22/04/2026

O evangelho segundo S. Paulo [Paul Simon]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 17 JULHO 1991 >> Pop Rock

 

O EVANGELHO SEGUNDO SÃO PAULO

 

Não se sabe se Paul Simon era Tom ou Jerry no duo que há 34 anos formou com o seu parceiro de muitas ocasiões, Art Garfunkel, decalcado da célebre dupla dos desenhos animados. O que se sabe é que o homem tem já um lugar reservado no “hall of fame”, panteão das celebridades mundiais cuja importância deve exceder inevitavelmente as dimensões de um hipermercado.

Paul tem hoje cinquenta anos de idade, mais ano menos ano, e uma quantidade de álbuns no ativo, a solo e com o outro. Filho espiritual de Bob Dylan (que imitou durante muitos anos), terá chegado à conclusão que Dylan só havia o Bob e mais nenhum. Optou então pela “música folk”, como dizia ele e diziam os críticos, sempre que havia alguém a cantar baladas acompanhado por uma guitarra acústica. Nos anos 60 a “música folk” era chão que dava uvas. Paul Simon apreciava particularmente este fruto, e músicos ingleses como John Renbourn ou Martin Carthy, não espantando portanto a opção. Depois foi a recolha sistemática de “hits” e estilos musicais que culminou nos mundialmente aclamados “Graceland” e “Rhythm of the Saints”. Vamos ver como foi, dissecar a obra, escalpelizar o discurso, mergulhar em complexas análises estruturais, que o homem está mesmo a chegar e não convém perder pitada.

 

Uma imagem com texto, homem, pousar

Descrição gerada automaticamente

 

Para Paul Simon, a música rock é indissociável de todos os outros géneros e, em particular, das músicas do mundo. Tal atitude deriva de uma exposição contínua a toda a espécie de sons ouvidos durante a juventude. Do rock ‘n’ roll de Elvis Presley e Chuck Berry e a “country music” de Johnny Cash, à música soul, os blues e a religiosidade “gospel”. Os Beatles, evidentemente, fizeram parte da cartilha, assim como Bob Dylan que, durante anos, tentou imitar. Deste caldeirão de influências soube Paul Simon extrair a essência, depurando-a para lhe acrescentar os contornos da sua excecional aptidão para a melodia. Método que em “Graceland” e “Rhythm of the Saints” atingiu o apogeu, no casamento dos sons africanos do primeiro e o tropicalismo brasileiro do segundo com um apuro formal então já perfeitamente consolidado.

 

Quarta-feira, três da madrugada

 

Era ainda manhãzinha, nem uma agulha bulia, na suave melancolia dos pinheiros do caminho, quando Paul Simon gravou o primeiro álbum de parceria com Art Garfunkel, em 1964. Mais precisamente às três da madrugada de uma quarta-feira. Disco florido, suave, doce, “Wednesday Morning 3 a.m.” é a sobremesa ideal num dia de Primavera, à hora e dia da semana indicados. Harmonias vocais bonitas, modernas, originais. Sem agressividade nem angulosidades escusadas. Nada de grave, não fora a existência de uma canção chamada “The sounds of silence”, que, no ano seguinte, subiria ao primeiro lugar no top de vendas norte-americano, graças ao golpe de génio do produtor, Tom Wilson. Este, sem dar cavaco aos autores, resolveu eletrificar a coisa, inaugurando assim, sem mais nem menos, a corrente estética a que se convencionou chamar “folk rock”. Há dias de sorte. A Paul Simon saiu a sorte grande.

Quis o destino que Paul e Art permanecessem pouco tempo juntos. Sabe-se lá porquê. Talvez devido ao alegado perfeccionismo de Paul, que não teria suportado o fraco empenhamento demonstrado pelo companheiro, desde cedo voltado para uma carreira na sétima arte.

 

O som do silêncio

 

Assim, no ano seguinte, Paul estava de novo sozinho, à procura de calor humano e de inspiração. Calor humano, não recebeu tanto como isso. Inspiração, porém, é o que não falta no primeiro disco a solo, “The Paul Simon Song Book”, saído em 1965, no qual figuram alguns dos temas posteriormente interpretados pela dupla, no seu segundo álbum: “The sound of silence” (outra vez), “I am a rock”, e “Kathy’s song”. “Sounds of silence” viria mesmo a constituir uma espécie de obsessão, tendo sido aproveitado como genérico do disco e utilizado em técnicas revolucionárias na educação dos surdos-mudos. Musicalmente o álbum pouco adianta em relação ao anterior, excetuando, evidentemente, a importância dada às pausas, de resto tão bem exploradas pelos dois, em sublimes harmonias vocais que passaram a ostentar o timbre inconfundível do seu estilo. Só ouvido. Ou melhor, só não ouvido. Ainda hoje, nos pubs, em casa, no campo, na praia, no escritório, no automóvel, no Auditório da Gulbenkian, durante um recital de música de câmara, se trauteiam e assobiam as canções imortais de Simon and Garfunkel. Deste e sobretudo dos álbuns que se haviam de seguir.

 

Paranóias existenciais

 

Como “Parsley, Sage, Rosemary & Thyme”, de 1966, considerado como um dos seus melhores. O título-tema, inspirado numa melodia tradicional esquimó, é encantador. É nesta altura que começam a vir ao de cima as paranóias existenciais de Paul Simon, patentes em temas como “The dangling conversation” ou “Patterns”. Noutras páginas deste suplemento, dá-se conta do boletim clínico.

“The Graduate”, 1968, a banda sonora do filme de Mike Nichols, foi por muitos considerado pornográfico. Passemos pudicamente ao lado. Do mesmo ano, “Bookends”, contém uma das canções mais conhecidas do duo, “America”, balada de conceção imaculada e uma simplicidade espantosa, possuidora de uma inenarrável riqueza rítmico-tímbrico-melódico-harmónica, capaz de injetar na parelha o entusiasmo suficiente para se lançar naquela que, até hoje, permanece como sendo a obra-prima absoluta, ou, pelo menos, a mais vendida: “Bridge over Troubled Water”, a subir e a descer nos tops durante 32 anos consecutivos, entre 1957 e 1973.

 

Uma ponte que ruiu

 

“Bridge” (para Paul Simon, um álbum de “gospel” puro) faz a ponte entre diversas tendências musicais, juntando as ambiências folk da praxe às alturas ventosas de “El condor passa” e à releitura suavizada de “Bye bye love” dos Everly Brothers. É também o álbum do romantismo, de se ouvir agarradinho ao/à parceiro/a, dentro daquela linha a que se convencionou chamar “música para constituir família” ou, na versão popular, “rock sentimentalão”. “The boxer”, “Cecilia”, “The setter”, “Emily”, “The wolfhound” e “Virginia” são alguns dos temas inesquecíveis de um álbum, cujo lema parece ter sido “Keep the customer satisfied”.

Durante as gravações de “Bridge over Troubled Water” as divergências entre Paul Simon e Art Garfunkel atingiram o auge – Art não deixava o cinema, o que muito aborrecia Paul. Na faixa “The only living boy in New York”, Paul denuncia as frequentes ausências do companheiro no México, justificadas pela rodagem de “Catch 22”, chegando mesmo a criticar o seu desempenho dramático, acusando-o de académico, promíscuo, aleatório, etnográfico e atentatório contra os bons costumes. O que manifestamente não jogava com o seu feitio (de Paul). Eram razões mais que suficientes para pôr um ponto final na carreira da dupla. Separaram-se como bons amigos que afinal nunca tinham deixado de o ser (Paul viria mais tarde a retratar-se publicamente da acusação de “etnográfica”, à atuação de Art, alegando que tinha dormido mal nessa noite. O termo, contudo, nunca lhe sairia da cabeça, revelando-se mesmo de capital importância em fases posteriores da sua carreira). Art perdoou-lhe, mas continuou a representar.

Parte do álbum é gravado apenas por Paul e pelo co-produtor Ray Halee que nele investem doses maciças de paixão. Curiosamente, na faixa principal, “Bridge over troubled water”, composta por Paul, este fez questão de ser Art a cantá-la. Mas a rotura era inevitável e concretizar-se-ia pouco tempo depois. Voltariam a reunir-se num espetáculo ao vivo no Central Park, em 1982, perante várias pessoas que não os tinham esquecido.

 

Os perigos do rock ‘n’ roll

 

Paul Simon tinha o caminho livre para uma carreira gloriosa. Começou a ler livros e revistas, a consultar especialistas, a visitar locais, a estudar a melhor maneira de incorporar vários estilos musicais no esquema básico das suas baladas. O resultado de tais pesquisas viria a revelar-se brilhante no álbum “Paul Simon”, de 1972, mescla estimulante de fluidez vocal, produção imaginativa e boas canções. Contando no estúdio com a presença de músicos ilustres, como o guitarrista exímio na técnica de “picking”, Stefan Grossman (“Paranoia blues”) e o violinista cigano Stephanne Grappelli (“Hobos’s blues”), “Paul Simon” é uma espécie de visita guiada pela mente tortuosa de um músico à procura de si próprio. Cá está o “reggae” de “Mother and child reunion”, a veia latina de “Me and Julio down by the schoolyard”, a beleza intimista de “Duncan”, a fantasmagoria evocativa de “Congratulations”, a auto-introspeção de “Everything put together falls apart”.

Sim, Paul Simon, enveredava por uma via pessimista, onde mentes mais fortes que a sua viriam a encontrar a miséria e a desgraça. Que o aviso sirva de exemplo aos mais jovens, que nunca, mas mesmo nunca, deverão ceder aos prazeres – tão modernos –, do pessimismo e, sobretudo, à tentação de ser músico, pois a droga e a loucura espreitam a cada esquina. E o sexo. Não foi por acaso que, anos mais tarde, já curado da doença, Paul Simon renegou por completo o “rock ‘n’ roll”, acusando-o de aleatório, promíscuo e atentatório contra os bons costumes.

 “There goes rhymin’ Simon” explode numa cintilação de melodias que recuperam a facilidade melódica dos tempos com Art Garfunkel, para lhes imprimir um cunho muito pessoal. Formidável também a maneira como recupera a facilidade pessoal dos tempos com Art Garfunkel, para lhes imprimir um cunho muito melódico. Enfim, temas como “Kodachrome” e “Take me to the Mardi Gras” caíram no goto de todos e venderam-se como batatas, o que, em questões de arte, é o que mais interessa.

No álbum ao vivo “Live Rhymin’”, de 1974, entretém-se a reproduzir novas versões de “The boxer” e “Bridge over troubled water”, acompanhado por músicos negros e pelos chilenos Los Incas, rebatizados Urubamba, numa brincadeira com “El Condor Pasa”, entre nós um “must” radiofónico absoluto do pós-25 de abril.

 

Louco, depois de tantos anos

 

Tempo entretanto de continuada introspeção e da loucura finalmente assumida em “Still crazy after all these years”. É dos álbuns mais conhecidos de Paul Simon, mas também um dos mais incompreendidos. As massas viram nele apenas um lote de canções aprazíveis, compostas por um autor de reconhecidos méritos. Poucos foram os que se aperceberam de estar diante do genuíno testamento espiritual de um artista em fase crítica, para quem a música sempre serviu de terapia. Que é “My little town” senão a manifestação patética de uma alma torturada? Que alucinações povoam “Night Game” que não façam parte do catálogo geral das fantasias esquizofrénicas? Pobre, pobre Paul Simon, tão novo e já preso nas garras da loucura. Nem a presença entre os músicos convidados de Tony Levin, Steve Gadd, Phoebe Snow, Toots Thielemans, Phil Woods e o próprio Art Garfunkel foram suficientes para aliviar o sofrimento. “Still Crazy after all these years” fica para a história como um dos manifestos mais pungentes sobre a inexorabilidade do destino, a solidão humana, o pavoroso assombramento existencial resultante do confronto com a divindade, o medo do desconhecido, o medo dos espaços abertos, o medo das picadas de inseto, a aversão aos dentistas, a poliomielite e a febre dos fenos. Medonho e grandioso ao mesmo tempo.

“One-Trick Pony” e “Hearts and Bones”, respetivamente de 1980 e 1983, são álbuns que conheço mal, e por isso não interessam muito, sendo pouco importantes na economia da obra do autor. Completamente irrelevantes. Mesmo que Philip Glass tenha contribuído com arranjos para um tema deste último, “The late great Johnny Ace”, dedicado ao próprio e a John Lennon. Philip Glass que nas suas próprias “Songs from liquid days” não dispensaria a voz do autor do “som do silêncio”.

 

Contra o boicote

 

Incontornável é, sem sombra de dúvida, “Graceland”. Sem sombra de dúvida, mas com sombra de pecado, já que houve quem não lhe perdoasse ter passado por cima de preconceitos e convenções enraizadas.

Tudo começou com a audição de uma cassete-pirata, contendo gravações de música sul-africana, no estilo “gumboots”, um “cocktail” explosivo de cânticos zulus, hinos vitorianos e “soul” traficada.

Entusiasmado, Paul voou para a África do Sul, onde registou em fita magnética alguns desses artistas locais. A seguir, trouxe-os consigo para Nova Iorque e Londres, para novas gravações e misturas a que acrescentou finalmente os “takes” vocais da sua autoria.

Foi o bom e o bonito. De oportunista a fascista, tudo lhe chamaram. Não lhe perdoaram ter “infringido” o boicote impeditivo para qualquer ocidental de colaborar com o “monstro” sul-africano, fosse qual fosse a cor da pele e a filiação ideológica. Intelectuais da estirpe de Paul Weller, Billy Bragg e Jerry Dammers exigiram que fosse reposta a legalidade e que o prevaricador pedisse publicamente desculpas. Paul Simon fez-se distraído, olhou para o outro lado e calou-se, enquanto o disco vendia às toneladas. Miriam Makeba, Hugh Masekela e mais 25 instrumentistas negros, por seu turno, não ficaram nada procupados e acompanharam o “porco fascista” por todo o lado numa “tournée” mundial que serviu para calar as bocas acintosas.

 

A música das botas

 

“Graceland” inclui-se na tendência imparável para embalar seja que produto for no pacote, atualmente rentável, da “world music”. Com resultados diferentes, David Byrne, Peter Gabriel e Sting não se coibiram de explorar o filão. Para Paul Simon, tratava-se de aproveitar, no bom sentido, as capacidades dos “melhores cantores” do continente africano. No caso concreto de “Graceland”, o “ensemble” Ladysmith Black Mambazo e o nigeriano Youssou N’Dour.

Do cruzamento entre duas culturas díspares surgiu o diamante. “Graceland”, para além de todas as polémicas geradas à sua volta, irradia música e energia por todos os poros. “Gumboots” (designação com origem nas botas dos mineiros negros), o “jive sound” ou “Mbqanga”, música de rua do Soweto (que partilha semelhanças com o “rhythm ‘n’ blues” e a música “zydeco”), eletricidade e as típicas subtilezas melódicas de Paul Simon juntam-se num ritual de alegria e liberdade, demasiado forte para as débeis investidas dos detratores. Bem podiam as Nações Unidas continuar a gritar, agitando a bandeira do boicote. “Graceland” é terra inexpugnável.

 

Estado de graça

 

“The Boy in the bubble”, gravado com o agrupamento do Lesotho Tao Ea Matsekha, dispara no acordeão e na rítmica do “Gumboots”. “Graceland” recorre aos serviços do guitarrista Ray Phiri e ao baixo de Baghiti Khumalo e soa a “country” sem fronteiras. “Gumboots” é isso mesmo, o lamento do mineiro na escuridão da vida e da mina, redimido pelo ritmo e a intervenção esclarecida dos saxofones. “Diamonds on the soles of her shoes” serve para os Ladysmith Black Mambazo brilharem, tal como “Homeless”, escrito por um dos seus membros, Joseph Shabala. Heresia máxima, em “You can call me Al”, aparece a tocar um músico sul-africano branco. Os objetivos e ideais do músico são claros (não se veja aqui quaisquer facciosismos racistas): “Aceitação, a tentativa de alcançar um estado de paz, de redenção ou de Graça”. Mas ainda aqui as línguas viperinas atacaram: Paul Simon não teria pago aos músicos africanos as “royalties” devidas, tendo estes trabalhado para si praticamente “de graça”.

Se críticas há a apontar a “Graceland”, estas dizem respeito a uma certa complacência académica, diríamos mesmo aleatória, da parte de Paul Simon, com alguns laivos de promiscuidade e mesmo uma atitude geral atentatória contra os bons costumes. Mas isso foi sempre assim, desde o início.

 

Mistérios da mente humana

 

Por fim a confluência final nas florestas e rios do Brasil. Milton Nascimento foi o instigador de Paul em novo pecadilho, à procura do “ritmo dos santos”. O que de imediato sugere mais um libelo a favor da floresta e dos índios da Amazónia. Nada mais falso. O que Paul Simon procurou solucionar em “Rhythm of the Saints” foi um problema essencialmente metafísico: analisar o modo como a mente “salta e muda ao longo do dia” (numa nítida recorrência à problemática abordada em “Wednesday Morning 3 a.m.”). Para Paul Simon, há um mistério insondável no facto da mente humana passar num ápice do êxtase ao desespero e vice-versa. Num instante achar que “está tudo bem” e no outro afligir-se com a eventualidade da guerra. Num minuto passar da felicidade completa à aflição de se saber seropositivo. Terá concluído que só a santidade permite ultrapassar a dialética.

É nessa medida que “Rhythm of the Saints” procura conciliar opostos, estéticos e éticos. A revolta dos negros sul-africanos, no primeiro caso. A aceitação passiva e a languidez do negro brasileiro, no segundo. Se “Graceland” era a celebração do ritmo, aquele joga na subtileza e nos arranjos etéreos, à procura da transcendência e do transe hipnótico. Se “Graceland” era um tambor de terra e tempestade, “Rhythm of the Saints” é marimbas, oceano, vento. “Graceland” é um grito. “Rhythm of the Saints” um murmúrio.

Num dos temas fortes do disco, “The obvious child”, Paul Simon esteve quase para convidar Bob Dylan a cantá-lo. Depois achou que isso só serviria para desviar as atenções. O comando das operações rítmicas foi entregue aos brasileiros, obrigados embora a um “low profile” subtil imposto pela mesa de mistura. J. J. Cale participa como co-autor de dois temas, acentuando ainda mais a impressão de imponderabilidade. Tudo flui com a placidez de um rio durante o Verão, que vai sem saber para onde vai.

 

Por fim, a santidade

 

De resto, é talvez este o principal “problema” de Paul Simon – uma questão de orientação. Acusam-no de refugiar-se no perfeccionismo. Ele aceita finalmente a acusação, liberto da necessidade e dos constrangimentos de destino fixo. Atingida finalmente essa “insustentável leveza do ser” que tanto pode ser conquista como desistência.

Há uma história divertida: uma vez, ao transportar no carro um amigo ferido numa perna, Paul aproveitou o silêncio dorido deste, para lhe perguntar a opinião sobre umas misturas para o novo álbum. Paul Simon acha a história engraçada, mas diz que não é verdade. Apenas receia uma coisa – a morte. “A ideia de vir a morrer”, diz, “não é mitigada pelo facto de uma orquestra poder tocar na televisão ‘Bridge over troubled water’ nessa mesma noite.” Resta-lhe a santidade. E a música dos outros.

 

 

Perlinpinpin, e fez-se luz [Encontros Musicais da Tradição Europeia]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 15 JULHO 1991 >> Cultura

 

Encontros Musicais da Tradição Europeia

 

Perlinpinpin, e fez-se luz

 

Em Oeiras, os Encontros Musicais da Tradição Europeia terminaram como começaram – em beleza. Reunidos público, músicos e vontades, o sonho cumpriu-se. A Europa esquecida fez soar a sua voz.

 

Este fim-de-semana, em Oeiras, acabaram os Encontros. Fruto do esforço e do amor à causa mais uma vez demonstrados pela organização, a cargo da Cooperativa Cultural Etnia. Encontro dos “maluquinhos” da “folk” com a música menina dos seus olhos. Dos curiosos com um novo mundo, que sempre foi o seu, embora nunca tivessem dado por isso. Encontros que, pela segunda vez, souberam escolher programa a preceito, marcando presença com alguns dos nomes mais significativos da “folk” atual. O público correspondeu, em número e entusiasmo, tornando o Auditório do Complexo das Forças Armadas num local de festa. Os militares puseram flores no cabelo, tangeram liras e flautas. Abriram portas. O serviço obrigatório deveria ser assim.

Na sexta-feira atuaram os ingleses Whippersnapper e os portugueses Vai de Roda, estes já com assinatura neste tipo de certames. O trio inglês trouxe a Oeiras lembranças antigas, glórias passadas, revivendo o espírito e a música dos lendários Fairport Convention. Dave Swarbrick partiu mas os que ficaram chegam para manter acesa a chama. Chris Leslie, agora o único violinista, é um fora-de-série, fazendo o que quer do seu violino azul eletrificado. Martin Jenkins e Kevin Dempsey, respetivamente no “mandocello” e guitarra acústica amplificados, não lhe ficam atrás e também deram lições de virtuosismo. Entre cada tema contaram as histórias de cerveja do costume. Conseguiram a proeza de pôr a assistência inteira a cacarejar, num tema sobre galinhas, enquanto o violinista dava a volta à sala, e toda a gente se divertia numa sala transformada em manicómio. Longe de quaisquer purismos os Whippersnapper foram uma lufada de loucura, tecnicismo e boa disposição. Requisitos que se exigem a este tipo de música.

 

Bruxas e mãos de fada

 

Tentúgal e os Vai de Roda fizeram o habitual: a encenação rigorosa de um Portugal imaginário, enraizado na matriz renascentista e prosseguido nos “bailes mandados” e cadências elétricas dos dias de hoje a preto e branco. A sanfona, a ponteira, o violino, as guitarras e tambores, as vozes e as palavras de um naturalismo (ainda não) perdido, contam e cantam a sobrevivência da arte de ser português, assombrada por boas e más bruxas que persistem em conspirar na escuridão. Os Vai de Roda seguem à procura do futuro.

Sábado começou por ser um negócio de harpas. O duo feminino escocês Sileas, que atuou em vez do bardo Robin Williamson, inicialmente programado, deu todo o sentido à expressão “mãos de fada”. Patsy e Mary, loura e morena de calças e blusas estampadas, têm dedos de ouro. Dedos sábios e delicados, fizeram vibrar cordas de luz. Doce Escócia, fluindo suave nas danças ao longe, no sorriso das raparigas, no anelo gaélico do canto, distante na gramática mas íntimo na oculta geografia. Tentaram que o público cantasse um refrão, em gaélico, tão simples como uma partitura de Stockhausen. O resultado soou efetivamente a Stockhausen.

Interpretaram temas de “Beating harps”, como corações. E de “Delighted with harps”, todos nós, dessedentados da grande sede interior e da secura tórrida da tarde. Tanta, que o alarme antifogo estridente, tocou, interrompendo como um despertador indesejado o fluido cristalino das harpas. As Sileas pararam de tocar, sorriram e saíram debaixo de uma trovoada de aplausos.

Para o final estava guardado o momento mais alto, com os occitanos Perlinpinpin Folc, que já haviam atuado nos Encontros do ano passado. A música destes quatro senhores, calmos na postura mas completamente loucos no resto, desafia todas as definições e apreciações. A Occitânia é o mar profundo onde pescam uma ancestralidade simultaneamente pagã e luminosa, com sabor a verde, pedra e prata, encimado pelo azul escuro riscado pelos monstros e anjos psicadélicos do céu medieval. Para além da panóplia instrumental que inclui a gaita-de-foles, o violino e instrumentos de sopro bizarros como o gemshorn, os sons surgem de tubos de vassoura, tambores de água, conchas, paus, arcos, soando a grutas, estrelas, rios e sonhos.

Os Perlinpinpin Folc desceram à terra, falaram com pronúncia cerrada de gascões, das virtudes do bom vinho português, das vindimas e colheitas, de gaivotas que morreram, de lendas estranhas, do cinzento chuvosos dos vizinhos bascos. Cantaram complexas polifonias vocais, na língua antiga de Oc. Foram tudo o que um grupo de música tradicional deve ser: excitante, versátil, verdadeiro. Oeiras não os esquecerá tão cedo. O sonho tornou-se realidade com as sílabas mágicas de Perlinpinpin.

 

Crowded House - Woodface

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 10 JULHO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

CROWDED HOUSE
Woodface
LP/MC/CD, Capitol, distri. EMI-VC
 

Uma imagem com texto, livro

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Os irmãos Finn, Tim e Neil, fizeram parte de uma banda neo-zelandesa dos inícios dos anos 80, os Split Enz, responsável por algumas das melodias mais engraçadas da era pós-new wave. No tempo dos Verões passados a dançar ao som da “Echo beach” de Martha and the Muffins, dos Shirts, enfim, das mil e uma pequenas bandas que então serviam para tornar mais agradáveis os dias, e sobretudo as férias, da nossa imaginada adolescência. Os Crowded House terão perdido, com a passagem dos anos, a inocência dos Split Enz. O que decerto não perderam foi a capacidade de, a partir do modelo eterno, os Beatles, construírem um naipe respeitável de canções Pop suficientemente agradáveis para se levar para a praia e usar em caso de necessidade (festa, esplanada, pôr-do-sol com a/o namorada/o, etc). Com títulos como “Chocolate cake”, outra coisa não seria de esperar. ***

 

18/04/2026

Danças e cânticos do fundo dos tempos [Encontros Musicais da Tradição Europeia]


 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 9 JULHO 1991 >> Cultura

 

Segundos Encontros Musicais da Tradição Europeia animam terras portuguesas

 

Danças e cânticos do fundo dos tempos

 

Todos se encontram com todos, nestes “Encontros” europeus que começam a ter tradição. Ou pelo menos, todos os que não desprezam o passado para melhor viver o presente e projetar o futuro. Em quatro localidades do país, a alegria tem sido a palavra de ordem.

 

Uma imagem com texto, preto, branco, vintage

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Em Guimarães, Famalicão, Oeiras e Évora decorrem, desde a passada quarta-feira, os Segundos Encontros Musicais da Tradição Europeia, até agora um sucesso a todos os níveis. Música tradicional do “velho” continente. A festa de mãos dadas com a cultura, numa louvável iniciativa que, à semelhança do ano passado, voltou a apostar, e bem, na descentralização. No meio da ruína de capelinhas decrépitas, a corrupção e as grandes negociatas, louve-se o despontar de novas alternativas que, como esta, dêem a conhecer outras maneiras de ver e sentir o mundo em que vivemos.

Os artistas vieram de regiões afastadas pela geografia mas próximas na identidade profunda e na génese cultural. Chegaram até nós vindos da Occitânia e Lyon, França, da Catalunha, Espanha, da Inglaterra e da Irlanda. Os portugueses cá estão, para mostrar tesouros e maravilhas, em desafio amigável com o resto da Europa.

Hoje em Famalicão, por exemplo, tocam os ingleses Whippersnapper e os lioneses “La Grande Bande des Cornemuses”. Amanhã será a vez de Guimarães receber os ingleses e os occitanos Perlinpinpin Folc. E assim por diante, numa ronda fraterna por uma Lusitânia de súbito desperta para o seu amanhecer.

No passado sábado, a noite, aprazível, convidava à fruição. Dos prazeres do corpo e do espírito. Aconteceu assim, no parque, muito a propósito chamado “dos Anjos”, em Algés, porque os dez gaiteiros de Lyon não cabiam no auditório e a noite era propícia ao ritual.

Noite inesquecível para quantos trocaram o conforto das pantufas e a realidade virtual do pequeno écran pela celebração coletiva das festas da Lua e o convívio ameno com os sons, os outros e a Natureza, ali, como que por magia, concentrada num microcosmos quadrado e empedrado, delimitado pela luz dos holofotes e pela expectativa de crianças e graúdos.

 

Rituais dionisíacos

 

De súbito, irrompendo por entre as conversas e a música de José Afonso que saía dos altifalantes, a surpresa e o sobressalto, provocados pela entrada no terreiro, de uma personagem mascarada, de chifres ameaçadores, percutindo um enorme tambor pendurado à maneira de um falo, a ditar o ritmo do corpo. Depois, um a um, os dez gaiteiros da “Grande Bande des Cornemuses”, dirigidos por Jean Blanchard e coreografados por Laurent Figuière, foram surgindo de entre o arvoredo ou das escadarias do palácio, num crescendo sonoro provocado pelas gaitas-de-foles que aos poucos se iam juntando em uníssona congregação ao centro do recinto. Os músicos vestidos de branco, flores, ramagens e frutos na cabeça e à volta da cintura, evocavam, de forma deslumbrante, as cores e os sabores dos ciclos naturais. Em louvor a Pan, o deus dos rebanhos e dos bosques.

Diante dos muitos olhos e ouvidos siderados com o inusitado da apresentação, foram recriadas várias cerimónias ancestrais, com os músicos em constante movimento, na teatralização de mitos sobre a vida e a morte, ao mesmo tempo que as gaitas-de-foles enchiam o ar de cadências hipnóticas. A assistência susteve a respiração, quando dois dos gaiteiros retiraram a máscara e cortaram a longa cabeleira ao chifrudo, de maneira a simbolizar a vitória da energia espiritual sobre as pulsões do instinto. Ou quando Jean Blanchard incarnou o sacrificado, “morto” e ressuscitado num longo solo da gaita-de-foles. Completo o ciclo, os músicos terminaram a sua atuação como tinham começado, abandonando progressivamente o recinto até o som das gaitas se extinguir finalmente num recanto verde atrás da bancada.

 

Calores do Mediterrâneo

 

No dia seguinte o programa prometia. Rosa Zaragoza atuou na primeira parte, enchendo a sala com uma voz e presença corporal avassaladoras. Calor e garra, nas entoações vocais, nos requebros do tronco, na pose extrovertida. Os espanhóis chamam “salero” a este fogo. Acompanhada por quatro músicos (um no bouzouki, outro na guitarra e violino, um percussionista e uma rapariga de decote mais que generoso, nos apoios vocais), por vezes hesitantes e de modo algum à sua altura, Rosa interpretou temas dos seus três álbuns, alternando o repertório sefardita em que é especialista, com tradicionais turcos ou da Catalunha, mostrando à saciedade porque é considerada uma das maiores vozes atuais da música mediterrânica.

Do álbum “Cançons de noces dels jueus catalans”, “Sir Nasir La-Hatan” ou “Dia de Shabat”, evocativo do incêndio de Salónica, constituíram momentos altos de uma atuação que cedo a todos surpreendeu pela positiva. A parte final foi preenchida por temas do mais recente “Les nenes bones van al cel; les dolents a tot arreu”, o tal das meninas más que, em vez do céu, vão para “todo o lado”… Destaque para “Glosses contra la celebració del V centenari”, dedicada aos índios americanos e “Baga, biga, higa”, com letra retirada da tradição oral basca, em que vestiu a pele de uma feiticeira a lançar o sortilégio. Pelo sim pelo não, avisou os presentes, não fosse alguém transformar-se, ali mesmo, num inseto.

Regressou ao palco para dois “encores”: “Ai, quina alegria…” onde se congratulou por não ser Madonna nem ter uma moradia em Miami Beach e, a fechar, uma canção de embalar, cantada em solo absoluto.

 

Ritmos endiabrados

 

Com a entrada em cena dos irlandeses Altan, tudo despareceu para dar lugar à vertigem da dança. Insuperáveis executantes nos respetivos instrumentos, com relevo para os dois violinistas, Paul O’Shaughnessy e Mairéad Ní Mhaonaigh, uma loura angelical, toda de branco, e para o flautista Frankie Kennedy. Como quase sempre acontece e é típico dos irlandeses, sobretudo quando já bem bebidos, o humor não podia faltar. Nunca perdendo o ar circunspecto, Frankie, flautista e um dos contadores de histórias de serviço, provocou amiúde a hilariedade, com constantes apartes e referências à boa cerveja portuguesa ou ao nome dos alfaiates que confecionaram os trajes (vulgaríssimos) de cena.

Numa prestação que incidiu sobretudo nos “reels” e “jigs” instrumentais, as baladas interpretadas por Mairéad (por ora ainda distante da excelência de grandes damas como Dolores Keane, Triona O’Domhnaill ou Catherine Ann-MacPhee) criaram, por contraste, momentos de intimismo e descompressão que logo davam lugar a mais uma sequência de ritmos endiabrados. O homem do bouzouki partiu uma das cordas do instrumento, no entusiasmo da refrega. Mairéad sorria de olhos brilhantes, incrédula com a recetividade e a crescente loucura do público, e ligava o “turbo” do violino, acelerando ainda mais a desafiar os outros que, por sua vez, a ultrapassavam.

Alguns jovens não resistiram, saltando das cadeiras para se entregarem, sem preconceitos, à dança, perante o olhar complacente dos mais velhos. A festa, enfim. Total e libertadora, fazendo esquecer esse outro ritmo, por vezes monótono e enfadonho, do dia a dia.

À saída houve quem reparasse no som solitário de uma gaita-de-foles, gemendo a um canto afastado do bar. Um dos “sonneurs de cornemuse”, muito jovem, evocava, de olhos cerrados, em profundo transe alcoólico, a beleza indizível de uma música que toca onde poucos ousam tocar. Houve quem se risse. Houve quem calasse, comovido, e saísse para a noite cálida, a sonhar.

 

O baile vai começar [Encontros da Tradição Europeia]

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 JULHO 1991 >> Cultura

 

Encontros da Tradição Europeia arrancam hoje em Famalicão

 

O baile vai começar

 

Da Occitânia à Catalunha, do Piemonte à Irlanda e Escócia, sem esquecer o Portugal de ressonâncias celtas, a aposta na divulgação de uma herança musical que, fluindo embora por diferentes leitos, nasceu e desagua em águas comuns. Europa de novo confluente no seu extremo geográfico e anímico mais ocidental.

 

 

Em Famalicão têm hoje início os 2ºs Encontros da Tradição Europeia, que também decorrerão em Oeiras, Évora e Guimarães. Como no ano passado, são organizados pela Cooperativa Cultural Etnia. Durante treze dias, a música tradicional ocupa o centro das atenções. De Norte a Sul, desenhando um quadrilátero (ou uma cruz) arquitetado com a energia animada, dizia Pascoais, pela “saudade do Futuro”. Compreender esta expressão é compreender o sentido do tempo e a maneira como a cultura se estratificou na Europa, varrida nos primórdios por ventos e ideais do Oriente.

Dos brâmanes hindus e bardos celtas aos novos trovadores que, entre o cimento das grandes metrópoles, de novo erguem o bordão e a “estela”, são ainda e sempre os eternos peregrinos do novo mundo, a calcorrear estradas e eras de São Tiago, entre pedras e estrelas, até Compostela, a buscar o infinito.

 

Oito descobertas

 

Oito caminhos, outras tantas descobertas: Altan (Irlanda), Robin Williamson (Escócia), Whippersnapper (Inglaterra), Perlinpinpin Folc (Occitânia, França), La Grande Bande des Cornemuses (França), La Ciapa Rusa (Piemonte, Itália), Rosa Zaragoza (Catalunha, Espanha), Vai de Roda e Romanças (Portugal).

Com três álbuns gravados, “Altan”, “Horse With no Heart” e o recente “The Red Crow”, os Altan constituem uma das grandes revelações da “Folk” irlandesa dos últimos anos, da estirpe de grupos lendários como os Bothy Band ou Planxty. Mairéad Ní Mhaonaigh (violino e voz), Frankie Kennedy (flauta), Ciaran Curran (bouzouki), Mark Kelly (guitarra), Paul O’ Shaughnessy (violino) e Ciaran Tourish (violino) dão corpo e voz a um ritmo endiabrado e a melodias inspiradas no gaélico, que, no cruzamento entre o antigo e o novo, recuperam a jovialidade e o ritual de encontro com a terra.

A Oriente da “terra da ira”, os Whippersnapper fazem dos instrumentos de corda reis da festa. São três (Dave Swarbrick, violinista louco dos seminais Fairport Convention, abandonou recentemente): Martin Jenkins e Kevin Dempsey (antigos membros de uma das bandas mais interessantes da “Progressive Folk” dos anos 70, os Dando Shaft) e Chris Leslie. Juntam o “mandocello”, o bandolim, as guitarras e a flauta aos sintetizadores, aliando a doçura dos “airs” à eletrónica e a um discurso por vezes próximo do “jazz”.

O terceiro representante das Ilhas Britânicas é Robin Williamson, novo bardo escocês, harpista como mandam as regras do segredo. Integrou, ao lado de Mike Heron, uma das bandas mais estranhas de sempre, os Incredible String Band, mistura exótica de mil e um instrumentos, mantras hipnóticos e mitologia celta, com o rock e o “senhor dos anéis” de permeio. A dada altura optou pelo que julgou ser o essencial: a harpa, o mundo antigo, as lendas e histórias para crianças. A solo ou com os Merry Band. Vinte e seis álbuns gravados e uma recusa sistemática em se entregar aos esquemas da indústria, conferiram-lhe o estatuto de referência obrigatória no capítulo dos grandes músicos populares do nosso tempo.

 

A vassoura também toca

 

Perlinpinpin Folc e La Ciapa Rusa repetem a presença nos Encontros. Regresso inteiramente justificado, já que constituíram dois dos melhores momentos da edição do ano passado. Ambos recuperam, de forma deslumbrante, a música popular das respetivas regiões (Occitânia e Piemonte), enriquecendo-a com um bom gosto e uma mestria técnica notáveis, servidos por arranjos inovadores. Fabulosos, no caso dos italianos, a voz divinal de Donatta Pinti e o modo como manejam as sanfonas, de fazer corar o espalhafato supérfluo das “estrelas do rock ‘n’ roll”. Quanto aos franceses não espanta vê-los tocar um saxofone feito de um cabo de vassoura ou uma espécie de realejo de vidro, enquanto as vozes se vão ocupando de intricadas polifonias.

Momento especial será decerto aquele proporcionado pela Grande Bande des Cornemuses, grupo de 10 tocadores de gaitas-de-foles, oriundo de Lyon, dirigido por Jean Blanchard (membro fundador dos La Bamboche), preparado para, logo no primeiro dia, animar as ruas de Algés, contando para tal com a encenação de Laurent Figuière, baseada na relação ancestral entre o homem e a Natureza.

Em Rosa Zaragoza encontram os judeus sefarditas do Sul de Espanha uma das suas vozes mais empenhadas, em álbuns como “Cançons de noces dels jueus catalans” ou “Cançons de Bressol del Mediterrani”. No mais recente, “Les nenes bones van al cel, les dolents, a tot arreu”, (as meninas boas vão para o céu, as más para todo o lado…) manifesto a favor das tais que “vão para todo o lado”, defende esta e outras minorias, como a cigana e a índia. Rosa vem acompanhada de quatro músicos, mas só o timbre inusitado e a emoção do canto chegam para provocar arrepios.

Finalmente os portugueses Vai de Roda (Tentúgal sempre às voltas com as bruxas do terreiro) e Romanças (que recentemente andaram em digressão pelas Ilhas Britânicas) completam um programa recheado de nomes importantes, capaz de, a breve prazo, tornar estes “Encontros” num dos principais festivais europeus de música tradicional.

  

 

PROGRAMA DAS FESTAS

 

ÉVORA

Praça do Giraldo

 

 

 

6 de julho

Altan

Perlinpinin Folc

(Irlanda)

(Occitânia / França)

10 de julho

Whippersnapper

Perlinpinpin Folc

(Inglaterra)

(Occitânia / França)

10 de julho

Rosa Zaragoza

 

Robin Williamson

(Catalunha / Espanha)

(Escócia)

11 de julho

La Grande Bande des Cornemuses

(França)

11 de julho

Whippersnapper

Vaide Roda

(Inglaterra)

(Portugal)

16 de julho

Romanças

Robin Williamson

(Portugal)

(Escócia)

 

 

FAMALICÃO

Praça 9 de Abril

 

OEIRAS

Auditório do Complexo Social das Forças Armadas

3 de julho

Vai de Roda

Perlinpinpin Folc

(Portugal)

(Occitânia / França)

6 de julho

La Grande Bande des Cornemuses

(França)

5 de julho

Altan

Rosa Zaragoza

(Irlanda)

(Catalunha / Espanha)

7 de julho

Altan

Rosa Zaragoza

(Irlanda)

(Catalunha / Espanha)

9 de julho

Whippersnapper

La Grande Bande des Cornemuses

(Inglaterra)

(França)

12 de julho

Whippersnapper

Vai de Roda

(Inglaterra)

(Portugal)

12 de julho

Robin Williamson

(Escócia)

13 de julho

Perlinpinpin Folc

 

Robin Williamson

(Occitânia / França)

(Escócia)


GUIMARÃES


Praça do Santiago

 

Todos os espetáculos são gratuitos e iniciam-se às 21h30

Excecionalmente, a atuação de La Grande Bande des Cornemuses em Oeiras (6 de julho) realiza-se no parque dos Anjos, em Algés


4 de julho


La Ciapa Rusa

 

Altan


(Piemonte / Itália)

(Irlanda)