pop rock >> quarta-feira, 24.02.1993
“O SILÊNCIO É TÃO IMPORTANTE COMO AS
NOTAS”
June Tabor tem um ritmo próprio. De falar e de
cantar. Misto de solenidade e alegria. Começou nas baladas da tradição inglesa
“a capella”, passeou pelo jazz e divertiu-se a vestir blusões de cabedal e a
cantar canções dos Velvet Underground, com os Oyster Band. Hoje canta as
canções que lhe falam diretamente ao coração.

June Tabor vem cantar a Portugal pela
terceira vez. Nas suas anteriores passagens pelo nosso país, ambas em Lisboa,
no mesmo ano de 1991 – primeiro em junho, no Coliseu dos Recreios, em
espetáculo integrado na edição inaugural do Folk Tejo, depois em setembro, no
relvado do Jamor, na Festa do Avante! –, a cantora não terá encontrado as
melhores condições para fazer ouvir o registo intimista da sua música. O som e
o ambiente não ajudaram. Desta vez, espera-se, tudo será diferente, para
melhor.
Considerada uma das maiores “folk
singers” britânicas de sempre, a sua voz, de timbre puro e austero, projeta-se
como luz – umas vezes velada, outras radiante – numa catedral. Especialista no
canto tradicional “a capella”, foi alargando, ao longo dos anos, o seu campo de
ação. Hoje canta com o mesmo à vontade as baladas ancestrais da velha Albion,
“standards” de Cole Porter, Gershwin, Ellington, Charles Mingus e Thelonious
Monk, ou uma descarga elétrica dos Velvet Underground. Gosta sobretudo de
canções que contem uma história. Em cerca de 20 anos de carreira não gravou
muitos discos. Mas os que gravou (seis a solo, um de parceria com Martin
Simpson, dois com Maddy Prior, outro com os Oyster Band, mais a participação no
mítico “The Transports”, de Peter Bellamy) tornaram-se, quase todos, clássicos.
“Angel Tiger”, o mais recente, revela June Tabor no auge da criatividade. Uma
grande cantora, perto da perfeição.
PÚBLICO – Comecemos pelo estômago.
Esteve até 1988 à frente de um restaurante. Considera o alimento para o corpo tão
importante como o alimento para o espírito?
JUNE TABOR – O restaurante foi uma
coisa boa, que me mantinha muito ocupada. Não me deixava tempo para cantar.
Quando foi vendido, pensei que finalmente era chegada a altura de me dedicar à
música em tempo inteiro.
P. – Por que demorou tanto até tomar
essa decisão?
R. – Bem, quando comecei a minha
carreira, há cerca de 20 anos, não queria ficar dependente da música. Não me
queria sentir comprometida. Tinha medo que, se essa fosse a minha única
ocupação, não pudesse ser aquilo que queria. Nessa altura tinha uma profissão –
bibliotecária – e não queria abdicar dela. Podia ao mesmo tempo cantar a música
de que gostava e, como bibliotecária, ganhar o dinheiro de que precisava para
viver. Sentia-me bem assim.
Segredos do canto
P. – Que relação mantém hoje com a
cultura tradicional inglesa?
R. – Ainda canto algumas canções dessa
tradição. Aquelas em que sinto as palavras. Sempre escolhi as canções em função
das palavras. As melhores canções tradicionais são intemporais. Pode haver uma
balada com 200 anos mas que continua a ser atual. Recuso-me a cantar peças de
museu. A música tradicional não pode continuar uma coisa viva se não sofrer
mudanças. Porque as circunstâncias atuais são outras.
P. – Houve uma época em que foi
considerada uma purista. Estou a lembrar-me do escândalo que causou quando
decidiu utilizar um sintetizador no álbum “Ashes and Diamonds”...
R. – Ainda hoje muitas pessoas pensam
que, se eu não cantar só sem acompanhamento, é uma heresia (risos). Então um
sintetizador, “oh my God!”.
P. – O mais curioso é que o novo
álbum, “Angel Tiger”, está bastante próximo, em termos de sonoridade, de arranjos e de
ambiência, dessa obra de 1977, não concorda?
R. – Sim, de facto, o ambiente e os
arranjos, que são bastante austeros. É uma aproximação [“approach”] às canções
que procura deixar as palavras e a melodia falarem por si próprias. O
acompanhamento deve suportar as palavras e não escondê-las. Se as palavras são
boas, deve-se-lhes dar espaço.
P. – Por outro lado, nota-se que dá
cada vez mais importância ao acompanhamento instrumental, em detrimento das
vocalizações “a capella” que constituíam grande parte do seu reportório
antigo...
R. – Quando comecei, sabia cantar mas
não sabia tocar qualquer instrumento. Hoje, continuo a não saber (risos). Era a
maneira mais fácil de começar, por temas tradicionais “a capella”, que têm um
esquema melódico rigoroso. Deste modo era possível apresentar-me em público
sozinha. Depois fui conhecendo outros músicos, instrumentalistas, e a
compreender o que podia ser feito com instrumentos. E também a encontrar outro
tipo de canções, que queria cantar mas que não se aguentavam “a capella”, por
não terem sido escritas para esse fim. Além disso, a força das vocalizações “a
capella” sai fortalecida se estas forem integradas no meio de canções com
acompanhamento. Sobressaem muito mais. Atualmente, nos meus concertos, este
estilo aparece como uma espécie de destaque. Já não dou concertos
exclusivamente “a capella”.
Questões de estilo
P. – O que sente ao ouvir a sua voz
registada nesse álbum já velhinho e lendário que é “The Transports”, do
malogrado Peter Bellamy?
R. – Digo para mim mesma: “Sou
realmente eu?” [Risos.] Neste intervalo de quase 20 anos a minha voz mudou.
Tornou-se mais profunda, mais madura, pelo menos assim o espero (risos). Quando
ouço discos meus antigos, às vezes é-me difícil aceitar que seja a minha voz.
Admiro-lhe a técnica, mas prefiro a atual. Penso que canto muito melhor do que
cantava, embora admita que em termos rigorosamente técnicos, não seja tão
tecnicista como antes.
P. – Um dos seus projetos mais
bem-sucedidos é o duo Silly Sisters, com Maddy Prior. Após dois álbuns
brilhantes [“Silly Sisters” e “No More to the Dance”], nunca mais se ouviram
cantar as duas juntas...
R. – Costumamos fazê-lo uma vez em
cada dez anos (risos). Mas atualmente é mais difícil cantar em conjunto com
Maddy, porque as nossas vozes mudaram. A de Maddy tornou-se mais aguda e a
minha mais grave. E é mais difícil encontrar tonalidades que possam ser
cantadas em conjunto pelas duas. Antes podíamos trocar, uma cantava a melodia,
outra a melodia, e vice-versa. Hoje é mais problemático. Por outro lado, os
estilos de canções que cada uma de nós deseja cantar tornaram-se cada vez mais
afastados.
P. – “Some Other Time” [1989], um
álbum de “standards” de jazz, não foi muito bem recebido pela crítica. Será
porque a sua voz não se adapta a esse género de canções?
R. – O problema está em que a maior
parte dessas críticas é de ordem subjetiva. As pessoas pensam que, à partida,
eu não devo cantar esse tipo de canções. Elas não as querem ouvir da maneira
como as canto. Têm um preconceito, que eu não devo, ou não consigo, cantar
“jazz”. A questão essencial de “Some Other Time” é que eu não estava a tentar
transformar-me numa cantora de jazz. Apenas quis pegar em canções do reportório
de jazz que tivessem letras fortes, que contassem boas histórias, e cantá-las à
minha maneira. Nos concertos em Portugal vou cantar quatro temas do reportório
de jazz. Com Huw no piano, Mark Emerson, violino e viola de arco e Mark
Lockheart e saxofone e clarinete.
A voz do silêncio
P. – A que se deveu a colaboração, ao
vivo e em disco, com os Oyster Band? Um desejo de vestir blusões de cabedal ou
algo mais?
R. – Gostei e continuo a gostar de
cantar com os Oyster Band. E, já agora, de vestir blusões de cabedal (risos).
Foi uma experiência que, penso, resultou bem. O “show” em Portugal [na Festa do
Avante!” em 1991] não aconteceu talvez no melhor local...

P. – Da outra vez que atuou em
Portugal, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa [na primeira edição do Folk Tejo,
em 1991], a música esteve imaculada, mas o som voltou a falhar...
R. – Sim, a música foi ótima. Em salas
grandes como essa é impossível conseguir um som perfeito, porque não foram
projetadas para este tipo de música. Prefiro tocar em teatros pequenos.
P. – Não em clubes folk, disse-o uma
vez...
R. – A minha música não é propriamente
para se ouvir de pé. Um teatro é mais confortável, as pessoas podem
concentrar-se melhor. E pode controlar-se o som. O que nós fazemos é muito
subtil, delicado mesmo. O silêncio é tão importante como as notas, como a
música. É necessário poder criar a atmosfera certa. Esta é uma luta constante.
Não acontece só em Portugal, em Inglaterra também.
A importância das palavras
P. – Que critério seguiu, na escolha
dos compositores, em “Angel Tiger”? Escolhe os autores ou são eles que vêm ter
consigo?
R. – Na maioria dos casos há uma
escolha prévia. Em “Angel Tiger” só constam, a meu pedido, duas canções
escritas: “All this useless beauty”, de Elvis Costello, e “The doctor calls”,
de Ian Telfer, dos Oyster Band. Conhecem ambos a minha música e os meus gostos.
Mas é sempre um risco... Felizmente gostei das duas. Seria embaraçoso chegar ao
pé de Elvis Costello e dizer-lhe: “Obrigado, Elvis, mas não gostei!” [Risos].
Mas a escolha é minha. Posso sempre dizer que não.
P. – Disse recentemente, numa
entrevista, que podia ter feito um álbum inteiro apenas com canções de Les Barker. O que
encontra de especial neste autor?
R. – É o exemplo de alguém que
trabalha a partir da tradição. Ele usa melodias tradicionais, peças
instrumentais ou canções com versos em várias línguas, em gaélico ou outra
qualquer, e trabalha até ficar totalmente familiarizado com elas. Depois
escreve palavras novas que se adequem. Quase tudo o que ele escreve me fala ao
coração e está de acordo com as minhas opiniões.
P. – Já agora, há algo mais que fale
ao seu coração? Sei que gosta de gatos...
R. – Gatos e cães. Tenho quatro gatos,
seis cães e... um burro.
P. – Pode explicar-nos em que consiste
o projeto Passendale, em que vai colaborar?
R. – Passendale foi uma batalha
travada em 1917, durante a I Guerra Mundial, de julho a dezembro. 500 mil
homens morreram nessa ocasião, de ambos os lados. Um desperdício absurdo de
vidas humanas. Esse acontecimento, no ano em que se comemora o 75º aniversário
do fim da I Grande Guerra, vai ser evocado numa série de espetáculos ao vivo,
com músicos de várias nacionalidades e canções desse conflito, a par de outras
que falam da futilidade da guerra em geral. Participo eu, com Huw e Mark, uma
cantora flamenga, três músicos árabes, um cantor e tocador de “oud” do Líbano e
uma cantora sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz. A intenção é
dizer que a guerra não conduz a nada, uma coisa inútil que, apesar disso, está
sempre a acontecer.
P. – O termo “world music” faz sentido
para si?
R. – É um termo que se usa e de que se
abusa. Deveria haver alguém mais sincero e chamar-lhe antes “música do Terceiro
Mundo”, porque é disso que se trata. Por mim, gosto de ouvir música da Ásia, da
Escandinávia... Não encontro muito com que me identifique na música africana,
embora admire as suas técnicas, em particular dos cantores. Mas toda a música é
subjetiva.
P. – Porque falou em técnica, já
tentou cantar baladas irlandesas, em gaélico, por exemplo?
R. – Irlandesas sim, em gaélico não,
porque não domino a língua. Nunca gravei nada nesse domínio. Há quem o faça
muito melhor do que eu. Mas posso decorar o estilo, se quiser. Desde que as
palavras sejam boas. Se quiser, nos concertos em Portugal posso cantar uma
canção irlandesa para si (risos).
P. – Obrigado. Por falar em canções,
em “Ashes and Diamonds” há uma belíssima, intitulada “Lisbon”. Pensa cantá-la
em Portugal?
R. – É uma ótima ideia. Já não canto
essa canção há imenso tempo. Obrigado pela sugestão. Vamos ensaiá-la nas
próximas semanas [esta entrevista foi feita em meados de Janeiro]. Vou mesmo
cantá-la!
LISBOA, TEATRO SÃO LUIZ
28 DE FEVEREIRO, 22H
BRAGA, TEATRO CIRCUS
1 DE MARÇO, 22H
PORTO, TEATRO RIVOLI
2 DE MARÇO, 22H
DISCOGRAFIA SELECCIONADA
ASHES AND DIAMONDS, TOPIC, 1977
Primeira obra-prima. O álbum do
“escândalo”. Nele, June Tabor, purista das puristas, utilizou um sintetizador.
Canções “a capella” como a prova de fogo “Clerk saunders”, “The Easter tree” e
“No man’s land” rivalizam com os arranjos instrumentais, belíssimos, de “Now,
I’m easy”, “The earl of Aboyne” e “Cold and raw”. Dois duetos de maravilha: com
o piano, em “Streets of Forbes” e com o sintetizador, em “Lisbon”, balada que
evoca o encontro amoroso de uma portuguesa com um marinheiro inglês, no porto
de Lisboa, durante a Renascença. Jon Gillespie era então o teclista.
Participações de dois Steeleye Span, Rick Kemp e Nigel Pegrum. E de Nic Jones,
um grande guitarrista da “folk” inglesa.
A CUT ABOVE, TOPIC, 1980
Encontro com outro guitarrista célebre
do circuito “folk” inglês, Martin Simpson (que ensinou June Tabor a olhar para
sons mais contemporâneos), e mais uma viagem pela tradição da ilha, desta feita
com uma aproximação às sonoridades medievais. Dave Bristow substitui Jon
Gillespie nos teclados. Ric Saunders (Soft Machine, Albion Band, Fairport
Convention) traz para a música o virtuosismo do seu violino. Um álbum de que
pouco se fala (há quem prefira a maior contenção de “Abyssinians”), mas que é
um dos mais conseguidos.
AQABA, TOPIC, 1988
Deslumbrante. Nesta altura já June
Tabor passeava a voz e o talento por músicas de outras paragens. É o disco de
apresentação de Huw Warren, em quem a cantora parece ter descoberto o parceiro
ideal. Os tradicionais “a capella” ora pairam no éter, ora explodem nas
vibrações vocais de June Tabor. A expressividade emocional levada ao ponto de
equilíbrio perfeito. As irrupções bruscas do clarinete e do saxofone, a par do
ambiente de religiosidade, formam como que uma extensão vocal das liturgias de
John Surman para a ECM. O título-tema, composto por Bill Caddick, integrou-se
de imediato no grupo das melhores canções e interpretações de sempre da música
inglesa de raiz tradicional.
ANGEL TIGER, COOKING VINYL, 1992
Álbum da maturidade. A aliança de
recursos vocais aqui distribuídos por uma gama infindável de registos, com uma
serenidade e segurança inquebrantáveis. Nada há para provar, senão que cada
canção ganha, através do canto de June Tabor, significados e uma energia
próprias. Como se ela fosse a única que lhes consegue descobrir o coração.
Elvis Costello e Ian Belfer, dos Oyster Band, escreveram especialmente para a
cantora. A divindade felina estendeu sobre June Tabor um sortilégio. Uma
cantora em estado de graça.
NO MORE TO THE DANCE (SILLY SISTERS, DUO COM
MADDY PRIOR), TOPIC, 1988
Não podia ser de outro modo: as vozes
de duas divas da “folk” britânica irmanadas numa causa comum – de amor a uma
tradição que ambas sempre serviram e ajudaram a potencializar – combinam da
melhor maneira e o resultado é um disco de música de inspiração tradicional,
que marcou os anos 80. E uma reunião de estrelas que aqui participam: Dan Ar
Braz, Andrew Cronshaw, Paul James e Nigel Eaton (dois ex-Blowzabella), Patsy
Seddon e Mary MacMaster (duo Sileas). Para todos aqueles a quem o termo “música
celta” quer dizer tudo, este é um dos seus tesouros mais valiosos.