01/05/2026

The Orb - Adventures Beyond The Ultraworld

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 SETEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 
THE ORB
Adventures Beyond the Ultraworld
2xLP/CD, Big Life, distri. Polygram

 

 Alex Patterson é o cérebro alucinado do projeto The Orb, expoente ambíguo da corrente “ambiente house”, aqui em perfeito desvario, numa colagem insana que projeta o ruralismo espacial dos KLF para as pistas de dança. Contando com a colaboração de músicos tão afastados como ex-membros dos Killing Joke e dos Berlin, ou o antigo guitarrista dos Gong, Steve Hillage, “Adventures...” flutua num universo de imponderabilidade, assombrado por fragmentos de música e de história, conceitos aqui despojados de sentido. Títulos como “Supernova at the end of the universe” remetem de imediato para os Pink Floyd (a capa retoma a fotografia de “Animals”), e para planâncias subitamente na ordem do dia: “Star 6 & 7 8 9” reinventa a música dos Neu; “A huge ever growing pusating brain, etc...” dir-se-ia uma samplagem, nota a nota, dos sequenciadores dos Tangerine Dream de “Phaedra” e “Rubycon”; “Spanish castles in space” deve tudo a Brian Eno (com o qual Alex, um auditor atento da série “Obscure”, trabalhará num projeto futuro). Arthur Russell e as suas reverberações fantasmáticas, a On-U Sound, o “astro-reggae” tribal, a pop eletrónica dos New Musik e o canto gregoriano à maneira dos Enigma são outras peças detetáveis num “puzzle” destinado a povoar os sonhos de astronautas à deriva no espaço. No espaço tudo é permitido. Tudo é ilusão. ***

 

O lado oculto da lua [Lua Extravagante]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 SETEMBRO 1991 >> Pop Rock

 

O LADO OCULTO DA LUA

 

Uma imagem com cansativo, pessoa, chapéu, pala

Descrição gerada automaticamente

 

Lua Extravagante é a designação bizarra do grupo formado pelos irmãos Vitorino, Janita e Carlos Salomé que, juntamente com a cantora Filipa Pais – “A mulher canta como os anjos”, diz Vitorino –, se propõe cantar o lado mais romântico e melancólico da alma portuguesa, sem descurar, porém, as fundações da terra por baixo da cidade. Histórias da “Nau Catrineta”, da Margarida do Monte “que foi amante do rei D. João V”, ou de um “Adeus ó serra da Lapa”, em homenagem ao mestre José Afonso. Histórias da noite e de boémia. Do lado oculto da Lua. O disco sai a 22 de outubro. O PÚBLICO falou com Vitorino, à procura de luz.

 

PÚBLICO – Há quanto tempo existe o projeto Lua Extravagante?

VITORINO – Há quase um ano. A Valentim de Carvalho viu o nosso projeto e propôs-nos gravar um disco. Nem sequer estava nos nossos horizontes gravar. O grupo tem um sentido associativo. O disco dá-lhe consistência, mas suponho que será o único que vamos gravar.

P. – Porquê, logo à partida, essa recusa em dar sequência discográfica ao projecto?

R. – Temos todos os nossos projetos pessoais, muito fortes. Gravar um disco e manter ao mesmo tempo o projeto do grupo torna-se muito obsessivo.

P. – Quais são então os seus futuros projetos a solo?

R. – Estou a preparar um álbum duplo, com textos (isto é uma informação inédita) do António Lobo Antunes e música minha. O disco vai ser lançado no final do próximo ano, na mesma altura que o seu novo romance. É uma espécie de “joint-venture” literatura-música, baseada numa coletânea de 19 textos escritos pelo António, alguns muito jocosos, sobre a realidade portuguesa.

P. – Que público pretende atingir a Lua Extravagante?

R. – Vamos procurar alargar o nosso público. Há neste disco uma linguagem que considero moderna, na interpretação e evocação do romantismo português. Temos uma tradição harmónica e melódica muito forte em Portugal, que nos anos 80 foi desprezada em benefício daquilo a que se chama o “rock português”, em que a prioridade foi dada ao ritmo. Geralmente, os cantores dos grupos rock não são grandes cantores, são mais “performers”, com um tipo de intervenção mais espetacular, encostado às formas anglo-americanas de fazer espetáculo. Quanto a nós, vamos tentar chamar a atenção para uma tradição mais recuada, expressa no “cante”. Quando falo de romantismo, refiro-me ao romantismo literário e à música romântica, não ao sentido “kitsch” do termo. Esse elogio do canto e da voz faz parte do romantismo português. Cantava-se muito bem em Portugal.

P. – Canto esse cujas raízes se encontram decerto no canto alentejano...

R. – A nossa aprendizagem fez-se a partir dele. No disco há quase sempre uma voz solista, apoiada pelas outras. A relação com o canto alentejano é sobretudo em termos técnicos e de imaginário. De resto já estamos arredados da música rural. Metade da nossa vida já foi passada nas cidades, afastando-nos culturalmente das nossas origens.

P. – Como explica o interesse crescente do auditor pelas músicas ditas tradicionais.

R. – A “world music”, não é? Acho que estivemos muito afastados do nosso imaginário durante 10 anos. Talvez o interesse que refere não passe de um fenómeno cíclico. Ou talvez haja um cansaço com a música anglo-americana que se ouve em Portugal, que é muito monótona. No meu caso, gosto muito da música negra das Américas, do Norte e do Sul. A grande matriz da música americana está nas músicas de origem negra. Não sei se não sofreremos por cá um massacre da chamada música de supermercado ou de elevador... Esse massacre, perpetrado pelos “media”, é uma maneira de fazer opinião pública.

P. – Que influência teve o rock ou a pop na sua música?

R. – Gosto muito de rock ‘n’ roll. Passei a minha adolescência com o Elvis Presley, Bill Haley and the Comets... Formei-me com o sentido social que tinha o rock ‘n’ roll e que agora está completamente distorcido e aviltado. O rock ‘n’ roll era contestatário, os americanos chamavam-lhe “música de pretos”. Era um contrapoder. Aquilo a que se chama hoje rock não tem nada que ver com essa atitude. Hoje, em termos gerais, o rock é betinho, do lado do poder. Suponho que a vertente pop, sobretudo inglesa – sou um grande admirador dos Beatles, do seu lado melódico –, aparece, por exemplo, num tema que dediquei especialmente aos Beatles, “Flor de Jacarandá”. No nosso disco há uma canção que lembra um bocado os Mamas and Papas.

P. – Pela amostra musical, o projeto Lua Extravagante funciona como um negativo, ou contraponto, de grupos como os Sétima Legião ou Madredeus. Há um lado negro, de luto...

R. – Mas o interior português é um interior de luto. Tudo o que tem um balanço do coração é triste. Claro que há um ritmo que evoca um pouco esse balanço. É uma forma de cantar do Sul, mediterrânica e peninsular.

P. – No seu caso, prevalece a faceta revivalista, de romântico “fin de siècle”...

R. – Sim, há uma evocação desse ambiente. Foi um tempo muito importante para a humanidade, com o nascer de ideias novas, e depois eu tenho uma grande admiração pelos anarquistas, pela carbonária portuguesa, que deixou muitas ideias. As bandas formadas no fim do século passado, princípio deste, ou as recreativas culturais são um trabalho cultural dos anarco-sindicalistas. Era um tempo de grande felicidade.

P. – Fala em anarquismo, mas grava para uma multinacional. Parece que os ideais se tornaram apenas uma evocação nostálgica...

R. – Os ideais culturais permanecem. Estou a lembrar-me de uma recreativa cultural aqui na Madragoa, o Clube dos Vendedores de Jornais, fundado em 1921. Ainda existe como recreativa, na Rua das Trinas. São coisas que permanecem sempre.

P. – Resta então, ao artista, o papel de observador que está de fora?

R. – Vivo de fora porque a minha realidade passou a ser outra, uma realidade sinistra, a da guerra do Golfo. Realidade essa transmitida nalguma boa música moderna. O pós-modernismo gerou grandes confusões e equívocos. Em Tom Waits, por exemplo, há ainda a elegia de uma certa boémia... Mesmo que, a partir dos 40 anos, seja preciso um pouco de “desporto líquido”...

P. – Que pensa da viabilidade ou não de projetos como a UPAV?

R. – Conheço muito bem o José Mário Branco, já trabalhei com ele, mas tenho uma opinião contrária à dele em relação à divulgação da música. Temos de ter os pés bem assentes no chão. O capitalismo em Portugal é uma realidade, entrámos no Mercado Comum e as leis do mercado são implacáveis. Eu vendo discos e continuarei a gravá-los só enquanto eles venderem. Só assim é possível ter força em termos de opinião pública. É dentro deste mercado selvagem que temos de lutar, resguardando embora sempre a nossa “petite fierté”.

P. – Não o procupa que a integridade do artista seja prejudicada por essa necessidade de vender?

R. – Não é preciso abdicar dos nossos princípios para fazer produtos de boa qualidade. Mas chegar em condições às pessoas só se consegue através do “marketing” e este é implacável. No que nos diz respeito, a nossa imagem nem sequer é muito vendável.

P. – O negro faz parte da sua imagem, até na maneira como se veste...

R. – Vestido de negro, confundo-me mais com a sombra, com o escuro. Isto tem que ver com o Sul, com o interior português. Curiosamente, nas zonas onde há muito sol, há o culto do negro. No Sul da Itália, na Grécia...

P. – Negro somente iluminado pela luz da Lua. A Lua Extravagante cantará esse lado lunar, oceânico, da alma lusitana?

R. – A alma lusa, sim. A Lua, no imaginário popular, é mais importante que o Sol. Repare nos símbolos que punham nos bébés, para dar sorte: uma estrela, um corno, uma Lua e uma mão fechada. Há sempre a presença da Lua.

P. – Que extravagância da Lua é essa que referem?

R. – Há uma moda alentejana, “Chamaste-me extravagante”: “Chamaste-me extravagante/ por eu ter uma noitada/ eu sou um rapaz brilhante/ recolho de madrugada.” O termo “extravagante”, no Alentejo, refere-se a uma pessoa estranha ao quotidiano, com um convívio diferente do normal, ao homem que canta a noite.

 

Kitaro - Live In America

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 SETEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 
KITARO
Live in America
2XLP/CD, Geffen, distri. BMG

 Uma imagem com texto

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     Tornado mundialmente conhecido por ter composto a banda sonora da série televisiva documental Silk Road/A Rota da Seda (registada em vários volumes discográficos), o japonês Kitaro passou a referência obrigatória nos circuitos “new age”, nomeadamente nos Estados Unidos, onde o “stress” citadino é aliado preferencial das editoras deste género de sedativo musical.

Adepto das sonoridades analógicas, Kitaro parece neste disco ter-se rendido por fim ao império dos “samplers”. Discípulo de Vangelis e do compatriota Isao Tomita (especialista na recriação em sintetizadores de peças clássicas), Kitaro viaja aqui por paisagens povoadas por harpas, flautas e regatos digitais, por vezes com resultados que fazem esquecer a proverbial mediocridade e monotonia do género (como em toda a sequência do primeiro lado).

Infelizmente, o resto não está à altura das promessas iniciais, descambando no mais detestável “rock planante”, evocativo de atrocidades como aquelas perpetradas, há anos atrás, pelos Space de má memória. Sinfonismos caducos do piorio, sequenciadores deixados a funcionar enquanto os músicos foram almoçar, pompa balofa sem circunstância, fazem deste duplo uma xaropada irritante. “The Light of th spirit”? “Cosmic love”? Se misticismo é isto, regressa camarada Marx, estás perdoado. *

 

Novo catálogo BMG [UHF, Peste & Sida]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 SETEMBRO 1991 >> Pop Rock >> Capa

 

NOVO CATÁLOGO BMG

 

Há um novo canal editorial para a música portuguesa – a multinacional BMG. Esta editora já operava há mais de dois anos entre nós, mas tinha os Delfins como único nome nacional no seu catálogo. Agora, com a entrada de Tozé Brito para a direção, no capítulo pop/rock, já assinaram pela BMG, os LX-90, Peste & Sida, Piratas do Silêncio, Sitiados e UHF. A festa de apresentação do catálogo foi na semana passada. Ouvimos e fotografámos as seis bandas contratadas e o seu novo patrão, para anteciparmos o que se arrisca a ser um dos mais importantes acontecimentos no panorama da música portuguesa dos anos 90.

Introdução não assinada. FM escreve sobre UFH e Peste & Sida

 

UHF

 

Novo guitarrista “heavy”, novo baixista “thrash”, mas som mais pop em “A Comédia Humana”, o álbum já a sair dos UHF.

Ainda e sempre António Manuel Ribeiro


Uma imagem com texto

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Para António Manuel Ribeiro, líder histórico dos UHF, a vida não tem sido fácil. Uma carreira e atitude ímpares no meio rockeiro nacional nem sempre foram suficientes para proporcionar à banda almadense o tipo de condições de trabalho que há muito justificariam. Ainda há bem pouco tempo, A.M.R. se queixava da promoção e distribuição deficientes da parte da antiga editora. Agora, a inclusão no catálogo nacional da BMG parece abrir para os UHF perspetivas mais risonhas. Com um novo álbum, de genérico “A Comédia Humana”, pronto a sair na última semana deste mês e uma canção, “Brincar com o fogo”, já a passar na rádio, o futuro aponta para um relançamento em força da banda mítica de Almada.

O problema da promoção e distribuição dos discos tem sido, de resto, o principal cavalo de batalha. “Só tínhamos dois caminhos”, assegura A.M.R., “ou abríamos um selo próprio e entregávamos a distribuição, ou então tínhamos um bom contrato e um plano de trabalho.” Questões que, para o vocalista dos UHF, passam sobretudo pela garantia de que “os discos vão chegar ao seu destino”, isto é, aos locais onde as pessoas os possam comprar. Como exemplo das deficiências a que alude aponta o caso recente ocorrido numa digressão dos UHF aos Açores, onde “Noites Negras de Azul” passava por ser o último disco da banda.

Não se deve, pois, pôr o problema em termos de dinheiro – “mais ‘royalties’ menos ‘royalties’, não era isso que estava em causa” –, mas antes em termos de segurança e garantias de um bom trabalho. Há mesmo a promessa, da parte da editora, de procurar “furar” no mercado internacional e impôr lá fora os produtos no catálogo. “Isto dá-me uma largueza de trabalho, de vistas de futuro que nunca tive”, declara aliviado António Manuel Ribeiro. “Penso que há cerca de nove anos que não tinha isto, desde que deixei a Valentim de Carvalho.”

Se nos recordarmos dos tempos negros recentes – “tive uma série de angústias porque as promessas que nos tinham sido feitas não estavam a ser cumpridas” –, não deixa de ser curiosa a confiança agora reencontrada, confiança que, segundo A.M.R., passa pelo conhecimento pessoal das pessoas envolvidas na nova equipa e projeto da BMG, escolhidas a dedo segundo um critério de “seleção de valores” e já “com provas dadas”.

Provisoriamente arredados para a gaveta ficam anteriores projetos independentistas – “não foram para a gaveta”, garante A.M.R., “abrir um selo em Portugal é sempre um desafio. E é um desafio para mim que sou um teimoso, que acredito nisto”. Longe vão os tempos derrotistas em que perguntava ironicamente a alguém da antiga editora se a música portuguesa “ia acabar”. Pelos vistos, a dos UHF não acabará nunca.

A prova-lo, o novo álbum, nova formação (com o Toninho, na guitarra, proveniente da banda de “heavy” Iberia, e o Nuno Filipe, no baixo, com experiência em várias bandas de “thrash metal”) e uma mudança de estilo tendente a fazer aumentar ainda mais o número de fiéis dos UHF. “A produção é diferente”, sintetiza o vocalista, “é um disco de extremos, com um som mais pop que talvez tivesse começado a aparecer com “Hesitar”, juntamente com algumas canções bastante rudes, à maneira dos UHF.”

Para os novos recrutas, como o Toninho, habituado ao ribombar metálico, a princípio “foi difícil entrar”, já que “o estilo era completamente diferente”. Mas, como faz questão de frisar o Renato Júnior, teclista e saxofonista, a mudança de som detetável no novo álbum passou inevitavelmente pelo aval e pelos arranjos de António Manuel Ribeiro – “é ele que filtra tudo e sintetiza aquela coerência que é a dos UHF”. A.M.R representa, de facto, a firmeza de princípios e a rebeldia típicas do verdadeiro rock. Que sonhos ou ambições fazem correr ainda este veterano para quem o “rock ‘n’ roll” foi a forma que escolheu de estar na vida? “Somos músicos. Não ‘mais ou menos’ músicos, mas músicos mesmo. Vivemos isto intensamente o ano inteiro, a vida inteira.” Histórias que se vão contando, na “Comédia Humana”.

 

PESTE & SIDA

 

Peste & Sida procuram novo baterista, antes de entrarem em estúdio para nova injeção de “veneno”

 

            Tudo em aberto para os Peste & Sida, uma das bandas da ala rebelde e provocatória, atualmente em manobras subversivas que atingem o sistema nervoso do rock nacional. De momento, as atuações ao vivo encontram-se, nas palavras de João San Payo, o baixista do grupo, em “stand-by”, já que falta um baterista para preencher a vaga deixada em aberto por Fernando Raposo. Da formação antiga, mantêm-se, além de San Payo, o Luís Varatojo e o Nuno Rafael, ambos guitarristas.

            Quanto ao baterista, ainda pouco há de concreto: “Vamos lá ver como é, estão três ou quatro prontos para entrar em audição e nós escolhermos um” – assegura João San Payo que, no entanto, aproveita a nossa deixa para assumir o papel de anunciante: “Se o PÚBLICO quiser, pode divulgar que os Peste & Sida têm uma vaga para baterista. Quem quiser preencher o lugar e se sentir qualificado para tal, pode aparecer”.

            Em relação ao novo álbum, o terceiro, depois de “Veneno” e “Portem-se bem”, o início das gravações está prevista para dezembro e a edição, em princípio, para março do próximo ano, dependendo o som da banda de como se vier a estabilizar a nova formação, já com a integração do novo baterista. João San Payo acha, contudo, que “a linha estáetica vai ser a mesma”. Para ele, o que é mais importante é que os Peste & Sida tentam “fazer sempre melhor”.

            Peste & Sida que são, de resto, uma banda nem sempre bem compreendida, provocando, com alguma frequência, reações agressivas e um ou outro desacato nas audiências. A designação que escolheram ajuda à festa. Herdeiros espirituais dos Xutos e Pontapés, os Peste & Sida apreciam sobretudo sentir-se incómodos para as mentes mais enfatuadas, assim como uma praga ou um vírus que vai corroendo lentamente por dentro.

            Até agora, injetavam o “Veneno”, via Polygram. Depois, foram “as mudanças todas” ocorridas nessa editora e a saída pela porta pequena, já com o contrato prestes a acabar. “Nem houve uma cartinha, nem um telegrama, nem um telefonema, nada”, lamenta-se, sentido, João San Payo. Agora, já bem instalados na BMG, sentem-se “porreiros” e dispostos a arrancar com o novo álbum, dando deste modo cumprimento ao acordado com o novo selo – três anos na casa, durante os quais terão que gravar dois álbuns. Para os Peste & Sida não há descanso. Para quem os ouve, muito menos.

 

A música em comício [Festa do Avante]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 9 SETEMBRO 1991 >> Cultura

 

Festa do “Avante!” 91

 

A música em comício

 

Na Festa do “Avante!” é sempre assim todos os anos: bons nomes em cartaz, atuações invariavelmente prejudicadas por deficiências e o desconforto inerentes ao gigantismo do evento. Sabe-se que é assim, mas vai-se na mesma. Festa é festa, como se costuma dizer. O contingente “folk” foi refrigério no banho de poeira.

 

Há duas maneiras de apreciar a Festa do “Avante!”. Impressiona, por um lado, a reconhecida capacidade de organização e mobilização dos comunistas portugueses. Montar uma cidade descartável não é fácil e o milagre é alcançado todos os anos. De resto, o partido é especialista em milagres. Por outro lado, essa mesma cidade, erguida com o objetivo de proporcionar a fruição, seja ela estética, ideológica ou gastronómica, ao apostar na massificação acaba por deixar em muitos um sabor a frustração.

Evidentemente, há quem tenha opinião contrária e aprecie. Para os da casa está sempre tudo bem. Festejar é, como no resto, nivelar por baixo. Quem também gosta muito, numa população de circunstância, é aquela camada de “jovens” para quem o paraíso consiste em emborcar kilolitros de seja o que for com álcool na composição, rebolar na terra, sozinho ou às voltas com o(a) parceiro(a) e, com sorte, culminar a aventura no hospital mais próximo. Na Quinta da Atalaia, foi um rodopio de ambulâncias para cá e para lá a transportar os despojos humanos resultantes dos êxtases instantâneos. Em qualquer dos casos, do militante fanático ao “freak” andrajoso, a festa funciona ao nível da alucinação.

 

O inferno são os outros

 

Para complicar, o programa das atividades culturais (e em particular as muitas músicas que são o mel da festa) costuma ser aliciante. São as circunstâncias que fazem o inferno. O anjinho incauto atraído pela promessa de boa música sofre a bom sofrer, numa correria de poeira e encontrões, para finalmente ver recompensado o esforço com mais poeira, parasitagens extra-musicais de toda a espécie (deficiências técnicas, atropelos à higiene mais elementar, interferências humanas provocadas por gritos e choros de crianças ou militâncias mais inflamadas, vómitos à tangente, numa massa envolta na bruma poeirenta que transforma o cenário numa variante proletária de “Mad Max”…) ou o desespero terminal de não conseguir chegar a tempo ao espetáculo ansiado, devido ao desfasamento e atrasos de horário.

Saíram-se bem os Pop Dell’Arte que na sexta à noite se embrenharam num delírio psicadélico “kitsch” apoiado por um eficaz show de luzes psicoalucinantes de tendência dadaísta. João Peste contorceu-se vocalmente a contento, imitou a Piaf, fez inveja a Vítor “Goodbye Maria Ivone” Peter e embasbacou meio povo presente em mil e uma provocações inteligentes.

Provocantes e inteligentes foram ainda os Telectu que, depois de Elliott Sharp, voltaram a escolher o parceiro certo – desta feita o percussionista Chris Cutler – para mostrar que por cá a vanguarda também mexe. Espaço para a improvisação e para o diálogo entre músicos de diferente formação e sensibilidade. Num instante o caos, no outro a convergência. Jorge Lima Barreto, em tom de contenção, sugeriu ambientes e avançou pistas. Vítor Rua provou até que ponto é bom guitarrista, sobretudo quando se esquece dos botões e pedais de efeitos, como aconteceu no encore final. Chris Cutler construiu, destruiu, brincou, ordenou e explodiu em compassos ora binários ora impossivelmente complexos. Experiência radical.

 

Uma fada entre a poeira

 

Quem sofreu mais foram os representantes da “folk”. Prejudicados por investidas sistemáticas de “feedback” e pela indiferença de um público na maioria já em avançado estado de decrepitude física e moral, os Boys of the Lough mostraram no palco grande, com a dignidade que se impunha, os mistérios da música irlandesa, a que poucos terão sido sensíveis, distraídos da hora mágica do pôr-do-sol.

No auditório “1º de Maio” (uma tenda de circo montada sobre a terra) a harpista Savourna Stevenson fez esquecer o mundo exterior e material. Nem o ruído insistente de um baixo tonitruante e monocórdico do grupo de arraial do lado conseguiu vencer a atmosfera intimista criada pela fada. Fada sensual, diga-se de passagem, mini-saia negra recuada em volta da madeira central do instrumento, acrescentando outras divagações ao sonho do espírito. Acompanhada em dois temas pelo violinista dos Boys of the Lough, Aly Bain, Savourna Stevenson alternou temas swingantes com tradicionais do seu mais recente disco “Tweed Journey” ou a revisitação de um tema de Duke Ellington. Brilhante, num barracão ou num palácio.

À noite, os Oyster Band enlouqueceram por completo uma assistência (em parte já recuperada da ressaca vespertina) que não se fartou de dançar e formar rodas ao som da “Punk Folk” da banda britânica. Alheados da agitação geral, dois jovens jogavam às cartas no escuro entre pernas, sentados no chão... Folia somente perturbada pela presença emblemática da vocalista June Tabor que, sem voz, e desfasada do grupo, arrefeceu os entusiasmos e conseguiu assassinar o clássico dos Velvet Underground “All tomorrow’s parties”, fazendo Nico revolver-se no túmulo. Rainha de outros reinos, June Tabor, ao contrário do que aconteceu no “Folk Tejo”, não deslumbrou.

Do reino de poeira, terra e confusão fica a recordação de umas febras com sabor a plástico rotuladas de “cozinha típica”, as imagens apocalípticas do império das latas de cerveja amontoadas rivalizando com os corpos empilhados e o comentário sabedor de alguém ao passar no palco onde atuava um “ensemble” de contrabaixos: “olha um violino!”. É assim na Festa do “Avante!”, os olhos só vêem aquilo que sabem ou querem ver...


Músicas autónomas proclama independência [Festa do Avante]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 6 SETEMBRO 1991 >> Cultura

 

XV Festa do “Avante!” começa hoje na Amora

 

Músicas autónomas proclamam independência

 

Todos os anos, por esta altura, os comunistas portugueses dão espetáculo. Sobre um fundo vermelho cada vez mais esbatido, na Amora, Seixal, voltam a erguer-se os palcos onde se fará a festa. Os camaradas estão resignados: a república da música há muito que se tornou independente.

 

Uma imagem com texto, ténis, pousar, pessoa

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Ideologia à parte, não faltam motivos de interesse em mais uma edição, a XV, da feta do “Avante!”, que durante três dias vai animar o cinzento poluído da margem Sul do Tejo. Em termos exclusivamente musicais, se ainda não é desta que vêm os Pink Floyd, resta a consolação de poder apreciar ao vivo o rock de Gianna Nannini, uma “latin lover” italiana que já trabalhou com Bertolucci, Antonioni e cantou o hino do último campeonato do Mundo de Futebol, capaz de incendiar corações de todas as cores com o som agressivo do seu mais recente álbum “Scandalo” – no domingo, às 22h, no palco 25 de Abril.

Mas o programa da Festa não engana: 1991 é o ano da consagração da música tradicional. Não deixa de ser engraçado verificar como o vocábulo “Tradição” se sobrepôs ao de “Revolução” no léxico das festividades comunistas. O que vem provar que os comunistas, quando querem, sabem ser homens “às direitas”…

June Tabor com os Oyster Band, Boys of the Lough e Savourna Stevenson constituem cartaz aliciante num campo musical que, finalmente, parece ter-se implantado nos gostos (mais que não seja consumistas) do auditor português.

June Tabor é apenas uma das vozes superlativas do canto feminino de raiz celta. Recentemente, no Coliseu, conseguiu fazer esquecer o equívoco chamado “Folk Tejo”. Pela sua voz, se com ela formos capazes de vibrar em consonância, chega-se ao céu. Em termos de materialismo dialético é difícil de compreender. Na Amora será talvez um pouco diferente, já que cantará acompanhada por um grupo de rapazes irlandeses dados à bebida (há algum irlandês que não o seja?) e que por isso mesmo fazem música de cair para o lado – os Oyster Band.

Da Irlanda brumosa de alma acastelada e pátria provisória do “senhor da ira”, os Boys of the Lough transportam consigo as texturas e odores da madeira e do musgo, do vento e da pedra. Trazem a alegria e a tristeza do exílio irlandês. Na flauta e no violino virtuosísticos de Cathal McConnell e Aly Bain. E na gaita-de-foles, como não podia deixar de ser. Sábado às 19h, no “25 de Abril”, para dançar até à exaustão. O comité central do partido em princípio não se deve opor…

Duas horas depois, às 21h, no Auditório 1º de Maio, é a vez da harpa de Savourna Stevenson serenar os ânimos, em dueto com o violinista dos “Boys”, Aly Bain. Savourna é um dos expoentes da nova linhagem de harpistas celtas, que como Máire Ní Chathasaigh, Alison Kinnaird, Billy Jackson ou as Sileas, recupera os códigos estilísticos e a mística do lendário Carolan, o bardo, para os devolver de forma intimista num contexto contemporâneo. Outros estrangeiros merecem uma chamada de atenção: os Bogus Brothers e o guitarrista de flamenco Rafael Riqueni (ambos com atuações agendadas para sábado, respetivamente no “25 de Abril” às 23h30 e “1º de Maio” às 22h). Havia o trio de Cedar Walton, mas foi cancelado.

Imensa, a legião portuguesa, representativa de diversos quadrantes, promete momentos de boa música. Sexta-feira convém não perder as atuações dos Plopoplot Pot de Nuno Rebelo, dos Pop Dell’Arte de João Peste e de Jorge Peixinho.

Sábado, sempre no palco principal, uma sequência interessante: Romanças, Issabary, Brigada Victor Jara, Júlio Pereira, António Pinho Vargas. No 1º de Maio: Trio de Carlos Bica, Idéfix e Zé-di-Zastre – o jazz em português. Finalmente, no domingo: Tina e os Top Ten, Delfins e José Eduardo Unit. Para o fim uma referência muito especial para a atuação (sexta, 22h30, no “1º de Maio”) dos Telectu de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua que se farão acompanhar pelo percussionista, anarquista e referência mítica da cena vanguardista mundial (Henry Cow, Art Bears, Skeleton Crew, David Thomas, Fred Frith, a constelação da “Recommended”…), Chris Cutler.

Depois há os ranchos folclóricos ou os grupos rock da última divisão, espalhados um pouco por todo o lado, a acompanhar a merenda no chão, de frango, poeira e garrafão. Enquanto se espera que o camarada Cunhal venha dizer que tudo está como era dantes…

29/04/2026

A máquina, peça a peça [Kraftwerk]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 AGOSTO 1991 >> Pop Rock

 

A MÁQUINA, PEÇA A PEÇA

 

Ao longo de quase duas décadas, com intervalos de produção mais ou menos alargados, a discografia dos Kraftwerk representa a expressão máxima da modernidade e a apologia irónica do “homem-máquina”. Agora, na sequência do êxito de “The Mix”, os álbuns originais “Radio-Activity”, “Trans Europe Express” e “The Man Machine” vão ser repostos em breve no nosso mercado, mas o que se impõe é a retrospetiva integral.

 

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KRAFTWERK/ORGANIZATION, 1972

Duplo álbum raridade editado na Vertigo, no qual os Kraftwerk antecipam a apoteose metálica que, anos mais tarde, os seus compatriotas Einstürzende Neubauten ou os ingleses Test Dept se encarregaram de celebrar. Numa Berlim então seduzida pelo misticismo planante dos Tangerine Dream e de Klaus Schulze, os Kraftwerk moldavam com a argamassa de Cage, Stockhausen e os resíduos estruturais do concretismo, esculturas de água e de metal, em reverberações corrosivas que depois se haveriam de chamar “música industrial”. Outros agrupamentos germânicos da época, Harmonia, La Dusseldorf, Cluster (cujo álbum “Cluster II” consitui o primeiro grande manifesto do “som industrial”) ou os Neu! viriam, cada um a seu modo, explorar as vias abertas pelos Kraftwerk, formando um núcleo vanguardista surgido precocemente nos anos em que quase todos se preocupavam mais com as imensidões cósmicas do que com a beleza claustrofóbica das grandes fábricas do Ruhr.

 

RALF AND FLORIAN, 1973

As grandes avalanchas sónicas do primeiro álbum são recicladas num carrossel minimalista que pela primeira vez provoca nos neurónios ânsias de dançar. “Elektrisches roulette” ou a rumba ciberpaquidérmica “Tanzmusik” (“música de baile”) demonstram até que ponto Terry Riley tinha razão quando defendia que o infinito era circular. “Kristallo” e sobretudo a frescura de frutos e paisagens tropicais de “Ananas symphonie” acariciam o corpo elétrico de Bradbury e abrem caminho para as sedimentações ambientalistas que Brian Eno transformaria em género autónomo.

 

AUTOBAHN, 1974

A auto-estrada e o fascínio do universo linear, ideal para se chegar ao novo mundo, dirigido por controlo remoto. “O automóvel é um instrumento de música”, diziam então Ralf Hütter e Florian Schneider, pela primeira vez auxiliados nas percussões robóticas por Wolfgang Flür e Klaus Roeder. Conny Plank fornecia a garagem, mas, para os Kraftwerk, o estúdio convencional começava a ser pequeno para a desmesura do projeto. A consola auto-suficiente da “fábrica” portátil Kling Klang seria a solução e o veículo privilegiado na construção do império eletrónico. “Wahn wahn wahn, das ist autobahn” – transmite o auto-rádio à saída de uma curva, consumando a ultrapassagem definitiva da “Fun fun fun” demasiado humana dos Beach Boys. A “Folk” industrial nascia em 22m30 de viagem através dos arquétipos do homem como eterno transeunte que foram “top” nos Estados Unidos e deveriam servir de exemplo à nossa Junta Autónoma de Estradas. O segundo lado despede-se do céu e das delícias da sonoridade analógica.

 

RADIO-ACTIVITY, 1975

Considerado à época uma desilusão, “Radio-Activity” permite aos Kraftwerk a descoberta das melopeias infantis e o abuso da melodia simplista. A rádio deixa de passar música e torna-se ameaçadora. “Radio-activity, discovered by Madame Curie, is here to stay, for you and me” – a mensagem, dita desta maneira, era difícil de levar a sério, mas Chernobyl viria a endurecer o conceito, juntando-lhe a dimensão da tragédia (os Kraftwerk acrescentariam mesmo, por causa da catástrofe, novos versos ao tema, em “The Mix”). “Airwaves” flutua no ar com a insustentável leveza do vazio pós-nuclear. Mas como numa novela de Philip K. Dick, a realidade é sempre outra coisa e a consciência perde-se sem querer no labirinto das suas próprias mutações. A Europa dançava a valsa dos eletrões.

 

TRANS EUROPE EXPRESS, 1977

Interrompida pelo álbum anterior, a viagem prossegue agora de comboio, que substitui o automóvel, como meio de transporte para o futuro. Síntese magistral de uma tradição europeia reinventada (Franz Schubert de martelo-pilão, a destruir os alicerces românticos), na miragem de uma prosperidade pós-industrial ou na nostalgia totalitária de um continente sem fronteiras. Os Kraftwerk atingem o domínio pleno das técnicas manipulatórias do imaginário contemporâneo. O horror de uma viagem sem fim com destino ao inferno (McLuhan chama-lhe a “aldeia global”) é camuflado pelo polimento extremo do som e pela depuração da palavra, reduzida ao essencial e por isso com um máximo de eficácia. Numa Europa “Endless”, até ao infinito, esmagada no clamor de “metal on metal”, “Trans Europe Express” deu uma alma à máquina e ensinou David Bowie (de “Station to Station”) a ser moderno.

 

THE MAN MACHINE, 1978

            Título óbvio para a continuação de um projeto único na música ocidental do nosso século – a simbiose harmoniosa entre o homem e a máquina, simbolizada na clonagem dos músicos e enfatizada pelas referências estéticas a Lissitsky e ao construtivismo russo. “As máquinas respondem-nos diretamente e nós às máquinas” – declarava Ralf Hütter a propósito de “We are the robots”, levando ao absurdo o termo comunista “robotnik” – o trabalhador perfeito, como peça da máquina omnipotente que é a sociedade materialista.

Emoção geométrica. Paraíso matemático. Futuro a escurecer em metrópoles banhadas na cor gelada de “neon lights”, tornadas substitutas das estrelas na arquitetura do cosmos.

O mundo deixa-se ofuscar pelo novo brilho – “Looking for a perfect beat” dos Afrika Bambaata deve a inspiração aos homens-máquinas. “The model” é êxito nas Filipinas, cantado por uma intérprete local. “Trans Europe Express” assume a paternidade da “Cold Wave” ou da pop eletrónica dos Human League, Depeche Mode, Telex, Orchestral Manoeuvres in the Dark, John Foxx, New Musik, Fad Gadget, entre muitos outros.

 

COMPUTER WORLD, 1981

            Bem instalados no coração da máquina, os Kraftwerk inventam novos “video games” para consumo do homem automático. “Pocket calculator” é tocado em calculadoras de bolso Casio e Texas, que, nos concertos ao vivo, são distribuídos à assistência, convidada a com eles improvisar. Data desta época a remodulação do estúdio Kling Klang, de maneira a permitir a sua utilização em palco, concedendo ao conceito duplo de “hardware / software” a dimensão do espetáculo. Anulada a tensão dialética entre racionalidade luciferina (“Numbers”) e a emoção, resta a derradeira mutação interior e a capitulação do humano, demasiado humano, na pureza fria do amor computorizado.

 

ELECTRIC CAFÉ, 1982

            “Boing boom tschak”, cadência onomatopaica com que os Kraftwerk se servem para parodiar o Hades teleológico, imitando com a voz o som dos sintetizadores e introduzindo uma nota de humanidade e humor à implacabilidade do projeto. “Electric Café” é o ponto de diversão possível num pesadelo já consumado. Muito minimal para cérebros normais – “Techno pop”, “Musique non stop” –, a vida, considerada abstração, só através da repetição “ad infinitum” da melodia como hipnose terapêutica, consegue o sucedâneo artificial capaz de manter a máquina em funcionamento. “Sex object” e “The telephone call” falam da solidão. Gerado por um computador, o homem será ainda o animal que ri?