PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 SETEMBRO 1992 >> Pop
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O PIANO DOS DEUSES
POPOL VUH
Das Hohelied Salomos (7)
Einsjager & Siebenjager (5)
Sei Still, Wisse ICH BIN (6)
CD, Tempel, import. Lojas Valentim de Carvalho

Florian Fricke, pianista
místico, mentor espiritual, ao longo de mais de duas décadas, dos Popol Vuh e
compositor privado das bandas sonoras dos filmes de Herzog, é um daqueles casos
extremos de fidelidade a uma ideia que frutificou numa época determinada e
posteriormente apodreceu sem que o seu autor tenha dado conta. À entrada dos
anos 70, os Popol Vuh só por boa vontade e por serem alemães se podiam integrar
no então chamado “cosmic rock”, “kraut rock” ou “música planante”, entre outras
designações mais esotéricas. Desde o início, o grupo foi mais um “alter ego” de
Fricke do que uma banda propriamente dita, caracterizando-se por um misticismo
de pendor orientalista, que incluía a mitologia egípcia (Vuh é o nome de uma
divindade egípcia e, paralelamente, o título de um longo tema de “In Den Gärten
Pharaos”), o budismo tântrico, o hinduísmo e o cristianismo judaico. Fricke foi
um dos primeiros músicos a utilizar, em espetáculos ao vivo, um sintetizador
Moog. Sobretudo nas igrejas, onde a sua música encontrava o ambiente ideal para
se expandir.
Para a posteridade ficaram,
dessa época, os álbuns “Affenstunde” e “In Den Gärten Pharaos”, este
sobrevalorizado pela crítica, mais pelo conceito do que pelas suas virtudes
musicais intrínsecas. Depois, Fricke abandonou em definitivo a eletrónica para
se concentrar, até aos dias de hoje, no piano. Dos vinte e tal discos que os
Popol Vuh gravaram até à data (contando com as várias bandas sonoras para
Herzog), nenhum se afasta em demasia da ideia original, privilegiando acima de
tudo a religiosidade.
Os resultados desta atitude
variaram, ao longo dos anos, entre o muito bom (“Hosianna Mantra”), talvez o
seu melhor disco e “Tantric Songs”), o bom (“Das Hohelied Salomos”) e o
sofrível (a maioria). Em qualquer deles, a instrumentação reduz-se por norma ao
piano, à voz (dos agudos ascéticos da cantora japonesa Djong Yun, em “Hosianna
Mantra” e “Das Hohelied Salomos”, às invocações tântricas do Chorensemble der
Bayerischen Staatsoper, presente em “Sei Still”) e à guitarra de Daniel
Fischelscher, aos quais se juntam instrumentos acústicos ocasionais como o
violoncelo, o oboé, flautas, “sitar”, etc. E gongos, muitos gongos, a dar o
toque ritual.
Dos cinco álbuns agora
importados, “Das Hohelied” e “Sei Still” são os mais místicos. O primeiro,
baseado nos salmos de David (o que já acontecera com “Hosianna Mantra”),
assenta em pequenas peças vocais de Djong Yun, apoiadas de forma espartana pelo
piano de Fricke e a sugestão de melodias traçada pela guitarra de Fischelscher.
“Sei Still” é todo ele piano e coros, só perturbados pelo sax de Chris Karrer,
a voz solista de Renate Knaup-Krötenschwanz, ambos ex-Amon Düül II, à
semelhança aliás de Danny Fischelscher. “Coeur de Verre” coloca o piano, que
sempre foi o melhor que os Popol Vuh tiveram para oferecer, e a serenidade, ao
serviço do filme homónimo de Herzog. “Seligpreisung”, gravado entre “Hosianna”
e “Salomos”, apresenta uma faceta classicista, de música de câmara, com
“tampuras” indianas e oboé. “Einsjager & Siebenjager” é o que mais se
aproxima de uma cadência rock e do som dos Amon Düül, muito por força da
guitarra de Fichelscher e pese embora a participação de Djong Yun. Qualquer dos
discos soa hoje um pouco datado. Aconselhável apenas aos incondicionais do
grupo que pretendam a reconversão destas obras em CD.
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