18/04/2026

Danças e cânticos do fundo dos tempos [Encontros Musicais da Tradição Europeia]


 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 9 JULHO 1991 >> Cultura

 

Segundos Encontros Musicais da Tradição Europeia animam terras portuguesas

 

Danças e cânticos do fundo dos tempos

 

Todos se encontram com todos, nestes “Encontros” europeus que começam a ter tradição. Ou pelo menos, todos os que não desprezam o passado para melhor viver o presente e projetar o futuro. Em quatro localidades do país, a alegria tem sido a palavra de ordem.

 

Uma imagem com texto, preto, branco, vintage

Descrição gerada automaticamente

 

Em Guimarães, Famalicão, Oeiras e Évora decorrem, desde a passada quarta-feira, os Segundos Encontros Musicais da Tradição Europeia, até agora um sucesso a todos os níveis. Música tradicional do “velho” continente. A festa de mãos dadas com a cultura, numa louvável iniciativa que, à semelhança do ano passado, voltou a apostar, e bem, na descentralização. No meio da ruína de capelinhas decrépitas, a corrupção e as grandes negociatas, louve-se o despontar de novas alternativas que, como esta, dêem a conhecer outras maneiras de ver e sentir o mundo em que vivemos.

Os artistas vieram de regiões afastadas pela geografia mas próximas na identidade profunda e na génese cultural. Chegaram até nós vindos da Occitânia e Lyon, França, da Catalunha, Espanha, da Inglaterra e da Irlanda. Os portugueses cá estão, para mostrar tesouros e maravilhas, em desafio amigável com o resto da Europa.

Hoje em Famalicão, por exemplo, tocam os ingleses Whippersnapper e os lioneses “La Grande Bande des Cornemuses”. Amanhã será a vez de Guimarães receber os ingleses e os occitanos Perlinpinpin Folc. E assim por diante, numa ronda fraterna por uma Lusitânia de súbito desperta para o seu amanhecer.

No passado sábado, a noite, aprazível, convidava à fruição. Dos prazeres do corpo e do espírito. Aconteceu assim, no parque, muito a propósito chamado “dos Anjos”, em Algés, porque os dez gaiteiros de Lyon não cabiam no auditório e a noite era propícia ao ritual.

Noite inesquecível para quantos trocaram o conforto das pantufas e a realidade virtual do pequeno écran pela celebração coletiva das festas da Lua e o convívio ameno com os sons, os outros e a Natureza, ali, como que por magia, concentrada num microcosmos quadrado e empedrado, delimitado pela luz dos holofotes e pela expectativa de crianças e graúdos.

 

Rituais dionisíacos

 

De súbito, irrompendo por entre as conversas e a música de José Afonso que saía dos altifalantes, a surpresa e o sobressalto, provocados pela entrada no terreiro, de uma personagem mascarada, de chifres ameaçadores, percutindo um enorme tambor pendurado à maneira de um falo, a ditar o ritmo do corpo. Depois, um a um, os dez gaiteiros da “Grande Bande des Cornemuses”, dirigidos por Jean Blanchard e coreografados por Laurent Figuière, foram surgindo de entre o arvoredo ou das escadarias do palácio, num crescendo sonoro provocado pelas gaitas-de-foles que aos poucos se iam juntando em uníssona congregação ao centro do recinto. Os músicos vestidos de branco, flores, ramagens e frutos na cabeça e à volta da cintura, evocavam, de forma deslumbrante, as cores e os sabores dos ciclos naturais. Em louvor a Pan, o deus dos rebanhos e dos bosques.

Diante dos muitos olhos e ouvidos siderados com o inusitado da apresentação, foram recriadas várias cerimónias ancestrais, com os músicos em constante movimento, na teatralização de mitos sobre a vida e a morte, ao mesmo tempo que as gaitas-de-foles enchiam o ar de cadências hipnóticas. A assistência susteve a respiração, quando dois dos gaiteiros retiraram a máscara e cortaram a longa cabeleira ao chifrudo, de maneira a simbolizar a vitória da energia espiritual sobre as pulsões do instinto. Ou quando Jean Blanchard incarnou o sacrificado, “morto” e ressuscitado num longo solo da gaita-de-foles. Completo o ciclo, os músicos terminaram a sua atuação como tinham começado, abandonando progressivamente o recinto até o som das gaitas se extinguir finalmente num recanto verde atrás da bancada.

 

Calores do Mediterrâneo

 

No dia seguinte o programa prometia. Rosa Zaragoza atuou na primeira parte, enchendo a sala com uma voz e presença corporal avassaladoras. Calor e garra, nas entoações vocais, nos requebros do tronco, na pose extrovertida. Os espanhóis chamam “salero” a este fogo. Acompanhada por quatro músicos (um no bouzouki, outro na guitarra e violino, um percussionista e uma rapariga de decote mais que generoso, nos apoios vocais), por vezes hesitantes e de modo algum à sua altura, Rosa interpretou temas dos seus três álbuns, alternando o repertório sefardita em que é especialista, com tradicionais turcos ou da Catalunha, mostrando à saciedade porque é considerada uma das maiores vozes atuais da música mediterrânica.

Do álbum “Cançons de noces dels jueus catalans”, “Sir Nasir La-Hatan” ou “Dia de Shabat”, evocativo do incêndio de Salónica, constituíram momentos altos de uma atuação que cedo a todos surpreendeu pela positiva. A parte final foi preenchida por temas do mais recente “Les nenes bones van al cel; les dolents a tot arreu”, o tal das meninas más que, em vez do céu, vão para “todo o lado”… Destaque para “Glosses contra la celebració del V centenari”, dedicada aos índios americanos e “Baga, biga, higa”, com letra retirada da tradição oral basca, em que vestiu a pele de uma feiticeira a lançar o sortilégio. Pelo sim pelo não, avisou os presentes, não fosse alguém transformar-se, ali mesmo, num inseto.

Regressou ao palco para dois “encores”: “Ai, quina alegria…” onde se congratulou por não ser Madonna nem ter uma moradia em Miami Beach e, a fechar, uma canção de embalar, cantada em solo absoluto.

 

Ritmos endiabrados

 

Com a entrada em cena dos irlandeses Altan, tudo despareceu para dar lugar à vertigem da dança. Insuperáveis executantes nos respetivos instrumentos, com relevo para os dois violinistas, Paul O’Shaughnessy e Mairéad Ní Mhaonaigh, uma loura angelical, toda de branco, e para o flautista Frankie Kennedy. Como quase sempre acontece e é típico dos irlandeses, sobretudo quando já bem bebidos, o humor não podia faltar. Nunca perdendo o ar circunspecto, Frankie, flautista e um dos contadores de histórias de serviço, provocou amiúde a hilariedade, com constantes apartes e referências à boa cerveja portuguesa ou ao nome dos alfaiates que confecionaram os trajes (vulgaríssimos) de cena.

Numa prestação que incidiu sobretudo nos “reels” e “jigs” instrumentais, as baladas interpretadas por Mairéad (por ora ainda distante da excelência de grandes damas como Dolores Keane, Triona O’Domhnaill ou Catherine Ann-MacPhee) criaram, por contraste, momentos de intimismo e descompressão que logo davam lugar a mais uma sequência de ritmos endiabrados. O homem do bouzouki partiu uma das cordas do instrumento, no entusiasmo da refrega. Mairéad sorria de olhos brilhantes, incrédula com a recetividade e a crescente loucura do público, e ligava o “turbo” do violino, acelerando ainda mais a desafiar os outros que, por sua vez, a ultrapassavam.

Alguns jovens não resistiram, saltando das cadeiras para se entregarem, sem preconceitos, à dança, perante o olhar complacente dos mais velhos. A festa, enfim. Total e libertadora, fazendo esquecer esse outro ritmo, por vezes monótono e enfadonho, do dia a dia.

À saída houve quem reparasse no som solitário de uma gaita-de-foles, gemendo a um canto afastado do bar. Um dos “sonneurs de cornemuse”, muito jovem, evocava, de olhos cerrados, em profundo transe alcoólico, a beleza indizível de uma música que toca onde poucos ousam tocar. Houve quem se risse. Houve quem calasse, comovido, e saísse para a noite cálida, a sonhar.

 

O baile vai começar [Encontros da Tradição Europeia]

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 JULHO 1991 >> Cultura

 

Encontros da Tradição Europeia arrancam hoje em Famalicão

 

O baile vai começar

 

Da Occitânia à Catalunha, do Piemonte à Irlanda e Escócia, sem esquecer o Portugal de ressonâncias celtas, a aposta na divulgação de uma herança musical que, fluindo embora por diferentes leitos, nasceu e desagua em águas comuns. Europa de novo confluente no seu extremo geográfico e anímico mais ocidental.

 

 

Em Famalicão têm hoje início os 2ºs Encontros da Tradição Europeia, que também decorrerão em Oeiras, Évora e Guimarães. Como no ano passado, são organizados pela Cooperativa Cultural Etnia. Durante treze dias, a música tradicional ocupa o centro das atenções. De Norte a Sul, desenhando um quadrilátero (ou uma cruz) arquitetado com a energia animada, dizia Pascoais, pela “saudade do Futuro”. Compreender esta expressão é compreender o sentido do tempo e a maneira como a cultura se estratificou na Europa, varrida nos primórdios por ventos e ideais do Oriente.

Dos brâmanes hindus e bardos celtas aos novos trovadores que, entre o cimento das grandes metrópoles, de novo erguem o bordão e a “estela”, são ainda e sempre os eternos peregrinos do novo mundo, a calcorrear estradas e eras de São Tiago, entre pedras e estrelas, até Compostela, a buscar o infinito.

 

Oito descobertas

 

Oito caminhos, outras tantas descobertas: Altan (Irlanda), Robin Williamson (Escócia), Whippersnapper (Inglaterra), Perlinpinpin Folc (Occitânia, França), La Grande Bande des Cornemuses (França), La Ciapa Rusa (Piemonte, Itália), Rosa Zaragoza (Catalunha, Espanha), Vai de Roda e Romanças (Portugal).

Com três álbuns gravados, “Altan”, “Horse With no Heart” e o recente “The Red Crow”, os Altan constituem uma das grandes revelações da “Folk” irlandesa dos últimos anos, da estirpe de grupos lendários como os Bothy Band ou Planxty. Mairéad Ní Mhaonaigh (violino e voz), Frankie Kennedy (flauta), Ciaran Curran (bouzouki), Mark Kelly (guitarra), Paul O’ Shaughnessy (violino) e Ciaran Tourish (violino) dão corpo e voz a um ritmo endiabrado e a melodias inspiradas no gaélico, que, no cruzamento entre o antigo e o novo, recuperam a jovialidade e o ritual de encontro com a terra.

A Oriente da “terra da ira”, os Whippersnapper fazem dos instrumentos de corda reis da festa. São três (Dave Swarbrick, violinista louco dos seminais Fairport Convention, abandonou recentemente): Martin Jenkins e Kevin Dempsey (antigos membros de uma das bandas mais interessantes da “Progressive Folk” dos anos 70, os Dando Shaft) e Chris Leslie. Juntam o “mandocello”, o bandolim, as guitarras e a flauta aos sintetizadores, aliando a doçura dos “airs” à eletrónica e a um discurso por vezes próximo do “jazz”.

O terceiro representante das Ilhas Britânicas é Robin Williamson, novo bardo escocês, harpista como mandam as regras do segredo. Integrou, ao lado de Mike Heron, uma das bandas mais estranhas de sempre, os Incredible String Band, mistura exótica de mil e um instrumentos, mantras hipnóticos e mitologia celta, com o rock e o “senhor dos anéis” de permeio. A dada altura optou pelo que julgou ser o essencial: a harpa, o mundo antigo, as lendas e histórias para crianças. A solo ou com os Merry Band. Vinte e seis álbuns gravados e uma recusa sistemática em se entregar aos esquemas da indústria, conferiram-lhe o estatuto de referência obrigatória no capítulo dos grandes músicos populares do nosso tempo.

 

A vassoura também toca

 

Perlinpinpin Folc e La Ciapa Rusa repetem a presença nos Encontros. Regresso inteiramente justificado, já que constituíram dois dos melhores momentos da edição do ano passado. Ambos recuperam, de forma deslumbrante, a música popular das respetivas regiões (Occitânia e Piemonte), enriquecendo-a com um bom gosto e uma mestria técnica notáveis, servidos por arranjos inovadores. Fabulosos, no caso dos italianos, a voz divinal de Donatta Pinti e o modo como manejam as sanfonas, de fazer corar o espalhafato supérfluo das “estrelas do rock ‘n’ roll”. Quanto aos franceses não espanta vê-los tocar um saxofone feito de um cabo de vassoura ou uma espécie de realejo de vidro, enquanto as vozes se vão ocupando de intricadas polifonias.

Momento especial será decerto aquele proporcionado pela Grande Bande des Cornemuses, grupo de 10 tocadores de gaitas-de-foles, oriundo de Lyon, dirigido por Jean Blanchard (membro fundador dos La Bamboche), preparado para, logo no primeiro dia, animar as ruas de Algés, contando para tal com a encenação de Laurent Figuière, baseada na relação ancestral entre o homem e a Natureza.

Em Rosa Zaragoza encontram os judeus sefarditas do Sul de Espanha uma das suas vozes mais empenhadas, em álbuns como “Cançons de noces dels jueus catalans” ou “Cançons de Bressol del Mediterrani”. No mais recente, “Les nenes bones van al cel, les dolents, a tot arreu”, (as meninas boas vão para o céu, as más para todo o lado…) manifesto a favor das tais que “vão para todo o lado”, defende esta e outras minorias, como a cigana e a índia. Rosa vem acompanhada de quatro músicos, mas só o timbre inusitado e a emoção do canto chegam para provocar arrepios.

Finalmente os portugueses Vai de Roda (Tentúgal sempre às voltas com as bruxas do terreiro) e Romanças (que recentemente andaram em digressão pelas Ilhas Britânicas) completam um programa recheado de nomes importantes, capaz de, a breve prazo, tornar estes “Encontros” num dos principais festivais europeus de música tradicional.

  

 

PROGRAMA DAS FESTAS

 

ÉVORA

Praça do Giraldo

 

 

 

6 de julho

Altan

Perlinpinin Folc

(Irlanda)

(Occitânia / França)

10 de julho

Whippersnapper

Perlinpinpin Folc

(Inglaterra)

(Occitânia / França)

10 de julho

Rosa Zaragoza

 

Robin Williamson

(Catalunha / Espanha)

(Escócia)

11 de julho

La Grande Bande des Cornemuses

(França)

11 de julho

Whippersnapper

Vaide Roda

(Inglaterra)

(Portugal)

16 de julho

Romanças

Robin Williamson

(Portugal)

(Escócia)

 

 

FAMALICÃO

Praça 9 de Abril

 

OEIRAS

Auditório do Complexo Social das Forças Armadas

3 de julho

Vai de Roda

Perlinpinpin Folc

(Portugal)

(Occitânia / França)

6 de julho

La Grande Bande des Cornemuses

(França)

5 de julho

Altan

Rosa Zaragoza

(Irlanda)

(Catalunha / Espanha)

7 de julho

Altan

Rosa Zaragoza

(Irlanda)

(Catalunha / Espanha)

9 de julho

Whippersnapper

La Grande Bande des Cornemuses

(Inglaterra)

(França)

12 de julho

Whippersnapper

Vai de Roda

(Inglaterra)

(Portugal)

12 de julho

Robin Williamson

(Escócia)

13 de julho

Perlinpinpin Folc

 

Robin Williamson

(Occitânia / França)

(Escócia)


GUIMARÃES


Praça do Santiago

 

Todos os espetáculos são gratuitos e iniciam-se às 21h30

Excecionalmente, a atuação de La Grande Bande des Cornemuses em Oeiras (6 de julho) realiza-se no parque dos Anjos, em Algés


4 de julho


La Ciapa Rusa

 

Altan


(Piemonte / Itália)

(Irlanda)

 

Tony Banks - Still

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 JULHO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

Tony Banks
Still
LP/MC/CD, Virgin, distri. Edisom


 







Ainda por cá, Tony? Para quem não sabe, Tony Banks é o teclista dos Genesis, banda outrora importante, transformada, a partir do momento em que Phil Collins tomou conta das operações, num placebo grotesco, destinado ao consumo das massas viciadas no “som FM”. “Still” é o vazio, a ausência completa de ideias, de originalidade, de um estilo próprio, de música, enfim. Como quase sempre acontece nestes casos de degenerescência avançada, procura-se tapar o buraco recorrendo à utilização maciça de massa (pouco) consistente, feita de músicos convidados, escolhidos mais ou menos ao acaso. Em “Still” calhou aos vocalistas Nik Kershaw, Andy Taylor e Fish, o homem que gostaria de ter nascido Peter Gabriel, tentarem fazer passar por canções meros arranjos de estúdio. Uma referência final, elogiosa, para a vocalista feminina Jayney Klimek, que, levando em consideração a fotografia inclusa, desde já aconselhamos vivamente a trocar a música pelo cinema ou por uma carreira de modelo. Quanto ao resto, “Still” não existe. *

16/12/2025

The Beach Boys - Collection

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 JULHO 1991 >> Pop Rock >> Reedições

 

THE BEACH BOYS
Collection
LP duplo/CD, Capitol, ed. EMI - Valentim de Carvalho
 

Na prática a única diferença entre a coletânea agora editada e a do ano passado, “Summer Dreams”, é o rótulo de “anunciado na TV” que aquela ostenta, orgulhosa, na capa e o corte de algumas canções de caráter mais intimista. De resto é a lista de clássicos do costume, as notas (breves) em português e a embalagem saloia a puxar idas à Caparica, de “tijolo” às costas. Onde “Summer Dreams” procurava inserir-se num contexto nostálgico, de Verões perenes, passados ao sol de uma época e de uma Califórnia míticas, destacando a faceta de compositor genial de Brian Wilson, “Collection” vai mais pelo lado “gelado de limão”, procurando impor a imagem duns Beach Boys adeptos de uma filosofia de vida simplista, que compunham melodias facilmente trauteáveis, ideais como acompanhamento para os prazeres do “surf” ou de “flirts” de ocasião.

 

 

Não seria possível, por uma vez, trocar a jogada oportunista dos “hits” pela edição dos discos originais? Dito isto, as canções aqui colecionadas, quase todas tornadas “clássicos”, permanecem intocáveis. Daí a classificação atribuída. ****

 

NICO - The Marble Index

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 JULHO 1991 >> Pop Rock >> Reedições

 

O ÍNDICE DA DOR

 

NICO
The Marble Index
CD, Elektra, import. Contraverso
 

Uma imagem com texto, engrenagem

Descrição gerada automaticamente

 

Deusa da lua, heroinómana, valquíria, mulher de má vida, anjo exterminador, romântica, gélida, misteriosa, de tudo chamaram a Nico, Christa Paffgen de seu verdadeiro nome. Começou como modelo. Federico Fellini descobriu-a atriz e loura e apresentou-a em “La Dolce Vita”, na pele e na pose de “star” entediada. Andy Warhol, o tédio personificado, descobriu-a cantora e lançou-a às feras, que é como quem diz, aos jovens leões Lou Reed e John Cale – então alucinados em ondas sucessivas de provocação e “feedback”, num projeto a que chamaram Velvet Underground – e à vertigem multimédia da “Exploding Plastic Inevitable”, entre as contorções de Edie Sedgwick, as projeções e luzes psicadélicas de Danny Williams e Paul Morrissey e o chicote de Gerard Malanga.

Ela distinguia-se no meio da confusão, com o seu porte altivo de deusa lívida e lunar e o ar distante de quem se passara para o outro lado. Esfinge marmórea, a cantar, com voz grave e cortante de “Femme fatale”, “All tomorrow’s parties” e “I’ll be your mirror”, no álbum da banana, contra os estertores anfetamínicos dos companheiros. A ela, à deusa, até as anfetaminas provocavam depressão e a faziam descer sem remédio, degrau a degrau, a escada que conduz ao inferno. O inferno eram os outros. Todos. Brian Jones, Bob Dylan, Tim Buckley, Tim Hardin e Jackson Browne foram dos poucos que lhe compreenderam o destino e aceitaram a loucura. E John Cale, até ao fim.

Conversas intermináveis e sem sentido, nos desencontros do hotel Chelsea. Uma tentativa fracassada para a plastificarem ao lado de barbies como Sandie Shaw, Cilla Black ou Dusty Springfield. A compra do pequeno órgão de foles, que viria a constituir peça fundamental na sua iconografia de negritude e solidão. Fragmentos de uma lenda que a morte prematura tornou ainda mais difusa e impenetrável a interpretações. Durante um concerto a solo na nave de uma igreja, houve quem garantisse ter visto o seu rosto transformar-se em caveira. Nico simbolizava a máscara humana e feminina da morte.

“The Marble Index” personifica de forma exemplar esse fascínio por Tanathos, pela sombra, pintada com os tons violetas e dourados da decadência romântica. “Lawns of dawns”, “Facing the wind” ou “Frozen warnings” arrasam as estruturas narrativas da canção pop convencional, ao mesmo tempo que invertem o sentido do discurso amoroso, tornado sinónimo de dor e abandono, em entoações de gelar a alma, envolvendo-a num manto de eterna escuridão. “The Marble Index” assinala a fronteira entre dois mundos – o dos deuses (e demónios) e o humano –, na qual, diz a mitologia, vagueiam os heróis. Num filme crepuscular sobre a morte, “Le Berceau de cristal”, Philippe Garrel (que filmava para evitar suicidar-se, como amiúde afirmava) mostra a Nico a declamar um poema de flores mortas e gritos silenciosos, na única concessão à voz humana.

Em Nico viu Garrel a imagem sem luz que personificava a sua tragédia pessoal. Voltaria a filmá-la em “La Cicatrice intérieure”, título emblemático para o filme de terror metafísico eternamente projetado no ecrã interior da diva espectral. “Desertshore”, “The End”, “Drama of Exile” e “Camera Obscura”, algumas das obras ímpares da cantora a quem Bob Dylan ofertou certa vez uma canção, são outras tantas maneiras de dizer a solidão. “The Marble Index” anunciava já a catástrofe: sobre o acompanhamento minimal de John Cale, instala-se, canção a canção, o sofrimento, como espadas cravadas na espinha. Ou a vida que lentamente se cristaliza nas lágrimas petrificadas de uma caverna imensa onde o fogo há muito se extinguiu. ****

 

Divulgados segredos do hexágono [Editora Hegaxone]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 JULHO 1991 >> Pop Rock

 

DIVULGADOS SEGREDOS DO HEXAGONO

 

A Hexagone foi a principal editora francesa dos anos 70, na área da música folk. Contando com o grupo Malicorne como cartão de visita, foi alargando o catálogo até albergar no seu seio tendências tão diversas como as experiências de renovação da música tradicional, de expressão francesa, a ortodoxia militante do tango de Juan José Mosalini, ou o genuíno reggae dos Steel Pulse. As capas, do tempo em que não era necessário poupar cartão, são pequenas maravilhas. Mas a mudança dos tempos implicou a reconversão para o formato CD de, para já, dez títulos deste catálogo, em boa hora distribuído entre nós pela MC-Mundo da Canção.

 

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     Surgidos na primeira metade dos anos 70, na altura em que, do outro lado da Mancha, o “folk revival” britânico atingia o apogeu, e em França, seguindo o exemplo do bretão Alan Stivell, se davam passos semelhantes, os Malicorne constituem, para muitos, o expoente máximo daquilo que é possível fazer de novo, sem atraiçoar o espírito original, a partir da infinita matriz da música tradicional.

Datado de 1974, “Malicorne” irrompe na cena folk com a imponência e majestade de um monarca que, por direito divino, se prepara para tomar posse do seu reino. Clássico nas premissas, o álbum evidencia já o leque de estímulos estéticos e a fabulosa capacidade geradora de imaginários luxuriantes fundados e forjados nas lendas e rituais celtas, de que a banda se viria a revelar formidável cultora.

Entre as rondas, “bourrées” e “branles” gaulesas, avultam as baladas divinamente interpretadas pelos irmãos Yacoub, Gabriel e Marie, e as sonoridades de ressonâncias medievais, arrancadas aos céus e aos abismos por uma instrumentação rica e diversificada, onde pontificavam o violino, “bouzouki”, saltério, bandolim, órgão de foles, cromorna, espineta e sanfona.

Para a história ficariam este e os álbuns seguintes, anteriores à decadência: “Malicorne” (foram editados três discos diferentes com a mesma designação), “Almanach”, “Malicorne”, “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau” e “Le Bestiaire”.

 

Ciclos mágicos

 

No ano seguinte, novo disco intitulado “Malicorne”. Histórias de guerras e de amores: a rendição amorosa de Henriette de France ao rei Carlos I de Inglaterra, em “Le mariage anglais”. Os passeios de Marion, “La fille aux chansons”, por um jardim encantado à beira-mar, até ser raptada por piratas. O voyeurismo juvenil do “galant indiscret” que olha a sua “nanette” na penumbra gelada da meia-noite. Motetes gregorianos, “an dros” bretões, canções nascidas das profundezas do cancioneiro occitano. Mil e uma maneiras de cantar o lado mágico do mundo.

“Almanach”, álbum conceptual, é um “pequeno almanaque das tradições, festas mágicas e procedimentos que devem ser seguidos durante os doze meses do ano”. Para Gabriel Yacoub, só o conhecimento das práticas mágicas e dos ciclos cerimoniais, relacionados com as estações do ano, permite “compreender em profundidade o fundo espiritual dos cantos tradicionais”.

“Malicorne”, álbum número quatro, aprofunda a vertente clássica do grupo: “Nous sommes sonneurs de sornettes”, gavota retirada de “Terpsichore”, recolha de danças antigas compiladas por Michael Pretorius, entre 1571 e 1621, “Daniel mon fils”, inspirada no canto litúrgico das “Vésperas”, ou “La fiancée du timbalier”, escrita com base numa “pastiche” de Victor Hugo sobre a poesia medieval, projetam os Malicorne na busca do alicerce definitivo que sustenta o mundo e fundamenta a liberdade. Histórias sem fim, cíclicas, de transformações, típicas da mitologia celta: “La blanche biche” conta as desventuras da deusa Sarv, meio mulher, meio raposa, numa complexa polifonia vocal, em que a voz de Marie Yacoub se eleva sobre um “órgão de vozes” celestial.

O sonho prosseguiria, já na Elektra, com “L’Extraordinaire Tour de France…” (viagem iniciática de um pedreiro-livre pelo país de França) e “Le Bestiaire”. “Le Balançoir en Feu” e “Les Cathédrales de l’Industrie” pouco ou nada têm que ver com a aventura inicial.

 

Quintas-essências

 

De certa forma discípulos dos Malicorne, os La Bamboche constituem outra importante coluna do templo. Com quatro álbuns gravados (dois de título homónimo, “Quitte Paris” e “Née da la Lune”), os La Bamboche, liderados por Jean Blanchard – músico que deverá vir a Portugal, durante os II Encontros da Tradição Europeia, a realizar brevemente –, enveredam, na fase Hexagone, por uma via mais tradicionalista, recorrendo às danças rurais e ao “sabor a terra” da sanfona, do acordeão e da rabeca. A editora optou, para já, pela edição da coletânea “Quintessence” (genérico igualmente utilizado para os Malicorne, num e noutro caso subintitulado “pequeno sumário das suas mais belas canções…”).

“Le Grand Bal Folk” reúne os Malicorne, La Bamboche, La Chiffonie e Le Grand Rouge na celebração feérica das danças rurais (na capa referem-se as “bourrée”, valsa, polka, mazurka, marcha “scottish”, giga, gavota e “branle”…). Quem, nos tempos de hoje, sabe ainda dançar como mandam as regras?

Grupo emblemático da folk magiar, distante dos códigos enunciados pelos Vosjikas, Sebö Ensemble ou os Muzsikas, de Márta Sebestyén, só para citar alguns nomes editados em Portugal, os Kolinda caracterizam-se por uma aproximação sofisticada (e estilizada) ao folclore húngaro, sem renegarem as “vozes” de instrumentos tão característicos como o “gardon” (espécie de violoncelo esculpido num tronco de árvore), a espineta húngara ou o oboé turco (versão da popular bombarda bretã). Destaque para a voz profunda e misteriosa, de Agnes Zsigmondi e para os arranjos, tradutores da vertente mais soturna e dramática da sensibilidade magiar.

Completam a lista dos compactos agora editados pela Mundo da Canção os tangos de “Don Bandoneón”, superiormente interpretados a solo, no bandónio, por Juan José Mosalini, e a viagem guitarrística pelos universos de fábula de “Douar nevez” (“terra nova”), empreendida com algumas cedências de mau gosto ao rock por Dan Ar Bras, antigo companheiro de Alan Stivell, nos tempos de “Chemins de Terre”.

Do catálogo Hexagone constam ainda (por enquanto só em vinilo) outras obras dos já citados La Chiffonie, Kolinda, La Bamboche e Le Grand Rouge, bem como dos Vielleux du Bourbonnais (quatro sanfonineiros e dois gaiteiros), dos argentinos Lagrima e Tiempo Argentino e dos mexicanos Tequila. Por estas e por outras é que gostamos tanto dos franceses.

 

Os artistas vão onde o povo está [Milton Nascimento]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 28 JUNHO 1991 >> Fim de Semana >> Concertos

 

OS ARTISTAS VÃO ONDE O POVO ESTÁ

 

Uma imagem com texto, pessoa, Instrumento de cordas

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Domingo, 30 de junho, 22h. Campo Pequeno. A Pat Metheny, já lhe chamaram “futurista moderado”. O guitarrista, um dos maiores de jazz dos anos 80, volta a tocar, desta vez em Lisboa, com Milton Nascimento, o cantor que levou o Brasil à terra de Metheny e que dá, agora, voz aos índios da Amazónia. Mais uma coincidência: ambos vão tocar a solo no Porto: primeiro, o brasileiro, depois será a vez do americano.

 

Artigo e introdução em conjunto com António Curvelo, em que FM escreve sobre Milton Nascimento e AC sobre Pat Metheny

 

MILTON NASCIMENTO

 

“Todo o artista tem de ir aonde o povo está” – a afirmação pertence a Milton Nascimento e serve para definir uma atitude perante a arte e a vida que, no seu caso, significam uma e a mesma coisa. Milton Nascimento (voz militante das minorias, negra, índia, ou dessa raça em vias de extinção que é a humanidade), nasceu no Rio de Janeiro, há 49 anos, onde foi adoptado por uma família que o ensinou a partilhar “os campos e os rios, um céu belo não poluído e os jogos que as crianças de hoje não conhecem mais”. Percebe-se que nunca perdeu essa inocência, quando se ouve a voz sussurrar segredos, imensamente terna.

No Estado de Minas Gerais, forma, com Wagner Tiso, o grupo vocal “Luar de Prata” e diverte-se na rádio a fazer de “disc-jockey” ou de “crooner” em bailes populares, integrado nos “W’s Boys”. Wagner ajuda-o a transitar do rock para o jazz. Da voz, diz Elis Regina que “se Deus cantasse, com toda a certeza o faria usando a voz de Milton Nascimento”.

Eumir Deodato, percussionista de jazz-rock, leva-o pela primeira vez, em 1968, aos Estados Unidos, para a gravação do álbum “Courage”, com Hubert Laws e Herbie Hancock, dois “jazzmen” conceituados. Hancock fica fascinado com a música do “negrão” cuja voz “parece vir de um lugar misterioso”, envolvendo todos “com o calor do sentimento humano”. Milton, por seu lado, não resiste a introduzir no seu trabalho o verniz das grandes orquestrações, típico da “maneira de fazer” americana. Regressado a um Brasil então prenhe de mudanças sociais e políticas, grava “Clube da Esquina” (1972), prenunciando a obra-prima que o lançaria como embaixador da música brasileira no mundo: o duplo álbum “Milagre dos Peixes”, editado em 1973, com a colaboração do grupo “Som Imaginário”, do qual faziam parte, entre outros, Wagner Tiso e Nivaldo Ornelas. Nele, Milton, “porta-voz de todos quantos não têm possibilidade de se expressarem”, canta “os sonhos, as esperanças, angústias e frustrações do povo, a sua coragem e a sua força”. O suficiente para a censura lhe proibir as letras. Mais permissiva, a América das patacas abre-lhe definitivamente as portas. “Native Dancer”, com o saxofonista Wayne Shorter, junta num discurso jazzístico a luminosidade da voz à negritude do sertão.

Acredita que “há um modo, ainda, de dizer a verdade: com o violão”, doa a quem doer: a verdade da Natureza destruída pelo homem, a verdade do negro exilado e humilhado, a verdade do ódio, a verdade do amor”. “A arte é o caminho da liberdade” – afirma, com a convicção lúcida da “Sentinela” que guarda os caminhos do mundo. Em “Missa dos Quilombos”, álbum de 1980, gravado ao vivo na igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, em Minas Gerais, celebra a morte e a ressurreição do povo negro, comparando-as à Paixão de Cristo.

O seu empenhamento político, ao lado da oposição contra o autoritarismo vigente, está bem patente nas obras “Paixão e Fé” (1985) e “Encontros e Despedidas” (1986) e na canção “Coração de Estudante”, transformada em hino do “Movimento para a democracia”. Tempo de luta, prosseguindo em “Barca dos Amantes” ao lado de outro resistente, o português Sérgio Godinho.

“Yauraté” (1987) assinala o apelo irresistível da selva amazónica e o abraçar de uma causa vital para o futuro do planeta. Participação especial de Paul Simon que retribui, convidando Milton para as festividades de “Rhythm of the Saints”. Finalmente, em 1989, “Txai” e a viagem coletiva ao “coração da luz”, subida do rio Jurua até à nescente e à música primordial dos índios Waipai, Kayapo e Surui. Reencontro com a pureza edénica de quem “se expressa através de tudo o que faz e não sabe fingir” – “eu cantava para eles e eles cantavam para mim. As crianças falavam com a lua e com as estrelas e nós tínhamos de formular os nossos desejos”. O de Milton Nascimento passa por devolver ao mundo a “humanidade perdida”.

Milton traz consigo ao Coliseu de Lisboa: Ronaldo Silva (percussão), Robertinho Silva (bateria), Vanderlei Silva (percussão), Túlio Mourão (teclados) e João Baptista (baixo).