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23/12/2019

Liberdade de comer a maçã [Jazz]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 27 DEZEMBRO 2003

Jackie McLean e Wayne Shorter, em duas das suas obras-chave, destacam-se do mais recente pacote de remasterizações da série Rudy van Gelder. Os colecionadores da Blue Note não vão ter mãos a medir.

Liberdade de comer a maçã

Sabe a manjar e não sai caro escutar as preciosidades que a Blue Note vem colocando periodicamente no mercado em remasterizações de 24-bit com a chancela “The Rudy Van Gelder Edition”, incluindo as novas “Connoisseur CD Séries”. Na mais recente fornada encontramos os nomes de Bud Powell, Jackie McLean, Lee Morgan, Sam Rivers, Joe Henderson, Wayne Shorter, Larry Young, Andrew Hill e Hank Mobley. Qualquer deles com o nome inscrito em letras gordas na grande enciclopédia do jazz. Depois do “quem”, vejamos o “quê”. Por ordem cronológica.
            28 de Dezembro de 1958. Bud Powell, uma das forças vivas do piano “bop”. Em “The Scene Changes” em trio com Paul Chambers (contrabaixo) e Art Taylor (bateria). Powell habitou desde cedo o lado negro do “be bop”, acometido por problemas físicos e mentais que moldaram a sua música em intervalos estranhos, tons menores e solos aos quais alguém chamou um “empilhamento de caixas” de modo incongruente. “Un poco loco”, título revelador incluído no primeiro volume de “The Amazing Bud Powell” (gravações compreendidas entre 1949 e 1951), “génio” ou ambas as coisas, Bud Powell recria em “The Scene Changes” os tempos rápidos, fragmentados em nódulos harmónicos de onde é possível extrair inesgotável alimento. Entre o mambo e o enigma, Powell bopou como um louco, fazendo os cenários girar interminavelmente nas nossas cabeças.
            19 de Março de 1962. Sob a influência de Ornette Coleman, Jackie McLean relança em “Let Freedom Ring” a linguagem do “bop” e do “hard bop” na direção de uma expressividade mais livre, rasgada pelas inovações modais que Miles Davis patenteara três anos antes no manifesto “Kind of Blue”. O sax alto liberta-se, aliando a rugosidade tímbrica e uma energia entusiasmante às permissividades do “free” e a modulações pertencentes já ao emergente jazzrock. A longa abertura “Melody for melonae” é um portento onde o fogo e a água (jorrando em cascata do piano de Walter Davis Jr.), a abstracção e a imaginação se combinam na criação de um clássico. “My life has been sweet and sour, bittersweet, and I’m interpreting my experience. I’m a sugar-free saxophonist”, disse de si próprio o saxofonista que neste disco se faz acompanhar ainda por Herbie Lewis (contrabaixo) e Billy Higgins (bateria). Para o comprovar, basta escutar o licor e o grito amargo que se desprendem de “I’ll keep loving you”.
            15 de Fevereiro de 1964. Lee Morgan, autor da obra-prima “The Sidewinder”, gravaria no ano seguinte outro disco magistral, “Search for the New Land”, como líder de uma formidável formação composta por Wayne Shorter (sax tenor), Grant Green (guitarra), Herbie Hancock (piano, Reggie Workman (contrabaixo) e Billy Higgins (bateria). Também neste caso os 13 minutos do título-tema que abre o álbum funcionam como formulário de um disco marcado por uma faceta dançável, advinda do “blues”, a par da imaginação e criatividade proporcionadas por Shorter e Hancock, ambos em picos de forma (o saxofonista gravaria neste ano “Juju” e “Speak no Evil” enquanto para o teclista 1964 seria o ano do monumental “Maiden Voyage”). Para o trompetista, porém, esta busca de novas terras soaria como um dos derradeiros ecos de uma música que daí para a frente se esgotaria num sólido suporte de “blowing sessions”, às quais faltaria, porém, a nitidez do enfoque deste disco e de “The Sidewinder”.
            11 de Dezembro de 1964. “Fuchsia Swing Song” constitui a primeira gravação enquanto líder de Sam Rivers, um dos grandes saxofones tenores do “free jazz”, mas nesta gravação dependendo ainda das métricas swingantes do “hard bop”. Torrente imparável de ideias, todavia invariavelmente formatadas na disciplina do “blues” (“Downstairs blues upstairs”) e da tradição. Atento às inovações de Rollins, Coltrane, Dolphy e Coleman, bem como aos percursos de Ayler e Shepp, Rivers permite-se rasgar os compassos, entrando e saindo, estendendo-os em modulações circulares, como em “Cyclic episode”, ou solilóquios de pura interiorização, como “Luminous monolith”. Jaki Byard (piano), Ron Carter (contrabaixo) e Tony Williams (bateria), são os seus parceiros de luxo mas não ainda aqueles que permitiriam ao saxofonista libertar todo o seu génio.
            27 Janeiro de 1966. Joe Henderson, tenorista de sonoridade redonda e “comestível” (como Rollins e Coltrane, embora sem a amplitude anímica destes, o que não o impede de meter ambos no bolso no extraordinário “Caribbean fire dance”) recruta Lee Morgan, Curtis Fullwer (trombone), Bobby Hutcherson (vibrafone), Cedar Walton (piano), Ron Carter (contrabaixo) e Joe Chambers (bateria) para fazer “Mode for Joe”. A instrumentação diversificada permite uma riqueza de arranjos e cores que Henderson aproveita, como em “Black”, para juntar a complexidade da composição à liberdade da improvisação. Depois, já se sabe, qualquer disco que tenha a participação de Hutcherson jamais corre o risco de ser recompensado na avaliação com um défice de estrelas.
            2 de Fevereiro de 1966. Outro disco indispensável. “Adam’s Apple”, de Wayne Shorter. Com Herbie Hancock, Reggie Workman e Joe Chambers. Aos primeiros acordes de piano de Hancock, o coração dispara numa dança irresistível. Logo a seguir, o tenor entra e acerta o passo e… nada a fazer… quem quiser assistir a uma demonstração prática do que é o swing só tem que ter ouvidos e deixar-se arrastar pelo balanço. Hancock e Shorter são, aliás, almas gémeas, e da sua colaboração irrompe invariavelmente magia. Seja nos tempos rápidos, seja numa balada como “802 blues (drinkin’ and drivin’)”, diálogo muito perto da perfeição. Voltam a ser o tandem perfeito na latinidade de “El gaucho”. Ah, claro, e é neste disco que se encontra “Footprints”, um dos “standards” dos anos 60 que marcaram o som e a atitude do jazz de fusão que a década de 70 consagraria.
            7 de Fevereiro de 1969. Menos “lounge” que Jimmy Smith, menos “funky” que Charles Earland, Larry Young é um organista assolado por uma espiritualidade acentuada (a infl uência de Coltrane e McCoy Tyner, tem destes efeitos), autor de “Unity”, gravado quatro anos antes deste “Mother Ship” (com Lee Morgan, Herbert Morgan, no sax tenor, e Eddie Gladden, na bateria). Construída em verticalidade (ouça-se um solo de Smith e outro de Young, para se perceber a diferença de orientação e construção…) “Mother Ship” lança na estratosfera hinos e orações a divindades pagãs, em templos onde a arquitetura é por vezes, como em “Visions”, banhada pela sombra do “dark magus” Miles Davis.
            7 de Novembro de 1969. Dois trompetes, trombone, “french horn”, tuba, clarinet baixo, “english horn”, saxofones, flauta. Woody Shaw, Julian Priester, Howard Johnson, Joe Farrell, estão presentes em “Passing Ships” repletos de sopros em banda de nove elementos sob a liderança do pianista Andrew Hill. O título-tema é elucidativo do barroquismo dos arranjos e a entrada de “Plantation bag” poderia fazer parte de um álbum dos Soft Machine. Para quem aprecie desbravar florestas e deparar com o inesperado a cada canto, embarque num destes “Passing Ships” e desfrute da riqueza das paisagens. O próprio Hill se deixa deslumbrar baixando o piano ao nível das sombras. Ocasionalmente, a gravação deixa entender o trabalho de remontagem a que as fitas originais foram sujeitas.
            31 de Julho de 1970. Entrada nos anos 70 com o Jazz Messenger e ex-sideman, uma década antes, de Miles Davis, Hank Mobley, tenorista incontornável do “hard bop”. Mas é Woody Shaw quem começa por se destacar na trompete na “suite” cortada em três segmentos que abre o álbum. Cedar Walton, no piano, é a outra peça-chave deste trabalho onde a competência dos músicos é inquestionável, mas ao qual falta a chispa das grandes obras. Como é “Soul Station”, deste mesmo Hank Mobley, aqui caseiro e acomodado em demasia.

BUD POWELL
The Scene Changes
8 | 10

JACKIE McLEAN
Let Freedom Ring
9 | 10

LEE MORGAN
Search for the New Land
8 | 10

SAM RIVERS
Fuchsia Swing Song
7 | 10

JOE HENDERSON
Mode for Joe
8 | 10

WAYNE SHORTER
Adam’s Apple
9 | 10

LARRY YOUNG
Mother Ship
8 | 10

ANDREW HILL
Passng Ships
7 | 10

HANK MOBLEY
Thinking of Home
7 | 10

Todos Blue Note, distri. EMI-VC

11/10/2019

Wayne Shorter em luta com o piano


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 15 JUL 2003

Crítica Jazz

Wayne Shorter em luta com o piano

Wayne Shorter Quartet
ESTORIL Auditório do Parque Palmela, às 21h30
Lotação esgotada

Sábado, em mais um concerto do festival Estoril Jazz/Jazz num Dia de Verão, Wayne Shorter e o seu quarteto tiveram o tempo do seu lado, mas o grande jazz nem por isso. O auditório ao ar livre do Parque de Palmela, no Estoril, estava à pinha, esgotando por completo a lotação, algo que, segundo a organização, não acontecia desde o mítico concerto de Count Basie neste mesmo festival. A chuva ameaçou, ameaçou, mas conteve-se. O mesmo aconteceu com o quarteto. Ameaçou com grandes feitos, mas acabou por quedar-se por um jazz eclético e sofisticado, alimentado por longas improvisações e reconhecida competência, mas longe de se lançar à conquista daqueles momentos únicos que fazem a história dos grandes concertos.
            Shorter rolou com força no saxofone tenor, explorando timbres e respirações, mas travou-se de razões com o soprano – aquele que lhe granjeou merecida fama – passando largos minutos, a meio de um tema, a procurar o ajustamento certo da palheta, experimentando e voltando a experimentar a afinação, enquanto os outros três músicos se entretinham a soltar metros de música de fundo, à espera que o seu líder se decidisse a fornecer as coordenadas. Nos momentos, porém, em que a música se libertou do preciosismo técnico, o saxofonista mostrou todas suas capacidades, ora em “stacattos” que parecia implorar pela loucura (que não veio…), ora desenrolando dilúvios de notas alinhadas com a elegância de uma dança.
            Danilo Perez mostrou ser um pianista fora do vulgar. Harmonicamente dotado, embora sem rasgos de virtuosismo, mostrou preferência por fraseados classizantes, outras vezes encostando-se ao exotismo “world” proporcionado pela sua ascendência (nasceu no Panamá), ocasionalmente monkiano, foi ainda, surpreendentemente e decerto que por acaso, progrocker dos quatro costados, ao repetir, numa quase citação, as notas de um dos movimentos de “Tarkus”, dos Emerson, Lake and Palmer (!).
            John Patitucci é o típico baixista jazzrock. De uma concisão extrema, usou e abusou das vibrações da corda solta, mantendo-se quase sempre nos tempos rápidos e em boa sintonia com a rítmica fornecida por Brian Blade, na bateria, operário razoavelmente imaginativo na forma como acentuou e ornamentou os tempos fracos.
            Isento, à justa, do tormento da chuva, o público aplaudiu de forma civilizada (raramente o fez a premiar este ou aquele solo) e pediu um “encore”, provavelmente a pensar já na forma como, já na próxima sexta-feira, receberá outra figura lendária do jazz contemporâneo, o contrabaixista Dave Holland, a liderar uma “big band”, no CCB, em Lisboa, no que será o concerto de encerramento desta edição número 22 do Estoril Jazz/Jazz num Dia de Verão.

07/10/2019

Jazz num dia de Verão [Wayne Shorter]


CULTURA
SÁBADO, 12 JUL 2003

Wayne Shorter segue as pegadas da alegria

JAZZ NUM DIA DE VERÃO

Wayne Shorter, “hardbopper” nos Jazz Messengers, pioneiro da música de fusão com Miles Davis e nos Weather Report, atua hoje no Estoril. Com a marca de álbuns como “Footprints Live!” e do novo “Alegria”

Prestes a completar 70 anos, Wayne Shorter é um daqueles saxofonistas cuja sonoridade, feita de múltiplos sabores, apetece mastigar. Quem quiser, pode fazê-lo hoje mesmo, no concerto que encerra mais um módulo do festival Estoril Jazz/Jazz num Dia de Verão.
            Wayne Shorter tocará no Estoril saxofones tenor e soprano, a liderar um quarteto formado por Danilo Perez (piano), John Patitucci (contrabaixo) e Brian Blade (bateria). Grande música em perspetiva. Jazz puro prazer do ato de tocar e de criar.
            Equilibrado entre a tradição do "bop" e a improvisação mais livre, Wayne Shorter evoluiu do fraseado longo, no limite da obsessão, característico de John Coltrane, para modulações mais "redondas", de acordo com uma sensibilidade que, tendo passado e marcado indelevelmente o "jazzrock" e a música de fusão, através dos Weather Report (provavelmente o grupo que melhor assimilou e transformou as heterodoxias arremessadas pelo Miles Davis elétrico), soube contornar a inércia e o cliché.
            No ano passado, e ultrapassadas algumas vicissitudes que, inclusive, obrigaram a uma paragem de uma década numa carreira brilhante, a edição de "Footprints Live!" (depois disso já gravou "Alegria"), nomeado para um Grammy na categoria de "melhor álbum de jazz instrumental", repôs o seu nome no lugar a que tem direito: dos mestres.
            Embora seja sobretudo conhecido pela sua participação nos Weather Report, grupo com o qual gravou, nos anos 70, obras seminais da música de fusão como "I Sing the Body Electric", "Sweetnighter" e "Mysterious Traveller", a par dos mais comerciais "Black market", "Heavy Weather", "Mr. Gone" e "Night Passage", Shorter desempenhara já um papel fulcral na ortodoxia do jazz.
            Depois de ensaios prévios ao lado do pianista "hard" Horace Silver, frequentou duas das escolas que mais alunos diplomados com distinção forneceu ao jazz moderno: os Jazz Messengers, de Art Blakey (tocou nos clássicos "Mosaic" e "Free for all"), oficina oficial do "hard bop", e a máquina de Miles Davis, com quem partilhou os louros de álbuns quintessenciais na obra deste trompetista como "E.S.P.", "Miles Smiles", "In a Silent Way" e "Bitches Brew", tendo, inclusive, composto temas que viriam a tornar-se "standards", tais como "Footprints" e "Nefertiti".
            No decorrer de uma das décadas mais produtivas da sua carreira, os anos 60, já a solo, assinou trabalhos que se tornariam referência para as gerações vindouras: "Juju", "Speak no Evil", "The Soothsayer" e "Adam's Apple", entre outros, indiciadores da direção que a sua música viria a tomar na década seguinte, com os Weather Report (que deram um espantoso concerto dado em Portugal por este grupo na década de 80, no pavilhão da FIL, em Lisboa). Com eles, e ao lado de "fusionistas" de classe incontestável como Joe Zawinul, Miroslav Vitous, Airto Moreira, Tony Williams, Peter Erskine e Mino Cenelu, desenvolveu um estilo e fraseado particulares, nomeadamente no saxofone soprano, por vezes adaptado a "gadgets" eletrónicos ou prolongando-se no Lyricon, instrumento de sopro inteiramente eletrónico que pode ser manipulado através de tecnologia MIDI.
            O público e a crítica, seduzidos pela simbiose entre o jazz e o rock, rendeu-se a Wayne Shorter e a revista "Downbeat" distinguiu-o ao longo de 15 anos consecutivos como melhor saxofonista soprano.
            Paralelamente aos Weather Report, Shorter integrou os V.S.O.P., superbanda dirigida por Herbie Hancock (espécie de parente espiritual seu e igualmente um dos gurus do jazzrock) onde pontificavam Freddie Hubbard, Eddie Henderson, Julian Priester, Bennie Maupin, Ron Carter e Tony Williams.
            Finalmente, o rock, de tanto conviver com o jazz, pedindo-lhe conselhos mas também tentando enriquecê-lo através de um processo de polinização, atraiu Wayne Shorter para o estúdio para gravar com Joni Mitchell e os Steely Dan, o mesmo acontecendo com o brasileiro Milton Nascimento e o cantor italiano Pino Danielle.
            "Footprints Live!", primeiro álbum ao vivo da sua discografia, repôs as coisas no lugar certo, devolvendo o saxofonista aos capítulos nobres da Grande História do Jazz. Nem "in", nem "out of the tradition", mas inserido num lugar próprio, onde a música nasce sem fronteiras, com as cores vivas do mundo que a cada instante nasce e se renova.
            Em "Alegria", lançado já este ano, a música de Wayne Shorter estende-se a um tradicional céltico, a uma obra do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos, inspirada em Bach, e a um tema de música popular espanhola, procurando satisfazer a necessidade, diz, de prosseguir "um processo de aprendizagem continua" que lhe permita "libertar-se" dos lugares-comuns de uma linguagem estereotipada, ao mesmo tempo que se propõe "expressar a eternidade nas suas composições".

Wayne Shorter Quartet
ESTORIL Auditório do Parque Palmela
Às 21h30. Bilhetes de 15 a 20 euros



Canção da rádio com outro francês

Depois de Louis Sclavis, com quem gravou, no ano passado, o álbum “Rádio Song”, um dos melhores discos produzidos em Portugal em 2002, o contrabaixista Carlos Barretto convidou de novo um músico francês, o também saxofonista François Corneloup, para colaborar com o seu trio, composto por Mário Delgado (guitarra) e José Salgueiro (bateria).
É esta formação que hoje à noite atua na Fundação Serralves, no Porto, prosseguindo a programação do festival Jazz no Parque. Antes de “Rádio Song”, o trio já lançara “Suite da Terra” (1998) e “Silêncios” (2000), a par de um “Solo Pictórico” da inteira responsabilidade do contrabaixista.
Etapas prévias de um caminho que, de modo decidido, aponta para uma música universalista que, de forma magnífica, equaciona os cânones da tradição dentro de um enquadramento mais vasto onde o jazz permanece a “swingar” no âmbito de um “blues” em definitivo transfigurado e a presença de um saxofonista é assumida, pelo trio, como uma quarta coordenada instrumental absolutamente necessária para o seu desenvolvimento.

Carlos Barretto Trio c/François Corneloup
PORTO
Fundação Serralves
Às 21h30.
Tel. 226156500.
Bilhetes de 10 euros

15/10/2018

Balanço do ano - Jazz


PÚBLICO 4 JANEIRO 2003
JAZZ
2002

>> Balanço do ano

2002 foi ano de grande jazz em português. A nova editora Clean Feed deu o mote, lançando para o caldeirão dois clássicos instantâneos, com as assinaturas de Carlos Barretto e Bernardo Sassetti. Lá fora, o "free", o "pós-free" e o que virá a seguir rivalizaram com manifestos de afirmação por alguns dos clássicos eternos, num ano que foi também de boas reedições. À frente de todos pusemos o disco, dos Spring Heel Jack, que mais tem dividido as opiniões. Prova de que, afinal, o jazz conserva intacto o dom de provocar.

01 |
Spring Heel Jack Amassed (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Saído das mentes distorcidas, mas livres e visionárias, de dois homens que não faziam parte do jazz – John Coxon e Ashley Wales –, "Amassed", depois do ensaio prévio que é "Masses", revolucionou os parâmetros do jazz eletrónico, samplando o que, no passado, pertencera ao domínio do analógico nas visões orquestrais de George Russell ou nas pulsações barrocas do "Synthesizer Show" montado por Paul Bley e Annette Peacock, numa catedral de alucinações que serve de suporte à "free music" remodelada em espiral de loucura por alguns dos seus expoentes – Evan Parker, Han Bennink, Paul Rutherford, Matthew Shipp e Kenny Wheeler. Se até o "bebop", por altura da sua génese, foi considerado o "fim do jazz", e Coltrane vaiado como uma farsa, como não conceder igualmente aos SHJ essa suprema honra de provocar em doses iguais a paixão e a repulsa?

02 |
Gianluigi Trovesi Dedalo (Enja, distri. Dargil)
Celebração orquestral com a WSR Big Band alemã, Markus Stockausen (trompete), Fulvio Maras (percussão) e Tom Rainey (bateria), "Dedalo" recupera o clássico "From G to G", remontado-o num labirinto onde se cruzam os caminhos do "vaudeville", Zappa, Ellington, Gil Evans, Don Ellis, jazz progressivo e jazzrock, moídos, destilados e incendiados por uma imaginação delirante. O homem é um feiticeiro.

03 |
Dave Holland Big Band What Goes Around (ECM, distri. Dargil)
Alguma da música "antiga" deste notável contrabaixista é aqui tornada matéria de novos "standards" pessoais, em formato de "big band" a dar mais volume e cor ao habitual quarteto que tem acompanhado Holland nas suas últimas realizações para a ECM. Enriquecimento e desafio numa proposta de criação de um território instrumental onde leitura, arranjos e improvisação se confundem.

04 |
Carlos Barretto Trio Radio Song (ed. e distri. CBTM)
Enquanto solista, voz dialogante ou peça de suporte, Barretto confirma a maturidade e a segurança dos seus recursos técnicos, num álbum de múltiplos matizes que conta com a mais-valia do músico francês Louis Sclavis.

05 |
Bernardo Sassetti Nocturno (Clean Feed, distri. Trem Azul)
Gravado em ambiente de "verdadeira magia" na Quinta de Belgais, "Nocturno" é uma incursão impressionista nos meandros mais íntimos do piano. Como Bill Evans, Sassetti cria a partir da célula e a partir dela inventa a noite.

06 |
Wayne Shorter Footprints Live! (Verve, distri. Universal)
Trata-se, por incrível que pareça, do primeiro álbum ao vivo deste notável executante dos saxofones tenor e soprano, antigo "sideman" de Miles e cabeça falante dos Weather Report. Impressiona a energia e o lirismo de uma música que alia a investida inquisitiva a uma delicadeza sem limites. Uma pegada impressa com a força de um "statement".

07 |
Joe Giardulo, Joe McPhee, Mike Bisio, Tani Tabbal Shadows and Light (Drimala, distri. Trem Azul)
Um lento avolumar de tensões e incandescências em que o jazz "apodrece", para das suas cinzas se erguer a fénix renascida. O tenor de McPhee gasta-se, corrói, cria andaimes e poços. Giardulo é o nevrótico de serviço. "Shadows & Light" tenta apanhar o além, o dia seguinte ao da catástrofe. E consegue.

08 |
Roscoe Mitchell & The Note Factory Song for My Sister (Pi, distri. Trem Azul)
Aos 62 anos o multinstrumentista prossegue os estudos fora da selva de mitos dos Art Ensemble of Chicago. Numa conjugação mais formalista do "free" (abrangendo mesmo uma faceta didáctica) com os rituais remanescentes dos AEC, a música ganha alento numa imensa viagem pelos limites do jazz.

09 |
Branford Marsalis Footsteps for our Fathers (Marsalis Music, distri. Trem Azul)
Cruzamento, ou não, como alguém disse, entre "um 'cartoon' de Disney e um pregador evangélico", o sopro de Marsalis aventura-se em refazer a totalidade de "The Freedom Suite", de Sonny Rollins, e "A Love Supreme", de Coltrane. Sobrevive incólume. Mais: acompanha o espírito daqueles dois génios.

10 |
Andrew Hill A Beautiful Day (Palmetto, distri. Trem Azul)
Sessão ao vivo no Birdland na companhia de Marty Ehrlich e uma "big band", "A Beautiful Day" é um dia perfeito na mais recente produção pianística de Hill, um dos eleitos que soube unir o bop à vanguarda.

11 |
Mark Dresser Trio Aquifers (Cryptogramophone, distri. Sabotage)
"Aquifers" faz a transcrição musical dos fluxos de água subterrâneos que fertilizam o planeta. "Acumulação", "trânsito" e "libertação" funcionam como metáforas telúricas da circulação de frequências, modulação de timbres e planificação de texturas assimétricas cuja energia parece provir, de facto, dessa matriz aquática que alimenta a Terra.

12 |
Billy Cobham The Art of Three (In & Out, distri. Dargil)
Surpresa, ou talvez não, esta categórica afirmação da arte do trio piano-baixo-bateria pelo baterista jazzrock que, depois da aprendizagem com Miles, ajudou a criar o mito Mahavishnu Orchestra. Tem a seu lado comparsas de luxo: Ron Carter, no baixo, e Kenny Barron, no piano, este último um prodígio de subtileza e capacidade de voo.

13 |
Mat Maneri Sustain (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Mais ferrugem da boa. Outro prego cravado no crâneo do "mainstream". Discípulo de Ornette e Stuff Smith, Maneri arranca com o seu violino a carapaça à música improvisada em aliança perigosa entre electrónica, jazz vertigem e uma permanente dialéctica entre o silêncio e o caos.

14 |
Charles Lloyd Lift Every Voice (ECM, distri. Dargil)
Lloyd, o asceta encantado pelo budismo, deixa atrás de si um rasto de paradoxos. Desde sempre arreigado a uma visão mística da música, "Lift Every Voice" perdeu entretanto o grito libertário dos primórdios, para se concentrar em mantras e no Grande Espírito onde ardia John Coltrane.

15 |
Tom Harrel Live at the Village Vanguard (Bluebird, distri. BMG)
Eleito em 2001 pela "Down Beat" "compositor do ano", Harrell distribui vitalidade, clareza e extroversão. A sua trompete, iluminada pela tradição de Blue Mitchell e Clifford Brown, não ilude porém uma tristeza que em "Where the rain begins" lateja como uma ferida mal sarada.

Discos de 2001 ouvidos em 2002 merecedores de figurarem no top:

Dave Douglas Witness (RCA, distri. BMG)
Dave Holland Not for Nothin' (ECM, distri. Dargil)
James Emery, Joe Lovano, Judi Silvano, Drew Gress Fourth World (Between the Lines, distri. Ananana)
Louis Sclavis L'Affrontement des Prétendants (ECM, distri. Dargil)
Myra Melford & Marty Ehrlich Yet Can Spring (Arabesque, distri. trem Azul)
Steuart Liebig Pomegranate (Cryptogramophone, distri. Sabotage)

REEDIÇÕES:

Ella Fitzgerald Whisper Not (Verve, distri. Universal)
Gerry Mulligan Village Vanguard (Verve, distri. Universal)
John Coltrane Legacy (Impulse, distri. Universal)
Nina Simone Nina Simone and Piano! (RCA, distri. BMG)
Paul Bley, Jommy Giuffre, Steve Swallow The Life of a Trio - "Saturday" e "Sunday" (Owl, distri. Universal)
Sam Rivers Crystals (Impulse, distri. Universal)

23/10/2016

Diário de uma vida como lição para a vida diária

JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 12 OUTUBRO 2002

Shorter, Giuffre, Bley, Swallow. O futuro já foi feito por eles. Impresso numa pegada ou escrito num diário. Há quem jogue noutro tabuleiro. Tudo depende da força do olhar. E de ser. Mas isso já muito poucos arriscam…

Diário de uma vida como lição para a vida diária

Se o que um homem é está escrito no seu nome, reconheça-se que tal verdade não se aplica no caso de Wayne Shorter. "Mais curta" não é certamente a música de "Footprints Live" do que aquela que o tornou notável, nos anos 60, enquanto "sideman" de Miles Davis, ou a que, de seguida, ajudou a impor aos mais céticos a heresia do jazz rock, através dos Weather Report. "Footprints Live" é ainda, por incrível que pareça, o primeiro álbum ao vivo de sempre deste notável executante dos saxofones tenor e soprano a quem a pop igualmente agradece a disponibilidade (Joni Mitchell, Carlos Santana e os Steely Dan que o digam). Gravado em Julho do ano passado em festivais em Espanha, França e Itália, contou com a participação de Danilo Perez, no piano, John Patitucci, no baixo, e Brian Blade, na bateria, na transposição para o palco de clássicos da sua anterior discografia como "Footprints", "Atlantis", "Juju", ou a soturna "Valse triste", de Jean Sibelius. Impressiona a energia e o lirismo de uma música que alia a investida inquisitiva e a frase-faca de Coltrane, sem o tormento, a uma delicadeza sem limites. Uma pegada impressa com a força de um "statement".
                O caso dos três homens que se seguem não é menos sério. Três lendas do jazz moderno: Jimmy Giuffre, Paul Bley, Steve Swallow. A reedição das duas sessões, respetivamente registadas em estúdio a 16 e 17 de Dezembro de 1989, e intituladas "The Life of a Trio: Saturday" e "The Life of a Trio, Sunday", justifica uma renovada chamada de atenção pelo facto de ter sido finalmente objeto de remasterização. É da vida de um trio que realmente se trata. De uma experiência a três, da qual resultaram, no início dos anos 60, "1961", a obra-prima "Free Fall" e, já na década seguinte e com selo ECM, o par "Fusion" e "Thesis". Demorou quase 20 anos até se encontrarem de novo e restabelecerem a química. A solo, em duo ou em trio, as filigranas de "The Life of a Trio" tecem-se na cumplicidade e no silêncio, na memória das notas antigas e na redescoberta do seu gosto. No lirisno de Swallow, no impressionismo abstrato de Bley e na genialidade de Giuffre, um dos mais inteligentes músicos da história de jazz, para quem cada frase do saxofone e do clarinete ostenta o carater de um tratado de filosofia. Dois discos de tensões, mais do que de explosões, para ouvir com muito tempo e muito cuidado.
                Menos seguro do seu estatuto está o alemão Alfred Harth. A polícia do jazz há anos que o tem debaixo de olho. Harth não tem "heart" para o jazz, pelo menos aquele que queima, há quem diga, quem acuse. Talvez não. Mas se o seu currículo suscita suspeitas no meio, já entre os monstros e os mutantes do chamado rock/jazz de câmara formado na guerrilha do movimento "RIO" ("Rock in Opposition"), o seu nome é respeitado, pelo seu envolvimento quer no anarco-jazz eletrónico em duo com Heiner Goebbels, quer nos igualmente politizados Cassiber, sob a batuta de Chris Cutler, ou nos bizarros Vladimir Estragon. O seu Trio Viriditas, com Wilber Morris (baixo e voz) e Kevin Norton (bateria, vibrafone e percussão), em "Waxwebwind@ebroadway" não vai tão longe, ou vai mais longe, dependendo do ponto de vista do observador, sendo em qualquer dos casos inegável que o seu saxofone e o seu clarinete se inserem na mesma universidade nova onde lecionam mestres como Sclavis ou Portal. Ocasionalmente emaranhados nas quadraturas estáticas de alguma "música contemporânea" ou nos clichés do "free" (quem não os tem?...), mas invariavelmente livres para a qualquer momento se movimentarem na direção desejada. Um tema como "Starbucks" balouça até num arremedo de "swing"...
                A capa é um horror (falha de gosto aliás em que a Palmetto incorre com alguma frequência...), mas se os olhos terão tendência para se desviar, os ouvidos sentir-se-ão, pelo contrário, atraídos a penetrar no que o piano de Orrin Evans tem para oferecer em "Meant to Shine", álbum imbuído de algum misticismo, sem ousadias nem pretensões de as ter, mas firme no pulso e enraizado na história até à ponta nos cabelos. A este jazz, umas vezes tão doce e introspetivo que quase não se dá por ele, tanto se poderá acusar de conformismo como louvar pela firmeza com que se mantém no seu posto de bastião da tradição. Não faz ondas. Mas quando as faz, como em "Don't write no shit about me", somos obrigados a atender ao pedido. O piano de Orrin, a flauta e os saxofones em contraponto multipistas de Ralph Bowen (incandescente em "Meant to shine"), o baixo de Eric Revis e a bateria de Gene Jackson despertam da unanimidade para jogarem na fricção e no desafio mútuo, outra das maneiras que o jazz tem para fazer nascer a luz. Até porque Bill Evans só houve um, capaz de, mesmo quando era piroso, ser um génio. Mas não há crise. Na Palmetto ninguém gosta de extremismos...

Wayne Shorter
Footprints Live
Verve, distri. Universal
8|10

Paul Bley, Jimmy Giuffre, Steve Swallow
The Life of a Trio: Saturday and Sunday
Owl, distri. Universal
9|10

Trio Viriditas
Waxwebwind@ebroadway
Clean Feed, distri. Trem Azul
7|10

Orrin Evans
Meant to Shine
Palmetto, distri. Trem Azul
7|10