a cantarem ao seu lado, a “sitar” de Ravi Shankar transporta-nos para muito longe e para muito alto. No Pavilhão Carlos Lopes vai ser mais difícil, por causa das traves do teto.

Lisboa, 1 de Abril, Pavilhão Carlos Lopes, 21h30


Rodrigo Leão & Vox Ensemble - Ave Mundi Luminar

 

pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993

 

O LEÃO DA ESTRELA

 
Rodrigo Leão & Vox Ensemble
Ave Mundi Luminar
CD Sony Music

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“Ave Mundi Luminar” (belo título) é um projeto há muito acalentado por Rodrigo Leão, músico dos Madredeus e Sétima Legião, no qual vem ao de cima a sua costela clássica, em grande parte influenciada por Michael Nyman (influência que o próprio reconhece, além de Philip Glass e Ryuichi Sakamoto), que por sua vez é uma espécie de tradutor decadentista de Henry Purcell. Ou seja, Rodrigo Leão pôs, neste disco, em prática ideias que, sobretudo nos Madredeus, não puderam ser levadas até às últimas consequências. Assim, “Ave Mundi Luminar” pode considerar-se uma espécie de versão sacra da música daquele grupo, entre o minimalismo e a música barroca, de Purcell, mas também de Albinoni, num “Final” com características de “Requiem”, na qual assumem capital importância os arranjos de Francisco Ribeiro, outro Madredeus.

Litúrgico e solene, “Ave Mundi Luminar” instala-se inequivocamente no universo Nymaniano nas peças “Movimento”, “Vitorial”, “In Excelsis”, “Espiral II”, “Ruas” e “O medo”, mas fá-lo de forma extremamente equilibrada, conseguindo tirar todo o partido das várias combinações instrumentais proporcionadas pelos Vox Ensemble – Francisco Ribeiro (violoncelo, voz), Maria do Mar e Margarida Araújo (violinos), Nuno Rodrigues (oboé e corne inglês), Nuno Guerreiro (voz) e António Pinheiro da Silva (alguém se lembra dos Perspectiva?, flauta transversal). Os temas “Ave Mundi”, um belíssimo e tristíssimo “Carpe Diem” e o refluxo final “Humanitá” contam com as participações vocais (em latim!) de Teresa Salgueiro e Nair. O acordeão de Gabriel Gomes faz a sua aparição em “A espera”.

Obra originalmente concebida para acompanhamento orquestral, “Ave Mundi Luminar”, por dificuldades técnicas, nomeadamente falta de orçamento, acabou por, na forma final, organizar-se segundo os cânones da música de câmara, ganhando em proximidade e intimismo, o que poderá eventualmente ter perdido em grandiosidade. É um álbum que apela mais ao espírito que ao corpo, com voz própria e soluções harmónicas bem conseguidas que acabam por fazer esquecer a estética original de onde provêm. Exemplos superiores desta litania ao sagrado, entoada de maneira despretensiosa e com a centelha de devoção apropriada, são “Ave Mundi”, o já citado “Carpe Diem” – pranto noturno de inquietação cósmica chorado em tons de violeta –, “Amatorius” e “O medo”, este onde Rodrigo Leão se equilibra da melhor maneira no trapézio do contraponto.

Herdeiro em essência da religiosidade, mais pagã e popular, dos Madredeus, “Ave Mundi Luminar” desponta como a luz dourada que fulge antes do crepúsculo, através de um vitral. Tem uma virtude rara: saber lidar e dar a escutar o silêncio. (7)


04/11/2026

O despertar dos mágicos [4º Festival Intercéltico do Porto]

 Pop Rock

 

31 MARÇO 1993

 

O DESPERTAR DOS MÁGICOS

 

Barzaz e Battlefield Band preenchem o cartaz musical do primeiro dia do festival. Vibrantes os primeiros, transportam consigo a força dos rochedos e das ondas do mar que esculpe as costas da Bretanha. Mais serenos os segundos, abrigados de momento na calma enseada de um lago escocês.

            Inseridos no movimento de renovação da tradição musical bretã encetada nos anos 70 por Alan Stivell, os Barzaz resultam da confluência de projetos anteriores dos seus membros, investidos da missão de levar a música da Bretanha aos círculos exteriores do mundo celta. Assim, na árvore genealógica do grupo descobrem-se os ramos Skolvan, Galorn, Kornog e La Mirlintantouille. Os Barzaz fazem da beleza, por vezes rude, da música bretã uma arma contra aqueles a quem a história da Bretanha, “secreta e controversa”, incomoda, os mesmos que “ocupam os lugares do poder” e que interpretam essa História “de forma a melhor poderem dispor das suas gentes e do seu tempo”.

            Os Battlefield Band são a instituição folk por excelência da Escócia. “Forward with Scotland’s Past” é o seu lema. Existem há décadas e passaram incólumes pelas tempestades. Da formação original resta o vocalista e teclista Alan Reid. O espírito, esse, manteve-se. Traçaram ao longo de uma vasta discografia os contornos da tradição escocesa sem nunca voltarem costas as problemas sociais do presente. Juntam o canto da tragédia à dança e aos ritos da terra. O novo álbum, “Quiet Days”, é mais intimista que os anteriores. Uma pausa e um segredo entre o clamor da batalha.

 

A voz e o fogo

 

            Sexta-feira é dia ibérico. Atuam Uxia e os Sétima Legião. Para a cantora galega Uxia significa o regresso ao Intercéltico, depois da sua aclamada participação, no ano passado, no projeto "Bailia das Flores” de Tentúgal. Uma voz, belíssima, com frequência desaproveitada. Esteve ligada ao grupo Na Lua onde a sua luz depressa começou a ofuscar os restantes músicos. Disse uma vez numa entrevista: “O importante nun cantor ou cantora é que prevaleza a voz; calquera instrumento que a oculte dificulta a sua comprénsion.” Não por acaso, o melhor trabalho dos Na Lua, “Estrela de Maio”, é aquele em que as vocalizações de Uxia surgem com maior proeminência. Abandonou entretanto o grupo para gravar um álbum algo incaracterístico, “Entre Cidades”, onde é sensível a falta de uma direção definida. Porque não reatar as maravilhas do seu primeiro trabalho a solo, “Foliada de Marzo”?

            Quanto aos Sétima Legião, cujo último álbum, “O Fogo”, foi mal recebido por alguma crítica, vão apresentar no Intercéltico um espetáculo especialmente concebido para o efeito que privilegiará as conotações célticas da sua música. Ao vivo, costumam criar um ambiente festivo, bastante diferente da melancolia que caracteriza os trabalhos discográficos da banda. Veremos se é desta que acendem o fogo.

 

Celebração

 

            Absolutamente a não perder, o terceiro e último dia do Intercéltico. Com dois grupos de passado diferente mas ambos de qualidade musical fora de série: Barabàn, de Itália, e Chieftains, os reis magos da folk irlandesa.

            Formados em Milão em 1982, os Barabàn dedicam-se ao estudo e interpretação da música do Norte de Itália, em particular da Lombardia e do Piemonte. Em disco, assemelham-se em sonoridade aos La Ciapa Rusa, seus vizinhos piemonteses. Baladas, canções de embalar, cantos satíricos e militares ou de protesto, cantigas de jograis e outros modos característicos da tradição (jigas, valsas, alessandrinas, monferrinas, curentas, sestrinas, “carmagnolas”, tuninas, “saltarellos”,…), recolhidos, na maioria, por Aurelio Citelli e Giuliano Grasso, compõem o reportório básico dos Barabàn, servido pela utilização de instrumentos típicos da região: o “organetto” diatónico, flautas, ocarinas, sanfona e, claro, o “piffero” e a “musa” (incluindo a variante solista, a “piva”), a gaita-de-foles do Piemonte. Vão ser decerto, a par dos Barzaz, uma das revelações do festival.

            Finalmente, os Chieftains encerram em glória o festival. Já não há palavras que cheguem para traduzir a importância desta banda lendária. Hoje, os Chieftains, como se tivessem uma varinha mágica, transformam em ouro tudo o que tocam. Depois de anos e anos a levarem ao mundo a música da Irlanda, passaram a trazer a música do mundo para a Irlanda. E a tranformá-la por dentro. Levaram os caminhos da Irlanda ao encontro da China (“The Chieftains in China”), da Bretanha (“Celtic Wedding”) e dos Estados Unidos (“Another Country”). Cumpriram o ciclo nesse ritual apolíneo de convergência dos povos celtas que é “Celebration”.

            Autêntica universidade da tradição onde lecionam alguns dos melhores instrumentistas da Irlanda, os Chieftains iluminaram diversos aspetos da cultura e da História desta nação onde ainda habitam as divindades antigas. O rock presta-lhes atualmente vassalagem. Eles retribuem e convidam músicos desta área para participar nos seus álbuns, mantendo intacta a originalidade e a magia. Mas acabam sempre por regressar ao altar verde da única religião que professam – a música da ilha que lhes é exterior e interior, a Irlanda. O novo álbum, “The Celtic Harp”, tem a participação da Belfast Harp Orchestra. Nesta segunda vinda dos Chieftains a Portugal, ouçam-nos com os sentidos alerta, mas também com o coração.

            Todos os espetáculos no Teatro Rivoli, com início às 21h30.

 

 

ATIVIDADES PARALELAS
 
CONFERÊNCIAS: “L’Art des Celtes”, 1 de Abril, no Institut Français do Porto, e “L’Europe des celtes, Véme-Ier siècle a. C.”, dia 2, na Faculdade de Letras do Porto, ambas por Venceslas Kruta.
 
EXPOSIÇÕES: “Instrumentos Populares Portugueses”, 26 de Março a 18 de Abril, na Rua da Reboleira, Ribeira.
“Suonatori e Strumanti Popolari de’ll Apenninni”, 30 de Março a 3 de Abril, no Teatro Rivoli.
 
ARTESANATO: “Pablo Leal – Um artesão galego”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.
 
VIDEORAMA: “Imagens Musicais Intercélticas”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.
 
DISCOS/REVISTAS: “A música celta e a folk europeia”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.
 
TEMPO LIVRE: “Vidicuestla – o jogo de xadrez celta”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.
 

 

PEREGRINOS

 

O Festival Intercéltico do Porto, chegado à quarta edição, tornou-se uma instituição. Mais do que uma série de espetáculos musicais de música tradicional, o Intercéltico é um local de peregrinação onde, no princípio da Primavera, arribam os apreciadores e amantes destas músicas com raiz na eternidade.

São três dias de festa no verdadeiro sentido da palavra; de celebração, de “diálogo e convívio entre as diferentes músicas e tradições de povos com um passado comum”, como afirma a organização. Os concertos podem ser melhores ou piores, mas o ambiente é único. Come-se bem, bebe-se melhor, ouve-se música, mergulha-se no âmago de uma cultura que também é a nossa. “Celta”, ou “céltico”, o termo está hoje na moda. Mas por detrás do folclore e das imagens que vão formando o “puzzle” de uma Europa genuína, está o amor a uma causa e muito trabalho. Porque nem só de música vive um festival, a organização (desde a primeira hora da responsabilidade da equipa da MC-Mundo da Canção) compreendeu a necessidade de um enquadramento à altura. É assim que, uma vez mais, o Intercéltico apresenta uma lista de atividades paralelas, que neste ano incluem conferências, exposições, videorama, artesanato, banca de discos e revistas e a iniciação ao vidicuestla, o antigo jogo de xadrez celta.

Para completar o círculo (ou a espiral…), refira-se ainda a publicação, à semelhança do que aconteceu nos anos transatos, de um livro-programa de 160 páginas sobre o festival, com informação detalhada sobre toda a programação, incluindo textos e discografias dos artistas presentes, uma “bibliografia céltica”, uma compilação das leis (delirantes) dos Brehons, ou seja, as leis antigas da Irlanda, e até esquemas pormenorizados de algumas jogadas de vidicuestla… Um elogio especial para Mário Correia, d organização, pelo notável trabalho de investigação e divulgação levado a cabo.

Agora é tempo de fazer as malas, rumar ao Porto e viver um fim-de-semana diferente. Num tempo e num local que parecem ter sido tocados pela magia de Merlin. Na companhia das fadas, duendes e elfos que existem, porque a imaginação os materializa. O Festival Intercéltico é essa teia cruzada do mito com a atualidade, do ancestral com o moderno.