PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 20 MAIO 1992 >> Pop Rock
Mafalda
Veiga edita terceiro álbum
“ESTE DISCO FALA IMENSO DE
PESSOAS”
Quatro anos depois de “Cantar”, Mafalda Veiga
regressa com um novo álbum, “Nada Se Repete”, um disco de histórias sobre
pessoas reais, de atenção dada às gentes e às palavras, mesmo quando em
espanhol. Nada se repete e tudo se transforma?
Mafalda Veiga fala com
entusiasmo do novo disco, um disco que retoma a “verve” encontrada com
“Pássaros do Sul” e perdida em “Cantar”. Um reencontro, então, consigo própria,
com o gozo de tocar e com a “força das imagens”.
PÚBLICO – Embora menos que os
anteriores “Pássaros do Sul” e “Cantar”, este “Nada Se Repete” não deixa de
recordar, ao nível dos arranjos e de certas inflexões vocais, os Trovante...
MAFALDA VEIGA – Não concordo.
Primeiro, porque sei que isso foi e é uma das preocupações do Manel [Manuel
Faria, dos Trovante], conseguir distância do grupo. Uma das coisas que fizemos
agora precisamente para evitar a comparação foi chamar outros músicos para
fazer os arranjos: o Luís Fernando, o Richard Walton e o José Peixoto, que não
têm nada a ver com os Trovante. Em relação aos primeiros álbuns, isso é
verdade. Acontece que outra pessoa agarra no tema, dá-lhe determinado som,
tira-lhe características e acrescenta outras. Às vezes, a balança pesa de mais
para um só lado. Ao nível de estúdio, então, eu era perfeitamente inexperiente,
de maneira que aquilo que fiz foi discutido e não sei quê porque eu não sabia
exatamente o que queria.
P. – Por falar em nomes, o de
Mário Resende, dos Duplex Longa, no violino, é inesperado...
R. – Eu queria imenso que
houvesse um violino. Tinha-o imaginado a improvisar. Falei com o Carlos
Zíngaro, só que ele não podia porque estava em viagem. Foi ele que me
aconselhou o Mário Resende.
P. – O título do álbum sugere
mudança, evolução. Essa mudança estende-se ao seu próprio estilo?
R. – Foi um título muito
pensado. Um título que, por um lado, significa que há uma evolução, que as
coisas não são iguais e nada se repete, e que, por outro, tudo se repete. O
título fala precisamente do que vem, que não tem a ver com o passado, mas sim com
o futuro. A capa mostra duas crianças de um lado e duas crianças do outro, a
fazer a mesma coisa: empurrar-se dentro de água. Foi por isso que a fotografia
foi escolhida. Porque aquele momento não se repete mas a imagem sim – é esse o
paradoxo que acho interessante.
P. – Acabou por não responder
à questão. Houve evolução em termos pessoais?
R. – Estou a cantar de uma
maneira diferente, ligada a uma aproximação á linguagem, à maneira como comecei
a perceber a força das palavras. Cantar, pelo menos na área em que me situo,
tem muito a ver com dizer. As letras são super-importantes.
P. – Uma evolução solitária,
já que não tem atuado muito ao vivo, nos últimos tempos...
R. – Estive três anos sem
fazer nada, dois sem tocar. Não estava a gostar, não me dava gozo nenhum. Foi
uma fase um bocado negativa, a seguir ao segundo disco. Primeiro, porque o
disco não correu como eu estava à espera – foi muito precipitado – e depois
porque me ressenti disso. O primeiro álbum foi um sucesso súbito e no segundo
disco teria que haver uma continuidade. Senti que, neste aspeto, algo correra
mal, que não tinha chegado às pessoas.
P. – O que é que correu mal?
R. – Foi um disco feito sem
muita energia, por uma equipa cansada. Tinha sido um ano de estrada e entrámos
em estúdio sem conseguir criar distância em relação ao que se havia de passar –
um erro perfeitamente assumido, que aconteceu. Por isso, durante um ano decidi
não tocar. Não me sentia bem comigo mesma.
P. – Um trauma?
R. – Não foi trauma nenhum.
Simplesmente, quando não se está a gostar do que se faz, tem que se optar por
outras coisas. Nessa altura estudei pintura e música, compus... Andei a
preparar a composição do novo disco durante dois anos.
P. – “Nada se Repete” dá
grande importância aos textos. A tal “aproximação à linguagem” de que falava há
pouco?
R. – Para quem conhece os
meus primeiros trabalhos, a diferença entre as letras dessa altura e as de
agora é evidente. A princípio compunha de uma maneira intuitiva. Era mais o
prazer de tocar, de dizer coisas. A dada altura, se calhar, eram só imagens correspondentes
a sensações de gozo, o gozo de tocar, de criar melodias e juntá-las às
palavras. Mas depois comecei a ganhar consciência da força dessas imagens, da
força que essas imagens podem ter na descrição de sensações. Essa consciência
permitiu-me uma linguagem mais direta.
P. – Mais direta em que
aspeto?
R. – Este disco fala imenso
de pessoas. Cada tema conta histórias reais de pessoas. Só que, em certos
casos, como no “Saltimbanco louco”, a história acaba por ter pouco ou nada a
ver com a pessoa, que se transforma numa imagem, numa personagem. Mas as bases
são sempre reais. O disco está cheio de gente que fui conhecendo durante este
período e que foi importante para mim.
P. – A história de “O bêbado
pintor” é “sui generis”...
R. – A canção foi inspirada
num fado do Alfredo Marceneiro com o mesmo título. Aqui a história tornou-se
irreal, aquela visão do personagem quando diz que é o “rei do mundo” e de
repente surgem por detrás um monte de coisinhas, de irrealidades, de frustrações.
P. – Considera-se então uma
“escritora de canções”, à maneira de um Sérgio Godinho?
R. – Se o Sérgio Godinho não
se importar que eu use o termo... sim, considero-me uma escritora de canções,
mais até do que músico.
P. – Mais até do que cantora?
R. – Não, porque uma das
coisas que acho importante na maneira como componho é a maneira como depois vou
cantar.
P. – Conte como surgiu
“Prisão”, um tema bastante pesado, com toda aquela eletrónica sombria no
início...
R. – Fui tocar uma vez a uma
prisão, numa festa de Natal, e conheci uma rapariga espanhola que estava presa
e escrevia. Tinha consigo imensos textos. Era uma pessoa supersensível, a festa
tinha sido feita por ela, os cartazes, tudo. Vi um texto seu numa parede e
achei-o muito bonito, embora estivesse escrito em espanhol. Mas fiquei ligada
às palavras. Acabei por pedir ao Luís [Luís Represas] para fazer uma letra
inspirada no texto.
P. – “Por tu amor” é cantada
em espanhol...
R. – Componho ocasionalmente
em espanhol por causa da musicalidade das palavras. Falo espanhol tão bem como
português. Por vezes sai assim. Se o tema fosse escrito em português diria
decerto coisas diferentes.
P. – Alguma vez pensou gravar
um álbum só de guitarra e voz, sem rede?
R. – Era giro. Tens que ir lá
falar com a editora. Gostava de o fazer, de facto, só que normalmente quando
imagino as composições, tecnicamente não as sei tocar depois na guitarra.
Prefiro chamar outro músico. Num disco desse tipo teria de compor de uma
maneira mais simplificada.
P. – Como se sentiu quando
Herman José fez aquela paródia, na passagem do ano, sobre os “Pássaros do Sul”?
R. – Acho sempre piada ao
Herman José. Também lhe achei piada nessa ocasião. Estive com ele dois dias
depois. Ele perguntou-me se eu tinha ficado chateada e eu disse-lhe que não.