16/05/2026

"Revolver" [The Beatles]

 

TELE PÚBLICO
Domingo 08.12.1991

NA CAPA

 

“REVOLVER”

 

Paul, John, George e Ringo são nomes próprios de uma década que sonhou mudar o mundo. Os quatro mudaram mais depressa do que o mundo e um deles mais depressa do que todos os outros. Só as canções são eternas. Há 30 anos tocavam numa “caverna” em Liverpool.




Escrever sobre os Beatles, porque não? Revolver o passado à procura do que não falta dizer. Difícil resistir ao apelo do óbvio, da devassa. Para o leitor é o prazer da mastigação fácil de algo já mil vezes digerido. Para o jornalista, o orgulho, apesar de tudo, de fornecer alguns dados novos.

Os Beatles (“escaravelhos”, sabiam?) eram quatro (sabiam?): John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. O primeiro, faz hoje onze anos, morreu assassinado à porta do seu apartamento em Nova Iorque, com um tiro de revólver. Não fora Mark David Chapman ter acordado mal disposto naquela manhã fatídica de 8 de dezembro e talvez os “fabulous four” de Liverpool tivessem podido realizar o sonho acalentado durante anos por milhões de fãs espalhados pelo mundo, de ver o quarteto de novo reunido, a cantar “All you need is love”. Mas para que tal acontecesse teria sido necessário que o carrasco, em vez de Lennon, tivesse disparado sobre Yoko Ono e Linda McCartney. E já agora, sobre Elton John. Infelizmente escolheu o alvo errado. O destino preferia os Rolling Stones.

Recuemos ao passado. Os Beatles começaram por tornar-se célebres pelo comprimento do cabelo. Foram eles que deram origem ao termo “cabeludos”, em geral utilizado pelos nossos pais com um sentido pejorativo, quando queriam refrear a nossa rebeldia. A música, tendo em conta o que à época se fazia, não era má: uma combinação explosiva dos “rhythm ‘n’ blues”, que então começavam a maçar os jovens britânicos, com uma indesmentível capacidade melódica e um jogo vocal que ameaçavam fazer sombra aos seus rivais americanos Beach Boys.

Foi graças a esta saudável rivalidade entre os dois grupos (ou será mais correto dizer entre Paul McCartney e Brian Wilson?), que a música Pop evoluiu, em termos de composição e de produção. As audiências, de um e outro lado do Atlântico rivalizavam, por seu lado, na histeria e nas receções apoteóticas.

Em agosto de 66 os Beatles editam “Revolver”. Os Beach Boys respondem no mesmo ano com a obra-prima “Pet Sounds”, que se diria inultrapassável em génio melódico e no aproveitamento das técnicas de estúdio. Mas Brian Wilson almeja a perfeição. “Smiley Smile”, aquele que seria o testemunho definitivo do seu génio, sofre sucessivos adiamentos motivados por uma crescente megalomania e insatisfação. Os Beatles não esperam e, em 1967, dão o golpe fatal com o clássico dos clássicos “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Para Brian Wilson era o fim.

Libertos do fardo da competição (os Rolling Stones eram um caso à parte e as suas histórias eram outras…) os Beatles têm agora tempo para se dedicarem ao psicadelismo, aos ensinamentos do guru Maharishi e às viagens de LSD em submarinos amarelos. Organizam “Magical Mystery Tours”, abrem boutiques de roupa e uma editora própria. Aproveitam e substituem as mulheres. Paul McCartney casa com Linda. Lennon sucumbe aos encantos (!) de Yoko Ono.

A partir dessa altura as coisas complicam-se. John e Yoko passam a maior parte do tempo nus, em frente às câmaras de televisão, a cantar “Give peace a chance”. Dizem-se virgens e gravam um disco de música experimental “Unfinished Music, no.1”. Paul, por seu lado, é mais dado às lides domésticas. George continua nas aulas de “sitar” enquanto Ringo vai contando anedotas.

Até 1968 e à gravação do célebre duplo-álbum branco, “The Beatles”, para muitos a derradeira obra aproveitável. “Abbey Road” (1969) e “Let It Be” (1970) fecham com chave de lata o jogo da glória. Os Beatles alcançam o estatuto divino (embora já tivessem declarado antes serem mais populares que Jesus Cristo) no momento em que decidem subir ao telhado dos estúdios “Abbey Road” e aí tocarem ao vivo, num gesto que marcaria a sua despedida como quarteto. Nunca chegaram a descer.

 

ARTES E LETRAS
DOM. 8, TV 2, ÀS 00H50

14/05/2026

Galicia no país das maravilhas [Milladoiro]

 

PÚBLICO SÁBADO, 7 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Milladoiro em Lisboa, na Semana da Galiza

 

Galicia no país das maravilhas

 


 

OS MILLADOIRO, expoentes da música tradicional galega, pelo menos os mais conhecidos e divulgados no estrangeiro, atuam hoje às 21h30 no Teatro Tivoli, em Lisboa, em espetáculo integrado na Semana da Galiza.

Passados sete meses desde que tocaram em Portugal pela última vez, no IV Festival de Música Popular Portuguesa realizado em maio na Amadora, os Milladoiro persistem num trabalho, sério e despreconceituado, de recolha e transformação dos sons e dos segredos da Galiza. De Catoira, na região de Pontevedra, onde se refugiam ao fim de cada ciclo de viagens, sem perder de vista a música dos caminhos da Irlanda, da Escócia e da Bretanha.

Caminhos entre a terra e o mar, sinalizados por pequenos amontoados de pedras – os “milladoiros” – que, juntamente com as estrelas, servem de guia e de farol aos peregrinos do mito e da catedral que dá acesso ao país das maravilhas.

Para os Milladoiro a realidade galega é uma e una, mas também “algo de universal, convertido num sinal de identidade progressivamente aceite e reconhecido no campo da música popular a nível internacional”. Reivindicam o direito à diferença, “no conjunto das culturas e realidades ibéricas”, de maneira a encontrar um papel e uma voz próprios da Galiza no mundo.

Hoje a Galiza afirma cada vez com mais força, através da música, a sua independência cultural. Mas sem o esforço pioneiro dos Milladoiro (ao lado dos modernos trovadores Amancio Prada e Pablo Quintana), talvez não tivesse sido possível a atual profusão de escolas de “gaitas” espalhadas por todo o território ou de grupos como os Muxicas, Luar na Lubre, Xeito Novo, Xorima, Doa, Arco da Vella e Na Lua, entre outros.

Moncho Garcia, gaiteiro dos Milladoiro recorda os primeiros tempos, quando um amigo, analfabeto, de quartel, ao vê-lo pela primeira vez vestido de gaiteiro exclamou “ao que tu chegaste!”. Hoje os Milladoiro são respeitados na Galiza e em toda a parte onde a sua música é conhecida, tendo tocado ao lado dos Chieftains e Alan Stivell, dois dos “monstros sagrados” do género.

Vale a pena escutá-los, ao desafio com os irlandeses, num dos temas de “Celebration”, da banda de Paddy Moloney, ou, melhor ainda, em álbuns da sua própria discografia, como “O Berro Seco”, “Galicia de Maeloc” (recentemente importados pela Mundo da Canção, do Porto), “Galicia no país das maravilhas”, “Milladoiro 3” ou nas ousadias orquestrais de “Castellum Honesti”.

Os Milladoiro deverão apresentar-se em Portugal com a mesma formação com que atuaram em maio: Xosé Mendez (flautas), Michel Canada (violino), Rodrigo Romani (harpa, ocarina, guitarra), Antón Seoana (teclados, acordeão, guitarra), Xosé Ferreiros (“gaita”, “tin whistle”, bandolim, bouzouki), Nando Casal (“gaita”, clarinete, “tin whistle”) e Moncho Garcia (percussões). É tempo de aprender a dançar a “muiñeira”.

Madurezas [Eros Ramazzotti, Cliff Richards]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock

 

MADUREZAS

 

Cliff Richard e Eros Ramazzotti personificam, à sua maneira, os lados “bom” e “mau” do Natal discográfico deste ano, fornecendo estímulos opostos ao apelo contraditório que pulsa no coração e na líbido da meia-idade. Entre a depravação e a abstinência, que venha o Pai Natal do mau gosto e escolha.

 

EROS RAMAZZOTTI
Eros in Concert
2XLP/CD, DDD, distri. BMG

 

CLIFF RICHARD
Together
LP/CD, EMI, distro, EMI – Valentim de Carvalho

 


 

A humanidade divide-se em duas partes, como diria o sociólogo Serafim Saudade: a parte A e a parte B (sem falar na parte C, que são as minorias). No Natal, só conta a parte B. “B” de bons e boas. “B” de beleza, “B” de boa vontade. No Natal, toda a música é boa e penetra melhor nos corações. Tendo em conta o que nos é proposto pelos discos que esta quadra pousaram de trenó nas chaminés (“Música para Fazer Amor”, por exemplo), ela é capaz até de dar “uma forcinha” e ajudar a penetrar noutros lugares, quiçá mais íntimos, mas que nem por isso deixam de fazer parte da natureza humana.

Às vezes, porém, exagera-se e vai-se longe de mais. É o caso do duplo-álbum “Eros in Concert” do italiano Eros Ramazzotti. Eros era considerado pelos gregos o deus (melhor dizendo um “daimon”, demónio, no sentido de génio) do amor. Adaptando as funções do “daimon” às necessidades do coiso, e contemplando o ser na sua totalidade, Eros acabou por dar para os dois lados, como se costuma dizer. O HIV ainda hibernava.

 

Eros em ação

 

“Eros in Concert” é um disco e uma metáfora sobre o amor, na sua vertente “último tango”, dirigida à meia-idade – aquela que pisca muito os olhos, quando traz do clube o vídeo “hard-core”, para ver a meias com o cônjuge, numa atitude de “grande abertura de espírito”, que serve de preliminar às aberturas consequentes.

Toda a gente sabe que ao vivo é que é bom. À distância, não tem muita graça. Em estúdio, também não costuma resultar, devido à falta de espaço. Eros Ramazzotti sabe isso muito bem e trata de friccionar as líbidos das multidões, sugerindo orgias monumentais, que acabam por retirar muito de significado àquela maravilhosa diálise entre dois seres que é o amor.

Basta observar a fotografia impressa na parte interior da capa, para ficarmos a perceber as verdadeiras intenções deste pornógrafo encapotado: uma multidão ululante de braços bem erguidos para o alto, em estado de tensão latente. É óbvio que os braços são metáforas, e é neste ponto que deveria haver um pouco mais de contenção (já não digo de puidor), na exibição descarada dessa ascese gestual. Na contracapa, as coisas pioram, já que na foto é o próprio Eros que ergue o braço, com o dedo indicador bem espetado para a frente.

Depois, os títulos das canções não enganam: “Intro” (versão “soft” de “Introdução”), “Fuggo dal nulla” (“Fogo nela”), “Taxi story” (“No banco de trás”), “Ciao pà” (“Não me apetece, pá”) e “Ancora vita” (“Ainda mais depressa”). Todo um estendal de obscenidades de fazer corar o mais liberal. Mas no calor e no aconchego do lar, o casal, não de pombinhos, mas de pombos, dá cambalhotas de contente (correndo mesmo o risco de, numa pirueta mais exuberante, deitar abaixo o pinheiro de Natal) e refastela-se na perversão. Que ninguém se iluda. A cada cambalhota, a cada pinote, é toda a civilização ocidental que vacila, minada nos seus alicerces.

Nesta perspetiva, “Eros in Concert” é bem um disco do nosso tempo e um exemplo acabado da atitude pós moderna, que serve de antecâmara ao apocalipse. Homens e mulheres de Portugal é isto que quereis? Não, mil vezes naaããooo! Lancemos Eros à fogueira e cantemos todos juntos um hino de Natal.

 

Ágape em descontração

 

Por exemplo, o álbum de Cliff Richard, “Together”, serve na perfeição para nos limparmos do pecado e juntarmos as mãos, num gesto fraterno de amor ao próximo. Desde sempre mouco aos apelos do Eros demoníaco, Cliff Richard continua a representar o papel de rapazinho virtuoso que só dá bons conselhos e aponta o caminho da salvação (diferente do dedo ostensivo de Ramazzotti). Olhar a expressão extasiada, sobre um fundo de estrelas, que ostenta na capa, é meio caminho andado até ao paraíso. O outro meio, nem se dá por ele. Entre um suspiro e um cântico de paz, eis-nos chegados ao céu, levados pelo beicinho, ao som da voz de menino de coro de Cliff Richard.

“Saviours’s day”, “Merry Christmas to you”, “We should be together” ou “Christmas alphabet” são outros tantos hinos de amor, agora sim, na sua plenitude de comunhão (platónica, atenção!) com o próximo, dando sentido ao “ágape” que simboliza o casamento. Dar as mãos, porque não? Olhar as estrelas, porque não? Um beijo na testa antes de adormecer, porque não? São gestos bonitos, que dignificam o ser humano, exemplos a seguir por todos os homens e mulheres de boa vontade, em vez de andarem pelos caminhos da perdição e da pouca vergonha.

“Let your heart be high”, “Someday soon we all will be together”, “Sleep in heavenly peace” são apenas alguns exemplos escolhidos ao acaso das letras de canções de Cliff Richard. Palavras sábias, que calam fundo nos corações de todos. Saibamos ser dignos delas. E para os casais entrados na meia-idade aqui fica o conselho, dado pelo cantor, em “This new year”: “Don’t you depend on love that’s here then gone/this new year we’ re gonna find true love and cherish it always”. A mensagem não podia ser mais clara: “Prò ano que vem trabalhem mais e façam isso menos”. Vamos entrar na CEE e há que poupar energias. Por que não já neste Natal?

 

O paraíso celta revela-se em Lisboa [Semana de Cultura Irlandesa]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 2 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Começa hoje a Semana de Cultura Irlandesa

 

O paraíso celta revela-se em Lisboa

 

Entre hoje e 7 de dezembro realiza-se em Lisboa uma “Semana de Cultura Irlandesa”, organizada pelo Instituto de Cultura Inglesa e a Faculdade de Letras de Lisboa. A iniciativa visa “a articulação entre a cultura irlandesa e a portuguesa” e promete animação. Ou o acesso a Tir Nan Aog, o paraíso celta.

 

A semana irlandesa inclui, entre outras atividades, um concerto de música tradicional de raiz celta, na Aula Magna, com os irlandeses Comhaltas Ceoltóiri Éireann e os portugueses Jig, outro de música de câmara, conferências, debates, exposições, teatro, sessões de vídeo, cinema e até um jantar típico irlandês. E a presença do poeta e romancista John Montague que, logo a seguir à abertura oficial, lerá poemas da sua autoria. No Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras, às 18h30.

“Fools of Fortune”, o novo filme de Pat O’ Connor, será apresentado em ante-estreia absoluta, na Cinemateca, dia 2 às 21h30. Ainda no capítulo do cinema, e no mesmo local, serão exibidos no dia 3, “Gente de Dublin”, de John Huston, às 18h30, e “My Left Foot” (“O Meu Pé Esquerdo”), de Jim Sheridan, às 21h30. E no dia seguinte os clássicos de John Ford, “The Quiet Man” (“O Homem Tranquilo”), 18h30, e “The Informer” (“O Denunciante”), 21h30, que decerto vão atrair à Cinemateca os apreciadores de bom cinema.

O teatro também estará presente. No Teatro da Comuna, dia 7, às 16h00. Com “The Dracula Meditations”, uma “série de reflexões sobre o mito de Drácula que agora é vítima da violência de uma sociedade recalcada” numa peça que “explora um submundo erótico e estético ameaçado pelo ‘status quo’ puritano e agressivo”, adaptada do original de Bram Stoker, escrita, dirigida e interpretada por Paul O’Hanrahn e pelos Balloonatics, companhia de teatro independente sediada em Dublin. Todos os dias, das 10 às 18h00, estará patente na Sala das Exposições uma retrospetiva do “Teatro português sobre textos de irlandeses”.

Prevista está também a realização de debates: O “Teatro Irlandês em Portugal” (dia 3), “A Irlanda no cinema” (dia 4), “Música popular irlandesa” (dia 5). Todos às 14h, na Sala das Exposições. Com a presença de convidados ligados aos diversos temas abordados. O dia 6 está reservado para uma conferência sobre a cultura e literatura irlandesas.

Canções irlandesas e ciganas, e obras de Hoffmeister e Mozart, interpretadas por Stephanie Duarte, viola de arco, e William Raposo, violino (Duarte & Raposo Co.?) farão as delícias dos apreciadores de música de câmara. Dia 5, às 19h30.

 

A voz e o estômago

 

“And last, but not least”, a música tradicional da Irlanda, das jigas e dos “reels”, dos violinos, “tin whistles” e “uilleann pipes”. Pelos Jig (muita atenção à voz de Isabel Leal), do Porto, que foram revelação no Festival Inter-céltico de abril deste ano, e os Comhaltas Ceoltóiri Éireann (com boa vontade até se pronuncia), associação fundada em 1951 com o objetivo de “preservar e divulgar a música, a dança e a língua irlandesas e, de uma maneira geral, promover a identidade cultural das comunidades irlandesas espalhadas pelo mundo”. Da atual formação dos Comhaltas, etc, fazem parte Jim Egan (concertina, flauta e “tin whistle”), Noel Carberry (“uilleann pipes”, “tin whistle”, bodhran, ossos e dança), Karena Dowling (violino, flauta, “tin whistle” e bodhran), Paula Dowling (flauta e “tin whistle”) e Doreen Norris (dança).

Depois de sonhar com os mitos e lendas da velha Irlanda, resta a consolação do estômago. Possível dia 7, às 19h30, no Bar Novo da Faculdade, com as iguarias típicas da ilha.

Os bilhetes, a preços mais do que acessíveis, encontram-se à venda na livraria da Faculdade de Letras (música), Teatro da Comuna (teatro) e Cinemateca (cinema). A inscrição, por 5 mil escudos, na livraria, garante o acesso a todas as iniciativas desta semana de cultura da Irlanda. Terra mágica onde os homens se habituaram a conviver com os deuses.

 

A música suspensa do corpo [Maria João]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 2 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Maria João apresenta “convidadas” em Lisboa

 

A música suspensa do corpo

 

A cantora Maria João atua hoje à noite no Teatro S. Luiz em Lisboa. Com a presença de “convidadas” ligadas a outras áreas musicais: Lena D’Água, Teresa Salgueiro (Madredeus), Anabela Duarte (ex-Mler Ife Dada) e Xana (Rádio Macau). Adivinham-se surpresas. Maria João prefere guardar segredo.

 


 

Em princípio, tudo pode acontecer. Acompanhada pelos habituais Mário Laginha, piano, Carlos Bica, contrabaixo, José Peixoto, guitarra e José Salgueiro, bateria, Maria João, uma vez mais, preferiu o prazer inesperado, o confronto com a novidade – “a ideia é justamente pegar em pessoas que não fazem o mesmo que eu, construir qualquer coisa com elas e ver a que é que soa. Isto é que é divertido e estimulante”. “Uma ideia deliciosa” – nas suas próprias palavras.

Quem quiser pormenores, o melhor que tem a fazer é deslocar-se logo às 22h00, ao Teatro S. Luiz, e ouvir para crer. Que vai acontecer qualquer coisa diferente, é garantido, mas o quê? “Isso é surpresa” – a cantora fecha-se em copas e apenas adianta que “como de costume, vai haver lugar para a improvisação”. Trata-se, para Maria João, de uma necessidade vital de movimento, de constante mudança: “Seria extremamente aborrecido se fosse uma coisa fixa. Gosto muito de mudar as coisas. Até ao último minuto.”

A solo, sabe-se que cantará temas do seu mais recente álbum, “Sol”, gravado na Alemanha com o selo Enja e os mesmos músicos do espetáculo de hoje à noite. Além de “outras pequenas coisas que não estão lá, e as convidadas, claro”. Claro. Logo à noite se verá qual o segredo que permite juntar, no mesmo palco, a pureza ascética de Teresa Salgueiro, o jovial cançonetismo de Lena d’Água, a excentricidade de Anabela Duarte e a energia rock de Xana, com o discurso libertário de Maria João

 

Entrega total

 

A ideia de recrutar outras cantoras, aquelas de que “mais gosta”, surgiu a partir de um projeto que desde há algum tempo vem mantendo no estrangeiro, um trio vocal feminino do qual fazem parte ela e duas americanas, a experimentalista Lauren Newton e a cantora de ópera, residente da Filarmónica de Berlim, Catherine Geyer. Refira-se a propósito que Maria João ainda tem tempo para se integrar num quarteto “com um programa especial”, ao lado de Mário Laginha, a já citada Lauren Newton e o guitarrista alemão Thomas Hortsmann. Já para não falar das aventuras em duo com a pianista japonesa Aki Takase, das quais resultaram o magnífico “Looking for Love”, e em trio, com Takase e o contrabaixista dinamarquês Niels-Henning Ørsted Pedersen, no álbum “Alice”.

Seja qual for o contexto, o que mais impressiona nesta cantora que, de uma maneira quase sôfrega, não para de evoluir, é a paixão com que se entrega de corpo inteiro à música, numa relação que tem muito de sexual. Tinham razão John Coltrane e John McLaughlin quando defendiam que fazer música é deixar-se possuir e tocar por ela e que ao intérprete se exija que seja o seu instrumento afinado. Afinação que exige uma total transparência e a máxima tensão/atenção. Fazer música é saber ouvir a voz que vem de dentro, o movimento cósmico que em cada indivíduo se manifesta e traduz numa forma particular. No caso de Maria João essa capacidade passa pela dimensão física, pela sensualidade dos gestos, pelo desnudar interior. Seria isto o jazz se “isto” não fosse mais qualquer coisa.


Jazz ou algo mais?

 

Eis-nos chegados ao pomo da discórdia, para os que estão do lado de fora. Maria João é uma cantora de jazz ou não é uma cantora de jazz? Ela não se importa nada com isso, desde que as pessoas a ouçam e gostem do que ouvem. O termo “jazz”, há quem o jure a pés juntos, é uma derivação fonética do verbo francês “jaser” – “tagarelar, conversar animadamente e um pouco à toa sobre diversos assuntos”, segundo a “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras), que era a que estava mais à mão.

À primeira vista poderá parecer ao auditor médio português, habituado a ouvir Phil Collins e Madonna, que Maria João canta “à toa”, isto é, “como uma maluca” a vociferar “coisas sem sentido”, frequentemente “sem letra”, em suma, “esquisitas”. Mesmo quando essas “coisas” são um tema de música tradicional portuguesa ou um “standard” de Billie Holiday. É neste sentido que Maria João pode ser comparada, na atitude e na maneira como vive e dramatiza a vibração musical, a Bobby McFerrin. Em ambos existe o amor pela liberdade e uma fé. Ou a consciência, no caso feminino quase táctil, de um ato mágico que só o verdadeiro músico vive e compreende, no qual a ordem dos sons, a Harmonia, como que se organiza por si própria, cabendo ao Intérprete, com “I” grande, centrar-se, coincidir, dizer e dizer-se, dançar e dançar-se, e às vezes consumir-se, nesse fogo que dizemos vir de “cima”, ou de “dentro”, quando queremos significar a transcendência.

Diz-se por outro lado, muito por força do hábito, que o jazz é “música de negros”. A “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras) faz mesmo questão de acentuar a “natural disposição dos negros para a arte musical”. É verdade. Em Maria João corre, do lado materno, sangue africano. É o polo energético complementar: a natural apetência pelo ritmo, a assunção das forças da terra que sobem dos pés até ao cérebro e os põem a dançar. É ainda a sensualidade e, se levada ao extremo, a dor, alegria insana dessa entrega. E no limite do humano, a loucura.

Talvez por isso Maria João (como Meredith Monk ou Shelley Hirsch) saiba a exigência do método (o “haikido” – não, não é porrada – que praticou, ajuda muito), da justa medida, a necessidade de equidistância entre o oceano e o raio. Decerto que sabe.


Trovas do "Monte da Lua" [Romanças]

 

PÚBLICO DOMINGO, 1 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Grupo Romanças lança segundo álbum

 

Trovas do “Monte da Lua”

 

“Monte da Lua”, segundo disco dos Romanças, confirma os seus autores como um nome a ter em conta no panorama da música popular portuguesa de raiz tradicional. O disco, dedicado à serra de Sintra, à sua mística e ao seu património, canta amores e perdições. É o regresso dos trovadores.

 


 

Sintra é o centro. Terra sagrada. Para os Romanças, fonte de inspiração, e para alguns dos seus membros, local de habitação. A serra ensina-lhes a serenidade e uma respiração particular. Uma forma diferente de olhar as coisas e de as cantar. O ar e as alturas da serra vibram em cada espira de “Monte da Lua”, que era como os árabes chamavam à montanha mágica.

“Sintra já influenciou pessoas como Byron e outros poetas e trovadores. Nós não fugimos à regra. Este novo álbum é dedicado a Sintra. Queremos ajudar a preservar o património cultural da vila” – diz Fernando Pereira, vocalista e guitarrista dos Romanças, para quem Sintra é “uma terra de trovadores”.

Amor a uma terra e à sua cultura que parece não comovar o poder local – “é o tal ditado: santos da casa não fazem milagres. Já oferecemos ao presidente da Câmara e ao vereador da Cultura o nosso disco, mas o facto é que organizaram recentemente o Festival da Juventude e esqueceram-se de nós…”. Estranha indiferença para com um grupo que ainda há pouco tempo andou em digressão pela Irlanda, participou no Festival de Winnipeg, nos Estados Unidos e sobre quem sairá um artigo alongado num dos próximos números da revista “Folk Roots”.

“Monte da Lua” é um disco onde as baladas e os romances selecionados do cancioneiro alternam com cadências mais dançáveis, marcadas pelo baixo de Pedro Batalha e a bateria de João Luís Lobo, “músicos de inspiração rock”. Fernando Molina, acompanhante habitual de Fausto, acrescenta-lhes a percussão tradicional. Os Romanças não receiam as novas tecnologias nem o perigo da descaracterização: “O sintetizador pode muito bem substituir uma gaita-de-foles”. Não pretendemos reproduzir os temas tradicionais como eram tocados há 50 ou 60 anos atrás. Queremos transformar a música, conservando a melodia. Uma outra maneira de cantar as coisas”.

Alguns dos temas de “Monte da Lua” são pequenas maravilhas: “Trigueirinha” e “D. Varão”, por exemplo, estão muito perto da eternidade: romances com sabor a muito, muito antigo. Como as rochas, o musgo e as nascentes da serra. As águas do rio partem sempre. O leito permanece. “A função dos Romanças é divulgar histórias que estavam perdidas, ou que só existiam nos livros ou nas pautas musicais. Quem conhecia o ‘Romance do Gerinaldo’, o ‘Cego Andante’ [incluídos no primeiro álbum], ou o ‘Homem Rico’? São histórias que estão na memória das pessoas e se arriscavam a desaparecer.”

Nos tradicionais “Homem Rico”, “Veneno de Moriana”, as “Saias de S. João”, ou em “Trigueirinha”, é sensível o apelo da matriz celta: “Admiramos muito a música de grupos como os Chieftains ou os Milladoiro. “Trigueirinha” foi composta [por Pedro d’Orey e João Ramos] num quarto de hotel na Galiza e é notória a influência celta.” Destaque para João Ramos, no violino (excelente, nas “Janeiradas”), ou no “tin whistle” (“Trigueirinha”, e no instrumental “Monte da Lua”).

Em “Veneno de Moriana” somos sobressaltados pelo vento dourado acre das gaitas-de-foles, tocadas em uníssono por João Ramos e pelo gaiteiro convidado Rui Vaz; atraídos para as profundidades do fado, em “D. Varão”. As cordas da braguesa, do cavaquinho e do bandolim exultam nos dedos de José Barros, nos temas mais extrovertidos, “Xula”, “Salsaparrilha”, as “Janeiradas”.

“Monte da Lua” coloca as Romanças, ao lado dos Vai de Roda, Ronda dos Quatro Caminhos e Brigada Victor Jara, nas veredas que conduzem ao futuro a Tradição.

 

Sanfona de baunilha [Nigel Eaton]

 

PÚBLICO SÁBADO, 30 NOVEMBRO 1991 >> Cultura

 

Nigel Eaton em digressão portuguesa

 

Sanfona de baunilha

 

NIGEL Eaton, tocador de sanfona e destacado representante da “terceira via” da “folk” britânica, atua hoje em Coimbra. Na Guarda e em Algés, terça e quarta-feira. Acompanhado pelo gaiteiro Paul James. Ambos fazem parte dos Blowzabella, cujo novo álbum, “Vanilla” (“baunilha”), acaba de chegar aos escaparates nacionais.

Locais agendados são o Café Santa Cruz, em Coimbra, o antigo café Mondego, na Guarda e o Palácio Anjos, em Algés. Todos os espetáculos às 21h30. Em paralelo com os concertos haverá “workshops” de sanfona e gaita-de-foles, nas localidades e datas assinaladas. A organização é da “Etnia”, com o apoio das Câmaras Municipais da Guarda e de Oeiras e do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra.

De Nigel Eaton pode dizer-se que é um mago da sanfona, de tal modo a sua mestria do instrumento lhe permite casar as sonoridades da música medieval e da Renascença, com peças da tradição inglesa e bretã ou com manipulações mais próximas da pop contemporânea.

A sua aprendizagem do instrumento fez-se no seio da escola francesa, tendo vencido, em 1986, o concurso de “maîtres-sonneurs de vielles et cornemuses” de Saint-Chartier, em França. Gravou a solo, em compacto, “The Music of the Hurdy-Gurdy” (disponível entre nós), “tour de force” de sanfona em obras tradicionais, de Vivaldi (“Il Pastor Fido”) e da sua própria autoria.

Paul James, companheiro de Nigel Eaton nos Blowzabella, além de exímio executante de gaita-de-foles, toca saxofone, flauta, teclados e percussões. Vale a pena escutar as prestações de ambos nos Blowzabella, grupo estranho, encantatório, diferente da maioria dos seus congéneres. Depois de um álbum gravado ao vivo no Brasil (“Pingha Frenzy”) assinaram a obra-prima “A Richer Dust” na qual pontifica a inesquecível suite que ocupa todo o segundo lado do disco, “The Wars of the Roses”, inclusão fascinante no universo da música antiga sustentada por uma energia que se diria próxima do “rock”, apelativa mesmo para os ouvidos mais habituados ao frenesim da modernidade.

Em “Vanilla”, gravado no ano passado, os Blowzabella de novo dão a provar o doce sabor a terra, desenvolvendo essa como que “terceira via” da música tradicional, de síntese entre o antigo e o “atual”, do rigor com a alegria da transgressão, da veneração às origens com novas e não menos atuantes formulações. À música dos Blowzabella chamou Nigel Eaton “antiga caixa de ritmos”. Definição sugestiva para um percurso de contínua aproximação ao que está prestes a irromper no final do milénio: a eternidade incarnada no mundo e no tempo.