16/10/2026

O Atlântico visto por um "bit" [Vasco Martins]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock

 

O ATLÂNTICO VISTO POR UM “BIT”

 

Ele é um solitário que vem tecendo a sua obra longe das multidões. Uma espécie de iluminado. Pela luz do Atlântico e das ilhas de Cabo Verde. Vasco Martins tem vários álbuns gravados, cada um incidindo numa tónica particular. Do piano solo a duetos de guitarra, da música de câmara à “contemporânea” e à eletrónica, passou finalmente à “new age”, numa trilogia dedicada à música do Sul, da qual acabou de ser editada a primeira parte, intitulada “Memórias Atlânticas”.

 

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Vasco Martins é uma espécie de Gismonti português, mantendo com este músico brasileiro algumas parecenças – na estética, na instrumentação e nos processos. Até na farta cabeleira. Gismonti, diga-se em abono da verdade, toca um bocadinho melhor. Um e outro não conseguiram libertar-se com facilidade dos anos 70, com todo o seu cortejo residual da iconografia “hippie”. Vasco Martins não se libertou de todo. “Memórias Atlânticas”, primeira parte, gravada e já editada em CD com o selo UPAV, de uma trilogia cujos restantes capítulos, “Momentos Silenciosos” e “Ritual Periférico”, vão ser editados até ao final deste ano sob o genérico “Southbound Music”, é um disco cheio de sons agradáveis de sintetizador que faz alusões discretas ao folclore de Cabo Verde e tem montado todo o aparato destinado à exportação.

O principal problema de Vasco Martins é que discos do tipo destas “Memórias Atlânticas” já foram feitos e refeitos há um certo tempo, por volta de 1976, 77, para sermos mais exatos, por músicos como Vangelis ou Jean-Michel Jarre, sem que já nessa altura tivessem resultado grandes avanços para a música. Nesta perspetiva, acabam por ser mais relevantes obras prévias do autor, como “Vibrações”, de 1979, para piano solo, os diálogos de guitarra acústica com o cabo-verdiano Voginha, em “Vivências ao Sol”, gravado em 1985, ou as três peças reunidas num álbum de 1986 – “Quinto Mundo”, para orquestra de câmara, interpretada por “Les solistes de Paris”, “O solstício e o homem solitário” e “Mahabutas” (os elementos), com interpretação do Opus Ensemble.

Infelizmente, “Memórias Atlânticas” radica antes na fase “progressiva”, presente nos álbuns “Universo da Ilha” (86) e “Oceano Imenso” (87). Com boa vontade é possível detetar nesta primeira parte da trilogia a influência africana, em todo o caso, não com a intensidade com que era percetível em “Para Além da Noite”, álbum de 85, onde os instrumentos acústicos tocados por membros do Opus Ensemble se juntavam de forma harmoniosa aos sintetizadores, no tratamento das “mornas” cabo-verdianas escritas pelo compositor tradicional B. Léza.

 

Uma obra grandiosa

 

Em toda a discografia citada aparecem referências cósmicas e ao mar. Não deixam de causar uma certa impressão títulos de obras, decerto grandiosas, como “Pirâmides” e “Cosmos”, escritas para grande órgão, grande ensemble, tudo em grande. Além disso, deve desculpar-se Vasco Martins, pela sua juventude, quando escreveu nas contracapas dos discos tiradas como “a liberdade tem que ser essencial: cria-se como ideia cósmica e sensível, e profundamente humana”, “no piano há um não sei quê de abandono, uma mistura de lirismo e força” e a enigmática “mesmo no deserto nasce a ‘Welwitschia Mirabilis’...”. Serão (grandes) verdades, mas ditas desta maneira... Também devemos ter um certo cuidado em manter a sisudez perante um título como “Através de uma janela = infinito + homens”, entre outros mais ou menos longos que engordam a ficha técnica de “Vibração”.

Mas há na obra de Vasco Martins (grandes) virtudes: é ele próprio quem financia os seus discos, em edições de autor, a tentativa de fazer a síntese entre as culturas atlânticas e a música ocidental “erudita”, a investigação. A estética das capas deixa um pouco a desejar, mas compreende-se, dada a provável escassez de meios.

“Memórias Atlânticas” e, presumivelmente, a trilogia inteira, procurando capitalizar no mercado da “new age”, recusa o risco, preferindo o comodismo de soluções harmónicas, melódicas e rítmicas já antes exploradas até à exaustão, e com melhores resultados, por uma multidão de outros músicos europeus – uma prova de como a memória pode se traiçoeira. Em Portugal, há um bom exemplo do que é possível fazer, dentro do género, sem cair nos lugares-comuns: o álbum “Mr. Wollogallu”, da dupla Carlos Maria Trindade-Nuno Canavarro, menos pomposo mas bastante mais imaginativo e exploratório. Talvez a música de Vasco Martins se torne exaltante no dia em que este conseguir realizar o seu sonho de tocar no interior de um vulcão...

 

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Rolling Stones: discos a solo e um abandono

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock

 

ROLLING STONES: DISCOS A SOLO E UM ABANDONO

 

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Mick Jagger e Keith Richards, a dupla terrível dos Rolling Stones, vão lançar novos álbuns a solo. Keith Richards, guitarrista de uma banda que, passados 30 anos, parece não querer terminar nunca, terá o seu disco, intitulado “Main Offender”, editado hoje. Quanto ao novo álbum de Mick Jagger, por enquanto sem título, tem o lançamento previsto para 16 de novembro.

Jagger descreve o seu novo trabalho como “Rock, blues e baladas ‘country’ com um toque áspero”. O álbum tem produção de Rick Rubin, inclui uma canção composta por Lenny Kravitz e conta com a colaboração do guitarrista Jeff Beck, co-autor de dois temas, e da banda de blues The Red Devils. Jeff Beck, em princípio, deverá alinhar ao lado do cantor, nas digressões de promoção ao álbum, previstas para novembro, na Inglaterra e no continente.

“Main Offender”, escrito na totalidade por Keith Richards, tem como produtores o próprio guitarrista, Steve Jordan e Waddy Watchel.

Dos outros Stones, sabe-se que o baterista, Charlie Watts, realizou há pouco tempo um dos seus sonhos de sempre, atuando recentemente com o seu quinteto do Soho Jazz Festival, realizado em Londres, num concerto de homenagem a Charlie Parker, em que musicou um livro de crianças, “Ode to a High-Flying Bird”, sobre a vida do saxofonista, idealizado por Watts há três décadas.

Ronnie Wood está calmo, depois de também ele ter gravado o seu álbum a solo, “Slide On This”. Bill Wyman é que não parece andar nada contente, e até à data tem-se recusado a assinar o novo contrato dos Rolling Stones com a Virgin, fazendo assim aumentar os rumores que dão como consumada a sua saída da banda.

Mathilde Santing Ensemble - Carried Away

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

E A BANDA TOCOU “WALTZING MATHILDA”

 

MATHILDE SANTING ENSEMBLE
Carried Away
CD, Solid, import. Contraverso

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Canções. Tão simples como isto. E tão complicado. A uma canção digna desse nome exige-se que conte uma história, seja ela qual for. E que essa história faça mossa, deixe marcas, não se deixe cair no esquecimento. Há canções que dizem tudo de uma vez. E canções que vão dizendo. A vários tempos, a várias vozes sobrepostas, consoante o génio ou os acasos da inspiração que visitaram o autor. Depois há quem pegue nas canções e lhes tire ou acrescente algo. Os ossos ou o sumo. São os intérpretes, porta-vozes dessas histórias paralelas que se escrevem em versos e se trauteiam num refrão.

Mathilde Santing é uma intérprete. Das maiores. Uma cantora de sensibilidade, com a capacidade de se adaptar a uma diversidade de registos, de maneira a vestir cada canção como uma segunda pele. Mathilde não compõe, como Suzanne Vega, Rickie Lee Jones, Joni Mitchell, as grandes cantoras americanas da música popular. Está à mercê das chamas de composições alheias. A ela compete-lhe dar vida, animar, retocar, chamar a atenção para uma emoção particular que não se suspeitava existir nas palavras, numa melodia. A ela compete ainda tornar novo o antigo, diferente o conhecido, pessoal o que é alheio. Mathilde Santing, de naturalidade holandesa, inclui-se no mesmo grupo de que fazem parte, entre outras, Mary Coughlan ou Marianne Faithfull, mas habita um nicho separado. Ao contrário destas duas intérpretes, Santing possui uma qualidade intrinsecamente continental, uma nostalgia específica que pesa menos, que solta fragrâncias, como se a tristeza pudesse fazer sorrir e esse riso fosse natural. Em Marianne Faithfull há drama, prisão, dor. Coughlan, por seu lado, refugia-se na distância de uma Irlanda segura pelos mitos. A holandesa ergue a sua obra na brisa, sem grandes alardes mas com a segurança e a convicção que lhe advém de pertencer a uma linha vinculada à tradição europeia de cantores de variedades, dos casinos e cabarés, ao crepúsculo das valsas espectrais de Marienbad.

A América, na voz de Mathilde Santing, soa com tonalidades europeias. Os arranjos, assinados por si e por Rolf Hermsen, sugerem uma frieza que acaba por ser aparente. Na Europa vive-se à distância, longe dos “néons” da rua. Sofre-se menos na carne e mais na imaginação. Sente-se uma nostalgia que vem de séculos. Foge-se-lhe por onde se pode e cobre-se a fuga com as roupagens da sofisticação.

Em “Carried Away” a cantora foi buscar canções de Todd Rundgren (“Real man” e Pretending to care”), como já o havia feito nos anteriores “Out of This Dream” e “Breast and Brow”, Roddy Frame, dos Aztec Camera (“Oblivious”), Robert Cray (“Bad Influence”) e Doors (“Yes the river knows”), bem como das duplas Gartside & Gamson (“Overnite”, “The word girl”), Van Hausen & Burke (“Polkadots and moonbeams”), Gordon Mills & Les Reed (“It’s not unusual”).

Sem atingir o sublime dos contos surrealistas de “Water Under the Bridge”, “Carried Away” consegue ultrapassar os outros dois álbuns citados, no bom gosto evidenciado na escolha de temas, na elegância que caracteriza o estilo da cantora e, em grande medida, nos arranjos luxuriantes. Próxima, no tema de abertura, “Real man”, de um registo “mainstream” que não permite grandes inovações estilísticas, Mathilde Santing corrige a mão e enceta uma viagem sem grandes colisões dramáticas por entre marimbas, naipes de cordas e poderosas respirações de baixo, alinhando um conjunto heteróclito de canções (quatro delas ostentam uma beleza que não é deste mundo: “Overnite”, “The word girl”, “Only a motion” e “Yes the river knows”) que de comum nada mais têm senão o elo oculto que a intérprete lhes descobriu. Um elo que passa pelas recordações dos tempos de infância e juventude, por aprendizagens de amor, por sonhos desfiados na bruma. Mathilde vai com as canções, ao ritmo de um calipso, de um blues europeizado, de sussurros “jazzy”, da sua sensibilidade própria, até encontrar portos de abrigo. Na foz do rio. Onde as águas deixam de correr e começa o mar. (8)

 

Escritor de canções no Porto [Sérgio Godinho]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock

 

ESCRITOR DE CANÇÕES NO PORTO

 

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“Sérgio Godinho – Escritor de Canções”, espetáculo apresentado pela primeira vez há dois anos, na capital, volta a ser encenado, desta feita no Porto, na sexta-feira, às 21h45, no Teatro Rivoli. À semelhança das anteriores apresentações, “Escritor de Canções” vai mostrar a cenografia de João Calvário, o desenho de luz de Paulo Graça e o grafismo de Luís Miguel Castro, com produção de Paulo Pulido Valente e direção de Ricardo Pais. Acompanham Sérgio Godinho, em palco, Manuel Faria, nos teclados, e Nani Teixeira no baixo. “Sérgio Godinho – Escritor de Canções” tem o patrocínio do Pelouro de Animação da Câmara Municipal do Porto e a colaboração de “MC – Mundo da Canção”.

Faz todo o sentido esta visita de Sérgio Godinho ao Porto, só pecando por tardia. Sérgio Godinho é natural desta cidade mas foi preciso esperar dois anos para se assistir ao regresso do filho pródigo, com um espetáculo que passou por algumas localidades portuguesas, entre as quais Coimbra e Chaves, e outras menos, como Macau e Goa.

Por uma razão ou por outra, “Escritor de Canções” não chegou ao Porto antes, em parte devido a uma impossibilidade física (um grupo de teatro que então utilizava o edifício), embora isso não justifique tudo. Passado o tempo, que nunca se sabe se será o certo, passou a oportunidade.

Sérgio Godinho empenhou-se, entretanto, no cinema e na realização de três curtas metragens, com o genérico “Ultimacto”, intituladas “Entre Mortos e Vivos”, “A Reconstrução” e “SOS Stress”, a apresentar na RTP1 em três quintas-feiras consecutivas, a partir do próximo dia 12 de novembro. Em dezembro, o compositor e um dos “sobreviventes” da época de ouro da música popular portuguesa entrará em estúdio para a gravação de um novo álbum, primeiro de originais desde “Aos Amores”, gravado em 1989.

Enquanto não chega esse novo volume de histórias do quotidiano, mistério e imaginação, fica este intervalo de conversa entre amigos, no despojamento e na encenação discreta de canções antigas mas sempre atuais. Uma conversa que, no Porto, já tardava.

 

Jethro Tull - A Little Light Music

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 OUTUBRO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

Jethro Tull
A Little Light Music
CD, 2xLP, Chrysalis, distri. EMI – Valentim de Carvalho

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Os dinossauros não morrem? Aparentemente não. Ou, se morrem, depois ressuscitam. O século XX aproxima-se do fim e eles continuam a proliferar. Os Jethro Tull vão andando, trôpegos é verdade, Ian Anderson já deve ter uma certa dificuldade em tocar flauta sobre uma perna só, mas enfim, vão andando. Com 24 anos de vida, 19 álbuns de originais gravados e um passado às costas que afinal não parece difícil de suportar.

“A Little Light Music”, gravado ao vivo na Europa, dá a ouvir palmas, os músicos (os fundadores Anderson e Martin Barre, mais Dave Pegg e Dave Mattacks, ambos ex-Fairport Convention) em forma razoável e as músicas do costume: rhythm ‘n’ blues sinfónico, baladas em tons medievais (“Minstrel in the Gallery”, “Songs from the Woods” e “Heavy Horses” não eram maus álbuns...), solos para todos os gostos e uma total falta de imaginação. O primeiro lado é mais elétrico, o segundo e o terceiro mais acústicos e o último acaba com o clássico “Locomotive breath”. Ian Anderson é que já não tem propriamente o fôlego de uma locomotiva...

“A Little Light Music” não ofende os órgãos auditivos (nem os Jethro Tull têm já força para ofender quem quer que seja), apresentando até a vantagem de poder proporcionar algumas horas de sono. (4)

Cantos do imprevisto [João Bosco]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 9 OUTUBRO 1992 >> Cultura

 

João Bosco tocou ontem em Lisboa

 

Cantos do imprevisto

 

Música brasileira não é só a que vem aos Coliseus dar-nos telenovelas e carnaval. Música brasileira pode ser sem fronteiras e viajar até ao imprevisto. João Bosco assim o disse e cantou. Num dos poucos espetáculos realizados este ano em Portugal em que fez sentido o termo “ao vivo”.

 

 

Devia haver mais brasileiros que portugueses, quarta-feira à noite, no Teatro Maria Matos, a assistir à estreia portuguesa de João Bosco. Foi um concerto notável, principalmente do lado direito da sala, mesmo junto à parede, que foi o local julgado ideal pela organização para situar o jornalista. Este, empolgado pela música, lá foi esticando e entortando o pescoço, como o homem dos colchões Pikolin, até ficar mais ou menos a meio. Valeu a pena.

João Bosco não é muito conhecido por cá. Escutando-se a sua música percebe-se porquê. Bosco não é um músico brasileiro parecido com os outros, que de cinco em cinco minutos vêm cá dar-nos beijinhos ao Coliseu dos Recreios, embora também já tenha composto temas para telenovelas, como “Tieta” e “Pantanal”. Ele próprio se define como um “artista inquieto, em constante delírio” que não deixa que as “barreiras impeçam a livre criação”. É óbvio que está a falar verdade. João Bosco não é tanto um compositor de canções, na aceção tradicional, mas um músico total, um “jongleur” de palavras e sons, um equilibrista no arame que rompe com os esquemas convencionais do canto. O seu último álbum tem por título “Zona de Fronteira”, com o selo Sony Music. Uma fronteira que existe para ser ultrapassada.

 

Voz de comando

 

Uma guitarra acústica, um banco, uma garrafa de água do Luso sem poiso certo, eram os únicos artefactos em cena. Chegaram para ajudar o artista em cena, na primeira parte do espetáculo, a mostrar tudo o que vale. A voz de João Bosco recusa amarras. As canções são-lhe ponto de partida para uma divagação constante. A voz é quem comanda, a canção vai atrás. O artista brasileiro arriscou tudo, libertando-se da segurança de arranjos fixos que não passariam de espartilhos. É em casos como este que faz sentido falar da voz como um instrumento de possibilidades infinitas. Logo no primeiro tema, em que imitou a gaguez de um homem apaixonado, o ritmo brotou como que por magia das palavras, das onomatopeias, das síncopes cheias de “swing”, da plasticidade de uma voz que a cada instante se reinventou. “Obrigado gente!”, repetiu invariavelmente após cada “canção”. Em jeito humilde de quem vai pesquisando as emoções alheias e as conquistas para o seu território.

Bosco é um louco, no bom sentido. A “grande confusão musical” – como define, com humor, a sua música – é a confusão de mundos coabitando em simultâneo, de sons libertos em dança perpétua. Samba, bossa nova, os “blues”, o flamenco, África, Milton, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, cruzam-se e encontram-se com os papéis trocados, no canto e no violão. O “louco” é afinal quem, como ele, se deixa tocar pela música, pelas músicas, e lhes dá voz própria.

 

Além-fronteira

 

Na segunda parte juntaram-se a João Bosco, Ricardo Silveira, na guitarra elétrica, e Armand Sabal Lecco, que já tocara anteriormente em Portugal, integrado na banda de Paul Simon, no baixo. Bosco, por sua vez, trocou a guitarra acústica por uma elétrica. Loucura completa. Os três entusiasmaram-se e entusiasmaram a assistência. Não havia instrumentos de percussão nem se deu por falta deles. Duas guitarras e um baixo criaram ritmos intricados, dialogaram de forma imprevisível e improvisaram a cada momento, desmultiplicaram-se em cadências que misturavam o rock, ritmos brasileiros e fusões de índole jazzística.

Os músicos levantaram-se, riram, brilharam. João Bosco dançou pelo palco e fez gestos de agarrar as vibrações que pairavam no ar. E agarrou-as mesmo. Música sem fronteiras que no final foi aplaudida em pé, por uma plateia em delírio. O trio regressou ao palco para uma “jam session” admirável, carburando como uma máquina no máximo da afinação. Na zona além-fronteira. Zona livre.

 

Jig - Jig

 

7 de Outubro 1992

 

LP’S

Jig
Jig
CD, Numérica, distri. MVM

 

Agora que já são irlandeses, os Jig, do Porto, poderiam começar a pensar em mudar a nacionalidade. Porque não portugueses? Não há muitos… Ao vivo, a banda portuense não tem grandes problemas. Uma cadência mais rápida, um “whiskey in the jar” vertido na altura certa, chegam para fazer o pessoal perder o tino e dançar. Depois de uma estreia auspiciosa no Intercéltico do ano passado, os Jig têm vivido um pouco à sombra desse êxito.

A audição do disco é como que um testemunho dessa primeira fase de trabalho dedicado à reconversão do estilo “bluegrass” que caracterizava a banda nos tempos em que se chamava King Fisher’s Band, no bê-á-bá do cancioneiro irlandês. O problema está em que se ao vivo a coisa resulta, no CD fica a sensação de se estar perante aprendizes orgulhosos de terem feito bem o trabalho de casa. Há a preocupação de tocar certinha mas falta a chama, a cadência natural que só se aprende sendo-se irlandês. Os Jig nasceram uns graus mais a sul de latitude. Um irlandês, por exemplo, sabe que a sua terra se escreve “Ireland” e não “Irland”, como aparece mencionado em todas as faixas, e “mandolin” em vez de “bandolin”. Em “inguelês” porquê? Para eles, irlandeses, ouvirem e aprenderem a tocar a sua música como deve ser? Ou a escrever como não deve ser?

Tem piada escutar o violino de Arlindo Silva e a flauta de Manuel Apolinário, razoáveis instrumentistas, em clássicos como “Geordie”, “Whiskey in the jar” ou “Wild Rover”. Mas… e se já se tiver escutado antes os outros, os lá da terra deles? Pois é, as comparações são um problema. Fazendo de conta que os mestres não existem, Isabel Leal confirma as suas capacidades vocais e é com renovado prazer que se ouve a sua prestação no tradicional do Canadá “The ten commandments”. Os Jig têm futuro. Mas em Portugal e com música portuguesa. Se eles assim o quiserem. (5)

15/10/2026

Telectu - Evil Metal

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 SETEMBRO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

TELECTU
Evil Metal
CD, Área Total

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Desde os primeiros acordes da guitarra frippiana de Vítor Rua e os ambientes carregados de tensão criados por Jorge Lima Barreto nas suas “workstations”, é notório que, desta feita, os Telectu acertaram em cheio, conseguindo uma obra de síntese entre as diversas enunciações musicais que foram ordenando ao longo dos anos. “Evil Metal” é, até à data, o melhor disco da banda – sem grandes conceitos a sustentá-lo e evidenciando a preocupação de apenas fazer música pela música. O resultado é uma obra imaginativa, dividida em doze peças numeradas, nas quais Rua e Barreto criam um híbrido musical possuidor de uma lógica própria e coerente. Desapareceram as conceções circulares do minimalismo, dando lugar a estruturas mais lineares que incorporam estilhaços e clonagens do jazz, da “new music” filiada na escola “brutalista” de David Fulton, David Linton ou Elliott Sharp, do rock sinfónico (o espectro dos King Crimson, omnipresente na guitarra de Rua) ou do ambientalismo étnico transfigurado por inflexões demoníacas, exemplificado no longo tema número nove – uma falsa praga de ácido e metais retorcidos, que faz jus ao título do álbum. Elliott Sharp, presente nos dois temas finais, acaba por passar despercebido. (8)

John Zorn - Elegy

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 SETEMBRO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

JOHN ZORN
Elegy
CD, Eva, import. Contraverso

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“O Diário de Um Ladrão”, de Jean Genet – onde este faz a correspondência entre a alma dos condenados e as flores – serve de ponto de partida a cerca de 30 minutos de loucura musical, divididos em quatro partes, correspondentes a outras tantas cores, “azul”, “amarelo”, “rosa” e “negro”. “Elegy” apresenta as idiossincrasias que fazem o estilo de John Zorn: a mistura de géneros musicais, a velocidade, o grito, a paranóia, a reprodução das técnicas de “cut up” interpretadas em tempo real, a Nova Iorque “downtown”, o erotismo em tons carregados. Para trás ficou a histeria, na versão Carl Stalling, substituída por estruturas formais próximas do dodecafonismo. Flautas hesitantes, “staccatos”, estrondos de percussão, gorgolejos vocais e o saxofone psicótico de Zorn, radiante, no meio de um caos cuidadosamente elaborado, conferem a “Elegy” a aura de música concreta. Da séria. A parte final, “Black”, perturbante de outro modo, espécie de invocação ritual-gutural, junta a fanfarra totalitária dos Laibach a uma qualquer celebração religiosa tibetana. Interessante, embora menos que a recente compilação “Locus Solus”, contendo material antigo que o autor considera “o mais estranho” que alguma vez gravou, disponível na mesma discoteca. (7)

 

Howard Shore, Ornette Coleman, The London Philharmonic Orchestra - Naked Lunch OST

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 SETEMBRO 1992 >> Pop Rock >> LP’s

 

HOWARD SHORE, C/ ORNETTE COLEMAN (SOL.) E THE LONDON PHILHARMONIC ORCHESTRA
BSO – Naked Lunch
CD, Milan, import. Contraverso

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A chave de “Naked Lunch”, a partitura, encontra-se, segundo Ornette Coleman, no minuto mágico de “Misterioso”, de Thelonious Monk. Um minuto onde o piano, o sax alto e a orquestra apresentam formas distintas que “não existiam antes da sua relação mútua”. Coleman vai mais longe ao afirmar que esta mesma relação é visível nos diálogos do filme de Cronenberg. Ainda segundo o saxofonista, tudo é “harmolódico” neste “festim nu”, isto é, numa definição simplista que “todas as partes são iguais”: da escrita musical ao “script”, diálogos, objetos e cores do filme. Só que há partes mais iguais que outras. Sem as baratas, as máquinas de escrever falantes e outras monstruosidades do filme, “Naked Lunch” tem a consistência de uma manta de retalhos orquestrais, perfurada ocasionalmente por parasitagens étnicas e cujo sentido apenas se autonomiza nas ocasiões em que o saxofone de Ornette Coleman lhes concede o sustentáculo do seu discurso, ora reminiscente do “free jazz”, ora transbordante de lirismo trágico, como em “Intersong”. “Interzone suite” é o tema mais harmolódico e dá uma boa ideia da confusão que reina na cabeça do personagem principal do filme, o escritor William Lee. O problema está em que, sem as imagens que provoquem o vómito, “Naked Lunch” não é tanto um festim mas um “lanche nu”. (6)

A outra Europa [Folk]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 SETEMBRO 1992 >> Pop Rock

 

A OUTRA EUROPA

 

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A outra Europa mantém-se firme. A outra Europa não diz nem não nem sim a Maastricht e não tem medo do marco. A outra Europa não passa por Paris, nem Bona, nem Londres. Muito menos por Tóquio e Nova Iorque. A outra Europa chama-se Galiza, Bretanha, Provença, Piemonte... por onde os caminhos são traçados pelas estrelas e pela Terra. A outra Europa não sofre de “stress” nem tem enfartes do miocárdio. As ruínas da outra Europa aguentam-se melhor que os edifícios de vidro e betão onde os burocratas da Europa assinam as suas certidões de óbito. A outra Europa não receia o futuro porque não acredita no tempo. A outra Europa está ligada por correntes subterrâneas e é iluminada pelos raios do Sol e pelos reflexos da Lua. A outra Europa não marcha, dança. A outra Europa não grita, canta. E se, do Leste, chegam horrores e sangue, antecipando o Apocalipse anunciado, é porque ao corpo de loba da Europa faltam a cabeça de leão e o coração de pomba. E não há meio de percebermos isto. A outra Europa é a verdadeira Europa.

A seleção seguinte, subjetiva como todas as seleções, apresenta alguns dos melhores álbuns de música tradicional das respetivas regiões da Europa. Certos nomes, como é óbvio, teriam direito a figurar com mais do que um disco nesta lista. Optou-se pelo critério um nome, um disco, visando uma maior variedade. Na página seguinte, discos novos.

 

1 – PORTUGAL

GAC – ... E Vira Bom (1977)

Brigada Victor Jara – Tamborileiro (Mundo Novo), 1979

Terra a Terra – Pelo Toque da Viola (Rádio Triunfo), 1981

Grupo de Cantares de Manhouce – Cantares da Beira (EMI-VC), 1982

Vai de Roda – Vai de Roda (Orfeu), 1983

Almanaque – Desfiando Cantigas (EMI), 1984

Ronda dos Quatro Caminhos – Cantigas do Sete-Estrelo (Rádio Triunfo), 1985

Maio Moço – Inda Canto, Inda Danço (ed. autor), 1987

2 – GALIZA

Emilio Cao – Fonte do Araño

Amancio Prada – Caravel de Caravells (Fonomusic), 1984

Milladoiro – A Galicia de Maeloc (Dial), 1984

Pablo Quintana – O Cego Andante (Edigal), 1984

Grupo Didactico-Musical do Obradoiro – Instrumentos Populares Galegos (Sonifolk), 1987

Luar na Lubre – Beira-Atlântica (Sons Galiza), 1990

Muxicas – Desafinaturum (Edigal), 1990

3 – ASTÚRIAS

Llan de Cubel – Na Llende (Fono Astur), 1990

4 – CASTELA

Manuel Luna – Como Hablan las Sabinas (RNE), 1987

La Musgaña – El Paso de la Estantigua (RNE), 1989

5 – ANDALUZIA

Rosa Zaragoza – Cançons de Noces del Jueus Catalans (Saga), 1987

Aurora Moreno – Aynadamar-La Fuente de las Lagrimas (Saga), 1988

6 – BRETANHA

Alan Stivell – Chemins de Terre (Fontana), 1973

An Triskell – Kroaz-Hent (Le Chant du Monde), 1977

Skolvan – Kerzh Ba’n’ Dans (Keltia), 1991

Strobinell – Na Aotrou Liskildri (Keltia), 1991

Storvan – Digor’n Abadenn (Keltia), 1991

7 – FRANÇA (geral)

Le Bourdon – Le Galant Noyé (Le Chant du Monde), 1975

Malicorne – Almanach (Hexagone), 1976

Vielleux du Bourbonnais – Vielleux du Bourbonnais (Hexagone), 1979

Mélusine – La Treizième Heure (Polydor), 1979

Jean Blanchard & Eric Montbel – Cornemuses (Hexagone), 1979

Maluzerne – Nous Sommes Venus Vous Voire... (Le Chant du Monde), 1981

La Bamboche – Quintessence (Hexagone), 1990

8 – GASCONHA

Verd e Blu – Musica de Gasconha (Menestrêrs Gascons), 1990

Perlinpinpin Folc – Ténarèze (Compas), 1991

9 – PROVENÇA

Mont-Jòia – Cant e Musica de Provenca (Le Chant du Monde), 1976

10 – PIEMONTE

La Ciapa Rusa – Stranòt d’Amur (Madau), 1984

11 – CÓRSEGA

Les Nouvelles Polyphonies Corses (Philips), 1991

12 – SARDENHA

Elena Ledda & Suonofficina – Sonos (Biber), 1989

13 – CHIPRE

Ensemble Cypriote de Musique Ancienne – Chants Épiques et Populaires du Chypre (Arion), 1991

14 – ESCÓCIA

Silly Wizard – Caledonia’s Hardy Sons (Shanachie), 1978

Battlefield Band – Home is Where the Van Is (Temple), 1980

Robin Williamson – Mabinogi (Claddagh), 1983

Savourna Stevenson – Ticked Pink (Springthyme), 1985

Tannahill Weavers – Dancing Feet (Green Linnet), 1987

Hamish Moore – Open Ended (Dunkeld), 1987

House Band – Word of Mouth (Topic), 1988

Gordon Mooney – O’er the Border (Temple), 1989

Catherine Ann-McPhee – Chi Mi’n Geamhradh (Green Trax), 1991

15 – INGLATERRA

Fairport Convention – Liege & Lief (Island), 1969

Shirley Collins & Dolly Collins – Anthems in Eden (Harvest), 1971

Steeleye Span – Ten Man Mop or Mr. Reservoir Butler Rides Again (Chrysalis/Shanachie), 1971

Ashley Hutchings & John Kirkpatrick – The Compleat Dancing Master (Hannibal, 1973

Tim Hart & Maddy Prior – Summer Solstice (Shanachie)

Albion Country Band – Battle of the Field (Island/Carthage) 1976

June Tabor – Ashes and Diamonds (Topic), 1977

Brass Monkey – See How It Runs (Topic), 1986

Blowzabella – A Richer Dust (Plant Life), 1988

Martin Carthy – Right of Passage (Topic), 1988

Silly Sisters – No More to the Dance (Topic), 1988

John Kirkpatrick & Sue Harris – Stolen Ground (Topic), 1989

16 – IRLANDA

Planxty – Cold Blow and the Rainy Night (Polydor/Shanachie), 1974

Chieftains – The Chieftains 5 (Island/Claddagh), 1975

Bothy Band – Old Hag You Have Killed Me (Polydor), 1976

De Dannan – The Mist Convent Mountain (Gael-Linn), 1980

Dolores Keane & John Faulkner – Broken Hearted I’ll Wonder (Green Linnet), 1981

Whistleblinkies – Whistleblinkies 4 (Claddagh), 1986

Boys of the Lough – Farewell and Remember me (Lough/Shanachie), 1987

Patrick Street – Patrick Street (Green Linnet), 1987

Moloney, O’Connell & Keane – Kilkelly (Green Linnet), 1988

17 – LAPÓNIA

Mari Boine Persen – Gula Gula (Real World), 1990

18 – SUÉCIA

Filarfolket – Smuggel (Temple), 1988

19 – DINAMARCA

Dronningens Livstykke – Traditional Arranged (Pan), 1990

20 – RÚSSIA

Tüva – Voices from the Land of the Eagles (Pan), 1990

21 – HUNGRIA

Kolinda – Kolinda (Hexagon), 1978

Sebö Ensemble – Hungarian Folk Music (Rounder), 1980

Márta Sebestyén & Muzsikas – Muzsikas (Hannibal), 1987

22 – BULGÁRIA

Bisserov Sisters – Music From the Piri Mountains (Pan), 1980

Le Mystère des Voix Bulgares (4AD), 1986

 

 

ANDY IRVINE & DAVY SPILLANE
East Wind
Tara, distri. Mundo da Canção

Andy Irvine (ex-Planxty, no bouzouki, sanfona), juntamente com o produtor e teclista Bill Whelan, são os mentores deste projeto, dedicado ao folclore dos Balcãs. Davy Spillane, mestre das “uillean pipes”, membro dos Moving Hearts e músico muito dado aos “blues” e ao rock, deixou-se levar. Os irlandeses fazem o que podem na reprodução dos difíceis compassos típicos da música desta região (7/8, 11/16, etc). Conseguem-no em termos técnicos, falham em termos anímicos. São síncopes que não lhes saltam de forma natural no coração. Márta Sebestyén vem do céu da Hungria para interpretar as baladas, procurando levar consigo, para o alto os seus  compenetrados companheiros. Seduzidos pelos ventos de Leste, participam ainda os “virtuoses” Máirtín O’Connor, no acordeão, e Michael O’Súilleabháin no piano. (7)

 

LA CIAPA RUSA
Retanavota
Robi Droli, import. Etnia

Quinto álbum da discografia da banda de Piemonte e quinta obra-prima. Maurizio Martinotti, Beppe Greppi e os novos elementos – Devis Longo, Patrick Novara e Bruno Raiteri – voltam a construir um monumento ao folclore piemontês. Donatta Pinti, que faltou ao recente concerto do grupo no Porto por causa dos gatos, imprime à música, com a sua voz característica, uma nota de intimismo nas baladas, que alternam com o tom mais ensolarado dos instrumentais. Os Ciapa Rusa percorrem todo o espectro que vai da música antiga à ligeireza das “monferrini” da região. A sanfona eletroacústica de Martinotti, simbolizando a aliança perfeita entre as margens do tempo, lidera uma lista de instrumentos e uma diversidade de registos que parecem não ter fim. Perfeito. (10)

 

ELENA LEDDA & SUONOFFICINA
Sonos
Biber, import. Etnia

Pela Sardenha passaram as culturas e civilizações fenícia, cartaginesa, romana, bizantina e árabe, entre outras. Mais tarde fez-se sentir aí a influência espanhola e de regiões como a Sabóia ou o Piemonte. Na atualidade, o império americano, das centrais nucleares e do turismo, tomou o seu lugar. Na música de Elena Ledda há revolta, lirismo e dramatismo. Como no flamenco, nos “blues” ou no canto vocal corso. “Sonos”, sobre uma textura cristalina de guitarras e percussões, recupera a linhagem nobre dos instrumentos de sopro na Sardenha, das ancestrais “launeddas” (cuja sonoridade oscila entre o clarinete e a gaita-de-foles) ao saxofone atual. Vozes antigas e contemporâneas, numa odisseia contra a dominação estética alheia em que a assimilação das diversas músicas do Mediterrâneo pode funcionar como uma estratégia de sobrevivência. Só a voz de Elena, xamânica, lunar, é toda ela uma revolução. (9)

 

THE HOUSE BAND
Stonetown
Harbour Town, import. Etnia

São escoceses, o que não quer dizer que sejam avaros nas músicas que tocam. Para além da Escócia e da vizinha Irlanda, os House Band interpretam, com o mesmo à-vontade, temas tradicionais da Dinamarca, Noruega, Bretanha, Bélgica e Bulgária, ao lado de uma canção de Elvis Costello, outra de Archie Fisher e originais de Ged Foley, vocalista e tocador de gaita-de-foles de Northumbrian e antigo membro dos Battlefield Band. Os House Band passam pelas várias tradições europeias sem se comprometerem com um estilo ou região particulares, à semelhança de uns Ad Vielle Que Pourra, com quem partilham, de resto, um certo tipo de sonoridade nas combinações gaita/acordeão/bombarda. (9)

 

IVO PAPASOV & HIS ORCHESTRA
Balkanology
Hannibal, import. Mundo da Canção e MVM

Quem viu Ivo Papasov tocar na televisão, numa emissão recente da Música no Dois, deve ter ficado sem respiração. O búlgaro toca clarinete como um diabo. Diz-se que a mãe de Ivo lhe cortou à nascença o cordão umbilical com a palheta de uma zurna. Nas festas de casamento de aldeia, para onde é muitas vezes solicitado, é costume a banda tocar toda a tarde e toda a noite, provocando a loucura coletiva. Ivo Papasov é o John Zorn da folk dos Balcãs. E “Balkanology” um vento de demência: ragtime, baladas ciganas, improvisações “free”, danças búlgaras (horo, ruchenitsi, Kopanitsa...) e turcas em ritmo de “reggae”, de rock, de swing, seja o que for, em velocidade desenfreada. Três temas chegam para a voz, impressionante de “tremolo” e modulações, de Maria Karafezieva falar com Deus. (9)

 

MUXICAS
Escoitando Medra-la Herba
Edigal, import. Etnia

Galegos até à medula, os Muxicas são um dos poucos grupos da sua região a resistir à eletricidade e à “irlandização” que parece afetar atualmente grande parte dos seus conterrâneos. “Escoitando Medra-la Herba” permanece ancorado ao campo e aos seus rituais, às “muiñeiras” e ao cancioneiro medieval. Percussões, muitas, gaitas e sanfonas, marcam a pulsação do sangue e da terra. Uma criança conta uma história de gnomos e de uma pulga que sorri. Uma caixa-de-música faz parar o tempo, enquanto um “boneco de palla” com coração escuta a voz do senhor dos ventos. Os Muxicas são populares sem serem popularuchos. Estão nos antípodas dos Milladoiro e sintonizados com os Obradoiro, a quem dedicam uma canção. “Para os que gostam de escoitar o silencio. Sen presas, sen pausas”. (8)

 

THE TANNAHILL WEAVERS
Cullen Bay
Green Linnet, distri. Megamúsica

Os Tannahill Weavers são um grupo emblemático da folk escocesa, conhecido em Portugal através dos álbuns anteriores “Dancing Feet” e “Land of Light”, que voltam a estar disponíveis nos escaparates. “Cullen Bay” apresenta a música tradicional da Escócia em toda a sua integridade. Excelentes as harmonias vocais e o virtuosismo dos executantes, com destaque para Iain MacInnes, nas “highland pipes”. “Cullen Bay” sintetiza o lirismo do canto gaélico, o ritmo marcial das tradicionais “pipe bands” e uma enorme fluência instrumental. Uma das canções fala de um homem que se apaixona (literalmente) por uma ilha. Não se veja aí nenhuma perversão. “Um escocês pervertido” – dizem os Weavers – “é uma coisa completamente diferente: um homem que prefere as mulheres ao whisky”. (8)

 

VASMALOM
Vasmalom II
RG Music, import. Etnia

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Na Hungria existe uma tradição de bons agrupamentos folk: Muzsikas, de Márta Sebestyén, Kolinda ou, menos conhecidos, Zsarátnok e Sebo Ensemble, citando apenas os que tiveram direito a importação nacional. Servindo-se de elementos comuns – a música cigana, as danças típicas, a música religiosa, sagrada ou profana, as baladas de amor e de trabalho – os Vasmalom diferem daqueles por um desejo incontrolável de transgressão. Heterodoxia que os leva às proximidades do jazz, à improvisação, à utilização do estilo vocal mongol (emissão simultânea de dois sons) ou, no tema final, um “blues” à boa maneira magiar, à paródia. Fora de série são a voz de Éva Molnár, uma potencial rival de Márta Sebestyén, e os fraseados de cristal de Kálmun Balogh, no “cimbalon”, espécie de saltério gigante. (9)