16/09/2026

Música em estado de graça [New Age]

 

PÚBLICO SÁBADO, 18 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Renovação da “new age”

 

Música em estado de graça

 

Erik Wøllo, Green Isac e Robert Rich são novos músicos apostados em dotar a “new age” com um espírito voltado para o futuro. Aventuras discográficas à volta da Tradição, da floresta da Amazónia ou da arquitetura de Gaudí encontram-se a partir de agora disponíveis em Portugal.

 

Uma imagem com pessoa, mulher

Descrição gerada automaticamente

 

            Origo e Hearts of Space, duas editoras especializadas na área de música eletrónica “new age”, a primeira norueguesa, a segunda norte-americana, partilham uma conceção de “nova idade” diferente da visão cósmico-lamechas das congéneres Windham Hill, Coda ou Innovative Communications. Em vez de ter a sílaba sagrada “aum” na ponta da língua e à venda nos supermercados, na Origo e nos “corações do espaço”, privilegia-se a aventura, a síntese de culturas e diferentes linguagens musicais, a exploração de ideias e paisagens sonoras inusitadas, a criação de novos hábitos de escuta. Alquimia do Verbo manifestado no mundo novo que se pressente e anuncia.

            “Images of Light”, sexto álbum de originais de Erik Wøllo, culmina a fase de pacificação deste compositor norueguês de 31 anos de idade, iniciada com “Traces” e “Silver Beach”. Música expressionista, de tonalidades irreais, entre o minimalismo de cristal, a luz azul turquesa dos fiordes da Noruega e o silêncio, aprendido com John Cage e depois com Brian Eno. Gravado no estúdio próprio “Wintergarden”, com auxílio do oboé, saxofones e sampler de Jan Wiese, “Images of Light” ergue-se sobre o horizonte da música eletrónica com o brilho de uma lua cheia – música de espaços silenciosos, de reverberações noturnas, de ecos de culturas ancestrais à deriva no oceano do tempo. Imagens de luz, de enigmas, de figuras primitivas traçadas a dourado sobre o céu.

 

África astral

 

            Mais chegados à terra, os Green Isac reinventam no seu álbum de estreia, “Strings & Pottery”, os folclores do mundo, recriando no computador as sonoridades de instrumentos tradicionais transformados em títulos de canções: “Sarod”, “Musette”, pequenas peças de teatro sonoro coreografadas pela natureza e pela eletricidade. A África torna-se um continente astral, de fauna e flora fantasmagóricas, em temas como “Congalonga” e “Waterflute”. Índia e China revelam-se lugares outros delineados no mapa da subjetividade, transfigurados pelo sonho. Novas geografias interiores cujo acesso passa pelas vias do Inconsciente. Os Green Isac são fazedores dos mitos do futuro.

            Do futuro, observado sob outro ângulo, nos fala ainda o compositor norte-americano Robert Rich, em “Rainforest”, “Strata” (de parceria com Steve Roach, outro nome importante da música eletrónica atual) e “Gaudí”, o mais recente do lote. Sons que viajam entre a religiosidade presente na época áurea de Klaus Schulze (“Timewind”, “Moondawn”, “Mirage”) e as pulsações obscuras de Brian Eno em “On Land”. Inventor de um novo sistema de afinação que designa por “Just Intonation” baseado nos conceitos de “harmonia natural” e “microtonalidades”, promotor e intérprete de concertos “all night” destinados a pôr em transe as audiências da “Bay Area” em São Francisco, Robert Rich aborda em “Rainforest” questões como a deflorestação da Amazónia e a procura pessoal do paraíso primordial, num disco de respiração ampla e paisagens electro-tribais tão luxuriantes quanto as do coração da selva.

            “Strata” situa-se na mesma área de cruzamento da música eletrónica com sonoridades étnicas, dos computadores com flautas de bambu. Robert Rich e Steve Roach estão empenhados em mergulhar nos abismos do “subconsciente, do surreal e das sombras”. Acreditam no “rio do acaso” e deixam-se levar pela intuição. Dilúvio de símbolos, de encontros improváveis, verdadeiro compêndio de onirismo, “Strata” sintetiza de forma genial as premissas enunciadas pelos mestres Hassell e Musci/Vennosta.

            Por seu lado, “Gaudí”, inspirado nas conceções visionárias do arquiteto catalão Antoni Gaudí e em particular na catedral da Sagrada Família, em Barcelona, eleva-se em espiral, tão alto quanto formos capazes de nos libertar do lastro mental. Na arquitetura de Gaudí encontrou Robert Rich uma “aspiração da beleza sagrada”. Encontramos na música do compositor idêntica preocupação com “a vibração, o espaço e o tempo, na expressão do espírito humano”. Se a arquitetura lida com a matéria e com o espaço, ambos, arquitetura e música, podem “evocar emoções sem nome” e “atingir o sublime”. “Gaudí”, o disco, alcança o estado de graça.

Nota: discos encomendados por via postal à Ananana, Apartado 2167 – 1137 Lx códex

 

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