16/09/2026

Música no coração [Tom Waits]

 

TELE PÚBLICO

Domingo 12.01.1992

 

NA CAPA

 

MÚSICA NO CORAÇÃO

 


            Não é um grande disco mas tem que se lhe dar o devido desconto por causa da “partenaire”, chamemos-lhe assim, de Tom Waits, nesta banda sonora de sonhos cor-de-rosa em pano de cenário. A senhora, Crystal Gayle, espécie de Julie Andrews da música “country”, foi recrutada por Coppola à última hora para substituir Bette Midler, que já fizera dueto com Waits em “I never talk to strangers”, do álbum “Foreign Affairs” mas que na altura não se encontrava disponível, ocupada talvez numa cura de emagrecimento ou num curso de técnicas de contenção vocal. Não foi uma boa troca. Gayle deveria ter ficado em casa a coser meias ou a escutar os discos de Loretta Lynn, a sua irmã mais velha, esta sim, verdadeira lenda da “country music”.

            E por falar em manas, o casamento natural teria sido com Rickie Lee Jones, irmã espiritual de Tom Waits e sua acompanhante de copos e noitadas. Infelizmente, uma bebedeira mal curada levou ao corte de relações, gorando-se deste modo uma colaboração que poderia ter dado a “One From the Heart” colorações musicais bem mais estimulantes.

            Cinjamo-nos porém à realidade, o que, dada a natureza do objeto em questão, não deixa de soar a paradoxo. Como ficou gravado para a posteridade, “One From the Heart” é, na maior parte das composições que Tom Waits se viu obrigado a partilhar com Gayle, um disco amarrado a lugares-comuns – “Música no Coração”, estrelinhas e borbulhas de “champagne”. Certo que as imagens de Coppola parecem não falar de outra coisa, mas o romantismo do autor de “Small Change”, “Blue Valentine” e “Swordfishtrombones” não se compadece com “confetti” e vai mais fundo, carregado de negro e nuvens de “bourbon”. Crystal Gayle devia ter medo dele em vez de cantar com ele. Repare-se no contraste das expressões que ambos ostentam na capa. Waits, músculos faciais repuxados para baixo, mira-nos pelo canto do olho, como quem diz “olha-me esta garina armada em gata borralheira”. A seu lado, Gayle, qual Cinderela de “T-shirt” florida, sorri embevecida, no esplendor de uma dentadura imaculada e uma frescura “Bien Être”. A bela e o monstro sobre o fundo “Disneylândia” idealizado pelo cineasta para tapar os horrores de “Apocalypse Now”.  Neste, o fogo-de-artifício da loucura. Em “One from the Heart” o artifício do fogo da paixão.

            Orquestração de sons e formas de sentir. Uma canção como “The wages of love” é pura simulação de sentimentos, acumulação de referências “Waitianas” despojadas de carne e osso (em oposição radical ao mais recente trabalho do compositor, “Bone Machine”, retrato esventrado sobre o tema da morte), substituídos por plástico, “make-up” e arranjos de veludo. “Is there any way out of this dream?” pergunta Crystal Gayle na canção seguinte, com a angústia de Alice no País das Maravilhas que quer tudo menos sair do sonho. Dimensão onírica que o tema final, “Presents”, acentua, em sons de caixa-de-música que não destoariam numa partitura de Badalamenti para David Lynch (interessante, de resto, a comparação das estéticas de “One from the Heart” e “Blue Velvet”, nas quais o jogo das aparências funciona, no caso de Coppola, como ocultação e, no de Lynch, como corpo submetido ao escalpelo. Celebração do excesso, em ambos os casos, na gama completa que vai da “feérie” ao pesadelo).

            Liberto do espartilho da cantora com voz doce, a sequência dos cinco temas que ocupam mais de metade do segundo lado revela finalmente Tom Waits instalado no seu universo de bares e cidades assombrados: da balada sumptuosa “I beg your pardon” ao tango canalha (“The tango”), a mascarada de um circo surreal, em “Circus girl” e o batimento cardíaco de “You can’t unring a bell”. Porque o coração é vermelho por fora, cor de rebuçado, de Crystal Gayle, do vestido de Teri Garr, mas também músculo de carne que dói. Abandonarmo-nos a “One From the Heart” é como andar de baloiço. Quanto maior a ilusão e a subida, maior a queda.

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