PÚBLICO DOMINGO, 29 MARÇO 1992 >> Cultura
Eugénia
Melo e Castro comemora com “Mel” dez anos de carreira
“Tenho uma energia que é
frenesim”
“Terra de Mel – 10 Anos Depois” assinala o
regresso de Eugénia Melo e Castro aos palcos portugueses. Um espetáculo
contido, de piano e voz, com Wagner Tiso e canções do princípio do século. “O
amor é cego e vê”? Geninha não é cega: a SEC subsidia o recital. Longe vão os
tempos da “maluca” que corria atrás dos seus ídolos.
“Terra de Mel – 10 Anos Depois”
recupera o título do álbum de estreia da cantora ao mesmo tempo que comemora
uma década de colaboração regular com o compositor e músico brasileiro Wagner
Tiso, cujo novo álbum “Profissão: Música”, foi considerado disco do ano pela
Associação Brasileira de Críticos de Discos. Serão dois espetáculos reduzidos
ao essencial, uma “coisa séria” como diz a cantora: dia 13, em Lisboa, no
Teatro D. Maria II, e dia 15, no Porto, na Casa das Artes, ambos às 22h00. Um
piano e uma voz em busca do paraíso perdido do princípio do século.
PÚBLICO – O formato piano/voz
significa um regresso à essência das suas canções?
EUGÉNIA MELO E CASTRO – Exatamente.
Um resumo muito forte. O uso exclusivo do piano e da voz retiram toda a
grandiosidade dos arranjos que geralmente vestem uma canção. Além disso,
fica-se mais exposto e há que encontrar um equilíbrio. Acho que um espetáculo
de piano e voz se pode transformar numa coisa cansativa se for muito longo ou
se as canções forem mal escolhidas. No meu caso vai durar cerca de uma hora.
Sem convidados, sem nada. Será um recital super, super sério.
P. – Qual vai ser o
reportório?
R. – Vão ser canções de toda
a minha carreira e algumas novas como “No puedo ser feliz”, do Bola de Neve,
que era um cantor cubano dos anos 30, e outra brasileira, chamada “Hei-de
amar-te até morrer”, de autor anónimo, também do princípio do século.
P. – Porquê essa quase
fixação em canções do início do século, que perdura já desde “O Amor é Cego e
Vê”?
R. – Foi uma coisa que de
repente aconteceu na minha vida. Acho que é uma fase. Por exemplo, as canções
que eu tenho neste momento nas mãos são coisas assim completamente imortais,
lindíssimas, e eu acho que é muito bonito trazê-las para as pessoas que nunca
ouviram falar ou já não se lembram delas.
P. – Em matéria de gravações,
1992 seria o ano de edição de um novo disco, de forma a cumprir a tradição de
lançar um álbum de dois em dois anos. “O Amor é Cego e Vê” data de 1990...
R. – Vou entrar em estúdio em
julho e fazer as misturas na Suécia. Será um CD editado num selo francês de
“world music” chamado “A Divina Comédia”. Vai ser um disco que sai fora de
tudo.
“Eu vou!”
P. – Como explica que apesar
de atuar tão pouco em Portugal, consiga manter as pessoas atentas e recetivas à
sua música?
R. – O que se passa é que
quando não se está a falar de mim aqui, está a falar-se no Brasil. Não paro de
trabalhar um minuto. Se fico oito dias sem fazer nada entro em depressão
profunda. Pronto, habituei-me a este ritmo. Mas não faço a menor questão de aparecer
por aparecer. O que se passa é que tenho conseguido criar sempre expetativas
que cumpro. A princípio, quando dizia que iria gravar com o Wagner Tiso ou com
o Milton Nascimento, ou que ia ser parceira do Caetano Veloso e do Ney
Matogrosso, as pessoas riam-se. Mas nunca disse uma coisa que não cumprisse.
P. – Costuma dizer-se que tem
um magnetismo muito forte...
R. – Sim, e que funciona.
Tenho uma energia que é esse frenesim de trabalhar, de querer fazer coisas, de
me superar. A minha cabeça não para. O Herman José dizia-me assim, há dias: “De
manhã queres que o Chico Buarque cante contigo. Passados dez minutos estás no
estúdio com o Chico Buarque”.
P. – Pode concluir-se que
consegue sempre o que quer?
R. – Respondo com o exemplo
de como conheci o Wagner Tiso. Houve um “show” que ele e o Milton deram aqui no
Coliseu. Eu, no meio do “show”, decidi que ia ser cantora. E corri que nem uma
desesperada quando eles iam apanhar o avião – uma maluca barrada pelos polícias
que gritava: “Wagner, Wagner, preciso de falar contigo”. Ele pensou que eu era
uma fã e fez-me “adeuzinho”. Pensei: “Não consegui falar com ele aqui, vou ter
que ir ao Brasil”. Um mês depois fui até lá, bati à porta do Wagner e
disse-lhe: “Olhe, lembra-se de uma maluca no aeroporto? Era eu!”
P. – Houve quem no início da
sua carreira criticasse a sua voz, que não estaria à altura de tantas
pretensões...
R. – Aceito essas críticas.
Mas também acho que tenho vindo a evoluir muito e a crescer vocalmente. Quanto
mais se canta melhor se canta, mais se ganha segurança. E eu tenho sido muito
ajudada.
P. – Precisamente,
considera-se uma artista privilegiada?
R. – Sim. Mas acho que é um
privilégio que eu invento para mim mesma.
P. – Como inventou o subsídio
da SEC aos seus concertos, num “abrir os cordões à bolsa” pouco usual em
espetáculos deste tipo?
R. – Neste caso não acho que
seja um privilégio mas um pioneirismo. Por exemplo, o espetáculo dos
Resistência com os Lua Extravagante também foi subsidiado pela SEC. Serei
portanto a segunda. Os grupos de teatro têm sempre subsídios, a música parece
que não é levada muito a sério. Eu percebi que havia uma abertura e não perdi
tempo. Tomei eu própria a iniciativa de me dirigir à SEC onde fui muito bem
tratada. Não ia ter o Wagner em casa um mês, a olharmos um para o outro, quando
podíamos estar a trabalhar. Não sou de ficar quieta. Existe um ditado que diz:
“Quem quer vai, quem não quer manda”. Eu vou.
P. – Está sempre segura de
si. Nunca sentiu medo do palco, por exemplo?
R. – Antes tinha, agora não.
Acontece que tive algumas experiências muito tristes, como cantar sem som de
retorno e pensar que o defeito era meu, que eu é que era má. Experiências
traumatizantes. Tinha tanto medo do palco que quando me falavam em cantar ao
vivo, fugia.
P. – Preocupa-se com a imagem
que dá de si própria aos outros?
R. – Não me preocupo muito. A
minha imagem é a da pessoa que eu sou: supernormal, na maneira de vestir, de
viver, de estar.
P. – Mas, há pouco, tinha
receio que as fotografias saíssem mal...
R. – Mas isso é porque a
gente tira fotografias em casa e sai sempre com os olhos tortos. Eu estou aqui,
à vontade, sem maquilhagem, sem coisa nenhuma, vem um gajo, pega-nos uns
“flashes” na cara e depois saem aquelas coisas horrorosas. As pessoas não são
assim.