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06/08/2015

Fennesz, Biosphere...




"Fennesz, Biosphere..." (Fernando Magalhães)

Fernando Magalhães
03.12.2001 160415

Olá a todos

Comecemos pelo "concerto" dos BIOSPHERE. Que concerto? Em casa ouve-se melhor a música dos excelentes "Substrata" e "Cirque". Faço minhas as palavras de outros forenses que estiveram presentes em Serralves. Que diabo, não teria ficado assim tão caro arranjar um suporte visual qualquer para acompanhar a belíssima música de Geir Jenssen (embora, ao vivo, fique sempre a suspeita de estarmos a ouvir, na maioria, sons pré-gravados...).
O anti-acontecimento do ano. Foi pena...

Bastante melhor foi, com efeito, o encontro dos forenses no Labirinto. Imagino que o Mário tenha pago para aí uns 20 contos nos Vodkas :).
Também apreciei a celeridade da empregada que servia às mesas no jardim. Super rápida, a miúda! :D

O Luis M, profundo conhecedor da cidade, confirmou ser um habitué das noites do Porto. :D

Uma noite bem passada, em suma.

À saída do "concerto", o Paulo Vinhas, da Matéria Prima, arranjou-me, finalmente, um exemplar do esgotadíssimo "Endless Summer", do Christian FENNESZ (bem como o "Substrata 2", de Biosphere e o disco do Rafael Toral, também para a Touch).

Apesar de ainda só ter ouvido o CD (do Fennesz) uma vez, confesso que senti alguma desilusão. Parece-me ser um bom disco, mas não um grande disco. O Fennesz revela-se aqui sobretudo como um "bricoleur" do som e do ruído "harmonizado", mas os resultados parecem-me não estar à altura do álbum anterior (o do título com as coordenadas geográficas).
Há achados sonoros engraçados, como os do tema de abertura, em que o ruído sugere harmonias quase subliminares, vibrafones cristalinos e sugestões melódicas em temas como "Caecilia" mas sobram sequências demasiado longas daquilo a que chamo "chill out" com rugas...área na qual existe um álbum que reputo de excelente, verdadeiramente hipnótico, na forma como consegue induzir no auditor estados de consciência alternativa, chamemos-lhes assim...: "Pop", do projecto GAS.
"Endless Summer" pode ser sonicamente mais variado mas não vai tão fundo na investigação psico/musical, como os GAS.

Para já um 7/10, 7,5/10 com alguma boa vontade. Mas é evidente que vou ter que o ouvir mais vezes.

Quanto ao "Substrata", remasterizado, é uma verdadeira "trip"... já não na biosfera mas na estratosfera :)

FM


César Laia
03.12.2001 160421

Tenho esse álbum dos GAS em mp3 há mais de um ano e nunca o ouvi! Se calhar está na altura ouvir :D

Confesso que gosto muito mais do "Endless Summer" que do álbum das coordenadas. Mas gostos são gostos :)

Ah, e a tua sugestão para ouvir Fridge foi preciosa, o "Happyness" é muito bom! :) :D
O Número também foi uma semi-desilusão...

César

np: Safety Scissors "parts water"


Fernando Magalhães
03.12.2001 160445

Atenção, que o CD dos GAS não é de audição fácil. É uma espécie de "ambient" intoxicante, repetitiva, que funciona na forma como põe o cérebro a construir arquitecturas virtuais. Somos nós que acabamos por criar, a partir dos timbres "saturados" que o ouvido recebe, uma sinfonia irreal de sons.

Quanto aos FRIDGE...ehehe...eu recomendo a audição do grupo, sem dúvida, mas não através de "Happiness" (qu quase toda a gente neste forum venerou J... ), que considero um álbum de certa forma "falhado", em comparação com os anteriores e, estes sim, altamente recomendáveis, "Semaphore" e "Eph".

FM


Mário Z.
03.12.2001 160452

Há um pormenor que "facilita" a audição do álbum dos GAS. É que há por lá temas praticamente iguaizinhos uns aos outros... À "segunda" e à "terceira" já não se estranha tanto. ;)

Mais a sério: apesar de gostar bastante do tipo de som dos GAS (ou não fosse eu fã dos Biosphere), considero que o álbum é um disco em parte falhado, precisamente por causa das desnecessárias "repetições"...


Saudações

Mário

PS: Espero que com novas audições as qualidades do "Endless Summer" possam superar os eventuais defeitos... :)


Fernando Magalhães
03.12.2001 170511

Se ouvires bem, não são bem "repetições". Há diferenças subtis de tema para tema.
Também não creio que a música de "Pop" tenha muito a ver com a dos Biosphere. "Pop" terá muito mais a ver com (apesar de na aparência, o som remeter para uma certa ambient tecno...) as estruturas de composição de um Steve Reich ou do próprio Philip Glass da fase inicial. Música mântrica, enfim.

Assim: Espero que com novas audições as qualidades do "Pop" possam superar os eventuais defeitos... :)

FM


aavv
03.12.2001 170539

Vocês podiam aconselhar-me um disco do Philip Glass para primeira audição? (nunca ouvi nadsa dele) Já há uns tempos que gostava de saber ao que soa, mas não sei por onde é qie hei-de começar.


aavv


Fernando Magalhães
04.12.2001 150353

Bom, há várias vertentes musicais no interior da obra do Philip Glass. Os discos mais recentes (anos 80) são para esquecer. PG a imitar PG, segundo uma fórmula que se institucionalizou por completo.

Para mim, o melhor dele é mesmo o 1º período, das peças monocromáticas, repetitivas e hipnóticas (um efeito semelhante ao dos Gas, embora com texturas sonoras diferentes) até à exaustão, mas ainda sem os tiques que viriam a marcar grande parte da sua discografia posterior. Refiro-me a "Music with Changing Parts" (71) e "Two Pages/Contrary Motion" (73/75), ambos editados pela Elektra Noinsesuch em versões remasterizadas.

Claro, há a ópera "Einstein on the Beach", de 1978, considerado o seu magnum opus. Recomendo a versão aumentada, melhorada e remasterizada, de 1993.

Também acho muito curioso um disco pouco conhecido dele, o "North Star", igualmente dos anos 70, em que o minimalismo se aproxima de um certo rock progressivo a la Magma, sob a influência de Carl Orff.

Claro que depois tens as BSO todas, as óperas grandiosas, enfim o PG average que ajudou a destruir o que de fascinante existia na 1ª geração do minimalismo norte-americano.

FM

14/07/2015

Fridge vs. Rechenzentrum (+ Lilac Time)



 
"Fridge vs. Rechenzentrum (+ Lilac Time)" (Fernando Magalhães)

Fernando Magalhães
10.10.2001 130133

Achei o "Happiness" dos FRIDGE, uma desilusão, comparado com os anteriores "Semaphore" e "Eph".
Há uma colagem óbvia ao Steve Reich dos anos 60, nos temas mais "acústicos". O lado electrónico é previsível e estende-se por demasiado tempo, sem que as ideias apareçam. Há uma ou outra faixa engraçada ("Drum machine and glockenspiel", por ex.) mas o disco cansou-me. E aquelas guitarras "pós-rock" já me dão cabo da paciência.

Em contrapartida, no novo "The John Peel Session" os RECHENZENTRUM arriscaram tudo. O groove endureceu, sons concertos abateram-se sobre a mistura, há uma incursão de música de cãmara no meio da tecno mutante de "Solaris" e do tema que vem a seguir. Percussões industriais e samples misteriosos abatem-se sobre os sintetizadores. Um passo inesperado e estimulante, em relação ao anterior e altamente dançável "Rechenzentrum".

saudações electro

FM

PS-Os The LILAC TIME são uma banda pop bem engraçada. Ouvi ontem "Compendium - The Fontana TRinity". Apesar de uma extensão algo excessiva (o CD é duplo, com cerva de 2h30) encontram-se canções pop "com sabor a clássico", instrumentais neo-folk e melodias tipo Lightning Seeds. Os apreciadores de pop "mesmo pop", luxuosamente arranjada e apresentada, terão aqui bom material para se entreter.


Pedrotaos
10.10.2001 160416

por acaso acho o "happiness" uma maravilha,mas é mesmo assim...é a história da vaginas J

mas partilho da fascinação pelo novo dos Rechenzentrum,cheio de texturas bizarras com clicks & cuts a criarem ritmos para um baile de robots....alguns temas fazem-me lembrar Isolee.

saudações


Fernando Magalhães
10.10.2001 170515

"História da vaginas"????? Explica lá essa, evitando a utilização de palavras equivalentes a "tu-sabes-qual-começada-por-um-B-e-acabada-noutro-B-com-um-O-no-meio".

O problema do novo FRIDGE, banda que sempre estimei bastante, está em que vislumbro nele uma série de pormenores, alguns deles interessantes, que depois não adiantam nem atrasam, talvez até, pela excessiva duração da maioria dos temas, sem que tal se justifique. Dá ideia de que o grupo resolveu inovar, introduziu na sua música elementos novos, mas depois não soube o que fazer com eles.

Exactamante o oposto do que os RECHENZENTRUM conseguiram fazer, já que o novo álbum também representa uma ruptura com o disco anterior. No caso dos alemães, ruptura que se traduziu num objecto tão coerente como fascinante e verdadeiramente experimental.

FM

05/02/2015

Fridge - Happiness



Y 12|OUTUBRO|2001
escolhas|discos


FRIDGE
Happiness
Domino, distri. Ananana
6|10

Do pós-rock, versão kraut britânico, de “Ceefax”, os Fridge reforçaram a componente eletrónica nos dois álbuns seguintes, os magníficos “Semaphore” e “Eph”. “Happiness” tenta a surpresa, compondo uma imagem mais seca e acústica, ilustrada por títulos descritivos como “Drum machines and glockenspiels”, “Sample and clicks” ou “Drums bass sonics and edit”. A ênfase posta na descrição dos meios técnicos utilizados, aliada à divisão do tempo no tema de abertura, “Melodica and trombone”, remetem para “Four Organs/Phase Patterns”, supra-sumo do minimalismo, com assinatura, ainda nos anos 60, de Steve Reich. Mas o programa diverge no que resta de “Happiness”, um desfile de acordes de guitarra cansada e compassos tirados da sebenta do pós-rock, ocasionalmente cortados por breakbeats marotos ou, em “Harmonics”, pedaços da orquestra do Café Pinguim. Não chega para proporcionar a felicidade.

08/03/2011

Fridge - Eph + Labradford - E Luxo So

Sons

22 de Outubro 1999
POP ROCK

Atom Darth Vader

Fridge
Eph (9)
Go Beat, import. Lojas Valentim de Carvalho
Labradford
E Luxo So (8)
Blast First, import. Lojas Valentim de Carvalho


Com “Ceefax” e “Semaphore” os Fridge já tinham lançado o aviso de que são uma banda para seguir de perto, capaz dos mais altos voos. E se qualquer destes álbuns dava já indicações de estarmos perante um grupo que não se contenta em seguir os mandamentos do pós-rock, com as obrigatórias vénias ao krautrock ou ao Progressivo, o novo “Eph” explode como uma estrela em direcção a um sinfonismo electrónico tingido pelo jazz e por uma pop instrumental estratosférica. Sim, pop, leram bem, mas uma pop com a forma de vapores, perfumes e cintilações desconhecidos na Terra. “Ark” abre o disco com pulverizações de uma beleza asfixiante, aumentando progressivamente de densidade e deixando entrar elementos residuais, segundo o método Biota/Mnemonists, até ao sufoco final. “Meum” é ambiental, minimal, cristal, claustro, zen, new age para curar robôs neuróticos. O ritmo fragmenta-se e surgem vozes interceptadas do éter, em “Transience”, antes de uma lenta ascensão conduzir a lugares que seria melhor evitar. O psicadelismo entrou no pós-rock com este tema monumental. Em “Of” o espectro de um avião Concord revela uma paisagem bucólica/minimalista habitada pelos Biosphere. Refracções, feedback e delay obscurecem “Tuum” que, em “Sad ischl” deriva para uma incursão de saxofones jazzy à la Tuxedomoon (de “Desire”) sobre harpejos de sintetizador analógico e uma melodia celebratória do crepúsculo da Europa que traz ecos de “Desperate Straights”, da conjunção Henry Cow Slapp Happy. “Yttrium” consegue aquilo que os Stereolab andam há anos a tentar: a “easy listening” do futuro. O longo tema derradeiro, “Aphelion”, começa por instalar-se nos territórios do free rock abertos pelos Isotope 217º e Supersilent, uma música visceral com raízes na estética de jazz tribal cultivada pelo selo ESP nos anos 60, para finalmente entrar, e nunca mais sair, num mantra psicadélico de violinos que levantam o pano do teatro de música eterna de LaMonte Young. O que os Tortoise deixaram por fazer em “TNT” lograram os Fridge concluir de forma admirável com “Eph”, o pai do pós-rock sinfónico, o guerreiro-vilão, como Darth Vander, capaz de manejar o lado negro da força. A capa, curiosamente, lembra “Atom Heart Mother”, dos Pink Floyd, sem a vaca.
O novo dos Labradford dá sono. Mas calma, não se vão já embora! Acontece que “E Luxo So” é o álbum mais terapêutico que ouvi nos últimos tempos. O sono chega como uma bênção para nos mergulhar num estado de semi-realidade onde os sons são como nuvens que se formam e desfazem adquirindo as formas que a imaginação lhes quiser dar. Mais ainda do que no anterior “Mi Media Naranja” os Labradford deixam falar o silêncio através de guitarras reverberantes, pianos e cordas hipnóticos e electrónica soporífera. No tema nº 3 (sem título, como todos os outros), a música sugere uma junção de Roger Eno com “Alan’s psychedelic breakfast” um tema dos Pink Floyd, de novo do álbum “Atom Heart Mother", enquanto o nº 6 poderia ser uma vinheta de “Another Green World” de Brian Eno. Mas quando julgamos poder descansar neste estado de contemplação algo avisa de que uma realidade diferente pode estar escondida por detrás: zumbidos, frequências quase inaudíveis atravessam periodicamente “E Luxo So” como sinais provenientes de outra dimensão. Percebemos então que o que os Labradford fazem é empurrar-nos suavemente para o outro lado do espelho.