PÚBLICO SÁBADO, 18 JANEIRO 1992 >> Cultura
Renovação
da “new age”
Música em estado de graça
Erik Wøllo, Green Isac e Robert Rich são novos
músicos apostados em dotar a “new age” com um espírito voltado para o futuro.
Aventuras discográficas à volta da Tradição, da floresta da Amazónia ou da
arquitetura de Gaudí encontram-se a partir de agora disponíveis em Portugal.
Origo e Hearts of Space, duas
editoras especializadas na área de música eletrónica “new age”, a primeira
norueguesa, a segunda norte-americana, partilham uma conceção de “nova idade”
diferente da visão cósmico-lamechas das congéneres Windham Hill, Coda ou
Innovative Communications. Em vez de ter a sílaba sagrada “aum” na ponta da
língua e à venda nos supermercados, na Origo e nos “corações do espaço”,
privilegia-se a aventura, a síntese de culturas e diferentes linguagens
musicais, a exploração de ideias e paisagens sonoras inusitadas, a criação de
novos hábitos de escuta. Alquimia do Verbo manifestado no mundo novo que se
pressente e anuncia.
“Images of Light”, sexto álbum de
originais de Erik Wøllo, culmina a fase de pacificação deste compositor
norueguês de 31 anos de idade, iniciada com “Traces” e “Silver Beach”. Música
expressionista, de tonalidades irreais, entre o minimalismo de cristal, a luz
azul turquesa dos fiordes da Noruega e o silêncio, aprendido com John Cage e
depois com Brian Eno. Gravado no estúdio próprio “Wintergarden”, com auxílio do
oboé, saxofones e sampler de Jan Wiese, “Images of Light” ergue-se sobre o
horizonte da música eletrónica com o brilho de uma lua cheia – música de
espaços silenciosos, de reverberações noturnas, de ecos de culturas ancestrais
à deriva no oceano do tempo. Imagens de luz, de enigmas, de figuras primitivas
traçadas a dourado sobre o céu.
África astral
Mais chegados à terra, os Green Isac
reinventam no seu álbum de estreia, “Strings & Pottery”, os folclores do
mundo, recriando no computador as sonoridades de instrumentos tradicionais
transformados em títulos de canções: “Sarod”, “Musette”, pequenas peças de
teatro sonoro coreografadas pela natureza e pela eletricidade. A África
torna-se um continente astral, de fauna e flora fantasmagóricas, em temas como
“Congalonga” e “Waterflute”. Índia e China revelam-se lugares outros delineados
no mapa da subjetividade, transfigurados pelo sonho. Novas geografias
interiores cujo acesso passa pelas vias do Inconsciente. Os Green Isac são
fazedores dos mitos do futuro.
Do futuro, observado sob outro
ângulo, nos fala ainda o compositor norte-americano Robert Rich, em
“Rainforest”, “Strata” (de parceria com Steve Roach, outro nome importante da
música eletrónica atual) e “Gaudí”, o mais recente do lote. Sons que viajam
entre a religiosidade presente na época áurea de Klaus Schulze (“Timewind”,
“Moondawn”, “Mirage”) e as pulsações obscuras de Brian Eno em “On Land”.
Inventor de um novo sistema de afinação que designa por “Just Intonation”
baseado nos conceitos de “harmonia natural” e “microtonalidades”, promotor e
intérprete de concertos “all night” destinados a pôr em transe as audiências da
“Bay Area” em São Francisco, Robert Rich aborda em “Rainforest” questões como a
deflorestação da Amazónia e a procura pessoal do paraíso primordial, num disco
de respiração ampla e paisagens electro-tribais tão luxuriantes quanto as do
coração da selva.
“Strata” situa-se na mesma área de
cruzamento da música eletrónica com sonoridades étnicas, dos computadores com
flautas de bambu. Robert Rich e Steve Roach estão empenhados em mergulhar nos
abismos do “subconsciente, do surreal e das sombras”. Acreditam no “rio do
acaso” e deixam-se levar pela intuição. Dilúvio de símbolos, de encontros
improváveis, verdadeiro compêndio de onirismo, “Strata” sintetiza de forma
genial as premissas enunciadas pelos mestres Hassell e Musci/Vennosta.
Por seu lado, “Gaudí”, inspirado nas
conceções visionárias do arquiteto catalão Antoni Gaudí e em particular na
catedral da Sagrada Família, em Barcelona, eleva-se em espiral, tão alto quanto
formos capazes de nos libertar do lastro mental. Na arquitetura de Gaudí
encontrou Robert Rich uma “aspiração da beleza sagrada”. Encontramos na música
do compositor idêntica preocupação com “a vibração, o espaço e o tempo, na
expressão do espírito humano”. Se a arquitetura lida com a matéria e com o
espaço, ambos, arquitetura e música, podem “evocar emoções sem nome” e “atingir
o sublime”. “Gaudí”, o disco, alcança o estado de graça.
Nota: discos encomendados por
via postal à Ananana, Apartado 2167 – 1137 Lx códex
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