TELE PÚBLICO
Domingo 12.01.1992
NA CAPA
MÚSICA NO CORAÇÃO
Não é um grande disco
mas tem que se lhe dar o devido desconto por causa da “partenaire”,
chamemos-lhe assim, de Tom Waits, nesta banda sonora de sonhos cor-de-rosa em
pano de cenário. A senhora, Crystal Gayle, espécie de Julie Andrews da música
“country”, foi recrutada por Coppola à última hora para substituir Bette
Midler, que já fizera dueto com Waits em “I never talk to strangers”, do álbum
“Foreign Affairs” mas que na altura não se encontrava disponível, ocupada
talvez numa cura de emagrecimento ou num curso de técnicas de contenção vocal.
Não foi uma boa troca. Gayle deveria ter ficado em casa a coser meias ou a
escutar os discos de Loretta Lynn, a sua irmã mais velha, esta sim, verdadeira
lenda da “country music”.
E por falar em manas, o
casamento natural teria sido com Rickie Lee Jones, irmã espiritual de Tom Waits
e sua acompanhante de copos e noitadas. Infelizmente, uma bebedeira mal curada
levou ao corte de relações, gorando-se deste modo uma colaboração que poderia
ter dado a “One From the Heart” colorações musicais bem mais estimulantes.
Cinjamo-nos porém à
realidade, o que, dada a natureza do objeto em questão, não deixa de soar a
paradoxo. Como ficou gravado para a posteridade, “One From the Heart” é, na
maior parte das composições que Tom Waits se viu obrigado a partilhar com
Gayle, um disco amarrado a lugares-comuns – “Música no Coração”, estrelinhas e
borbulhas de “champagne”. Certo que as imagens de Coppola parecem não falar de
outra coisa, mas o romantismo do autor de “Small Change”, “Blue Valentine” e
“Swordfishtrombones” não se compadece com “confetti” e vai mais fundo,
carregado de negro e nuvens de “bourbon”. Crystal Gayle devia ter medo dele em
vez de cantar com ele. Repare-se no contraste das expressões que ambos ostentam
na capa. Waits, músculos faciais repuxados para baixo, mira-nos pelo canto do
olho, como quem diz “olha-me esta garina armada em gata borralheira”. A seu
lado, Gayle, qual Cinderela de “T-shirt” florida, sorri embevecida, no
esplendor de uma dentadura imaculada e uma frescura “Bien Être”. A bela e o
monstro sobre o fundo “Disneylândia” idealizado pelo cineasta para tapar os
horrores de “Apocalypse Now”. Neste, o
fogo-de-artifício da loucura. Em “One from the Heart” o artifício do fogo da
paixão.
Orquestração de sons e
formas de sentir. Uma canção como “The wages of love” é pura simulação de
sentimentos, acumulação de referências “Waitianas” despojadas de carne e osso
(em oposição radical ao mais recente trabalho do compositor, “Bone Machine”,
retrato esventrado sobre o tema da morte), substituídos por plástico, “make-up”
e arranjos de veludo. “Is there any way out of this dream?” pergunta Crystal
Gayle na canção seguinte, com a angústia de Alice no País das Maravilhas que
quer tudo menos sair do sonho. Dimensão onírica que o tema final, “Presents”,
acentua, em sons de caixa-de-música que não destoariam numa partitura de
Badalamenti para David Lynch (interessante, de resto, a comparação das
estéticas de “One from the Heart” e “Blue Velvet”, nas quais o jogo das
aparências funciona, no caso de Coppola, como ocultação e, no de Lynch, como
corpo submetido ao escalpelo. Celebração do excesso, em ambos os casos, na gama
completa que vai da “feérie” ao pesadelo).
Liberto do espartilho da
cantora com voz doce, a sequência dos cinco temas que ocupam mais de metade do
segundo lado revela finalmente Tom Waits instalado no seu universo de bares e
cidades assombrados: da balada sumptuosa “I beg your pardon” ao tango canalha
(“The tango”), a mascarada de um circo surreal, em “Circus girl” e o batimento
cardíaco de “You can’t unring a bell”. Porque o coração é vermelho por fora,
cor de rebuçado, de Crystal Gayle, do vestido de Teri Garr, mas também músculo
de carne que dói. Abandonarmo-nos a “One From the Heart” é como andar de
baloiço. Quanto maior a ilusão e a subida, maior a queda.
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