03/11/2026

Mário Pacheco + Quadrilha + Shalom

  

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993
World

 

MPP – MÚSICA POPULARUCHA PORTUGUESA

 

MÁRIO PACHECO
Um Outro Olhar (2)
LP/MC Philips, ed. Polygram

QUADRILHA
Contos De Fragas E Pragas (3)
LP/CD, ed. Ovação

SHALOM
Dar de Vaia (0)
LP/CD Disconorte

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

Tudo somado, não é nada. A música portuguesa de raiz tradicional incorre atualmente no mesmo tipo de equívoco em que incorreu o rock da era “Chico Fininho” e Luís Filipe Barros. Ou seja, quando a maré parece estar de feição, editar a eito, esquecendo critérios de qualidade e tentando enganar o incauto com o rótulo, de novo na moda, “música popular portuguesa”. Da mesma maneira que se chamava “rock português” às montanhas de lixo que então invadiram os escaparates, também agora dizer “música popular portuguesa” serve de disfarce a todo o tipo de mediocridades e oportunismos.

Esclareça-se desde já o seguinte, para que não haja dúvidas: qualquer destas três “propostas”, agora atiradas para a praça pública, não tem rigorosamente nada a ver com a dita música popular e muito menos com a tradicional. “Popularucha”, sim, assenta-lhe como uma luva. Comparados com elas os ranchos de Pedro Homem de Mello passam por tratados de etnografia.

Dos três, os Shalom (como é possível existir uma banda com um nome destes?) são os que reivindicam com mais força o rótulo “tradicional”. “Dar de Vaia” – expressão popular sinónima de encontro e solidariedade – é o único elemento genuíno num disco que, entre caixas de ritmo e imitações sintéticas de acordeões, não passa de um postal ilustrado para confundir turistas, em tons de rosa “shocking” e azul cueca. De fugir a sete pés – ou dar de frosques, para utilizar também a terminologia popular.

Os Quadrilha (antes davam pelo nome de Peace Makers – como é possível ter existido uma banda com um nome destes?), por seu lado, assumem-se como “um grupo de música folk com raízes na tradição celta”. Olha a novidade! Quem é que não se assume? Se até o José Cid se assumiu da “tradição celta” no recente Festival RTP da Canção! Encheram a capa com reproduções de instrumentos medievais e escolheram como logotipo uma harpa estilizada semelhante à que aparece num disco de William Jackson (“Heart Music”). Na prática, seguem na peugada dos Romanças, com um cheirinho a Fausto nas vocalizações, mas perdem-se nos arranjos à base de teclados “tapa buracos”. São mais sérios que os (argh!) Shalom, atrevem-se a cantar José Afonso – em “Chamaram-me cigano” e “A mulher da erva” – e são capazes de ter um caminho a desbravar, a julgar pelos pormenores de qualidade que aqui e ali pingam a conta-gotas em faixas como “Fraga” e “Desnorteio”. Positivos são ainda os textos assinados por Sebastião Antunes, a merecerem melhor sorte do lado musical.

Finalmente, Mário Pacheco, guitarrista, é, dos três, o que tem menos pretensões. O que não significa que seja melhor. Filho de um famoso guitarrista de fado, António Pacheco acompanhou, entre outros, Tristão da Silva, António Mourão, Hermínia Silva (anda, Pacheco!), Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, João Braga, Nuno da Câmara Pereira e... Amália Rodrigues. Não se lhe negam as qualidades de acompanhante à guitarra. O pior são as composições, da sua autoria, de “Um Outro Olhar” (a exceção é um tema de Egberto Gismonti), que vão do fado-anemia ao “muzak” de supermercado e “hall” de hotel. Pode haver quem goste. Há gostos para tudo...

Mouth Music - Mo-Di

 

World

 

Mouth Music
Mo-Di
CD Triple Earth, import. Contraverso









 

Depois de um primeiro álbum bastante promissor, os Mouth Music fazem um golpe de rins em toda a linha, e infletem para a música de dança de influência étnica, à semelhança, por exemplo, dos Suns of Arqa. Se na estreia deste grupo escocês a tónica incidia em harmonias vocais envoltas em névoas de “new age” céltica, agora a ênfase deslocou-se para o ritmo, através de sequências hipnóticas sobre as quais evoluem as vozes de Michaela Rowan e Jackie Joyce. As fontes étnicas utilizadas, sampladas e manipuladas de todas as maneiras e feitios, incluem temas da tradição gaélica, entre os quais um aprendido com Catherine-Ann MacPhee, e outro de “mouth music”, ou “puirt a bail” – designação de um género particular desta tradição – e um cântico xhosa (façam como eu e vão procurar na enciclopédia...). “Mo-Di”, impecavelmente limpo e polido em estúdio, reúne todas as condições para faturar nas pistas de dança dos “new agers” de consciência cósmica. “World music” para consumo nas grandes urbes néon ocidentais dá direito a bilhete de acesso para o mundo exterior, genuíno e assustador, das coisas vivas que mordem. (6)


Matt Molloy, Sean Keane, Liam O'Flynn - The Fire Aflame

 

Pop Rock
 
17 MARÇO 1993
WORLD

 

DANÇA DO FOGO

 

MATT MOLLOY, SEAN KEANE, LIAM O’FLYNN
The Fire Aflame
CD Claddagh, distri. VGM

 

O ano editorial promete. “Vox de Nube” já levou muitos ao céu. “Acrobats et Musiciens”, dos Lo Jai, de Eric Montbel (nos anos 70 ajudou a lapidar uma das jóias da Hexagone, os Le Grand Rouge), apresenta em glória a música da região do Limousin, da Idade Média à Renascença. Há um álbum novo a rebentar. Vindos do frio, os suecos Hedningarna (“Kaksi!”) são apontados como verdadeiros renovadores da música tradicional europeia. Mas por agora concentremo-nos, ainda e sempre, na Irlanda.

Confira, por favor, o nome dos músicos, “crème de la crème”, “Irish coffee” da melhor qualidade: Matt Molloy, é “apenas” o melhor flautista irlandês da atualidade. Dá a ideia que não necessita de respirar, tal a técnica que possui. Passou pela santíssima trindade Planxty/Bothy Band/Chieftains, fazendo parte atualmente desta última banda. O seu bar, em Westport, foi placo da desbunda gravada para a Real World, “Music at Matt Molloy’s”.

Sean Keane é, desde há anos (melhor dizendo, décadas…), violinista dos Chieftains, depois de integrar as fileiras dos lendários Ceoltóiri Chualann, de Seán Ó Riada. Quem o quiser ouvir mais em particular procure-o no seu álbum a solo “Jig it in Style”. Acreditem que não é só nas jigas que ele tem estilo. Até Ali Farka Toure, imagine-se, o convidou para tocar consigo, em “The River”.

Liam O’Flynn, por seu lado, é um dos mestres atuais das “uillean pipes”. Fez igualmente parte dos Planxty. Habitual solista nas obras orquestrais de Shaun Davey (“The Brendan Voyage”, “The Pilgrim”, “Granuaile”), discípulo dos grandes Leo Rowsome, Willie Clancy e Séamus Ennis, trabalhou com John Cage e a companhia de dança de Merce Cunningham.

Arty McGlynn, claro, tinha de estar presente. É o guitarrista dos guitarristas, rei e senhor na arte do contraponto. Felizes dos que o viram e ouviram ao vivo com os De Danann, no Intercéltico do ano passado. Noel Martin, membro da Belfast Baroque Consort, no violoncelo e teclados (aparece em “Lament” – ver crítica nesta página), e Noreen O’Donoghue, debutante nos Oisin e atualmente nos Bakerswell, em harpa e teclados, completam o lote de participantes. Apenas resta entregarmo-nos às delícias da audição.

Os músicos disparam em classe pura até ao coração da Irlanda. Jigs, reels, airs e hornpipes encontram aqui a sua expressão mais elevada. Não é apenas o virtuosismo, nem sequer a energia contagiante desta música que progressivamente se infiltra nos veios invisíveis do mundo, que impessiona. “The Fire Aflame”, como o título deixa entender, é um ato de amor. A síntese de vários talentos individuais acesos numa chama única, capaz de nos conduzir ao centro do sonho, à Irlanda do mito que, rezam as lendas, continua a irradiar de Tir Nan Aog. Não vale a pena racionalizar. Quer queiramos quer não, há uma parte de nós que habita do lado de lá do nevoeiro. No único tema não instrumental, Brian Keenan lâ um poema da sua autoria, “Night fishing”, em cujas letras é possível vislumbrar o lado lunar, espelhado nas águas do inconsciente, desta Ilha unida por um elo secreto a Portugal… Outras histórias…

Mas se não quisermos mergulhar nessas águas que tudo religam (e afogam, se o navegante não souber a arte…) e ardermos no fogo que tudo anima, consome e transforma (na Irlanda, acendiam-se e ainda se acendem, no princípio de Maio, os fogos de Beltane, em louvor de Belenos – o Apolo dos celtas – e da terra renascida), resta sempre a dança. Dança do fogo, que também se aplica às jóias. O diamante lapidado com perfeição decompõe a luz branca nos sete raios coloridos. Assim, de um diamante melhor ou pior lapidado se diz que tem mais ou menos fogo.

Matt Molloy, Sean Keane e Liam O’Flynn são joalheiros exemplares. Mais não posso explicar. (10)

The Ukrainians - Vorony

 

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993
WORLD

 

DIVERSÃO COSSACA

 

THE UKRAINIANS
Vorony
CD Cooking Vinyl, import. Bimotor


No início, foi “Ukrainski Vistupi”, uma loucura dos Wedding Present, gravada em 1989 numa das sessões regulares de John Peel. Na sequência do sucesso obtido por esse trabalho, e do single “Oi divchino”, os Ukrainians surgiram como entidade autónoma, em volta de um núcleo constituído por Peter Solowka, Len Liggins e Roman Remeynes. Seguiu-se um primeiro álbum em nome próprio, “The Ukrainians”, onde se fortalecia a componente ucraniana, através da inclusão de temas tradicionais, impulsionados por uma rítmica frenética próxima dos grupos da “new wave”. “Vorony” é nova explosão de ritmos e energia, cada vez mais imbuída da faceta tradicional.

O apelo da dança impregna a maioria das faixas, ao velho estilo cossaco, braços cruzados, perna esticada e grito na ponta da língua. Um bigode revirado e farfalhudo também é de bom tom. Aos poucos, os Ukrainians vão-se aproximando mais e mais das raízes, e até já espreitam para toadas mais lentas, ousando polifonias vocais como as de “Nadia pishla”, balada que lhes abre as portas para novas perspetivas passíveis de exploração futura. O corte do cordão umbilical não parece, contudo, estar nas previsões dos Ukrainians, pelo menos a curto prazo. Por enquanto, tudo gira em volta do velho e forte “rock ‘n’ roll”. Do Leste e em caracteres ucranianos, é uma questão de pormenor – provam-no a inclusão de uma versão frenética de “The queen is dead”, dos Smiths (os Ukrainians editaram em paralelo um EP onde interpretam quatro temas assinados por Morrissey) e outra de “Venus in Furs”, o clássico de Lou Reed e dos Velvet Underground, incluído no álbum da banana, na qual os cossacos optaram pelo lado “velvet”, de veludo.

Sem ser um disco de provocar grandes arrebatamentos, “Vorony” atrai pela extroversão e pela frontalidade de uma proposta, no mínimo, divertida. A “world music” também tem direito a ser um parque de diversões. (7)

 

Wendy Stewart - About Time

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993
World

 

Wendy Stewart
About Time
CD Greentrax, distri. VGM














 

Instrumento sagrado, o mais antigo tocado pelos bardos, a harpa céltica tem sido nos últimos anos objeto de renovação, um pouco por toda a Europa. Na Escócia, harpistas como William Jackson, Robin Williamson, Savourna Stevenson, Alison Kinnaird, Patsy Seddon e Mary McMaster (duo Sileas) avançam novas técnicas, ao mesmo tempo que fazem novas leituras do legado tradicional. Wendy Stewart tocou no álbum estreia de Alison Kinnaird, “The Harp Key”, de 1977, demorando até hoje para confirmar a solo todas as potencialidades que se lhe reconheciam. Utilizando o modelo tradicional de harpa céltica (“clarsach”, na Escócia), com cordas de tripa, e a variante eletrificada, encordoada a nylon, Wendy Stewart revela um estilo que privilegia a suavidade e a harmonia, semelhante ao de William Jackson. No par de temas vocalizados (a maior parte das harpistas tradicionais não resiste à tentação de cantar...), Wendy não escandaliza, embora não seja o seu ponto forte. Vários membros dos Ceolbeg emprestam à música – que inclui temas de França, Escandinávia, Paraguai e “cajun” – um colorido adicional. “About Time” flui como um riacho de águas calmas a abrir a Primavera. (7)

 

The Kinks - Scattered

 

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993
CD-SINGLES

 

The Kinks
Scattered
Columbia, distri. Sony Music















Os heróis não morrem e os Kinks aqui estão para o provar. Sobreviveram a três décadas de modas sem que a sua energia se tenha esgotado. Ray e Dave Davies, nos tempos áureos, depois só o primeiro, tornado único portador do estandarte. Os Kinks representaram nos anos 60 o supra-sumo do movimento “mod”. O seu líder, Ray Davies, inglês até à medula, mostrou ser mestre na dissecação dos vícios e tiques do reino de sua majestade, em canções que ficaram para a história: “Waterloo sunset”, “Death of a clown”, “Wonderboy”, “Lola”, “Apeman”, “Victoria”, entre outros. “Arthur, or the Decline and Fall of the British Empire”, chamou a um dos álbuns. Hoje, a mística de outros tempos deixou de existir, substituída pelo profissionalismo. As sobras, mesmo assim, não são de desprezar. Ray Davies continua com a voz afinada, adepto do rock ‘n’ roll e atento a um passado brilhante, de que é exemplo a versão atualizada de “Days”, um original de 1968, aqui incluída. Antes tinha outra força. (6)

 

Skylark - Light And Shade + Trian - Tri

 

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993
WORLD
 

Skylark
Light and Shade (9)
CD Claddagh, distri. VGM

Trian
Trian (9)
CD Flying Fish, distri. VGM









 

Por vezes dá a ideia de que a música tradicional da Irlanda sofre de excesso de abundância e oferta. Grupos e solistas, ainda por cima de alta qualidade, existem às dezenas, senão às centenas, pela ilha Esmeralda. Novos nomes surgem a um ritmo alucinante, enquanto a velha guarda se divide por múltiplos projetos, explorando novas ideias e trocando sensibilidades. Aos leigos, já o ouvi da boca de alguns, a música irlandesa soa sempre igual. Pura ilusão. Esquecem, ou não sabem, que o prazer, resultante do convívio sistemático com este tipo de música, reside em grande parte na descoberta de diferenças, na comparação de estilos, individuais e coletivos, no confronto de abordagens diversas a uma música que constantemente se renova e inventa novas vias. Tudo isto se aplica aos discos em questão. Os Skylark, em segunda etapa, a seguir a “All Of It”, e os Trian, em estreia, partilham entre si semelhanças óbvias. O gozo está em avaliar as diferenças. E em saborear, caso se esteja nas tintas para o raciocínio analítico, a excelência da música, independentemente dos modos da sua criação.

A primeira semelhança é visível logo no formato instrumental. Skylark e Trian apresentam a configuração típica violino/acordeão/guitarra, no caso dos Skylark aumentado por um bodhran. Os instrumentistas são, em ambas as formações, virtuosistas do mais alto grau. Máirtin O’Connor, dos Skylark, considerado o expoente máximo do seu instrumento na Irlanda, rivaliza com Billy McComiskey, do lado dos Trian, no acordeão. A vantagem pende para o lado do primeiro, mas não por margem folgada. Contra a veterania do mestre, o novato apresenta já credenciais de grande executante.

O caso do violino é mais bicudo. Gerry O’Connor, pelos Skylark, contra Liz Carroll, pelos Trian. O som desta última (que já nos impressionara num anterior álbum a solo ou, na qualidade de convidada, num dos projetos de Mick Moloney com Eugene O’Donnell, “Uncommon Bonds”) é mais encorpado. Gerry O’Connor, aparentando maior agilidade, possui um estilo mais aéreo. Liz vence-o em dramaticidade. Gerry ganha-lhe em leveza. Finalmente os dois guitarristas, Dáithi Sproule (vale a pena escutá-lo com maior pormenor em “Carousel”, ao lado de Seamus e Manus McGuire), dos Trian, e Garry O’Briain, dos Skylark, são dignos um do outro e candidatos ao trono ocupado por Arty McGlynn, na justeza com que tecem as típicas malhas rítmicas em contratempo.

Len Graham é o tocador de bodhran nos Skylark, cargo que desempenha com eficácia, embora seja nas vocalizações que revela dose superior de talento, através de uma profundidade e pureza de timbre que, uma vez mais, deixam ver as marcas deixadas na música irlandesa pelos Planxty. O mesmo acontece aliás, com Dáithi Sproule, também ele um vocalista de recursos, do lado dos Trian.

Os membros dos Trian residem em Chicago, onde vive uma das colónias de irlandeses mais ativa e interveniente da América do Norte. A distância serve-lhes para reforçarem o cordão de prata que os une à ilha-mãe. Daí talvez a sensação de urgência que se desprende da sua música, quase um amplexo. Os Skylark, por seu lado, ostentam a naturalidade de quem tem as raízes bem seguras ao chão. Muitos tocam, e bem, este estilo de música. Mas poucos conseguem fazê-lo com a convicção e empenhamento destes dois grupos. Explorem-se os seus detalhes e segredos. Para descobrir as razões que fazem da tradição da Irlanda uma das mais ricas e férteis do planeta.