PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 MARÇO 1992 >> Destaque
Sentimento perpétuo
“Toco guitarra. As pessoas gostam de ouvir. Juntamo-nos. E assim vamos
vivendo.” Em quatro frases simples, este é o retrato que Carlos Paredes faz de
si mesmo — devolveu-nos a arte de ser português.
Tímido, amador, solidário sempre, Carlos Paredes
confunde-se com o corpo de uma guitarra que "comove sem fazer
chorar", onde vibra a tristeza de alguém que vive uma determinada forma de
vida, também a alegria e a vontade de tocar para e entre amigos, nem que seja à
mesa de um café. Hoje e amanhã, no Teatro São Luiz, em Lisboa, dia 25 no Rivoli
do Porto, esperam-no o aplauso unânime e as grandes encenações. Luísa Amaro,
Fernando Alvim, Natália Casanova, dos Diva, Mário Laginha, Paulo Curado, Rui
Veloso são alguns dos convidados presentes, num espetáculo que inclui bailado e
um grande final improvisado. Para Carlos Paredes, apenas "uma forma
modesta de ver as coisas".
PÚBLICO – Quando posou para a fotografia,
pegou na guitarra e começou a tocar. Tratava-se apenas de uma imagem...
CARLOS PAREDES – Sabe, pegar na guitarra e tocar é já
um gesto tão habitual que mesmo quase sem pensar, instintivamente, começamos a
querer tocar. Isso sucede-me com a guitarra portuguesa, com a qual contacto
todos os dias, há anos.
P. – Como se a guitarra fosse uma extensão física de
si próprio?
R. – Digamos que é a intuição que todos nós temos que
nos leva a fazer música. Não posso estar com uma guitarra nos braços sem ter
vontade de a tocar.
P. – Disse que toca guitarra todos os dias. Continua a
tirar o mesmo prazer desse ato, após todos estes anos?
R. – Exatamente. Começo a tocar e vou-me adaptando à
música, vou improvisando...
P. – Reside aí a diferença
entre ser músico e fazer música?
R. – Ah, pois, pois. No momento de tocar, a música
fica a fazer parte de nós próprios.
P. – Quando toca guitarra, perde-se de si próprio ou
consegue manter uma distância em relação ao instrumento?
R. – Nunca perco essa distância. Posso até ficar
aborrecido ao ponto de não conseguir fazer nada. Mas há também um à-vontade,
uma capacidade de ir inventando coisas.
P. – Referiu uma vez a necessidade de se criar em
Portugal uma escola de guitarra...
R. – Sabe, é necessário fazer um método do
instrumento, estudá-lo profundamente, ter lições e tirar delas o máximo
proveito.
P. – Não se dará o caso de a guitarra portuguesa valer
o que vale o seu intérprete, sendo necessário o seu completo domínio de maneira
a conseguir uma linguagem personalizada?
R. – O que é preciso é um estudo profundo da técnica
do instrumento, de maneira a melhorar a qualidade de som...
P. – Uma mera questão técnica?
R. – É evidente que da minha parte tem de haver uma
certa predisposição para sentir que posso inventar música.
P. – Tem-se de si a imagem de uma pessoa demasiado
modesta, como se não tivesse, ou não quisesse ter, consciência do seu real
valor...
R. – Sabe, é perigoso. A guitarra é um instrumento tão
pouco evoluído e desenvolvido que muitos problemas musicais passam pela
guitarra sem que ela dê sequer por eles. Ignora-os, pura e simplesmente. Quer
dizer, estar a participar nos anúncios e elogios que muita gente por bondade me
faz...
P. – Acha que é só por
bondade? Não acredita que as pessoas se interessem e apreciem verdadeiramente a
sua música?
R. – Bondade, porque elas se interessam pelo
instrumento.
P. – Quer dizer que não se interessam pelo músico,
pelo Carlos Paredes em si?
R. – Eu pouco posso dar, sabe. Tenho consciência do
pouco que posso dar nesse aspeto.
P. – É difícil acreditar, quando ainda há pouco pegou
na guitarra, durante escassos segundos, e logo se juntou espontaneamente um
grupo de pessoas para o ouvir tocar.
R. – Pessoas que possivelmente viveram um período que
eu também vivi...
P. – Não, a maior parte eram jovens.
R. – Eram jovens? É engraçado... Isso lembra-me os “Verdes
Anos”, do Paulo Rocha, aquilo a que as pessoas na altura chamavam o "novo
cinema português". Os argumentos já não eram apenas histórias de
namoricos, eram histórias do dia-a-dia, da vida real. O argumento dos “Verdes
Anos” foi extraído de uma notícia do jornal que contava o caso de um jovem que
se apaixonou por uma rapariga e, a certa altura, teve um acesso e acabou por
matá-la. É claro que isto parece una daquelas histórias tremendas, mas não,
tratada de determinada maneira era apenas uma história das muitas que a vida
tem.
P. – Quando se fala dos “Verdes
Anos”, as pessoas lembram-se logo do tema que compôs para a banda sonora. Como
se tivessem sido tocadas no mais fundo de si próprias. Como se houvesse algo de
muito profundo e português nesses sons...
R. – No caso de um filme, há muitas maneiras de
acompanhar musicalmente uma história. Muitas maneiras de focar a dor e o
sofrimento, a angústia. Pode não ser aquilo que existe em certo tipo de
cantigas ou de fados, em que essa angústia é um bocado forçada. De lágrima ao
canto do olho.
P. – A sua música reflete essa angústia?
R. – Eu desejaria que não refletisse. Se há nela uma
angústia, é uma angústia muito especial.
P. – Que tipo de angústia?
R. – Nunca poderá ser uma angústia torturada, uma
angústia que obriga permanentemente a chorar. Há certo tipo de canções antigas
e urbanas, acompanhadas à guitarra, em que o seu gemido característico era
aproveitado para pôr as cordas a chorar. Um choro mecânico, físico. O gemido da
guitarra podia considerar-se o gemido da voz. Eu não gosto muito disso. Acho
que o sofrimento há-de ter uns tons poéticos.
P. – Mas existe, de facto, na sua música um sentimento
de tristeza.
R. – Uma tristeza equilibrada. Uma tristeza de alguém
que vive uma determinada forma devida e que não força...
P. – Será o fado, essa "estranha forma de
vida"?
R. – Posso dar um exemplo. Suponhamos que o meu amigo
tem conhecimento de um caso em que a pessoa é torturada e tem tendência para
chorar, para desesperar. Em vez de se focar o aspeto do desespero, é possível
comover sem fazer chorar. Nos “Verdes Anos”, aquilo tudo não era acompanhado de
lágrimas forçadas, e nem por isso deixava de haver comoção.
P. – Que relação a sua música mantém com o tema da
"saudade"?
R. – A saudade pode ser uma outra maneira de forçar a
angústia. Mas um certo tipo de saudade pode não ser necessariamente uma dor
torturada.
P. – Essa "fuga" constante ao sofrimento, à
angústia, terá alguma relação com a sua recusa de associar a guitarra apenas ao
fado?
R. – Aquilo que no fado popular, sobretudo em Lisboa,
era caracterizado pelo chamado "fado da desgraçadinha". Dir-se-ia que
os fadistas andavam à procura de histórias tristes para fazer as canções, o
chamado "fado sentido". Essas histórias eram muitas vezes selecionadas
de acordo com aquilo que eram capazes de provocar nas pessoas: mais tristeza,
mais angústia. Acho que nunca me servi disso. Prefiro abordar o sofrimento e os
aspetos tristes da vida que nos dominam na intimidade e que não têm necessidade
de ser exibidos.
P. – Tem muito que ver com a sua maneira de ser, de
introspeção constante...
R. – Sim, uma introspeção que é possível encontrar em
muita literatura portuguesa.
P. – Já que se fala de fado, vem à baila a velha
questão: por que razão sempre se recusou a tocar com Amália Rodrigues?
R. – Eu não sei acompanhar a Amália.
P. – Como pode afirmar isso se nunca
tentou?
R. – Não é preciso tentar. Tocar com a Amália exige
uma certa escola, um certo conhecimento na forma de a acompanhar. Eu seria um
mau acompanhante dela.
P. – Já arriscou com outros músicos, o Charlie Haden
ou o Paco de Lucía, por exemplo...
R. – Ah, mas são outros géneros de música.
P. – Claro que são outros géneros de música. A questão
que lhe estou a pôr é sobre a recusa em assumir um risco particular, de
acompanhar a Amália...
R. – O Charlie Haden é um homem do jazz, do
contrabaixo, e fez-me umas propostas interessantes. Eu limitava-me a introduzir
também a guitarra, improvisando. Se eu hoje quisesse acompanhar a Amália não
conseguia. Os guitarristas que a acompanham são especialistas que, à sua
maneira, criam coisas novas. Eu já não seria uma pessoa para isso. O mais certo
era ter de desistir logo. É como se tocássemos instrumentos diferentes.
P. – Entrámos num outro tema, da improvisação, sempre
presente na sua música. Até que ponto essa improvisação se estendeu à sua
carreira, senão mesmo à sua vida?
R. – A improvisação vive connosco. Há certos
acontecimentos da nossa vida que nos obrigam a encontrar uma solução rápida.
Muitas vezes isso acontece com o improviso. Há quem diga que o português é
mestre da improvisação. O que muitas vezes procuro é uma solução ocasional,
rápida, servindo-me dos elementos que tenho à mão. Se não houvesse um certo
grau de improvisação, teríamos dificuldade em nos adaptarmos aos acontecimentos,
ao inesperado.
P. – Voltemos à Amália Rodrigues, que fez carreira, em
Portugal e no estrangeiro. O Carlos Paredes não lhe fica atrás em qualidade
artística, mas nunca alcançou o mesmo tipo de projeção. No seu caso, o que é
que faltou, se é que sentiu ter faltado alguma coisa?
R. – Pois, a Amália impõe-se pelo género que canta,
muito ligado ao fado tradicional, ao sofrimento que se exprime fisicamente. Não
queria dizer "fácil"... Como se costuma dizer: viver os
acontecimentos ao canto do olho... É preciso falar da vida sem cair no exagero,
sem chorar.
P. – Acha que a Amália cai no exagero?
R. – Não cai no exagero, pois não. Eu diria que o caso
da Amália é completamente inimitável.
P. – Mas acabou por não responder à pergunta anterior,
sobre a planificação da sua carreira, por não existir...
R. – Pois não. Eu e a Amália temos culturas e origens
diferentes.
P. – Vamos pôr a Amália de lado. Nunca se preocupou
com os aspetos práticos da sua carreira? Ou com a necessidade de uma aceitação
a uma escala maior?
R. – As pessoas aceitam-me conforme me ouvem.
P. – Mas primeiro têm de saber que a sua música
existe, de a conhecer...
R. – Nunca fiz muito esforço nesse sentido. As pessoas
que apreciam, que gostam de me ouvir tocar guitarra ouvem, a coisa agrada-lhes
e eles aderem. Não há mais nada.
P. – Uma atitude semelhante ao que acontecia na antiga
música de salão, tocada para um número restrito de pessoas...
R. – ... Entre amigos, sim.
P. – É assim que se sente mais à vontade a tocar?
R. – Exatamente. Em família, na intimidade.
Acompanhando o tocar de uma conversa em que falamos de nós, dos amigos, dos
acontecimentos da vida diária.
P. – E no entanto prepara-se para tocar em grandes
espetáculos, com encenação e músicos convidados...
R. – Quem organizou este espetáculo foi um empresário
[António Pinho] que estudou a fundo as coisas, entrou em contacto com as
pessoas, etc. Mas penso que vai ser tudo numa escala reduzida. Uma forma
modesta de ver as coisas. Um bailarino, por exemplo, pode exibir-se com um
grande grupo, num grande palco, mas pode também fazer pequenos apontamentos
musicais, menos complicados. É isso que eu faço.
P. – Que reportório tocará nesses espetáculos?
R. – Vou tocar coisas antigas, incluindo duas peças de
há 20 anos, do período em que ainda tinha desejo de ser virtuoso e em que
utilizava desenhos tecnicamente difíceis. Tocarei, é claro, outros temas mais
recentes e mais simples. Abandonei os malabarismos para me dedicar à verdade
melódica da guitarra.
P. – E em conjunto com os artistas convidados?
R. – A Natália Casanova vai cantar uma canção do José
Afonso, “Cantiga de Maio”. Vou tocar o começo de “Porto Santo” e depois
deixarei o desenvolvimento ao (Mário) Laginha, que improvisará à sua vontade.
Com o Rui Veloso vai ser um bocado mais difícil. É um músico com uma técnica
muito pessoal e não se pode levianamente pegar nas canções e fazer
improvisações de acompanhamento.
P. – Há quem diga que
certos partidos políticos, em determinadas ocasiões, se terão aproveitado da
sua maneira de ser, convidando-o para participar em iniciativas sem um mínimo
de condições nem contrapartidas. Concorda?
R. – Não. Nunca houve da parte de ninguém a intenção
de se aproveitar de mim, e até o podiam fazer, não é?
P. – Mas nunca diz "não" a ninguém?
R. – Repare, as pessoas convidavam-me para participar
em espetáculos e o espírito que eu levava era um espírito de alguém que gosta
de tocar, de ouvir a opinião das pessoas, que pode tocar até para quem está a
tomar um café e a conversar.
P. – Isso é o seu ponto de vista. Alguma vez se
preocupou com as razões da outra parte?
R. – Então vou-lhe ser franco. Participei em muitas
coisas simplesmente levado pelos meus sentimentos de solidariedade. Como outros
também participavam.
P. – Mas acha bem que um músico da sua estatura
continue a trabalhar como funcionário de um hospital, em vez de se dedicar por
inteiro à sua música?
R. – Bem, isso é o que muita gente pode pensar. Que um
indivíduo que até faz determinada música se deve especializar, até de um ponto
de vista profissional. Mas, infelizmente, não foi possível fazê-lo. Por
exemplo, o meu pai (Artur Paredes) era um amador e tinha o seu emprego. As
pessoas nessa época não dependiam da música, no entanto faziam música porque
isso lhes dava um prazer pessoal.
P. – Hoje, apesar de tudo, é possível viver em
Portugal só da música. Pensou alguma vez nessa possibilidade?
R. – Havia de facto músicos que eram convidados, e
havia uma certa retribuição em dinheiro para lhes facilitar a vida. Quer dizer,
começavam a ganhar dinheiro suficiente para viver. Mas não foi isso que me
sucedeu, ou sucedeu só de vez em quando. Houve, em determinada altura, a Cantar
Abril, uma organização semiprofissional em que se passou a fazer contratos.
Evidentemente, o dinheiro que se ganhava até dava, por vezes, para resolver
problemas económicos. Mas nunca fui muito de receber essa retribuição.
P. – Um amador puro.
R. – Sim, porque se não fosse um amador ninguém me
suportava a tocar guitarra.
P. – Acredita de verdade no que está a dizer? Parece
ter sempre uma opinião negativa de si próprio e da sua música...
R. – Não, não suportavam... Começavam a sentir a falta
daquele espírito amador que faz com que numa plateia se ouça um guitarrista
como eu de forma diferente, por exemplo, dade um profissional como o Segóvia.
P. – Houve alguma alteração na sua carreira a partir
do 25 de Abril?
R. – Não sei como é que os artistas resolvem os seus
problemas, se porventura têm a possibilidade de ganhar um tanto por cada
recital. E possível que isso lhes dê uma quantia apreciável que lhes permita
resolver muitas coisas. Conheço, por exemplo, o caso de um cantor ligeiro que a
determinada altura disse: "Preciso de comprar um andar." E comprou.
P. – Mas, no seu caso pessoal, sentiu alguma modificação?
R. – Não. Nunca procurei resolver problemas por esse
sistema. Toco guitarra. As pessoas gostam de ouvir. Juntamo-nos. Tocamos. E
assim vamos vivendo.
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