21/09/2026

Pelo caminho das estrelas [III Festival Intercéltico do Porto]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 2 ABRIL 1992 >> Cultura

 

Terceira edição do Intercéltico começa hoje no Porto

 

Pelo caminho das estrelas

 

Durante três dias, a música folk vai trazer de volta a animação à cidade do Porto, com gaitas-de-foles, violinos e bombardas. É o Festival Intercéltico, na sua terceira edição, tornado “ex-libris” cultural da capital nortenha. “Estes celtas são loucos”, já dizia Obélix. Ao Porto vai-se pelas estrelas.

 

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            Ao contrário das duas anteriores edições, em que a programação incidiu em regiões específicas do mundo celta, casos da Galiza em 1990, e da Bretanha, em 1991, este ano o Intercéltico estende-se à Irlanda, Inglaterra, Bretanha, Astúrias, Galiza e Portugal, de maneira a, pela primeira vez, fazer jus à designação que ostenta. De Dannan, Maddy Prior Band, Bleizi Ruz, Llan de Cubel, Matto Congrio e uma “bailia das frores” encenada por António Tentúgal são os nomes agendados.

            Também o leque das chamadas atividades paralelas se alargou. A organização – da Mundo da Canção, numa iniciativa do pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto – voltou a apostar numa política de enquadramento cultural do certame, que visa fomentar, de facto, e não ao sabor de oportunismos a reboque da moda, o gosto do público pela música tradicional.

Assim, desde segunda-feira e até sexta, funciona no teatro Rivoli, no Porto, um Curso de Aproximação à gaita galega, em regime de seminário aberto ao público, com a participação do gaiteiro D. Jesus Olimpio Giraldez Rio. Tempo dos jovens portugueses ganharem pulmão e soprarem com força nas gaitas. Nas gaitas alheias porque infelizmente as nossas desafinam.

Mas há outras coisas para aprender e entreter neste Intercéltico que dispensam a utilização da caixa torácica. Por exemplo: uma exposição de instrumentos musicais (no CRAT – Centro Regional de Artes Tradicionais) e outra sobre o barco Rabelo (embarcação que figura no logotipo, criado pela primeira vez para o festival, por Tentúgal). Ou videoramas e diaporamas sobre as nações célticas, com música e paisagens a condizer. Para quem quiser comprar os discos e livros da praxe haverá uma banca bem recheada logo à entrada do Rivoli. E porque não adquirir um artefacto de inspiração céltica, construído por um artesão galego, digamos, o caldeirão de Panoramix, um saquinho com restos de Stonehenge ou uma miniatura da catedral de Santiago de Compostela.

Festa é festa e por isso não faltará a gastronomia. Fala-se à boca pequena numas queimadas galegas a realizar em local incerto. Os verdadeiros degustadores celtas poderão sempre seguir a pista pelo olfato. “O que está em cima é como o que está em baixo.” Os caminhos do céu correspondem aos da terra. E aos do estômago.

 

Destaque

GRUPOS INTERVENIENTES

 

Quinta-feira, 2 de abril

 

MATTO CONGRIO (Galiza)

A Galiza tradicional dá as mãos à pop, ao rock e á “salsa”. Os Matto Congrio não têm preconceitos. Carlos Nuñez, líder e gaiteiro da banda, tem uma folha de serviços de se lhe tirar o chapéu: trabalhou com o grupo de gaitas “Xarabal” com o qual gravou a caixa (4 LPs) “Instrumentos Populares Galegos”, participou no duplo CD “Cornemuses en Europe” (gravação ao vivo com os melhores gaiteiros solistas da Europa, no festival da Cornualha, disponível por altura do Intercéltico), e gravou com os Chieftains a banda sonora de “A Ilha do Tesouro”. Os restantes Matto Congrio são Anxo Lois Pintos (gaita-de-foles, violino), Santiago Cribeiro (acordeão, teclados), Diego Bouzón (guitarras), Pancho Alvarez (baixo, bandolim) e Isaac Palacin (bateria, percussões).

 

MADDY PRIOR BAND (Inglaterra)

Esteve no Folk Tejo do ano passado onde as condições acústicas não perdoaram. Para Maddy Prior, vocalista dos Steeleye Span, “irmã” de June Tabor nas Silly Sisters e intérprete de música antiga na Carnival Band, o regresso a Portugal constitui uma espécie de vingança. A sua voz justifica por si só toda a atenção, sejam quais forem os músicos acompanhantes, neste caso: Nick Holland (teclados), Richard Lee (contrabaixo), Mick Dyche (percussões) e Steve Anftee (guitarra). Discografia selecionada: “Please to See the King”, “Ten Man Mop or Mr. Reservoir Butler Rides Again”, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues” (todos com os Steeleye Span), “Summer Solstice”, “Folk Songs of The Olde England”, vols. 1&2 (com Tim Hart), “No More to the Dance” (Silly Sisters), “A Tapestry of Carols” (Carnival Band).

 

Sexta-feira, dia 3

 

BAILIA DAS FRORES (Portugal/Galiza)

Projeto de António Tentúgal, que utilizará todo o espaço do teatro Rivoli para recriar o ambiente e os mitos da Ibéria medieval. Cerimónia que girará à volta dos quatro elementos que ligam Portugal e a Galiza: a terra, o mar, a saudade e a língua. Com músicos dos Vai de Roda e alguns convidados especiais: a cantora Uxía (ex-Na Lúa), um gaiteiro galego, Paulo Marinho (Sétima Legião), três sanfonineiros portugueses (que equivalem a 100% do total nacional), cantadeiras, pauliteiros, palhaços, bugios e o mais que se verá. Discografia: “Vai de Roda”, “Terreiro das Bruxas”.

 

LLAN DE CUBEL (Astúrias)

Utilizando uma instrumentação exclusivamente acústica, o reportório dos Llan de Cubel inclui, para além do folclore asturiano, tradicionais da Irlanda, Escócia, Bretanha e País de Gales. Tocaram ao lado de Alan Stivell, Oskorri, Chieftains, Tannahill Weavers, Milladoiro e Capercaillie, entre outros. Formação composta por Jose Manuel Cano (guitarra), Guzmán Maqués (violino, bouzouki, voz), Elías García (bouzouki, voz), Marcos Llope (flauta, tin whistle, voz) e Fonsu Mielgo (acordeão, tambor e gaita-de-foles asturianos, tin whistle, voz). Discografia: “Deva”, “Na Llende”.

 

Sábado, dia 4

 

BLEIZI RUZ (Bretanha)

Os Bleizi Ruz (lobos vermelhos) há 18 anos que animam as tradicionais “Fest noz” (à letra: festas de noite) da Bretanha. Celebraram o aniversário com um disco ao vivo, “En Concert”. Aliás, para estes bretões (“ils sont fous ces bretons”, como diria Obélix) todas as ocasiões são boas para celebrar. Por isso a sua música assimilou ao longo dos anos as influências irlandesas, galegas, balcânicas ou a “cajun” do Louisiana. Para dançar sempre, seja qual for a origem do ritmo. A vertente séria pode ser encontrada nos “kan-ha-diskan” (cantos de resposta) em que são peritos. Cantados em bretão porque “essa é uma forma de se ser bretão”. Os lobos são Eric Liorzou (guitarra, bandolim, sintetizador, voz), Loic Leborgne (acordeão, sintetizador, voz), Ben Creach (baixo) e Bernard Quillien (bombardas, flauta, gaita-de-foles, voz). Discografia selecionada: “Coz Liorzou”, “Klask ar Plac’h”, “Pell Ha Kichen”.

 

DE DANNAN (Irlanda)

            Banda lendária, do “folk revival” irlandês dos anos 70, ao lado dos Planxty e dos Bothy Band. Sobreviveram da formação original o flautista/violinista Frankie Gavin e Alec Finn (guitarra, bouzouki). Pelos De Dannan passaram, ao longo de várias formações, grandes vocalistas femininas como Dolores Keane, Mary Black ou Maureen O’Connor, presentes as três no álbum “Song for Ireland”. No Porto a responsabilidade cabe a Eleanor Shanley. Completam a formação que atuará no Intercéltico: Arty McGlynn (outro grande guitarrista), Colin Murphy (bodhran) e Aidan Coffey (acordeão). Discografia selecionada: “De Dannan”, “Selected Jigs, Reels & Songs”, “A Song for Ireland”, “Ballroom”, “Anthem”.


"Tenho uma energia que é frenesim" [Eugénia Melo e Castro]

 

PÚBLICO DOMINGO, 29 MARÇO 1992 >> Cultura

 

Eugénia Melo e Castro comemora com “Mel” dez anos de carreira

 

“Tenho uma energia que é frenesim”

 

“Terra de Mel – 10 Anos Depois” assinala o regresso de Eugénia Melo e Castro aos palcos portugueses. Um espetáculo contido, de piano e voz, com Wagner Tiso e canções do princípio do século. “O amor é cego e vê”? Geninha não é cega: a SEC subsidia o recital. Longe vão os tempos da “maluca” que corria atrás dos seus ídolos.

 

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            “Terra de Mel – 10 Anos Depois” recupera o título do álbum de estreia da cantora ao mesmo tempo que comemora uma década de colaboração regular com o compositor e músico brasileiro Wagner Tiso, cujo novo álbum “Profissão: Música”, foi considerado disco do ano pela Associação Brasileira de Críticos de Discos. Serão dois espetáculos reduzidos ao essencial, uma “coisa séria” como diz a cantora: dia 13, em Lisboa, no Teatro D. Maria II, e dia 15, no Porto, na Casa das Artes, ambos às 22h00. Um piano e uma voz em busca do paraíso perdido do princípio do século.

            PÚBLICO – O formato piano/voz significa um regresso à essência das suas canções?

            EUGÉNIA MELO E CASTRO – Exatamente. Um resumo muito forte. O uso exclusivo do piano e da voz retiram toda a grandiosidade dos arranjos que geralmente vestem uma canção. Além disso, fica-se mais exposto e há que encontrar um equilíbrio. Acho que um espetáculo de piano e voz se pode transformar numa coisa cansativa se for muito longo ou se as canções forem mal escolhidas. No meu caso vai durar cerca de uma hora. Sem convidados, sem nada. Será um recital super, super sério.

P. – Qual vai ser o reportório?

R. – Vão ser canções de toda a minha carreira e algumas novas como “No puedo ser feliz”, do Bola de Neve, que era um cantor cubano dos anos 30, e outra brasileira, chamada “Hei-de amar-te até morrer”, de autor anónimo, também do princípio do século.

P. – Porquê essa quase fixação em canções do início do século, que perdura já desde “O Amor é Cego e Vê”?

R. – Foi uma coisa que de repente aconteceu na minha vida. Acho que é uma fase. Por exemplo, as canções que eu tenho neste momento nas mãos são coisas assim completamente imortais, lindíssimas, e eu acho que é muito bonito trazê-las para as pessoas que nunca ouviram falar ou já não se lembram delas.

P. – Em matéria de gravações, 1992 seria o ano de edição de um novo disco, de forma a cumprir a tradição de lançar um álbum de dois em dois anos. “O Amor é Cego e Vê” data de 1990...

R. – Vou entrar em estúdio em julho e fazer as misturas na Suécia. Será um CD editado num selo francês de “world music” chamado “A Divina Comédia”. Vai ser um disco que sai fora de tudo.

 

“Eu vou!”

 

P. – Como explica que apesar de atuar tão pouco em Portugal, consiga manter as pessoas atentas e recetivas à sua música?

R. – O que se passa é que quando não se está a falar de mim aqui, está a falar-se no Brasil. Não paro de trabalhar um minuto. Se fico oito dias sem fazer nada entro em depressão profunda. Pronto, habituei-me a este ritmo. Mas não faço a menor questão de aparecer por aparecer. O que se passa é que tenho conseguido criar sempre expetativas que cumpro. A princípio, quando dizia que iria gravar com o Wagner Tiso ou com o Milton Nascimento, ou que ia ser parceira do Caetano Veloso e do Ney Matogrosso, as pessoas riam-se. Mas nunca disse uma coisa que não cumprisse.

P. – Costuma dizer-se que tem um magnetismo muito forte...

R. – Sim, e que funciona. Tenho uma energia que é esse frenesim de trabalhar, de querer fazer coisas, de me superar. A minha cabeça não para. O Herman José dizia-me assim, há dias: “De manhã queres que o Chico Buarque cante contigo. Passados dez minutos estás no estúdio com o Chico Buarque”.

P. – Pode concluir-se que consegue sempre o que quer?

R. – Respondo com o exemplo de como conheci o Wagner Tiso. Houve um “show” que ele e o Milton deram aqui no Coliseu. Eu, no meio do “show”, decidi que ia ser cantora. E corri que nem uma desesperada quando eles iam apanhar o avião – uma maluca barrada pelos polícias que gritava: “Wagner, Wagner, preciso de falar contigo”. Ele pensou que eu era uma fã e fez-me “adeuzinho”. Pensei: “Não consegui falar com ele aqui, vou ter que ir ao Brasil”. Um mês depois fui até lá, bati à porta do Wagner e disse-lhe: “Olhe, lembra-se de uma maluca no aeroporto? Era eu!”

P. – Houve quem no início da sua carreira criticasse a sua voz, que não estaria à altura de tantas pretensões...

R. – Aceito essas críticas. Mas também acho que tenho vindo a evoluir muito e a crescer vocalmente. Quanto mais se canta melhor se canta, mais se ganha segurança. E eu tenho sido muito ajudada.

P. – Precisamente, considera-se uma artista privilegiada?

R. – Sim. Mas acho que é um privilégio que eu invento para mim mesma.

P. – Como inventou o subsídio da SEC aos seus concertos, num “abrir os cordões à bolsa” pouco usual em espetáculos deste tipo?

R. – Neste caso não acho que seja um privilégio mas um pioneirismo. Por exemplo, o espetáculo dos Resistência com os Lua Extravagante também foi subsidiado pela SEC. Serei portanto a segunda. Os grupos de teatro têm sempre subsídios, a música parece que não é levada muito a sério. Eu percebi que havia uma abertura e não perdi tempo. Tomei eu própria a iniciativa de me dirigir à SEC onde fui muito bem tratada. Não ia ter o Wagner em casa um mês, a olharmos um para o outro, quando podíamos estar a trabalhar. Não sou de ficar quieta. Existe um ditado que diz: “Quem quer vai, quem não quer manda”. Eu vou.

P. – Está sempre segura de si. Nunca sentiu medo do palco, por exemplo?

R. – Antes tinha, agora não. Acontece que tive algumas experiências muito tristes, como cantar sem som de retorno e pensar que o defeito era meu, que eu é que era má. Experiências traumatizantes. Tinha tanto medo do palco que quando me falavam em cantar ao vivo, fugia.

P. – Preocupa-se com a imagem que dá de si própria aos outros?

R. – Não me preocupo muito. A minha imagem é a da pessoa que eu sou: supernormal, na maneira de vestir, de viver, de estar.

P. – Mas, há pouco, tinha receio que as fotografias saíssem mal...

R. – Mas isso é porque a gente tira fotografias em casa e sai sempre com os olhos tortos. Eu estou aqui, à vontade, sem maquilhagem, sem coisa nenhuma, vem um gajo, pega-nos uns “flashes” na cara e depois saem aquelas coisas horrorosas. As pessoas não são assim.


"O mundo é grande porque a Terra é pequena" [Gilberto Gil]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 26 MARÇO 1992 >> Cultura

 

Gilberto Gil, que promove um novo disco em Portugal, ao PÚBLICO

 

“O mundo é grande porque a Terra é pequena”

 

O novo disco de Gilberto Gil, “Parabolic”, assinala o regresso do compositor brasileiro às origens. Como se o tropicalismo entrasse de cara lavada no novo mundo, um “mundo grande porque a Terra se tornou pequena”, filtrado pela tecnologia e com o Apocalipse no horizonte. Um mundo em que a mulata Madalena é a antena que liga a terra ao céu.

 

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            Gil entusiasma-se e gesticula ao dissertar com igual facilidade sobre o fim da História, os índios Xingu ou os novos artistas “cyber”, como lhes chama, produzidos pela máquina industrial. Não acredita muito no futuro do Brasil mas fez questão de lembrar aos mais jovens, num espetáculo gratuito em Copacabana, os bons velhos tempos de confraternização “hippie”. Gilberto Gil é um humanista, para quem a História não pode ser um capítulo encerrado. Esteve em Portugal para promover o seu mais recente álbum, “Parabolic”. O PÚBLICO falou com ele e aprendeu como fazer uma parabólica de vime.

            PÚBLICO – “Parabolic” começa por intrigar pela capa, um cesto transformado em antena parabólica. A junção do primitivo com a tecnologia...

            GILBERTO GIL – A ideia é manifestar um sentimento de compromisso com a realidade factual, a minha realidade num determinado momento. Quando as sociedades tradicionais que vigoraram até ao início da II Guerra Mundial, até à descoberta da relatividade, da rádio e da televisão, transitaram para um mundo ainda pouco conhecido, pouco explorado, de novas situações tecnológicas.

            P. – Um conceito presente no tema “Sonho”, que aborda pela ironia o lado demagógico de certo discurso ecológico, tão em voga nos tempos atuais...

            R. – Não defendo a ideia construtivista, de apresentar idealizações, modelos de sociedade, essas coisas todas. Antes o mundo em pequeno porque a Terra era grande. Hoje o mundo é grande porque a Terra é pequena, do tamanho de uma antena parabólica. O cesto, exemplo artesanal da cultura tradicional da Bahia, ainda existe, mas já está sendo substituído pelos elementos e pela rapidez eletrónicos.

 

O fim da História

 

            P. – Defende que a resposta ao problema ecológico se encontra no retorno ao “bom selvagem”, personificado pelo índio Xingu, referido no texto da canção?

            R. – A postura da sociedade para com os índios Xingu é contraditória. Quando, na canção, abandono a sala, descubro que estou nu e sou identificado com um índio, na verdade tal identificação é ao mesmo tempo saudada e ridicularizada. O grito dos estudantes e operários de “viva o índio Xingu”, é ao mesmo tempo de solidariedade e ridicularizador. Há na figura do índio, ou das sociedades primitivas em geral, um sentido trágico, ao serem, em teoria, aceites pela antropologia e por certas medidas protecionistas, mas na prática exterminadas, de forma sistemática e programada, pela sociedade moderna.

            P. – Há em toda essa questão um lado apocalíptico, de extremos que se tocam, de situações levadas ao limite...

            R. – Sim, vivemos uma época em que tudo se revela e tudo se confunde.

            P. – Relaciona diretamente esse Apocalipse com o “fim da história” que dá título a outra canção?

            R. – Essa canção procura desmistificar uma certa conceção de “fim da história”, segundo a qual esta teria acabado no sentido clássico do termo. A ideia, com que não concordo, de que todas as experiências relacionadas com a lei, a justiça, o direito e a fraternidade, enfim todo um conjunto humanista que foi consagrado universalmente pela Revolução Francesa, e mais tarde o marxismo, a ideia de socialismo e o sentimento de coletivismo, tivessem desaparecido para sempre. Como se a humanidade não se pensasse mais, no seu destino coletivo e tudo estivesse ligado ao indivíduo isolado, na prática de uma possível democracia económica, toda essa coisa neo-liberal que se pretende hegemónica com a queda do comunismo, etc. Por mim acredito em ciclos, em reciclagens, na possibilidade de retorno a momentos mais exigentes da humanidade.

            P. – Não se tratará afinal apenas do fim das ideologias?

R. – Sim, de esquerda e de direita. Se por um lado caiu o socialismo, enquanto caminhada histórica da humanidade, caíram também todos os sistemas que tentaram negar essa marcha, os sistemas individualistas, centrados na propriedade privada, o capitalismo, enfim.

P. – O índio e a cultura Xingus estão para além da História?

R. – Exatamente. São o antes e o depois da História.

P. – Já que se fala em Apocalipse, o termo aplica-se com propriedade à atual situação política no Brasil...

R. – O Brasil é hoje uma das nações mais exemplares, ao nível de convívio, diferenças, confrontos e desníveis vários. É um país extremamente rico na sua natureza, no seu povo, etc, mas extremamente exaurido nas suas possibilidades de conforto material e de educação mínimos para a maioria da população.

P. – Que razões impedem o salto em frente?

R. – Primeiro porque o Brasil, no plano da civilização mundial, é um país que desde a sua descoberta e a sua formação como nação, sempre viveu o papel da subordinação – primeiro aos interesses da colonização, e mais tarde aos americanos e ao capitalismo internacional. Um país que até hoje não conseguiu desenvolver um modelo de sociedade próprio. No momento em que o Brasil poderia dar o salto e desenvolver-se, à semelhança dos Estados Unidos, do Japão ou da Alemanha, acontece que os modelos que regeram o desenvolvimento destas nações tornaram-se impraticáveis.

P. – Que papel político desempenha como vereador do Conselho Municipal de Salvador da Bahia?

R. – Um papel muito minimizado na sua importância, pelas dificuldades de compatibilização entre o exercício do poder e uma personalidade muito doce que é a minha.

 

Madalena parabólica

 

            P. – “Parabolic” assinala o seu regresso às origens e a um certo tropicalismo de que andava arredado. A que se deve tal aproximação?

R. – Foi um impulso do inconsciente, um chamamento irrecusável. Nos últimos dez anos, em discos como “Luar”, “Realce”, “Raça Humana” ou “Extra”, os elementos brasileiros eram colocados ao serviço da construção de um modelo internacionalista, que poderíamos enquadrar na “world music”, com uma vertente caribenha, africana, etc. Neste disco é o contrário. Toda essa acumulação de experiência internacionalista ficou subordinada aos próprios géneros brasileiros: o baião, o xaxado, o “coco do Norte”, o samba, a “moda de viola”.

P. – O tema de abertura, “Madalena”, e “Quero ser teu funk” são bons exemplos dessas atitudes opostas...

R. – Sim. “Quero ser teu funk” é um tema dos que trabalham à superfície do profundo: o funky, os ingredientes da facilidade cosmopolita, imediata, o tempero do supermercado, o descartável. “Madalena”, pelo contrário, é um tema dos anos 50 que trata de um momento de transição. Madalena é uma personagem de um mundo tradicional que começou a desaparecer nessa altura, na Bahia, com a chegada da exploração petrolífera, da industrialização e da invasão pós-guerra do mundo europeu. Ela confronta-se com a impossibilidade de continuar a viver numa comunidade agrícola verdadeira, dilacerada pelo caos provocado pela chegada da máquina. A música, composta por um homem do povo de quem não se sabe sequer o nome verdadeiro, foi um “hit” na Bahia durante a minha adolescência e antecipava coisas como a lambada, o movimento afro, artistas como Margareth de Menezes, tudo isso.

P. – Será esse então um outro simbolismo para a imagem da baiana, com o cesto/parabólica a servir de chapéu?

R. – Exato. É um cesto primitivo que representa a força da antena parabólica, mas em que a energia está subordinada à cabeça da mulher.

P. – O que significa “Parabolicamará”, título de uma das canções?

R. – “Camará” é expressão de capoeira. Significa “camarada”, “colega”, “amigo”, o “parceiro”. É o chamamento comunitário da roda de capoeira, símbolo dessa comunidade primitiva, clássica, brasileira. Aqui justaposta à parabólica, símbolo da “techné” moderna.

P. – Por falar em “techné” moderna. Como vê um fenómeno como o de Marisa Monte, que, sem tradição na chamada MPB, conseguiu, no Brasil e não só, um sucesso quase instantâneo?

R. – É o resultado da eficácia da indústria cultural. São artistas que nascem de um “design”. Artistas industriais, mesmo. Na minha geração havia talentos que acabavam ou não por produzir para a indústria cultural, no tempo em que esta ainda não estava totalmente desenvolvida. Agora não, essa indústria já funciona em pleno, o que implica dinheiro, investimento, “design”. Há estatísticas, linhas de controlo, de avaliação, etc, e portanto já se consegue construir, a partir do artificial, artistas biónicos, “cyber”. É a pragmatização absoluta do talento. Nós éramos a fase humanista.

P. – Esse humanismo levou-o a abrir a digressão mundial com um espetáculo gratuito em Copacabana?

R. – Foi uma ideia da minha assessoria. Talvez ligados a esse sonho de reviver e dar testemunho a uma nova geração, de um tempo de festa: a época “hippie” à qual pertencemos. Uma época de grandes “shows” em que se juntava a Natureza, belas fazendas, belas praias, com música e cultura e em que havia um sentimento de confraternização.


 

O silêncio convulsivo [Carlos Paredes]

 

PÚBLICO DOMINGO, 22 MARÇO 1992 >> Cultura

 

Recital de Carlos Paredes, no S. Luiz, em Lisboa

 

O silêncio convulsivo

 

Lisboa homenageou ontem, no Teatro S. Luiz, o mestre da guitarra portuguesa. Carlos Paredes, como de costume, quase não deu por isso. Não vale a pena insistir, mas é verdade: a guitarra de Paredes somos todos nós.

 

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            Um concerto de Carlos Paredes é sempre motivo de júbilo e de uma certa vergonha. O júbilo de nos deixarmos levar pelo sonho que temos de nós próprios, de sermos portugueses de verdade e não os “cadáveres adiados” de que falava o poeta. E a vergonha de nos termos acomodado e habituado a que ele, Paredes, estivesse sempre à nossa mão, disponível, com a sua guitarra e com uma modéstia que nos convinha, para nos confortar da nossa mediocridade.

            A música de Paredes vem de longe e do fundo, da História e das cordas de uma guitarra que, nos seus dedos, se transforma no instrumento mais completo do mundo. Assim foi nas noites de sexta-feira e sábado, no Teatro S. Luiz em Lisboa. Assim será a 25 no Rivoli do Porto.

            Na sexta-feira, numa espécie de gala tardia, nem sequer faltaram Mário Soares, o hino nacional e convidados especiais. E a televisão, que gravou o acontecimento em sistema de alta definição para posterior emissão europeia.

            Acompanhado por Luísa Amaro, Paredes arrancou com “Sede” para uma primeira sequência que incluiu os inéditos “Arcos do jardim” e “Cantiga para minha mãe”.

 

A perna esquerda

 

            Primeira convidada da noite, Natália Casanova surgiu deslumbrante, sobretudo a sua perna esquerda, emergindo gloriosa da longa racha aberta no vestido negro. Pena foi a voz da cantora dos Diva ter entrado antes de tempo na “Cantiga de maio”, de José Afonso. Apoiada por um contra-tenor não identificado, de figura andrógina mas possuidor de excelentes recursos vocais, Natália acabou por emprestar à canção uma razoável dose de emoção e sensualidade.

            Fernando Alvim, antigo companheiro de Paredes, secundou o guitarrista em “Variações em ré menor” e “Divertimento”, antes do regresso de Luísa Amaro numa inesquecível “Dança de camponeses”. A primeira parte do recital encerrou com um “pas de deux” coreografado pelos bailarinos Ofélia Cardoso e Francisco Pedro segundo a estética do “pulinho a compasso”: um pulinho por cada semínima, dois por colcheia, quatro por semi-colcheia e assim por diante, em progressão geométrica, não há que enganar.

            Cumpridos os rituais de exposição social do intervalo (muito ator e músico presente, muita sociedade, muito vestido curto), de novo a música, com Paredes a dar o mote de “Porto Santo” para o pianista Mário Laginha improvisar no que foi um dos momentos mais altos do espetáculo.

            Depois, de novo Luísa Amaro como acompanhante, em mais dois inéditos, “Mar Goês” e “Titi” e nas notas por todos ansiadas de “Verdes Anos”, as que melhor traduzem o silêncio convulsivo que vai na nossa maneira de sermos portugueses.

            Fracassado, foi o encontro com Rui Veloso, a quem Carlos Paredes pediu desculpa por alguma eventual “asneira”. O diálogo instrumental não chegou a acontecer. As duas guitarras pouco tinham a dizer uma à outra. Carlos Paredes apagou-se, dando lugar a Rui Veloso que, sozinho, interpretou “Porto sentido”.

            Pelo contrário, a participação de Paulo Curado, na flauta, em “Mudar de vida”, resultou em pleno, talvez porque o tema, gravado para o filme de Paulo Rocha e incluído no álbum “Movimento Perpétuo”, fora escrito para este instrumento.

            As “Variações de Artur Paredes” fecharam a sequência oficial do programa. A sala aplaudiu de pé. Carlos Paredes levantou-se, esbarrou contra uma câmara de televisão, vagueou perdido pelo palco e agradeceu de forma desajeitada. O público pediu mais e Paredes, como sempre, fez-lhe a vontade. Pela primeira vez ficou completamente só, no centro do palco, dobrado sobre a guitarra, a confundir-nos, a emocionar-nos. Mas o guitarrista surpreendeu tudo e todos em alguns segundos de uma “brincadeira” (“os meus amigos vão-se rir de certeza”), antes de se despedir com uma nota de ironia – numa peça, inspirada em Camilo, que traduz em música os “discursos vazios e balofos com que certos senhores nos pretendem enganar” e assinada com um “tenho dito” bem-humorado.

            Para todos, para cada um diferentemente, a música e a vida de Carlos Paredes servem de lição. Que poucos souberam ou quiseram estudar e aprender.

 

"Existir" para a Europa [Madredeus]

 

PÚBLICO DOMINGO, 22 MARÇO 1992 >> Cultura

 

“Existir” para a Europa

 

            Sexta-feira, no Teatro Ibérico, em Lisboa, os Madredeus atuaram para uma plateia de convidados, numa operação de “charme” aos vários executivos de diversas delegações europeias da EMI presentes, com o objetivo de uma hipotética edição do álbum “Existir” no estrangeiro.

            Para Teresa Salgueiro, Pedro Ayres de Magalhães, Rodrigo Leão, Francisco Ribeiro e Gabriel Gomes foi também o regresso ao local de ensaios e gravação dos “Dias da Madredeus”, disco com que se estrearam no mercado discográfico nacional: uma divisória de um antigo convento, responsável em grande parte pelo ambiente e orientação estética do projeto.

            Cerca de 45 minutos de música – que em alguns momentos roçou o sublime – devem ter chegado para convencer os homens de negócios. De postura sóbria, quase de recolhimento, os cinco músicos projetaram os sons até à cúpula do recinto, aproveitando a sua acústica para melhor acentuar o carácter religioso da maior parte das canções. O início, um dueto vocal de Teresa Salgueiro e Francisco Ribeiro evocativo do cântico gregoriano, deu o tom ao concerto, que evitou temas mais extrovertidos como “O Ladrão” para se centrar numa solenidade que poderíamos definir como “fado de câmara”.

            “O Navio”, “Cuidado”, “O pomar das laranjeiras”, “Vaca de fogo” e o instrumental “As ilhas dos Açores”, entre outros títulos dos Madredeus, serviram de igual forma para demonstrar a capacidade dos seus membros em recriarem e remodelarem, em cada concerto, os arranjos. Da voz e da presença, ao mesmo tempo angelical e fadista, de Teresa Salgueiro, nunca é demais repetir que não tem rival no atual panorama da moderna música portuguesa. Modernidade que no caso dos Madredeus se funda na Eternidade.

            Os Madredeus existem para navegar. A partir de agora talvez também no inconsciente de uma Europa à procura de outro mar.

 

No ventre da baleia [Moby Dick]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 20 MARÇO 1992 >> Cultura

 

Novo supergrupo edita primeiro álbum em abril

 

No ventre da baleia

 

João Gil e Artur Costa fartaram-se dos Trovante. Alexandre Cortez tirou férias dos Rádio Macau. Juntos decidiram chamar-se Moby Dick, preocupar-se com o problema das baleias, recuperar alguma poesia portuguesa e fruir o simples ato de tocar. Num disco de palavras “fora de uso”, exorcismos e guitarras.

 

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            Depois dos Resistência e dos LX-90, é a vez dos Moby Dick recuperarem o velho conceito de “supergrupo”, explorado até à exaustão na década de 70. A ideia é trocar músicos e ideias. Explorar novas formações fora das bandas consagradas. João Gil vai mais longe: para o antigo guitarrista dos Trovante, trata-se de “uma maneira de continuar” a sua “existência em vida”. Uma espécie de reencarnação antes de tempo.

            O disco sai a 2 de abril com o selo BMG mas, segundo afirmaram os próprios elementos da banda, em conferência de imprensa, ontem em Lisboa, há já quem, sem sequer o ter ouvido, fale de “canções giras” e da voz que “é uma grande merda”.

            Escutadas as canções há que reconhecer que são bastante mais que “giras”. Dispensam o acessório para se firmarem no essencial, em arranjos que procuram preservar a verdade de cada instrumento e a sua inter-relação em estúdio. Por isso, um tema como “Lua dos imortais”, dos mais fortes do disco que, um pouco ao estilo de Ry Cooder, evoca a desolação e as grandes solidões alentejanas, foi gravado ao primeiro “take”. Por isso, as guitarras ora cortam como lâminas, ora se elevam ao céu. Por isso, Artur Costa (saxofone e sintetizadores) fala na “descoberta” e no “prazer” de juntar uma guitarra, um baixo, um piano e um saxofone. Sem que o estúdio constitua uma traição ou um engano. De maneira a “tentar esquecer vícios passados” e a “recriar o espírito de uma primeira banda”, como refere o baixista Alexandre Cortez. O reencontro com a “força que advém da relação com o silêncio” de que fala João Gil.

            Depois há os textos de Manuel da Fonseca (“O vagabundo do mar”), Jorge Palma (“Estrada”) ou Sebastião da Gama (“O sonho”), entre os originais de João Gil e João Monge (autor da letra de “Timor”, dos Trovante). E a coragem em cantar de caras, em “Olhos nos olhos” – escolhida para o “single” a retirar do disco – coisas quase loucas como “amo-te loucamente” que rimam com “esteticamente” e “constantemente”. Coisas que se dizem e ouvem, num drama doméstico soluçado na sala e nas horas de espera de um consultório médico e da vida, entre sonhos cor-de-rosa e folhas de “Hola” com que os corações se iludem nessa espera.

            Quanto à voz, também não é tão má como a pintam. Embora o próprio João Gil reconheça “ter ainda muito que aprender” neste aspeto. João Gil que, em “Carta aberta”, exorciza o fantasma dos Trovante, numa canção que fala de si próprio e de todos os que “fazem as malas e têm de recomeçar tudo de novo”.

            Moby Dick não esconde a sua vocação pop. Os “únicos limites”, que os seus elementos aceitam são os dos seus “sentimentos”. E as preocupações ecológicas que só lhes ficam bem. Com as baleias ou o “efeito de estufa que se fazia sentir no panorama musical português”. Partilhadas pelos músicos convidados: António Chaínho (guitarra portuguesa), Luís San-Payo, José Salgueiro e Emanuel Ramalho (os três bateristas convidados), João Cabeleira e Paulo Monteiro (guitarra elétrica), Manuel Paulo (teclados), Quim M’Jojo (percussões), Kalu (dos Xutos & Pontapés, coros) e Jonathan Miller (sintetizadores). Sem esquecer o coro feminino formado por Dora, Katila e Cláudia Mingas, que em “Kyrie Eléison” “brilha e sobe às alturas”.

            Ao vivo, os Moby Dick estreiam-se em setembro, “de preferência nos Açores, uma terra marítima, de mar bravo”. Como convém.

 

18/09/2026

Sentimento perpétuo [Carlos Paredes]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 MARÇO 1992 >> Destaque

 

Sentimento perpétuo

 

“Toco guitarra. As pessoas gostam de ouvir. Juntamo-nos. E assim vamos vivendo.” Em quatro frases simples, este é o retrato que Carlos Paredes faz de si mesmo — devolveu-nos a arte de ser português.

 


Tímido, amador, solidário sempre, Carlos Paredes confunde-se com o corpo de uma guitarra que "comove sem fazer chorar", onde vibra a tristeza de alguém que vive uma determinada forma de vida, também a alegria e a vontade de tocar para e entre amigos, nem que seja à mesa de um café. Hoje e amanhã, no Teatro São Luiz, em Lisboa, dia 25 no Rivoli do Porto, esperam-no o aplauso unânime e as grandes encenações. Luísa Amaro, Fernando Alvim, Natália Casanova, dos Diva, Mário Laginha, Paulo Curado, Rui Veloso são alguns dos convidados presentes, num espetáculo que inclui bailado e um grande final improvisado. Para Carlos Paredes, apenas "uma forma modesta de ver as coisas".

PÚBLICO – Quando posou para a fotografia, pegou na guitarra e começou a tocar. Tratava-se apenas de uma imagem...

CARLOS PAREDES – Sabe, pegar na guitarra e tocar é já um gesto tão habitual que mesmo quase sem pensar, instintivamente, começamos a querer tocar. Isso sucede-me com a guitarra portuguesa, com a qual contacto todos os dias, há anos.

P. – Como se a guitarra fosse uma extensão física de si próprio?

R. – Digamos que é a intuição que todos nós temos que nos leva a fazer música. Não posso estar com uma guitarra nos braços sem ter vontade de a tocar.

P. – Disse que toca guitarra todos os dias. Continua a tirar o mesmo prazer desse ato, após todos estes anos?

R. – Exatamente. Começo a tocar e vou-me adaptando à música, vou improvisando...

            P. – Reside aí a diferença entre ser músico e fazer música?

R. – Ah, pois, pois. No momento de tocar, a música fica a fazer parte de nós próprios.

P. – Quando toca guitarra, perde-se de si próprio ou consegue manter uma distância em relação ao instrumento?

R. – Nunca perco essa distância. Posso até ficar aborrecido ao ponto de não conseguir fazer nada. Mas há também um à-vontade, uma capacidade de ir inventando coisas.

P. – Referiu uma vez a necessidade de se criar em Portugal uma escola de guitarra...

R. – Sabe, é necessário fazer um método do instrumento, estudá-lo profundamente, ter lições e tirar delas o máximo proveito.

P. – Não se dará o caso de a guitarra portuguesa valer o que vale o seu intérprete, sendo necessário o seu completo domínio de maneira a conseguir uma linguagem personalizada?

R. – O que é preciso é um estudo profundo da técnica do instrumento, de maneira a melhorar a qualidade de som...

P. – Uma mera questão técnica?

R. – É evidente que da minha parte tem de haver uma certa predisposição para sentir que posso inventar música.

P. – Tem-se de si a imagem de uma pessoa demasiado modesta, como se não tivesse, ou não quisesse ter, consciência do seu real valor...

R. – Sabe, é perigoso. A guitarra é um instrumento tão pouco evoluído e desenvolvido que muitos problemas musicais passam pela guitarra sem que ela dê sequer por eles. Ignora-os, pura e simplesmente. Quer dizer, estar a participar nos anúncios e elogios que muita gente por bondade me faz...

            P. – Acha que é só por bondade? Não acredita que as pessoas se interessem e apreciem verdadeiramente a sua música?

R. – Bondade, porque elas se interessam pelo instrumento.

P. – Quer dizer que não se interessam pelo músico, pelo Carlos Paredes em si?

R. – Eu pouco posso dar, sabe. Tenho consciência do pouco que posso dar nesse aspeto.

P. – É difícil acreditar, quando ainda há pouco pegou na guitarra, durante escassos segundos, e logo se juntou espontaneamente um grupo de pessoas para o ouvir tocar.

R. – Pessoas que possivelmente viveram um período que eu também vivi...

P. – Não, a maior parte eram jovens.

R. – Eram jovens? É engraçado... Isso lembra-me os “Verdes Anos”, do Paulo Rocha, aquilo a que as pessoas na altura chamavam o "novo cinema português". Os argumentos já não eram apenas histórias de namoricos, eram histórias do dia-a-dia, da vida real. O argumento dos “Verdes Anos” foi extraído de uma notícia do jornal que contava o caso de um jovem que se apaixonou por uma rapariga e, a certa altura, teve um acesso e acabou por matá-la. É claro que isto parece una daquelas histórias tremendas, mas não, tratada de determinada maneira era apenas uma história das muitas que a vida tem.

            P. – Quando se fala dos “Verdes Anos”, as pessoas lembram-se logo do tema que compôs para a banda sonora. Como se tivessem sido tocadas no mais fundo de si próprias. Como se houvesse algo de muito profundo e português nesses sons...

R. – No caso de um filme, há muitas maneiras de acompanhar musicalmente uma história. Muitas maneiras de focar a dor e o sofrimento, a angústia. Pode não ser aquilo que existe em certo tipo de cantigas ou de fados, em que essa angústia é um bocado forçada. De lágrima ao canto do olho.

P. – A sua música reflete essa angústia?

R. – Eu desejaria que não refletisse. Se há nela uma angústia, é uma angústia muito especial.

P. – Que tipo de angústia?

R. – Nunca poderá ser uma angústia torturada, uma angústia que obriga permanentemente a chorar. Há certo tipo de canções antigas e urbanas, acompanhadas à guitarra, em que o seu gemido característico era aproveitado para pôr as cordas a chorar. Um choro mecânico, físico. O gemido da guitarra podia considerar-se o gemido da voz. Eu não gosto muito disso. Acho que o sofrimento há-de ter uns tons poéticos.

P. – Mas existe, de facto, na sua música um sentimento de tristeza.

R. – Uma tristeza equilibrada. Uma tristeza de alguém que vive uma determinada forma devida e que não força...

P. – Será o fado, essa "estranha forma de vida"?

R. – Posso dar um exemplo. Suponhamos que o meu amigo tem conhecimento de um caso em que a pessoa é torturada e tem tendência para chorar, para desesperar. Em vez de se focar o aspeto do desespero, é possível comover sem fazer chorar. Nos “Verdes Anos”, aquilo tudo não era acompanhado de lágrimas forçadas, e nem por isso deixava de haver comoção.

P. – Que relação a sua música mantém com o tema da "saudade"?

R. – A saudade pode ser uma outra maneira de forçar a angústia. Mas um certo tipo de saudade pode não ser necessariamente uma dor torturada.

P. – Essa "fuga" constante ao sofrimento, à angústia, terá alguma relação com a sua recusa de associar a guitarra apenas ao fado?

R. – Aquilo que no fado popular, sobretudo em Lisboa, era caracterizado pelo chamado "fado da desgraçadinha". Dir-se-ia que os fadistas andavam à procura de histórias tristes para fazer as canções, o chamado "fado sentido". Essas histórias eram muitas vezes selecionadas de acordo com aquilo que eram capazes de provocar nas pessoas: mais tristeza, mais angústia. Acho que nunca me servi disso. Prefiro abordar o sofrimento e os aspetos tristes da vida que nos dominam na intimidade e que não têm necessidade de ser exibidos.

P. – Tem muito que ver com a sua maneira de ser, de introspeção constante...

R. – Sim, uma introspeção que é possível encontrar em muita literatura portuguesa.

P. – Já que se fala de fado, vem à baila a velha questão: por que razão sempre se recusou a tocar com Amália Rodrigues?

R. – Eu não sei acompanhar a Amália.

P. – Como pode afirmar isso se nunca tentou?

R. – Não é preciso tentar. Tocar com a Amália exige uma certa escola, um certo conhecimento na forma de a acompanhar. Eu seria um mau acompanhante dela.

P. – Já arriscou com outros músicos, o Charlie Haden ou o Paco de Lucía, por exemplo...

R. – Ah, mas são outros géneros de música.

P. – Claro que são outros géneros de música. A questão que lhe estou a pôr é sobre a recusa em assumir um risco particular, de acompanhar a Amália...

R. – O Charlie Haden é um homem do jazz, do contrabaixo, e fez-me umas propostas interessantes. Eu limitava-me a introduzir também a guitarra, improvisando. Se eu hoje quisesse acompanhar a Amália não conseguia. Os guitarristas que a acompanham são especialistas que, à sua maneira, criam coisas novas. Eu já não seria uma pessoa para isso. O mais certo era ter de desistir logo. É como se tocássemos instrumentos diferentes.

P. – Entrámos num outro tema, da improvisação, sempre presente na sua música. Até que ponto essa improvisação se estendeu à sua carreira, senão mesmo à sua vida?

R. – A improvisação vive connosco. Há certos acontecimentos da nossa vida que nos obrigam a encontrar uma solução rápida. Muitas vezes isso acontece com o improviso. Há quem diga que o português é mestre da improvisação. O que muitas vezes procuro é uma solução ocasional, rápida, servindo-me dos elementos que tenho à mão. Se não houvesse um certo grau de improvisação, teríamos dificuldade em nos adaptarmos aos acontecimentos, ao inesperado.

P. – Voltemos à Amália Rodrigues, que fez carreira, em Portugal e no estrangeiro. O Carlos Paredes não lhe fica atrás em qualidade artística, mas nunca alcançou o mesmo tipo de projeção. No seu caso, o que é que faltou, se é que sentiu ter faltado alguma coisa?

R. – Pois, a Amália impõe-se pelo género que canta, muito ligado ao fado tradicional, ao sofrimento que se exprime fisicamente. Não queria dizer "fácil"... Como se costuma dizer: viver os acontecimentos ao canto do olho... É preciso falar da vida sem cair no exagero, sem chorar.

P. – Acha que a Amália cai no exagero?

R. – Não cai no exagero, pois não. Eu diria que o caso da Amália é completamente inimitável.

P. – Mas acabou por não responder à pergunta anterior, sobre a planificação da sua carreira, por não existir...

R. – Pois não. Eu e a Amália temos culturas e origens diferentes.

P. – Vamos pôr a Amália de lado. Nunca se preocupou com os aspetos práticos da sua carreira? Ou com a necessidade de uma aceitação a uma escala maior?

R. – As pessoas aceitam-me conforme me ouvem.

P. – Mas primeiro têm de saber que a sua música existe, de a conhecer...

R. – Nunca fiz muito esforço nesse sentido. As pessoas que apreciam, que gostam de me ouvir tocar guitarra ouvem, a coisa agrada-lhes e eles aderem. Não há mais nada.

P. – Uma atitude semelhante ao que acontecia na antiga música de salão, tocada para um número restrito de pessoas...

R. – ... Entre amigos, sim.

P. – É assim que se sente mais à vontade a tocar?

R. – Exatamente. Em família, na intimidade. Acompanhando o tocar de uma conversa em que falamos de nós, dos amigos, dos acontecimentos da vida diária.

P. – E no entanto prepara-se para tocar em grandes espetáculos, com encenação e músicos convidados...

R. – Quem organizou este espetáculo foi um empresário [António Pinho] que estudou a fundo as coisas, entrou em contacto com as pessoas, etc. Mas penso que vai ser tudo numa escala reduzida. Uma forma modesta de ver as coisas. Um bailarino, por exemplo, pode exibir-se com um grande grupo, num grande palco, mas pode também fazer pequenos apontamentos musicais, menos complicados. É isso que eu faço.

P. – Que reportório tocará nesses espetáculos?

R. – Vou tocar coisas antigas, incluindo duas peças de há 20 anos, do período em que ainda tinha desejo de ser virtuoso e em que utilizava desenhos tecnicamente difíceis. Tocarei, é claro, outros temas mais recentes e mais simples. Abandonei os malabarismos para me dedicar à verdade melódica da guitarra.

P. – E em conjunto com os artistas convidados?

R. – A Natália Casanova vai cantar uma canção do José Afonso, “Cantiga de Maio”. Vou tocar o começo de “Porto Santo” e depois deixarei o desenvolvimento ao (Mário) Laginha, que improvisará à sua vontade. Com o Rui Veloso vai ser um bocado mais difícil. É um músico com uma técnica muito pessoal e não se pode levianamente pegar nas canções e fazer improvisações de acompanhamento.

            P. – Há quem diga que certos partidos políticos, em determinadas ocasiões, se terão aproveitado da sua maneira de ser, convidando-o para participar em iniciativas sem um mínimo de condições nem contrapartidas. Concorda?

R. – Não. Nunca houve da parte de ninguém a intenção de se aproveitar de mim, e até o podiam fazer, não é?

P. – Mas nunca diz "não" a ninguém?

R. – Repare, as pessoas convidavam-me para participar em espetáculos e o espírito que eu levava era um espírito de alguém que gosta de tocar, de ouvir a opinião das pessoas, que pode tocar até para quem está a tomar um café e a conversar.

P. – Isso é o seu ponto de vista. Alguma vez se preocupou com as razões da outra parte?

R. – Então vou-lhe ser franco. Participei em muitas coisas simplesmente levado pelos meus sentimentos de solidariedade. Como outros também participavam.

P. – Mas acha bem que um músico da sua estatura continue a trabalhar como funcionário de um hospital, em vez de se dedicar por inteiro à sua música?

R. – Bem, isso é o que muita gente pode pensar. Que um indivíduo que até faz determinada música se deve especializar, até de um ponto de vista profissional. Mas, infelizmente, não foi possível fazê-lo. Por exemplo, o meu pai (Artur Paredes) era um amador e tinha o seu emprego. As pessoas nessa época não dependiam da música, no entanto faziam música porque isso lhes dava um prazer pessoal.

P. – Hoje, apesar de tudo, é possível viver em Portugal só da música. Pensou alguma vez nessa possibilidade?

R. – Havia de facto músicos que eram convidados, e havia uma certa retribuição em dinheiro para lhes facilitar a vida. Quer dizer, começavam a ganhar dinheiro suficiente para viver. Mas não foi isso que me sucedeu, ou sucedeu só de vez em quando. Houve, em determinada altura, a Cantar Abril, uma organização semiprofissional em que se passou a fazer contratos. Evidentemente, o dinheiro que se ganhava até dava, por vezes, para resolver problemas económicos. Mas nunca fui muito de receber essa retribuição.

P. – Um amador puro.

R. – Sim, porque se não fosse um amador ninguém me suportava a tocar guitarra.

P. – Acredita de verdade no que está a dizer? Parece ter sempre uma opinião negativa de si próprio e da sua música...

R. – Não, não suportavam... Começavam a sentir a falta daquele espírito amador que faz com que numa plateia se ouça um guitarrista como eu de forma diferente, por exemplo, dade um profissional como o Segóvia.

P. – Houve alguma alteração na sua carreira a partir do 25 de Abril?

R. – Não sei como é que os artistas resolvem os seus problemas, se porventura têm a possibilidade de ganhar um tanto por cada recital. E possível que isso lhes dê uma quantia apreciável que lhes permita resolver muitas coisas. Conheço, por exemplo, o caso de um cantor ligeiro que a determinada altura disse: "Preciso de comprar um andar." E comprou.

P. – Mas, no seu caso pessoal, sentiu alguma modificação?

R. – Não. Nunca procurei resolver problemas por esse sistema. Toco guitarra. As pessoas gostam de ouvir. Juntamo-nos. Tocamos. E assim vamos vivendo.