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29/10/2026

Ouvir para crer [Van Morrison]

cultura >> domingo, 21.02.1993

 

Van Morrison atuou em Lisboa e no Porto

 

Ouvir para crer

 

É baixo, embora nos discos a sua música se eleve às alturas. Mas para muitos que pagaram para ver ao vivo Van Morrison, um dos monstros sagrados sobreviventes da década de 60, o bilhete apenas deu direito a ouvir as canções. A música, que valeu pela vitalidade demonstrada pelo mestre, não desmereceu das “Glorias” do passado.

Uma imagem com texto, pessoa, jogador, pousar

Descrição gerada automaticamente

 

O Parque Eduardo VII foi até há bem pouco tempo um local aprazível onde, aos domingos, as famílias iam piquenicar e as crianças se espraiavam em chilreios e brincadeiras pelos relvados em inclinação suave em direção às torres, ao fundo e ao alto, dominando a cidade até ao Tejo. De um dos lados do jardim, altaneiro, erguia-se o então chamado Pavilhão dos Desportos, posteriormente batizado Pavilhão Carlos Lopes, em homenagem ao campeão português. Eram coisas e locais palpáveis, que se  podiam ver e sentir.

O mesmo não se pode dizer de Van Morrison que, sexta-feira à noite nesse mesmo pavilhão, foi para muitos, jornalista incluído, o homem invisível. Para arranjar um lugar, já não digo confortável, nem sequer sentado, mas pelo menos que permitisse ver alguma coisa do que se passava em palco, era preciso ter chegado ao recinto no mínimo com dois dias de antecedência. Daqui se compreende que estava cheio como um ovo. Ótimo. O que já não se compreende muito bem é que a organização, a R & B Produções, tenha despachado os jornalistas para a Geral, quer dizer, para a molhada. Para a próxima mandem-nos para o telhado, para a cave, sei lá, onde for mais desconfortável e que ofereça piores condições de trabalho.

Quanto ao concerto, a julgar apenas pela música, foi o que seria de esperar numa sala que não reúne quaisquer condições acústicas, quanto menos ambiente. Mas Van Morrison, apesar de todas as contrariedades, safou-se bem. E não foram poucas, as contrariedades. O som, como seria de esperar, falhou. Quando a voz parava de cantar, o volume sonoro dos restantes instrumentos baixava misteriosamente, quase até à inaudibilidade. Assim, os diversos solos que pontuaram as canções do autor do lendário “Astral Weeks” perderam-se numa nuvem de murmúrios que não permitiram aferir da qualidade dos executantes. Mesmo assim deu para perceber que não são muito bons. Van Morrison, esse, continua em forma.

 

Acordar do transe

 

A primeira parte do concerto foi um bocado a atirar para o bocejo. Nela o cantor privilegiou a sua costela mística, em cerca de uma hora de “Soul gospel” à base de canções que mal se distinguiam umas das outras mas que invariavelmente falavam de uma “peaceful soul”. Seriam “Hymns to the Silence” se o barulho em redor não fosse tanto. Durante este período, digamos que de recolhimento, Van Morrison apenas saiu do transe religioso para acordar ao som de “In the midnight hour”, um clássico de Wilson Pickett. Intervalo para tentar encontrar um local com melhor visão para o artista. Em vão. Ainda por cima, baixote como é, com o seu ar de gnomo anafado, só dava mesmo para vê-lo nas notas mais altas.

Segunda parte. Início promissor com “Cyprus Avenue” em toada de “blues” cheio de sentimento, com passagem para um tema “jazzy” que deu direito a um solo, curto, débil, de vibrafone. Houve solos (pareciam sê-lo, pelo menos) para cada um dos seis músicos acompanhantes, apresentação dos mesmos (não se percebeu nada) e um final em beleza com o homem todo empertigado a cantar “No guru, no method, no teacher”.

A terceira e última parte foi, de longe, a melhor. Van Morrison atacou em força outro clássico, desta feita “What’d I say”, de Ray Charles, prosseguiu com o hino “Gloria”, cantado em coro pela assistência em peso, seguido de “It’s all over now”, popularizado pelos Rolling Stones mas escrito por Shirley e Bob Womack, para finalmente terminar num “slow”, “Have I told you lately”, da sua autoria. O velhote, afinal, ainda continua cheio de genica.

Para os admiradores incondicionais do cantor, o concerto terá correspondido às expectativas. Para os mais indiferentes, não chegou para aquecer. Para muitos, repete-se, nem sequer para ver. Ouvir para crer já não foi mau. O espetáculo foi reeditado ontem no Coliseu do Porto.


27/10/2026

Sem guru, sem método, sem mestre [Van Morrison]

 

 cultura >> sábado, 16.01.1993

 

Van Morrison em Portugal, com datas a confirmar

 

Sem guru, sem método, sem mestre

 

Desta vez é a sério. Van Morrison, cantor irlandês de voz como a dos negros – diz-se sempre isto quando se escreve sobre ele –, tem concertos agendados para Lisboa e Porto, respetivamente a 19 e 20 de fevereiro, datas prováveis em salas a designar. Noites de “Gloria” anunciada.

 

Uma imagem com texto, ar livre, pessoa, preto

Descrição gerada automaticamente

 

Muitos chamam “génio” a este cantor-autor veterano a quem se deve a invenção da “celtic soul” – música de raiz celta interpretada com a mesma paixão com que os negros se entregam a todas as notas que nascem dos “blues”. É o  se poderá verificar nos concertos portugueses que a R & B organiza, gorados que foram os espetáculos do cantor anunciados há dois anos na capital.

Comparam Van Morrison a Dylan, pela importância que sempre concedeu às palavras, pelo peso de uma obra marcada por um cunho pessoalíssimo iniciada nos primórdios dos anos 60 com os Them. Dylan escreveu “Blowin’ in the wind”, em 63, Morrison assinou “Blowin’ your mind”, quatro anos mais tarde. É uma diferença importante, que se expressa nestas duas maneiras de soprar. Enquanto o americano se fez porta-voz dos ideais de toda uma geração (o que não deixa de ser curioso em alguém cuja voz tendia e tende a desafinar...), o irlandês preferiu o caminho da introspeção, da luta e da descoberta interior, como forma de dizer aos outros a utopia. Um anarquista.

Nos Them, o grupo que projetou o seu nome na cena pop internacional, Van Morrison foi responsável por um dos hinos psicadélicos dos anos 60, “Gloria”, que viria a ser recuperado ao longo das décadas seguintes em várias versões, das quais se destaca a de Patti Smith incluída no álbum estreia de 1976, “Horses”. A insatisfação com a editora, a par da necessidade de controlo absoluto sobre o seu trabalho, levaram-no a pôr fim a este projeto, em 1966, para se dedicar a uma carreira a solo.

 

Entre dois mundos

 

Só consigo mesmo desenvolveu um estilo, no qual procurou juntar tradições distintas – os “blues”, que aprendeu a sentir com Leadbelly, e a música irlandesa. Equilíbrio difícil de manter, entre a negritude que lhe escorria pela voz e o verde esmeraldino da ilha encantada. Entre estes dois mundos nasceram as canções. Entre a urgência de pregar ao mundo a mensagem evangélica (sim, Van Morrison desde cedo evidenciou uma costela religiosa, patente na maior parte dos seus álbuns) e o recolhimento.

“Astral Weeks”, de 1968, é considerada a sua primeira obra-prima. Semanas de viagem pelo plano astral que demoraram em estúdio somente dois dias a gravar. Álbum de assombramentos místicos, de enigmas e contradições que o tempo tem vindo a desvelar.

Depois, já no plano material, seguiram-se os passos, que não os do calvário, que o conduziram à fama. Quer dizer, à colaboração com Georgie Fame, outro cantor negro por dentro e branco por fora. Entre os pecados deste irlandês natural de Belfast (convém aqui notar o facto de os irlandeses conseguirem conciliar o cristianismo com um lado mais belicoso, chamemos-lhe assim. Em que outro país, se não na Irlanda, TODA a Irlanda, se pode ser ao mesmo tempo anarquista e cristão, e ver padres de metralhadora em punho?) contam-se um duo com Cliff Richard (em “Whenever God shines his light”) e ter deixado Tom Jones ruminar quatro canções suas num disco em que também este canastrão deixou vir ao de cima a transcendência.

 

O diálogo com Deus

 

Os álbuns imensos, resgataram-no. Uns mais do que outros, é verdade. Sobretudo “Moondance”, “St. Dominic’s Preview”, onde bebe na mesma fonte de “Astral Weeks” e se aproxima ainda mais do céu, “Beautiful Vision”, “No Guru, No Method, No Teacher” e “Irish Heartbeat” – este último na companhia dos Chieftains, banda emblemática da música tradicional da Irlanda – aqueles em que explorou mais fundo o filão celta.

Consumada a consagração pública na atuação ao vivo, no estádio de Wembley, em 1984, ao lado de Dylan, Van Morrison passou a preocupar-se quase em exclusivo com o diálogo com Deus. Não espanta, deste modo, a sua inflexão nas sonoridades “gospel” que ocupam lugar privilegiado no álbum de 91, “Hymns to the Silence”. Van Morrison decidiu subir. “Sem guru, nem método, nem professores”, como ele próprio disse. Quem quiser e puder que o acompanhe.

 

03/10/2008

Van Morrison - Hymns To The Silence

Pop Rock

25 SETEMBRO 1991
LP’S

O SILÊNCIO DA MEMÓRIA

VAN MORRISON
Hymns To The Silence
LP duplo/CD, Polydor, distri. Polygram

Nestas idades é típico: a confrontação do homem e do artista consigo mesmo e com aquilo em que acredita ou passou a acreditar. Será que vale a pena fazer música? Onde está a felicidade? A guitarra terá sido afinada correctamente? A conta do gás já está paga? Quem sou eu? (Eu não, ele, Van Morrison.) Onde está Deus, que não me liga nenhuma? Que é feito das “royalties” atrasadas? Eis algumas das questões usuais colocadas pelo artista em crise existencial que, por vezes, resultam em obras artisticamente válidas e noutras numa indiscrição imposta ao ouvinte, nas tintas para o casamento fracassado ou as fracas vendas do disco anterior.
Geralmente o que se passa é o arrependimento pelos excessos e pecados da juventude e uma conversão tardia à divindade mais próxima. Foi assim por exemplo, com Patti Smith. Foi assim com Nick Cave. Será assim enquanto houver um cigarro suspeito, uma garrafa por abrir ou uma “groupie” apetitosa à espera. E uma igreja ao fundo da rua ou uma editora disposta a vender as confissões.
Com Van Morrison é um pouco diferente. Não se trata tanto de uma introspecção culpabilizadora e da consequente necessidade de autopunição, mas de uma confrontação com o tempo passado em que se era feliz e de um desfiar de ladainhas em louvor ao “Lord”, bem como a evocação obsessiva e nostálgica do paraíso perdido. São constantes alusões directas a “God”, a “Lord Jesus”, a “heavens” distantes, “missions” a cumprir, e “graces” a alcançar.
Todo o segundo disco é, neste aspecto, como que um missal, um testamento espiritual do autor na sua busca incansável de melhores dias. Há grandes ensinamentos: “By his grace” assegura-nos de que o paraíso não fica ao virar da esquina e que é preciso viver a religião “por dentro”.
“Hymns to the Silence” rivaliza com os Yes, juntando de uma penada, em “Close to the One”, “Going for the One” com “Close to the edge”. “Be thou my vision” poderia ser solene e convencer-nos a comprar os panfletos. Infelizmente, as impressões de um esmagamento místico, que as alusões ao “great father” ou “high king of heaven” (e outras de tal forma profundas que nem sequer as podemos mencionar, sob pena da abalarmos os alicerces interior do leitor) poderiam provocar, são irremediavelmente anuladas pelo “da da da da da” final.
Musicalmente falando, o disco não traz novidades, em relação ao anterior “Enlightment” – os “rhythm’n’blues” continuam a constituir a principal fonte onde Van Morrison vai beber inspiração, aqui ainda mais acentuados pelo recrutamento do antigo colega Georgie Fame, omnipresente nas colaborações “gospel” do órgão e do piano.
“Hymns to the Silence” estende-se em demasia por esse tom de introspecção religiosa, alternando com as típicas baladas amorosas ou as inevitáveis concessões às origens irlandesas, traduzidas nas entoações da voz e no acompanhamento orquestral dos “habitués” Chieftains, em temas como o já citado “Be thou my vision” e “I can’t stop loving you”. Curiosamente, Derek Bell, harpista dos Chieftains, toca sintetizador num pare de temas.
Sobressaem do naipe de canções “On Hyndford street” e “So complicated”. O primeiro, um mergulho no Passado, em que as palavras, estranhamente declamadas, num registo vocal próximo do de William Burroughs, sobre um sintetizador a imitar um longínquo órgão de igreja, nos transportam até lugares e a uma época perdidos para sempre. Farrapos de um tempo em que se ouvia a Rádio Luxemburgo, os “blues” e Debussy no terceiro programa, se lia Kerouak, se passeava de autocarro até Hollywood e as tardes à beira do rio eram eternas. Nos tempos anteriores ao rock’n’roll, quando se vivia sem dar conta de se estar a sonhar. Aqui sim, o silêncio invade-nos a memória, e a presença de Deus, que “transporta e ilumina”, torna-se realidade. No registo oposto, “So complicated” evoca o ambiente das “big bands” dos anos 40, de Benny Goodman, Duke Ellington e Woody Herman, servindo de contraponto ao despojamento eufórico do texto. Por vezes, a voz de Van Morrison soa rouca e etilizada, à maneira de Tom Waits, como em “Pagan streams”. O espectro de Bob Dylan assoma em “Why must I always explain?”. No cômputo geral, “Hymns to the Silence” sugere uma melancolia que amiúde se confunde com monotonia. Como diria David Byrne: “Heaven is a place where nothing ever happens.” ***