PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 20 OUTUBRO 1992 >> Cultura
Grupo
catalão atua no Norte do país
Primeira nota autonomista
Catalunha, região de bom vinho e de trovadores,
vem a Portugal mostrar a sua música tradicional. Representada pelos Primera
Nota, grupo de Barcelona que a Etnia traz ao Norte do país, em mais uma jornada
do “Circuito das tradições musicais europeias”.
Outubro foi o mês reservado
para o circuito do grupo catalão Primera Nota que apresentará o seu trabalho ao
público português numa série de concertos agendados para hoje, no Porto, no
Teatro Rivoli, quinta-feira na Guarda, no Estúdio Oppidiana, sexta em
Guimarães, no Paço dos Duques, e em Viana do Castelo, em data e sala por
designar.
Não são muito conhecidas, em
Portugal, as notas que fazem a música da Catalunha. Muito menos a primeira, que
serviu de inspiração ao nome da banda. Para dizer a verdade, nem sequer se sabe
grande coisa da Catalunha e das suas gentes. São espanhóis. É suficiente para
pôr uma pedra sobre o assunto. Por sinal, e por incrível que pareça, a Espanha
tem muito para oferecer, mais que não seja em matéria de música tradicional. E
não nos referimos sequer à Galiza – prenha de tradição e de quem, por
reconhecer o significado profundo do termo, se coloca ao seu serviço – que, a
falar verdade, não é bem Espanha.
O resto do país, por muito
que nos custe admitir, é fértil em grupos de música tradicional de qualidade.
De várias regiões, com maiores ou menores inclinações autonomistas, e de
diferentes tendências. Do País Basco à Andaluzia não falta por onde escolher e
ouvir, para quantos se dignarem deitar para trás das costas os preconceitos.
Mesmo em Castela, essa palavra que nos dói no coração, há bons músicos e sons
que nos servem de lição. Sons que, diga-se de passagem, têm chegado, via
importação, a Portugal. Nomes? Alguns importantes: Aurora Moreno, La Bazanca,
Fuxan os Ventos, Joaquin Diaz, La Musgaña, Llan de Cubel, Maria del Mar Bonet,
Manuel Luna, Musica Nostra, Oskorri, Rosa Zaragoza, Ubiña.
Trabalho e paixão
Mas voltemos à Catalunha e
aos Primera Nota. A primeira é uma região em forma de triângulo, situada longe,
junto à França, limitada a Norte pelos Pirinéus, a Oeste por Aragão, a Sul por
Valência e a Leste pelo Mediterrâneo. A vizinhança francesa determinou a sua
história e a sua cultura. A língua é bastante diferente do castelhano (bravo!)
e mantém afinidades com o provençal. Não admira então a insistência catalã em
afirmar a sua autonomia. Por exemplo, eles fizeram questão de explicar que os
recentes Jogos Olímpicos não se realizaram em Espanha mas sim em Barcelona, na
Catalunha. Nem custa imaginar os Primera Nota, originários de Barcelona,
precisamente, como pertencentes à estirpe dos novos trovadores.
De facto, a música do grupo
catalão inflete por mais do que uma vez nas sonoridades provençais praticadas
por um grupo como os Mont-Jòia. Os arranjos são variados e oscilam entre o tom
festivo dos bailes de terreiro e a complexidade estrutural de outros temas em
que a combinação de xilofones e sopros não deixa de recordar os Gryphon, uma
das grandes bandas menosprezadas dos anos 70.
Compõe-se de seis elementos,
a formação atual dos Primera Nota: Eduard Casals (sanfona, gralla e clarinete),
Tito Pelaez (tenora, tarota e flautas), Sedo Garcia (violino e bandolim), Quim
Soler Pujades (percussão), Jordi Fabregas (mentor do projeto, voz, gralla e
bouzouki) e Pep Lopez (voz e contrabaixo). Gravaram até à data os álbuns
“Primera Nota” e “Liet i vi” (“leite e vinho”. A propósito, nada mau, o vinho
catalão...), ambos bem acolhidos pela crítica especializada.
“Riqueza musical e
instrumental”, “rítmica saborosa e original”, “aliança de trabalho e paixão”,
“força”, “intensidade”, “orgulho”, são alguns epítetos com que a banda tem sido
apelidada. Aceitem-se os encómios, já que os discos ainda não se encontram disponíveis
no nosso país. O Norte vai poder vê-los ao vivo e tirar a prova real.

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