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16/10/2019

Totonho soltou a cabra no Músicas do Mundo de Sines


CULTURA
DOMINGO, 27 JUL 2003

Totonho soltou a cabra no Músicas do Mundo de Sines

Ao fim de dois dias, o 5.º festival Músicas do Mundo pode orgulhar-se de ser o mais participado de sempre. Música, com “M” grande, para já, só a dos portugueses Danças Ocultas e dos afegãos Ensemble Kaboul. Do Brasil ouviu-se um enorme estrondo.


Surpreendentemente, foram os brasileiros Totonho e os Cabra a arrancar a maior e mais furiosa onda de aplausos registada ao fim de dois dias do festival Músicas do Mundo, que ontem terminou em Sines. Chanfana de cabra, prato pesado, esteve prestes a provocar indigestão mas, servida como ceia, foi engolida pelos mais resistentes com sofreguidão.
            Totonho e o seu grupo, últimos artistas a atuar sexta-feira num castelo completamente lotado, cantam e falam com alguma dificuldade. A música do grupo é simplória, os ritmos são de uma pobreza confrangedora, mas o entusiasmo e a convicção mostram um empenhamento total, uma raiva genuína, um desejo de vomitar as tripas e de comunicar, custe o que custar. Houve quem não aguentasse e fosse abandonando o recinto, insensível à mistura de batuque, megafone e rap disparados à queima-roupa. Os que aguentaram, porém, renderam-se, transformando em ritual pagão o que de início parecera chinfrineira e erro de “casting” do festival.
            É o Brasil do Nordeste, o Brasil pobre, o Brasil profundo que Totonho e os Cabra lançam à cara de quem os ouve. Totonho é o cabra (embora o seu verdadeiro apelido seja Bezerra), que grita através de um megafone imprecações e palavras embrulhadas em escarros. “Segura a cabra” foi o hino repetido no encore, por entre eletrónica industrial (consta que o grupo aprecia os alemães Einstuerzende Neubauten) e cordas gordurentas. Totonho está pouco à vontade em palco, inicia frases de explicação sem as terminar, engasga-se, tudo parece coisa de amadores. E os Cabra são-no, de facto, embora o vocalista não seja nenhum Zé Cabra. Ensaia passos fora de ritmo, ergue um totem com a cabeça de uma cabra, não se percebe o que diz mas percebe-se que está a ser sincero e que gostaria que a música servisse, de facto, para mudar a sociedade e o mundo. Grita, imita um cão a ladrar e faz de cabra mais do que uma vez. Em “Babaovo midi” rima Peter Tosh com Macintosh mas é preciso chegar à parte final do “concerto” para tudo fazer sentido, através de um rock pesado, implosivo, massacrante.
            Nos bastidores ele e o grupo choram e abraçam-se, comovidos. O público pede “encores” (foram os únicos a dar dois) e parecem não acreditar que são desejados. Têm que ser empurrados para o palco. Tinham estado ali, nus, arriscando-se ao ridículo. Mas regressam, como heróis. Totonho acerta finalmente nos movimentos do corpo e da voz, improvisa no lugar certo, os outros músicos perdem a timidez e dão o máximo de si próprios, enlouquecidos. “Segura a cabra”, mas a cabra já se transformara num demónio. Tudo poderia começar nesse momento e, quando as luzes se apagam, já de madrugada, continuam a ouvir-se os gritos dos jovens das filas da frente a pedir mais.
            A melhor música da noite veio dos Ensemble Kaboul, do Afeganistão. Talvez numa sala fechada tivesse soado ainda melhor. Ainda assim, para quem entrasse a tempo (e esta é uma música que, como o “raga” indiano, necessita que entremos nela e não o contrário), o transe instalou-se de forma subtil e gradual, como a serpente que, sem nos darmos conta, se enrola em torno do coração e o hipnotiza. Solos de percussão e de instrumentos de corda exóticos criaram um clima de relaxamento no qual a voz da cantora Mahwash se encaixou sem se destacar. Música para se ouvir deitado a olhar para as estrelas.
            No registo oposto, o trio de cantoras veteranas Mahotella Queens e o seu grupo elétrico, limitou-se a pôr as pessoas a baloiçar o corpo. Sessentonas mas bem ginasticadas, as rainhas dançaram, mudaram de roupa, vestiram camisas transparentes, mostraram as pernas e o rabo, foram alegria e comunicabilidade e, no final, depois de um tema da tradição zulu (o melhor da sua atuação), desfizeram-se em elogios a Sines, ao público, ao festival, prometendo voltar. A “Mbaquanga”, da qual mostraram a versão em plástico, uma africanada batida em rock automático, funcionou, como um “preset” de ritmo.
            No dia de abertura, os Danças Ocultas, na apresentação de temas de um álbum a editar em breve, mostraram que a europeização parece ser caminho obrigatório para este quarteto de acordeões diatónicos. Estão mais adultos, e composições como “La danse idéale”, “Danças ocultas” e “Tristes europeus”, são tapeçarias de câmara, dignas da grande folk em qualquer parte do mundo. Arranjos intrincados, uso sábio do contraponto e uma erudição que não dispensa o contacto com as fórmulas populares dão garantias de que o grupo poderá ser, num futuro muito próximo, par de pleno direito de formações como Trans Europe Diatonique ou de solistas como Alain Genty e Riccardo Tesi.
            Quinta-feira terminou com os Simentera, de Cabo Verde, que mostraram o que é habitual nos grupos com esta proveniência: um balanço a que os corpos dificilmente resistem, um calor que se entranha na pele, belas vozes femininas nas baladas e histórias para contar, como a do guitarrista mais velho, com apenas três dedos numa das mãos e filhos feitos em todas as ilhas do arquipélago, façanha que o público aplaudiu devidamente — o fértil guitarrista agradeceu, erguendo os braços em triunfo. Infelizmente houve também um suporte rítmico sem grande imaginação, um saxofonista sofrível e um tempo excessivo de atuação, dando a entender que os Simentera, caso os deixassem, ficariam no palco toda a noite.
            O Músicas do Mundo cumpre, assim, o ritual. Dentro do castelo, a “world music”, sobre relva (sim, sim, aqui não há pó, o chão é verde e confortável!...) e sob o céu do Verão alentejano. Fora dele, o folclore do costume: tendas de artesanato e de chás, falsos e verdadeiros hippies (para os distinguir, basta ver se há crianças e cães por perto, caso haja, são verdadeiros), “rastas” e bailarinas, aprendizes de malabaristas e outros cromos que, não se sabe bem porquê, estão sempre presentes neste tipo de festivais. Vimos mas não ouvimos djembés, louvado seja o Deus da música do mundo.

11/11/2016

Uma borboleta na catedral [Rodrigo Leão + Danças Ocultas]

CULTURA
QUINTA-FEIRA, 12 ABR 2001

Crítica Música

Uma borboleta na catedral

Rodrigo Leão + Danças Ocultas
Aula Magna, Lisboa.
10 de Abril, 22h.
Lotação esgotada

Houve quem achasse lindo, belo, divinal.
Tanta lindeza, beleza e divindade juntas chegaram e sobraram para encher, terça à noite, a Aula Magna, em Lisboa. Mas angelical só a cantora Ângela Silva, a única com asas. Rodrigo Leão e a sua banda estavam lá para rezar.
A abrir, Artur Fernandes e as suas Danças Ocultas vieram de Águeda para encher e esvaziar os foles das suas concertinas numa música carregada de citações à valsa musette em registo intelectualizado de música de câmara. Ao contrário de velocistas como Kepa Junkera ou Riccardo Tesi, Artur Fernandes enfatiza os arranjos para quarteto, solando sem se impor sobre as restantes concertinas. Fizeram o truque da respiração sem notas, amplificando o silêncio até o tornar num bafo asmático. Vinte minutos de memórias soltas, com ecos de Pascal Gaigne, René Aubry, Roger Eno e tradições a preto e branco, criaram o ambiente ideal para o estendal de solenidades que viria a seguir.
Rodrigo Leão, acompanhado por uma banda onde se faziam ouvir sobretudo as cordas mais baixas, fez seu um lugar que nem pertence à música clássica nem à música pop, inscrito nas faixas de álbuns como “Ave Mundi Luminare”, “Mysterium”, “Theatrum” e o novo “Alma Mater”. Servido por uma iluminação eficaz, o espetáculo viveu em grande parte da voz e da presença magníficas da cantora Ângela Silva. De vermelho ou de branco, iluminada por feixes de luz psicadélicos, a sua figura angelical elevou-se em litanias de sabor gótico que ora evocavam os Dead Can Dance ora recuavam e avançavam em simultâneo no tempo e nas marcações da bateria, como fazem os tecnomedievalistas QNTAL.
Mas se houve quem achasse lindo, belo e divinal, também houve quem achasse esta música chata, morna e sem chama. Digamos que ardeu em lume brando. As Danças Ocultas foram chamadas de novo para enfolar nas concertinas “Tardes de Bolonha”, tema composto por Leão há muitos anos para os Madredeus. Rui Reininho veio de camisa vermelha e ar de cantor de telenovelas mexicanas cantar titubeante, mas com algum “salero”, “Pasión” (repetiu a dose nos “encores”), que em “Alma Mater” é interpretado por Lula Pena. Já Sónia Tavares, dos The Gift, em “A casa”, encarregou-se de não fazer esquecer Adriana Calcanhoto, que dá voz a este tema em “Alma Mater”.
Já na sequência final, um ensemble de cordas aumentou ainda mais o corpo e a solenidade da música, apenas quebrada quando a Sónia Tavares se juntou Nuno Gonçalves, também dos The Gift, para aligeirarem o ambiente com a versão “lounge mix” de “A casa”. Uma grande ovação (3.500$00 e 4.500$00 o bilhete dão, salvo qualquer desastre, garantias de “grande ovação”) premiou esta missa, quase toda rezada em latim, que ainda hesita, como uma borboleta noturna, entre o velório e a lua.
Ângela Silva, presença mais forte da noite, foi essa borboleta, abrindo e fechando as asas dos seus vestidos de luz, a voz a voar.

EM RESUMO
A borboleta Ângela Silva, diva luminosa, insuflou ar e labaredas numa música perdida entre as colunas e os ecos de uma catedral de sombras


02/01/2015

Transe totó [12º Festival Cantigas do Maio]



CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 28 MAI 2001

Transe totó

Festival Cantigas do Maio
Fábrica Mundet, Seixal
25 e 26 de Maio, 22h
Lotação esgotada

Carlos Nuñez e Totó la Momposina foram os primeiros triunfadores do 12º Festival Cantigas do Maio, que este fim-de-semana teve início no Seixal. Na sexta-feira, o gaiteiro e flautista galego mostrou que a sua música não está afinal tão como o seu último álbum, “Mayo Longo”, fazia crer. No sábado, a cantora colombiana demonstrou que a idade não lhe pesa, transtornando positivamente o público com uma sessão história de “cumbia” que teve laivos de cerimónia tribal.
Membro de pleno direito do European Forum of Worldwide Music Festivals, o Cantigas do Maio estará a atravessar a sua primeira crise de crescimento. A tenda Chapitô onde decorre a maioria dos concertos já não chega para albergar a mole humana que, na sexta e no sábado, encheu, até transbordar, o recinto. Não só de entusiasmo, como de suor, fumo e encontrões, criando uma atmosfera pesada que, por vezes, impede de apreciar condignamente a ótima música que se tornou timbre do certame.
Tudo começou em calmaria, com a música de câmara para quatro concertinas seletas dos Danças Ocultas. Durante cerca de uma hora, Artur Fernandes e os seus três companheiros criaram climas em deriva por um romantismo de valsa musette, tremores piazollianos, conjugações mais complexas com o minimalismo e a “naïveté” desestruturalista de Pascal Comelade e, mais do que é costume, floreados folk de proveniência europeia, portuguesa mas também da França e dos Balcãs. A apontar apenas alguma prisão de movimentos – houve respirações dos foles que pareceram curtas…
Carlos Nuñez e a sua banda, pelo contrário, explodiram. Ou melhor, sobretudo ele, Carlos, um dos maiores solistas do momento, não só da gaita-de-foles galega, como de uma panóplia imensa de flautas de bisel, “tin whistles”, ocarinas, etc., parecia ser maior que a própria música. “Showman” assumido, fez acompanhar com gestos largos todo o seu virtuosismo, demorando-se pouco no lirismo das baladas, para disparar em loucas correrias de tecnicismo.
Muiñeiras galegas, jigs irlandeses ou, no derradeiro encore, um “Music for a found harmonium” tocado em “mach 3” (três vezes a velocidade do som…), tudo serve para Carlos Nuñez testas os limites da sua febre. Destaque ainda para a cantora Anabela – excelente a voz, um pouco despropositado o tom de fado que emprestou a uma balada da Galiza –, que interpretou o mesmo par de temas aos quais dá voz em “Mayo Longo” e para as duas encantadoras violinistas do grupo, Paloma Trigas e Begoña Riobo, com o seu ar de celtas chiques. Desgraçadamente, uma delas, a loura, foi utilizada para substituir Roger Hodgson, dos Supertramp, que canta um dos temas de “Mayo Longo” de forma horripilante. O único elogio que se pode fazer à menina é que conseguiu ser tão horripilante como o seu homólogo masculino.
Já no final, com o público e os músicos em euforia, juntou-se à companhia galega o grupo vocal feminino português Segue-me à Capela, para interpretar um tema de José Afonso.

Euforia “cumbia”
Sábado, a alegria instalou-se mesmo antes dos concertos, com a passagem ribombante do grupo de Zés Pereiras e gigantones, Ida e Volta. Um tom popular que prosseguiria com a atuação das três irmãs madasquenhas, Tiharea. Trajadas a rigor com vestes tradicionais, alternaram harmonias vocais “a capella”, marcadas por percussões no corpo e por guizos atados aos tornozelos, com outras apoiadas em tons percussivos mais fortes. Não tiveram a sofisticação de umas Zap Mama, mas a força e genuinidade das suas histórias mantiveram aceso o interesse da assistência.
A fechar este primeiro fim-de-semana das Cantigas, Totó la Momposina e a sua banda de colombianos vestidos de gaúchos deram uma verdadeira lição prática de história dos ritmos que construíram a tradição da “cumbia”, género híbrido onde confluem o batuque africano e as flautas índias.
Toda a primeira parte foi preenchida pelas raízes africanas, correspondente ao período rural em que “cumbia” vivia da percussão e do canto. Um festim de percussões que roçou o cerimonial de transe. Totó, septuagenária sem idade, dançou e cantou, possuída pelo frenesim da dança. A certa altura, juntou-se-lhe um dos músicos, num ritual com velas que transformou a tenda em local de cerimónia religiosa. Dois elementos da assistência, um de cada sexo, saltaram por seu lado para o palco, dançando à vez com Totó e o seu companheiro. Estava criado um momento único, de comunhão coletiva, como raramente acontece. Corpos ondulando em uníssono, uma batida que parecia infinita, o tempo a esfumar-se na dimensão de uma “egregora” (igreja) tribal.
Depois, a magia quebrou-se para se instalar a festa, mais prosaica, do mapal, do merengue, da puya e da salsa, com o combo já aumentado de um contrabaixo, guitarras e secção de metais. Dançou-se mais com os pés na terra, os ritmos sul-americanos que constam no manual dos hábitos auditivos da grande cidade. Mas uma última chispa de loucura estava ainda guardada na gaveta das surpresas, quando, já terminado o concerto “oficial”, alguns dos músicos decidiram saltar para o meio da assistência, aí continuando a tocar numa orgia “non stop” improvisada. Procissão carnavalesca, confusão de tuba, tambores, holofotes e gente em delírio, misturados numa massa onde as cores e os gestos se confundiam com as notas de música e os gritos da multidão.
Um final inolvidável a preparar o terreno para o próximo fim-de-semana das Cantigas, que começará na quinta-feira com o armeno Djivan Gasparyan, prosseguirá na sexta com os iranianos Ghazal Ensemble e os israelo-árabes Between Times, e se concluirá no sábado com a boliviana Luzmila Carpio e os macedónios DD Synthesis.

26/08/2014

Danças Ocultas - Ar



Sons

10 de Julho 1998
PORTUGUESES

Danças Ocultas
Ar (7)
Ed. e distri. EMI-VC

“Ar” também não faria má figura na editora de Manfred Eicher, a ECM. Como no álbum de José Peixoto há espaços amplos e profundidade de campo. Em ambos está presente o espírito da paz.
A música das concertinas de Águeda dirigidas por Artur Fernandes respira mais ar do que no anterior álbum de estreia do grupo. Podia ser mais um disco para arrumar na prateleira “Instrumentos”. Mas não é. Até porque desarruma a prateleira dos nossos hábitos. Está certo, o tema de abertura é uma homenagem a Piazzolla mas estas danças estão longe de se reduzirem ao tango. Respiram com outra suavidade, no alto de uma montanha, onde o ar é rarefeito. Os Madredeus sonham num “bateau-mouche” no Sena. Philippe Genty poderia pegar no fôlego elegante destas danças para com ele embelezar uma das suas encenações mágicas. Música popular de câmara, experimentação emocional e conceptual, diálogo de sensibilidades, tudo isto paira no “Ar” das Danças Ocultas. Sem esquecer um ar de romaria, sem perder de vista as origens populares do instrumento. Ou será que se perdeu aqui o tom picante, as cores dos balões e o estrépito dos foguetes? O baile que Artur Fernandes comanda, fazendo os foles avançarem para terras desconhecidas mas estranhamente próximas de nós, é outro. Um baile de memórias esquecidas que dançam como fantasmas até de novo se reencontrarem num mundo novo. No alto da tal montanha, onde a pressão é menor e a música se faz ouvir melhor. Onde tudo soa como se fosse transparente.

30/10/2009

Ar de fole [Danças Ocultas]

Sons

19 de Junho 1998

Danças Ocultas respiram em novo disco

Ar de fole

“Ar”, segundo álbum do grupo de concertinas de Águeda, Danças Ocultas, recria as micropaisagens do universo dos foles, ao mesmo tempo que respira as altitudes cósmicas da serra. Artur Fernandes carregou no s botões para o PÚBLICO.

Compor formas de música original para concertina é o objectivo prioritário dos Danças Ocultas. Mesmo que, para tal, seja preciso inventar um instrumento novo, como a concertina baixo, e reprimir as tentações de virtuosismo.
FM – “Ar” respira ambientalismo por todos os poros...
ARTUR FERNANDES – Do título, o mais simples possível, à capa, com um mínimo de texto, a preocupação foi que a música pudesse dizer tudo a partir do elemento, o ar, que faz funcionar o nosso instrumento. Foi-se em busca de imagens que se inserissem no contexto estético abordado neste disco, esse tal ambientalismo ou paisagismo.
P. – Podemos falar de micropaisagens?
R. – Sem dúvida nenhuma. O reportório incluído tem bastantes pormenores. Poderíamos falar, quase, na teoria do caos, em que há o macropormenor, o médio pormenor e o micropormenor. Existe um balanço, um ritmo instalado e depois, aí dentro, aparece uma melodia deste, um pormenor daquele, uma resposta de um terceiro, até se chegar à densidade que procurámos para este disco.
P. – Esse trabalho exige um determinado tipo de experimentação?
R. – Seis ou sete dos temas já tinham sido tocados nos concertos. Fomos experimentando coisas mais arriscadas. Apercebemo-nos de que músicas mais densas, com mais contrapontos melódicos e informação, não eram rejeitadas pelo público. Mas no fundo o que continuamos a fazer é ir buscar aquilo que eu chamo a vontade do instrumento. Há determinados contornos técnicos dos dedos que são extremamente fáceis e que por vezes resultam em coisas absurdas mas que, se forem bem arranjadas, podem funcionar bastante bem. Arranjos que foram feitos na totalidade em oficina, por todos os elementos do grupo.
P. – Aparecem a tocar pela primeira vez uma concertina baixo.
R. – Precisávamos de ter mais notas nos graves. Ou mandávamos construir uma concertina com mais botões na mão esquerda, ou inventávamos nós uma solução. Foi o que fizemos. Juntámos duas partes esquerdas – de baixos – de concertinas e um fole maior, para poder ter mais interesse cénico. No lado que acrescentámos pusemos as tais notas que faltavam.
P. – Que fontes de inspiração jorraram em “Ar”?
R. – A grande referência á Astor Piazzolla, a quem fizemos uma espécie de homenagem no tema de abertura, “Escalada”. Outras referências importantes foram Riccardo Tesi, Kepa Junkera, John Kirkpatrick e a Sharon Shannon. Mas nunca num sentido seguidista.
P. – Todos esses nomes não dispensam, de uma maneira ou de outra, exibir o seu virtuosismo, ao contrário das Danças Ocultas...
R. – Sem dúvida. Poderá haver aí um factor genético. Por exemplo, os bascos, como o Kepa Junkera, são muito mais “virtuoses” do que os portugueses, não só no acordeão como noutros instrumentos tradicionais. Mas nós procuramos o nosso valor e não as nossas limitações. Valorizar a expressão em detrimento do virtuosismo. E virtuosismo não é só tocar depressa... Sentimo-nos bem a tocar dentro de determinada estética, a tal música paisagista, e tentamos explorá-la da melhor forma possível. De resto, tanto o Kepa Junkera como o Riccardo Tesi gostaram imenso do nosso primeiro disco.
P. – Por falar em qualidade musical e ausência de virtuosismo, o tema “Pinguim no meu jardim” tem alguma coisa a ver com o Penguin Cafe Orchestra?
R. – Tem. É um tema do Bitocas, o técnico de som do grupo, que sempre gostou muito dos Penguin Cafe. O tema é uma espécie de homenagem a uma certa forma e fazer música que é a do grupo inglês.
P. – A influência da música búlgara não é muito evidente em “Bulgar”...
R. – Sim... É uma questão de acentuações. A divisão rítmica está lá, um compasso de 7/4, no início e no fim do tema. No entanto, não quisemos acentuar demasiado para não se perder o tal lado contemplativo.
P. – O que são as ilusões de “Quatro ilusões”?
R. – São ilusões rítmicas. É uma valsa um pouco mais rápida em que, de vez em quando, o ritmo ternário se transforma em binário, passando a ser uma marcha. São quatro melodias que se vão metamorfoseando ritmicamente.
P. – Há alguma razão para continuarem a não deixar entrar mais nenhum instrumento, além da concertina, no grupo?
R. – Mas tentamos que o grupo não seja o projecto para um instrumento... A maior parte das formações instrumentais, do tipo quarteto de saxofones, quarteto de harmónicas, ou trio de cordas, baseiam o reportório em adaptações, de música clássica ou outra qualquer. Nós fazemos música nova para a concertina. Acabamos por ser um projecto mais de quatro pessoas que, por acaso, tocam o mesmo instrumento.
P. – Além da sua participação nos Sons da Lusofonia, faz também parte de outro grupo, não é verdade?
R. – Sim, os 4 Portango, em que tocamos Piazzolla. Fizemos a banda sonora do filme “Mortinhos por Chegar a Casa” [de Carlos da Silva e George Sluizer] e participámos recentemente na Cimeira Mundial de Tango.
P. – Vai ser difícil arrumar este disco nas prateleiras das lojas. “Música ambiental”, “world music”, “especial instrumentos”?...
R. – Talvez uma estante só para as Danças Ocultas. Em termos internacionais, poderá ser incluído em “world music”, embora não goste muito da designação, porque toda a música é “world”.
P. – Onde é que foi tirada a foto da capa?
R. – Num local da serra do Caramulo chamado Urgueira, no concelho de Águeda. É Portugal, como poderia ser a Colômbia ou o Tibete.

23/11/2008

Heróis do mar - Especial Balanço 95 da Música Portuguesa

Pop Rock

3 de Janeiro de 1996
Especial Balanço 95 da Música Portuguesa


HERÓIS DO MAR

Frei Fado d’el Rey, Danças Ocultas, Pólo Norte. O que têm em comum estes três grupos, além de serem portugueses, ostentarem designações, no mínimo, curiosas e terem lançado álbuns no ano passado? O facto de, mais do que seguirem a inspiração própria, seguirem um modelo alheio. Na música, mas também na pose e nas vestimentas. Os Madredeus, no caso dos Frei Fado e das Danças. O eixo Resistência-Delfins-Sétima Legião, no caso dos Pólo Norte. O ano de 1995 foi pois o ano dos filhos menores.
O caso não mereceria reparo de maior, não fora estar em jogo a releitura de uma série de valores tidos como “nacionais” que qualquer das bandas mencionadas gosta de apregoar. Ele é a nossa História (sobretudo o capítulo dos Descobrimentos), ele é o fado e a saudade (de preferência pelo lado mais esotérico e literário), ele é a sina de termos nascido portugueses, ele é o mar e, se não puder ser, o Tejo, aqui mais à mão. Infelizmente nenhuma destas bandas segue o exemplo dos seus antepassados e coragem é coisa que não se divisa na sua música. Uma coisa é ler “Os Lusíadas”. Outra, completamente diferente, é ler um resumo da mesma obra no livro de leitura da 4ª classe (perdão, 4º ano de escolaridade). A leitura da versão original, sem cortes, é, pensamos nós, bastante mais exaltante e proveitosa.
Está fora de questão a qualidade da música destes grupos, a qual, na generalidade, se encontra alguns furos acima da média – íamos dizer mediania – nacional. Não se critica, de igual forma, a defesa do “portuguesismo”, se bem que o aprofundamento desta vertente nos pudesse levar a algumas perplexidades. Critica-se, isso sim, o comodismo que não pode estar ausente de uma opção em que, no lugar da investigação e do desenvolvimento de características musicais próprias, se prefere deglutir a papinha preparada por outrem. Os Madredeus ou os Resistência, para mencionar apenas duas bandas paradigmas de outras tantas formas de se ser português, ou do ser português, que se completam (o Portugal-mito do grupo de Pedro Ayres Magalhães; o Portugal suburbano, dos desenraizados e do desemprego, do grupo de Pedro Ayres Magalhães), dispensaram os intermediários. Pensaram e agiram pela própria cabeça. Arriscaram e, por isso, petiscaram. Os tais grupos da nova geração limitaram-se, pelo contrário, a ir na onda, sabe-se lá se instigados pelas respectivas editoras…
Depois, vestem-se de negro, não se riem e tocam sentados em cadeiras, o que, desde que os Joy Division se finaram, se tornou um bocado maçador. Mas – oh, milagre! – tanto os Frei Fado como os Danças Ocultas têm em seu poder alguns trunfos na manga e condições para singrar contra ventos e marés. Os Frei Fado – que em 1995 lançaram o seu álbum de estreia, “Danças no Tempo” – dispõem de Carla Lopes, uma voz que não fica atrás da de Teresa Salgueiro, e todo o manancial da música antiga por explorar. Os Danças Ocultas têm uma quantidade de concertinas, o que lhes garante, à partida, a possibilidade de um som “diferente”. Quanto aos Pólo Norte, depois do álbum do ano passado, “Expedição”, ainda não terão descoberto o tal trunfo escondido.
Propositadamente, deixámos para o fim outra banda que, defendendo embora os mesmos valores do Portugal histórico, blá, blá, blá, o faz de uma forma original, sem cópias, nem contas e ditados, a Ala dos Namorados – com a voz “sui generis” de Nuno Guerreiro e as palavras de João Monge – que em “Por Minha Dama” deram a volta ao fado e às marchas de Lisboa, ao “cante” alentejano e, em geral, às faces sisudas dos que levam tudo demasiado a sério.
Em 1996, será que ainda ouviremos cantar muitas vezes o “Hino nacional”?