PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 MAIO 1992 >> Pop Rock >> LP’s
The Singer
LP/CD, Mute, distri. Edisom
Depois dos espirituais e do
gospel, Diamanda Galas volta a atacar, com os blues e a mesma maneira de cantar
o lado negro da humanidade. De novo ao vivo, depois da missa celebrada numa
catedral no duplo “Plague Mass”. Desta feita surge acompanhada apenas por um
piano e um órgão, que lhe chegam perfeitamente para lançar os seus feitiços e
imprecações. Na capa de “The Singer”, toda em azul, o azul dos blues, a cantora
aparece com a seguinte inscrição gravada nos dedos: “Somos todos HIV
positivos”, o que quer dizer que “temos todos sida” ou ainda que “estamos todos
lixados”. A paranóia do costume. E são os gritos lancinantes, os urros
animalescos, a voz de diva demoníaca que envenena tudo o que toca, tal qual uma
praga. Muito em sintonia com o fim dos tempos (já em curso), Galas dedica-se à
prática da inversão, em particular da música religiosa, de modo a carregá-la
com uma polaridade oposta à original. Quando Diamanda canta “My love will never
die” (de Willie Dixon) ou “Were you there when they crucified my Lord” (de Roy
Acuff), onde se lê “love” e “lord” leia-se “ódio” e “diabo”. Diamanda Galas é
muito mais sincera quando pede que se verifique o estado de limpeza da sua sepultura
(“See that my grave is kept clean”), em “I put a spell on you”, de Screamin’
Jay Hawkins, ou no apocalipse final de “Judgement day”, único tema da sua
autoria. “The Singer”, ainda aqui funcionando como o inverso do “álbum de
clássicos” com que em regra os cantores pretendem afirmar as suas capacidades
de intérpretes. O problema de Diamanda Galas é que já começa a fartar tanta
gritaria, tanta maldição e, agora, também estes blues do inferno. Lá devem
gostar todos imenso da sua música. (5)
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