PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 1 JULHO 1992 >> Pop Rock
VISITA DE CORTESIA
Loreena McKennitt nasceu no Canadá, esteve
doente, comprou uma harpa e anda a estudar “o que é ser celta”. Vem a Portugal
cantar com voz de anjo e tocar harpa e teclados com mãos de fada.
Ela é muito celta e esbelta,
à maneira de Enya, Maire Brennan, Mae McKenna e outras descendentes das fadas
que esvoaçavam à volta da lenda e que hoje gravam discos bons para a sobremesa.
Loreena é a melhor delas todas. Tem o cabelo mais comprido e louro, escolhe
melhores fotografias para as capas e a voz é de longe a menos suscetível de
provocar tosses irritativas. Uma vez adoeceu e decidiu que havia de tocar harpa
(costumava ouvir Stivell e ficava muito impressionada). Mal teve alta do
hospital, correu a comprar uma que os amigos tinham visto na loja da esquina. A
seguir, foi à exposição de Veneza tirar apontamentos e quando voltou já era
celta.
A Portugal, Loreena vem
acompanhada por uma banda de “celtic rock new age world fusion”, composta por
Brian Hughes (balalaica e guitarra), Susan Blossom Bourne (violoncelo), Richard
Lazar (bateria e percussão), Hugh Marsh (violino) e um baixista ainda por
escolher.
A “celtic rock new age world
fusion” é um estilo musical complexo, difícil de explicar por palavras a quem
não está familiarizado com a interconexão cósmica existente entre os sons e os
astros, a Finlândia e a Nova Guiné, uma gaita-de-foles e uma “cabasa”, um
chinelo e uma torneira que pinga. Desta música a que os povos de todo o mundo
aderem com facilidade, incluindo os portugueses e os esquimós, sabe-se que deve
ser doce, ter eletrónica, alguns instrumentos étnicos e uma voz sedativa. E que
o próximo álbum seja gravado na Real World. Uma referência na Folk Roots é
sempre de bom tom.
Catálogo celta
Até neste particular Loreena
McKennitt é diferente. Ela grava na sua editora própria, a Quinlan Road
Productions, e se o seu último álbum, “The Visit”, leva o selo Warner tal não
implica qualquer espécie de cedência ao grande capital, mas apenas uma melhoria
nas condições de distribuição do produto, quer dizer, da música.
Nos primeiros álbuns,
“Elemental”, “To Drive the Cold Winter Away” e “Parallel Dreams”, Loreena
explora o catálogo celta e temas bizarros como “canções de Natal e Inverno”
(gravadas num mosteiro irlandês) e “tradicionais”. “The Visit” é mais
ambicioso, um trabalho que se debruça sobre o “impulso criativo”, que a autora
define como uma “visita” que “chega de vez em quando, às vezes quando menos se
espera”.
As coisas boas são sempre
assim, só chegam de vez em quando e normalmente quando se está distraído.
Loreena McKennitt aprofunda um pouco mais o conceito: “Para muita gente a vida
em si é uma visita.” Mas outras considerações da autora há que se revelam mais
obscuras e de difícil compreensão. O que quererá ela dizer, quando se refere às
“ideias, rituais e crenças dos celtas, construídos em volta do nascimento e da
morte [até aqui é fácil: ideias é a gente a pensar, rituais e crenças são essas
coisas de ir à igreja e tal, nascimento é nascer, morte é morrer] que tratavam
a terra, tanto da sagrada como a assombrada”? Fantasmas? Coisas de artistas...
A mitologia das lendas
arturianas está sempre presente em “The Visit”. “Quem é quem vem lá?”,
perguntavam os cavaleiros da Távola Redonda ao rei Artur. “É uma visita”,
poderia responder o rei, “que vem para beber um Porto no cálice sagrado.”
“All souls” é uma canção que
trata dos celtas, por assim dizer, de forma direta, sobre o tema das fogueiras
rituais que ajudam ao trespasse das almas (e para as quais Loreena encontrou
correspondência numa cerimónia japonesa com idênticos fins). Aliás, uma das
preocupações de Loreena McKennitt é descobrir o elo de ligação entre o Oriente
e o Ocidente, procurando a sua origem comum. Daí que a música junte
frequentemente as sonoridades ditas celtas (das gaitas-de-foles ou das harpas)
com as típicas “drones” indianas ou outras sugestões segredadas do Leste.
O Graal em Portugal
Depois é todo um jardim de
delícias e de amor cortês, presentes na mensagem ecológica de “Bonnie
Portmore”, apelando à preservação das florestas de carvalhos, de modo que os
druidas possam continuar a colher o visco necessário às suas poções mágicas, na
viagem em tapete voador de “Between the shadows”, no clássico “Greensleeves” ou
nas alusões a Portugal de “Tango to Evora” e “Courtyard Lullaby” sugeridas pela
estadia da autora no nosso país, numa quinta de Azeitão onde, de resto, foram
tiradas as (belíssimas) fotografias da capa. O que talvez Loreena McKennitt não
saiba é que há quem afirme que o “Graal” se encontra em Portugal. (“Portograal”
– porto do Graal), mais precisamente numa serra nos arredores de Lisboa. Serra
onde de resto arribavam os verdadeiros peregrinos, que, rumando de Compostela
para sul, em direção ao monte onde o Sol se casa com a Lua, consumavam a
derradeira iniciação.
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