24/09/2026

Diamanda Galás - The Singer

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 MAIO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Diamanda Galas
The Singer
LP/CD, Mute, distri. Edisom

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Depois dos espirituais e do gospel, Diamanda Galas volta a atacar, com os blues e a mesma maneira de cantar o lado negro da humanidade. De novo ao vivo, depois da missa celebrada numa catedral no duplo “Plague Mass”. Desta feita surge acompanhada apenas por um piano e um órgão, que lhe chegam perfeitamente para lançar os seus feitiços e imprecações. Na capa de “The Singer”, toda em azul, o azul dos blues, a cantora aparece com a seguinte inscrição gravada nos dedos: “Somos todos HIV positivos”, o que quer dizer que “temos todos sida” ou ainda que “estamos todos lixados”. A paranóia do costume. E são os gritos lancinantes, os urros animalescos, a voz de diva demoníaca que envenena tudo o que toca, tal qual uma praga. Muito em sintonia com o fim dos tempos (já em curso), Galas dedica-se à prática da inversão, em particular da música religiosa, de modo a carregá-la com uma polaridade oposta à original. Quando Diamanda canta “My love will never die” (de Willie Dixon) ou “Were you there when they crucified my Lord” (de Roy Acuff), onde se lê “love” e “lord” leia-se “ódio” e “diabo”. Diamanda Galas é muito mais sincera quando pede que se verifique o estado de limpeza da sua sepultura (“See that my grave is kept clean”), em “I put a spell on you”, de Screamin’ Jay Hawkins, ou no apocalipse final de “Judgement day”, único tema da sua autoria. “The Singer”, ainda aqui funcionando como o inverso do “álbum de clássicos” com que em regra os cantores pretendem afirmar as suas capacidades de intérpretes. O problema de Diamanda Galas é que já começa a fartar tanta gritaria, tanta maldição e, agora, também estes blues do inferno. Lá devem gostar todos imenso da sua música. (5)

           

Chet Atkins & Jerry Reid - Sneakin' Around

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 MAIO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Chet Atkins & Jerry Reid
Sneakin’ Around
LP/CD, Columbia, distri. Sony Music

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Que Chet Atkins tem um passado ninguém duvida. O homem é uma espécie de avô da “country music”. Tocou com Elvis Presley e Hank Williams e ajudou a definir o denominado “Nashville sound”. Aconselha-se então a audição desse passado e de álbuns como “Stay Tuned” ou “Chester & Lester”.

“Sneakin’ Around”, ao contrário do anterior “Neck and Neck” (gravado de parceria com Mark Knopfler) não faz jus a esse passado. A receita “country” com um cheirinho a jazz dos anos 50 regado com “chantilly”, e contando de novo com a presença de Knopfler num par de temas, resulta aqui em enjoo “mainstream”, que nem a técnica de guitarra – irrepreensível – de Atkins e de Reed (“toca guitarra como Ray Charles tocava piano”, diz o amigo Chet) consegue tornar apetecível.

Interessantes o ambiente muito “varieté” de “Vaudeville daze” e a evocação dos grandes “westerns” de antanho do título-tema, ao estilo de “Era uma vez na América”, com a harmónica solitária da praxe. Desce-se ao execrável em “Cajun stripper”, em que o dito “cajun” se despe sobre uma batida “disco”. Shit Atkins, não! (5)

Invasores do coração [Queima das Fitas do Porto]

 

Pop Rock

29 de Abril 1992

 

Porto

 

INVASORES DO CORAÇÃO

 



Tudo a postos no Porto para os festejos da Queima das Fitas. No programa de atividades, a música ocupa lugar de destaque. Mas este ano, para além dos concertos, a organização decidiu diversificar o leque de propostas e apresentar uma série de “noites” subordinadas a temas específicos.

            Os Invaders Of The Heart, de Jah Wobble, atraem a si as maiores atenções, com um concerto agendado para a noite de 6 de maio. Julian Cope, outro dos nomes fortes que constava inicialmente do programa, cancelou a sua vinda a Portugal, apesar de o contrato firmado com a organização, “por ter ocorrido um atraso na gravação do seu próximo álbum”, segundo declaração do próprio cantor. Em sua substituição haverá um concerto triplo com os Cabaret Voltaire, A Certain Ratio e os Sitiados.

           

Noites alternativas

 

            Katrina & The Waves trazem consigo os bons velhos tempos de confusão “afterpunk” e canções que não fizeram história no crepúsculo dos anos 70, mas que no intervalo de indecisão a que se convencionou chamar “new wave” serviram para animar os bailes de adolescentes para quem a música começou com os Sex Pistols. Na primeira parte os LX 90 vão decerto apresentar mais do que uma revolução por minuto e fazer muita gente dançar ao som da sua pop colorida de psicadelismo. Aguardada com bastante expetativa, a atuação dos Vai de Roda, de Tentúgal, acontecerá numa “noite diferente” e assinala o regresso ao formato que tão bons resultados deu no “Terreiro das Bruxas”, consumada uma “Bailia das Frores” que no recente Festival Intercéltico passou sem deixar grandes recordações.

            Mário Laginha, um dos melhores músicos e improvisadores de piano da nossa cena musical, e Carlos Paredes, uma guitarra e um mito com corpo e alma de humano, vão apresentar dois lados da mesma moeda – da arte de ser português. Depois, as “noites”: “diferentes”, de “delírio total”, “com ritmo” ou de “salsa”, dadas à imaginação de cada um – “alternativas às discotecas” – diz Nuno Rosa, elemento da comissão executiva da organização da Queima das Fitas do Porto, para quem o programa tradicional da Queima implicava que tudo acabasse “por volta da meia-noite” e se perdesse “o ambiente académico”: “As ‘noites’ pretendem precisamente contrariar um pouco isso, com uma entrada barata, a 300 escudos, de modo a permitir aos estudantes continuarem juntos o mesmo ambiente até às tantas da manhã”. Com a ajuda extra de saltimbancos que, espalhados pelos jardins do Palácio de Cristal, “farão as coisas mais mirabolantes, para criar focos de animação alternativos”.

           

Dança industrial

 

            Os Invaders Of The Heart são especialistas na junção musical do Ocidente com o Oriente, através de erupções dub audíveis nos álbuns “Without Judgement” e “Rising Above Bedlam”, torrentes de lava em que o baixo de Jah Wobble, antigo companheiro de John Lydon nos Public Image Ltd., participante em “Snake Charmer” ao lado de The Edge e Holger Czukay, a autor de vários álbuns a solo, funciona como detonador principal. Divagações não muito distantes dos African Head Charge ou das mais recentes incursões de Ginger Baker no universo da “world music”.

            De representantes originais e legítimos da chamada música industrial do início dos anos 80, os Cabaret Voltaire, disco a disco, concessão a concessão, acabaram por transformar-se em mais um grupo de dança que os grupos de “electronic body music” e de “house” gostam de citar. Longe vão os infernos e as manipulações selvagens de ruído de “Mix-up”, “Voice of America” e “Red Mecca”. No Porto, em princípio, não deve haver perigo.

            Samba, jazz, funk e uma costela industrial foram, à mesma época dos Cabaret Voltaire, os ingredientes que fizeram o sucesso e a sedução dos A Certain Ratio, também eles vítimas da passagem do tempo e do desgaste de ideias. “Sextet” e “To Each” fizeram dançar até à exaustão, através da aliança da animalidade dos ritmos com a complexidade de arranjos em que a estética de fragmentação servia de pau na engrenagem ao delírio dos pés. Comparados com eles e com os Cabaret Voltaire, os Sitiados parecem um pouco deslocados, com o seu acordeão ébrio e um amor pela música tradicional de “pub” que os aproxima dos Pogues. De comum com as outras duas bandas apenas o facto de também a sua música induzir à dança. Há quem dance de dor e há quem dance de alegria. Aqui reside a diferença numa noite que se prevê, no mínimo, agitada.

Estratégias pluralistas, ponto por ponto [Editora Point Music]

 

Pop Rock

29 de Abril 1992

 

ESTRATÉGIAS PLURALISTAS, PONTO POR PONTO

 

A chamada “música alternativa”, “new music”, ou como lhe queiram chamar, vai ter um novo selo, distribuído por uma multinacional. Chama-se Point Music e nasceu da associação das produções Euphorbia com a Philips Classics. O projeto, idealizado por Philip Glass, exige aos seus artistas a recusa dos formatos comerciais tradicionais, a vontade de experimentação e um trabalho dirigido a auditórios alargados.

 


            “Progressive work é a designação geral inventada por Philip Glass para qualquer música suscetível de integrar o catálogo da Point Music que em Portugal terá distribuição Polygram. O objetivo é divulgar “músicos sérios” e obras que escapem a qualquer categorização. Obras “clássicas” mas não “institucionais” nem “académicas”. Da lista de edições, exclusivamente em CD, da Point Music fazem já parte três discos com datas agendadas de saída: “Mapa”, do grupo brasileiro Uakti, em abril, a ópera “The Manson Family”, da autoria de John Moran, em junho, e “The Screens” de Philip Glass com o músico africano Foday Musa Suso, em setembro. Em agenda estão trabalhos de Todd Levin, John Gibson, Scott Johnson (autor desse manifesto da colagem sonora que é “John Somebody” e da banda sonora de “Patty Hearst”) e Jaron Lanier.

            Pelas amostras fica clara uma das ideias-base do projeto: o encontro e interação entre a cultura ocidental e a do chamado “Terceiro Mundo”. A Point Music afirma-se ainda vocacionada para a divulgação de novos talentos. Com a condição de Philip Glass gostar.

            Se do lado da Euphorbia, representada por Glass, Kurt Munkacsi e Rory Johnston, há a preocupação de levar estas “músicas difíceis” ao maior número possível de auditores; do lado da Philips vai-se mais longe e não se esconde o objetivo de tornar, a curto ou médio prazo, a Point Music numa editora de música contemporânea de primeira linha.

 

Monstros

 

            De formação clássica, os Uakti, Marco Antônio Guimarães, Paulo Sérgio Santos, Artur Andres e Décio de Souza Ramos, oriundos de Belo Horizonte, Brasil, tornaram-se notados pela sua participação em “Rhythm of the Saints”, de Paul Simon. Os quatro tocam instrumentos como o violoncelo e o clarinete, mas sobretudo uma panóplia monstruosa (“Uakti” é o nome de um monstro mítico cujo corpo era um instrumento musical) de percussões feitas de todos os materiais imagináveis: madeira, vidro, pedra, metal, plástico, bambu, borracha… O resultado do seu manuseamento, alguém o descreveu como “um cruzamento de Steve Reich, ragas indianas e uma orquestra gamelão”.

            “Manson” é apelido que evoca crime, fanatismo e banhos de sangue. John Moran pegou na personagem de Charles Manson e na sua comunidade “religiosa” para a partir delas compor uma ópera de pesadelo. “The Manson Family”, encomendada por Jed Wheeler para o festival do “Lincoln Center’s Serious Fun!”, mistura samples do álbum branco dos Beatles com gravações de Charles Manson, responsável pelo assassínio, entre outros, da atriz Sharon Tate, e de Lynette Fromme, membro da “família” acusada da tentativa de assassínio do Presidente Gerald Ford. Na lista de cantores figura o nome de Iggy Pop. “The Manson Family” é um disco sobre manipulação e o lado negro do “Verão do amor” dos anos 60.

            Para John Moran, as personagens de horror retratadas na sua ópera “representam os mesmos arquétipos que podem ser encontrados na tragédia grega”. A revista “Newsday” preferiu chamar-lhe “uma recriação convincente de um pesadelo, perturbante e esquizofrénico, e uma evocação do lado errado da psicadelia”. Quanto a Moran, foi acusado de fazer a apologia do criminoso e aconselhado “a manter-se longe das ruas”. Como precaução. Do currículo anterior do artista constam obras como “Hospital (Night Nurse)”, que é parte do ciclo “Circus of Eternity”, inspirado na noção budista de “samsara” (a ilusão, o “inferno sem fim”), “Haunted House” e “Solar System”. Não é brinquedo…

           

Ecrãs

 

            “The Screens”, composição baseada na obra homónima de Jean Genet, assinala a colaboração entre o minimalista americano Philip Glass e Foday Musa Suso, natural da Gâmbia e genuíno “mandingo griot” – músico e contador de histórias da tribo, estatuto ganho por hereditariedade que exige anos de treino e educação intensos. Data de 1989 o encontro de Glass como Foday Suso, quando de uma viagem do primeiro a África, durante a preparação da banda sonora para o filme “Powaqqatsi”, de Godfrey Reggio, na qual o músico africano viria a participar.

            Em “The Screens”, que relata episódios da guerra travada entre França e Argélia (1950-1962), procura-se o confronto entre dois tipos de cultura diferentes e o exame detalhado da “opressão, a ausência de esperança e a perversidade”, em que os ecrãs aparecem como uma metáfora sobre “as barreiras que escondem a realidade por detrás da superfície”.

Qual revolução? [Concerto 25 de Abril]

 

PÚBLICO DOMINGO, 26 ABRIL 1992 >> Cultura

 

Comemorações do 25 de Abril em concerto ao ar livre em Belém

 

Qual revolução?

 

Eram jovens, na maioria rondando os quinze, vinte anos de idade. A Revolução e o 25 de Abril dizem-lhes tanto como a nós a guerra dos Cem Anos. Para eles, não faz sentido falar de um “antes” e de um “depois”. Foram a Belém ouvir música e beber cerveja. Os mais velhos esperaram para ouvir Sérgio Godinho e pela festa que não houve.

 

Para os mais jovens a revolução resume-se a uma data nos compêndios de História. Quando muito, sabem que os pais faltaram às aulas nesse dia. Ou que houve cravos vermelhos na ponta de espingardas, uma canção na rádio e um tal Marcelo que foi recambiado para o Brasil. Aos 15 anos, não se quer saber de cravos nem do Brasil e muito menos do Marcelo. Aos 15 anos, é preciso guardar todas as energias para as revoluções que assomam no coração em cada cinco minutos. Vai-se a Belém para estar com ela ou com ele, ouvir música e curtir.

Na noite de sexta para sábado, no relvado imenso em frente à torre de Belém, dava ideia de que ninguém queria ouvir falar do 25 de Abril. Anunciavam-se festejos, uma celebração, enfim, esperava-se qualquer coisa que tivesse a ver com “liberdade” e “democracia”, que nos lembrasse que o “povo unido jamais será vencido”. Nada disso aconteceu. Pelo palco, feericamente iluminado, passaram os Tubarões de Cabo Verde, os Rádio Macau e Sérgio Godinho. Sem uma referência à data, uma palavra de ordem, nada. Não se gritou contra o fascismo. O rio mesmo ali ao lado e nenhuma gaivota voava, voava... A reação não passará? Já passou. E em 18 anos de democracia, “o pior sistema de todos com exceção de todos os outros”, como diz a canção de Sérgio Godinho, os portugueses passaram-se.

           

“Quero lá saber!”

 

Os Tubarões deram tudo por tudo para animar e “avisar a malta”. Sem grandes resultados, diga-se. Catadupas de ritmos africanos, uma iluminação de palco eficaz e um som que dava todas as hipóteses aos músicos não foram suficientes para entusiasmar as milhares de pessoas espalhadas pelo relvado que preferiram passear ao longo do Tejo ou então – alternativa muito do agrado dos mais novos – a renovação periódica e sistemática das provisões alcoólicas. Os basbaques optaram por especar diante da Torre e abrir a boca de espanto diante dos bonecos de Vasco da Gama, Camões ou da Cruz de Cristo projetados em feixes “laser” contra as paredes do monumento.

Xana e os Rádio Macau vieram a seguir. A cantora surgiu de “top” e calças negras por baixo de um casaco vermelho, numa das poucas alusões à cor de abril. Os Rádio Macau também não entusiasmaram. Poucos minutos depois da meia-noite aconteceu o inesperado, quando acabados de entrar na data histórica, público e banda entoaram em coro o refrão “quero lá saber”.

Esperava-se que Sérgio Godinho pudesse salvar a noite, mas tal não aconteceu. O único dos músicos presentes com um passado de luta contra a censura e de clandestinidade passou cheio de pressa pelo palco de Belém. Disse “olá”, um “hoje é 25 de Abril” sem outros comentários e “boa noite, obrigado”. Quem quisesse “mensagem”, que procurasse nas letras das canções: “Salão de festas”, “Arranja-me um emprego”, “Aos amores”, “Coro das velhas”, “Alice no país dos matraquilhos”, “Etelvina”, “Os demónios de Alcácer-Quibir”, servidos a preceito pelo cantor e pela banda num registo popular que não logrou o efeito de festa pretendido. À distância todo esse passado, já pouco mais consegue provocar que um “brilhozinho nos olhos”.

Para a semana é o 1º de Maio e, com sorte, talvez Torres Couto disserte sobre os Descobrimentos. E assim “cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas”.

 

Outback - Dance The Devil Away

 

Pop Rock

22 de Abril 1992

 

OUTBACK
Dance the Devil Away
CD Hannibal, distri. MVM










Martin Craddick e Graham Wiggins tocam respetivamente guitarra e “didgeridoo”, o tal instrumento de sopro dos aborígenes australianos em que Charlie Parker nunca soprou. Onde “Baka”, o álbum anterior, primava por uma certa contenção, “Dance the Devil Away” desvaria por completo. Sagar N’Gom, em instrumentos de percussão africanos, e Paddy LeMercier, um violinista que já tocou com os Malicorne, juntam-se à firma Craddick & Wiggins, que, por seu lado, não se esqueceu de se artilhar com toda a espécie de instrumentos étnicos, de designações exóticas, como convém.

            Há de tudo em “Dance the Devil Away”: ritmos afro-cubanos, folclore marroquino tocado em bombardas bretãs, batuques africanos a granel, uma melodia japonesa baseada numa canção grega (?), um exorcismo rítmico egípcio para espantar demónios e, claro, o “didgeridoo” a quem foi dado livre-trânsito para roncar com o à-vontade de um rei. O único problema reside na ligeireza da guitarra de Wiggins, que, tema após tema, parece apostado em dar aos Outback a imagem de uns Gipsy Kings da “world music”. Mas a diversidade e originalidade do projeto acabam por torná-lo numa agradável diversão. Afinal de contas, talvez não passe de uma brincadeira!... (6)

23/09/2026

Enquanto houver uma estrada [Jorge Palma]

 

cultura >> sábado, 22.04.1995

 

Jorge Palma dá “Concerto Íntimo” no Casino Estoril

 

Enquanto houver uma estrada

 

Jorge Palma em atmosfera de intimismo no auditório do antigo cine-teatro do Casino Estoril. A proposta, incluída no ciclo de “Concertos Íntimos” que está a decorrer naquela sala – iniciado com Paulo de Carvalho e que prosseguirá, em maio, com Vitorino e Luís Represas –, resultou em pleno. O viajante abriu o livro.

 

Uma imagem com Instrumento musical, música, guitarra, Cara humana

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O autor de “Com Uma Viagem na Palma da Mão” está a cantar e a tocar como nunca. O ambiente de descontração – parecia que todos os elementos do público eram amigos do artista – contribuiu para que tudo saísse bem. Alternando entre a guitarra e o piano, Jorge Palma baseou o concerto nas linhas de despojamento que caracterizam a sua última edição discográfica, o álbum “Só”, com versões acústicas e solitárias de composições antigas. Na primeira sequência de canções, Palma dominou o piano e a voz, arrancando a ambos uma expressividade visceral. Antológicas foram as interpretações da “Canção de Lisboa” (antecedido por uma brincadeira com as notas iniciais de “Ne me quitte pas”, de Jacques Brel), para nós um dos clássicos de sempre da música portuguesa, e “Frágil”, um tema mordaz do álbum “O Bairro do Amor”, último de originais do cantor, acabado de reeditar em compacto, juntamente com “Só” e “O Lado Errado da Noite”. “Acorda, menina”, “Terra dos sonhos”, estes dois na guitarra, “Balada de um estranho”, “Estrela do mar”, “O meu amor existe” e, em jeito de descompressão, “Deixa-me rir” completaram este primeiro ciclo de canções.

Depois de “Ao meu encontro na estrada”, de novo na guitarra acústica, foi a vez de se apresentar o primeiro convidado, o guitarrista Flak que, recém-chegado de Macau e mesmo sem ensaios, encaixou como uma luva no tom geral do espetáculo. “Jeremias”, “Longe demais” (um tema dos Rádio Macau, já repescado pelos Resistência) e mais duas interpretações para a História, “Só” e “Minha senhora da solidão”, antecederam a entrada do terceiro e último convidado, o violinista José Ernesto, amigo de longa data de Palma. Os três foram até ao fim numa cadência mais “swingada”, ao longo de “Maçã de junho”, “Lobo malvado” – com Jorge Palma a uivar no princípio e no fim e o técnico de som a alinhar na brincadeira, enchendo o som de reverberação –, “Picado pelas abelhas” e – “isto não é para ser tomado no sentido literal”, brincou – “Quero o meu dinheiro de volta”. O público, não muito numeroso mas um bom público, aplaudiu de pé, rendido a uma música e a um homem que não desiste de desafiar o sistema e a desafiar-se a si próprio.

Três merecidos “encores” deixaram no ar a promessa de mais excelente música para o resto dos espetáculos que Jorge Palma dará nestes “Concertos Íntimos”, hoje e amanhã, pelas 22h: “Junto à ponte”, conversa triste sobre o fim, entre o piano, o violino e as palavras que empurram para a água do rio, “Long black veil”, um original irlandês que faz parte do álbum dos Chieftains com o mesmo nome, numa interpretação deste grupo com Nick Cave, e, a terminar, “A gente vai continuar”. “Enquanto houver uma estrada para andar”, acrescentamos, fazendo nossos os versos da canção.