PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 AGOSTO 1991 >> Pop Rock
A
MÁQUINA, PEÇA A PEÇA
Ao longo de quase
duas décadas, com intervalos de produção mais ou menos alargados, a discografia
dos Kraftwerk representa a expressão máxima da modernidade e a apologia irónica
do “homem-máquina”. Agora, na sequência do êxito de “The Mix”, os álbuns
originais “Radio-Activity”, “Trans Europe Express” e “The Man Machine” vão ser
repostos em breve no nosso mercado, mas o que se impõe é a retrospetiva
integral.
KRAFTWERK/ORGANIZATION,
1972
Duplo álbum raridade editado na
Vertigo, no qual os Kraftwerk antecipam a apoteose metálica que, anos mais
tarde, os seus compatriotas Einstürzende Neubauten ou os ingleses Test
Dept se encarregaram de celebrar. Numa Berlim então seduzida pelo misticismo
planante dos Tangerine Dream e de Klaus Schulze, os Kraftwerk moldavam com a
argamassa de Cage, Stockhausen e os resíduos estruturais do concretismo,
esculturas de água e de metal, em reverberações corrosivas que depois se haveriam
de chamar “música industrial”. Outros agrupamentos germânicos da época,
Harmonia, La Dusseldorf, Cluster (cujo álbum “Cluster II” consitui o primeiro
grande manifesto do “som industrial”) ou os Neu! viriam, cada um a seu modo,
explorar as vias abertas pelos Kraftwerk, formando um núcleo vanguardista
surgido precocemente nos anos em que quase todos se preocupavam mais com as
imensidões cósmicas do que com a beleza claustrofóbica das grandes fábricas do
Ruhr.
RALF AND FLORIAN,
1973
As grandes avalanchas sónicas do
primeiro álbum são recicladas num carrossel minimalista que pela primeira vez
provoca nos neurónios ânsias de dançar. “Elektrisches roulette” ou a rumba
ciberpaquidérmica “Tanzmusik” (“música de baile”) demonstram até que ponto
Terry Riley tinha razão quando defendia que o infinito era circular.
“Kristallo” e sobretudo a frescura de frutos e paisagens tropicais de “Ananas symphonie”
acariciam o corpo elétrico de Bradbury e abrem caminho para as sedimentações
ambientalistas que Brian Eno transformaria em género autónomo.
AUTOBAHN, 1974
A auto-estrada e o fascínio do
universo linear, ideal para se chegar ao novo mundo, dirigido por controlo
remoto. “O automóvel é um instrumento de música”, diziam então Ralf Hütter e
Florian Schneider, pela primeira vez auxiliados nas percussões robóticas por
Wolfgang Flür e Klaus Roeder. Conny Plank fornecia a garagem, mas, para os
Kraftwerk, o estúdio convencional começava a ser pequeno para a desmesura do
projeto. A consola auto-suficiente da “fábrica” portátil Kling Klang seria a
solução e o veículo privilegiado na construção do império eletrónico. “Wahn
wahn wahn, das ist autobahn” – transmite o auto-rádio à saída de uma curva,
consumando a ultrapassagem definitiva da “Fun fun fun” demasiado humana dos
Beach Boys. A “Folk” industrial nascia em 22m30 de viagem através dos
arquétipos do homem como eterno transeunte que foram “top” nos Estados Unidos e
deveriam servir de exemplo à nossa Junta Autónoma de Estradas. O segundo lado
despede-se do céu e das delícias da sonoridade analógica.
RADIO-ACTIVITY,
1975
Considerado à época uma desilusão,
“Radio-Activity” permite aos Kraftwerk a descoberta das melopeias infantis e o
abuso da melodia simplista. A rádio deixa de passar música e torna-se
ameaçadora. “Radio-activity, discovered by Madame Curie, is here to stay, for
you and me” – a mensagem, dita desta maneira, era difícil de levar a sério, mas
Chernobyl viria a endurecer o conceito, juntando-lhe a dimensão da tragédia (os
Kraftwerk acrescentariam mesmo, por causa da catástrofe, novos versos ao tema,
em “The Mix”). “Airwaves” flutua no ar com a insustentável leveza do vazio
pós-nuclear. Mas como numa novela de Philip K. Dick, a realidade é sempre outra
coisa e a consciência perde-se sem querer no labirinto das suas próprias
mutações. A Europa dançava a valsa dos eletrões.
TRANS EUROPE
EXPRESS, 1977
Interrompida pelo álbum anterior, a
viagem prossegue agora de comboio, que substitui o automóvel, como meio de
transporte para o futuro. Síntese magistral de uma tradição europeia
reinventada (Franz Schubert de martelo-pilão, a destruir os alicerces
românticos), na miragem de uma prosperidade pós-industrial ou na nostalgia
totalitária de um continente sem fronteiras. Os Kraftwerk atingem o domínio
pleno das técnicas manipulatórias do imaginário contemporâneo. O horror de uma
viagem sem fim com destino ao inferno (McLuhan chama-lhe a “aldeia global”) é
camuflado pelo polimento extremo do som e pela depuração da palavra, reduzida
ao essencial e por isso com um máximo de eficácia. Numa Europa “Endless”, até
ao infinito, esmagada no clamor de “metal on metal”, “Trans Europe Express” deu
uma alma à máquina e ensinou David Bowie (de “Station to Station”) a ser
moderno.
THE MAN MACHINE,
1978
Título óbvio para a continuação de
um projeto único na música ocidental do nosso século – a simbiose harmoniosa
entre o homem e a máquina, simbolizada na clonagem dos músicos e enfatizada
pelas referências estéticas a Lissitsky e ao construtivismo russo. “As máquinas
respondem-nos diretamente e nós às máquinas” – declarava Ralf Hütter a
propósito de “We are the robots”, levando ao absurdo o termo comunista
“robotnik” – o trabalhador perfeito, como peça da máquina omnipotente que é a
sociedade materialista.
Emoção geométrica. Paraíso matemático.
Futuro a escurecer em metrópoles banhadas na cor gelada de “neon lights”,
tornadas substitutas das estrelas na arquitetura do cosmos.
O mundo deixa-se ofuscar pelo novo
brilho – “Looking for a perfect beat” dos Afrika Bambaata deve a inspiração aos
homens-máquinas. “The model” é êxito nas Filipinas, cantado por uma intérprete
local. “Trans Europe Express” assume a paternidade da “Cold Wave” ou da pop eletrónica
dos Human League, Depeche Mode, Telex, Orchestral Manoeuvres in the Dark, John
Foxx, New Musik, Fad Gadget, entre muitos outros.
COMPUTER WORLD,
1981
Bem instalados no coração da
máquina, os Kraftwerk inventam novos “video games” para consumo do homem
automático. “Pocket calculator” é tocado em calculadoras de bolso Casio e
Texas, que, nos concertos ao vivo, são distribuídos à assistência, convidada a
com eles improvisar. Data desta época a remodulação do estúdio Kling Klang, de
maneira a permitir a sua utilização em palco, concedendo ao conceito duplo de
“hardware / software” a dimensão do espetáculo. Anulada a tensão dialética
entre racionalidade luciferina (“Numbers”) e a emoção, resta a derradeira
mutação interior e a capitulação do humano, demasiado humano, na pureza fria do
amor computorizado.
ELECTRIC CAFÉ, 1982
“Boing boom tschak”, cadência
onomatopaica com que os Kraftwerk se servem para parodiar o Hades teleológico,
imitando com a voz o som dos sintetizadores e introduzindo uma nota de
humanidade e humor à implacabilidade do projeto. “Electric Café” é o ponto de
diversão possível num pesadelo já consumado. Muito minimal para cérebros
normais – “Techno pop”, “Musique non stop” –, a vida, considerada abstração, só
através da repetição “ad infinitum” da melodia como hipnose terapêutica,
consegue o sucedâneo artificial capaz de manter a máquina em funcionamento.
“Sex object” e “The telephone call” falam da solidão. Gerado por um computador,
o homem será ainda o animal que ri?