PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 MARÇO 1992 >> Pop Rock
DE AVALON À TERRA DAS ÁGUIAS
“Jigs” e “reels” são termos já familiares no
léxico das danças irlandesas. Juntem-se-lhes, em diversas variantes, os “airs”,
“hornpipes” e “strathspeys”. Ou as valsas, marchas, polcas e mazurkas,
adaptadas à veia nacional. Sem esquecer as baladas vocais. Dá para ter uma
ideia da riqueza e variedade da música tradicional da “Ilha de esmeralda”.
Provam-no também a nova remessa de títulos acabados de chegar ao nosso mercado
discográfico.
“A Jacket of Batteries” demonstra até que ponto os De Dannan não têm contemplações: nada
escapa ao delírio instrumental desta banda lendária que, com os Bothy Band e os
Planxty, ajudou a traçar os fundamentos de toda uma nova e excitante
contextualização para a música tradicional do seu país. Do tradicionalismo mais
ortodoxo das suites de danças ou do clássico “Carrickfergus” não hesitam em
lançar-se num “Mandela” de ressonâncias africanas, nos floreados de uma pauta
de Bach ou numa deliciosa adaptação “tradicionalizada” de “Eleanor Rigby”.
Frankie Gavin (rabeca, flauta, piano) e Alec Finn (bouzouki, guitarra,
teclados), os dois únicos sobreviventes da formação original, encarregam-se de
demonstrar todo o seu humor e virtuosismo, bem secundados pelos restantes
instrumentistas, Colm Murphy (bodhran), Adele O’Dwyer (violoncelo) e Aidan
Coffey (acordeão). Nas baladas em que é chamada a emprestar a sua voz, Eleanor
Shanley não faz esquecer a “deusa” Dolores Keane, omnipresente em álbuns como
“De Dannan”, “Anthem” ou “Ballroom”. “Defeito” menor num disco de uma banda
veterana que insiste em desbravar novos caminhos. Distribuído pela Megamúsica.
Gerry O’Connor (rabeca) e Eithne Ní
Uallacháin (voz, flauta, tin whistle) constituem os Lá Lugh, que estiveram recentemente em Portugal numa mini digressão
pelo Norte do país. Baladas da tradição gaélica interpretadas de forma sublime
pela vocalista e instrumentais onde, além das prestações de Gerry O’Connor,
pontifica o acordeão de Máirtín O’Connor, formam um todo que sem fugir aos
cânones tradicionais atinge, recorrendo a uma panóplia instrumental reduzida,
uma razoável complexidade e um bom gosto notáveis ao nível dos arranjos.
Distribuição VGM. Também disponível um CD do anterior projeto da dupla:
Skylark, com “All Of It”, na editora Green Linnet, distribuída pela Megamúsica.
Se o acordeão de Máirtín O’Connor é peça fundamental nos Lá Lugh que dizer do seu álbum a solo “Perpetual Motion” (Claddagh, distribuição VGM)? Literalmente assombroso. Máirtín O’Connor é um maníaco da perfeição, chegando ao ponto de mandar construir os seus próprios modelos, de maneira a tirar todo o partido de um instrumento que, no passado, Seán Ó Riada considerou ter sido “inventado por estrangeiros para uso de camponeses sem tempo, inclinação nem aplicação para outro mais meritório” e ao qual Ambrose Bierce, no seu “Dicionário do diabo” chamou “um instrumento em harmonia com os sentimentos de um assassino”. Em “Perpetual Motion” Máirtín O’Connor desfaz todos os preconceitos. Num álbum de interpretações magistrais que inclui música de todos os géneros e de várias regiões: um fandango basco, um “rag” americano, um “Carnaval veneziano”, uma polca ucraniana, “blues”, “cajun”, uma valsa francesa e jigas da Bulgária. Viagens vertiginosas num acordeão de sete foles.
Ventos da Escócia e Gargantas
do Leste
Os Ceolbeg e Brian McNeill não são
irlandeses, mas escoceses. A proximidade geográfica e uma origem comum
justificam contudo a sua inclusão neste lote. “Seeds to the Wind”,
dos Ceolbeg, constitui a estreia
discográfica desta banda que confirma a inesgotabilidade de propostas
renovadoras no seio da música de raiz celta. À semelhança de outras formações
que não limitam o seu reportório à matriz natal, os Ceolbeg incluem no seu
programa tradicionais franceses e da Galiza. Nas canções originais do grupo, as
vocalizações de Davy Steele lembram por vezes os Horslips de suspeita memória
(a exceção é “The Táin”). Instrumentalmente, “Seeds to the Wind” está repleto
de surpresas e boas ideias. Não deixa de ser estimulante, por exemplo, escutar
a conceção muito especial que os britânicos têm da extroversão solar dos seus
irmãos galegos.
Brian
McNeill é conhecido sobretudo como violinista dos Battlefield Band, que
desempenham na Escócia o mesmo papel que os Chieftains na Irlanda, de
embaixadores da música tradicional no mundo. “The Back o’ the North Wind”
(Greentrax, distri. VGM) posterior a “Unstrung Hero” e “The Busker and the
Devil’s Only Daughter”, ambos disponíveis em Portugal, trata do velho tema da
emigração para o continente americano. Brian McNeill refere-se a um vento que
“ao longo dos séculos tem funcionado como uma força perpétua” que empurra o seu
povo para o exterior. Dá nomes a essa força: “pobreza”, “perseguição”, mas
também “aperfeiçoamento”, “desassossego” e um “desejo de conhecer o que se
esconde por detrás da montanha, ou do lado de lá do oceano”. Nisto são
parecidos connosco. A totalidade das composições inspira-se no filão
tradicional, com arranjos do músico, numa prática semelhante à seguida pelos
Battlefield Band. Brian McNeill toca neste disco rabeca, guitarra, bouzouki,
mandocello, sanfona, concertina e baixo. Guitarra sintetizada, teclados,
acordeão, trombone, gaita-de-foles, tin whistle e saxofone soprano completam a
lista de instrumentos utilizados por um lote de convidados onde se destaca a
presença de Dick Gaughan e o gaiteiro dos Battlefield, Dougie Pincock.
Da Hungria, os Kolinda, apadrinhados pela editora francesa Hexagone nos tempos
áureos do álbum de estreia “Kolinda” e da obra-prima “1514”. Ao fim de 16 anos
de existência atribulada e sucessivas alterações na formação, a banda húngara
liderada por Péter Dabasi dá mostras de um certo cansaço e saturação de ideias.
Se no início, a ideia de misturar o folk magiar, na sua vertente sombria, com o
jargão da música clássica, interpretada em instrumentos tradicionais húngaros a
par de eletrónicos, resultou esteticamente nos álbuns atrás mencionados, a
insistência na mesma tecla acabou por descambar em “clichés” e num academismo
que em “Kolinda 6” roça a monotonia
e em “Transit”, talvez por ser
gravado ao vivo, consegue transmitir um mínimo de entusiasmo mesmo se as
vocalizações (feminina e masculina) continuam a evidenciar sintomas de anemia.
Bem mais estimulantes são os
exemplares de um catálogo recém-chegado aos nossos distribuidores, neste caso
ainda a VGM: a PAN Records, com sede na Holanda. Mais do que estimulante é “Voices from the Land of the Eagles” dos
russos Tuva, especialistas naquele estilo vocal que consiste em fazer
sair dois sons distintos de uma única garganta, à maneira de certos cânticos
tibetanos. Ou de David Hykes, que é norte-americano e a viver em Nova Iorque.
Como o álbum é gravado ao vivo, fica-se com a certeza de que não é truque.
Musicalmente é das coisas mais estranhas que é possível ouvir, Residents e
baleias incluídos. São afinações de outra galáxia. Berimbaus em delírio.
Violinos que soam a sanfonas. Instrumentos de sonoridades ainda mais estranhas
que as designações. Cadências hipnóticas. Uivos e sussurros. Tudo aquilo que o
comunismo escondeu e você sempre quis conhecer. Inolvidável.
Para acabar: “Traditional Arranged by Dronningens Livstykke”, versão dinamarquesa
dos Fairport Convention, mostrando que na Escandinávia nem tudo é gelo. Depois
“Music from the Pirin Mountains” das
Bisserova Sisters, búlgaras capazes
de provar que há mais do que uma maneira de falar com Deus e “Alora” dos
holandeses e turcos Orient Express, numa girândola ferroviária pelos
folclores da Bulgária, Turquia, País Basco, Grécia e Itália.
Se juntarmos a estes discos a
reedição da quase totalidade das discografias dos Chieftains, Steeleye Span e
Planxty, chega-se mesmo à conclusão que vai haver quem não tenha mãos nem
ouvidos a medir.
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