PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 17 JUNHO 1992 >> Pop Rock
O DOM DA PALAVRA
Peter Hammill é um mago das palavras. Com elas –
e com uma música que desde os Van Der Graaf Generator até ao recente álbum a
solo, “Fireships”, se afirmou sempre como orgulhosamente diferente –, criou uma
obra ímpar na música popular das duas últimas décadas. Sem fazer ondas. Mas
ainda aqui, como ele diz, as palavras ocultam o paradoxo.

É o poeta por excelência.
Muitos viveram a sua odisseia como se a obra poético-musical deste autor, mais
do que uma visão pessoal, pertencesse ao domínio público, partilhado embora por
um número restrito de iniciados. Para Peter Hammill, que hoje e amanhã atua em
Portugal, no Teatro S. Luiz, integrado nas Festas da Cidade de Lisboa,
“Fireships” é o repouso do guerreiro. Canções que acabam por ser sempre de
amor. “Neobaladas calmas”, como ele as define. Ultrapassada a violência sonora
de revoltas passadas, sobra a voz inconfundível, os poemas que retratam o
casamento entre o mundo e o “eu”. O futuro, eternamente por cumprir. E o
imperativo, implacável, da consciência e da lucidez extremas.
PÚBLICO – A consciência pode
ser dolorosa?
PETER HAMMILL – Decerto que
sim. Tanto em termos de culpa como de reconciliação. Em relação a nós próprios
e ao mundo. A consciência tem, evidentemente, outras qualidades... Neste
aspeto, sou de certa forma um estóico... O sofrimento, seja ele qual for, faz
parte da experiência humana.
P. – O casamento entre
masculino e feminino. O Sol e a Lua. A razão e a intuição. Pode considerar-se a
sua obra como um trabalho de alquimia?
R. – Talvez esteja envolvido
numa luta, num trabalho de transformar a minha própria matéria-prima (em termos
de experiência, consciência e intuição) num relâmpago de ouro, embora
temporário, numa resolução sempre em aberto. Por outro lado, é possível que eu
afinal apenas consiga “inventar algumas histórias em dias de sorte”.
P. – Pode dizer-se que desde
“A Black Box” abandonou a experimentação. Por um desejo de segurança? Cansaço?
Ou por outra razão?
R. – Não acredito na
experimentação por si só, como um objetivo ou um fim, mas simplesmente em
diferentes fases de interesse. Concordo com a sua avaliação apenas de uma
perspetiva exterior. Cada canção é, à sua maneira, uma experiência. A um nível
técnico é, hoje em dia, muito mais difícil conseguir essa experimentação,
precisamente devido aos meios cada vez mais sofisticados e poderosos postos à
nossa disposição. Dito isto, no meu caso a “experimentação” tem incidido, ao
longo dos anos, muito mais em aspetos pessoais, interiores, e nunca de uma
forma aberta e premeditada. Um bom exemplo do que considero um álbum
“experimental” é “And Close As This”, embora na aparência soe bastante normal.
Mas não faço ideia do tipo de experiências, ou da ausência delas, que ele possa
encerrar...
P. – A famigerada ópera [“The
Fall of the House of Usher”, inspirada no conto homónimo de Edgar Allen Poe]
demorou cerca de 20 anos a fazer, mas acaba por soar a Meat Loaf...
R. – Meat Loaf? Quer com essa
comparação dizer que se parece com uma “ópera rock”? “Pshaw!” [Exclamação de
repúdio tipicamente inglesa. Intraduzível.] Desses 20 anos, 12 foram gastos a
escrevê-la; seis, nos arranjos e na gravação final; dois, a escolher as vozes
finais, nas misturas e na substituição de alguns arranjos.
P. – “Fireships” soa um pouco
como uma recapitulação de álbuns anteriores. Quase uma solução de
compromisso...
R. – Penso que “Fireships”
traz algo de novo, em termos de “arranjos”, orquestrações, som e, acima de
tudo, coerência de ambiente. É natural que existam semelhanças no estilo de
escrita, embora até aqui nunca tivesse alinhado uma sequência de neobaladas tão
calmas, como é o caso.
P. – A sua música passou
sempre ao lado da aceitação das massas. Tal deve-se a uma atitude voluntária da
sua parte? Há ainda uma obra a completar? Uma vida?
R. – A atitude voluntária que
refere tem sido sempre a de realizar um trabalho que em primeiro lugar faça
sentido para mim, em vez de apelar às massas. Dito isto, gostaria que ele
fizesse sentido também para um número cada vez maior de pessoas que acedem à
minha música. Mas não quero ser apanhado na armadilha da personalidade
auto-fabricada. Não gosto de rebuscar nem de ser avaliado pelos meus trabalhos
passados. Prefiro seguir sempre em frente, guiado pelas minhas próprias luzes.
Pela mesma razão, existe, de
facto, um trabalho desconhecido e em curso, como sugere. Permanece, além disso,
em mim, como escritor, algo que rejeita de forma ativa a celebridade. Sei que
parece estranho e paradoxal, dito por alguém com uma tal parcela de ego
envolvida na vida de “performer”...
P. – Afinal, em última
análise, o que é que procura?
R. – Se pudesse traduzir essa
procura em palavras, tenho a certeza de que a resposta se perderia algures nos
espaços e nos paradoxos que existem entre elas, nas canções.
P. – Vivemos em pleno
Apocalipse. “Gaia” [designação do planeta Terra, como entidade viva; título de
uma canção de “Fireships”] aproxima-se do fim. Vê alguma solução?
R. – É sempre, tem sido
sempre, será sempre o Apocalipse. A diferença é que agora, de forma incómoda,
sabemos mais acerca dele. Acredito que a única resposta possível seja afirmar a
vida, enquanto ela ainda existe.
P. – Continua a acreditar que
“The Least We Can Do Is Wave to Each Other” [título de um álbum dos Van Der Graaf
Generator]?
R. – Continua a parecer-me
uma ideia aceitável!...
PETER
HAMMILL
Fireships
CD
Fie!, import. Megamúsica e Contraverso

Palavras que o vento não
leva. Palavras que, mais do que nunca, parecem constituir o cerne do “opus”
artístico/vivencial de Peter Hammill. Neste particular, a cada novo álbum, o
autor descentraliza a sua visão pessoal, fazendo-a incidir sobre o mundo circundante,
na globalidade, como em “Gaia”, em pessoas com nome próprio, como em “Curtains”
(Tommy e Sylvia, em vez de Mike e Susie), ou em situações “reais” transpostas
num “GT Cabriolet” para uma dimensão metafísica, como em “His best girl”
(Pessoa viajava pelo interior, de Chevrolet, a caminho de Sintra). Há versos
evocativos de outros antigos, como um “puzzle” que continuamente se faz e
desfaz. O choque dos planetas e das estrelas, em “Incomplete surrender”, por
exemplo, remete para a explosão cósmica que já antes deflagrara em “Tapeworm”,
de “In Camera”. Se, em termos formais, o álbum não apresenta grandes inovações,
navegando por águas bem mais calmas do que as da ópera “The Fall of the House
of Usher”, nem por isso é menor o deleite com que se escuta, pela enésima vez,
a espantosa expressividade da voz, as contorções líricas do saxofone de David
Jackson ou os arranjos orquestrais de David Lord. A viagem continua. (7)