17/09/2026

O sumo do Sol [Loreena McKennitt]

 

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 10 MARÇO 1992 >> Cultura

 

Loreena McKennitt em Portugal

 

O sumo do Sol

 

“The Visit” é o cartão de visita de Loreena McKennitt, uma canadiana loura como o sol que em Portugal descobriu o Graal, na disposição sagrada das laranjeiras no jardim interior de uma quinta em Azeitão. Somos todos celtas ou é a luz mediterrânica, excessiva, que nos faz delirar?

 

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            Loreena McKennitt toca harpa e canta com voz de anjo Shakespeare, Tennyson e a lenda do Rei Artur. Em “The Visit”, o seu mais recente álbum, aborda a mitologia celta e demanda o elo perdido entre o Oriente e o Ocidente. Não é uma especialista da música tradicional mas ama a tradição e um “sentido universalista”, presente nas várias culturas do globo. Loreena atua em Portugal, a 3 de julho no Teatro S. Luiz, em Lisboa. O “PÚBLICO” falou com ela, num hotel da capital.

            PÚBLICO – Comecemos pelo nome: Loreena Isabel Irene McKennitt. Tem alguma ascendência portuguesa?

LOREENA MCKENNITT – Que eu saiba, não. Talvez haja alguma linhagem antiga, não sei.

P. – Esteve recentemente em Portugal, numa quinta de Azeitão. A que se deve essa visita?

R. – O que me levou a visitar Portugal foi uma exposição de fotografias de Elisabeth Feryn, tiradas neste país. Fiquei muito impressionada com o ambiente e achei que tinham muito a ver com o meu próprio trabalho. Falei com Elisabeth no sentido de regressarmos a Portugal para fazermos uma nova sessão de fotos e acabámos por ficar cá durante uma semana.

P. – Refere nas notas do disco que viu no jardim interior dessa quinta a materialização da mítica tapeçaria “The Lady and the Unicorn”...

R. – No pátio interior da quinta há quatro laranjeiras, uma em cada canto e outra ao centro, que me sugeriram todo o simbolismo relacionado com essa tapeçaria, nomeadamente as festas e danças de maio associadas ao ciclo das estações, no período pré-cristão.

P. – De onde provém o seu interesse pela cultura e tradição celtas?

R. – Cresci no Canadá, no campo, o que me levou a sentir um grande amor pela terra. Depois foi o contacto com a música céltica, irlandesa e escocesa, e a visita à Irlanda com o consequente contacto com a música tradicional dessa região. Comecei a interessar-me pelas raízes históricas dos povos celtas. Estive em Veneza, em novembro passado, na exposição dedicada ao mundo celta, onde nem sequer faltavam objetos artesanais provenientes de Portugal. Os celtas sempre se preocuparam com a terra, com os animais, com os elementos da Natureza e com a espiritualidade a ela associada.

P. – No seu mais recente disco, “The Visit”, explora as origens orientais da cultura celta, nomeadamente na faixa de abertura, “All souls night”, onde é notória a influência da música japonesa...

R. – Sim, essa influência aparece. “All souls night” aborda as festividades da morte. Os japoneses celebram a morte acendendo castiçais que depois seguem em pequenas embarcações pelas águas de um rio até ao oceano. No disco utilizei também instrumentos indianos como a “tampura” e a sitar”. Nesta faixa o próprio estilo do violinista [George Koller] é muito oriental. Note-se que eu não sou propriamente uma autoridade neste campo, apenas utilizo estas influências para enriquecer a minha criatividade. Em “The Visit” procurei juntar uma série de fios dispersos para mostrar que culturas diferentes têm rituais semelhantes. Procurei sobretudo encontrar um sentido de universalidade disperso por diversos locais, como o Oriente, a África e as regiões celtas.

P. – A música de “The Visit” aponta no entanto mais para a corrente “new age” do que propriamente para a música tradicional...

R. – Não sei bem o que o termo “new age” significa. Na América, “new age” está associado a música ambiental, a algo que as pessoas ouvem durante o banho ou durante uma sessão de massagens. Embora aceite que a minha música possa ser escutada nestas condições, penso que existe nela uma grande dose de paixão e que pode ser apreciada a níveis mais profundos. Talvez faça mais sentido associá-la ao termo “World music”. Sou da opinião que se está a desenvolver um estilo totalmente novo de música, ainda por definir, que junta as diversas “músicas do mundo” num contexto contemporâneo. Alguma música de Peter Gabriel, por exemplo, está próxima deste novo conceito.

 

Mistura de ingredientes musicais

 

P. – Em Portugal tem-se comparado a sua música à de Enya. Concorda com esta aproximação?

R. – Penso que ambas nos movemos em áreas semelhantes embora eu vá mais longe em termos de fusão de linguagens e culturas musicais diferentes, apesar de saber que ela canta em gaélico irlandês e esse tipo de coisas... No meu caso pessoal estou mais interessada em pegar na mitologia e no folclore tradicionais e apresentá-los em formas mais atuais.

P. – Os seus discos anteriores estão mais diretamente relacionados com a música folk. “The Visit”, pelo contrário, é mais comercial. Haverá uma tentativa de fazer chegar a sua música a um número maior de consumidores?

R. – O conceito de “comercial” é muito subjetivo. Admito que algumas pessoas possam ver no meu último álbum uma abordagem mais comercial. Do meu ponto de vista nunca houve a intenção de alargar a todo o custo o leque de apreciadores da minha música e de fazer aumentar o número de vendas dos discos. Não é isso que me inspira. O que me move é apenas o interesse e a curiosidade, e, como referi antes, a vontade de explorar e misturar ingredientes musicais dispersos. Gostava que a minha música chamasse a atenção do público para a música tradicional, mas não me considero uma especialista do género. Acho mais interessante misturar o som de uma guitarra elétrica com uma harpa, um violoncelo ou uma “tampura”.

P. – Em que termos funciona a distribuição da sua própria editora, a “Quinlan Records”, pela Warner Bros.?

R. – A associação com a Warner prende-se com a aceitação que os meus anteriores trabalhos tiveram no Canadá. Tive anteriormente outros contactos com pequenas distribuidoras como por exemplo uma ligada ao “Vancover Folk Festival” mas acabou por se tornar evidente, pelo número crescente de pedidos dos meus discos, que o sistema de distribuição por correio, a partir do meu escritório, em Stratford, não era suficiente, embora até à altura isso significasse para mim uma “boa vida”, sem grandes problemas empresariais. Acabei por optar pela Warner que manifestou um interesse genuíno pela minha música e que, ao mesmo tempo, me proporcionou uma liberdade total em termos criativos.

P. – Que músicos trará consigo no concerto em Portugal?

R. – Serei acompanhada por cinco músicos, entre os quais Brian Hughes, um guitarrista que também toca “sitar”, “tampura” e “balalaika”, a violoncelista/teclista Anne Bourne, o violinista Hugh Marsh, o percussionista Richard Lazar e um baixista. Quanto a mim tocarei harpa e piano, para além de cantar.


Deus pagão em circuito integrado [Lá Lugh]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 MARÇO 1992 >> Cultura

 

Duo irlandês em digressão pelo Norte do país

 

Deus pagão em circuito integrado

 

Os espetáculos dos irlandeses Lá Lugh agendados para quatro cidades do Norte do país integram-se no “circuito” de concertos regulares com que a “Etnia” se propõe aprofundar o conceito de uma “Europa” unida pela diversidade cultural. Prova de que, entre nós, há quem veja na música tradicional mais do que um simples fenómeno revivalista.

 

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            De há dois anos para cá os “Encontros Musicais da Tradição Europeia” prosseguem a sua viagem de reunificação entre atualidade e tradição. Entre o princípio e o fim e de novo o princípio. Encontros que, no interregno desses rituais maiores, se animam no convívio íntimo com as populações locais. Em “circuitos” fraternos por esse Portugal fora visando “celebrar ou incentivar um europeísmo assente na valorização da grande diversidade de culturas que coexistem no nosso ‘velho continente’”, como é intenção da entidade organizadora, a “Etnia”, uma cooperativa cultural do Norte, com sede em Caminha.

            Assim, amanhã, na Guarda, atuam os irlandeses Lá Lugh, duo constituído por Gerry O’Connor (rabeca) e pela vocalista/flautista Eithne Ní Ualacháin, que devem a designação à divindade celta Lug ou Lugh, o deus das “mãos grandes”, neto de Balor, “Olho-do-diabo” e pai do herói irlandês Cuchulainn, cuja saga “Tain Bo Cuailnge” constitui um dos esteios da mitologia e do futuro por cumprir da Irlanda ancestral. Os Lá Lugh deslocam-se no dia seguinte, sexta-feira, a Guimarães. Para concluírem esta série de espetáculos pelo Norte do país, estarão no sábado em Viana do Castelo e, domingo, no Porto. Acompanham os Lá Lugh, nestes quatro espetáculos, os músicos convidados Garry O’Briain (mandocello, viola de arco, piano) e Seanie McPhail (guitarra).

 

Dinamização cultural descentralizada

 

            Responsável pela vinda a Portugal, nos últimos anos, de nomes importantes da folk atual como Perlinpinpin Folk, Jean Blanchard, Andrew Cronshaw, Sileas, Altan, Manuel Luna, Rosa Zaragoza, La Ciapa Rusa, Milladoiro ou mais recentemente Nigel Eaton (ex-Blowzabella), a Etnia tem apostado, e bem, numa política de dinamização cultural descentralizada que, promovendo o “contacto e intercâmbio entre grupos ou solistas ligados à música tradicional e popular das várias regiões europeias”, pretende, numa escala mais alargada, uma “maior interligação entre as distintas linguagens musicais típicas dessas regiões” e, no âmbito da divulgação, a “criação de formas e estruturas de coordenação permanente”. Estratégia cultural onde estes “circuitos” se integram de forma exemplar.

            Recém-chegados à cena folk internacional, os Lá Lugh (cuja estreia discográfica acaba de ser importada, no formato CD, pela VGM) contam nas suas fileiras com dois nomes que já deram provas neste campo. Gerry O’Connor tocou com a vocalista Dolores Keane (passagem meteórica pelos De Dannan), com Jack Daly, ex-De Dannan, e Patrick Street. Alia, na sua técnica instrumental, o virtuosismo técnico a uma correta articulação dos “modos tradicionais” como são praticados no condado de Sligo, na costa Oeste da Irlanda, um dos grandes viveiros de violinistas tradicionais do país.

            Nascida no seio de uma família tradicional irlandesa onde a utilização do gaélico era prática corrente, discípula de mestres como Paddy Tunney e Mary Ann Carolan, Eithne Ní Uallacháin, para além de reputada flautista, interpreta um vastíssimo reportório de canções naquela língua milenária, recolhidas da região do Donegal ou do Sudoeste da Irlanda do Norte, de onde é originária. Registe-se ainda a participação, nos concertos portugueses, de Garry O’Briain que alguns conhecerão dos Buttons & Bows, especialistas na utilização de instrumentos de cordas. Ritual da Primavera presidido por Lugh à entrada Ocidental do Templo.

 

"O império sem pátria" da música [Debate]

 

PÚBLICO DOMINGO, 2 FEVEREIRO 1992 >> Cultura

 

Criadores, jornalistas e radialistas discutem produção nacional em Lisboa

 

“O império sem pátria” da música

 

Música portuguesa: “confeção, costura e corte”. O tema foi debatido no clube de Jornalistas, em Lisboa. Que há crise, ninguém duvida. Multinacionais, corrupção nos “media” e estratégias de distribuição pouco límpidas foram apontados como principais culpados. Acusações a que as multinacionais, que se recusaram a comparecer, terão de dar resposta.

 

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            “Nos anos 70, a seguir ao 25 de Abril, 65 por cento dos discos vendidos no nosso país eram fabricados em Portugal. Em 1989 a percentagem baixou para 8 por cento”. Para José Mário Branco, músico e sócio da UPAV-União Portuguesa de Artistas de Variedades, tais estatísticas revestem-se de “um significado, não só económico como cultural, assustador”. A música portuguesa, e em especial a de teor mais intervencionista, sofre por tabela.

            Conta José Mário Branco, logo no início deste debate levado a cabo sexta-feira à noite pelo Clube dos Jornalistas e com a promessa de continuação, que no final de um concerto seu, realizado há pouco tempo nos jardins da Guarda, dois jovens exaltados, “com as lágrimas a escorrer pela cara abaixo”, o abordaram com a seguinte pergunta: “Quem são os cabrões que nos impediram até hoje de conhecer estas coisas?” Uma boa pergunta. “O público quer ouvir a nossa música, há artistas que querem dar a ouvir a sua música ao público e há uma coisa, um pesadelo ali no meio, que impede a circulação” – diz José Mário Branco, segundo o qual as multinacionais são as principais responsáveis por este estado de coisas: “Somos um país pequeno onde as multinacionais entraram totalmente à balda, sem quaisquer regras que limitassem e condicionassem a sua atuação no mercado. As chamadas ‘editoras portuguesas’ não passam de escritórios em Lisboa de empresas estrangeiras. Quem manda na música em Portugal não é Lisboa nem o Porto, mas Londres, Nova Iorque, Amesterdão...” José Mário Branco segue o raciocínio das multinacionais: “Na lógica da Sony ou da EMI, o nosso mercado não passa de um quintal para onde se torna fácil escoar os restos de armazém. É esta a lógica do sistema”.

 

Editoras/distribuidoras

 

            Citam-se casos relativos a determinados processos seguidos, neste caso pelas “distribuidoras” que, na quase totalidade dos casos, são ao mesmo tempo editoras. Uma conversa de negócios entre o representante de uma “distribuidora” e um retalhista não andará longe dos seguintes termos: o retalhista pretende por exemplo comprar para a sua loja 200 discos de Michael Jackson, cuja venda lhe garantirá sem dificuldade os 48 por cento de margem de lucro que a lei lhe faculta sobre o preço de revenda. O distribuidor (e editor...) argumentará então: “Queres o Michael Jackson? Por acaso tenho aqui uma outra coisa que estávamos também interessados em vender [os tais restos]”. Se o retalhista insiste que essa ‘outra coisa’ não lhe interessa, receberá um franzir ofendido de sobrancelhas acompanhado da tirada: “Pois é, mas esses 200 discos do Michael Jackson não sei se lhos vou poder arranjar, sabe, há umas dificuldades no armazém...”. O infeliz retalhista, que apenas pretende enriquecer de forma honesta e de preferência rápida, percebe e resigna-se à continuação: “...mas se me comprar 50 destes tenho a impressão que afinal talvez lhe consiga arranjar os tais 200 do Michael Jackson!”.

            Os “media”, alguns “media”, também não são poupados. Mesmo sem ter provas concretas (“sei de saber”) – diz José Mário Branco) o autor de “Ser Solidário” não duvida que o sistema esteja “profundamente corrompido, com cheques mensais passados por debaixo da mesa, com operações que significam dinheiro e chantagem ao lucro”. Na televisão – “o meio dos meios de comunicação” – “paga-se em escudos para se passar a faixa tal de um disco, segundo as imposições de programação vindas de Londres ou Amsterdão”.

            O poder fecha os olhos e deixa andar. “Os canais de informação têm muitas relações com o poder político e com o poder económico. Há muitos interesses no meio disto tudo. Interessa é adormecer as pessoas e não levantar problemas” – diz Pedro Pyrrait, crítico de música, radialista e um dos convidados do debate, para quem este facto “teve influência no afastamento de uma larga faixa de música da nossa rádio”. “Há uma censura indireta no sentido de não passar artistas como o Fausto, os Vai de Roda, o José Afonso, sob o pretexto de não ser música para FM”. Censura que nalguns casos pode passar por um “telefonema de algum secretário de Estado ou de um ministro, a protestar contra a passagem de ‘música revolucionária’, música ‘revolucionária’ que até pode ser uma canção perfeitamente inocente, mas que só por ser cantada pelo José Mário Branco ou pelo Sérgio Godinho pode prejudicar a ascensão de pessoas como o João David Nunes ou o Jaime Fernandes, que se calhar ambicionam chegar um dia a ministros. É bom o João David Nunes vir à televisão [em edição recente de “Conversa Afiada”] dizer que gosta de música portuguesa e do José Afonso. Difícil era ouvir essa música na Rádio Comercial, quando ele era diretor.

 

O capital contra o capitalismo

 

            Na opinião de José Mário Branco, todo este panorama muito pouco claro que parece minar por dentro a “costura” e o “corte” da música portuguesa insere-se numa perspetiva mais vasta, de permissividade e “decadência” de “uma classe dominante pirosa e sectária (por insegurança, por ser muito recente e por nunca ter podido exercer nem exercer-se)” e, como consequência, “de uma classe política impreparada e altamente corrupta”. Corrupção que vinda das cúpulas terá por força que se refletir nos “vários níveis da vida nacional, passando pelas diversas estruturas do Estado, pelos meios de comunicação e pelo próprio meio empresarial”.

            Viriato Teles, outro representante da fação do “corte” presente no debate, que teve Eduardo Guerra Carneiro, da direção do Clube de Jornalistas, como moderador, tem razão quando afirma que “sem se conhecer as coisas não se pode gostar delas”. De facto, algo não bate certo quando o tal jovem da Guarda grita contra os “cabrões” que lhe dificultam ou impedem o acesso ao produto musical. São as próprias leis da oferta e da procura que são impedidas de funcionar. “Há aqui qualquer coisa que não tem sequer já a ver com a economia keinesyana e com o capitalismo – a perversão do próprio capitalismo”. Quando os meios da produção artística se rendem aos “trusts”, o assunto ultrapassa os limites da “nacionalidade” para constituir “uma questão de dinheiro, de um império sem pátria”. Não deixa de ser perturbante que hoje se acuse o comunista José Mário Branco de “subversivo no sistema” apenas por defender o cumprimento da lei de oferta e procura, afinal um dos princípios básicos do “catecismo capitalista”.

Música indiana, é preciso ocidentalizar [Jasmin Band]

 Pop Rock

29 de Janeiro 1992

 

MÚSICA INDIANA, É PRECISO OCIDENTALIZAR

 

“Pehchaan” (“Conhecer”), dos Jasmin Band, é o primeiro disco de música indiana feito e editado em Portugal, pelo menos na opinião dos responsáveis da editora, a Vidisco. De música indiana, da genuína, o disco tem muito pouco. “É impossível agarrarmo-nos aos costumes tradicionais num país como Portugal, na Europa.” Será?

 


            “São portugueses da comunidade ismaelita de descendência indiana” os seis membros da Jasmin Band. “Nasceram em Moçambique e vieram para Portugal depois do 25 de Abril. Indianos mas portugueses de nacionalidade. Os nomes mostram que são mesmo portugueses: Malik Keshaujee, Jalaludin Hassanali, Nadim Amirali…

            “Pehchaan” poderia ser um projeto interessante se não tivesse cedido à facilidade e, nalguns temas, ao mau gosto de confundir a música indiana com acordes sintetizados de “Enola gay” e caixas-de-ritmo que se diriam recicladas de discos de Clemente ou Dino Meira. “É uma tentativa de ocidentalizar.” Não se compreende bem a opção se levarmos em conta que, nas palavras de João Pedro Jadaujy, sócio gerente da Vidisco, o disco foi feito a pensar na comunidade, embora “pela qualidade da música e pela harmonia dos tons se dirija ao público em geral”. Opção tanto mais estranha quanto se reconhece que a própria comunidade ismaelita residente em Portugal “preferiria outro tipo de música”.

            “Disco de circunstância”, “Pehchaan” fica-se por umas tímidas tablas perdidas entre os sintetizadores e uma produção voltada para o mercado das feiras e da Praça de Espanha. “São músicas indianas, em parte de filmes, em parte cânticos não religiosos, intermédios, que se cantam em casamentos e festas”. “Os filmes” parecem ser de resto o principal aferidor de aceitação da música indiana pela comunidade: “A música indiana está muito ligada aos filmes. O sucesso de um filme é o barómetro para as músicas. Como há muito tempo não passam filmes indianos…”

            Não sequer uma “sitar” para amostra – “o disco teve de ser simplificado a esse nível, os músicos não tiveram acesso aos instrumentos tradicionais”. Segundo João Pedro Jadaujy, o mais importante é “começar a fazer algo”, antes de um hipotético próximo trabalho que poderia ser gravado “em Londres ou mesmo na Índia, o que agora não foi possível porque isso implicaria a movimentação de verbas demasiado elevadas”. Optou-se pelo “acessível” antes de tentar “fazer uma coisa melhor”, que inclusive pode passar por um “certo regresso às origens”.

            Os músicos dos Jasmin Band são autodidatas: empresários, ligados ao ramo dos móveis ou funcionários públicos. Foram eles que apresentaram o projeto “Pehchaan” à editora a quem solicitaram “para fazer o serviço”. “Mais que não fosse por carolice, o disco foi feito”, sem que antes na Vidisco se tivesse procedido à triagem final dos temas, de maneira a “escolher um tipo de músicas que se coadunasse melhor com o público português”. A música indiana é que não se coaduna muito com o tom popularucho de “Pehchaan”, apesar de tudo a única tentativa do género realizada até agora em Portugal.

John O'Kane - Solid

 
Pop Rock
29 JANEIRO 1992
 
JOHN O’KANE
Solid
LP/CD, Circa, distri. Edisom

 













         John O’Kane deve agradecer a Peter Gabriel por este, além de lhe ter cedido o estúdio Real World, ainda lhe ter emprestado o baterista Manu Katché e lhe ter sugerido o título (um portento de originalidade) para o álbum. Depois da audição de “Solid”, ficamos a gostar um bocado menos de Peter Gabriel, por ter contribuído para a feitura de semelhante horror. John O’Kane lembra o pior de Phil Collins e Steve Winwood. Se consideramos que o lado “melhor” destes dois autores se aproxima, não poucas vezes, do execrável, temos todas as razões para fugir a sete pés deste escocês radicado em Londres que “acordou um dia decidido a fazer carreira como cantor”. Dia fatídico em que alguém deveria tê-lo impedido de acordar. “Solid” é aquilo que os ingleses e americanos chamam MOR (“middle of the road”) quando querem dizer que “não é nada”. Dizem que John O’Kane “chegou para ficar”. Se assim for, o melhor é nós começarmos já a fazer as malas. (2)

David A. Stewart - Jute City

 
Pop Rock
29 de Janeiro 1992
 
BANDAS SONORAS
 
David A. Stewart
Original Music from the BBC Film “Jute City”
LP/CD Anxious, distri. BMG
 















Sabemos que “Jute City” é um filme realizado por David Kane para uma série da BBC porque vem escrito na capa. Vêm também uns fotogramas. As imagens, a atirar para o esquisito, sugerem alguma bizarria do tipo “Twin Peaks”. Impressão reforçada por alguns títulos de canções como “Dead planets”, “Black wedding”, “Contaminated” e “Dark wells”. Na ficha técnica dos atores figura o nome de Fish, o que, por este lado, não augura nada de bom. David A. Stewart, que nos Eurythmics é só Dave e prescinde do “A.”, compõe a banda sonora – uma mistura anódina de Mark Knopfler do “Local Hero” e Mike Oldfield.
Muito curiosas, e sem dúvida os pormenores mais interessantes de um disco que raramente consegue ser mais do que “agradável”, são as intervenções de flauta e os solos de “uillean pipes” do músico tradicional Finbar Furey, compostos por este na mais pura veia da folk irlandesa. “Jute” designa uma fibra de planta indiana. Intrigante. Uma notícia de última hora acabada de chegar à redação explica que “Jute City” trata de “rituais maçónicos”, “desperdícios tóxicos” e “assassínio”. Ficamos esclarecidos. (5)

Arild Andersen - Sagn

 

Pop Rock
29 de Janeiro 1992
 
LP’S


Arild Andersen
Sagn
CD ECM, distri. Dargil


 








“Rosensfole”, de Jan Garbarek com a cantora Agnes Buen Garnas, abriu caminho às novas experiências, atualmente em curso na Noruega, de recuperação da herança tradicional deste país e em particular do seu folclore musical. “Sagn” – composto e arranjado pelo contrabaixista Arild Andersen para o festival “Vossajazz” – é uma obra cuja génese se situa num período anterior a “Rosensfole”, mais concretamente em 1988, e insere-se nessa mesma via a que se convencionou chamar “de fusão”. As interpretações vocais dos temas tradicionais estão a cargo de Kirsten Bråten Berg, uma das grandes cantoras e estudiosas do cancioneiro do Sul da Noruega. Acompanham-na, para além de Arild Andersen, o percussionista brasileiro Naná Vasconcelos, Frode Alnaes, guitarrista seguidos da escola de Terje Rypdal, que atualmente milita nas fileiras do grupo norueguês Dance With a Stranger, o teclista Bugge Wesseltoft (presente em “I Took up the Runes” de Jan Garbarek) e o saxofonista Bendik Hofseth. Menos litúrgico e mais extrovertido que “Rosensfole”, “Sagn” alterna o religioso e o profano, os instrumentais “garbarekianos” e as canções do passado, desvelando novas facetas do coração ancestral da Noruega. (8)

16/09/2026

Elba "Brasa" Ramalho regressa a Portugal

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 24 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Elba “Brasa” Ramalho regressa a Portugal

 

            Elba Ramalho regressa a Portugal para uma digressão a realizar entre os dias 8 e 22 de fevereiro por várias localidades do país. Assim, o novo espetáculo da cantora brasileira nordestina – “Felicidade Urgente” – tem já marcadas as seguintes datas: dia 8, apresentação de gala no novo casino de Vilamoura; dia 14 – Guimarães, no Pavilhão Francisco de Holanda; dia 15 – Pavilhão de Sobral de Monte Agraço; dia 16 – Amadora, no Pavilhão da Académica; dia 20 – Aveiro, no Pavilhão da Feira; dia 21 – Coimbra, Pavilhão da OAF; dia 22 – Amiais de Baixo.

            Em espetáculos que se anunciam com “espetaculares coreografias”, “8000 watts de som” e “120000 de luz, apoiados por diversos efeitos”, Elba Ramalho faz-se acompanhar por uma banda de sete músicos formada por Elber Bedaque, bateria, Marcos Farias, piano e maestro, Manassés de Souza, guitarra, Fernando Moura, teclas, Jamil Joanes, baixo, Reppolho, percussão, e Jussara Silva, coros, e pelo bailarino Carlinhos Jesus, o “Duque”, na telenovela “Kananga do Japão”.

            A produção dos espetáculos está a cargo da PROPALCO para quem esta primeira iniciativa “é o primeiro passo de um projeto que visa levar, com o apoio das autarquias e de outras entidades culturais locais, nomes grandes da música e do teatro a cidades e vilas normalmente deixadas fora do circuito de espetáculos – que continuam a ser pensados para os Coliseus ou as grandes salas de Lisboa e Porto”.

            De facto, não é todos os dias que Amiais de Baixo tem a sorte de assistir à sedução, vocal e corporal, da “cantriz”, que é como os brasileiros chamam a uma das maiores “brasas” da MPB. A felicidade é sempre urgente. Com a voz e o resto de Elba Ramalho é meio caminho andado.

Música em estado de graça [New Age]

 

PÚBLICO SÁBADO, 18 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Renovação da “new age”

 

Música em estado de graça

 

Erik Wøllo, Green Isac e Robert Rich são novos músicos apostados em dotar a “new age” com um espírito voltado para o futuro. Aventuras discográficas à volta da Tradição, da floresta da Amazónia ou da arquitetura de Gaudí encontram-se a partir de agora disponíveis em Portugal.

 

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            Origo e Hearts of Space, duas editoras especializadas na área de música eletrónica “new age”, a primeira norueguesa, a segunda norte-americana, partilham uma conceção de “nova idade” diferente da visão cósmico-lamechas das congéneres Windham Hill, Coda ou Innovative Communications. Em vez de ter a sílaba sagrada “aum” na ponta da língua e à venda nos supermercados, na Origo e nos “corações do espaço”, privilegia-se a aventura, a síntese de culturas e diferentes linguagens musicais, a exploração de ideias e paisagens sonoras inusitadas, a criação de novos hábitos de escuta. Alquimia do Verbo manifestado no mundo novo que se pressente e anuncia.

            “Images of Light”, sexto álbum de originais de Erik Wøllo, culmina a fase de pacificação deste compositor norueguês de 31 anos de idade, iniciada com “Traces” e “Silver Beach”. Música expressionista, de tonalidades irreais, entre o minimalismo de cristal, a luz azul turquesa dos fiordes da Noruega e o silêncio, aprendido com John Cage e depois com Brian Eno. Gravado no estúdio próprio “Wintergarden”, com auxílio do oboé, saxofones e sampler de Jan Wiese, “Images of Light” ergue-se sobre o horizonte da música eletrónica com o brilho de uma lua cheia – música de espaços silenciosos, de reverberações noturnas, de ecos de culturas ancestrais à deriva no oceano do tempo. Imagens de luz, de enigmas, de figuras primitivas traçadas a dourado sobre o céu.

 

África astral

 

            Mais chegados à terra, os Green Isac reinventam no seu álbum de estreia, “Strings & Pottery”, os folclores do mundo, recriando no computador as sonoridades de instrumentos tradicionais transformados em títulos de canções: “Sarod”, “Musette”, pequenas peças de teatro sonoro coreografadas pela natureza e pela eletricidade. A África torna-se um continente astral, de fauna e flora fantasmagóricas, em temas como “Congalonga” e “Waterflute”. Índia e China revelam-se lugares outros delineados no mapa da subjetividade, transfigurados pelo sonho. Novas geografias interiores cujo acesso passa pelas vias do Inconsciente. Os Green Isac são fazedores dos mitos do futuro.

            Do futuro, observado sob outro ângulo, nos fala ainda o compositor norte-americano Robert Rich, em “Rainforest”, “Strata” (de parceria com Steve Roach, outro nome importante da música eletrónica atual) e “Gaudí”, o mais recente do lote. Sons que viajam entre a religiosidade presente na época áurea de Klaus Schulze (“Timewind”, “Moondawn”, “Mirage”) e as pulsações obscuras de Brian Eno em “On Land”. Inventor de um novo sistema de afinação que designa por “Just Intonation” baseado nos conceitos de “harmonia natural” e “microtonalidades”, promotor e intérprete de concertos “all night” destinados a pôr em transe as audiências da “Bay Area” em São Francisco, Robert Rich aborda em “Rainforest” questões como a deflorestação da Amazónia e a procura pessoal do paraíso primordial, num disco de respiração ampla e paisagens electro-tribais tão luxuriantes quanto as do coração da selva.

            “Strata” situa-se na mesma área de cruzamento da música eletrónica com sonoridades étnicas, dos computadores com flautas de bambu. Robert Rich e Steve Roach estão empenhados em mergulhar nos abismos do “subconsciente, do surreal e das sombras”. Acreditam no “rio do acaso” e deixam-se levar pela intuição. Dilúvio de símbolos, de encontros improváveis, verdadeiro compêndio de onirismo, “Strata” sintetiza de forma genial as premissas enunciadas pelos mestres Hassell e Musci/Vennosta.

            Por seu lado, “Gaudí”, inspirado nas conceções visionárias do arquiteto catalão Antoni Gaudí e em particular na catedral da Sagrada Família, em Barcelona, eleva-se em espiral, tão alto quanto formos capazes de nos libertar do lastro mental. Na arquitetura de Gaudí encontrou Robert Rich uma “aspiração da beleza sagrada”. Encontramos na música do compositor idêntica preocupação com “a vibração, o espaço e o tempo, na expressão do espírito humano”. Se a arquitetura lida com a matéria e com o espaço, ambos, arquitetura e música, podem “evocar emoções sem nome” e “atingir o sublime”. “Gaudí”, o disco, alcança o estado de graça.

Nota: discos encomendados por via postal à Ananana, Apartado 2167 – 1137 Lx códex

 

Assim falava Peste, com música de Strauss [Pop Dell'Arte]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 16 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Edição de máxi antecipa novo álbum dos Pop Dell’Arte

 

Assim falava Peste, com música de Strauss

 

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“2002” e “MC Holy” são os dois temas que integram o novo máxi dos Pop Dell’Arte antes do álbum “Ready-Made”, com edição prevista para a primeira semana de fevereiro na editora Variodisc. O disco é “mais dirigido às pistas de dança” que o álbum, nas palavras de João Peste, vocalista e anarco-ideólogo do grupo do qual fazem parte ainda Rafael Toral, Luís Sampayo, Pedro Alvim e João Paulo Feliciano.

“2002”, que o cantor considera um tema “carismático”, prolonga por alamedas sombrias o sonambulismo “house” vigente nas noites mais ácidas da Europa, em alucinações e parasitagens eletrónicas, descarrilamentos “scratch” e as vocalizações de Peste que, como não podia deixar de ser, também saltam da linha. Não falta sequer a alusão kitsch à odisseia espacial de Stanley Kubrick, em “2001”, através da utilização de “Thus Spake Zarathustra” – “Assim Falava Zaratustra”, de Richard Strauss – “a ideia partiu de uma colagem de uma versão ‘funky-jazz” do poema sinfónico deste autor, dedicada a Friedrich Nietzsche. Trabalhámos nela e o resultado acabou por soar um bocado irónico, uma brincadeira à volta dos slogans ‘power is life, power is love’, disse o cantor.

“MC Holy” carrega com mais força no acelerador e é mais fiel aos cânones tradicionais da música de dança. Há menos ousadia sem que isso implique ausência de provocação. A maneira como, logo no início do tema, se dirige via cinismo samplado, aos jovens – “remember kids, I’m your friend”, como um “amigo” que só dá bons conselhos – ilustra bem a atitude de Peste como diletante da decadência “chic” por excelência entre o conformismo bem comportado da maior parte das bandas pop nacionais.

            Confirmando o interesse crescente de João Peste pela música de dança, o cantor estará hoje à noite na discoteca “Zona Mais”, onde atuará desta feita na função de disc-jockey”: “É uma coisa que eu não costumo fazer regularmente mas que já aconteceu por várias vezes, sempre que para tal me convidam. Neste caso concreto, trata-se de pôr a tocar discos de ‘disco-sound’, ideia que juguei engraçada. De resto já tinha colaborado antes, também como ‘disc-jockey, no mesmo local, durante uma ‘noite psicadélica’”, informou João Peste.

Interrogado quanto aos discos que irá passar esta noite, o cantor refugiou-se num lacónico “ainda não pensei nisso”.