Van Morrison em Portugal, com datas a
confirmar
Sem guru, sem método, sem mestre
Desta vez é a sério. Van Morrison, cantor
irlandês de voz como a dos negros – diz-se sempre isto quando se escreve sobre
ele –, tem concertos agendados para Lisboa e Porto, respetivamente a 19 e 20 de
fevereiro, datas prováveis em salas a designar. Noites de “Gloria” anunciada.

Muitos chamam “génio” a este
cantor-autor veterano a quem se deve a invenção da “celtic soul” – música de
raiz celta interpretada com a mesma paixão com que os negros se entregam a
todas as notas que nascem dos “blues”. É o
se poderá verificar nos concertos portugueses que a R & B organiza,
gorados que foram os espetáculos do cantor anunciados há dois anos na capital.
Comparam Van Morrison a Dylan, pela
importância que sempre concedeu às palavras, pelo peso de uma obra marcada por
um cunho pessoalíssimo iniciada nos primórdios dos anos 60 com os Them. Dylan
escreveu “Blowin’ in the wind”, em 63, Morrison assinou “Blowin’ your mind”,
quatro anos mais tarde. É uma diferença importante, que se expressa nestas duas
maneiras de soprar. Enquanto o americano se fez porta-voz dos ideais de toda
uma geração (o que não deixa de ser curioso em alguém cuja voz tendia e tende a
desafinar...), o irlandês preferiu o caminho da introspeção, da luta e da
descoberta interior, como forma de dizer aos outros a utopia. Um anarquista.
Nos Them, o grupo que projetou o seu
nome na cena pop internacional, Van Morrison foi responsável por um dos hinos
psicadélicos dos anos 60, “Gloria”, que viria a ser recuperado ao longo das
décadas seguintes em várias versões, das quais se destaca a de Patti Smith
incluída no álbum estreia de 1976, “Horses”. A insatisfação com a editora, a
par da necessidade de controlo absoluto sobre o seu trabalho, levaram-no a pôr
fim a este projeto, em 1966, para se dedicar a uma carreira a solo.
Entre dois mundos
Só consigo mesmo desenvolveu um
estilo, no qual procurou juntar tradições distintas – os “blues”, que aprendeu
a sentir com Leadbelly, e a música irlandesa. Equilíbrio difícil de manter,
entre a negritude que lhe escorria pela voz e o verde esmeraldino da ilha
encantada. Entre estes dois mundos nasceram as canções. Entre a urgência de
pregar ao mundo a mensagem evangélica (sim, Van Morrison desde cedo evidenciou
uma costela religiosa, patente na maior parte dos seus álbuns) e o
recolhimento.
“Astral Weeks”, de 1968, é considerada
a sua primeira obra-prima. Semanas de viagem pelo plano astral que demoraram em
estúdio somente dois dias a gravar. Álbum de assombramentos místicos, de
enigmas e contradições que o tempo tem vindo a desvelar.
Depois, já no plano material,
seguiram-se os passos, que não os do calvário, que o conduziram à fama. Quer
dizer, à colaboração com Georgie Fame, outro cantor negro por dentro e branco
por fora. Entre os pecados deste irlandês natural de Belfast (convém aqui notar
o facto de os irlandeses conseguirem conciliar o cristianismo com um lado mais
belicoso, chamemos-lhe assim. Em que outro país, se não na Irlanda, TODA a
Irlanda, se pode ser ao mesmo tempo anarquista e cristão, e ver padres de
metralhadora em punho?) contam-se um duo com Cliff Richard (em “Whenever God
shines his light”) e ter deixado Tom Jones ruminar quatro canções suas num
disco em que também este canastrão deixou vir ao de cima a transcendência.
O diálogo com Deus
Os álbuns imensos, resgataram-no. Uns
mais do que outros, é verdade. Sobretudo “Moondance”, “St. Dominic’s Preview”,
onde bebe na mesma fonte de “Astral Weeks” e se aproxima ainda mais do céu,
“Beautiful Vision”, “No Guru, No Method, No Teacher” e “Irish Heartbeat” – este
último na companhia dos Chieftains, banda emblemática da música tradicional da
Irlanda – aqueles em que explorou mais fundo o filão celta.
Consumada a consagração pública na
atuação ao vivo, no estádio de Wembley, em 1984, ao lado de Dylan, Van Morrison
passou a preocupar-se quase em exclusivo com o diálogo com Deus. Não espanta,
deste modo, a sua inflexão nas sonoridades “gospel” que ocupam lugar
privilegiado no álbum de 91, “Hymns to the Silence”. Van Morrison decidiu
subir. “Sem guru, nem método, nem professores”, como ele próprio disse. Quem
quiser e puder que o acompanhe.
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