PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 10 JUNHO 1992 >> Pop Rock >> World
O SOPRO VITAL
Os três discos em análise são
outros tantos exemplos de alguns dos caminhos percorridos pela música
contemporânea ao mesmo tempo que constituem motivos de meditação para todos
quantos se preocupam com “a questão do jazz”, essa “música difícil” que afinal
encontra nos preconceitos o seu maior obstáculo. Dos três, o de Jon Balke é o
que se insere, de forma inequívoca, na estrutura e na tradição do que se
convencionou chamar “jazz”, aqui na sua vertente europeia e, em particular, na
escola nórdica, tão do agrado do produtor Manfred Eischer.
Membro fundador dos
Masqualero, Jon Balke, compositor e teclista norueguês, tocou entre outros com
Archie Shepp, John Surman e Zbigniew Namyslowski (há quem o recorde de um dos
primeiros festivais de jazz de Cascais). A banda Oslo 13 exercitou-se nas
sendas da improvisação coletiva antes de se entregar à prática da concentração
e contenção exigidas por Balke no contexto deste álbum, pese embora o prefixo
do título. “Nonsentration” resolve-se nos jogos e na dialética tonal entre três
secções – trompetes e trombone, saxofones e percussão – apoiadas, seccionadas
(raramente em confronto direto) pelos teclados, que por vezes se libertam da
carga rítmica para se entregar ao típico “yoga” de contemplação pianística que
é, ou foi, imagem de marca da editora. A ideia é fazer a síntese entre as
orquestras árabes, a música de câmara e as “big bands” de jazz, sendo as
primeiras, à partida, as mais capazes de injetar no projeto o elemento
desestabilizador.
Tal não acontece. A bateria e
as percussões estão bastante mais próximas da África central (Balke já
trabalhou com músicos da Gâmbia) ou do Brasil, e o resultado está longe de ser
das arábias. Entre o afro-jazz e o icebergue de arranjos demasiado rígidos e
tipificados, “Nonsentration” fica-se pela beleza apaziguadora e pelo apuro
formal, sem arriscar demasiado nos territórios da música étnica ou nas
liberdades concedidas por um formato instrumental que Carla Bley, por exemplo,
tão bem soube explorar ou Keith Jarrett, nessa bizarria que é “In The Light”.
Problemas que Edward Vesala,
finlandês, percussionista, autor de uma “Ode to the Death of Jazz” editada sob
esta mesma etiqueta, resolveu de forma brilhante. Em “Invisible Storm”, o jazz
é deixado para trás para ser apanhado mais à frente, revigorado e apto a
avançar em novas direções, aqui simbolizadas pela utilização de percussões de
metal que, no entender de Vesala, substituem com vantagem as peles e madeira
convencionais, em poder e ressonância.
Energia e tensão são o fogo e
a massa aglutinadora desta “trovoada invisível” que, ao contrário de
“Nonsentration”, explora todos os cantos, na combinação dos sopros, nas
interpolações rítmicas de uma harpa, nas modulações eletrónicas ou até no
disparo ao rock do tema “Gordion’s flashes”, algures entre as pulsações da Jazz
Composers Orchestra e o experimentalismo de um David Linton.
“Solitudes” é todo um
universo diferente que se abre muito para além do jazz. É música religiosa no
sentido em que é religiosa uma voz e um canto que ligam o humano a esferas mais
elevadas. Depois de “De la Nuit... Le Jour”, Tamia e o percussionista suíço
Pierre Favre, oriundo das hostes do “free jazz” europeu e membro desse coletivo
de génios que foi a Michel Portal Unit, aprofundam ainda mais o sentido do seu
diálogo. Tamia é a voz do fundo e do final dos tempos, tão radical como Joan La
Barbara, tão teatral como Meredith Monk e com a carga de misticismo de uma Enya
a multiplicar por mil. Favre é o poeta das percussões. O criador de mundos
elementais, de chuvas e areias, e de céus constelados de sinos, guizos, gongos
e metais em vibração. Uma floresta de sons entre os quais a voz de Tamia ora
dança ora se eleva. Música étnica de outra dimensão. Vozes que, no espaço
central das grandes solidões falam a quem souber erguer-se acima da pequenez do
mundo.
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